A Ilha Desconhecida (The Unknown Island, EUA, 1948)

 


Filmes antigos de horror e ficção científica produzidos com orçamentos pequenos geralmente tinham fotografia original em preto e branco, e o primeiro filme colorido com história envolvendo dinossauros foi “A Ilha Desconhecida” (The Unknown Island, EUA, 1948), dirigido por Jack Bernhard e com Richard Denning no elenco, um ator com várias participações em divertidos filmes bagaceiros do gênero fantástico. Foi também um dos primeiros a utilizar atores fantasiados de monstros pré-históricos, com roupas desconfortáveis de borracha para simular dinossauros.

Com influências em similares como “King Kong” (1933) e “O Despertar do Mundo” (1940), e inspiração em ideias do livro “O Mundo Perdido” de Arthur Conan Doyle, o filme é uma aventura com elementos fantásticos típica da saudosa “Sessão da Tarde” da TV Globo.

Curto com apenas 75 minutos e com os sempre divertidos efeitos práticos toscos de “retroprojeção” (atores e monstros na mesma cena), “stop motion” (miniaturas em movimento para dar vida a dinossauros gigantes) e “suitmation” (atores vestindo trajes de ceratossauros e um monstro deformado parecido com um enorme gorila), o filme está disponível no “Youtube” com opção de legendas automáticas em português.

 

Na história, o aventureiro Ted Osborne (Phillip Reed) convence sua noiva Carole Lane (Virginia Grey) a financiar uma expedição de exploração numa “ilha desconhecida” supostamente habitada por dinossauros. Seu objetivo seria obter filmagens e fotografias da prova da existência dos monstros e lucrar com fama e dinheiro pela descoberta.

Para isso, eles contratam o inescrupuloso Capitão Tarnowski (Barton MacLane), auxiliado pelo imediato Sanderson (Dick Wessel), para levá-los de barco até a perigosa ilha no Oceano Pacífico. Eles também convencem a fazer parte da equipe um ex-soldado instável psicologicamente, o capitão dos fuzileiros navais John Fairbanks (Richard Denning), que lutou na Segunda Guerra Mundial e teve experiências traumáticas na mesma ilha.

Chegando ao local e após um motim da tripulação de nativos amedrontados, o grupo se instala num acampamento e enfrenta os perigos mortais de vários dinossauros, além de tensões e brigas entre os próprios membros da expedição por diferenças nos objetivos da missão e interesses pessoais, numa luta pela sobrevivência num ambiente hostil.      

 

“A Ilha Desconhecida” tem um roteiro com os tradicionais clichês de filmes com um grupo de exploração numa região povoada por monstros pré-históricos ameaçadores, com direito aos inevitáveis confrontos por interesses e um entediante triângulo amoroso com dois homens disputando a atenção da única e indefesa mulher do grupo, cujo noivo obcecado parece estar mais interessado em conseguir fotos dos dinossauros, e com isso perdendo espaço para o rival, um veterano de guerra galante, porém perturbado com os perigos da ilha selvagem.

O maior destaque, como na grande maioria dos filmes similares, são os efeitos práticos toscos, que apesar de estarem longe de ser convincentes, divertem justamente pela precariedade e o esforço honesto em simular os dinossauros, numa época distante com as dificuldades técnicas daquele período e recursos escassos pelo baixo orçamento.       

O ator Richard Denning (1914 / 1998) esteve em diversas preciosidades como “O Monstro da Lagoa Negra” (1954), “Invasão do Mundo” (1954), “O Cadáver Atômico” (1955), “O Dia do Fim do Mundo” (1955) e “O Escorpião Negro” (1957), entre outros.

Curiosamente, na cena com um grupo de ceratossauros, um dos atores no traje de borracha desmaiou devido ao forte calor e o momento de sua queda acabou sendo mantido no filme, parecendo que foi abatido com disparos de arma de fogo num confronto com a equipe da expedição.

 

(RR – 24/09/26)





A Galeria de Horrores do Dr. Terror (Gallery of Horror, EUA, 1967, antologia)

 


“A Galeria de Horrores do Dr. Terror” (Gallery of Horror, EUA, 1967), também conhecido como “Dr. Terror´s Gallery of Horrors”, é uma antologia com cinco histórias independentes apresentadas pelo lendário ator John Carradine. Ele também atua no primeiro conto e junto com o igualmente icônico Lon Chaney Jr., nomes eternamente associados ao cinema de Horror, estampam os cartazes promocionais para garantir maior visibilidade e chamar a atenção do público para o filme.

Com direção de David L. Hewitt, que tem no currículo “The Wizard of Mars” (1965) e “Jornada ao Centro do Tempo” (1967), o filme está disponível no “Youtube” com a opção de legendas automáticas em português. Sendo uma produção de orçamento pequeno, e apesar de contar com nomes importantes do Horror no projeto, para baratear os custos alguns atores do elenco interpretaram vários papéis diferentes nas histórias, que são curtas, rápidas e previsíveis, abordando temas clichês dentro do gênero, como bruxaria, vampirismo, cientista louco, zumbi e criatura de Frankenstein.

 

A primeira história chama-se “The Witches Clock”, com um casal formado pelo escritor de mistérios Bob Farrell (Roger Gentry) e sua esposa Julie (Karen Joy), que se muda para uma antiga mansão sombria construída no século XVI, para servir de inspiração com sua atmosfera sinistra para a criação de histórias. Ao chegarem eles conhecem o suspeito empregado Tristan Halby (John Carradine) e exploram a casa encontrando um misterioso relógio de parede no porão, onde descobrem através do médico do vilarejo Dr. Barnaby Finchley (Vic McGee), que é um objeto amaldiçoado que pertenceu a uma bruxa, Lucy Maylor, que faleceu em 1673 e tinha poderes mágicos.

Em seguida vem “King Vampire”, com um assassino em série em Londres matando suas vítimas e deixando marcas no pescoço sugerindo a ação de um vampiro. A investigação policial é do inspetor Marsch (Ron Brogan) e principalmente do detetive John Brenner (Ron Doyle). Eles não conseguem desvendar o caso, mesmo com a ajuda da idosa Sra. O´Shea (Margaret Moore), que teve um rápido contato com o assassino e revela que o autor dos crimes é alguém com rosto de cadáver.

O terceiro episódio é “Monster Raid”, com o cientista Dr. Charles Spalding (Ron Doyle, de novo) sendo enganado pela esposa infiel Helen (Rochelle Hudson) e assassinado pelo amante Dr. Sevard (Roger Gentry, novamente), que se apossa de sua descoberta científica. O cientista tinha decidido ser cobaia de suas próprias experiências, mas morreu numa overdose criminosa ficando em animação suspensa e transformando-se num zumbi com o cérebro preservado e corpo apodrecido, e uma vez ajudado pelo serviçal Desmond (novamente Vic McGee), abandona sua tumba para se vingar.

O penúltimo capítulo é “Spark of Life”, ambientado na Escócia de meados de 1800 com o “cientista louco” Dr. Mendell (Lon Chaney Jr.), que alega que a eletricidade é a principal força da vida, capaz de rejuvenescer células mortas, com ideias inspiradas nos estudos do Barão Eric Von Frankenstein. Ele é persuadido pelos estudantes de medicina Dr. Cushing (uma homenagem ao lendário ator Peter Cushing, e interpretado aqui novamente por Ron Doyle) e Dr. Sedgewick (Joey Benson) a realizar uma experiência para reanimar o cadáver de um criminoso condenado à morte por assassinato, Amos Duncan (Vic McGee, em seu terceiro papel), com um resultado catastrófico.

A última história foi anunciada pelo narrador interpretado por John Carradine como “Count Alucard”, mas foi creditada como “Count Dracula”. Apesar dos avisos dos aldeões supersticiosos de um pequeno vilarejo com frases como “Quando o relógio bate meia-noite ninguém se atreve a sair”, Jonathan Harker (Roger Gentry, ele de novo) vai visitar um castelo no alto de um penhasco à beira do mar, habitado pelo sinistro Conde Alucard (Mitch Evans) e a vampira Medina (novamente Karen Joy). Após mortes misteriosas na região, os aldeões liderados pelo burgomestre (novamente Vic McGee), decidem atacar o castelo com a ajuda de Harker, que por sua vez, esconde um terrível segredo de todos.   

 

Com apenas cinco dias de filmagens (fato que ajuda a evidenciar a escassez de recursos da produção e explicar a curta metragem dos episódios e suas histórias rasas), “A Galeria de Horrores do Dr. Terror” (um título exageradamente sonoro para chamar a atenção do público) foi lançado na mesma época de antologias similares produzidas pelo estúdio inglês “Amicus” (rival da “Hammer”), como “As Profecias do Dr. Terror” (1965), “As Torturas do Dr. Diabolo” (1967), “A Casa Que Pingava Sangue” (1971), “Contos do Além” (1972), “O Asilo do Terror” (1972), “A Cripta dos Sonhos” (1973) e “Vozes do Além” (1974).   

De uma maneira geral, todos os episódios são fracos, com histórias que apostam unicamente nos velhos clichês, e por serem muito curtos tudo é contado rapidamente e sem profundidade. O que garante alguma diversão para os apreciadores dos filmes bagaceiros de horror, além da sempre bem-vinda presença de ícones como John Carradine e Lon Chaney Jr., são os efeitos práticos toscos com as maquiagens e cenários, e a tradicional atmosfera gótica do último episódio com um cemitério envolto em névoa espessa, uma cripta com túmulos gelados e um grupo de aldeões furiosos com tochas de fogo nas mãos, ávidos por encontrar e punir o responsável por uma ameaça sobrenatural.

 

(RR – 01/09/26)