3 Cortes (DVD com 3 curtas nacionais de horror gore)

“Violência, sadismo e carnificina em dose tripla, o mais extremo projeto do cinema brasileiro”

O selo paulista “Mutilation Records”, especializado no lançamento de CDs de bandas de metal extremo brasileiras (como “Ancestral Malediction” e “Bestial”), e estrangeiras (os alemães do “Desaster”, entre outros), também abriu espaço para a distribuição de filmes nacionais independentes de horror. Sendo assim, em Janeiro de 2006 foi lançado o DVD “3 Cortes”, trazendo três curtas metragens de horror gore: “Sozinho”, de André ZP (“Cromossomo3 Filmes”, 2003), “Coleção de Humanos Mortos”, de Fernando Rick (“Black Vomit Filmes”, 2005), e “06 Tiros, 60 ml”, de André Kapel Furman (“Cinema de Trincheira”, 2005). Além dos três filmes sangrentos, todos disponíveis com legendas em inglês visando uma divulgação internacional, o DVD ainda traz interessantes materiais extras como trailers, documentários de “making of” e outros vídeos.

“Sozinho”

Sinopse: Um homem solitário (José Salles) conhece uma bela mulher (Mara Vanessa Prieto) numa loja de Cds e numa noite de solidão, ele decide marcar um encontro na casa dela, não imaginando o pesadelo que o aguardava.
Comentários: “Sozinho” é uma produção de 2003 da ex-“Quizumba Filmes”, atual “Cromossomo3 Filmes”, com direção e roteiro de André ZP. São apenas treze minutos de uma história perturbadora de horror explorando com maestria a solidão, e apresentando elementos interessantes como o fetiche sexual por pés femininos e a opressora violência urbana. Na minha opinião é o melhor curta da coletânea, onde destaco a excelente interpretação do ator José Salles (grande artista da cena underground, escritor, videomaker, fanzineiro e historiador de quadrinhos e cinema), muito convincente ao dar vida para um personagem angustiado com a solidão, que quase não fala e que consegue transmitir um incrível sentimento depressivo apenas com suas expressões faciais. Outro destaque também é a bela atriz Mara Vanessa Prieto (e seu lindo pezinho assassino), sem contar o excepcional e memorável trabalho na concepção dos efeitos especiais (de André Kapel Furman e Fernando Rick) que culminaram numa cena ultra violenta de esquartejamento, muito realista e impressionante. A trilha sonora, emprestada da banda de rock paulistana “Hurtmold”, também se encaixou perfeitamente no clima depressivo do protagonista. Essa versão do DVD (considerada como “versão do diretor”) é levemente diferente da anterior distribuída dois anos antes em VHS (e que tem a minha preferência). Como extra, temos um trailer de um minuto, um videoclip de três minutos dirigido por André ZP, da música “Eu Não Bato Palmas”, da banda de metal “Name It Yourself”, sendo uma crítica super legal e violenta ao “falso metal”, e um documentário de “making of”, com depoimentos da equipe de produção, e que infelizmente não estava disponível na minha cópia do DVD, pois um erro no menu animado mostrava novamente o filme “Sozinho”, a partir da metade da projeção, em vez de aparecer o documentário. Porém, para minha sorte, já conhecia o “making of” da fita VHS. Avaliação: 10 (de 0 a 10)

“Coleção de Humanos Mortos”

“Eu sempre tive o desejo de fazer as pessoas sentirem dor e que elas me fizessem sentir dor. Sempre pareci gostar de tudo que dói. O desejo de infligir dor. Isto é que é o máximo.”
– Albert Fish, famoso serial killer conhecido como “O Vampiro do Brooklyn”

Sinopse: Um assassino violento (Ulisses Granados) coleciona humanos mortos numa “sala de tortura”, no sotão de sua casa, onde primeiro se diverte infligindo dor às suas vítimas, entre elas uma bela mulher (Tiara Curi), raptada de sua casa. O psicopata é influenciado a cometer os bárbaros crimes seguindo orientações malignas das personificações do ódio (Luis Sorrentino), da loucura (Fábio Castro) e do prazer (Marina Anlop).
Comentários: A história é bem simples e direta, mostrando em vinte minutos as crueldades de um assassino ao torturar suas vítimas e o prazer mórbido e insano de fazê-las sentir dor. Destaco a convincente interpretação do ódio, sempre incitando o psicopata para a violência, e também a atuação do louco na camisa de força, sempre fazendo comentários dementes e rindo de forma perturbadora, incomodando o espectador. Outro destaque digno de nota é o excelente trabalho com os efeitos especiais sangrentos, a cargo de André Kapel Furman, que consegue com poucos recursos e muita criatividade, descarregar um banho de sangue na tela. “Coleção de Humanos Mortos” é um autêntico exemplo do cinema nacional de horror extremo e cujo trabalho e dificuldades enfrentadas merecem nossa admiração. Curiosamente, uma das vítimas do maníaco está assistindo o vídeo “Sozinho” na televisão momentos antes de sentir a dor corroer sua carne. Como material extra, temos um trailer de 45 segundos, e um “making of” de vinte minutos de duração, com comentários de bastidores do diretor Fernando Rick, e de técnicos da equipe de produção como André ZP (som) e André Kapel Furman, além do ator Luis Sorrentino. Avaliação: 7,5 (de 0 a 10)

“06 Tiros, 60 ml”

Sinopse: Um perigoso traficante de drogas (Fernando Pavão) é morto por overdose. O cadáver está num hospital à espera de uma autópsia, e misteriosamente retorna à vida, iniciando um massacre entre os funcionários, entre eles uma bela enfermeira (Thais Simi), culminando com um confronto sangrento com um outro traficante (Nicolas Trevijano) de uma facção rival.
Comentários: Conforme informado na contra capa do DVD, esse é o quarto curta realizado pelo manifesto “Cinema de Trincheira”, de André Kapel Furman. O filme tem dezesseis minutos e parece mesmo uma mistura de “Desejo de Matar” com “Re-animator” (definição dada por um jornal que resenhou o filme). O maior destaque, a exemplo dos outros dois curtas do DVD, é o excelente trabalho com os efeitos especiais, mostrando mortos vivos sangrentos e corpos abatidos friamente por disparos de revólver. Tem até uma perigosa e convincente cena como um homem em chamas... De material extra, além de um trailer de um minuto e meio de duração, temos a exibição de outros dois curtas do mesmo diretor: “Don´t Smoke”, de três minutos e meio, com Thais Simi e Marcio Brodt, e mostrando o quanto perigoso pode ser o cigarro para os olhos, e “Hotel”, com doze minutos, uma história pessimista sobre zumbis. Para completar os extras, ainda temos um “making of” de treze minutos, com informações interessantes sobre o processo de filmagem de várias cenas e depoimentos dos envolvidos no projeto. Avaliação: 7 (de 0 a 10)

O preço do DVD é apenas R$ 20,00 e pode ser comprado pela internet ou diretamente na loja da “Mutilation Records”, que fica na Galeria do Rock, no Centro de São Paulo: Rua 24 de Maio 62, segundo andar, loja 370 – CEP 01041-000 – telefone (11) 3222-8253 – site: www.mutilationrecords.com.br / e-mail: info@mutilationrecords.com.br

“O cinema independente nacional em vermelho!”

“3 Cortes” – coletânea de curtas metragens nacionais de horror gore.
“Sozinho” (Cromossomo3, 2003) + “Coleção de Humanos Mortos” (Black Vomit, 2005) + “06 Tiros, 60 ml” (Cinema de Trincheira, 2005) # 363 – data: 17/01/06
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(postado em 17/01/06)

Escuridão (The Dark, Inglaterra, 2005)

Aproveitando a sugestiva data de Sexta-Feira 13 de Janeiro de 2006, a “PlayArte” tratou de lançar nos cinemas brasileiros “Escuridão” (The Dark), um sinistro thriller de horror psicológico e história de fantasmas, estrelado por Sean Bean (“Plano de Vôo”) e a belíssima Maria Bello (“Marcas da Violência”).

Adelle (Maria Bello) vive nos Estados Unidos com sua filha adolescente Sarah (Sophie Stuckey), e está enfrentando uma crise conjugal com seu marido James (Sean Bean). Ele está morando do outro lado do Oceano Atlântico, numa casa de campo no alto de um belíssimo penhasco à beira do mar, no País de Gales. Ela decide viajar com sua filha ao encontro do pai, para minimizar a saudade e tentar uma reconciliação. Porém, lá chegando, a mulher não imaginaria a sucessão de trágicos acontecimentos que desabariam sobre sua vida, quando Sarah, que culpa a mãe pela separação, sofre um acidente misterioso no mar, sendo tragada para seu interior, coincidindo com o surgimento de uma garota estranha chamada Ebrill (Abigail Stone), vítima de uma história local sangrenta de muitos anos atrás, envolvendo um culto pagão de sacrifício humano, e que revela saber onde está Sarah, incitando Adelle a tentar desesperadamente salvar sua filha da “escuridão”.

Primeiramente, vale a pena um comentário curioso: no dia 14 de Janeiro de 2006 fui ao centro de São Paulo para comprar meu ingresso antecipado para o show da lendária banda americana de metal extremo “Deicide”. Uma vez por lá, decidi assistir “Escuridão” no Cine Marabá, tradicional e imensa sala de cinema que fica na Av. Ipiranga, próximo ao cruzamento com a Av. São João. No passado, vi dezenas de filmes no Marabá e queria resgatar um sentimento de nostalgia após muitos anos afastado, vendo os filmes nos modernos complexos de shopping centers. Para quem não conhece o Marabá, posso dizer que é uma sala enorme, com poltronas desconfortáveis e instalações precárias, mas que possui aquele “charme” característico de um prédio antigo localizado no tumultuado centro de uma grande cidade. Mas minha decepção foi tão grande quanto o tamanho da sala, pois o cinema está pessimamente conservado, os banheiros estão podres e imundos, e as paredes estão manchadas e corroídas pelo tempo, para não citar outras coisas mais. É uma pena que a “PlayArte”, uma empresa conceituada na distribuição de filmes no Brasil, exiba seus filmes no Marabá e não procura investir numa reforma do cinema, que mereceria um tratamento mais digno. (Nota do Autor: Em Maio de 2009 o Cine Marabá foi reinaugurado após receber uma reforma e se transformar num multiplex moderno).

Quanto ao “Escuridão”, confesso que inicialmente não estava dando importância por vários motivos: o filme tem um nome completamente clichê, e seu tema sobre história de fantasmas e trevas está exageradamente explorado, principalmente pela enxurrada de produções similares nos últimos anos, todas muita parecidas entre si na sua idéia básica. De positivo numa análise prévia, temos apenas o fato do elenco principal trazer os experientes e talentosos atores Sean Bean e Maria Bello.

Porém, depois de ver o filme, fui convencido a considerá-lo com uma diversão até razoável sem muita exigência, mesmo baseando sua história num clichê desgastado. Pois “Escuridão” apresenta alguns elementos e seqüências interessantes como as cenas no abatedouro de animais, um local sinistro, palco de morte, tortura e dor, além também dos momentos passados no universo paralelo da escuridão, num mundo dos mortos, sempre sombrio e perturbador. E principalmente, vale evidenciar o desfecho ousado e fora do convencional (como nos interessantes “A Sétima Vítima” e “Habitantes da Escuridão”), reservando um destino trágico para um dos protagonistas, através de uma reviravolta acertada do roteiro. Enfim, um filme que inicialmente não despertaria grande atenção, mas que merece uma conferida.

“Escuridão” (The Dark, Inglaterra, 2005) # 362 – data: 16/01/06 – avaliação: 6 (de 0 a 10)

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(postado em 16/01/06)

Bruxa - A Face do Demônio (The Witches / The Devil´s Own, Hammer, Inglaterra,1966)

“Faça-me uma boneca de cabeça dourada. Amarre-me dos pés à cabeça. Dê-me uma pele para dançar.”

No mês de Janeiro de 2006 foi lançado nas bancas o número 15 da “Revista Dark Side DVD”, da “Works Editora”, distribuindo mais um filme da produtora inglesa “Hammer” para a satisfação dos colecionadores e fãs desse nostálgico estúdio responsável por uma infinidade de divertidos filmes entre o final dos anos 50 e meados da década de 70 do século passado. Trata-se agora de “Bruxa – A Face do Demônio” (The Witches / The Devil´s Own, 1966), estrelado por Joan Fontaine e Kay Walsh, e que traz como material extra as biografias dessas duas atrizes e uma sinopse. O filme já havia sido lançado originalmente no Brasil com o nome “A Face do Demônio”, e recebeu o título alternativo “The Devil´s Own” nos Estados Unidos. A revista traz artigos abordando o filme em questão, além do clássico “Haxan” (Suécia, 1922), de Benjamin Christensen, o perfil da atriz Joan Fontaine, e um cartaz do clássico “O Homem de Palha” (The Wicker Man, 73), com Christopher Lee.

Uma professora, Gwen Mayfield (Joan Fontaine), está trabalhando num país pobre da África e é forçada pelos nativos locais a abandonar a escola, sofrendo forte pressão psicológica de um curandeiro praticante de cultos vodu. Retornando para a Inglaterra após enfrentar uma crise nervosa, ela é convidada a trabalhar num vilarejo afastado chamado Heddaby, onde é bem recebida pelos moradores e curiosamente descobre que não existem igrejas, pois a única está abandonada e destruída há duzentos anos.
Entre os moradores está o casal de irmãos Alan Bax (Alec McCowen) e Stephanie (Kay Walsh), proprietários da escola, o jardineiro Dowsett (John Collins), o açougueiro Bob Curd (Duncan Lamont), que demonstra grande habilidade em arrancar a pele de coelhos, a jovem Valerie Creek (Michele Dotrice), filha da governanta da escola, e que está sempre disposta a servir a recém chegada professora, e outros. E entre os alunos destaca-se um casal de namorados adolescentes, Ronnie Dowsett (Martin Stephens, garoto que esteve anos antes nos clássicos “Os Inocentes” e “A Aldeia dos Amaldiçoados”) e Linda Rigg (Ingrid Brett), que desperta uma atenção especial da Prof. Mayfield, por causa de estranhos acontecimentos com eles e suas famílias, que aos poucos vão revelando uma série de mistérios no pequeno vilarejo, envolvendo rituais de feitiçaria.

“Bruxa – A Face do Demônio” é mais uma contribuição da “Hammer” para o subgênero do cinema de horror que aborda o tema da bruxaria e faz parte de uma galeria de filmes que tiveram atrizes famosas em final de carreira atuando em suas histórias, como é o caso de Joan Fontaine, estrela de filmes como “Rebeca, a Mulher Inesquecível” (40) e “Suspeita” (41), ambos de Alfred Hitchcock. Essa tendência tomou forma principalmente após o sucesso do suspense psicológico “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?” (62), estrelado pelas veteranas Betty Davis e Joan Crawford.
O filme é dirigido por Cyril Frankel, cineasta pouco expressivo no time da “Hammer”. O roteiro é de Nigel Kneale, baseado em livro de Peter Curtis, cujos direitos para filmagem foram adquiridos pela atriz Joan Fontaine, que apresentou o projeto ao estúdio inglês. Entre os destaques, vale mencionar a seqüência do ritual de bruxaria, com os seguidores da seita dançando freneticamente ao som de batidas de tambor em meio à recitação de frases cabalísticas, preparando o culto para um sacrifício humano.

“Bruxa – A Face do Demônio / Face do Demônio, A” (The Witches / The Devil´s Own, Inglaterra, 1966) # 361 – data: 16/01/06 – avaliação: 7,5 (de 0 a 10)
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(postado em 16/01/06)


Videodrome - A Síndrome do Vídeo (Videodrome, Canadá / EUA, 1982)



Primeiro ele controla a sua mente... depois ele destrói seu corpo.

O diretor canadense David Cronenberg possui em seu currículo uma grande variedade de filmes de horror e ficção científica que são muito cultuados pelos fãs do cinema fantástico. Abordando temáticas polêmicas e não convencionais, suas obras sempre tem despertado um interesse especial colocando-o como um dos cineastas mais lembrados pelos apreciadores do estilo, e figurando ao lado de nomes consagrados como George A. Romero, John Carpenter, Roger Corman, Dario Argento, Terence Fisher e outros, cujas obras passaram a estar eternamente associadas ao gênero.
O filme “Videodrome – A Síndrome do Vídeo” (Videodrome, 1982) é uma dessas obras cultuadas justamente por seu caráter diferenciado, numa curiosa mistura entre elementos de ficção científica, horror, sexo, violência e surrealismo, sendo considerado um destaque na filmografia de Cronenberg, que ainda inclui outras obras similares que exploram a complexidade da mente humana como “Scanners – Sua Mente Pode Destruir” (Scanners, 1981), “A Hora da Zona Morta” (The Dead Zone, 1983, este baseado em livro de Stephen King), “Mistérios e Paixões” (Naked Lunch, 1991, este inspirado em obra de William S. Burroughs), “ExistenZ” (1999), e “Spider – Desafie Sua Mente” (Spider, 2002, este a partir de livro de Patrick McGrath).

O empresário Max Renn (James Woods) é o proprietário de uma pequena estação de televisão a cabo chamada “Civic TV”, a qual é conhecida por apresentar programas de sexo e violência em sua programação fora dos padrões. Certo dia, ele recebe a informação do seu técnico Harlan (Peter Dvorsky), sobre a captação de uma transmissão com imagens de um programa clandestino onde pessoas eram torturadas e assassinadas de verdade, na linha dos conhecidos “snuff movies”.
Mais tarde, ao investigar a origem do programa, Max descobre que a transmissão trata-se de um show de televisão chamado “Videodrome”, algo como “Arena de vídeos”, uma experiência secreta que consiste em transmitir imagens de violência que alteram as percepções de quem assiste, causando danos fatais no cérebro através de um tumor, e criando uma série de efeitos de alucinações bizarras numa mórbida confusão mental entre realidade e fantasia macabra.
A namorada de Renn, uma sensual e sadomasoquista radialista chamada Nicki Brand (Deborah Harris), é seduzida pelo programa tornando-se uma vítima de seus efeitos, e o próprio Max torna-se também um escravo do “Videodrome”, sendo manipulado por seus criadores a eliminar seus sócios Moses (Reiner Schwartz) e Raphael (David Bolt), para utilizaram o canal a cabo como forma de disseminação do programa ilegal.
Uma vez sofrendo terríveis alucinações com deformações em seu corpo, Max se vê obrigado a procurar uma solução recorrendo ao misterioso Prof. Brian O’Blivion (Jack Creley) e sua bela filha Bianca (Sonja Smits), que possuem envolvimentos e informações importantes sobre o programa. Mais tarde, ele entra em contato com o inescrupuloso empresário Barry Convex (Leslie Carlson) e passa a descobrir que utilizando seu próprio corpo mutante, numa mistura de fantasia e realidade, poderia ser a única forma de combater seus inimigos.

Alguns dos destaques do filme são as cenas de surrealismo envolvendo Max Renn, em sequências de alucinação onde ele explora o interior de seu corpo através de uma enorme fenda aberta na barriga, na qual são colocadas as fitas de vídeo com a programação do “Videodrome”; ou a cena onde um dos personagens literalmente se decompõe em feridas pútridas e hematomas pestilentos (num excepcional trabalho de maquiagem de Rick Baker); ou ainda os discursos do “profeta da mídia” Prof. Brian O’Blivion, criador do obscuro programa e sua primeira vítima, ao tentar esclarecer o significado de “Videodrome” e suas consequências, como reproduzido na citações abaixo:
“A batalha pela mente da América do Norte será travada na arena dos vídeos, o Videodrome. A tela da televisão é a retina da mente. Portanto, a tela da televisão é parte da estrutura física do cérebro. Portanto, o que aparece na tela da televisão surge como pura experiência para aqueles que assistem. Portanto, a televisão é a realidade e a realidade é menos do que a televisão.”
“Acho que este desenvolvimento na minha cabeça, esta cabeça, esta aqui, não acredito que seja realmente um tumor, uma forma borbulhante descontrolada de carne, mas que seja, na verdade, um novo órgão, uma nova parte do cérebro. Acho que doses maciças do sinal do Videodrome criarão um novo desenvolvimento do cérebro humano, que produzirá e controlará a alucinação a ponto de mudar a realidade humana. Afinal, não há nada real, além de nossa percepção da realidade.”

David Cronenberg nasceu em 1943 em Toronto, Canadá, e sua carreira inclui mais de trinta filmes desde 1966. Curiosamente, a partir de meados dos anos 1980, ele começou a aparecer em pequenas pontas em vários filmes também, sendo alguns de horror e suspense como “A Mosca” (1986) e “Crash – Estranhos Prazeres” (1996), ambos com sua própria direção, além de “Nightbreed” (1990), que foi dirigido pelo cultuado escritor Clive Barker, “Medidas Desesperadas” (1996), “Ressurreição – Retalhos de Um Crime” (1999) e “Jason X” (2001). Cronenberg também dirigiu dois filmes de horror muito apreciados pelos fãs do gênero, “Calafrios” (Shivers, 1975), com a musa Barbara Steele no elenco, numa história sobre parasitas contagiosas que transformam as pessoas em maníacas sexuais, e “A Mosca” (The Fly, 1986), refilmagem de uma preciosidade dos anos 1950, “A Mosca da Cabeça Branca” (1958), sobre as experiências de um cientista no teletransporte da matéria, e que acidentalmente transforma-se num monstro.
O responsável pelos excelentes efeitos de maquiagem em “Videodrome” foi o especialista Rick Baker, um dos melhores profissionais dessa área no mundo cinematográfico atual. O americano Baker nasceu em 1950 em New York e é o responsável por trabalhos premiados com o cobiçado “Oscar” em “Um Lobisomem Americano em Londres” (1981) e mais recentemente com “Homens de Preto” (1997) e “O Grinch” (2000). Ele especializou-se em filmes fantásticos contribuindo significativamente para a realidade dos diversos monstros do cinema. Curiosamente, ele assinou o trabalho de maquiagem de um obscuro e super interessante filme “B” de 1977, “O Incrível Homem que Derreteu”, uma verdadeira pérola rara de baixo orçamento que fala de um astronauta que ao retornar de uma missão espacial, traz um vírus alienígena que o faz derreter literalmente, de forma crescente e vagarosa, transformando-o num psicopata monstruoso. Os efeitos são excelentes já mostrando a competência profissional de Rick Baker em início de carreira.
No elenco destaca-se o experiente ator James Woods, cuja carreira já chega a quase uma centena de filmes. Americano nascido em Utah em 1947, Woods participou de outros filmes de horror como “Olho de Gato” (1984), com um conto inspirado em Stephen King e “Vampiros” (1998), de John Carpenter, ou da paródia “Todo Mundo em Pânico 2” (2001), ou ainda do clássico sobre gangsters “Era Uma Vez na América” (1984), de Sergio Leone.

Curiosamente, a maioria dos filmes de Cronenberg lançados no Brasil receberam títulos mal escolhidos, como por exemplo “Enraivecida na Fúria do Sexo” (Rabid, 1977), “Os Filhos do Medo” (The Brood, 1979), “Gêmeos, Mórbida Semelhança” (Dead Ringers, 1988) e “Mistérios e Paixões” (Naked Lunch, 1991), que são bem diferentes dos seus respectivos nomes originais. Sem contar os subtítulos totalmente desnecessários que alguns filmes ganharam ao chegarem no país como “Sua Mente Pode Destruir” (Scanners), “A Síndrome do Vídeo” (Videodrome), “Estranhos Prazeres” (Crash) ou “Desafie Sua Mente” (Spiders). É simplesmente inacreditável como os responsáveis por nomear os títulos nacionais insistem em complicar uma tarefa fácil, ou seja, apenas traduzir o nome para nosso idioma ou então manter o mesmo original por questões normais de incompatibilidade.
Outra curiosidade do filme é uma sequência onde num diálogo envolvendo o personagem Max Renn o Brasil é citado, juntamente com a América Central, como um lugar onde os vídeos clandestinos com violência são considerados subversivos e seus responsáveis são executados. Se Cronenberg tivesse pesquisado melhor o assunto para seu roteiro, descobriria que no Brasil não existe pena de morte.
Para os colecionadores, o DVD de “Videodrome – A Síndrome do Vídeo” foi lançado no Brasil pela “Universal”, só que trazendo muito pouco material extra, sendo que os fãs que poderiam ser recompensados com algum outro material interessante adicional como “making of” ou entrevistas (e de preferência legendado em português), são obrigados a se contentar apenas com um trailer de cinema e sem legendas.

Vida longa para a nova carne!

“Videodrome – A Símdrome do Vídeo” (Videodrome, 1982) – avaliação: 8 (de 0 a 10)
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Videodrome – A Síndrome do Vídeo (Videodrome, Canadá / Estados Unidos, 1982). Universal Pictures. Duração: 87 minutos. Direção e roteiro de David Cronenberg. Produção de Pierre David, Claude Héroux, Lawrence Nesis, Victor Solnicki. Fotografia de Mark Irwin. Música de Howard Shore. Edição de Ronald Sanders. Maquiagem de Rick Baker, Thomas Booth e Kevin Brennan. Efeitos Especiais de James Stuart Allan e Frank C. Carere. Elenco: James Woods (Max Renn), Sonja Smits (Bianca O’Blivion), Deborah Harry (Nicki Brand), Peter Dvorsky (Harlan), Leslie Carlson (Barry Convex), Jack Creley (Professor Brian O’Blivion), Lynne Gorman (Masha), Julie Khaner (Bridey), Reiner Schwartz (Moses), David Bolt (Raphael), Lally Cadeau (Rena King), Henry Gomez (Brolley), Harvey Chao, David Tsubouchi, Kay Hawtrey, Sam Malkin, Bob Church, Jayne Eastwood, Franciszka Hedland.






O Túnel do Horror (Night Shift Collection, EUA, 1983 / 87 / 95)

“Dizem que uma grande jornada começa com um passo único. Porém, para os cineastas a jornada tem sempre sido árdua. Os filmes a seguir são dedicados aos jovens, brilhantes talentos, trabalhando em escolas de cinema e garagens por todo o mundo, que devotaram suas vidas e energia para os curtas metragens. Dando a nós, o público telespectador, muitas horas de prazer e entretenimento que tanto nós apreciamos. Estes filmes são um trabalho de amor dos diretores. É o primeiro passo deles.”

Com essa introdução escrita inicia-se “O Túnel do Horror”, uma antologia com três episódios curtos de horror, sendo um deles baseado na obra literária de Stephen King. O filme foi lançado no Brasil no final de Janeiro de 2005 no formato VCD através da revista “VCD Collection” ano 1 número 2, da “Editora Van Blad”. Antes, já havia sido lançado por aqui no formato VHS pela extinta “Mundial Filmes”.

A primeira história é “Discípulos do Corvo” (Disciples of the Crow, 1983, 20 minutos), dirigido por John Woodward, baseado no conto “As Crianças do Milharal” (Children of the Corn), do livro “Sombras da Noite” (Night Shift), de Stephen King, e que também foi filmado em 1984 como “Colheita Maldita”.
As outras duas histórias são “O Quarto 321” (The Night Waiter, 1987, 15 minutos), dirigido, escrito, produzido e editado por Jack Garrett, e “A Hora da Morte” (Killing Time, 1995, 30 minutos), com direção de Damian Harris e roteiro dele em parceria com Patrick Aumont, baseados no conto “The Late Shift”, de Dennis Etchison, e que tem no elenco o ator Eric Stoltz em início de carreira, ele que se destacaria posteriormente transformando-se num rosto mais conhecido pelo público.
São três episódios explorando temas sobrenaturais como uma pequena cidade dominada por uma obscura seita religiosa formada por crianças; um jovem garçom que tem uma experiência macabra num quarto assombrado de um hotel; e um roteirista de quadrinhos que enfrenta problemas com seu editor para vender suas histórias e que passa a misturar ficção e realidade, se envolvendo com uma bizarra conspiração de zumbis.

“Discípulos do Corvo”
“Profane a terra e isto te vomitará dela!”


A ação inicia-se em Outubro de 1971, onde numa pequena cidade americana do Estado de Oklahoma chamada Jonah, um grupo de crianças lideradas pelo misterioso garoto Billy (Steven Young), se une através de uma estranha seita religiosa maligna que venera o milho e o corvo como sagrados e onde “O Senhor é aquele que caminha atrás das fileiras”. Eles planejam silenciosamente uma conspiração que consiste em eliminar todos os adultos da cidade através de uma chacina.
Passados doze anos, em 1983, a cidade está deserta e só é habitada por crianças. Um casal que sempre está brigando, Vicky (Eleese Lester) e Burt (Gabriel Folse), estão viajando de carro nas proximidades e atropelam um menino no meio da estrada. Com o corpo no porta-malas eles decidem ir até a cidade mais próxima para relatar às autoridades o acidente. Porém, chegando em Jonah, encontram uma cidade estranhamente deserta a abandonada há vários anos, e quando Burt entra numa igreja é surpreendido por um grupo de adolescentes e crianças armadas com machados e foices que não gostam de forasteiros, liderados pelo mesmo garoto Billy, agora mais velho e mais perigoso ainda (interpretado pelo diretor John Woodward).

“O Quarto 321”
“Existe um hotel no centro da cidade, perto da baía. É um lugar antigo. É bonito e tudo mais, mas cheira a mofo. A propósito, eu trabalhei lá só por uma noite. E vocês sabem? Foi a pior noite da minha vida...”


Essas são as palavras do jovem Walter Tallen (Brian Caldwell), um estudante que para pagar a escola decide trabalhar como copeiro no turno da noite de um grande hotel chamado “Bay View”. Em sua primeira noite de trabalho, ele conhece o gerente Terry (Ray Adamski), que gosta de ser brincalhão e conta uma história de fantasmas sobre um casal morto há mais de quarenta anos atrás no quarto 321, que ficou fechado por todo esse tempo e tem fama de assombrado.
O jovem garçom diz não acreditar em fantasmas, mas não consegue evitar um certo desconforto com a história e principalmente depois de ouvir e ver eventos estranhos sobre o tal quarto 321. Porém, pensando ser apenas mais uma brincadeira do gerente, o copeiro não imaginaria a bizarra experiência que estava por testemunhar.

“A Hora da Morte”
“Em todas as mentes existe uma linha que separa o que é visto do que é imaginado. É escura e, na maioria das vezes, intocável. Muitos dizem que ela é perigosa, mas eu busco essa linha dentro de mim à procura do que me amedronta, do que irá assustá-lo. Até que como uma foto, ela surge das trevas, num sonho, e eu transformo em história.”


Dessa forma, o roteirista de histórias em quadrinhos Macklin (Stephen Nichols) procura encontrar inspiração para escrever suas histórias e tentar vendê-las. Porém, seu editor Kessler (Leslie Morris), apesar de gostar delas, ainda alega que não são suficientes para assustar realmente o público que procura emoções fortes.
Decepcionado, o escritor retorna para sua casa, onde vive com um amigo fotógrafo chamado Whitey (Del Zamora). Juntos, durante a madrugada, eles decidem ir numa loja de conveniências para comprar cigarros e comida. Lá, eles encontram Eileen (Danna Garen), que está trabalhando como atendente e que já foi namorada de Whitey no passado. Porém, o comportamento dela é suspeito, parecendo uma zumbi, com profundas olheiras e movimentos frios.
A partir daí, uma sucessão de eventos estranhos passam a acontecer na vida do escritor Macklin, misturando ficção com realidade, e principalmente após a morte misteriosa de seu amigo Whitey, ele se depara com uma perigosa conspiração envolvendo mortos-vivos e uma obscura agência de empregos.
Curiosamente, o gerente da loja de conveniências é interpretado por Eric Stoltz, um nome mais conhecido no cinema.

Todos os três episódios possuem alguns elementos em comum. A começar por um nível de qualidade muito semelhante, e que pode ser classificado entre mediano e baixo. São todos trabalhos iniciantes de estudantes de cinema, com características amadoras de produção e poucas pessoas que fazem de tudo. E todos exploram argumentos básicos de horror, apresentando situações sobrenaturais. Porém, falta claramente mais energia e intensidade de horror nas histórias, cujas idéias são até boas, mas que não conseguiram estabelecer a interação necessária com quem está assistindo. Ou seja, são apenas mais três contos simples de horror que não despertam grande interesse. Mas, independente disso, os resultados finais devem ser enaltecidos devido ao trabalho idealista de seus realizadores, que com orçamentos minúsculos ou quase inexistentes, tentaram contar suas histórias fantásticas da melhor forma possível.
Para os colecionadores, certamente vale a aquisição do VCD de “O Túnel do Horror”, seja por curiosidade, ou principalmente, por se tratar de filmes curtos que não fazem parte da badalação que envolve as grandes produções. A revista “VCD Collection” cometeu vários deslizes graves ao revelar informações em excesso das histórias dos episódios, além de não informar que apenas um deles é baseado em Stephen King. Sem contar aquelas frases forçadas escolhidas para a divulgação, as quais são tão ruins e horrorosas (no mau sentido), que nem devem ser levadas a sério. Coisas do tipo “O Melhor do trash movie do mestre do horror.” (escrita na capa da revista), ou ainda “Quando o ruim fica bom. O melhor do trash.” (que está na capa do VCD).

“O Túnel do Horror” (Night Shift Collection, EUA, 1983 / 87 / 95) # 298 – data: 09/02/05 – avaliação geral: 6 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com.br
blog: www.juvenatrix.blogspot.com.br
(postado em 16/01/06)

Trash, Náusea Total (Bad Taste, Nova Zelândia, 1987)



“Carne humana para hamburgers intergaláticos”

A “Editora Van Blad” lançou no formato VCD com distribuição nas bancas de jornais no início de Fevereiro de 2005 pela revista “VCD Collection” ano 1, número 4, o primeiro trabalho de maior porte do cineasta Peter Jackson, responsável por “Meet the Feebles” (89), “Fome Animal” (92), “Os Espíritos” (96) e a trilogia de “O Senhor dos Anéis” (2001/02/03). Trata-se de “Trash, Náusea Total” (Bad Taste, 87), que já havia sido lançado no Brasil no formato VHS e fora de catálogo há muito tempo.
É um filme de baixo orçamento e muita violência e sangue, onde Peter Jackson fez de tudo, desde atuar em dois papéis diferentes, dirigir, produzir, escrever o roteiro, editar e até criar os efeitos especiais e a maquiagem, além da direção da fotografia, filmando nos finais de semana com amigos e uma câmera 16 mm. Inicialmente, a idéia era apenas um projeto de curta metragem com cerca de dez minutos, abordando basicamente uma história de canibais e que chamava-se “Roast of the Day” (algo como “O Assado do Dia”), com os trabalhos se iniciando em 1983. Porém, com o passar do tempo foram surgindo novas idéias e com o lançamento bem sucedido de “The Evil Dead”, de Sam Raimi, o filme de Peter Jackson foi aumentado para quase uma hora e meia em quatro anos de filmagens, e o roteiro recebeu mudanças interessantes passando a se chamar “Bad Taste”, ou “Mau Gosto” / “Sabor Ruim” em traduções literais. Aliás, o nome nacional escolhido é até interessante pois “Náusea Total” é bastante coerente com a história (sem o desnecessário “Trash” colocado para aproveitar a moda “trashmania” que surgiu no Brasil na época).

Um coletor de impostos, Giles Copland (Craig Smith), vai até uma pequena cidade do interior da Nova Zelândia chamada Kaihoro, e encontra tudo estranhamente vazio, sendo surpreendido pela perseguição de um psicopata armado com uma faca enorme, Robert (Peter Jackson, com barba). Ao pedir socorro numa das casas, Giles é recebido por um grupo de alienígenas disfarçados de humanos, que o capturam para tornar-se o cardápio. Os extraterrestres vieram ao nosso planeta com o objetivo de estocar carne humana para vender como alimento numa famosa rede intergaláctica de restaurantes chamada de “Deliciosas Mordidas” (que por sua vez precisava apresentar uma iguaria diferente aos seus clientes para combater a concorrente “Frituras Lunáticas”).
Porém, para enfrentá-los e salvar o coletor de impostos de se tornar janta dos alienígenas canibais, surge um grupo bizarro de agentes especiais fortemente armados, representando o “Serviço de Defesa e Investigação Alienígena” (ou A.I.D.S. – “Alien Investigation and Defense Service”) do governo neozelandês. O grupo é formado pelo nerd Derek (Peter Jackson, sem barba), companheiro de Barry (Pete O´Herne), além da dupla Frank (Mike Minett) e Ozzy (Terry Potter).

O filme é uma paródia super divertida e extremamente sangrenta, repleta de situações hilárias e fortes cenas de violência com direito a cabeças explodidas à bala, banhos de sangue em profusão, vísceras expostas, desmembramentos, dilacerações, canibalismo, e todo tipo de atrocidades. Algumas cenas são antológicas e que merecem destaque como quando o alienígena Robert vomita uma imensa gosma verde num prato, a qual é considerada um delicioso mingau que deve ser experimentado pelos companheiros, obrigando o agente Frank disfarçado a comer um pouco da fina iguaria. Ou ainda quando o outro agente especial Ozzy (que lembra um soldado tipo “Rambo”) dispara uma arma enorme contra a casa onde os alienígenas estão escondidos, e o imenso projétil atravessa as janelas abertas e acerta uma ovelha que estava pastando distraída nos fundos, explodindo o bicho num monte de sangue e carne destroçada.
Algumas homenagens também podem ser reparadas como numa cena onde Peter Jackson referencia o momento de dormir dos integrantes da família de “Os Waltons”, famosa série de TV dos anos 70. Ou ainda num cena homenageando o clássico moderno “O Iluminado” (1980), quando Derek está enlouquecido depois de bater a cabeça e perder partes do cérebro (e também de misturar pedaços de cérebros dos alienígenas ao seu próprio), e arrombar uma porta com uma serra elétrica, numa cena similar àquela de Jack Nicholson no filme de Stanley Kubrick.
Sem contar a completamente estranha e hilária nave espacial dos alienígenas (que só rivaliza com a nave de “Palhaços Assassinos” / “Killer Clowns From Outer Space”, 88). Aliás, uma curiosidade é que não existem mulheres entre os principais personagens (existem apenas uma ou outra embaixo de fantasias interpretando alienígenas masculinos). E o cineasta multifuncional Peter Jackson durante o período em que filmava “Trash, Náusea Total” (quatro longos anos), conheceu a roteirista Francis Walsh,que se tornou sua esposa e parceira em muitos trabalhos posteriores como a badalada saga “O Senhor dos Anéis”.

“Trash, Náusea Total” é recomendado para todos aqueles que apreciam o cinema fantástico de baixo orçamento, produções menores e mais caseiras com histórias bizarras e não convencionais. É indicado também para os fãs do cineasta Peter Jackson, que antes de tornar-se mundialmente conhecido pela trilogia de “O Senhor dos Anéis”, já fazia seus filmes baratos com temas escatológicos. E para os colecionadores de filmes, certamente vale a pena adquirir o VCD distribuído nas bancas de jornais, como um item indispensável em qualquer videoteca de horror.
A “Editora Van Blad”, a exemplo do que já havia ocorrido com o lançamento anterior do VCD de “O Túnel do Horror” (uma antologia com um episódio baseado em conto de Stephen King), cometeu novamente alguns equívocos que inevitavelmente incomodam. A começar pela capa do VCD, informando duas vezes que o filme é do diretor Peter Jackson (bastava uma única vez, não precisava mencionar o fato no topo e embaixo da ilustração de capa). Porém, eles acertaram em reproduzir o cartaz original, onde um alienígena faz um gesto obsceno com o dedo médio (nos Estados Unidos, houve um fato ridículo sobre a distribuição do vídeo, onde acrescentaram mais um dedo ao lado do dedo médio do alienígena, não simulando mais um gesto obsceno e sim um dispensável sinal tipo “paz e amor”).
Na contra capa do VCD, a sinopse tem um erro grotesco, mencionando que o filme tem muitas “decepções”, onde provavelmente eles queriam dizer “decepamentos” (pois a palavra “decepação” não existe no famoso dicionário da língua portuguesa “Aurélio”). Sem contar que quem fez a arte final trocou uma simples palavra no nome de Peter Jackson, que ficou como “Oeter”. Tem também a informação “Tempo VCD: 60 min”, que não faz o menor sentido, já que o filme tem 88 minutos e não foi cortado (ainda bem...). A editora deveria se preocupar mais com o trabalho de revisão para a arte final das capas do VCD.
Já a revista “VCD Collection” número 4, tem como maior erro colocar na capa uma foto onde destaca um “orc” de “O Senhor dos Anéis”, quando o certo deveria ser uma imagem relacionada ao filme que está sendo lançado pela revista, ou seja, um cartaz ou foto de “Bad Taste”.

“Trash, Náusea Total” (Bad Taste, 1987) # 299
data: 13/02/05 – avaliação: 8 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com.br
blog: www.juvenatrix.blogspot.com.br (postado em 16/01/06)

“Trash, Náusea Total” (Bad Taste, Nova Zelândia, 1987). Duração: 88 minutos. Direção, produção, roteiro, fotografia, edição, efeitos especiais e maquiagem de Peter Jackson. Música de Michelle Scullion. Elenco: Peter Jackson (Derek / Robert), Barry (Pete O´Herne), Frank (Mike Minett), Ozzy (Terry Potter), Craig Smith (Giles Copland), Doug Wren (Líder alienígena), Dean Lawrie, Peter Vere-Jones, Ken Hammon, Robin Griggs, Michael Gooch, Peter Gooch, Laurie Yarrall, Shane Yarrall, Philip Lamey.

Sozinho no Escuro (Alone in the Dark, EUA, 1982)

“A mente que anda rápido é louca. A que anda devagar é sã. A mente que parou... é Deus” – Dr. Leo Bain

No início dos anos 80 do século passado, mais precisamente em 1982, um filme em especial ficou marcado pela proeza de conseguir reunir três excepcionais atores veteranos das telas numa mesma história de horror: Jack Palance (o vampiro em “Drácula – O Demônio das Trevas”, 73), Donald Pleasence (o cientista louco de “Estranhas Mutações”, 73) e Martin Landau (da série de TV de FC dos anos 70 “Espaço 1999”).
Trata-se de “Sozinho no Escuro” (Alone in the Dark), escrito e dirigido por Jack Sholder, o mesmo cineasta de “A Hora do Pesadelo 2 – A Vingança de Freddy” (85) e “O Escondido” (87). O nome original é o mesmo de uma tranqueira dirigida por Uwe Boll em 2004 e estrelada por Christian Slater e Stephen Dorff, que foi lançada em DVD por aqui com o subtítulo de “O Despertar do Mal”. Porém, as semelhanças estão apenas nisso, pois o filme de Boll, assim como outros sob sua direção como “House of the Dead – O Filme”, é uma bomba totalmente dispensável, ao contrário de “Sozinho no Escuro”, que é um filme super divertido e recomendável, seja pelo incrível elenco de ícones, seja pela interessante história básica abordando o tema da insanidade humana.

O psiquiatra Dr. Daniel Potter (Dwight Schultz) é convocado para substituir o Dr. Harry Merton (Larry Pine) no acompanhamento de internos considerados perigosos no manicômio “Haven”, sob a supervisão do diretor da instituição, Dr. Leo Bain (Donald Pleasence). Ao chegar no hospício, ele conhece Ray Curtis (Brent Jennings), o zelador do famoso e temido terceiro andar do prédio, uma ala que abriga psicopatas, onde destaca-se um grupo de quatro deles, formado pelo Coronel Frank Hawkes (Jack Palance), um ex-prisioneiro de guerra e uma espécie de líder dos lunáticos, além de Byron Sutcliff (Martin Landau), conhecido como um “padre pregador”, o obeso Ronald Elster (Erland van Lidth), e o perigoso John Skaggs (Phillip Clark), um assassino apelidado de “sangrador”, que tem a característica de sangrar pelo nariz quando está excitado e prestes a matar.
O diretor Bain faz questão de enfatizar que utiliza métodos diferentes de tratamento em seu manicômio, sendo que os pacientes psicopatas do terceiro andar podem se movimentar livremente, em celas sem grades e portas apenas controladas com eletricidade. Porém, quando ocorre um “blackout” na pequena cidade de Springwood, motivando um caos urbano com saques e tumultos nas ruas, o sistema de segurança do hospital psiquiátrico falhou pela falta de eletricidade e os loucos puderam fugir passando a aterrorizar a cidade, principalmente a família do Dr. Potter, por quem o grupo de lunáticos liderado por Frank Hawkes demonstrou uma grande aversão, onde em suas mentes insanas achavam que ele havia assassinado seu substituto, o Dr. Merton.
Os psicopatas decidem então se aproveitar da escuridão opressora da noite com a falta de eletricidade causada pelo “apagão” e cercam a casa do Dr. Potter, encurralando em seu interior o médico, sua esposa Nell (Deborah Hedwall), sua filha adolescente Lyla (Elizabeth Ward), sua irmã Toni (Lee Taylor-Allan) e o amigo dela, Tom Smith, que conhecera numa passeata pacifista contra a proliferação da energia nuclear, além do detetive da polícia Jim Barnett (Gordon Watkins). A partir daí, o Dr. Potter, “sozinho no escuro”, preso em sua própria casa e sem comunicação (o telefone foi cortado), tem que lutar por sua vida e defender sua família da ameaça dos fugitivos do hospício.

O maior destaque de “Sozinho no Escuro” certamente é a presença do trio Jack Palance, Donald Pleasence e Martin Landau, cada um deles responsável por um show particular de interpretação. Palance tem pequena participação, mas suas intervenções são bastante marcantes e carregadas de tensão, mostrando uma insanidade assustadora, somente com a expressão facial. Pleasence já era um psiquiatra na série “Halloween”, no papel do incansável Dr. Loomis em sua perseguição ao psicopata Michael Myers, e ele parece se sentir bem à vontade novamente no papel de um médico para loucos. Mas acaba recebendo na pele o resultado de suas técnicas “inovadoras” de lidar com os lunáticos. E finalmente Landau faz um padre pregador que gosta de citar frases religiosas como pretexto para suas ações insanas, e seu olhar penetrante e suas gargalhadas histéricas são realmente intimidadoras.
A maior conclusão disso tudo é que seria um péssimo negócio toparmos com qualquer um desses indivíduos nas ruas, pois eles são mais perigosos e imprevisíveis que os tão temíveis psicopatas modernos e sobrenaturais do cinema como Freddy Krueger, Jason Voorhees ou Leatherface, justamente pelo fato deles serem tão parecidos com pessoas aparentemente normais e comuns.
Uma cena memorável e sempre bem vinda num filme de horror é a nudez parcial da bela babá Bunky (Carol Levy), numa cena discreta de sexo com seu namorado Billy (Keith Reddin), onde eles não imaginavam o perigo à espreita sob a cama.

Entre as curiosidades, vale destacar que o maníaco conhecido como “sangrador” escondeu seu rosto sob uma máscara de hockey quando fugiu do hospício, lembrando o colega de insanidade Jason Voorhees, da saga “Sexta-Feira 13”, que também passou a usar uma máscara similar na parte 3 da série, filmada igualmente em 1982. A criatura fantasmagórica que apareceu numa visão perturbada de Toni, a irmã do Dr. Potter, é resultado de um trabalho de maquiagem do famoso técnico Tom Savini. Num determinado momento do filme, o Dr. Potter é obrigado por Toni a ir juntamente com a esposa Nell num bar noturno onde estava havendo um show de uma banda de rock bem fraquinha com os integrantes fantasiados de lunáticos. A banda chama-se “The Sic Fucks” e sua música barulhenta é a responsável por um comentário bem humorado do Dr. Potter (com os ouvidos tampados) onde ele dizia que já havia loucura suficiente em sua vida (uma vez que sua profissão era psiquiatra de um hospício) e ainda era obrigado a assistir um show barulhento de uma banda disfarçada de loucos.

“Sozinho no Escuro” foi lançado em DVD no Brasil pelo selo “Dark Side” da “Works Editora”, porém o disco traz apenas o filme, e não disponibiliza nenhum material extra. Anteriormente, durante o auge do mercado de vídeo VHS, a partir de meados dos anos 80 e década de 90, o filme havia sido lançado por aqui pela “Mundial” com o nome “Noite de Pânico”.

“Causarei dor aos homens, pois pecaram contra o Senhor. E seu sangue escorrerá como pó e sua carne acabará. Vocês estão destinados, entre nós, a prometer sua carne” – Dr. Leo Bain, numa seqüência de pesadelo

“Sozinho no Escuro” (Alone in the Dark, 1982) # 334 – data: 24/08/05 – avaliação: 8 (de 0 a 10)
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(postado em 13/01/06)

Sozinho no Escuro (Alone in the Dark, Estados Unidos, 1982). New Line. Duração: 92 minutos. Direção de Jack Sholder. Roteiro de Jack Sholder, a partir de história de Jack Sholder, Robert Shaye e Michael Harrpster. Produção de Robert Shaye. Produção Executiva de Benni Korzen. Música de Renato Serio. Fotografia de Joseph Mangine. Edição de Arline Garson. Direção de Arte de Henry Shrady. Efeitos Especiais de Maquiagem de Tom Brumberger e Don Lumpkin (com colaboração de Tom Savini). Elenco: Jack Palance (Frank Hawkes), Donald Pleasence (Dr. Leo Bain), Martin Landau (Byron Sutcliff), Dwight Schultz (Dr. Daniel Potter), Erland van Lidth (Ronald Elster), Phillip Clark (John Skaggs), Brent Jennings (Ray Curtis), Deborah Hedwall (Nell Potter), Elizabeth Ward (Lyla Potter), Lee Taylor-Allan (Toni Potter), Gordon Watkins (Detetive Jim Barnett), Carol Levy (Bunky), Keith Reddin (Billy), Larry Pine (Dr. Harry Merton).