Criaturas Hediondas (Palmitos/SC, Brasil, 1993)



“No ano de 1953, Marte, também conhecido como Planeta Vermelho, estava sofrendo o mal da superpopulação, com escassez de alimentos e crescente número de violência. Não havia outra saída senão recrutar o terrível, o maquiavélico, o sanguinário e perverso Dr. Rottenberg, o principal cientista de Marte, para que desse início às terríveis experiências nos humanos, os transformando em criaturas hediondas, seres desmembrados, ou mortos vivos ambulantes, para que depois a frota do império marciano pudesse invadir nosso planeta. Dr. Rottenberg chega ao planeta Terra, também conhecido como Planeta Azul. E se apossando da imagem de um terrestre, dá início à maior chacina já ouvida falar em nosso planeta. Quem poderá salvar nosso planeta? Só as forças malignas.” 

Assim começa “Criaturas Hediondas” – uma produção independente em vídeo VHS lançada em novembro de 1993 pela equipe da “Canibal Produções” (Caixa Postal 67 – Palmitos/SC – CEP 89887-000), comandada por Petter Baiestorf, fanzineiro, poeta, videomaker, fã batalhador, personalidade já bem conhecida na cena underground dos fanzines, através de suas publicações “Arghhh”, “Necrofilia”, “Lixo B” e “Pus Diet”, todas com hqs e textos splatter; e de seus filmes em vídeo como as duas fitas de “Criaturas Hediondas” e “Açougueiros”. Em dezembro de 1994 eles lançaram a segunda parte da saga das criaturas hediondas, e que foi exibida pela primeira vez publicamente durante a “HorrorCon”, convenção que se realizou nos dias 7, 8 e 9 de abril de 1995 na Gibiteca Municipal Henfil, em São Paulo, e que contou com a presença de Petter Baiestorf. 

Em “Criaturas Hediondas”, um cientista marciano, Dr. Rottenberg, vem ao planeta Terra para fazer experiências nos humanos através de sua fórmula de exterminar a dor e reviver os mortos, preparando o planeta para uma invasão em massa de Marte. Em seu caminho aparece Hannsmorgue, um marciano combatente do mal, enterrado na Terra há um século atrás e que foi revivido acidentalmente pela fórmula do Dr. Rottenberg. 

Já em “Criaturas Hediondas 2”, passada um dia após a carnificina iniciada pelo cientista marciano, uma frota de espaçonaves de Marte é chamada para invadir a Terra, mas os planos do Dr. Rottenberg são atrapalhados por dois oficiais da NASA, o detetive Johnson e o Dr. Nagib, chamados para investigar o caso. 

Ambos os filmes são bastante divertidos, com um clima constante de produção tipicamente “B”.

A trilha sonora escolhida, com músicas pesadas e agressivas, se encaixou muito bem nos filmes, com destaque para “Blood Pit of Horror” da banda “Impetigo”, na introdução do segundo filme, com um áudio de uma macabra tortura de uma mulher. 

Os efeitos (ou defeitos?) especiais, a cargo de Leomar Waslawick e sua “Gore G. G. Efeitos”, são obviamente pobres, porém criativos – a planta carnívora no segundo filme é engraçada de tão ridícula e a tripa assassina rastejando no mato como uma cobra é hilariante. 

Os atores são bem ruins, o que também já era esperado, com exceção de E. B. Toniolli (Dr. Rottenberg) em ambos os filmes e Alfredo DeBortoli (Hannsmorgue) no primeiro filme, que atuaram bem, principalmente Toniolli, que encarnou o maníaco cientista marciano sadicamente, com sua voz gutural e gargalhadas insanas. 

Existem várias sequências muito divertidas e antológicas dentro do espírito trash de proposta dos filmes – quando o Dr. Rottenberg, de maneira simpática e amigável, tenta convencer um colecionador de fotos de cadáveres (Petter Baiestorf) a beber sua poção demoníaca; quando o cientista marciano e seu novo assistente disputam um tradicional “jogo da velha” na barriga de uma vítima (Marcos Braun), utilizando seu próprio sangue; a sequência de perseguição do cientista e seu assistente ao fotógrafo (Odair Massola), lembrando um verdadeiro pastelão no estilo “Os Três Patetas”; o duelo entre o Dr. Rottenberg e o marciano Hannsmorgue sob o sol do meio dia, ao som de uma clássica balada dos antigos westerns (todas do primeiro filme). Já em “Criaturas Hediondas 2”, temos outras cenas muito engraçadas e acima de tudo, trash, como quando o Dr. Rottenberg entra em contato com Marte solicitando a invasão da Terra, utilizando um interessante capacete de comunicação; a aterrissagem de um disco voador (ou seria uma calota voadora?) numa floresta, dando início à invasão de nosso planeta; a aparição de uma criatura da frota marciana (Ivan Pohl, de luvas verdes, lençol branco e capacete de motocicleta!!); e a chegada do detetive Johnson (Leomar Waslawick) e o Dr. Nagib (Loures Jahnke) numa perua Rural (fazia tempo que eu não via uma) escrito NASA na porta, para investigarem o Dr. Rottenberg.

A introdução narrada no primeiro filme, no estilo “A Guerra dos Mundos”, com uma foto de Marte ao fundo, e a sequência inicial filmada à noite numa marcenaria, onde o Dr. Rottenberg faz suas experiências com vítimas humanas, aplicando seu soro que extermina a dor e devolve a vida, são as melhores cenas de toda a saga. Os efeitos com a cabeça decepada do menino (Ronald Kojoroski) e a aparição do cientista com sua silhueta refletindo contra a luz em meio a uma gargalhada insana e demoníaca são excelentes. 

Porém, outras sequências poderiam ficar de fora, como a presença entediante do coveiro Astrogildo (Odair Massola); os gritinhos histéricos do Gordinho (Renato Kerber); e a figura patética do general (George Hippler), todas do segundo filme. E o caçador (Leomar Waslawick) no primeiro filme poderia utilizar uma arma bem mais convincente. Mas como diria o detetive Johnson, “acidentes acontecem...”.

De negativo também, nota-se a falta de filmagens à noite, que sempre dão um clima sombrio e perturbador, e a não participação de mulheres (nuas, de preferência!) que devem ser sempre parte integrante de qualquer filme de horror. 

No mais, parabéns ao Baiestorf e toda a sua equipe da “Canibal Produções” pela realização desses dois filmes divertidos do horror independente nacional.

“Dr. Rottenberg, o terrível marciano torturador vindo de Marte, massacrou mais da metade do planeta Terra, em sua sede insaciável de sangue e mortes. Nada parece detê-lo!” “Agora mostraremos em iniciativa inédita, sem cortes nem censura, o que realmente aconteceu no dia seguinte à chacina, quando o Dr. Rottenberg retomou seu plano maquiavélico para dominar o mundo!” “Crianças e senhoras grávidas, não recomendamos que assistam aos macabros acontecimentos que mostraremos a partir de agora. Pessoas com problemas cardíacos também deverão deixar a sala de exibição...” – introdução de “Criaturas Hediondas 2”.

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(postado em 19/01/06)



Contos da Meia-Noite (Campfire Tales, EUA, 1997)

Nas profundezas da floresta, ninguém pode ouvir você gritar.

Um interessante subgênero do cinema de horror é aquele que explora várias histórias ou contos num único filme. Conhecidos como antologias, os filmes apresentam episódios que são narrados de forma independente ou relacionados entre si e amarrados por um tema central. Normalmente despertam grande curiosidade pois os contos são filmados numa curta duração e permitem que o espectador possa fazer uma avaliação do resultado independentemente, dando preferência a um segmento em relação ao outro.
Na história do cinema fantástico existe uma infinidade de filmes em forma de antologias, a maioria deles servindo até como piloto para séries de televisão, como “Retrato de Um Pesadelo” (Night Gallery, 1969), que transformou-se na série “Galeria do Terror” (1970/72), criada e narrada por Rod Serling, ou “Contos da Escuridão” (Tales From the Darkside – The Movie, 1990), que virou uma série homônima, apenas para citar alguns exemplos.
Entre meados dos anos 1960 até início da década de 1970, os estúdios ingleses se especializaram no lançamento de vários filmes de antologias de contos destacando-se “As Torturas do Dr. Diabolo” (Torture Garden, 1967), “A Casa que Pingava Sangue” (The House that Dripped Blood, 1970), “Contos do Além” (Tales From the Crypt, 1972), “Asilo Sinistro” (Asylum, 1972), “A Cripta dos Sonhos” (The Vault of Horror, 1973) e “Vozes do Além” (From Beyond the Grave, 1973), com a participação de astros como Peter Cushing, Christopher Lee, Donald Pleasence, Burgess Meredith, e outros.
Apenas como citação, vários filmes com a mesma temática também foram produzidos a partir dos anos 1980 como “Creepshow” (1982), “Pesadelos Diabólicos” (Nightmares, 1983), “Olho de Gato” (Cat’s Eye, 1984) e “Show de Horrores” (Creepshow 2, 1987), que tiveram o envolvimento de nomes consagrados do horror como George A. Romero, Stephen King, Tom Savini, e outros.
Escritores famosos de horror também tiveram suas histórias adaptadas em filmes de antologias como “Muralhas do Pavor” (Tales of Terror, 1962), dirigido por Roger Corman num roteiro de Richard Matheson e com Vincent Price, Peter Lorre e Basil Rathbone interpretando contos de Edgar Allan Poe, e “Necronomicon, o Livro Proibido dos Mortos” (Necronomicon, 1994), com Jeffrey Combs envolvido em contos macabros de H. P. Lovecraft.
No Brasil, um filme importante da carreira do cineasta José Mojica Marins, o popular “Zé do Caixão”, também foi produzido como antologia, apresentando três histórias de horror em meio a necrofilia e canibalismo. Trata-se de “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” (1968), conhecido nos Estados Unidos como “The Strange World of Coffin Joe”, filme escrito por Rubens Francisco Luchetti e o próprio Mojica, e dividido nos episódios “O Fabricante de Bonecas”, “Tara” e “Ideologia”.
Utilizando a tradicional idéia da roda de amigos em volta de uma fogueira numa floresta para contar histórias de horror, foi produzido em 1997 o filme “Contos da Meia-Noite” (Campfire Tales). O filme é uma antologia com três histórias independentes, além de um prólogo e um tema central. O início, com um episódio curto chamado “The Hook” (O Gancho), explora uma tradicional lenda urbana, onde um casal de jovens namorados, Eddie (James Marsden) e Jenny (Amy Smart), estão num carro estacionado numa floresta à noite, e surge um assassino psicopata foragido de um sanatório para aterrorizá-los, carregando um gancho no lugar de uma das mãos. Depois a ação muda-se para um grupo formado por quatro adolescentes, Cliff (Jay R. Ferguson), sua namorada Lauren (Christine Taylor), o irmão mais novo da garota, Eric (Christopher Masterson, que demonstra um excelente gosto musical ao usar uma camisa da banda inglesa “Iron Maiden”), e a amiga Alex (Kim Murphy), que estão alcoolizados voltando de um show de rock, viajando de carro por uma estrada deserta beirando uma floresta. Eles sofrem um acidente e enquanto aguardam por ajuda decidem acender uma fogueira e contar histórias de horror para se distraírem. Esse tema central, intitulado “The Campfire” (A Fogueira), serve de apresentação para outros três contos sobrenaturais envolvendo monstros, psicopatas e fantasmas, culminando com uma trágica revelação para o destino dos jovens.
O primeiro episódio, “The Honeymoon” (A Lua de Mel), dirigido por Matt Cooper, é apenas regular, mostrando um jovem casal em lua de mel, Rick (Ron Livingstone) e Valerie (Jennifer MacDonald), que estão viajando à bordo de um moto home a caminho de Las Vegas e desviam da estrada principal para uma secundária que corta uma floresta e um lago. Com falta de gasolina, eles são obrigados a parar e encontram um homem misterioso, Cole (Hawthorne James), que está armado de um rifle e avisa para eles terem cuidado, pois perigosas criaturas costumam rondar pela floresta na escuridão da noite, e com a lua cheia saem para caçar. Uma vez não acreditando totalmente nas recomendações do estranho homem, o casal é surpreendido pela fúria de uma besta selvagem.
Apesar de um argumento clichê, esse episódio conseguiu de certa forma desenvolver um clima de mistério em torno de uma criatura da noite. Um fator favorável é a ambientação noturna de uma floresta fantasmagórica, que colabora significativamente na criação de um sentimento de medo, como se estivesse escondendo perigos ocultos em seu interior desconhecido. Os destaques são a beleza da atriz Jennifer MacDonald em trajes menores e a sábia decisão do diretor em não mostrar claramente o monstro, optando mais por situações sugeridas. E não faltou o óbvio e esperado desfecho “surpresa”, que na verdade revelou-se bem previsível.
A seguir veio a história “People Can Lick Too” (As Pessoas Podem Lamber Também), dirigida por Martin Kunert, disparada a mais fraca de todas e totalmente descartável. Uma garota de onze anos de idade, Amanda (Alex McKenna), faz amizade num chat pela internet (sinal dos tempos modernos) com uma desconhecida chamada “Jessica”, e revela que ficará sozinha em casa à noite, acompanhada de seu cachorro Odin, enquanto os pais sairiam para um compromisso. A identidade real da “amiga virtual” da internet é a de um perigoso psicopata pedófilo (Jonathan Fuller), que decide fazer uma visita indesejada à Amanda para conhecê-la mais de perto, e mostrando também o quanto é incompetente em seu ofício.
Esse episódio é muito ruim, explorando um tema completamente desgastado, não conseguindo manter nenhum clima de suspense ou tensão, e a violência é quase que inexistente, incomodando talvez apenas a “Sociedade Protetora dos Animais” pelo que aconteceu com o pobre cachorro da protagonista. O único elemento relativamente novo (devido principalmente ao ano da produção) é o uso da internet como meio de comunicação e sendo o motivo básico dos acontecimentos da trama. Como curiosidade, a bela irmã de Amanda, Katherine, é interpretada por Devon Odessa, atriz que participou numa ponta do filme “Pumpkinhead – A Vingança do Diabo” (1988). O ator Jonathan Fuller, que interpretou o psicopata, é um enorme desconhecido, mas ainda assim também curiosamente participou de dois filmes obscuros de horror dirigidos por Stuart Gordon, “O Poço e o Pêndulo” (The Pit and the Pundulum, 1990), baseado em conto de Edgar Allan Poe, e “O Castelo Maldito / Herança Maldita” (Castle Freak, 1995), inspirado nos “Mitos de Cthulhu” de H. P. Lovecraft, onde ele interpretou um homem com aparência monstruosa.
O terceiro e último episódio é “The Locket” (O Medalhão), dirigido por David Semel, e sem dúvida o melhor do filme, numa história macabra de fantasmas. Scott Anderson (Glenn Quinn) é um jovem aventureiro que está viajando de moto sem destino pelo interior dos Estados Unidos, quando a moto apresenta problemas mecânicos e ele é obrigado a parar numa estrada deserta, próximo a uma casa de campo. Com o início de uma chuva ele procura abrigo na fazenda e é recebido por uma bela jovem muda, Heather Wallace (Jacinda Barrett), que está usando um misterioso medalhão no pescoço. Porém, a noite de tempestade reservaria trágicos momentos de horror para o motoqueiro, quando surgem visões envolvendo o fantasma do pai da garota (interpretado por Denny Arnold) que constantemente retorna para aterrorizar a filha, em eventos relacionados à brutais assassinatos cometidos no passado.
Histórias de fantasmas são sempre um argumento interessante para um conto de horror, e ainda mais quando associadas a uma ambientação macabra de uma casa de campo afastada, numa noite de forte chuva, com a manifestação de um fantasma de um pai possessivo e violento, portando um machado e sedento de ódio para eliminar o “pecado” cometido por sua filha e o namorado. “The Locket” tem um bom clima de horror e um desfecho interessante. Como curiosidade, o desconhecido ator irlandês Glenn Quinn morreu aos 32 anos vítima de uma overdose de drogas. E a bela atriz australiana Jacinda Barrett fez uma ponta em “Lendas Urbanas 2” (2000).
Novamente os responsáveis por nomear os títulos nacionais dos filmes que chegam ao Brasil se equivocaram e o ideal seria manter a tradução do original “Campfire Tales” para algo como “Contos da Fogueira”, apesar que o nome escolhido “Contos da Meia-Noite” não ficou ruim e tem relações com o filme, fato que já é positivo quando comparamos com outros casos bem piores.
“Contos da Meia-Noite” é um divertimento rápido e passageiro, situando-se com um desempenho apenas intermediário como filme de horror, pois apresenta histórias com elementos sobrenaturais que alternam seus segmentos entre o razoável “The Honeymoon”, o medíocre “People Can Lick Too”, e o interessante, como “The Locket” e os contos da introdução, “The Hook”, e o tema central, “The Campfire”.

“Contos da Meia-Noite” (Campfire Tales, 1997) – avaliação geral: 7 (de 0 a 10)
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(postado em 18/01/06)

Contos da Meia-Noite (Campfire Tales, Estados Unidos, 1997). Duração: 88 minutos. Direção de Matt Cooper (episódio “The Honeymoon”), Martin Kunert (episódios “The Hook” e “People Can Lick Too”) e David Semel (episódios “The Campfire” e “The Locket”). Roteiro de Martin Kunert, Eric Manes e Matt Cooper. Produção de Eric Manes, Lori Miller e Larry Weinberg. Fotografia de John Peters. Música de Andrew Rose. Edição de Luis Colina, Rick Fields e Steve Nevius. Efeitos Especiais de G. Bruno Stempel. Elenco: Episódio “The Campfire” – Jay R. Ferguson (Cliff), Christine Taylor (Lauren), Christopher Masterson (Eric), Kim Murphy (Alex). Episódio “The Honeymoon” – Ron Livingstone (Rick), Jennifer MacDonald (Valerie), Hawthorne James (Cole). Episódio “People Can Lick Too” – Alex McKenna (Amanda), Devon Odessa (Katherine), Jonathan Fuller (psicopata). Episódio “The Locket” – Glenn Quinn (Scott Anderson), Jacinda Barrett (Heather Wallace), Denny Arnold (pai de Heather). Episódio “The Hook” – James Marsden (Eddie), Amy Smart (Jenny), Rick Lawrence (Rockin Rob).




Colheita Maldita 3 (Children of the Corn 3: Urban Harvest, EUA, 1994)

“Com a idade vem a cegueira. Mas nós, jovens, somos os guardiões da visão da pureza. Aquele Que Anda Atrás das Fileiras nos deu esse dom para realizarmos seu desejo de limpar o mundo do mal. Será nossa maior colheita!” – parte de um discurso do pastor mirim Eli, orientando seus seguidores

Nem o próprio escritor Stephen King imaginava que seu despretensioso conto “As Crianças do Milharal”, publicado no livro “Sombras da Noite” (Night Shift), pudesse gerar uma série tão grande de filmes após o lançamento em 1984 de “Colheita Maldita” (Children of the Corn). A história das crianças que veneram uma entidade maligna que vive nos campos de plantação de milho e que induz seus seguidores ao assassinato brutal de todos os adultos até é interessante, mas não possui potencial para tanta badalação em torno do tema. De qualquer forma, a indústria do cinema decidiu investir na franquia e em 1994 foi produzido “Colheita Maldita 3” (Children of the Corn 3: Urban Harvest), dirigido por James D. R. Hickox.
Dois jovens irmãos órfãos, Eli (Daniel Cerny) e Joshua (Ron Melendez), deixam a pequena cidade de Gatlin, repleta de campos de milharais, e vão para Chicago, uma grande metrópole distante cerca de cem quilômetros. Lá, com a ajuda da assistente social Samantha (Yvette Freeman), eles são adotados por um empresário bem sucedido no ramo do comércio de agricultura, William Porter (Jim Metzler, de “Megiddo”), e sua esposa Amanda (Nancy Lee Grahn).
Apesar das dificuldades naturais de adaptação numa cidade grande, o irmão mais velho Joshua tenta fazer amizade com os novos vizinhos e colegas de escola, entre eles o jogador de basquete Malcolm Elkman (Jon Clair) e sua irmã Maria (Mari Morrow), apesar de enfrentar problemas com T-Loc (Garvin Funches), um idiota metido a valente. Já o mais novo Eli, faz questão de manter seus costumes do interior, utilizando sempre as mesmas roupas, se isolando das pessoas e trazendo consigo amostras de milho para serem plantadas num terreno de uma fábrica abandonada, nos fundos de sua nova casa.
Com o campo de milharal já crescido, Eli transforma-se num pastor mirim, pregando para seus colegas de escola, crianças e adolescentes, sobre a existência de uma entidade conhecida como “Aquele Que Anda Atrás das Fileiras”, a qual deveria ser idolatrada como um deus que tinha como objetivo proteger as colheitas, manter os incrédulos no inferno e banir o mal da terra incentivando a matança dos adultos. Para tentar combater suas pregações surge o padre Frank Nolan (o veterano Michael Ensign), que além de conduzir missas também é o diretor da escola. Porém, seu irmão Joshua também volta-se contra ele, principalmente depois de se apaixonar por Maria, e tenta impedir sua missão em catequizar os adolescentes para matar seus pais e espalhar as sementes de seu mestre pelo mundo.

“O mundo prosperará e o deserto florescerá para Aquele Que Anda Atrás das Fileiras e seus filhos. Nós somos os escolhidos. Nós prosperaremos na terra, nos lares, nos corredores, nas salas, nos parques, até os incrédulos sentirem nossa ira e fúria quando triunfarmos sobre eles queimando a terra de dentro. Nós somos as sementes e agora é nossa vez de crescer. Os infiéis e incrédulos que passarem sobre ela serão consumidos. Abençoe meu coração com seus braços!” – discurso de Eli

Assim como na parte 2, esse terceiro episódio também não é ruim, principalmente pelo desfile de mortes violentas e muito bem produzidas, com direito até a uma carnificina bem sangrenta conduzida pela própria e tão temida entidade que “anda atrás das fileiras” dos campos de milho. Mas a idéia básica do filme é a mesma dos dois anteriores, o original de 1984 e a continuação de 1993, ou seja, apenas a ambientação foi alterada de uma cidade pequena do interior (Gatlin ou Hemmingford) para uma metrópole movimentada (Chicago). Continuamos tendo os mesmos elementos e clichês, um líder mirim para pregar a morte dos adultos, alguém metido a herói para tentar combater sua missão (nesse caso o irmão mais velho), um inevitável romance amoroso entre o herói e uma mocinha indefesa e vítima do monstro, e um monte de personagens criados para interagir com os principais, destinados apenas a morrer de forma violenta ou ajudar indiretamente nos objetivos obscuros do vilão (nesse caso, espalhar os milhos malignos pelo mundo, através de um trabalho de exportação dos grãos, começando pela Alemanha).
Um fator positivo e merecedor de registro é a presença do conhecido técnico em efeitos especiais de maquiagem Screaming Mad George na concepção do monstro, que parece uma daquelas criaturas indizíveis da literatura macabra de H. P. Lovecraft. Seu trabalho também pode ser conferido e apreciado nas várias cenas de mortes, porém na sequência final é inevitável perceber uma maior artificialidade dos efeitos, principalmente quando a imensa criatura demoníaca captura e ingere uma de suas vítimas. O desfecho é como sempre previsível (sempre sabemos com antecedência o que vai acontecer com o herói, a mocinha e o vilão), e também permite uma oportunidade para a continuidade da franquia com um enorme gancho para o desenvolvimento de outras seqüências.

“Colheita Maldita 3” foi lançado em DVD no Brasil com distribuição nas bancas de jornais, encartado na revista “DVD Premium” Ano 3, Número 34, Março de 2005, da “NBO Editora”, num disco de duas faces, onde no outro lado veio a parte 2 da série. Aliás, ainda foram produzidos mais quatro filmes no mesmo universo ficcional, “Colheita Maldita 4” (The Gathering, 96, de Greg Spence); “Colheita Maldita 5 – Campos do Terror” (Fields of Terror, 98, de Ethan Wiley); “Colheita Maldita 666 – Isaac Está de Volta” (Isaac’s Return, 99, de Kari Skogland); e “Colheita Maldita 7 – A Revelação” (Revelation, 2001, de Guy Magar).
A contra capa do DVD traz uma pequena sinopse ridícula e totalmente deslocada em relação ao verdadeiro conteúdo da história da terceira parte, numa completa falta de atenção dos responsáveis da editora que lançou o filme em DVD de banca. Como material extra temos apenas uma breve sinopse, que pelo menos é bem melhor que o texto colocado na contra capa.

Curiosamente, a bela atriz sul africana Charlize Theron, hoje consagrada pela participação em inúmeros filmes como “O Advogado do Diabo”, “O Poderoso Joe”, “15 Minutos”, “Encurralada” e “Monster – Desejo Assassino”, entre outros, aparece aqui em seu primeiro filme, numa ponta não creditada como uma das estudantes hipnotizadas, seguidoras de Eli em seu culto maligno. Ela não diz uma única palavra, mas já destaca-se por sua beleza exuberante em cena. A bíblia da seita que venera a entidade dos milharais é na verdade uma edição em capa dura do livro “Sombras da Noite” de Stephen King, apenas com a capa alterada para uma ilustração exaltando o milho como sagrado. O produtor executivo Anthony Hickox, irmão do diretor, também faz uma pequena participação não creditada (aliás, como cineasta ele dirigiu “Hellraiser III – Inferno na Terra”, entre outros filmes de horror). E o próprio diretor James D. R. Hickox fez uma breve citação de homenagem nos créditos finais para seu falecido pai Douglas Hickox, também cineasta e responsável pelo cultuado “As Sete Máscaras da Morte” (Theatre of Blood, 73), estrelado pelo ícone Vincent Price.

“Colheita Maldita 3” (Children of the Corn 3: Urban Harvest, 1994) # 306 – data: 26/03/05 – avaliação: 5 (de 0 a 10)
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(postado em 18/01/06)

“Essa é a noite da lua da colheita. As crianças devem deixar suas casas e todos os pertences mundanos para se juntarem com Aquele Que Anda Atrás das Fileiras. Nesta noite mataremos os adultos, limparemos a terra e purificaremos a colheita.”

“Colheita Maldita 3” (Children of the Corn 3: Urban Harvest, Estados Unidos, 1994). Dimension Films. Duração: 90 minutos. Direção de James D. R. Hickox. Roteiro de Dode B. Levenson, baseado em conto homônimo de Stephen King. Produção de Gary DePew, Brad Southwick, Thomas C. Rainone e Donald Paul Pemrick. Produção Executiva de Anthony Hickox. Fotografia de Gerry Lively. Música de Daniel Licht. Edição de Chris Peppe. Desenho de Produção de Blair Martin. Maquiagem de Screaming Mad George. Elenco: Daniel Cerny (Eli Porter), Ron Melendez (Joshua Porter), Michael Ensign (Padre Frank Nolan), Jim Metzler (William Porter), Nancy Lee Grahn (Amanda Porter), Jon Clair (Malcolm Elkman), Mari Morrow (Maria Elkman), Yvette Freeman (Samantha), Garvin Funches (T-Loc), Duke Stroud, Rance Howard, Brian Peck, Nicholas Brendon.

“Agradecemos Àquele Que Anda Atrás das Fileiras. Ele protege a colheita e mantém os infiéis no tormento do fogo eterno do inferno” – oração dita por Eli na mesa, antes de uma refeição

Colheita Maldita 2: O Sacrifício Final (Children of the Corn 2: The Final Sacrifice, EUA, 1993)

“O sangue daqueles que desonram o milho deve penetrar na terra”

Depois dos lançamentos em bancas de jornais de vários DVDs duplos de longas e conhecidas franquias do cinema de horror como “A Casa do Espanto” (partes 1 e 2), “Amityville” (2 e 3), “Halloween” (2 e 3), e “Hellraiser” (2 e 3), chegou a vez também dos episódios 2 e 3 de “Colheita Maldita”, cujo disco foi encartado na revista “DVD Premium” Ano 3, Número 34, Março de 2005, da “NBO Editora”.
O filme que deu origem à série, “Colheita Maldita” (Children of the Corn, 84), de Fritz Kiersch, já havia sido lançado em DVD no Brasil também com distribuição nas bancas pela mesma revista “DVD Premium”, só que o número 28 (Agosto de 2003). É uma produção cultuada do cinema de horror da década de 80, com história inspirada num conto homônimo de Stephen King publicado no livro “Sombras da Noite” (Night Shift). Um casal viajando de carro atropela acidentalmente uma criança numa estrada e ao pedir ajuda numa pequena cidade próxima, descobre o local misteriosamente vazio e dominado apenas por crianças sinistras que veneram um estranho culto religioso, o qual incita-os a matar todos os adultos da cidade e a perseguir eventuais forasteiros.

Já na continuação “Colheita Maldita 2: O Sacrifício Final” (Children of the Corn 2: The Final Sacrifice, 93), de David Price, um repórter investigativo do jornal “World Inquirer”, John Garrett (Terence Knox), que anos antes foi o Sargento Zeke Anderson da ótima série de TV “Combate no Vietnã” (Tour of Duty, 1987/90), chega na pequena cidade americana de Gatlin, no interior do Estado de Nebraska, acompanhado de seu filho rebelde, o adolescente Danny (Paul Scherrer), com quem está enfrentando uma crise familiar através de constantes desentendimentos. Seu objetivo é pesquisar informações para uma matéria jornalística explorando uma carnificina que ocorreu na cidade, onde dezenas de cadáveres de adultos foram encontrados no porão de uma casa.
A princípio, a culpa pelas mortes foi direcionada aos jovens da cidade, crianças e adolescentes que eram liderados pelo sinistro Isaac Chroner (morto no filme anterior), numa estranha seita religiosa que utilizava sangue humano para adubar a terra, e que veneravam uma misteriosa criatura maligna conhecida como “Aquele Que Anda Por Trás das Fileiras”. Com o líder morto, quem assume o posto agora é Micah (Ryan Bollman), que age sob a orientação da entidade sobrenatural que controla as plantações de milho, auxiliado por Mordechai (Ted Travelstead) e Jedediah (Sean Bridgers), entre outros.
Transferidos para a cidade vizinha de Hemmingford, as crianças e adolescentes continuam silenciosamente seu plano maquiavélico de exterminar os adultos, despertando a atenção do repórter Garrett, que havia se aliado nas investigações a um indígena professor universitário de Antropologia, Frank Redbear (Ned Romero). Na cidade, o jornalista conhece também a bela Angela Casual (Rosalind Allen), proprietária de um pequeno hotel, gerando um inevitável romance entre eles, e seu filho Danny seguiu o mesmo caminho com o interesse amoroso pela adolescente Lacey Hellerstat (Christie Clark). Enquanto mortes violentas acontecem envolvendo os adultos de Hemmingford, o repórter Garrett vai coletando informações para sua matéria e tenta escapar da fúria dos adolescentes assassinos.

O filme não é ruim, tem até vários elementos positivos que transformam-no numa interessante diversão, principalmente pelas várias mortes sangrentas e diferenciadas. Porém, o problema é simples: a história é praticamente a mesma do filme original. Os roteiristas A. L. Katz e Gilbert Adler preferiram utilizar o mesmo argumento do filme de 1984 com algumas poucas alterações, transferindo as crianças assassinas para uma cidade vizinha, onde continuam a exterminar os adultos, tendo um novo líder influenciado pelo demônio que controla os milharais, e introduzindo um repórter e seu filho para tentar combatê-los.
De positivo, temos as várias cenas de assassinatos com direito a um homem morrendo de hemorragia nasal dentro de uma igreja no meio de uma missa, passando por uma velha senhora que literalmente é esmagada por sua casa, um médico picado por uma infinidade de injeções, um grupo de adultos queimados desesperadamente vivos, e indo até uma cena hilária onde uma velha senhora aleijada é arremessada em sua cadeira de rodas por um enorme caminhão contra a entrada de vidro de um bingo. Entre os pontos baixos, temos as inevitáveis cenas repletas de clichês envolvendo o romance adolescente entre Danny e Lacey, com direito àquelas cenas de heroísmo com típicos salvamentos previsíveis, além principalmente de um final tão óbvio e banal que é quase impossível não ser irritante. Se por um lado, o diretor David Price apresentou coragem em matar violentamente vários velhinhos na história, por outro lado o cineasta demonstrou também ser extremamente convencional ao escolher um desfecho previsível e sem graça.

“Colheita Maldita 2” foi seguido por mais cinco filmes numa enorme franquia desnecessária, criada pelos executivos da indústria do cinema visando os possíveis lucros explorando o argumento básico escrito por Stephen King. Porém, apesar de apresentar elementos interessantes, o conto não possui tanto potencial como seria necessário para a criação de uma série tão grande. Os outros filmes são: “Colheita Maldita 3” (Urban Harvest, 95, de James D. R. Hickox); “Colheita Maldita 4” (The Gathering, 96, de Greg Spence); “Colheita Maldita 5 – Campos do Terror” (Fields of Terror, 98, de Ethan Wiley); “Colheita Maldita 666 – Isaac Está de Volta” (Isaac’s Return, 99, de Kari Skogland); e “Colheita Maldita 7 – A Revelação” (Revelation, 2001, de Guy Magar).
A contra capa do DVD lançado nas bancas por aqui traz uma sinopse bem mal feita e até incoerente com a realidade da história (“...um bando de jovens chega a uma localidade aparentemente abandonada e logo são aprisionados, com poucas chances de escaparem vivos...”). De onde tiraram isso? Provavelmente quem escreveu nem assistiu o filme... Além do fato de ser informada a duração como sendo 68 minutos, quando na verdade é 86 (provavelmente um erro de digitação, invertendo os números). Esses são apenas alguns fatos que comprovam a falta de atenção dos responsáveis da editora pelo lançamento do filme em DVD de banca, que aliás, tem como material extra apenas uma breve sinopse e biografia do ator Terence Knox, que estão ilegíveis, convidando o colecionador que comprou o filme, a simplesmente ignorar a leitura.

“Colheita Maldita 2: O Sacrifício Final” (Children of the Corn 2: The Final Sacrifice, 1993) # 304 – data: 16/03/05 – avaliação: 6 (de 0 a 10)
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(postado em 18/01/06)

“Colheita Maldita 2: O Sacrifício Final” (Children of the Corn 2: The Final Sacrifice, Estados Unidos, 1993). Duração: 86 minutos. Direção de David Price. Roteiro de A. L. Katz e Gilbert Adler, baseados em conto homônimo de Stephen King. Produção de David G. Stanley, Scott A. Stone e Bill Froehlich. Produção Executiva de Lawrence Mortorff. Fotografia de Levie Isaacks. Música de Daniel Licht. Edição de Barry Zetlin. Desenho de Produção de Gregory Melton. Elenco: Terence Knox (John Garrett), Paul Scherrer (Danny Garrett), Ryan Bollman (Micah), Ned Romero (Frank Redbear), Christie Clark (Lacey Hellerstat), Rosalind Allen (Angela Casual), Ed Grady (Dr. Richard Appleby), Wallace Merck (Xerife Blaine), John Bennes (Reverendo Hollings), Joe Inscoe (David Simpson), Kellie Bennett (Mary Simpson), Ted Travelstead (Mordechai), Sean Bridgers (Jedediah), Marty Terry (Sra. Burke / Sra. West), Robert C. Treveiler (Wayde McKenzie), Leon Pridgen (Bobby Knite), Aubrey Dollar (Naomi Johnson), Kristy Angell (Ruth Gordan).

Cemitério Macabro (Grave Secrets: The Legacy of Hilltop Drive, EUA, 1992)

Os filmes que tratam do subgênero “Casa Mal Assombrada” sempre despertaram grande interesse nos apreciadores do cinema de horror. Clássicos do passado como “Os Inocentes” (1961), “Desafio ao Além” (1963) e “A Casa de Noite Eterna” (1973), ou clássicos mais modernos como “Horror em Amityville” (1979), “O Iluminado” (1980) e “Poltergeist, o Fenômeno” (1982), ou também obras ainda mais recentes como “A Casa Amaldiçoada” (1999, num patamar inferior) e “Os Outros” (2001, este sim num nível elevado), são apenas alguns exemplos de filmes que retrataram com maestria o ambiente de claustrofobia de uma casa possuída por fantasmas malignos, e todo o horror psicológico que envolve a tortuosa relação com seus moradores.
Outro filme que trata do mesmo tema é “Cemitério Macabro” (Grave Secrets: the Legacy of Hilltop Drive), produzido em 1992 especialmente para a televisão, e que pode ser considerado fruto do cruzamento entre os filmes “Horror em Amityville”, devido ao fato de se basear supostamente num caso real, narrado no livro “The Black Hope Horror”, de Ben Williams, Jean Williams e John Bruce Shoemaker, e “Poltergeist”, pela descoberta que o real motivo da assombração é que a casa foi construída sobre um cemitério antigo e abandonado, com centenas de covas alojando cadáveres à procura de paz e descanso.

(Atenção: o texto a seguir contém spoilers)

Após muitos anos procurando pela casa ideal para morar, o casal Jean (Patty Duke) e Shag Williams (David Selby) finalmente compra uma bela construção numa rua chamada “Hilltop Drive”, na cidade de Crosby, Texas, onde vão viver com sua pequena neta Carli (Kimberly Cullum). Entre seus novos vizinhos está Sam Haney (David Soul, que fazia o personagem Hutch da nostálgica série policial de TV “Starsky & Hutch – Justiça em Dobro”, de 1975).
Porém, de forma enigmática alguns eventos inexplicáveis começam a surgir com frequência como descargas sanitárias aleatórias, portas que batem sozinhas, estranhas sombras que invadem os cômodos, vazamentos de líquidos negros do teto, vozes durante a noite, acionamentos espontâneos do portão da garagem, luzes que piscam automaticamente, aparecimento de imagens de cobras e a morte misteriosa dos animais de estimação como pássaros e filhotes de gatos. Com o passar do tempo e a intensificação dos eventos anormais, fatos que também aconteciam com outras três casas vizinhas, e principalmente depois que um dos vizinhos encontrou duas ossadas de cadáveres enterradas em seu quintal quando escavava a terra para construir uma piscina, a família Williams decidiu investigar a provável origem dos fenômenos.
Eles descobriram que no passado existiu um cemitério de escravos negros chamado “Black Hope” com centenas de corpos enterrados exatamente no local onde foi construída sua casa. Tentando acionar sem sucesso a seguradora que vendeu a propriedade para eles com o objetivo de recuperar o dinheiro investido e comprar outra casa longe dali, eles são obrigados a enfrentar as assombrações até não suportarem mais e fugirem abandonando sua casa aos espíritos atormentados do cemitério sob suas terras.

O fato de ser supostamente inspirado num caso real, que dizia que quatro famílias de “Hilltop Drive” foram obrigadas a abandonarem suas casas sem receberem nenhuma indenização por serem construídas em cima de um cemitério, certamente fortalece o clima de mistério e horror que envolvem a história da família Williams. Porém, “Cemitério Macabro” é apenas mais um filme morno, sem praticamente nenhuma cena realmente assustadora, nenhum efeito especial convincente (devido certamente ao pequeno orçamento da produção), e com todos os exaustivos e até banais clichês característicos de fitas no estilo “casa mal assombrada”, mas filmados sem nenhuma criatividade. É apenas um filme tipicamente para a TV sem acrescentar nada ao gênero, sendo incomparavelmente inferior aos outros já citados anteriormente.
O filme foi lançado em DVD no Brasil pelo selo “Dark Side” da “Works Editora”, sem materiais extras.
A veterana atriz Patty Duke (Jean Williams) foi muito famosa na televisão do passado, iniciando sua carreira bem cedo, ainda criança, e ganhando inclusive um Prêmio “Oscar” de atriz coadjuvante pelo filme “O Milagre de Anne Sullivan” (The Miracle Worker, 1962), estrelando ao lado de Anne Bancroft, e interpretando Helen Keller, uma adolescente surda e muda. Seu sucesso foi tão grande que ganhou uma série de TV com seu nome, “The Patty Duke Show”, produzida entre os anos de 1963 e 66. Na área do cinema fantástico, entre outros, ela participou em 1959 do divertido filme “B” de ficção científica e horror “Quarta Dimensão” (4D Man), de Irvin S. Yeaworth Jr. Na década de 1970 fez dois filmes de horror, a produção para a TV “Curse of the Black Widow” (1977), e “The Swarm” (1978), de Irwin Allen. E curiosamente em 1989, ela estrelou outra produção para a TV, num papel similar ao que fez em “Cemitério Macabro”, enfrentando fantasmas e assombrações em “The Evil Escapes”, o quarto filme da franquia “Horror em Amityville”, que já conta com 9 filmes, sendo o último, “Amityville 2000”, um documentário com as pessoas reais que viveram as misteriosas manifestações sobrenaturais na famosa casa em Amityville, incluindo o escritor Jay Anson, autor do livro sobre o caso e que inspirou o filme original de 1979.
O ator David Selby (Shag Williams) é conhecido principalmente por sua participação na famosa série gótica de TV criada por Art Wallace, “Dark Shadows” (1966/71), no papel de Quentin Collins, um lobisomem. A série mostrava os mistérios que envolviam uma família atormentada por maldições de vampiros, bruxas e lobisomens.
O nome nacional escolhido para o filme não é o ideal (aliás, o cemitério está muito longe de ser macabro), e seria mais interessante um título mais próximo do original, algo como “Segredos do Cemitério”.
A história diz que foram retirados apenas os dois corpos encontrados na escavação da piscina (e aqui lembro-me de uma cena muito bem feita de “Poltergeist”, onde a personagem Diane Freeling, feita pela atriz JoBeth Williams, faz um mergulho num buraco escavado para uma futura piscina, encontrando-se com alguns esqueletos macabros), e que os outros túmulos permaneceram em seus locais de origem. Não sei se o que foi relatado em “Cemitério Macabro” foi uma história real, mas o que posso garantir é que a precariedade desse filme certamente despertaria a ira de qualquer morto que estivesse enterrado nas redondezas, com seu espírito atormentado clamando para que façam um filme mais original e menos previsível e descartável.

“Cemitério Macabro” (Grave Secrets: The Legacy of Hilltop Drive, 1992) – avaliação: 3 (de 0 a 10)
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(postado em 17/01/06)

Cemitério Macabro (Grave Secrets: The Legacy of Hilltop Drive, Estados Unidos, 1992). Duração: 94 minutos. Filme produzido especialmente para a televisão, pela “Hearst Entertainment Productions”, também conhecido pelos títulos “Grave Secrets” ou “Haunting on Hilltop Drive”. Direção de John Patterson. Roteiro de Gregory Goodell, baseado no livro “The Black Hope Horror”, de Ben Williams, Jean Williams e John Bruce Shoemaker. Produção de Angela Bronstad, Gregory Goodell, Dennis Stuart Murphy e Freda Rothstein. Fotografia de Shelly Johnson. Música de Patrick Williams. Edição de Edward M. Abroms. Efeitos Especiais de Joseph P. Mercurio, Vincent Montefusco e Beecher Tomlinson. Elenco: Patty Duke (Jean Williams), David Soul (Sam Haney), David Selby (Shag Williams), Kimberly Cullum (Carli), Frances Bay, Kiersten Warren, Kelly Rowan, Rick Fitts, Julius Harris, James Lashly, Maggie Roswell, Don Fischer, Jill Andre, Muriel Minot.

A Casa da Colina (House on Haunted Hill, EUA, 1999)

Criada com o propósito de lançar filmes de horror, a produtora americana “Dark Castle”, de Joel Silver e Robert Zemeckis, entrou no mercado do entretenimento em 1999 com “A Casa da Colina” (House on Haunted Hill), refilmagem de “A Casa dos Maus Espíritos” (58), de William Castle e que tinha na liderança do elenco o lendário astro Vincent Price. Logo depois vieram mais três filmes, “Treze Fantasmas” (Thirteen Ghosts, 2001), outra refilmagem de um filme de 1960, “Navio Fantasma” (Ghost Ship, 2002) e “Na Companhia do Medo” (Gothika, 2003), todos sendo filmes explorando fantasmas e assombrações.
“A Casa da Colina” foi dirigido por William Malone (de “Medopontocombr”) a partir de um roteiro de Dick Beebe (de “A Bruxa de Blair 2: O Livro das Sombras”), que por sua vez se baseou numa história do escritor Robb White (1909-1990), frequente colaborador de William Castle em vários filmes dos anos 1950 e 60 como “Macabre” (58), “Força Diabólica” (59), “Treze Fantasmas” (60) e “Homicidal” (61).

A história é sobre um excêntrico e milionário empresário do ramo de parques de diversões, Stephen Price (Geoffrey Rush), que tem um casamento totalmente instável com a traiçoeira Evelyn (a bela Famke Janssen). Atendendo a um estranho pedido dela, ele resolve comemorar a festa de aniversário da esposa numa imensa mansão em Los Angeles abandonada há décadas, e que no passado fora um instituto psiquiátrico para criminosos insanos, servindo de palco para as atividades macabras de um sádico e perturbado psiquiatra, Dr. Vannacutt (Jeffrey Combs). O médico realizava experiências indizíveis em seus pacientes alegando serem tratamentos para a esquizofrenia, com direito à dolorosas sessões de torturas e eletrocussão que muitas vezes levavam à morte, até que uma revolta dos internos em 1931 provocou um incêndio que resultou numa enorme carnificina, dando a fama de maldita para a mansão, com os espíritos atormentados dos pacientes ainda vagando desorientados e à procura de vingança.
Price aluga então a enorme casa, com uma aparência de uma imponente torre que fica no alto de uma colina assombrada (daí o título original de “House on Haunted Hill” ou “A Casa da Colina” no Brasil), através de um herdeiro do imóvel, Watson Pritchett (Chris Kattan), um sujeito histérico, irritante e estressado que revela que o local está amaldiçoado por causa de seu passado misterioso e sangrento.
O empresário convida cinco pessoas totalmente estranhas entre si, oferecendo a elas um prêmio tentador de US$ 1 milhão para cada, caso conseguissem passar uma noite na mansão assombrada e sobrevivessem a essa assustadora experiência. O grupo é formado, além do atrapalhado e já citado Pritchett, ainda pelo médico Dr. Donald Blackburn (Peter Gallagher), a executiva Sara Wolfe (Ali Larter), o ex-jogador de basquete Eddie Baker (Taye Diggs), e a loira em busca de fama e ex-apresentadora de TV Melissa Margaret Marr (Bridgette Wilson). Porém, os verdadeiros convidados de Price são outros e aparecem em seus lugares pessoas totalmente desconhecidas dele, constituindo-se no primeiro mistério da história.
Pensando inicialmente apenas em se divertir, Price instala secretamente uma série de equipamentos na casa com o objetivo de assustar os convidados da maneira mais convincente possível para conseguir suas desistências e ganhar o desafio, com os truques sendo supervisionados pelo técnico Carl Schecter (Max Perlich). Mas o que ninguém esperava era que a própria mansão guardava um segredo de uma maldição entre suas paredes, e o terror passaria a ser real, com todas as portas se trancando sozinhas e não permitindo a saída de ninguém, obrigando a todos a lutarem agora por suas vidas.

“A Casa da Colina” é mais um filme de horror com uma história de casa assombrada por fantasmas perturbados. Não apresenta elementos novos, pelo contrário, desfila todos aqueles clichês característicos do tema, com os tradicionais sustos fáceis, personagens estereotipados e algumas mortes violentas. O roteiro até que esforçou-se em criar uma história atraente, com direito a várias revelações, reviravoltas, suspense e tramas que se completam, conseguindo manter um certo interesse, acentuado pela intensidade das cenas envolvendo uma macabra entidade formada por vários espíritos atormentados em busca de vingança, e pelo visual fascinante da enorme torre, destacando-se um belíssimo teto de vidro no salão principal, onde uma série de imagens surrealistas servia de inspiração para as atrocidades do Dr. Vannacutt. As salas abandonadas no porão, onde eram realizadas as torturas dos pacientes, também transmitiam um clima mórbido com suas camas, instrumentos e aparelhagens médicas corroídas pela ação devastadora do tempo, e impregnadas com uma sensação obscura de morte e dor, num ambiente macabro de desolação.
O maior defeito do filme é o péssimo desfecho, com um final extremamente óbvio e super previsível, totalmente conveniente para agradar talvez apenas aquele público escolhido pelos executivos para pagar os custos da produção e encher seus bolsos de lucros. Fora isso, e para os apreciadores menos exigentes do atual cinema de horror, “A Casa da Colina” até que pode garantir cerca de uma hora e meia de diversão rápida.

Seguem várias curiosidades interessantes sobre “A Casa da Colina”, seus realizadores e os bastidores da produção.
Um dos executivos da equipe de produção é Terry Castle, filha do lendário cineasta e produtor William Castle (1914-1977). O roteirista Dick Beebe atuou no filme numa cena rápida como um dos enfermeiros do sanatório, ajudante do sádico Dr. Vannacutt. O polêmico cantor de rock Marilyn Manson, nascido em 1969 no Estado americano de Ohio, participa da trilha sonora de “A Casa da Colina”, mas não é creditado, cantando sua versão para a música “Sweet Dreams”, da banda inglesa “The Eurythmics”. Ele já teve seu trabalho visto outras vezes no cinema fantástico, em filmes como “Spawn”, “Matrix”, “A Bruxa de Blair 2: O Livro das Sombras”, “O Dia do Terror”, “Do Inferno”, “Resident Evil” e “Matrix Reloaded”. O profissional responsável pela fotografia do filme, Rick Bota, alguns anos depois iniciaria sua carreira de diretor, estreando com o sexto filme da famosa franquia dos cenobitas, “Hellraiser VI: Caçador do Inferno” (Hellraiser: Hellseeker, 2002), e também das partes seguintes, “Hellraiser: Deader” e “Hellraiser: Hellworld”, ambas com previsão de lançamento em 2004, sendo todos eles filmes produzidos diretamente para o mercado de vídeo.
O insano Dr. Vannacutt foi interpretado pelo ator Jeffrey Combs, que mesmo não dizendo uma única palavra no filme, aparecendo apenas em cenas de flashbacks e alucinações com suas experiências sangrentas nos pacientes do manicômio, conseguiu transmitir um perturbador sentimento de horror apenas com sua expressão facial e com as atrocidades cometidas tendo um bisturi na mão. Nascido em 1954 na California, ele é um rosto bastante conhecido no cinema fantástico a partir dos anos 80 em filmes como “Do Além” (86), “Aprisionados pelo Medo” (94), “Necronomicon: O Livro Proibido dos Mortos” (94) e “O Castelo Maldito” (95), todos baseados na obra de H. P. Lovecraft (1890-1937), além de “O Monstro Canibal” (88), “O Poço e o Pêndulo” (90), “A Fortaleza” (93), “Os Espíritos” (96), “Eu Ainda Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado” (98) e “Medopontocombr” (2002), entre outros. Seu mais importante trabalho foi no clássico moderno de Stuart Gordon, “Re-Animator: A Hora dos Mortos-Vivos” (85), como o Dr. Herbert West em sua busca incansável pela reanimação de cadáveres, numa história também baseada em Lovecraft, e que teve continuações em 1990, “A Noiva do Re-Animator” e 2003, “Re-Animator: Fase Terminal”, ambos de Brian Yuzna.
O ator Geoffrey Rush, que fez o papel do milionário Stephen Price, tem o sobrenome de seu personagem igual ao sobrenome do ator que fez o mesmo papel no original “A Casa dos Maus Espíritos”, o cultuado Vincent Price, e se repararem bem, por coincidência os atores até que tem algumas semelhanças físicas. Aliás, no filme original, o milionário Frederick Loren oferecia a quantia de US$ 10 mil para cada um dos convidados passarem uma noite numa casa assombrada, e na refilmagem de William Malone, essa quantia subiu para o incrível valor de US$ 1 milhão, cem vezes mais, resultado dos tempos modernos. O veterano ator americano Peter Graves, nascido em 1926, e muito conhecido pela série de TV “Missão: Impossível” (1966/73), apareceu no início do filme como ele mesmo apresentando um bizarro programa de TV sensacionalista que exibe casos insólitos e misteriosos chamado “Assustador, mas Verdadeiro!!”, onde ele descreve uma breve história do sanatório “Vannacutt” e as atrocidades cometidas em seu passado tenebroso, reconhecendo o insano Dr. Vannacutt como um dos maiores carniceiros da história. Aliás, Peter Graves fez o mesmo também na ficção científica de humor “Homens de Preto II” (2002).
Em determinado momento do filme, os protagonistas conversam entre si após descobrirem que não são os convidados originais para a festa, tentando encontrar uma explicação lógica para o estranho fato, e como uma resposta convincente não existe mesmo, nem para os roteiristas que preferiram passar a responsabilidade para a “casa” viva, a melhor saída utilizada foi mesmo citar a manjada frase sobre a existência de situações “além da imaginação”, lembrando a saudosa série de TV homônima dos anos 1960 criada por Rod Serling, que apresentava histórias insólitas e bizarras em seus episódios.
A campanha de marketing para a promoção de “A Casa da Colina” foi bem intensa, tanto que na exibição nos Estados Unidos, foram distribuídos US$ 1 milhão para os espectadores nos cinemas, através da distribuição junto com os ingressos de tickets para sorteio de prêmios em dinheiro. O orçamento da produção ficou em torno de US$ 19 milhões, uma cifra considerada até baixa quando comparada com a média de custo de outros filmes similares.
Observação: Em 2007 foi lançada uma seqüência intitulada “De Volta à Casa da Colina” (Return to House on Haunted Hill), dirigido pelo espanhol Víctor García.

“A Casa da Colina” (House on Haunted Hill, 1999) # 218 – data: 24/01/04 – avaliação: 6 (de 0 a 10)
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(postado em 17/01/06)

A Casa da Colina (House on Haunted Hill, Estados Unidos, 1999). Dark Castle, Warner Bros. Duração: 96 minutos. Direção de William Malone. Roteiro de Dick Beebe, a partir de história de Robb White. Produção de Gilbert Adler, Joel Silver, Robert Zemeckis, Terry Castle e Ed Tapia. Produção Executiva de Dan Cracchiolo e Steve Richards. Música de Don Davis. Fotografia de Rick Bota. Edição de Anthony Adler. Desenho de Produção de David F. Klassen. Direção de Arte de Richard F. Mays. Efeitos Especiais de Robert Kurtzman e Gregory Nicotero. Elenco: Geoffrey Rush (Stephen H. Price), Famke Janssen (Evelyn Stockard-Price), Peter Gallagher (Dr. Donald W. Blackburn), Ali Larter (Sara Wolfe / Jennifer Jenzen), Taye Diggs (Eddie Baker), Chris Kattan (Watson Pritchett), Bridgette Wilson (Melissa Margaret Marr), Max Perlich (Carl Schecter), Jeffrey Combs (Dr. Richard Benjamin Vannacutt), Dick Beebe (enfermeiro), Slavitza Jovan (enfermeira), Lisa Loeb (repórter), James Marsters (operador de câmera), Jeannette Lewis (secretária de Price), Peter Graves (ele mesmo).

Os Anjos Rebeldes (The Prophecy / God’s Army, EUA, 1994)

“Sou um anjo, mato os filhos mesmo com as mães tomando conta. Eu faço as cidades virarem cinzas, eu até retiro a alma das menininhas quando tenho vontade. E até que venha o vosso reino, a única coisa com que podem contar em sua existência, é jamais entender o porquê!” - Gabriel

O céu está novamente em guerra. Após Lucifer, o anjo que se revoltou contra Deus e caiu formando sua legião da perdição na escuridão do inferno, é a vez de Gabriel, um anjo rebelde que enciumado por Deus acolher os seres humanos (ou macacos falantes) em seu reino dando-lhes uma alma, lidera uma nova revolta nos céus, que se estende por milhares de anos, escritos em capítulos ocultos e não divulgados da Bíblia Sagrada, manchando de sangue as asas dos anjos.

(Atenção: o texto a seguir contém spoilers)

Gabriel, interpretado pelo canastrão Christopher Walken, vem então à Terra para se apossar da alma de um psicótico coronel do exército americano, Arnold Hawthorne, conhecido por sua frieza nos campos de batalha e por praticar canibalismo com seus inimigos, que havia morrido na reserva e cuja alma, ainda presa a seu cadáver no caixão, seria fundamental para vencer sua batalha e instaurar um novo inferno nos céus. “Se cortar a cabeça dos vermelhos, sangra. Não como a gente. A gente sangra, só que frio. Dá para saber quando vai doer... Eu fui escolhido porque matava com mais frieza.”, dizia o sanguinário Coronel Arnold Hawthorne.
Um outro anjo, Simão (Eric Stoltz), contrário às idéias de Gabriel, desce também à Terra e após violento confronto matando outro anjo, Uziel, onde fica gravemente ferido, se apossa da alma do sanguinário coronel e antes de morrer, torturado e queimado vivo por Gabriel, a repassa para o corpo de uma jovem menina descendente de indígenas chamada Maria (Moriah Shinning Dove Snyder).
Devido aos violentos e misteriosos crimes ocorridos na cidade, um detetive da polícia, Thomas Dagget (Elias Koteas), ex-seminarista que abandonou a ordenação para padre por ser atormentado por sangrentas visões de genocídio de anjos, acaba se envolvendo na trama, ajudado pela professora da menina índia, Katherine (Virginia Madsen).
O interessante é que os anjos perdem seus olhos quando morrem e não tem sexo (são hermafroditas), gerando curiosidades nos médicos legistas que efetuavam as autópsias. Eu só queria saber como eles escondiam as grandes asas...
O filme é uma fantasia com fortes elementos de horror, que surpreende ao tornar uma história bíblica, uma fábula dos céus, em algo terrivelmente real, onde os anjos descem à Terra e matam violentamente, com o auxílio de poderes sobrenaturais.
Gabriel é um anjo aparentemente dócil, mas excessivamente mal, que recruta para auxiliá-lo em seus objetivos na Terra, seres humanos que estão agonizando e pendendo no limite entre a vida e a morte, transformando-os em verdadeiros zumbis andantes, como fez com o suicida Jerry (Adam Goldberg) no momento em que se enforcava, ou com a paciente terminal Rachael (Amanda Plummer), que recrutou quando morria na UTI de um hospital.
Uma sequência bem impressionante é quando o detetive e a professora procuram Gabriel em uma mina de cobre abandonada e presenciam cenas macabras de guerra, onde aparecem visões de dezenas de anjos agonizando empalados em grossas estacas.
No final, Lucifer (Viggo Mortensen) é obrigado a intervir, pois se Gabriel vencesse instalaria um novo inferno nos céus ameaçando seu reinado de horror. A menina indígena é salva (como todo desfecho feliz e óbvio, é claro) com um ritual de exorcismo libertando-a da alma do cruel coronel. E o ex-anjo de luz mata seu oponente em violento confronto arrancando-lhe o coração, a única forma de se matar um anjo (lembre-se disso quando estiver descontente com o seu), e devorando-o como um canibal faminto, reestabelecendo assim a ordem das coisas. A guerra nos céus termina, o inferno de Lucifer não é mais ameaçado, as almas dos seres humanos finalmente alcançam o paraíso, e eu só me pergunto o seguinte: o que Deus está achando de tudo isso?
Um filme interessante, original por tratar de assuntos religiosos delicados, criando uma ficção em torno de uma história inofensiva transformando-a em algo fantástico e ao mesmo tempo real e brutal, mostrando a tênue linha que separa anjos e demônios.

Nota do Autor: “Os Anjos Rebeldes” gerou outras duas sequências formando uma trilogia, ambas também protagonizadas por Christopher Walken: “Os Anjos Rebeldes II” (The Prophecy II, 1996) e “Os Anjos Rebeldes 3” (The Prophecy 3: The Ascent, 2000).

“Os Ankos Rebeldes” (The Prophecy / God’s Army, 1994) – avaliação: 7,5 (de 0 a 10)
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(postado em 17/01/06)

Os Anjos Rebeldes (The Prophecy / God’s Army, Estados Unidos, 1994). Duração: 90 minutos. Disponível em vídeo VHS, assim como as outras sequências também. Direção e Roteiro de Gregory Widen. Fotografia de Bruce Douglas Johnson e Richard Clabaugh. Produção de Joel Soisson. Música de David C. Williams. Elenco: Christopher Walken, Elias Koteas, Virginia Madsen, Eric Stoltz, Amanda Plummer, Viggo Mortensen, Moriah Shinning Dove Snyder, Adam Goldberg, Steve Hitner, J. C. Quinn.