O Único Sobrevivente (Sole Survivor, EUA, 1984)

 


A bem sucedida franquia “Premonição” (Final Destination), que se iniciou em 2000, tem vários filmes lançados comercialmente nas telas grandes dos cinemas e explora histórias com pessoas escapando misteriosamente da morte em acidentes trágicos e sendo depois perseguidas para um “acerto de contas do além”. Um detalhe interessante é que sua ideia teve inspiração no filme “O Único Sobrevivente” (Sole Survivor, EUA, 1984), que por sua vez recebeu influências de “O Parque Macabro”, também conhecido por “Carnaval de Almas” (Carnival of Souls, 1962).

 

Dirigido e escrito por Thom Eberhardt (de “A Noite do Cometa”, também de 1984), o filme está disponível no “Youtube” dublado na versão brasileira “Álamo”, e apresenta a história da produtora de comerciais para a televisão Denise Watson (Anita Skinner), que é a única sobrevivente de um desastre aéreo, escapando da morte certa misteriosamente sem ferimentos. E ainda tem a premonição da atriz decadente e depressiva Karla Davis (Caren Larkey), que possui o desconfortável poder psíquico de visões aterradoras e previu o acidente de avião, tentando sem sucesso alertar sobre o fato trágico.    

A partir daí, a sobrevivente Denise conhece o médico Brian Richardson (Kurt Johnson), com quem mantém um romance e tenta entender o estranho sentimento de ser a única pessoa a escapar da morte na queda do avião, passando a ouvir vozes e ter visões assustadoras com pessoas sinistras, incluindo uma menina no porão do hospital, um velho no parque, um homem que surge no meio de uma estrada na frente de seu carro, e outro homem que a persegue na garagem no subsolo de um prédio.

Uma vez perturbada com esses encontros macabros, ela tenta encontrar explicações com o médico e também procura companhia e distração com a amiga e vizinha Kristy Cutler (Robin Davidson), porém ocorre uma série de assassinatos violentos com as pessoas ao seu redor, com a investigação ineficiente da polícia através do Tenente Patterson (Daniel Cartwell), e com os mortos assassinados voltando a caminhar e assombrar o mundo dos vivos.  

 

“O Único Sobrevivente” tem apenas 85 minutos de duração e apresenta uma premissa básica interessante, sobre a questão de uma improvável sobrevivência num grave acidente aéreo e a implicação sobrenatural com a própria “morte” perseguindo sua vítima para corrigir a “falha”. Com um ritmo arrastado, o filme poderia investir em mais agilidade nas ações, porém mesmo assim ainda garante bons momentos com uma atmosfera sinistra na aparição dos mortos e nas cenas de assassinatos, e principalmente com um desfecho trágico, ousado e memorável envolvendo a descoberta do patologista Artie (William Snare), curioso sobre os estranhos cadáveres que chegam ao necrotério.

Parece ter sido mesmo inspirado no anterior “O Parque Macabro”, onde uma mulher sobrevive a um acidente de carro e começa a ser assombrada por zumbis intencionados em resolver uma pendência entre o mundo dos vivos e mortos, e também parece que serviu de influência para “Premonição”, cuja franquia de sucesso até já faz parte da cultura popular, e o primeiro filme também aborda um acidente de avião.

Entre as curiosidades, é considerado uma refilmagem do australiano “Aterrorizante Confronto Final” (The Survivor, 1981), dirigido por David Hemmings e com roteiro baseado no livro homônimo de James Herbert publicado em 1976.

Sobre o elenco, a atriz principal Anita Skinner, “a única sobrevivente”, só fez dois filmes na curta carreira, esse do texto e o anterior “Duas Mulheres em Nova York” (1978), um drama com comédia. O ator Kurt Johnson, que fez o médico Brian, também teve uma carreira bem curta com apenas quatro filmes, e morreu ainda jovem em 1986 com apenas 34 anos. Para Robin Davidson, que interpretou a amiga festeira Kristy, foi seu único trabalho no cinema. E tem a cultuada atriz Brinke Stevens numa ponta, ela que tem um currículo imenso com mais de 200 filmes.     

 

(RR – 15/10/25)





O Grito do Lobo (Scream of the Wolf, EUA, 1974)


“Um bom caçador nunca tem certeza de nada, a não ser que sua presa fará o inesperado.” – Byron Douglas

 

“O Grito do Lobo” (Scream of the Wolf, EUA, 1974) é mais um filme do programa “ABC Movie of the Week” da rede de TV “ABC”, que exibiu semanalmente na década de 1970 uma infinidade de preciosidades do cinema fantástico de baixo orçamento como “A Fazenda Crowhaven”, “Escravos da Noite”, “Encurralado”, “Trama Diabólica”, “A Força do Mal”, “Pânico e Morte na Cidade”, “Os Demônios dos Seis Séculos”, “A Morte Numa Noite Fria”, “O Triângulo do Diabo”, entre vários outros. O programa teve 183 filmes, sendo que “O Grito do Lobo” foi o número 42 da temporada 5.

Está disponível dublado no “Youtube”, com a nostálgica versão brasileira “Álamo São Paulo” de quando foi exibido em nossas televisões. O filme reúne em seu elenco e equipe de realizadores alguns nomes conhecidos das telinhas como o produtor e diretor Dan Curtis, o escritor Richard Matheson e os atores Peter Graves (série “Missão Impossível”), Clint Walker (série “Cheyenne”) e Philip Carey (série “Laredo”).

 

Após a ocorrência de várias mortes violentas e misteriosas numa pequena cidade rural dos Estados Unidos, com as vítimas encontradas mutiladas, o xerife Vernon Bell (Philip Carey) solicita ajuda nas investigações para o antigo caçador John Wetherby (Peter Graves), por sua experiência com animais selvagens. Porém, uma vez aposentado da função, ele recorre ao companheiro da época de caçadas, o impiedoso, frio e calculista Byron Douglas (Clint Walker). Após análise das cenas dos crimes e com a contagem de cadáveres cada vez aumentando mais, eles acreditam que a autoria dos assassinatos brutais pode ser de um lobo com a capacidade de se transformar em humano.

Preocupado com a segurança dos habitantes da comunidade ameaçados por algo desconhecido, e especialmente com sua namorada Sandy Miller (Jo Ann Pflug), o antigo caçador e agora escritor John Wetherby tenta desvendar o mistério das mortes, desconfiando de Byron e seu estranho empregado Grant (Don Megowan).  

 

O filme é curto com apenas 74 minutos e por ser uma produção voltada para a televisão a violência é mais contida, com pouca exposição de sangue e com as diversas mortes fora da tela. O foco da história está mais direcionado para a investigação e especulação sobrenatural da autoria dos assassinatos, com uma atmosfera interessante nas sombras de uma floresta envolta em névoas.

Curiosamente, próximo do desfecho temos uma sequência que lembra o filme “Zaroff, o Caçador de Vidas” (The Most Dangerous Game, 1932), com um jogo mortal entre os companheiros de antigas caçadas.

Sobre o escritor Richard Matheson (1926 / 2013), que colaborou com o roteiro de “O Grito do Lobo”, vale registrar algumas informações sobre sua carreira. Seu nome está associado ao Horror, com créditos em filmes como “Mortos Que Matam” (1964) e “A Última Esperança da Terra” (1971), inspirados em seu livro de vampiros “Eu Sou a Lenda”. Ele foi o roteirista de vários filmes baseados na obra de Edgar Allan Poe e dirigidos por Roger Corman nos anos 60 do século passado, como “O Solar Maldito”, “A Mansão do Terror”, “Muralhas do Pavor” e “O Corvo”. Além também de outras preciosidades como “O Incrível Homem Que Encolheu” (1957), “Robur, o Conquistador do Mundo” (1961), “Farsa Trágica” (1964), “As Bodas de Satã” (1968, produção da “Hammer”), “Encurralado” (1971, de Steven Spielberg) e “A Casa da Noite Eterna” (1973). Sua participação em séries de televisão é igualmente significativa tendo escrito vários episódios de “Além da Imaginação” (1959/1964).     

(RR – 02/10/25)



O Submarino Atômico (The Atomic Submarine, EUA, 1959, PB)


“O inimigo que condena a nação está escondido sob o Polo Norte.”

 

Diversos navios e submarinos estão sendo atacados e destruídos misteriosamente enquanto estão navegando numa rota regular pela região do Ártico, com um inimigo desconhecido à espreita e que talvez não seja desse mundo.

Com história ambientada em 1968 em tempos turbulentos da guerra fria entre Estados Unidos e a antiga União Soviética, e um pouco à frente da época de lançamento do filme, “O Submarino Atômico” (The Atomic Submarine, EUA, 1959) é uma produção de baixo orçamento dirigida por Spencer Gordon Bennet e com fotografia em preto e branco.

Disponível no Youtube com legendas em português e metragem curta de 70 minutos, o filme é mais uma daquelas pequenas preciosidades para os apreciadores do cinema bagaceiro antigo de ficção científica e horror, explorando elementos de drama de guerra com invasão alienígena hostil.

 

O poderoso e letal submarino atômico “Tigershark”, sob o comando do Capitão Dan Wendover (Dick Foran), é enviado ao Ártico numa missão secreta para descobrir a causa dos desastres e eliminar a ameaça. Após uma longa jornada pelas águas geladas do Polo Norte os militares americanos descobrem que a responsabilidade pelos naufrágios é de uma imensa nave aquática com formato discoide e origem desconhecida pela tecnologia humana.

Uma investigação com a ajuda do cientista Dr. Clifford Kent (Victor Varconi) revela que a nave é de origem extraterrestre e parece ser um organismo vivo com intenções de exploração, invasão e colonização da Terra, necessitando do magnetismo da Terra como combustível para recarregar suas baterias. Uma equipe liderada pelo Tenente Richard “Reef” Holloway (Arthur Franz) e outros tripulantes como o jovem e pacifista Dr. Carl Neilson Jr. (Brett Halsey), entra em contato com um alienígena ciclope com aparência repugnante, repleto de tentáculos e um único globo ocular imenso na cabeça deformada, travando uma batalha pelo futuro da humanidade.   

 

Para quem gosta desses velhos filmes tranqueiras de meados do século passado, vai se divertir com a história escapista e exagerada, e principalmente com os efeitos práticos toscos, com o uso de miniaturas simples simulando o submarino “Tigershark”, além de outro veículo menor, um explorador submergível de águas profundas chamado “Lungfish”. E tem também a nave aquática de outro mundo, comandada por um alienígena bizarro com um único olho enorme esbugalhado. Certamente esses são os maiores destaques do filme, em meio a cenas inevitáveis e geralmente descartáveis com romances dos oficiais (especialmente de Reef com a bela Julie, interpretada por Joi Lansing), e situações arrastadas com diálogos entediantes sobre estratégias de combate e heroísmo forçado de guerra com propaganda militar. O que importa mesmo são os momentos divertidos com o submarino atômico, a nave alienígena e o monstro do espaço.

“O Submarino Atômico” serviu de inspiração para o lendário produtor Irwin Allen fazer o seu filme e poucos anos depois veio “Viagem ao Fundo do Mar” (Voyage to the Bottom of the Sea, 1961), seguido pela cultuada série de TV homônima, que teve 110 episódios entre 1964 e 1968, com o submarino “Tigershark” sendo um precursor do popular “Seaview”, numa infinidade de histórias que povoaram a imaginação de muitos fãs grudados nas telinhas.

Curiosamente, o oficial de operações Griffin é interpretado pelo ator Bob Steele, conhecido por uma infinidade de filmes de western.

(RR – 23/09/25)





O Monstro Cósmico (The Cosmic Monsters / The Strange World of Planet X, Inglaterra, 1958, PB)

 


“Desde que o mundo começou, até mesmo o homem inventivo avançou constantemente rumo ao desconhecido. Uma por uma, as fronteiras da ciência foram caindo diante dele: a ciência da velocidade, das viagens, do rádio. Agora ele está no limiar de uma nova era. Uma era terrível...”

 

“O Monstro Cósmico” (The Cosmic Monsters, Inglaterra, 1958), também conhecido pelo título original chamativo “The Strange World of Planet X”, é um filme de ficção científica com elementos de horror abordando uma mistura de temáticas recorrentes no cinema bagaceiro de orçamentos reduzidos, principalmente no período após a Segunda Guerra Mundial.

Temos um “cientista louco” e suas experiências “rumo ao desconhecido” com a criação de campos magnéticos com resultados trágicos, e o ataque de “monstros cósmicos” ou insetos gigantes transformados pela exposição de raios vindos do espaço, uma contribuição inglesa para o sub-gênero dos “Big Bugs”, muito explorado na época. E ainda temos também a presença de um alienígena humanoide pacifista, com boas intenções ao alertar o mundo dos perigos das experiências. 

Com direção de Gilbert Gunn, fotografia em preto e branco e duração de 75 minutos, o filme está disponível no Youtube com a opção de legendas em português traduzidas automaticamente.

 

Um importante projeto científico e militar envolvendo a manipulação de campos magnéticos e alteração da estrutura molecular de materiais está sendo desenvolvido num laboratório localizado numa região rural da Inglaterra. Liderado pelo cientista Dr. Laird (Alec Mango) e contando com o auxílio dos assistentes Gil Graham (Forrest Tucker) e Michele Dupont (Gaby André), o projeto está recebendo grande pressão do Brigadeiro Cartwright (Wyndham Goldie) com corte de verbas, enquanto o representante do governo Gerard Wilson (Geoffrey Chater) demonstra apoio.

Enquanto isso, o Dr. Laird continua as experiências com campos magnéticos em seu laboratório bizarro repleto de aparelhos elétricos, alavancas de acionamento, botões, luzes piscando e mostradores analógicos, abrindo um buraco na ionosfera permitindo a entrada de raios cósmicos nocivos que transformam os humanos em loucos e os insetos em monstros gigantes, despertando a atenção da polícia para as estranhas ocorrências na região, através do Inspetor Burns (Richard Warner), e principalmente obrigando um alienígena preocupado com as consequências destrutivas das experiências, O Sr. Smith (Martin Benson), a intervir no processo para evitar uma catástrofe de proporções globais (lembrando o personagem similar Klaatu, do clássico “O Dia Em Que a Terra Parou, 1951).

 

Como a maioria dos filmes pequenos de horror e FC lançados em meados do século passado, com roteiros que exploram a humanidade enfrentando os temores do desconhecido, produções com poucos recursos, efeitos toscos, metragem mais curta e cartazes com ilustrações e slogans promocionais exagerados na fantasia, “O Monstro Cósmico” também se situa dentro desse mesmo universo.

Apesar dos temas abordados serem sempre interessantes para os apreciadores do cinema fantástico bagaceiro, incluindo na história um cientista louco com seu laboratório bizarro e experiências descontroladas, insetos gigantes e ameaçadores, um alienígena humanoide não hostil, e uma nave espacial tosca no melhor estilo de um tradicional disco voador, os primeiros dois terços do filme são bem arrastados, com excesso de enrolação e diálogos entediantes sobre questões científicas, além dos velhos clichês cansativos como o inevitável romance do casal de assistentes do cientista.

Mas, felizmente, os tão esperados monstros do título finalmente aparecem no terço final, quando os raios cósmicos vindos do espaço desconhecido transformam simples insetos em monstros gigantes devoradores de homens, através de precários e divertidos efeitos com filmagens de insetos reais numa perspectiva para torná-los imensos, com o exército tentando combatê-los e obrigando a interferência de um alienígena bem-intencionado para evitar o caos no planeta.

 

(RR – 17/09/25)






Trama Diabólica (A Taste of Evil, EUA, 1971)


“O que aconteceu com a pequena Susan foi tão horrível que ela esteve ausente por sete anos. Agora ela está de volta... e o horror também.”

 

A rede de TV americana “ABC” lançou um programa nos anos 70 do século passado com filmes de várias temáticas, incluindo horror, mistério e suspense, recebendo o nome “ABC Movie of the Week”. Semanalmente lançava um filme com metragem mais curta com pouco mais de 70 minutos para se adequar com os comerciais e tivemos várias preciosidades como “A Fazenda Crowhaven” (1970), “Escravos da Noite” (1970), “A Última Criança” (1971), “Encurralado” (1971), “A Força do Mal” (1972), “Pânico e Morte na Cidade” (1972), “A Noite do Lobo” (1972), “Os Demônios dos Seis Séculos” (1972),  “Escola de Meninas” (1973), “A Morte Numa Noite Fria” (1973), “Abelhas Assassinas” (1974), “Todos Muito Estranhos” (1974), “O Triângulo do Diabo” (1975), entre outros.

 

“Trama Diabólica” (A Taste of Evil, 1971) é o episódio 9 da terceira temporada, com direção de John Llewellyn Moxey (de “A Casa dos Horrores Mortais”, 1974), roteiro de Jimmy Sangster (colaborador habitual da produtora inglesa “Hammer”), produção do especialista das telinhas Aaron Spelling (da série “As Panteras”, 1976/1981), e um elenco expressivo com Barbara Stanwyck, Roddy McDowall e Arthur O´Connell.

O filme está disponível no Youtube numa versão dublada que foi exibida nas televisões de tubo no nostálgico “Cine Mistério” da TV Bandeirantes, com a clássica dublagem “Cine Castro Rio de Janeiro e São Paulo”.

 

A jovem Susan Wilcox (Barbara Parkins) ficou internada numa clínica psiquiátrica na Suiça por longos sete anos, tentando se recuperar de um trauma de infância ao ser atacada brutalmente aos treze anos de idade quando brincava numa casa de brinquedos, localizada no bosque perto da mansão de sua mãe Miriam Jennings (Barbara Stanwyck). Agora ela está retornando para sua casa na Califórnia, aparentemente curada e reencontra o mordomo John (Arthur O´Connell) e o padrasto Harold (William Windom), além de conhecer o médico Dr. Michael Lomas (Roddy McDowall).

Porém, ocorre uma série de fatos estranhos e misteriosos com Susan tendo alucinações com Harold morto e flashbacks perturbadores, sentindo-se constantemente ameaçada pela presença sinistra de alguém nos cantos escuros da casa ou no bosque, com o desconforto de ser observada, despertando a atenção de sua mãe preocupada com a recorrência dos problemas emocionais de Susan por causa do passado traumático.   

 

O filme tem poucos personagens e sua história prende a atenção todo o tempo, instigando a curiosidade do espectador em descobrir o mistério em torno de Susan, suas visões distorcidas e a atmosfera sombria da mansão com uma “trama diabólica” repleta de revelações e reviravoltas, com um amargo “gosto do mal”.

Por ser uma produção diretamente para a televisão, os elementos de horror são mais sutis, com ausência de sangue e violência apenas moderada, apostando mais no suspense sugerido e no clima de desconforto que envolve a mansão e seus arredores.

Curiosamente, o roteirista Jimmy Sangster revelou que a história de “Trama Diabólica” é muito parecida com a que ele escreveu para “Grito de Pavor” (Taste of Evil, 1961), produção da “Hammer” dirigida por Seth Holt.

Outra curiosidade é que o filme “Homicidal” (1961), de William Castle, também recebeu o título nacional “Trama Diabólica”. E em 1972 o filme “Jogo Mortal” (Sleuth), com Laurence Olivier e Michael Caine, igualmente ganhou o mesmo nome como alternativo. Parece ser um título que os responsáveis pela escolha no Brasil gostam de usar, pois ainda tem outros dois filmes na mesma situação, “Miami Hustle” (1996) e “Deception” (2003), pois ambos também são conhecidos por aqui como “Trama Diabólica”.

 

(RR – 02/09/25)




 




O Passo do Monstro (The Monster Walks, EUA, 1932, PB)

  


“O Passo do Monstro” (The Monster Walks, EUA, 1932) é um filme de horror de baixo orçamento situado no subgênero “casa velha sombria”, dirigido por Frank R. Strayer, com fotografia em preto e branco e metragem curta de apenas 60 minutos, disponível no Youtube, tanto a versão original em PB quanto a colorizada por computador, ambas com a opção de legendas em português na função de tradução simultânea.

 

Um rico cientista trabalhava em experiências com macacos, mantendo um chimpanzé preso numa jaula no porão de sua casa imensa. Após morrer, sua jovem filha Ruth Earlton (Vera Reynolds) é chamada de volta para a mansão da família para a leitura do testamento, acompanhada de seu noivo, o médico Dr. Ted Clayton (Rex Lease). Na casa vive o seu tio paralítico Robert (Sheldon Lewis), doente e preso numa cadeira de rodas. Ele é amparado pela governanta Sra. Krug (Martha Mattox) e seu filho, o sinistro Hanns (Mischa Auer).

Para a leitura do testamento é convocado o advogado Herbert Wilkes (Sidney Bracey) e depois que é revelado que a fortuna do cientista falecido deverá ser transferida para sua filha, inicia-se uma série de fatos estranhos, com Ruth sentindo-se desconfortável e ameaçada, culminando com misteriosos assassinatos na casa, que é repleta de túneis e passagens secretas, e com suspeitas de envolvimento do violento macaco do porão ou alguém interessado na herança do falecido.    

 

O filme é rápido, com produção simples e as ações são todas ambientadas somente no interior da casa, com poucos personagens (apenas sete) e uma história típica do período, muito previsível e bastante ingênua. Mas, que certamente assustavam as plateias da época, atraindo e despertando a atenção do público, justificando a realização de uma infinidade de filmes com roteiros explorando casas sombrias com mortes suspeitas, mistérios, atmosfera de tristeza e sons perturbadores de ventanias e tempestades.

As atuações do elenco são teatrais e sem destaques, exceto pelo ator russo Mischa Auer, cujo nome estampa o poster de divulgação, interpretando o sinistro serviçal filho da governanta, com imponentes 1,88 m de altura e um rosto de poucos amigos, revoltado pela pouca atenção recebida no testamento do antigo patrão.

Uma característica dos filmes similares do período era apresentar algum alívio cômico nas histórias e aqui a missão ficou com o motorista Exodus (Willie Best), com pequena participação, mas sempre fazendo algum tipo de comentário com intenção de soar engraçado no meio de uma história sombria. Provavelmente funcionava para aliviar a tensão dos espectadores, e para mim especificamente sempre foi um motivo de tédio, atrapalhando qualquer tentativa de interação com a história.     

 

(RR – 25/08/25)






O Monstro de Pedras Brancas (The Monsters of Piedras Blancas, EUA, 1959, PB)

 


Sturges (John Harmon) é um homem viúvo que administra o funcionamento de um farol instalado numa construção à beira do mar, com o objetivo de alertar as diversas embarcações durante a noite sobre o perigo de acidentes contra os rochedos, responsáveis por muitos naufrágios. Ele tem uma jovem e bela filha, Lucille (Jeanne Carmen), que trabalha de garçonete num restaurante da pequena vila próxima, e é a namorada do jovem bioquímico Fred (Don Sullivan, das bagaceiras “O Gigante Monstro Gila” e “Teenage Zombies”). Quando assassinatos misteriosos e violentos começam a ocorrer na região, com vítimas degoladas e sem sangue, os moradores do vilarejo, especialmente o dono de um açougue, Kochek (Frank Arvidson), ficam assustados e creditam a responsabilidade das mortes para um lendário monstro que habita as cavernas nos penhascos logo abaixo do farol. Como Sturges parece esconder um terrível segredo, ele não é bem visto pelos habitantes, enfrentando problemas de relacionamento.

Mais mortes estranhas acontecem e o xerife George Matson (Forrest Lewis) está liderando as investigações, sempre fumando seu charuto e bastante intrigado pelas cabeças cortadas com precisão e a ausência de sangue nos cadáveres. Ele é auxiliado pelas perícias e análises do médico Dr. Sam Jorgenson (o inglês Les Tremayne, visto em outras bagaceiras divertidas do período como “Rastros do Espaço” e “Viagem ao Planeta Proibido”, além do clássico “A Guerra dos Mundos”). Devido ao crescente perigo ameaçando os moradores da pequena vila, e para interromper os assassinatos violentos, eles organizam um grupo para caçar o monstro. 

Dirigido por Irvin Berwick, com fotografia em preto e branco e curto (apenas 71 minutos), “O Monstro de Pedras Brancas” (The Monster of Piedras Blancas, EUA, 1959) é mais um daqueles típicos filmes bagaceiros indispensáveis dos saudosos anos 50 do século passado, com seu roteiro simples e cheio de clichês, onde basicamente uma pequena cidade próxima do mar é atacada por um monstro carnívoro. E para os apreciadores dessas tranqueiras, a diversão está garantida justamente por esse tipo de história e pelos efeitos toscos de maquiagem com mortes violentas para a época, com um ator alto vestindo uma fantasia de borracha para interpretar o monstro assassino. Nesse caso, o trabalho é do ator Pete Dunn, que interpreta também outro personagem no filme, Eddie, um ajudante do açougue. Aliás, a concepção do monstro foi inspirada na criatura do clássico “O Monstro da Lagoa Negra” (Creature From the Black Lagoon, 1954), onde percebemos muitas similaridades. Isso pode ser explicado pelo fato do técnico em efeitos de maquiagem Jack Kevan, ter trabalhado na equipe que criou o famoso monstro que vivia nas águas escuras de uma região remota na Amazônia, e ele é o produtor de “O Monstro de Pedras Brancas”. Por curiosidade o nome do filme refere-se às rochas abaixo do farol, que pareciam brancas pela grande quantidade de gaivotas desorientadas que se lançavam para a morte à noite contra as pedras.

O monstro é uma mutação da família dos diplovertebrons, uma raça pré-histórica anfíbia extinta, e de tão tosco consegue despertar aquele bem vindo sentimento de nostalgia dos incontáveis filmes de baixo orçamento que eram produzidos com histórias parecidas, e que divertiam pelas características bagaceiras. E não falta a tradicional cena onde o monstro caminha carregando em seus braços a mocinha indefesa e desacordada.

Numa época que não existia computação gráfica, os efeitos eram toscos pela falta de recursos técnicos e indisponibilidade de investimentos para resultados com mais qualidade, mas ainda assim eram infinitamente mais divertidos. Até mesmo pela ingenuidade das histórias absurdas, quando em comparação com o cinema fantástico bagaceiro do início do século 21 com efeitos em CGI que não despertam o mesmo interesse pelo excesso de artificialidade, e que facilitam o trabalho preguiçoso dos realizadores em tentar contar uma história melhor.

Em 2005 foi lançado “The Naked Monster”, que é uma homenagem aos filmes “B” da década de 1950, com a participação de muitos atores veteranos, os quais tornaram possíveis e imortalizadas aquelas tranqueiras divertidas do passado. Com uma ideia de comédia de ficção científica e horror, o filme homenageia “O Monstro de Pedras Brancas” numa cena passada num farol, com os atores originais John Harmon e Jeanne Carmen. Curiosamente, um dos diretores dessa paródia é Wayne Berwick (filho de Irvin Berwick), que também esteve no filme de 1959, num papel menor interpretando o garoto Jimmy, que era manco de uma perna e corria aos gritos avisando para todos que o monstro tinha assassinado outra vítima.   

Também por curiosidade, vale citar que antigamente eu visitava os sebos do centro de São Paulo à procura de raridades sobre cinema fantástico, e comprei um poster gigante (70 x 90 cm) nacional e da época de lançamento do filme, com uma arte desenhada destacando o rosto do monstro. “O Terror Invade a Praia... Surge das Profundezas... O Monstro de Pedras Brancas”.


(RR – 07/09/16)