Planeta dos Macacos (2001)


O cinema de ficção científica é responsável por algumas das maiores bilheterias de todos os tempos, com seus filmes sempre liderando o topo das produções mais assistidas e rentáveis em termos financeiros. São desse fascinante gênero artístico as maiores séries e sagas da história com um número infindável e cada vez mais crescente de fãs espalhados pelo mundo inteiro, como pode-se comprovar pela popularidade das marcas ou franquias de “Guerra nas Estrelas” (Star Wars) e “Jornada nas Estrelas” (Star Trek).
Além dessas super potências do cinema fantástico de entretenimento, destaca-se também a famosa saga “Ape” iniciada em 1968 por “O Planeta dos Macacos” (Planet of the Apes), dirigido por Franklin J. Schaffner e estrelado por Charlton Heston, Kim Hunter e Roddy McDowall, e que teve mais quatro continuações nas telas grandes além de duas séries de TV (uma em desenho animado) e um vasto universo de quadrinhos e “merchandise” de todos os tipos, entre brinquedos, camisas, máscaras, bonecos, discos, revistas, livros e uma infinidade de artefatos de “memorabilia”.
“O Planeta dos Macacos” firmou-se como um dos principais clássicos da ficção científica mundial e foi um dos precursores da fórmula muito conhecida atualmente de criar inúmeras sequências para a história original. A partir do final dos anos 70 do século passado isso tornou-se muito comum, principalmente nos filmes de horror, como pode-se notar em enormes cinesséries como “Sexta-Feira 13” (dez filmes), “A Hora do Pesadelo” (sete capítulos) ou “Halloween” (oito partes), citando alguns poucos exemplos.
Após o sucesso do original de 1968, “O Planeta dos Macacos” gerou outras sequências nos anos imediatamente seguintes, com “De Volta ao Planeta dos Macacos” (Beneath the Planet of the Apes, 70), “A Fuga do Planeta dos Macacos” (Escape From the Planet of the Apes, 71), “A Conquista do Planeta dos Macacos” (Conquest of the Planet of the Apes, 72) e “A Batalha no Planeta dos Macacos” (Battle for the Planet of the Apes, 73). Além de uma série para a televisão com 14 episódios de 48 minutos cada, exibida em 1974, e um desenho animado com 14 capítulos de 28 minutos, que foi ao ar na mesma época. Tudo isso comprova e reforça a impressionante força comercial que a marca exerceu e ainda exerce sobre o público ao longo das últimas três décadas.
Devido justamente a esse grande fascínio junto aos fãs ao redor do mundo, estava sendo aguardado com muita ansiedade um novo filme da saga, algo que trouxesse novamente à tona os personagens e todo o universo ficcional de “O Planeta dos Macacos”. Após uma longa espera de trinta e três anos, finalmente estreou nos cinemas americanos em 27 de julho de 2001 o tão esperado “remake” de “Planeta dos Macacos” (Planet of the Apes), entrando em cartaz no Brasil uma semana depois, em 3 de agosto.
Dessa vez, o novo filme tem a direção do competente Tim Burton (responsável pelo ótimo “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, 99), que trouxe os “apes” de volta numa super produção que na verdade não é uma refilmagem ou sequência do original dos anos 60, e sim uma variação do mesmo argumento utilizado nesse primeiro filme da série, com interessantes diferenças e alternativas ficcionais, levando o público a refletir e viajar por novos horizontes, passando pelo clima sempre sombrio que é a marca característica do diretor.
Na nova versão de “Planeta dos Macacos” , Leo Davidson (Mark Wahlberg) é um astronauta americano em missão numa bela estação espacial chamada Oberon no ano de 2029. De forma insubordinada, ele parte para investigar os efeitos de uma estranha tempestade eletromagnética a bordo de uma pequena nave (mais parecida com um moderno helicóptero) e também para procurar seu chimpanzé de estimação que havia se perdido nessa mesma tempestade. Os macacos eram treinados para pilotar pequenas cápsulas espaciais de reconhecimento para não expor os humanos em perigo no desconhecido e o chimpanzé Péricles acaba sendo tragado por uma fenda temporal no espaço. Ao ir em direção à tempestade, o astronauta se perde também sendo sugado para seu interior e acaba aterrissando num planeta selvagem dominado por macacos ferozes e inteligentes.
Nesse mundo alternativo, diferentes classes de macacos são os seres dominantes enquanto os humanos são escravizados e tratados como criaturas inferiores, sujas e animais selvagens, invertendo a ordem social que conhecemos. Davidson primeiramente entra em contato com um grupo de humanos fugindo de uma caçada feita pelos macacos, formado pelo veterano Karubi (Kris Kristofferson) e sua bela filha Daena (Estella Warren). Uma vez sendo atacado por macacos caçadores e falantes e não entendendo nada, o astronauta e dezenas de outros humanos são capturados e vendidos a um comerciante (interpretado pelo divertido Paul Giamatti), que revende o grupo a uma chimpanzé simpatizante dos humanos, Ari (Helena Bonham Carter), filha de um poderoso senador e defensora dos direitos iguais entre os macacos e os humanos.
O grupo consegue escapar da cidade dos macacos auxiliado por Ari e um veterano ex-militar do exército símio, deposto desonestamente pelo temível General Thade (Tim Roth), um chimpanzé que odeia os humanos e defende violentamente o seu extermínio do planeta. Eles passam a ser perseguidos pelo exército símio liderado por Thade, muito respeitado por suas ações de guerra e seu escudeiro, o forte gorila Attar (Michael Clarke Duncan), ambos violentos guerreiros e ao mesmo tempo fiéis seguidores de seu Deus Semos, que segundo as escrituras foi o primeiro macaco de seu mundo.
A fuga leva o grupo de humanos para a temida “Zona Proibida”, um local escondido entre montanhas desérticas e que revela um amontoado de escombros e ruínas chamadas de CALIMA. Na verdade, descobre-se mais tarde que trata-se dos restos da estação espacial Oberon que ao procurar o astronauta perdido na tempestade eletromagnética, acabou também sendo tragada pela fenda espaço-temporal e caiu no planeta selvagem. E CALIMA, nome dado pelos macacos aos escombros, nada mais era que a junção das palavras CAUTION LIVE ANIMALS, inscrição da estação espacial semi apagada pelo tempo e que informava aos tripulantes uma atenção especial à área de treinamento dos macacos pilotos.
Posteriormente, ainda com a existência de energia na estação e vendo fitas gravadas, descobre-se que ao cair no planeta, a Oberon ficou sem comunicação externa e os macacos treinados, liderados por um de maior inteligência chamado Semos, passaram a se rebelarem e atacaram todos, passando a ser os habitantes dominantes na evolução do planeta, culminando na sociedade símia existente e nas escrituras religiosas que falavam do Deus Semos.
O astronauta Davidson, como o homem que veio das estrelas e que desafiou a superioridade dos macacos, acabou sendo o escolhido pelas diversas tribos de humanos para liderar uma revolta contra a tirania dos macacos. Ele representava o ideal da raça humana em busca de liberdade. Para enfrentá-los, estava a caminho todo um exército de ferozes gorilas soldados liderados pelo tirano General Thade e pelo gigante Attar, culminado numa batalha violenta pelo domínio do planeta.
Nesse momento, onde a força superior dos macacos é incontestável e a vitória sobre os humanos evidente, surge dos céus numa abertura da fenda temporal, a nave trazendo o chimpanzé Péricles, perdido na tempestade eletromagnética, e que é recebido como o Deus Semos pelos macacos guerreiros, paralisando as lutas. Porém, o General Thade, orientado anteriormente pelo pai no leito de morte (interpretado por Charlton Heston do original de 68), sobre a ameaça dos humanos de outro mundo, com seu egoísmo, irracionalidade e poder auto destrutivo, se rebela e parte para um confronto final com o astronauta Davidson.
O final, a exemplo do primeiro filme da série, é também no estilo “surpresa”.
Em 1968, o personagem vivido por Heston, o astronauta George Taylor, consegue escapar da tirania dos macacos e fugindo pela orla de uma praia da “Zona Proibida”, se defronta com as ruínas da famosa “Estátua da Liberdade” americana, descobrindo estar na realidade num futuro distante do próprio planeta Terra, destruído pela raça humana numa guerra nuclear. Sem dúvida, uma dos mais impressionantes, marcantes e inesquecíveis cenas do cinema de todos os tempos.
No novo filme “Ape”, Tim Burton também colocou seu final inesperado tumultuando de forma interessante e atrativa mais ainda as várias variações e alternativas desse fantástico universo ficcional de “Planeta dos Macacos”.
Ansiosamente aguardado por muitos anos pelos fãs mais ardorosos da saga, como eu, “Planeta dos Macacos” (versão 2001) trouxe realmente algumas visões alternativas interessantes para a história já conhecida por nós desde os anos 70 do século passado, e certamente está contribuindo muito para o fortalecimento ainda maior desse fenômeno cinematográfico que é a saga “Ape”.
Tim Burton é um excelente cineasta, muito admirado pelos fãs, cujo talento foi responsável por pérolas do cinema fantástico moderno como “Edward Mãos de Tesoura” (90), “Ed Wood” (94), “O Estranho Mundo de Jack” e “Marte Ataca!” (ambos de 96) e “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” (99), entre outras obras primas. Ele, com sua visão gótica de um mundo obscuro, criou sua própria variação para o eterno conflito entre homens e macacos, que estão sempre invertendo suas posições de dominante e dominado a todo momento durante a saga.
Diretor americano nascido na California, ele conseguiu trabalhar em grandes e poderosos estúdios de cinema sem com isso ter que se submeter às imposições comerciais normais dos executivos do entretenimento. Ele é possuidor de um estilo próprio e inconfundível, acentuado pelo clima sombrio e gótico que imprime em suas obras, explorando o bizarro e o macabro em diferentes situações e temas, num exercício de imaginação incomum e fora dos padrões. Não é para menos que, em sua adolescência, Burton preferia ler livros de Edgar Allan Poe, assistir os nostálgicos filmes “B” de monstros na televisão e desenhar figuras góticas e sombrias, ao invés de levar uma vidinha comum e óbvia dos seus colegas da mesma idade.
Tanto que sua experiência profissional no mega estúdio Disney como desenhista foi um fracasso, pois ele não conseguia desenhar aqueles bichinhos comuns bonitinhos e infantis, e teve que sair rapidamente para expandir sua criação artística. A partir daí, passou a dirigir pequenos trabalhos até ser “descoberto” definitivamente com a comédia de humor negro “Os Fantasmas se Divertem” (Beetlejuice, 88) e logo depois com “Batman” (89), em sua visão gótica do famoso homem morcego dos quadrinhos.
Após o anúncio de Tim Burton para a direção do novo “Planeta dos Macacos” (outros diretores foram sondados na época), os fãs sentiram-se mais aliviados por saber que o projeto estaria em boas mãos, e que acrescentaria outras qualidades para a já consagrada saga símia, o que felizmente se concretizou na realidade.
Porém, ao seu lado, auxiliando na garantia de sucesso do projeto, estão os efeitos especiais a cargo da famosa ILM (Industrial Light and Magic) e o maquiador Rick Baker, um dos melhores profissionais dessa área no mundo cinematográfico atual. Baker é o responsável por premiados trabalhos com o cobiçado Oscar em “Um Lobisomem Americano em Londres” (81) e mais recentemente com “Homens de Preto” (97) e “O Grinch” (2000). Ele especializou-se em filmes fantásticos contribuindo significativamente para a realidade dos diversos monstros do cinema.
Curiosamente, ele assinou o trabalho de maquiagem de um obscuro e super interessante filme “B” de 1978, “O Incrível Homem que Derreteu”, uma verdadeira pérola rara de baixo orçamento que fala de um astronauta que ao retornar de uma missão espacial, traz um vírus alienígena que o faz derreter literalmente, de forma crescente e vagarosa, transformando-o num psicopata monstruoso. Os efeitos são excelentes já mostrando a competência profissional de Rick Baker em início de carreira.
Outra curiosidade é o fato do próprio Baker ter uma pequena participação em “Planeta dos Macacos”, na pele de um idoso macaco, uma ponta que certamente foi uma homenagem ao maquiador.
A concepção da complexa maquiagem dos vários tipos de macacos, entre chimpanzés, orangotangos e gorilas, é impressionante tornando os atores humanos em verdadeiros e reais animais símios, em sessões demoradas e cansativas na preparação das máscaras. O trabalho de Baker foi fundamental para a seriedade dos personagens “apes”, garantindo liberdade para a atuação com as diferentes expressões faciais, mantendo o mesmo nível (cada um em seu tempo) do também excelente trabalho de John Chambers que foi o responsável pela maquiagem dos “apes” dos anos 70.
O elenco principal é formado pelos atores Mark Wahlberg, Tim Roth, Helena Bonham Carter, Michael Clarke Duncan, Estella Warren e Kris Kristofferson.
Wahlberg é a astronauta Leo Davidson, homem rebelde e cansado da burocracia militar, que acidentalmente é enviado pelas estrelas chegando a um planeta selvagem dominado por macacos inteligentes, tornando-se rapidamente o líder de uma revolta humana por liberdade. Entre seus principais filmes estão “O Medo” (96), “Boogie Nights” (97), “Três Reis” (99) e “Mar em Fúria” (2000).
Roth é o malévolo e violento General Thade, chimpanzé temido por sua agressividade em batalhas e líder tirano de um exército pronto para exterminar a raça humana do planeta dos macacos. Ator inglês de Londres, entre seus principais filmes estão dois trabalhos com o talentoso diretor Quentin Tarantino, “Cães de Aluguel” (92) e “Pulp Fiction” (94).
Carter é a chimpanzé aristocrática Ari, simpatizante e defensora dos direitos da raça humana, que acredita num planeta habitado pacificamente por homens e macacos. Atriz inglesa de Londres, seus principais filmes incluem “Frankenstein” (94), de Kenneth Branagh e “Clube da Luta” (99), com Brad Pitt.
Duncan é o forte soldado gorila Attar, representante do primitivismo símio em suas ações pautadas apenas pela disciplina militar num típico “nascido para matar”. Dono de alta patente no exército dos macacos, abaixo apenas do General Thade, Attar é temido por sua truculência em combate e respeitado por sua imponente fé em Semos, o Deus símio. Seu principal filme foi o horror “À Espera de Um Milagre” (99), com o premiado Tom Hanks, em história baseada em livro de Stephen King.
Warren é Daena, uma bela e jovem mulher à procura de liberdade para si e sua família, sonhando com um mundo livre e sem a opressão dos macacos. Com a chegada do astronauta Davidson, veio também a inspiração para lutar por seus ideais. Atriz canadense
de Ontario, foi campeã de natação e nado sincronizado em seu país, e seus principais filmes incluem “Alta Velocidade” e “Perfume” (ambos de 2001).
Kristofferson é o veterano Karubi, pai de Daena, que também é um velho guerreiro pela liberdade e um dos primeiros humanos a entrarem em contato com o astronauta Davidson em sua chegada ao planeta dos macacos. Sua coragem e bravura foram provados ao se sacrificar para o sucesso da fuga do grupo de humanos que iriam liderar a revolta contra o poder dominante símio. Ator veterano, entre sua filmografia fazem parte “Nasce uma Estrela” (76), “Cowboy” (78) e mais recentemente os dois filmes da série “Blade – O Caçador de Vampiros” (1998 e 2002), com Wesley Snipes.
Numa forma clara de homenagem, dois atores que participaram do filme original de 1968, o talentoso e premiado Charlton Heston e Linda Harrison, tiveram atuações nessa nova versão de “Planeta dos Macacos”. Harrison foi Nova no original, uma bela humana muda que foge com o astronauta George Taylor para a Zona Proibida à procura de explicações para suas dúvidas. No novo filme, ela aparece super rapidamente como uma humana capturada numa caçada e que é transportada numa carroça. A carreira de Linda Harrison não decolou tornando-se uma atriz praticamente esquecida pelos grandes estúdios e quase que somente lembrada pelos fãs “apes”. Já Heston, ator de grande prestígio em sua premiada carreira, interpretou o “homem que veio das estrelas” Taylor no original, num personagem marcante para toda a saga. Ele foi merecidamente homenageado por Tim Burton fazendo um pequeno mas memorável e principalmente nostálgico papel de um chimpanzé à beira da morte, nada menos que o pai do tirano General Thade, que orienta seu filho nos últimos momentos de vida, alertando-o do real perigo e da ameaça humana para o futuro da sociedade símia por causa da chegada do astronauta Davidson ao planeta dos macacos. Ele revela um segredo à Thade e o entrega uma mini-metralhadora humana que guardava secretamente, fruto de experiências vividas no passado em situação semelhante, e que informa ao filho a capacidade militar e destrutiva da humanidade.
Um detalhe super curioso nesse diálogo são as últimas palavras do velho personagem moribundo de Heston ao seu filho, utilizando frases muito similares que seu personagem George Taylor disse no final impressionante do original de 1968, quando deparou-se surpreso com as ruínas da “Estátua da Liberdade”, esclarecendo a verdade do planeta em que estava, a própria Terra destruída pela raça humana numa guerra nuclear. “Malditos sejam! Que sejam todos condenados ao inferno!” foram suas últimas palavras ao General Thade, se referindo aos humanos, raça auto-destrutiva e ameaçadora. Heston certamente mereceu essa homenagem.
Aliás, Tim Burton frequentemente homenageia os grandes astros em seus filmes. Em “Edward Mãos de Tesoura” (90), o imortal ator Vincent Price interpreta um excêntrico cientista que cria o personagem título do filme. Foi uma bela homenagem a um dos maiores atores de horror de todos os tempos, que faleceu pouco tempo depois, em 1991.
Em “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” (99) foi um show de homenagens a dois grandes atores do passado, Christopher Lee e Martin Landau. Ambos tiveram papéis muito rápidos, porém inesquecíveis para os fãs. Landau (mais conhecido pela série de TV “Espaço 1999”) morreu logo no início sendo decapitado pelo “cavaleiro sem cabeça”, e Lee, o eterno Drácula do cinema, principalmente por suas atuações nas produções inglesas da Hammer e Amicus dos anos 50, 60 e 70, fez o rápido papel de um juiz num tribunal. Justas homenagens para dois grandes nomes do cinema fantástico.
Esse “remake” de “Planeta dos Macacos” traz algumas diferenças significativas em relação ao que já se conhece da saga “Ape” através dos filmes para cinema e televisão, e quadrinhos.
Os macacos dos anos 70 eram mais pacíficos e até parecidos com os humanos em suas atitudes. Existiam os chimpanzés que representavam os cientistas e estudiosos da classe social, e que defendiam a procura da verdade e da paz. Tinham os orangotangos que possuíam os cargos mais importantes na sociedade, ocupando a política e as altas patentes culturais, porém eram macacos que escondiam a verdade preferindo viver na mentira e ilusão para seus cidadãos. Isso fica claro na atuação de três autoridades símias no julgamento do astronauta Taylor, não querendo ouvir, ver e falar com o acusado, representando aquela famosa simbologia dos macacos com as mãos nos ouvidos, olhos e bocas, se escondendo da verdade. E tinham os gorilas, animais ferozes e primitivos, treinados para os combates em guerras, e para os quais a solução de todos os problemas estava na ação da violência.
Já os macacos da versão de 2001 são extremamente mais ágeis e ferozes, mais parecidos com a realidade desses animais, que apesar de serem mais inteligentes que os outros, nunca deixaram de ser selvagens. O filme de Burton traz macacos super violentos e assustadores, que rosnam o tempo todo de forma ameaçadora, e que saltam e correm com uma agilidade impressionante, fazendo os macacos dos anos 70 parecerem bichinhos de estimação em relação ao comportamento de seus colegas modernos. Assim como, a postura dos novos macacos também é bem mais semelhante à realidade, onde os atores tiveram um forte treinamento sobre a forma de caminhar dos símios e suas atitudes características.
A cena do beijo entre o astronauta Taylor e a chimpanzé cientista Dra. Zira (interpretada por Kim Hunter, atriz falecida em setembro de 2002) no original de 1968, quando ele se despedia dela rumo à Zona Proibida, também foi repetida de forma similar no novo filme de 2001, onde o herói Davidson dá um discreto beijo na chimpanzé Ari, enquanto se despedia para voltar novamente ao espaço e tentar retornar ao seu mundo e tempo. Boatos gerados na internet relatam que originalmente estava prevista uma cena de sexo entre eles, e que fora retirada na edição final por decisão dos executivos do estúdio, visando os possíveis prejuízos financeiros com a censura para menores de idade, porém essas informações foram desmentidas depois pelo próprio diretor Tim Burton e pelo produtor Richard Darryl Zanuck, nas diversas entrevistas que concederam para os meios de comunicação.
Um fato curioso foi a reação de indignação de um gorila que acompanhava o grupo de humanos fugitivos quando era chamado de “monkey” pelo astronauta Davidson. Para o primata, ele deveria ser chamado de “ape”, que era uma classe mais superior e acima dos primitivos “monkeys”, que por sua vez estavam acima dos “humanos”. Ficou claro a existência do orgulho racial até entre os macacos. Para o argumento existe uma diferença entre ambas as palavras, mas para nós brasileiros, a tradução delas significa o mesmo: macaco.
Existia uma certa desconfiança para os fãs que o “remake” de “Planeta dos Macacos” pudesse estragar ou pelo menos tirar um pouco o brilho da famosa série “Ape”, principalmente depois do fracasso com a bomba da refilmagem de “Perdidos no Espaço” (Lost in Space, 1998), baseada na antiga série de TV dos anos 60, criada pelo genial Irwin Allen. O novo filme acabou com os personagens e a magia nostálgica das despretenciosas histórias da família Robinson, que em missão espacial à bordo da nave Júpiter 2 em direção de Alpha Centauri, perde-se no espaço após uma sabotagem militar no curso de navegação. O divertido e atrapalhado Dr. Smith, o memorável robô e todos os outros personagens eram inesquecíveis para quem acompanhou a série na televisão durante os anos 70. A refilmagem introduziu música eletrônica na trilha sonora (que ficou ridícula), e estragou os personagens principalmente do Dr. Smith e da jovem Penny, que mais parecia uma ridícula gótica acéfala, além do robô altamente tecnológico e sem nenhum charme.
Mas felizmente esse novo “Planeta dos Macacos” é um dos melhores filmes de ficção científica dos últimos anos. Tem Tim Burton, Rick Baker e muitos macacos, perpetuando com honra a já consagrada saga “Ape”, como confirmaram as enormes bilheterias no mundo inteiro, e impulsionando novamente todo um mercado em volta desse fascinante tema.

Nota: O filme foi exibido pela primeira vez na televisão aberta em 02/08/04, pela TV Globo, na sessão “Tela Quente”.

“Planeta dos Macacos” (Planet of the Apes, 2001) – avaliação: 8 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com / blog: www.juvenatrix.blogspot.com (postado em 09/12/05)

Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, Estados Unidos, 2001). 20th Century Fox / The Zanuck Company. Duração: 100 minutos. Direção de Tim Burton. Produção de Ralph Winter e Richard Darryl Zanuck. Roteiro de William Broyles Jr., Lawrence Konner, Mark Rosenthal e Charles Wicker, baseado em livro do francês Pierre Boulle. Fotografia de Phillippe Rousselot. Música de Danny Elfman. Edição de Chris Lebenzon. Efeitos Especiais de Ken Pepiot. Som de Petur Hliddal. Direção de Elenco de Denise Chamian. Desenho de Produção de Rick Heinrichs. Direção de Arte de John Dexter. Decoração de Cenários de Rosemary Brandenburg. Figurinos de Colleen Atwood. Assistência de Direção de Andy Armstrong e Katterli Frauenfelder. Maquiagem de Rick Baker, Brigitte Bugayong, Gabriel De Cunto, Toni G, Teressa Hill, Jamie Kelman, Patricia Miller, Denise Paulson, Alex Proctor e Robin Slater. Elenco: Mark Whalberg, Tim Roth, Helena Bonham Carter, Michael Clarke Duncan, Kris Kristofferson, Estella Warren, Paul Giamatti, Cary-Hiroyuki Tagawa, Erick Avari, Luke Eberl, Evan Dexter Parke, Freda Foh Shen, David Warner, Glenn Shadix, Lisa Marie, Charlton Heston, Rick Baker, Emmy Collins, Linda Harrison, Eric Lichtenberg, Anne Ramsay.