Robocop - O Policial do Futuro (Robocop, EUA, 1987)



    O cinema dos anos 1980 produziu uma grande quantidade de filmes significativos que podem ser considerados clássicos modernos uma vez já passadas quase três décadas de seus respectivos lançamentos. Alguns exemplos são filmes como “Rambo: Programado Para Matar” (First Blood, 1982), precursor de filmes de ação e largamente imitado, estrelado por Sylvester Stallone como um ex-combatente da Guerra do Vietnã que tenta se adaptar novamente à sociedade americana e é tratado de forma preconceituosa por um xerife de uma pequena cidade do interior. Ou “The Evil Dead” (1982), chamado no Brasil com o nome equivocado de “A Morte do Demônio”, dirigido pelo talentoso cineasta Sam Raimi, e considerado um dos mais definitivos filmes de horror de todos os tempos, igualmente imitado à exaustão e precursor de uma infinidade de filmes similares, com sua história de um grupo de jovens que se isolam numa cabana nas montanhas e entram acidentalmente em contato com ferozes demônios que tomam posse de seus corpos. Ou ainda, continuando no gênero horror, “Hellraiser – Renascido do Inferno” (Hellraiser, 1987), com roteiro e direção do consagrado escritor Clive Barker, primeiro filme de uma longa franquia com vários filmes, apresentando ao nosso mundo os temíveis cenobitas, criaturas infernais que cultuam a dor em seu estado absoluto, tendo como líder o cultuado “Pinhead” ou “Cabeça de Prego”.
    Dentro dessa ideia, a Ficção Científica também foi muito bem representada na década de 1980, e um dos destaques desse período certamente foi “Robocop – O Policial do Futuro” (Robocop, 1987), dirigido pelo cineasta holandês Paul Verhoeven em sua estreia no cinema dos Estados Unidos. Ele que faria mais tarde ainda outros importantes filmes do gênero como “O Vingador do Futuro” (Total Recall, 1990), com Arnold Schwarzenegger e baseado em história de Philip K. Dick, “Tropas Estelares” (Starship Troopers, 1998), baseado em livro de Robert A. Heinlein e com a mesma equipe técnica principal de “Robocop”, e “O Homem Sem Sombra” (Hollow Man, 2000), com Kevin Bacon como um cientista que se torna invisível e transforma-se num assassino insano.

    Num futuro próximo, a violência e criminalidade na cidade de Detroit atingiram índices enormes e uma poderosa empresa de segurança controla a polícia local. A mega corporação é presidida pelo “velho homem” (Daniel O´Herlihy) tendo como o segundo em comando o inescrupuloso e corrupto Richard Jones (Ronnie Cox). É dele o projeto para a construção de uma nova cidade, “Delta City”, que estaria isenta da criminalidade e separada da chamada “Velha Detroit”, dominada pela violência urbana. Além disso, Jones ainda comanda uma equipe científica na criação de uma poderosa máquina robótica denominada “ED-209”, fortemente armada e programada para a defesa da lei através do uso de mais violência ainda, substituindo os tradicionais policiais humanos.
Após o fracasso de uma exibição de simulação das ações de um “ED-209”, que culminou com a morte violenta de um dos executivos da empresa, um cientista oportunista, Robert Morton (Miguel Ferrer) apresenta ao presidente seu projeto alternativo para o combate à criminalidade, constituindo-se na verdade de uma criatura mista de androide e humano chamada “Robocop”. Coincidentemente, uma série de tiras do Departamento de Polícia de Detroit, comandado pelo Sargento Reed (Robert DoQui), estavam sendo assassinados por uma perigosa gangue de traficantes de cocaína, fato que já estava motivando uma greve geral dos policiais. Nesse momento, surge um novo policial, Alex J. Murphy (Peter Weller, de “Mistérios e Paixões”), recém chegado de um distrito vizinho. Ao averiguar as ações dos traficantes, ele é emboscado juntamente com sua nova parceira, Anne Lewis (Nancy Allen, de “Carrie, a Estranha”), a qual é ferida, mas sobrevive e acaba presenciando seu companheiro sendo mortalmente alvejado pelos criminosos liderados por Clarence Boddicker (Kurtwood Smith) e seus capangas Emil M. Antonowsky (Paul McCrane), Leon C. Nash (Ray Wise), Joe P. Cox (Jesse Goins) e Steve Minh (Calvin Jung).
Uma vez considerado oficialmente morto em ação, Murphy é ressuscitado pelo projeto “Robocop” e é transformado num poderoso policial androide. Colocado nas ruas, ele logo torna-se popular no eficiente combate ao crime, sempre respeitando as três diretrizes de sua programação básica: servir à comunidade, proteger os inocentes e cumprir a lei. Porém, o policial do futuro Murphy tem que lidar também com o retorno gradativo de suas lembranças e memórias de quando era um homem, descobrindo que tinha uma esposa e filho, além da parceira Lewis na polícia e os eventos trágicos envolvendo a gangue de traficantes, incitando-o a descobrir a verdade de seu passado e a planejar uma vingança contra seus assassinos e o executivo corrupto da empresa, Richard Jones.

    O filme tem excelentes efeitos especiais, principalmente considerando sua época de produção, tanto que ganhou o cobiçado prêmio “Oscar” de melhores efeitos sonoros, e é considerado como uma das mais significativas produções de ficção científica dos anos 1980, com um roteiro interessante apresentando a visão de um futuro pessimista e obscuro, com o domínio da violência urbana e a proliferação dos interesses financeiros das grandes corporações em detrimento do bem comum.
Curiosamente, o filme intercala suas ações com a apresentação de um jornal televisivo e propagandas futuristas. Num determinado momento, o jornal transmite uma notícia sobre uma revolta militar em Acapulco, no México, onde tropas americanas se aliaram aos nacionalistas mexicanos num confronto com rebeldes, numa interessante crítica social demonstrando o constante imperialismo dos Estados Unidos sobre outras nações. Já as propagandas de televisão dão destaque para jogos de guerra nuclear e o sonho de consumo na figura de um moderno carro chamado SUX 6000.
    “Robocop – O Policial do Futuro” tem ótimas cenas de ação e violência, mesclando elementos de ficção científica e thrillers policiais, destacando a sequência onde o robocop invade uma fábrica de distribuição de cocaína causando uma enorme carnificina com corpos voando pelos ares e disparos de potentes armas de fogo para todos os lados; a cena onde um dos traficantes responsáveis pelo seu fuzilamento é contaminado por lixo tóxico transformando-se num monstro mutante deformado pelo ácido corrosivo; e as cenas envolvendo o robô “ED-209”, com sua voz gutural e sintetizada, numa máquina assassina memorável. 
    Anos depois surgiram mais duas sequências inferiores, sem a presença do diretor Paul Verhoeven no projeto, e que pouco acrescentaram à franquia, apesar de ambas terem roteiro escrito pelo famoso quadrinista Frank Miller: “Robocop 2” (Robocop 2, 1990), dirigido por Irvin Kershner, e “Robocop 3” (Robocop 3, 1993), com direção de Fred Dekker. O segundo filme ainda foi estrelado por Peter Weller, mas o terceiro teve um novo ator no papel do “robocop”, Robert John Burke. Já a sua parceira na polícia Anne Lewis (interpretada pela atriz Nancy Allen), participou de ambas as sequências, porém com aparições cada vez menores. Na segunda produção com o policial do futuro, após ele ser seriamente avariado num confronto com traficantes de drogas no final do filme original, ele agora é ameaçado de substituição por um androide ainda mais avançado e agressivo. Já o terceiro filme, disparado o mais fraco da trilogia, o policial androide volta-se contra a mega corporação que o criou, pois eles queriam a construção de uma nova cidade no lugar da velha Detroit, desprezando seus habitantes e tendo apenas interesses políticos e econômicos. Ambas as continuações foram lançadas no mercado brasileiro de vídeo VHS e DVD.
Além desses filmes, a franquia ainda gerou outros produtos em torno do tema entre 1988 e 1994 como revistas em quadrinhos e séries para a televisão, sendo uma delas desenho animado. E após os marcantes ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 aos Estados Unidos, o diretor Paul Verhoeven anunciou também sua intenção de trazer de volta às telas o famoso “robocop”. Ele e o roteirista Edward Neumeier discutiram possíveis histórias para um novo filme da franquia, sendo uma das ideias a de que o policial futurista, que estava aposentado, seria retirado de um depósito e reativado para lutar contra o terrorismo.
Assim como ocorre em dezenas de outros filmes, o subtítulo nacional (O Policial do Futuro) é desnecessário, ficando bem melhor apenas a reprodução do nome original, porém os responsáveis pela distribuição de filmes no Brasil insistem na equivocada mania de aumentar os nomes originais das produções estrangeiras que chegam em nossos cinemas e locadoras de vídeo (isso quando não alteram completamente os nomes, o que é ainda bem pior). Mas, a despeito desse fato negativo, o que realmente importa é que “Robocop” tem grandes momentos de entretenimento sendo um precursor de diversos filmes similares com policiais cibernéticos que surgiram depois, a maioria de qualidade e ideias inferiores. O filme exerce até hoje um fascínio interessante destacando-se com grande importância na filmografia moderna de Ficção Científica aliada à temática com elementos policiais futuristas.  

Observação: Em 2014 foi lançada uma refilmagem, com direção do brasileiro José Padilha. “RoboCop” traz o ator Joel Kinnaman no papel do policial do futuro, e o elenco ainda conta com nomes consagrados como Samuel L. Jackson, Michael Keaton e Gary Oldman.

“Robocop – O Policial do Futuro” (Robocop, 1987) – avaliação: 8 (de 0 a 10)
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(postado em 13/01/06)

Robocop – O Policial do Futuro (Robocop, Estados Unidos, 1987). Orion Pictures International. Duração: 103 minutos. Lançado em vídeo VHS e DVD no Brasil. Direção de Paul Verhoeven. Roteiro de Michael Miner e Edward Neumeier. Produção Executiva de Jon Davison. Produção de Arne Schmidt. Fotografia de Jost Vacano. Música de Basil Poledouris. Montagem de Frank Urioste e Robert Urioste. Efeitos Especiais: “Robocop” desenhado e criado por Rob Bottin / “ED-209” por Phil Tippett. Elenco: Peter Weller, Nancy Allen, Ronny Cox, Kurtwood Smith, Miguel Ferrer, Robert DoQui, Daniel O´Herlihy, Paul McCrane, Ray Wise, Jesse Goins, Calvin Jung.

Monster: A Ressurreição do Mal (Rawhead Rex, Inglaterra, 1987)

“A morte caminha temendo aquilo que ela não pode ser.” – Inscrição no vitral de uma antiga igreja irlandesa.

O escritor inglês Clive Barker é hoje um dos mais cultuados autores, juntamente com Stephen King, da literatura de horror moderna. Seus textos são extremamente sangrentos e recheados de violência e sexo, e boa parte de sua obra foi publicada no Brasil, como a famosa série Livros de Sangue (Books of Blood), divididos em seis coletâneas de contos, e os romances “O Jogo da Perdição” e : Raça da Noite” (Cabal: The Nightbreed), todos pela “Editora Civilização Brasileira”.
Barker tem também uma marcante presença no cinema fantástico, dirigindo suas histórias como em “Renascido do Inferno” (Hellraiser, 1987), sobre os escatalógicos seres cenobitas, liderados por Pinhead (Cabeça-de-prego), que habitam ocultas dimensões que celebram a dor e o sofrimento eternos em seu estado absoluto; “Raça da Noite” (Nightbreed, 1989), sobre criaturas das trevas; e “Mestre das Ilusões” (Lord of Illusions, 1995), sobre o envolvimento de magia e forças do além. Suas obras estão cada vez mais aparecendo nas telas, a exemplo do campeão disparado de adaptações Stephen King, e dos falecidos e imortais mestres do horror Edgar Allan Poe e Howard Phillips Lovecraft.
Clive Barker é o roteirista de “Rawhead Rex” (1987), filme dirigido por George Pavlou, que já havia adaptado antes outro conto do mestre, “Underworld”, e cuja história é baseada em seu texto homônimo publicado no terceiro volume da coletânea dos Livros de Sangue, intitulado no Brasil como “A Cabeça Descarnada”.

(Atenção: o texto a seguir contém spoilers)

“Rawhead Rex” é uma criatura ancestral, um guerreiro monarca pré-cristão, que está enterrado em animação suspensa nas terras sagradas de uma velha igreja. Um historiador americano, Howard Hallenbeck, interpretado por David Dukes, está em viagem com sua família formada pela esposa Elaine (Kelly Piper), filha Minty (Cora Lunny) e filho Robbie (Hugh O’Connor), percorrendo o interior da Irlanda pesquisando e estudando igrejas antigas e coletando material para a produção de um livro. Ao chegar na cidadezinha de Rathmore, ele entra em contato com o Reverendo Coot (Niall Toibin) que lhe apresenta uma igreja muito velha e que tem um passado misterioso e oculto envolvendo um monstro demoníaco, um rei pagão canibal e assassino chamado Rawhead Rex, interpretado pelo ator alemão Heinrich Von Schellendorf. O enorme monstro não humano, de aproximadamente 2,5 metros de altura, longos cabelos e dentes afiadíssimos, é acidentalmente despertado e liberta-se de sua tumba onde havia sido encarcerado vivo num confronto com forças sobrenaturais em tempos imemoriais. Ele passa então a aterrorizar e massacrar brutalmente os habitantes locais, dilacerando, decepando e desmembrando suas vítimas e provando-lhes a carne e o sangue.
Após a morte de seu jovem filho pela criatura do além, o historiador parte para a vingança e com o auxílio de sua esposa e uma pedra mágica envolta em lendas antigas pagãs, ele consegue derrotar o monstro em solo sagrado de um cemitério, enterrando-o novamente sob uma pesada tumba de concreto.

Rawhead Rex é a grande atração do filme, o personagem principal, que já é apresentado logo no início de forma explícita e que passaria o tempo todo estripando suas vítimas. Ele é uma criatura pré-cristã e anterior mesmo à civilização, mas não ficam claros sua real origem e objetivos. O monstro abusa de violência em suas chacinas, apesar de atuar como um ser pensante e inteligente, ao contrário de outros famosos monstros do cinema. Os efeitos especiais da criatura são incrivelmente fracos, com os olhos vermelhos e ardentes praticamente fixos e sem vida, imóveis, e com a boca enorme sempre aberta sem gesticulações, com os dentes pingando sangue e babas. Com os modernos recursos tecnológicos disponíveis na época da produção, a criatura parece meio ridícula em comparação com outras similares de filmes do mesmo estilo, assemelhando-se quase àqueles velhos monstros de borracha dos filmes e séries de TV japoneses das décadas de 60 e 70. Mas como a produção é de baixo orçamento, a criatura acaba tornando-se uma grande diversão em sua pobreza de efeitos.
Um destaque é a cena em que Rawhead Rex urina um enorme jato de mijo no peito do sacristão Declan O’Brien (Ronan Wilmot), que dessa forma é então “batizado” como um de seus fiéis seguidores, assim como também o Inspetor de polícia Isaac Gissing (Niall O’Brien), que em sinal de devoção ao seu mestre demoníaco, incendeia vários carros da polícia, queimando vivos seus companheiros num dos confrontos com a criatura. Mas, como bons e estúpidos adeptos, são no final mortos de forma bem dolorosa...
Um detalhe curioso é a colocação de um título nacional para o filme utilizando de forma inadequada uma palavra em inglês, “Monster” (Monstro), seguida de um título em português, “A Ressurreição do Mal”. O melhor e mais apropriado seria manter o título original que tem difícil e desnecessária tradução: “Rawhead Rex”, que é o nome da criatura infernal e principal atração da fita. Esses equívocos são comuns nos lançamentos dos filmes no Brasil.
Filmado na Irlanda, nos arredores de Dublin, em County Wicklow, o filme utilizou uma área próxima às locações de “Excalibur” (1981), de John Boorman. E a fotografia é também um dos grandes interesses no filme, com belas tomadas das paisagens e igrejas irlandesas.
“Monster: A Ressurreição do Mal” foi lançado no mercado de vídeo VHS brasileiro pela VTI, sendo rara a sua disponibilidade nas locadoras, pois é um filme obscuro e pouco conhecido, apesar da presença de Clive Barker e mais uma materialização maléfica de seus contos insanos e de puro horror, que garantem a sua importância e mais outro grande entretenimento para os fãs do cinema fantástico.

“Monster: A Ressurreição do Mal” (Rawhead Rex, 1987) – avaliação: 6,5 (de 0 a 10)
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(postado em 13/01/06)

Monster: A Ressurreição do Mal (Rawhead Rex, Inglaterra, 1987). Alpine Pictures/Greenman Productions. Duração: 100 minutos. Em vídeo VHS no Brasil pela VTI. Direção de George Pavlou. Roteiro de Clive Barker, baseado em seu conto homônimo. Fotografia de John Metcalfe. Direção de arte de Len Huntingford. Música de Colin Towns. Produção executiva de Al Burgess & Paul Gwynn. Produção de Kevin Attew & Don Hawkins. Efeitos Especiais da criatura de Peter Litten. Elenco: David Dukes, Kelly Piper, Niall Toibin, Ronan Wilmot, Niall O’Brien, Hugh O’Conor, Cora Lunny, Heinrich Von Schellendorf, Noel O’Donovan, John Olohan, Peter Donovan, Donald McCann, Eleanor Feely, Gladys Sheehan, Madelyn Erskine, Gerry Walsh, Bob Carlile.

Rambo: Programado Para Matar (First Blood, EUA, 1982)


(Texto escrito em Julho de 2002)

Os primeiros trabalhos do popular ator Sylvester Stallone são os melhores de sua filmografia, através de “Rambo: Programado Para Matar” (First Blood, 1982), um drama com elementos de aventura mostrando os problemas enfrentados por um ex-combatente da Guerra no Vietnã em seu retorno à sociedade americana, e de “Rocky, o Lutador” (1976), sobre a carreira em ascensão de um lutador de boxe. Apesar que também existem outros bons e divertidos filmes de Stallone que foram produzidos posteriormente. 

Em “Rambo: Programado Para Matar”, dirigido por Ted Kotcheff e com roteiro co-escrito pelo próprio Stallone baseado em livro de David Morrell, um soldado veterano da Guerra do Vietnã, John Rambo (Stallone), transformou-se num andarilho em seu retorno aos Estados Unidos, numa difícil adaptação à sociedade devido aos preconceitos impostos aos ex-combatentes daquela trágica guerra. 

Na tentativa de visitar um amigo e ex-companheiro no campo de batalha, ele é informado que o mesmo morreu de câncer contraído na guerra, sobrando agora apenas ele da equipe de elite que serviu junto no Vietnã. Andando sem rumo definido, Rambo chega a uma pequena cidade onde é mal recebido pelo xerife local, Will Teasle (Brian Dennehy), que o prende por vadiagem e porte de arma (uma enorme faca multifuncional, própria para sobrevivência na selva). Na prisão, ele é maltratado e consegue fugir refugiando-se nas montanhas que circundam a cidade. 

A partir daí, começa uma perseguição que envolve além da polícia local também a Guarda Nacional, numa enorme sucessão de fugas espetaculares e confrontos violentos entre o soldado Rambo e seus perseguidores, até culminar numa sequência de grande destruição na cidade, e com a intervenção do Coronel Samuel Trautman (Richard Crenna), enviado pelo exército para tentar solucionar o incidente, sendo que ele foi o comandante de Rambo na Guerra do Vietnã. 

O filme é uma grande e movimentada aventura, com muitos momentos de tensão que incitam o público a torcer pelo personagem de Stallone, em sua justificada vingança contra aqueles que o provocaram, confirmando o título original “First Blood”, ou seja, aqueles que iniciaram a confusão derramando o “Primeiro Sangue”, notavelmente o xerife Teasle e seu ajudante arrogante Arthur Gault (Jack Starrett).

 

(Atenção: o texto a seguir contém spoilers)


Um destaque é a sequência inverossímil porém divertida, onde Rambo está cercado pela polícia no alto de um penhasco e é ameaçado mortalmente por Gault num helicóptero, forçando o soldado a saltar de um precipício vindo a cair por sobre as árvores e apenas se ferir num dos braços. Aliás, outra cena forte é quando Rambo costura seu braço ferido na queda tentando estancar o sangue e fechando o extenso corte. 

Curiosamente, houve até uma pequena cena de humor, quando Rambo foge dos policiais pela floresta e salta num caminhão do exército carregado de armamento pesado e ao entrar na cabine do veículo militar pede ao motorista para não desviar o olhar do caminho à frente, pois “é assim que acidentes acontecem”. 

A trilha sonora a cargo de Jerry Goldsmith é excelente e carregada de um forte sentimentalismo, principalmente quando associada à belíssima fotografia de paisagens de montanhas e florestas, como visto por exemplo no início do filme, no momento em que Rambo caminha em direção a um belo lago à procura da casa do ex-parceiro da guerra. 

O final do filme também procura passar uma mensagem através de uma crítica à sociedade americana, no desabafo emocionado de Rambo falando do preconceito enfrentado pelos ex-combatentes do Vietnã, apesar de um pouco exagerado quando o forte soldado se desmancha em lágrimas em seu discurso. 

“Rambo: Programado Para Matar” teve mais duas sequências muito inferiores, “Rambo 2: A Missão” (Rambo: First Blood Part II, 1985) e “Rambo 3” (Rambo III, 1988), ambas com Stallone voltando ao seu papel do soldado Rambo e também com a companhia de Richard Crenna como o Coronel Trautman, em histórias repletas de ação, correrias, violências, tiroteios, porém num desfile sucessivo de clichês e situações óbvias, acrescentando muito pouco para a franquia. Em “Rambo 2” ele retorna ao Vietnã para tentar localizar prisioneiros de guerra, e na terceira parte Rambo tenta resgatar o Cel. Trautman que estava preso pelos soviéticos na ocupação do Afeganistão. 

Enfim, “Rambo: Programado Para Matar” (o subtítulo é desnecessário) traz grandes momentos de diversão sendo um precursor de uma infinidade de filmes similares que vieram em seu rastro, a maioria bem inferior, e Stallone foi também um inspirador para diversos outros atores “brucutus” que surgiram depois. O filme exerce um fascínio diferente principalmente quando visto muitos anos depois num sentimento de nostalgia, destacando-se como um dos mais importantes da carreira de sucesso de Stallone.


“Rambo: Programado Para Matar” (First Blood, 1982)

avaliação: 8 (de 0 a 10)


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(postado em 12/01/06)

(RR - Julho de 2002)










Platoon (EUA, 1986)




“Rejoice, O young man, in thy youth...” – “Regozija-te, oh jovem, em tua juventude...” – Ecclesiastes

Com estas palavras sábias, referindo-se aos homens que perderam suas vidas muito jovens na guerra, inicia-se um dos principais filmes retratando o ambiente hostil da Guerra do Vietnã, “Platoon” (Platoon). Exibido nos cinemas em 1986, o filme foi dirigido e escrito por Oliver Stone e estrelado, entre outros, por Tom Berenger, Willem Dafoe, Charlie Sheen, Forest Whitaker, Francesco Quinn, Kevin Dillon, Keith David e Johnny Depp. A produção foi filmada nas selvas das Filipinas e seu maior sucesso está na forma cruel e mais verdadeira possível com que mostrou os horrores de uma guerra absurda e sem vencedores, triunfando somente a Morte, implacável e fatal. Indicado em oito categorias do cobiçado Prêmio “Oscar”, ganhou com méritos as estatuetas de melhor filme, direção, edição e som.
Com um orçamento reduzido de apenas seis milhões de dólares (quando um filme médio na época superava a casa dos US$ 15 milhões), a história de “Platoon” é baseada em fatos reais de experiências vividas pelo diretor Oliver Stone que participou dessa guerra e foi condecorado com uma “Estrela de Bronze”. Ele foi enviado com apenas 19 anos de idade em setembro de 1967 para o sudeste asiático, numa região próxima à fronteira do Camboja, com o objetivo de combater o comunismo dos chamados “vietcongues”, com os Estados Unidos novamente impondo sua ideologia política.
No filme, ele é Chris Taylor (Charlie Sheen, filho de Martin Sheen que curiosamente foi também o protagonista de outro expoente máximo do cinema que explorou a Guerra do Vietnã, “Apocalypse Now”, 1979, de Francis Ford Coppola). Taylor e vários outros soldados jovens e inexperientes são enviados para o campo de batalha no meio das selvas para enfrentar um inimigo inferior em tecnologia militar mas conhecedor do ambiente das florestas fechadas e com uma vontade enorme de expulsar os invasores de seus territórios (no caso os Estados Unidos com seu tradicional imperialismo sobre nações economicamente mais pobres). Entre o grupo de soldados estão atores novatos como Kevin Dillon (Bunny), Forest Whitaker (Big Harold) e Johnny Depp (Lerner) que lançaram a partir daí suas carreiras de sucesso.
Porém, além da guerra brutal nas selvas, Taylor tem que enfrentar também um conflito interno dentro de seu próprio pelotão do exército, dividido entre o “mocinho” sargento Elias (Willem Dafoe), um oficial honesto e com senso de humanidade, e o “bandido” sargento Barnes (Tom Berenger), um oficial frio, arrogante, interesseiro e cruel. Ambos disputam a liderança de um regimento de infantaria em plena guerra e possuem visões opostas sobre o horror e motivações da batalha armada em que estão participando. E Taylor acaba pendendo para o lado de Elias, cujo grupo de soldados de seu pelotão costuma se drogar nos raros momentos livres para diversão, procurando fugir da insanidade da guerra sob o efeito alucinógeno da maconha.
Como um fato curioso, o diretor Oliver Stone aparece em uma pequena ponta não creditada interpretando um comandante sob fogo cruzado que solicita para seu comando um ataque de aviões para bombardear o campo inimigo.
Outras curiosidades incluem duas frases em especial. A primeira, numa conversa entre o sargento Elias e o recruta Taylor, o superior diz ao mais jovem, “Nós vamos perder essa guerra... Temos tirado vantagem dos outros há tanto tempo que agora eu acho que é a nossa vez”. Após três longos e sangrentos anos combatendo no Vietnã, o experiente sargento Elias pode observar toda a selvageria e irracionalidade daquela guerra e suas palavras refletem um raro momento de sanidade em meio ao caos. A outra frase curiosa foi proferida por um oficial americano de alta patente no meio de uma batalha violenta onde os vietcongues estavam dominando os inimigos. Numa última tentativa desesperada de reagir aos ataques, o oficial ordena um bombardeio final sobre suas próprias cabeças apostando na sorte de quem sobreviver, já que não havia mais saída. Ao terminar sua ordem pelo rádio ao piloto do avião bombardeiro, ele diz algo como “É uma beleza de guerra”, referindo-se à complexidade das estratégias de combate para se vencer ou perder uma batalha. Na verdade, a guerra não é bela, é apenas bestial e irracional. Após o final desse combate, o que restou foram pilhas de cadáveres sem nacionalidade, que tiveram que ser enterrados numa vala gigante.

(Atenção: o texto a seguir contém spoilers)

A trilha sonora de Georges Delerue se encaixou perfeitamente nas cenas de batalhas criando momentos de forte emoção ao se fundir com as imagens de violência da guerra. Em especial, numa sequência envolvendo o sargento Elias quando ele é abandonado na selva pelos companheiros e traído pelo rival sargento Barnes, que fogem de helicóptero de um cerco vietcongue. Elias corre por sua vida com dezenas de inimigos em seu encalço e ao chegar numa grande clareira na mata ele é mortalmente alvejado, porém ainda caminha mais um pouco e cai ferido no chão rastejando com dificuldades. Ele então lentamente ajoelha-se, recebe mais uma carga fatal de disparos pelas costas, depois ergue seus braços ao alto num momento antológico de pura indignação perante o horror brutal da guerra, e finalmente tomba na terra morto, com uma música de arrepiar ao fundo (aliás, essa cena magistral, uma das mais significativas de toda a história do cinema, é reproduzida no cartaz principal do filme).
O elenco é de grande qualidade e acabou revelando o talento de muitos jovens atores que ao longo dos mais de 15 anos desde a sua produção estão com suas carreiras reconhecidas principalmente no caso dos excelentes Willem Dafoe (visto como o vilão “Duende Verde” em “Homem-Aranha, de Sam Raimi, ou ainda como a criatura “Nosferatu” em “A Sombra do Vampiro”), Forest Whitaker (um dos assaltantes em “O Quarto do Pânico), Tom Berenger (de “D-Tox”) e Johnny Depp (de “Do Inferno”).
O prestigiado diretor Oliver Stone fez ainda mais dois filmes dramáticos sobre a Guerra do Vietnã após “Platoon”, numa espécie de trilogia sobre o tema, através de “Nascido em Quatro de Julho” (1989, com Tom Cruise) e “Entre o Céu e a Terra” (1993, com Tommy Lee Jones).

“Platoon” (Platoon, 1986) – avaliação: 9,5 (de 0 a 10)
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(postado em 12/01/06)

Platoon (Platoon, Estados Unidos, 1986). Duração: 120 minutos, disponível em VHS e DVD no mercado brasileiro de vídeo. Direção e roteiro de Oliver Stone. Produção de Arnold Kopelson e A. Kitman Ho. Música de Georges Delerue. Fotografia de Robert Richardson. Montagem de Claire Simpson. Efeitos Especiais de Yves De Bono e Gordon J. Smith. Elenco: Charlie Sheen (Chris Taylor), Willem Dafoe (Sargento Elias), Tom Berenger (Sargento Barnes), Keith David (King), Francesco Quinn (Rhah), Forest Whitaker (Big Harold), Kevin Dillon (Bunny), John C. McGinley (Sargento O´Neill), Reggie Johnson (Junior), Mark Moses (Tenente Wolfe), Corey Glover (Francis), Johnny Depp (Lerner), Chris Pedersen (Crawford), Bob Orwig (Gardner), Corkey Ford (Manny), David Neidorf (Tex), Richard Edson (Sal).

Pesadelos Diabólicos (Nightmares, EUA, 1983)


Dentre os diversos filmes de antologias, ou seja, aqueles que apresentam vários episódios narrados de forma independente ou interligados entre si, um que se destaca no cinema fantástico é um típico exemplo da produção dos saudosos anos 1980. “Pesadelos Diabólicos” (Nightmares, 1983), com direção de Joseph Sargent, reúne quatro contos curtos de horror, com roteiros independentes, mostrando um psicopata assassino, um videogame com vida própria, um carro possuído pelo demônio, e uma ratazana gigante, num exercício de puro entretenimento.
O primeiro episódio é “Terror em Topanga” (Terror in Topanga), onde uma notícia de rádio informa que um maníaco assassino está foragido de um hospital psiquiátrico e foi visto na região de Topanga Canyon, em Los Angeles, atacando violentamente um guarda rodoviário. Ignorando o perigo, uma mulher, Lisa (Cristina Raines), desobedece a orientação do marido, Phil (Joe Lambie), para não sair à noite sozinha, e decide ir de carro até um mercado para comprar cigarros, pois não consegue controlar seu vício. Na volta, ao ser obrigada a parar num posto de gasolina para abastecer o carro com combustível, ela enfrenta um dos piores pesadelos de toda sua vida.
Uma história simples, sem grandes novidades, sendo a mais fraca do filme, apresentando mais um psicopata assassino à solta nas ruas. Porém, com um desfecho “surpresa” razoável, e pelo fato de ser bem curto, o episódio até agrada. Como curiosidade, numa cena o filho do casal está assistindo na televisão “Frankenstein” (1931), de James Whale e com Boris Karloff, numa acertada homenagem a esse grande clássico do cinema de horror.
A seguir vem o conto “O Bispo da Batalha” (The Bishop of Battle), uma interessante história de horror com elementos de ficção científica, trazendo o jovem J. J. Cooney (Emilio Estevez) como um fanático jogador de fliperama que está obcecado em derrotar um videogame que se auto intitula como o “Senhor de Todos os Desafios” e que possui 13 níveis com dificuldades progressivas. Com um fone de ouvido reproduzindo a agressividade de um rock pesado servindo de estímulo e motivação, o jovem jogador tenta de todas as formas vencer o jogo e sua obsessão é tão grande que ele invade a loja de um shopping center à noite, arrombando a porta para poder jogar no misterioso fliperama. Porém, ao conseguir atingir o maléfico nível 13, ele descobre que sua curiosidade foi longe demais e é obrigado a enfrentar uma entidade sobrenatural.
Apesar dos efeitos especiais nitidamente datados, que chegam a ser inexpressivos quando comparados com a tecnologia dos filmes atuais, esse episódio é ótimo e denuncia como um vício obsessivo pode se tornar literalmente mortal.
A terceira história é “A Benção” (The Benediction), trazendo um padre, MacLeod (Lance Henriksen), numa grave crise pessoal de fé devido ao assassinato de uma criança inocente num assalto. Ele decide abandonar a igreja, apesar dos conselhos do amigo Padre Luis Del Amo (Tony Plana) para ficar e insistir na crença em Deus, e viaja sem destino com seu carro pelas estradas do deserto. Lá, ele é surpreendido pela presença misteriosa de uma pick-up preta que passa a persegui-lo e tenta matá-lo. Uma vez lutando por sua vida, o ex-padre enfrenta a fúria de um carro possuído pelo mal e é obrigado a testar definitivamente sua fé.
Apesar de apresentar um elemento já bastante explorado, o carro possuído, o episódio é igualmente ótimo destacando-se a presença marcante de Lance Henriksen como o padre atormentado e autor de um discurso polêmico de desabafo para um bispo superior: “Eu só vejo a anarquia. Somente a inexplicável descrença da anarquia. E vejo pessoas serem soterradas pela máquina dessa anarquia. Gente angustiada. O meu... O meu maior medo é que isso não seja obra do Diabo, porque se não existe Deus, também não existe Diabo. E se houvesse um Deus, ele não permitiria tanto sofrimento. Eu cheguei à conclusão de que nós vivemos num grande vazio. Iminência, eu perdi a minha fé.” Outro momento de destaque é quando o carro satânico surge repentinamente debaixo da terra, numa cena muito bem produzida e de grande impacto.
Para finalizar com “chave de ouro”, o último episódio é o melhor do filme e se chama “A Noite do Rato” (Night of the Rat), mostrando uma família tradicional que é formada por um casal em crise de relacionamento, Steven Houston (Richard Masur), e sua esposa, Claire (Veronica Cartwright), além da filha pequena, Brooke (Bridgette Andersen), e que é atormentada pela presença de uma enorme ratazana sobrenatural, um demônio roedor descrito numa antiga lenda alemã. A criatura caminha pesadamente pelo sotão e porão destruindo progressivamente a fiação elétrica e o interior das paredes, e após seu filhote ser morto numa ratoeira, o monstro maligno parte para um confronto final com os moradores da casa.
Animais gigantes sempre povoaram o cinema fantástico numa infinidade de filmes super divertidos, e a presença de um rato com tamanho descomunal inevitavelmente causa um sentimento desconfortável de repulsa e medo, principalmente quando ele emite seus horríveis gritos agudos de raiva, os quais agridem violentamente os tímpanos da audição humana. Um destaque é quando o enorme rato estraçalha literalmente uma gata de estimação da família, contrariando a idéia de que os gatos é que perseguem os ratos. De negativo nesse episódio, fica o desfecho insatisfatório numa tentativa equivocada de “final feliz”.
O diretor americano Joseph Sargent nasceu em 1925 em New Jersey, e possui em seu currículo uma vasta filmografia com mais de 70 trabalhos. Ele é mais conhecido por suas atuações para a televisão, dirigindo episódios para inúmeras séries do passado como “Gunsmoke” (1955/75), “Bonanza” (1959/73), “O Fugitivo” (1963/67), “O Agente da U.N.C.L.E.” (1964/68), “Os Invasores” (1967/68), “Jornada nas Estrelas” (1966/69) e “Os Guerrilheiros” (1967/68), além de muitos filmes produzidos especialmente para a telinha, como a ficção científica “Colossus: The Forbin Project” (1970) e dezenas de outros trabalhos feitos principalmente a partir de meados da década de 1980.
Jeffrey Bloom e Christopher Crowe, que escreveram as interessantes histórias de “Pesadelos Diabólicos”, fizeram também parte da equipe de roteiristas da série de TV “Quarto Escuro” (1981/82), onde o veterano ator James Coburn apresentava histórias de horror e suspense no mesmo estilo de “Além da Imaginação” e “Galeria do Terror”, criadas por Rod Serling.
O elenco está repleto de desconhecidos, com exceção de um ainda jovem Emilio Estevez, que faria sucesso posteriormente, de Lance Henriksen, um eterno coadjuvante largamente visto numa infinidade de filmes seguintes, e da atriz inglesa Veronica Cartwright, que apareceu em filmes importantes de horror e ficção científica como “Os Pássaros”(1963), “Invasores de Corpos” (1978) e o clássico moderno “Alien, o Oitavo Passageiro” (1979). Emilio Estevez nasceu em 1962 em New York e participou de vários filmes de prestígio como o western “Jovens Demais Para Morrer” (1988), onde interpretou o lendário pistoleiro “Billy the Kid”, ao lado do veterano Jack Palance e de outros jovens com carreiras igualmente promissoras como Kiefer Sutherland e Charlie Sheen, além da ficção científica “Freejack” (1992), junto com o músico Mick Jagger e do experiente Anthony Hopkins. Ele participou também da “bomba” dirigida por Stephen King “Comboio do Terror”, em 1986. Já Lance Henriksen nasceu em 1940 também em New York e é bem conhecido por sua participação fixa no elenco da série de mistérios “Millennium” (1996/99), criada por Chris Carter. Sua carreira é extensa, com quase noventa filmes, muitos deles sendo interessantes produções de baixo orçamento de horror como “Quando Chega a Escuridão” (1987) e “Pumpkinhead – A Vingança do Diabo” (1988). Fazem parte também de sua filmografia atuações em “O Exterminador do Futuro” (1984) e nas duas primeiras sequências da franquia “Alien”, filmadas em 1986 e 1992.
Como na maioria das vezes, os responsáveis pela definição dos títulos nacionais dos filmes que chegam ao Brasil, novamente procuraram complicar uma tarefa fácil, e incluíram desnecessariamente um adjetivo em vez de simplesmente traduzirem de forma literal o nome original do filme “Nightmares” para “Pesadelos”, preferindo nomear como “Pesadelos Diabólicos”. Pelo menos, eles acertaram com os nomes dos quatro episódios, traduzindo literalmente dos originais.
Enfim, “Pesadelos Diabólicos” é um interessante filme dividido em quatro episódios de horror no melhor estilo de “Além da Imaginação”, com histórias explorando conflitos cotidianos e temáticas sobrenaturais, narradas de forma simples e despretensiosa, e que mesmo apresentando clichês e situações comuns, resultou num agradável momento de diversão e um destaque da filmografia desse estilo de filme na produtiva década de 1980.

“Pesadelos Diabólicos” (Nightmares, 1983) – avaliações: 6 (Terror em Topanga), 7 (O Bispo da Batalha), 7,5 (A Benção), 8 (A Noite do Rato) (de 0 a 10).
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(postado em 12/01/06)

Pesadelos Diabólicos (Nightmares, Estados Unidos, 1983). Duração: 99 minutos. Direção de Joseph Sargent. Roteiro de Jeffrey Bloom e Christopher Crowe. Produção de Christopher Crowe. Fotografia de Mario DiLeo e Gerald Perry Finnerman. Música de Craig Safan. Edição de Michael Brown e Rod Stephens. Elenco: Episódio 1 “Terror em Topanga” – Cristina Raines (Lisa), Joe Lambie (Phil), Anthony James, Clare Nono, Raleigh Bond, Robert Phelps, Dixie Lynn Royce, Lee Ving. Episódio 2 “O Bispo da Batalha” – Emilio Estevez (J.J. Cooney), Mariclare Costello (Adele Cooney), Louis Giambalvo (Jerry Cooney), Moon Unit Zappa (Pamela), Billy Jayne (Zock Maxwell), Joshua Grenrock (Willie), Gary Cervantes (Mazenza), C. Stewart Burnes (Root), André Díaz (Pedro), Rachel Goslins, Joel Holman, Christopher Bubetz, Rudy Negrete. Episódio 3 “A Benção” – Lance Henriksen (MacLeod), Tony Plana (Padre Luis Del Amo), Timothy Scott (Patrulheiro da rodovia), Robin Gammell (Bispo), Rose Mary Campos. Episódio 4 “A Noite do Rato” – Richard Masur (Steven Houston, Veronica Cartwright (Claire Houston), Bridgette Andersen (Brooke Houston), Albert Hague (Mel Keefer), Howard R. Flynn (Locutor da rádio).



Os Mortos Vivos (Dead & Buried, EUA, 1981)

“Uma antiga lenda diz que eles só podem ser feitos de quem morreu de uma morte violenta.”
– trecho de um livro sobre bruxaria e vodu

“Bem vindo à Potters Bluff – Um novo estilo de vida”, diz o cartaz na entrada de uma pequena cidade americana em Rhode Island. Eu acrescentaria ainda no final dessa frase de boas vindas aos forasteiros, que dependendo do caso a cidade oferece um novo estilo de vida, ou de morte...
“Os Mortos Vivos” (Dead & Buried, 1981) é o típico filme que se encaixa perfeitamente num subgênero do cinema de horror que podemos classificar como “pequena cidade do interior que esconde um terrível segredo”.

Potters Bluff é uma cidade pequena e pacata, onde seus habitantes procuram viver uma rotina calma e em paz. Gente aparentemente inofensiva como o dono do hotel local, Ben (Macon McCalman), o diretor da escola, Sr. Paul Haskell (Robert Boler), o dono de uma loja de revelação de filmes, Ernie (Bill Quinn), o motorista de um guincho, Harry (Robert Englund), o assistente de um agente funerário, Jimmy (Glenn Morshower), uma garçonete, Midge (Linda Turley), a assistente do xerife, Betty (Estelle Omens), o médico chamado apenas de Doutor (Joe Medalis), um coveiro, Sam (Michael Pataki), além de outros cidadãos comuns como Phil (Barry Corbin) e Herman (Michael Currie). Sem falar no xerife Dan Gillis (James Farentino), sua bela esposa a professora Janet (a canadense Melody Anderson), que tem um curioso interesse em ensinar magia negra aos seus alunos, o sinistro legista e agente funerário William G. Dobbs (Jack Albertson, de “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, 71 e “O Destino do Podeidon”, 72), que tem um mórbido prazer em reconstruir os corpos deformados de cadáveres, um serviço que considera uma arte e aprecia fazer ao som de música dos anos 30, e ainda a bela Lisa (Lisa Blount), uma jovem loira que aprecia ser fotografada e gostaria de ser modelo.
Porém, a tranquilidade da cidade começa a mudar radicalmente quando tem início uma turbulenta série de assassinatos violentos de forasteiros que visitam Potters Bluff ou que estão apenas de passagem, despertando a atenção do xerife Dan Gillis para as investigações. Começando por um jovem fotógrafo profissional de St. Louis, George LeMoyne (Christopher Allport), que chega em férias com sua kombi numa praia da cidade e conhece a misteriosa loira Lisa, que pede para ser fotografada. Uma vez seduzido por ela, o fotógrafo, apelidado pela jovem de Freddie, não imaginaria seu doloroso destino literalmente ardente em chamas. Outros forasteiros que sentiram a dócil hospitalidade do povo local são um velho pescador bêbado (Ed Bakey), uma família formada pelo pai Ron (Dennis Redfield), a mãe Linda (Nancy Locke Hauser) e o filho pequeno Jamie (interpretado pelos irmãos gêmeos Mark e Michael Courtney), além de uma jovem e bela caronista chamada Chance (Lisa Marie), convidada a visitar Potters Bluff e experimentando o peso de uma enorme pedra arremessada contra seu crânio.

O argumento de “Os Mortos Vivos”, uma pequena cidade assustadora que esconde um segredo, lembra bem um episódio esticado da nostálgica série de TV dos anos 60 “Além da Imaginação” (The Twilight Zone). O filme tem tudo aquilo que um fã de horror procura como suspense e tensão em momentos oportunos, clima perturbador de mistério, cenas de perseguição, violência gráfica em assassinatos cruéis, revelações sutis ao longo da história com elementos de magia negra, e um coerente e excepcional final surpresa. É um daqueles filmes de horror dignos do que de mais divertido foi produzido nos saudosos anos 80, ao lado de “O Iluminado”, “Grito de Horror”, “Um Lobisomem Americano em Londres”, “Poltergeist”, “The Evil Dead”, “O Enigma do Outro Mundo”, “The Beyond”, “Videodrome”, “A Mansão da Meia-Noite”, “A Hora do Pesadelo”, “O Dia dos Mortos”, “Demons”, “Re-Animator”, “A Volta dos Mortos Vivos”, “A Casa do Espanto”, “Colheita Maldita”, “From Beyond”, “A Mosca”, “Hellraiser”, “A Maldição dos Mortos Vivos”, “A Bolha Assassina”, “Cemitério Maldito”, e outros mais.
A idéia inicial do diretor Gary Sherman (de “Poltergeist 3 – O Capítulo Final”, 88) era realizar um filme de humor negro, e felizmente o projeto mudou seus rumos deixando a comédia de lado e partindo para um horror verdadeiro com impressionantes cenas “gore”, graças à solicitação da produtora “PSO International”, que assumiu os trabalhos de produção e exigiu as mudanças estratégicas.

Entre as várias cenas de destaque, vale a pena registar uma em especial, que é muito perturbadora e envolve a primeira vítima dos cidadãos de Potters Bluff, que mesmo sobrevivendo depois de arder em chamas, é surpreendido no hospital por uma bela enfermeira que lhe prepara uma enorme injeção para ser aplicada no único olho que ainda sobrou intacto. Ou a cena onde o Doutor, após descobrir fatos reveladores e inconvenientes, recebe a visita de seus vizinhos e amigos que lhe injetam ácido pelas narinas, num processo de derretimento digno de nota. Ou ainda a cena onde um grupo de habitantes da cidade, todos portando armas cortantes e ferramentas com o objetivo de machucar, estão caminhando de forma sinistra numa rua à noite, envolvidos por uma espessa neblina, perseguindo calmamente uma família de forasteiros (uma foto dessa sequência macabra e fantasmagórica está reproduzida na contra capa da fita VHS lançada no Brasil em 2003 pela “Europa Filmes”).
Aliás, o filme foi disponibilizado primeiramente nas locadoras em meados dos anos 80, na época do mercado de fitas alternativas (apenas um outro nome para “pirataria”) com o título nacional “Morto & Enterrado”, uma tradução literal do original “Dead & Buried”, que é bem melhor que o nome que recebeu agora, pois o escolhido dessa vez, “Os Mortos Vivos”, além de ser trivial e comum demais, ainda entrega uma revelação importante da história.
Entre as curiosidades, temos a presença do ator Robert Englund num papel menor e secundário, interpretando um motorista de guincho. Ele que poucos anos mais tarde se tornaria notável e famoso ao se transformar no psicopata Freddy Krueger da série “A Hora do Pesadelo”, que teve sete filmes e um crossover com o rival Jason Voorhees (de “Sexta-Feira 13”). A equipe de produção de “Os Mortos Vivos” possui nomes consagrados no cinema de horror como o roteirista Dan O´Bannon, que escreveu as histórias de “Dark Star” (74), o clássico moderno “Alien, o Oitavo Passageiro” (79), “Força Sinistra” (85) e “O Vingador do Futuro” (90), além de dirigir filmes importantes como “A Volta dos Mortos-Vivos” (85) e “Renascido das Trevas” (92). E o filme contou também com a participação parcial do conhecido técnico em maquiagem e efeitos especiais Stan Winston, que tem um currículo significativo no gênero, onde inclui filmes como “O Enigma do Outro Mundo” (82), “Edward Mãos de Tesoura” (90), “Entrevista Com o Vampiro” (94) e “Pânico na Floresta” (2003).

“Os Mortos Vivos” (Dead & Buried, 1981) # 289 – data: 24/12/04 – avaliação: 8 (de 0 a 10)
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(postado em 11/01/06)

“Os Mortos Vivos” (Dead & Buried, Estados Unidos, 1981). Duração: 94 minutos. Direção de Gary Sherman. Roteiro de Dan O´Bannon e Ronald Shusett, a partir de história de Jeff Millar e Alex Stern. Produção de Robert Fentress, Ronald Shusett e Michael I. Rachmil. Produção Executiva de Richard R. St. Johns. Fotografia de Steve Poster. Música de Joe Renzetti. Edição de Alan Balsam. Direção de Arte de Joe Aubel e Bill Sandell. Maquiagem de Stan Winston. Elenco: James Farentino (Xerife Dan Gillis), Melody Anderson (Janet Gillis), Jack Albertson (William G. Dobbs), Dennis Redfield (Ron), Nancy Locke Hauser (Linda), Lisa Blount (Garota na praia / enfermeira / Lisa), Robert Englund (Harry), Bill Quinn (Ernie), Michael Currie (Herman), Christopher Allport (George LeMoyne / Freddie), Joe Medalis (Doutor), Macon McCalman (Ben), Lisa Marie (Chance), Estelle Omens (Betty), Linda Turley (Midge), Barry Corbin (Phil), Ed Bakey (Pescador), Glenn Morshower (Jimmy), Robert Boler (Sr. Paul Haskell), Michael Pataki (Sam), Mark Courtney e Michael Courtney (Jamie), Jill Fosse, Renee McDonell, Dottie Catching, Colby Smith, Judy Ashton, Tony Cecere, Bill Couch, Bill Couch Jr., Angelo De Meo.
Nota do Autor (29/10/10): A atriz americana Lisa Blount, que além desse “Os Mortos Vivos”, também esteve no divertido “O Príncipe das Sombras” (Prince of Darkness, 1987), dirigido por John Carpenter e com Donald Pleasence, morreu em 25/10/10 aos 53 anos.

A Maldição dos Mortos-Vivos (The Serpent and the Rainbow, EUA, 1988)



“Nas lendas vodus, a serpente é o símbolo da terra. O arco-íris é o símbolo do céu. Entre um e outro, todos os seres devem viver e morrer. Mas por ter alma, o homem pode ser aprisionado em um lugar terrível em que a morte é apenas o começo.”

Wes Craven é um daqueles diretores cujo nome sempre é lembrado quando o assunto é cinema de horror. Apesar que curiosamente tanto ele quanto Tobe Hooper, outro cineasta da mesma geração, iniciaram as carreiras no início da década de 70 com filmes violentos, perturbadores e muito cultuados até hoje, e ainda assim ambos possuem uma filmografia bastante irregular. Hooper dirigiu “O Massacre da Serra Elétrica” em 73 e “Eaten Alive” três anos depois, já Craven é o responsável por filmes como “Aniversário Macabro” (72) e “Quadrilha de Sádicos” (77), além do famoso “A Hora do Pesadelo” (84), o início da saga de Freddy Krueger, e da conhecida trilogia de horror adolescente “Pânico”, iniciada em 96, investindo na tradicional história do psicopata assassino mascarado. Mas, ao longo de suas carreiras, os dois fizeram vários filmes de qualidade duvidosa que acabaram caracterizando suas imagens como cineastas de altos e baixos, deixando os fãs sempre receosos e apreensivos quando é anunciado algum novo trabalho deles.
Entre a parte memorável da carreira de Wes Craven, destaca-se um filme produzido no final dos anos 80 abordando de forma diferente a sempre interessante temática dos zumbis, mesclando elementos sobrenaturais com fatos baseados na realidade, através das misteriosas práticas de vodu no Haiti, um país pobre da América Central, localizado na região das Antilhas, e que teve colonização francesa. O resultado disso pode ser conferido em “A Maldição dos Mortos-Vivos”, cujo nome nacional escolhido é bem oportunista e comercial, ao contrário do título em inglês que é “The Serpent and the Rainbow”, ou “A Serpente e o Arco-Íris”, com a origem desse nome sendo muito bem explicada na introdução narrada do filme, e que a título de ilustração está reproduzida no topo desse artigo.

Baseada em fatos reais, a história se inicia em 1978 no Haiti, uma terra conhecida pela prática de vodu, mostrando um homem diagnosticado como morto pela medicina e sendo enterrado. Depois ocorre um salto no tempo para 1985 numa região na bacia amazônica próxima ao Rio Negro, onde o antropólogo americano Dr. Dennis Alan (Bill Pullman), está fazendo uma perigosa expedição botânica, tendo contato com índios locais e experimentando fortes drogas alucinógenas.
De volta aos Estados Unidos, em Boston, ele recebe uma tentadora proposta para fazer uma viagem ao Haiti, a serviço de uma grande empresa farmacêutica chamada “Biocorp”, dirigida pelo Dr. Andrew Cassedy (Paul Guilfoyle), com o objetivo de investigar um fato extremamente curioso: a existência de evidências sobre um homem chamado Christophe Duran (Conrad Roberts), que havia morrido e sido enterrado há sete anos atrás, e que estava novamente andando entre os vivos, como se fosse um zumbi.
Ao chegar no Haiti, o Dr. Alan entra em contato com um país com um regime político ditatorial, sentindo uma revolução no ar que poderia estourar a qualquer momento. Com a ajuda da psiquiatra Dra. Marielle Duchamp (Cathy Tyson), que trabalha num asilo para doentes mentais interessado nas verbas da empresa americana, o pesquisador inicia uma investigação sobre o caso, encontrando e entrevistando Christophe, o homem que fora enterrado vivo anos atrás, entrando em contato com seitas religiosas que praticam o vodu, conhecendo um importante sacerdote, Lucien Celine (Paul Winfield), que também dirige uma boate para turistas, e tendo pesadelos estranhos em verdadeiros delírios oníricos. Além disso tudo, ele acabou descobrindo também um poderoso composto químico utilizado como analgésico que é capaz de simular a morte de uma pessoa, paralisando seus movimentos mas mantendo a consciência, conhecendo e fazendo amizade com um homem que fabrica esse veneno, Louis Mozart (Brent Jennings). O pó químico é uma mistura de vários componentes exóticos com rituais de magia negra e demora três dias e três noites para ser concluído. Mas o maior problema enfrentado pelo americano foi se envolver de forma extremamente perigosa com a polícia secreta do autoritário governo haitiano, comandada pelo violento Dargent Peytraud (Zakes Mokae), que também utiliza o vodu como arma ao seu favor.
No Haiti existe uma intensa turbulência política, com o povo vivendo oprimido sob um regime de ditadura que instaurou o caos social, e o trabalho do cientista americano inevitavelmente acabou incomodando certos interesses do poder, sendo perseguido por suas descobertas, e sentindo na pele a tirania da polícia local, com direito a uma sessão de tortura e até a ser enterrado vivo, sob o efeito de uma poderosa droga que dá a impressão de se estar morto, ludibriando os próprios médicos. Lutando por sua vida, o Dr. Alan precisará discernir o que é ciência do que é superstição ou sobrenatural, enfrentando mistérios desconhecidos num país vivendo sob um sufocante totalitarismo e onde magia negra é uma atividade comum.

“A Maldição dos Mortos-Vivos” pode ser considerado um filme dentro do sub-gênero “zumbis”, mas apresenta elementos que o diferem da maioria das produções sobre mortos-vivos, principalmente aquelas com mortos putrefatos canibais à procura do cérebro e da carne macia e fresca dos vivos. O filme de Wes Craven utiliza uma idéia central baseada em fatos reais (do livro de Wade Davis), sobre a desagradável experiência de um cientista americano enterrado vivo e descobrindo um pó químico capaz de simular a morte, mesclando a história com elementos sobrenaturais retirados de lendas locais sobre vodu, além de aproveitar também a oportunidade para fazer uma interessante crítica social contra o regime de ditadura do Haiti. O resultado é que não é simplesmente um filme de mortos-vivos sedentos de sangue e famintos por carne, é um filme abordando questões sobre magia negra, um misterioso composto químico capaz de “matar” temporariamente uma pessoa, a horrível sensação de ser enterrado vivo, e o desconfortável sentimento de se viver num país pobre e sem liberdade política, em condições encontradas em vários lugares do mundo.
Algumas cenas de destaque são as experiências de surrealismo vividas pelo antropólogo Dennis Alan em terríveis pesadelos onde ele se vê puxado para dentro da terra por mãos ameaçadoras, vendo animais selvagens e criaturas podres, além da sensação angustiante de ser colocado num caixão de madeira e enterrado vivo, consciente de tudo que está acontecendo e não podendo fazer nada até o término do efeito de uma droga poderosa, constatando depois que gritos desesperados são insuficientes para salvá-lo debaixo da terra.

Curiosamente, vale a pena citar a tagline oficial do filme, bastante sonora, “Don't bury me...I’m not dead!” ou “Não me enterrem... Eu não estou morto!”, enfatizando a idéia central da história em explorar o terrível medo de sermos sepultados vivos, o que certamente é uma das situações mais desesperadoras que um ser humano pode enfrentar. Basta tentar imaginar o sofrimento intenso e sentimento sufocante de claustrofobia de alguém preso num caixão escuro embaixo da terra, apertado, gritando, se debatendo violentamente, tentando sair de qualquer jeito em busca de ar puro, e principalmente, morrendo lentamente por não conseguir se libertar. Algumas palavras do pesquisador Dennis Alan, que sentiu na pele essa experiência macabra, reforçam a idéia de horror de ser enterrado vivo e envenenado por um composto químico misterioso que age como um forte anestésico de efeito temporário:
“Um homem saberia tudo o que está acontecendo o tempo inteiro, ouviria, veria, talvez até sentiria, pensaria, mas nada se pode fazer. A pessoa fica lá parecendo morta e enterrada. Só que estaria com vida. E é bom recordar, os testes revelaram que o efeito do pó passa após umas doze horas, deixando as vítimas completamente normais de novo, só que estão uns dois metros solo abaixo em total escuridão, se debatendo e gritando, mas ninguém para escutar.”

“O pó zumbi e seu ingrediente ativo, tetrodotoxina, estão atualmente sob estudo científico intenso tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. Até esta data, o seu modo de ação continua um mistério.”

“A Maldição dos Mortos-Vivos” (The Serpent and the Rainbow, 1988) # 249 – data: 08/05/04 – avaliação: 8 (de 0 a 10)
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“A Maldição dos Mortos-Vivos” (The Serpent and the Rainbow, Estados Unidos, 1988). Universal Pictures. Duração: 98 minutos. Direção de Wes Craven. Roteiro de Richard Maxwell e Adam Rodman, inspirados no livro homônimo de Wade Davis. Produção de Doug Claybourne, David Ladd e Robert Engelman. Produção Executiva de Rob Cohen. Fotografia de John Lindley. Música de Brad Fiedel. Edição de Glenn Farr. Direção de Arte de David Brisbin. Desenho de Produção de David Nichols. Maquiagem de David LeRoy Anderson e Lance Anderson. Efeitos Visuais de Gary Gutierrez. Elenco: Bill Pullman (Dennis Alan), Cathy Tyson (Marielle Duchamp), Zakes Mokae (Dargent Peytraud), Paul Winfield (Lucien Celine), Brent Jennings (Louis Mozart), Conrad Roberts (Christophe Duran), Paul Guilfoyle (Dr. Andrew Cassedy), Badja Djola, Theresa Merritt, Michael Gough, Dey Young.