O Pesadelo (2005)


É extremamente lamentável que nós, apreciadores do cinema de horror, tenhamos que ser testemunhas de uma infinidade de filmes descartáveis produzidos nesses últimos tempos, que são despejados sem critério de avaliação nas salas de exibição em tela grande e que contribuem significativamente para desgastar a imagem oponente de um gênero fascinante, construída por filmes memoráveis e perturbadores que parecem não existir mais.
O Pesadelo” (Boogeyman), que estreou no Brasil em 21/04/05, dirigido por Stephen T. Kay, é mais um exemplo negativo do horror atual, que já começa pelo título nacional ridículo (e nesse caso a culpa é apenas dos brasileiros responsáveis pela escolha dos nomes dos filmes que chegam por aqui). Tem gente que acha que um filme de horror tem que obrigatoriamente ter um nome apelativo utilizando palavras que por si só já são um clichê irritante como “pânico”, “pesadelo”, “grito”, “horror”, etc. É só listar a imensa quantidade de filmes que receberam seus nomes nacionais contendo essas palavras. O filme em questão poderia ter seu título na distribuição brasileira reproduzido do original, “Boogeyman”, que até soaria bem em nosso idioma, ou então uma tradução adaptada para “Bicho Papão”, que é o nome da suposta criatura sobrenatural que habita os armários ou se esconde embaixo das camas, apenas aguardando à espreita a melhor oportunidade para atacar suas vítimas indefesas.

A história é bastante simples, tratando do tema de um mito popular, a lenda do “Bicho Papão”, e não são necessárias mais que algumas linhas para a sinopse. Um jovem, Tim Jensen (Barry Watson), que tem um trauma por causa do desaparecimento misterioso do pai (Charles Mesure) quando ele ainda era criança e vivia numa casa de estilo gótico e aspecto fantasmagórico numa pequena cidade do interior dos Estados Unidos, tem que enfrentar novamente seus medos quinze anos depois com a morte da mãe, Mary Jensen (Lucy Lawless). Ele retorna então para o funeral e tenta passar uma noite na antiga casa da família, voltando a entrar em contato com uma suposta entidade maligna (Andrew Glover) que vive escondida nos cantos escuros e ameaça a vida das pessoas que o cercam como o tio Mike (Philip Gordon), a rica namorada da cidade grande Jessica (Tory Mussett) e a antiga amiga de infância Kate (Emily Deschanel).

É impossível não usar um trocadilho, sendo uma espécie de “pesadelo” assistir “O Pesadelo”. Não por ser uma produção de horror autêntica que remete-nos a momentos perturbadores de um “pesadelo”, mas porque é um filme ruim e decepcionante dentro da temática em que se situa, que não tem potencial para exibição nos cinemas (deveria ser lançado diretamente no mercado de vídeo), e que não justifica todo o aparato de marketing desenvolvido ao seu redor, com painéis de propaganda espalhados nas grandes cidades e outros meios de divulgação com custos altos.
Os únicos fatores positivos são os ágeis movimentos de câmera em alguns momentos, e a performance do jovem ator Barry Watson como o jovem atormentado Tim, que vê um “bicho papão” assassino sempre escondido atrás das portas pronto para atacar. Sua atuação é até convincente, constantemente deixando a dúvida se sua reação é de loucura com os acontecimentos trágicos sendo apenas criações de sua imaginação perturbada, ou se realmente ele é um lutador solitário contra uma criatura sobrenatural.
Já os principais pontos desfavoráveis são as tentativas constantes e frustradas de sustos fáceis e forçados e o final completamente previsível, decepcionante, comum demais e sem graça. Nem mulheres bonitas o filme tem, pois as atrizes Tory Mussett e Emily Deschanel deixam um pouco a desejar nesse quesito. O roteiro de Eric Kripke, Juliet Snowden e Stiles White é bastante confuso com o protagonista constantemente atravessando portais interdimensionais, entrando em armários num ambiente e saindo em outro, e que apesar de fazer parte do contexto sobrenatural do mundo da criatura, não conseguem convencer e atrair a atenção do espectador. Sem contar a previsibilidade sobre a identidade da garota Franny (Skye McCole Bartusiak), que é facilmente descoberta antes da revelação que tinha como objetivo uma surpresa inexistente.

Mas o pior de tudo isso é ver o nome do cineasta Sam Raimi entre os produtores, ao lado de seu parceiro Robert G. Tapert. Raimi foi o responsável por “The Evil Dead” (82), um clássico moderno do horror verdadeiro e autêntico, num desfile de mortes violentas, demônios enfurecidos possuindo os vivos, com direito a machadadas, decepamentos, esquartejamentos e todos os tipos de atrocidades sangrentas e brutais, numa história simples mas bem contada, sem piadas idiotas e adolescentes irritantes, num tipo de cinema não comercial que já quase não se produz mais atualmente.
Provavelmente todos os fãs do diretor Sam Raimi, responsável também por “Darkman” (90) e “Um Plano Simples” (98), além do famoso blockbuster “Homem-Aranha” (2002) e a continuação de dois anos depois, estão se sentindo meio traídos pelo fato do criador do memorável “The Evil Dead” participar de um projeto tão dispensável como esse “O Pesadelo”, deixando o verdadeiro horror de lado e investindo apenas num produto descartável e comercial.

Curiosamente, em 2003 foi produzido um outro filme que também abordou em sua história um mito popular. Trata-se de “No Cair da Noite” (Darkness Falls), dirigido por Jonathan Liebesman, que utilizou em seu argumento a lenda da “Fada dos Dentes”, e mesmo sendo apenas mais um filme comum e repleto de clichês, ainda assim é melhor que “O Pesadelo”, procurando explorar o angustiante sentimento de pavor gerado pela escuridão e um fantasma ameaçador. O estúdio “Ghost House Pictures” é o responsável pela produção de “O Pesadelo”, com um orçamento estimado em US$ 20 milhões, investindo mais no terror psicológico do que na concepção dos efeitos especiais.

“O Pesadelo” (Boogeyman, 2005) # 312 – data: 27/04/05 – avaliação: 4 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com / blog: www.juvenatrix.blogspot.com (postado em 23/02/06)

O Pesadelo (Boogeyman, Estados Unidos / Nova Zelândia / Alemanha, 2005). Ghost House Pictures. Duração: 86 minutos. Direção de Stephen T. Kay. Roteiro de Eric Kripke, Juliet Snowden e Stiles White, baseados em história de Eric Kripke. Produção de Sam Raimi, Robert G. Tapert, Daniel Carrillo, Eric Kripke e Doug Lefler. Produção Executiva de Gary Bryman, Joseph Drake, Steve Hein, Nathan Kahane e Carsten H. W. Lorenz. Música de Joseph LoDuca. Fotografia de Bobby Bukowski. Direção de Arte de Nick Bassett e Jennifer Ward. Desenho de Produção de Patricia Devereaux e Robert Gillies. Edição de John Axelrad. Efeitos Especiais de Brandon Durey. Elenco: Barry Watson (Tim Jensen), Lucy Lawless (Mary Jensen), Emily Deschanel (Kate), Tory Mussett (Jessica), Philip Gordon (Tio Mike), Skye McCole Bartusiak (Franny), Andrew Glover (Bicho Papão), Robyn Malcolm, Charles Mesure, Aaron Murphy, Louise Wallace, Michael Saccente, Ivan Kemp.