Colheita Maldita (Children of the Corn, EUA, 1984)

E o diabo que os enganou foi lançado ao lago do fogo e enxofre. Onde estão a fera e o falso profeta, que serão atormentados dia e noite, para todo o sempre.

O escritor americano Stephen King é um dos mais cultuados autores da literatura de horror atual. Nascido em 1947 em Portland, Maine, ele é conhecido como “O Mestre do Horror Moderno”, devido ao seu notável talento em escrever livros e contar histórias repletas de elementos sobrenaturais. Sua obra literária alcançou um sucesso e reconhecimento tão grandes, que foi traduzida para dezenas de países e uma infinidade de suas histórias foram adaptadas para o cinema e televisão, tornando-se um dos autores mais filmados na história do cinema de horror, ao lado de outros mestres igualmente consagrados como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Clive Barker.
Porém, a adaptação das obras de Stephen King para o cinema tem sido considerada muito irregular, alternando entre alguns momentos positivos e muitos filmes de qualidade duvidosa, sempre dividindo a opinião dos fãs quanto aos resultados finais. Mas é sempre importante lembrar a diferença natural existente entre um livro e um filme, além de todas as conhecidas dificuldades em se adaptar uma obra literária para o cinema ou televisão, onde muitas vezes o filme acaba tomando algumas liberdades necessárias em relação ao texto original.
Em 1984, quando Stephen King ainda tinha poucas histórias transformadas em filmes, foi produzido “Colheita Maldita” (Children of the Corn), com direção do desconhecido Fritz Kiersch e com a bela Linda Hamilton (a corajosa Sarah Connor de “O Exterminador do Futuro”), sendo um exemplo significativo para a filmografia do conceituado escritor de horror, figurando na galeria dos bons trabalhos do cinema baseados em sua obra literária, juntamente com os anteriores “Carrie, a Estranha” (76) e “O Iluminado” (80), além dos seguintes “O Cemitério Maldito” (89), “Louca Obsessão” (90) e “Um Sonho de Liberdade” (94), entre alguns outros mais.

A história de “Colheita Maldita” se inicia com um breve flashback de três anos no passado, onde numa cidade do Nebraska chamada Gatlin, um grupo de crianças assassinam brutalmente todos os adultos num ataque planejado e liderado pelo pastor mirim Isaac Chroner (John Franklin), e pelo violento Malachai (Courtney Gains). Eles fazem parte de uma seita pagã que venera uma entidade maléfica sobrenatural conhecida como “Aquele Que Caminha Por Trás da Plantação”, formada exclusivamente por crianças e mantida pelo sacrifício humano de adultos com seu sangue irrigando os enormes campos de milharais que cercam a cidade.
A ação volta-se ao tempo presente e mostra um casal de Seattle viajando de carro pelas estradas do interior dos Estados Unidos, formado por um jovem médico, Dr. Burton Stanton (Peter Horton) e sua namorada Vicky (Linda Hamilton). Num momento de distração, ao tentar se localizar num mapa, Burt atropela um garoto no meio da estrada, Joseph (Jonas Marlowe), que estava tentando fugir da seita demoníaca atravessando o milharal até a estrada. Ao averiguar o acidente, ele descobre que o garoto já estava mortalmente ferido com um golpe de faca no pescoço, antes do atropelamento.
Uma vez tentando denunciar o assassinato do garoto, o casal se dirige até a cidade mais próxima, a misteriosa Gatlin, que não se encontra nos mapas oficiais, mesmo após os conselhos de um velho proprietário de um posto de gasolina à beira da estrada, Diehl (R. G. Armstrong), para procurarem ajuda na cidade de Hemingford, bem mais distante, porém mais segura.
Chegando em Gatlin, o casal encontra uma cidade completamente abandonada pelo tempo, com ruas, casas, escola, banco e lojas sujas e desertas, cobertas com troncos e restos secos de pés de milho, num clima de total desolação. Mesmo estranhando o ambiente hostil eles procuram por ajuda e encontram uma garotinha, Sarah (Anne Marie McEvoy), brincando dentro de uma casa abandonada. A criança tem um poder de premonição e manifesta suas visões através de desenhos que faz em folhas de papel. Ela e seu irmão Job (Robby Kiger) não gostam de Isaac e Malachai e estão aprisionados na cidade aguardando apenas uma oportunidade de fugirem.
Os jovens da seita maligna são oferecidos em sacrifício ao deus do inferno sempre que completam 19 anos de idade, numa “passagem” para uma outra vida, como a próxima vítima Amos (John Philbin), um rapaz devidamente preparado num ritual religioso ministrado por Rachel (Julie Maddalena), uma espécie de sacerdotisa.
Enquanto isso, Vicky é capturada pelos adolescentes rebeldes e levada até uma clareira no campo do milharal para servir também de sacrifício, e sua salvação depende exclusivamente do marido Burt, cuja missão é deter as ações da seita combatendo Isaac e Malachai, e libertar as crianças da influência sombria da entidade demoníaca que controla os milharais da cidade.

“Colheita Maldita” é um filme significativo por explorar alguns aspectos do cinema de horror que normalmente despertam interesse como a ambientação numa cidade fantasma e abandonada pela ação devastadora do tempo, que sempre transmite um clima depressivo de um local misterioso e deserto, onde anteriormente havia a movimentação de carros nas ruas e pessoas caminhando para todos os lados. E também pela utilização de aparentes crianças inocentes como protagonistas de uma chacina sangrenta, matando seus pais e todos os adultos da cidade, numa ação motivada por uma seita religiosa maligna, utilizando para isso todo tipo de armas rurais cortantes como facões, foices, ganchos, machados, cutelos, garfos e correntes.
Algumas cenas de destaque são quando no ataque das crianças aos adultos, o dono de uma lanchonete é obrigado a mutilar a mão num cortador de frios. Outro momento interessante é a cena de atropelamento do garoto fugitivo Joseph, arremessado violentamente vários metros de distância pelo impacto brutal do veículo contra seu frágil corpo. A sequência é bem inferior quando comparada com cenas de atropelamento mais realistas de filmes atuais como “Encontro Marcado” (98), “Premonição” (2000) ou “Identidade” (2003), mas considerando a época da produção, em meados dos anos 1980, o atropelamento de “Colheita Maldita” é bem memorável também.
O conto de Stephen King que inspirou o filme faz parte da antologia de contos “Night Shift” (1976/77/78), que foi lançada no Brasil como “Sombras da Noite” e a respectiva história como “As Crianças do Milharal”. O conto é curto com aproximadamente 30 páginas, e para se transformar num filme de 90 minutos o roteirista foi obrigado a incluir alguns personagens como o velho Diehl, numa participação rápida mas coerente com a história, onde o combustível de seu posto de gasolina e óleo diesel serviam de grande utilidade para as crianças, e o casal de irmãos Sarah, com suas habilidades de premonição, e o esperto Job, que ajudou Burt a escapar da fúria dos adolescentes assassinos. Além de outras situações que não existiam na obra literária, como um relacionamento estável e apaixonado entre o casal Burt e Vicky (no livro, eles estão enfrentando uma grave crise conjugal e brigando o tempo todo), e um desfecho diferente com um destino menos trágico para Vicky. Assim como o filme também optou por várias mudanças leves como o fato de Burt ser um médico recém formado ao invés de um veterano da guerra do Vietnã, e desenvolver com bem mais detalhes as características de alguns dos protagonistas como o pastor mirim Isaac e seu agressivo e temido discípulo Malachai, os quais foram apenas levemente explorados no conto original.
No final da leitura da história de Stephen King e de assistir o filme de Fritz Kiersch, podemos listar várias diferenças notáveis entre o conto do escritor e a adaptação para o cinema, sendo que o filme acaba surpreendendo tornando-se até superior ao texto original, com uma maior liberdade para o desenvolvimento da história, e deixando uma abertura para a exploração de eventuais continuações, as quais realmente aconteceram, só que infelizmente de forma pouca planejada e com resultados insatisfatórios e descartáveis. “Colheita Maldita” é um dos bons filmes de horror da produtiva década de 1980, e que é lembrado com frequência pelos apreciadores do estilo e pelos fãs da literatura de King.

O diretor Fritz Kiersch fez sua estréia em “Colheita Maldita” e é bem desconhecido, sem trabalhos relevantes. E o roteirista George Goldsmith não deixa para menos e também não tem grande prestígio no ofício tendo apenas em seu currículo um outro trabalho que merece registro, o obscuro “Blue Monkey” (87), um filme onde um estranho inseto invade um laboratório e ingere um produto químico que o transforma numa enorme criatura de quase três metros de altura formada por vários outros insetos.
O elenco principal de “Colheita Maldita” é formado por Peter Horton, Linda Hamilton, John Franklin e Courtney Gains. E somente a bela Linda Hamilton conseguiu algum destaque posteriormente, vindo a ser muito conhecida por sua atuação na FC “O Exterminador do Futuro” (84) e na continuação de 1991, ambas estreladas também por Arnold Schwarzenegger. Americana nascida no Estado de Maryland em 1956, seu currículo conta com aproximadamente 40 trabalhos, onde destacam-se também a participação em “King Kong 2” (86) e “O Inferno de Dante” (97), além da série de TV “A Bela e a Fera” (87/89). Já os outros atores não conseguiram uma projeção maior em suas carreiras. Courtney Gains nasceu em 1965 e John Franklin dois anos depois, e ambos fizeram suas estréias profissionais em “Colheita Maldita” com ótimas atuações nos papéis respectivamente do rebelde Malachai e do maligno pastor adolescente Isaac. Porém, ambos não conseguiram nada muito significativo em suas carreiras após isso. John Franklin ainda tem em seu currículo a participação nos dois filmes de “A Família Addams”, produzidos em 1991 e 93, debaixo de grande maquiagem como o cabeludo primo Itt. O elenco coadjuvante ainda conta com uma participação rápida e ilustre do veterano ator americano R. G. Armstrong, nascido em 1917 no Alabama. Sua filmografia conta com aproximadamente 85 trabalhos, sendo um rosto bastante conhecido em vários filmes de western.

O filme recebeu o nome nacional “Filhos do Mal” quando foi lançado nos cinemas em 1985, e depois mudou o título brasileiro para o mais conhecido “Colheita Maldita” no lançamento para o mercado de vídeo. Ambos os nomes escolhidos não são ruins e até possuem relações coerentes com a história, mas o ideal e mais fácil seria apenas traduzir literalmente o título original “Children of the Corn” para algo como “Crianças do Milharal”.

Curiosamente, a entidade maligna de “Colheita Maldita” é chamada por Stephen King originalmente por “He Who Walks Behind the Rows”, que no conto publicado no Brasil recebeu a correta tradução de “Aquele Que Anda Por Detrás das Fileiras” (referindo-se claramente às incontáveis fileiras dos milharais nos imensos campos de plantações). E no filme lançado em DVD, o demônio recebeu a nomeação alternativa e menos inspirada de “Aquele Que Caminha Por Trás da Plantação”.

A versão em DVD lançada no Brasil teve distribuição nas bancas, encartada na revista “DVD Premium” ano 3 número 28 (Agosto de 2003), da “NBO Editora”. Como extras, o disco traz apenas uma breve sinopse traduzida do site “Internet Movie Database” (www.imdb.com), e também pequenas biografias e lista de filmes dos atores Peter Horton e Linda Hamilton.

“Colheita Maldita” foi produzido em 1984, e oito anos depois executivos oportunistas do cinema de horror resolveram criar uma sequência que acabou gerando uma enorme e desnecessária franquia com sete filmes até o momento, sendo que a partir da quarta parte os filmes foram lançados diretamente para o mercado de vídeo. São eles: “Colheita Maldita 2 – O Sacrifício Final” (The Final Sacrifice, 1992, de David F. Price); “Colheita Maldita 3” (Urban Harvest, 1995, de James D. R. Hickox); “Colheita Maldita 4” (The Gathering, 1996, de Greg Spence); “Colheita Maldita 5 – Campos do Terror” (Fields of Terror, 1998, de Ethan Wiley); “Colheita Maldita 666 – Isaac Está de Volta” (Isaac’s Return, 1999, de Kari Skogland), este com a volta do ator John Franklin no mesmo papel de Isaac do filme original, sendo que inclusive o ator também escreveu o roteiro; e finalmente para concluir a saga veio “Colheita Maldita 7 – A Revelação” (Revelation, 2001, de Guy Magar).

E uma criança irá guiá-los... num pesadelo adulto

“Colheita Maldita” (Children of the Corn, 1984) # 214 – data: 04/01/04 – avaliação: 7 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com.br
blog: www.juvenatrix.blogspot.com.br
(postado em 06/01/06)

Colheita Maldita (Children of the Corn, Estados Unidos, 1984). Hal Roach Studios / New World Pictures. Duração: 90 minutos. Direção de Fritz Kiersch. Roteiro de George Goldsmith, baseado no conto “As Crianças do Milharal”, de Stephen King. Produção de Donald P. Borchers e Terence Kirby. Produção Executiva de Earl A. Glick. Música de Jonathan Elias. Fotografia de Raoul Lomas. Edição de Harry Keramidas. Elenco: Peter Horton (Burton Stanton), Linda Hamilton (Vicky), R. G. Armstrong (Diehl), John Franklin (Isaac Chroner), Courtney Gains (Malachai), Robby Kiger (Job), Anne Marie McEvoy (Sarah), Julie Maddalena (Rachel), Jonas Marlowe (Joseph), John Philbin (Richard “Amos” Deigan).

A Coisa (The Stuff, EUA, 1985)



Você está comendo ela... ou ela está comendo você?

Se fôssemos questionados para citar um filme despretensioso de horror da metade dos anos 80, numa produção de baixo orçamento, e que tenha elementos de humor negro e mensagens interessantes em seu argumento, um bom exemplo que viria à mente seria “A Coisa” (The Stuff, 1985), com direção e roteiro de Larry Cohen, americano nascido em 1938 e um nome bem conhecido no cinema fantástico “B”, sendo o criador das séries de filmes com um bebê assassino, iniciada com “Nasce um Monstro” (It´s Alive, 74), e com um policial psicopata, “Maniac Cop” (88). Além também de escrever as histórias de filmes mais comerciais como o ótimo “Por Um Fio” (Phone Booth, 2002), com Colin Farrell, Forest Whitaker e Kiefer Sutherland, e o fraco “Celular – Um Grito de Socorro” (Cellular, 2004), com Kim Basinger.

A história de “A Coisa” apresenta uma curiosa substância gosmenta encontrada por mineradores numa região com neve e que por possuir um sabor agradável ao paladar humano, passa a ser comercializada em larga escala através de lojas e supermercados como uma espécie de sobremesa bem apetitosa. O creme misterioso, de cor branca e parecido com um iogurte ou sorvete, recebeu o nome de “A Coisa”, ou “The Stuff”, e rapidamente conquistou uma imensa legião de consumidores ávidos em conhecer seu sabor e conseqüentemente ingerir grandes quantidades do produto.
Porém, um ex-agente do FBI e agora um espião industrial, David “Mo” Rutherford (Michael Moriarty), é contratado para tentar desvendar a fórmula do doce e descobre um terrível segredo por trás de sua aparência atrativa. Ele une seus esforços com uma publicitária, Nicole (Andrea Marcovicci, de “A Mão”, 81), que foi a responsável pela bem sucedida campanha de marketing do produto, e também acolhe um garoto fugitivo, Jason (Scott Bloom), que havia testemunhado uma cena estranha envolvendo o creme dentro de sua geladeira e cuja família passou a ter um comportamento misterioso depois de consumir doses exageradas da “coisa”.
Juntos, eles tentam combater a ameaça da sobremesa assassina convencendo um militar fanático de direita, Coronel Malcolm Grommett Spears (Paul Sorvino), para lançar seu exército contra a invasão de uma raça de criaturas alienígenas que manipulam suas vítimas transformando-as em escravos, alimentando-se de suas vísceras.

O filme, através de um clima descontraído de puro entretenimento, procura transmitir uma série de mensagens interessantes resgatando aquela nostálgica magia do cinema “B” principalmente dos anos 50, onde a “coisa” seria considerada uma espécie de metáfora da paranóia dos americanos contra uma invasão comunista, algo que era bem típico nos argumentos dos filmes bagaceiros de horror e ficção científica daquele conturbado período da guerra fria. A “coisa” é uma parasita alienígena que engana suas vítimas, tomando o controle de suas mentes e depois consumindo seus corpos por dentro, se alimentando das entranhas e transformando as pessoas em cascas vazias.
As cenas e diálogos envolvendo o truculento militar Coronel Spears, quando ele entra em ação para combater a ameaça alienígena, somente realça um sentimento obcecado contra um suposto inimigo que quer tomar a liberdade dos cidadãos, além também de enfatizar o incrível fascínio que os armamentos bélicos despertam nos americanos.
Outras mensagens oportunas inseridas na história pelo diretor e roteirista Larry Cohen são a ênfase da sociedade americana num consumo descontrolado por produtos manipulados pelo poder da propaganda, pois a “coisa” é largamente divulgada em comerciais de televisão chamando a atenção dos consumidores famintos por experimentar seu sabor.
Tem também o alerta para a selvagem concorrência dentro do mercado, com espiões industriais espalhados para todos os lados e conspirações para segurar o interesse dos clientes, além da facilidade de propagação do tráfico ilegal de um produto proibido, como sugere o desfecho da história.

Curiosamente, o personagem David “Mo” Rutherford, interpretado por Michael Moriarty, ganhou o apelidado de “Mo” porque quando ele recebia dinheiro das pessoas que o contratavam para seus serviços de espionagem, ele sempre queria mais (ou “more” em inglês). Para simular a “coisa”, os produtores utilizaram sorvete e iogurte de verdade, e numa determinada cena onde aparece uma avalanche da criatura, foi utilizada uma imensa quantidade de espuma de extintor de incêndio.

“A Coisa” já havia sido lançado no Brasil em VHS pela “Poletel”, e está há muito tempo fora de catálogo. E também o filme foi lançado em DVD com distribuição nas bancas em Junho de 2005, encartado na revista “Play Video” ano 1, número 3, da “NBO Editora”. O disco traz de material extra apenas duas pequenas biografias dos atores Michael Moriarty e Paul Sorvino, além de uma sinopse curta e simples. A revista também não tem grandes atrações, trazendo uma matéria bem superficial sobre o gênero Horror no cinema, dando um destaque maior para filmes mais conhecidos como “Pânico” (96), “The Evil Dead” (82) e “Hellraiser” (87), ou mais recentes como o confronto dos famosos psicopatas no crossover “Freddy vs. Jason” (2003), o barulhento “Van Helsing” (2004) e a excelente história de fantasmas “Os Outros” (2002).

Você sempre vai querer mais da coisa” – slogan de um comercial de televisão

“A Coisa” (The Stuff, 1985) # 324 – data: 13/07/05 – avaliação: 7 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com.br
blog: www.juvenatrix.blogspot.com.br (postado em 06/01/06)

A Coisa (The Stuff, Estados Unidos, 1985). Duração: 87 minutos. Direção e roteiro de Larry Cohen. Produção de Paul Kurta e Barry Shils. Produção Executiva de Larry Cohen. Música de Dwight Dixon e Anthony Guefen. Fotografia de Paul Glickman. Edição de Armond Lebowitz. Desenho de Produção de Larry Lurin. Efeitos Especiais de Bret Culpepper. Maquiagem de Steve Neill. Elenco: Michael Moriarty (David “Mo” Rutherford), Andrea Marcovicci (Nicole), Garrett Morris (Chocolate Chip Charlie / Charlie W. Hobbs), Paul Sorvino (Coronel Malcolm Grommett Spears), Scott Bloom (Jason), Danny Aiello (Vickers), Patrick O’Neal (Fletcher), James Dixon, Alexander Scourby, Russell Nype, Gene O’Neill, Catherine Schultz, James Dukas, Peter Hock.



Uma Noite Alucinante 2 – Mortos ao Amanhecer (Evil Dead II - Dead By Dawn, EUA, 1987)

A lenda diz que o livro foi escrito pelos que estão na escuridão, Necronomicon Ex-Mortis, brutalmente traduzido, O Livro dos Mortos. O livro serviu como passagem para o mal do outro mundo. Foi escrito há muito tempo. Quando os mares encheram-se de sangue. E foi com esse sangue que o livro foi escrito. No ano 1300 A.C. este livro desapareceu.

Essa introdução narrada dá início ao filme intermediário da cultuada trilogia criada por Sam Raimi em 1982 com “The Evil Dead” (No Brasil recebendo o infeliz título de “A Morte do Demônio”) e concluída em 1992 com “Army of Darkness” (“Exército da Escuridão”). O primeiro filme é um dos maiores destaques do cinema de horror de todos os tempos, apresentando uma violência crua e direta com cenas grotescas de grande impacto visual, com direito a decapitações e esquartejamentos a machadadas num brutal banho de sangue, tornando-se um forte inspirador para diversas obras seguintes e um clássico moderno do gênero. O terceiro filme da franquia está mais voltado para o humor, mostrando as aventuras do herói Ashley na época medieval combatendo demônios alados e um exército da escuridão formado por mortos-vivos.
Evil Dead II” recebeu no Brasil o título de “Uma Noite Alucinante 2 – Mortos ao Amanhecer”. Foi produzido em 1987 pela mesma equipe principal de criação do filme original, sendo na verdade uma refilmagem de um mesmo argumento, em vez de uma sequência como poderia ser imaginado inicialmente. Uma das grandes diferenças entre ambos os filmes foi que o diretor Sam Raimi (de “Darkman” e “Homem-Aranha”) preferiu adotar uma linha mais humorística (com inspiração na antiga série de televisão “Os Três Patetas”, conforme informações dele próprio), apesar de não faltarem as cenas agressivas, acrescentando alguns elementos e personagens novos na história original, e adotando um final que possibilitasse uma continuação, como aconteceu de fato alguns anos depois com “Army of Darkness”, igualmente voltado para o humor negro. Uma outra diferença também é que dessa vez o diretor teve a sua disposição um orçamento bem maior para a produção, financiada pela poderosa empresa de Dino de Laurentiis, e ele pode contar com efeitos especiais mais avançados que os do primeiro filme.

A história traz um casal de jovens, Ashley (Bruce Campbell) e sua namorada Linda (Denise Bixler), que pára numa cabana isolada nas montanhas para descansarem. Lá eles encontram o “Livro dos Mortos”, um antigo e raro artefato manuscrito cujo perigoso conteúdo incluía uma série de ilustrações macabras e passagens cabalísticas que uma vez recitadas possibilitavam a ressurreição de ferozes demônios adormecidos. Junto ao livro havia um gravador e por curiosidade eles ouvem a narração de um arqueólogo, Professor Knowby (John Peaks), descobridor da obra maldita perdida em escavações.

Aqui é o Professor Raymond Knowby, do Departamento de História. Registro número 2. Eu acredito que tenha feito uma descoberta significativa no Castelo de Kandar, quando viajei para lá com minha esposa Henrietta, minha filha Annie e o professor adjunto Eddie Kate. Foi na parte dos fundos do castelo que encontramos algo extraordinário, Tatolo di Monto, o Livro dos Mortos. Minha esposa e eu trouxemos o livro para esta cabana para que eu pudesse estudá-lo com tranquilidade. Foi aqui que comecei a tradução. O livro fala de uma presença espiritual. Uma coisa do mal que vaga pela floresta e sobre as forças negras que dominam os homens. É pela declamação das passagens do livro que esses espíritos sem luz conseguem licença para possuir os vivos. Estão aqui registradas as palavras pronunciadas por aquelas passagens. Kandar Extrata Amantus. Aregreates. Kat. Nosferatus. Kandar Amantus Kandar.

Inadvertidamente, a reprodução dessas palavras de antigos rituais funerários possibilitou a possessão de Linda por um demônio kandariano, obrigando Ash a decapitar brutalmente sua namorada. O próprio Ash passou a enfrentar em seguida um demônio que vez ou outra se apossava de seu corpo e depois de forma definitiva em sua mão direita, obrigando-o a decepá-la com uma motoserra, que mais tarde foi implantada no lugar do membro amputado. Após uma série de confrontos hilariantes de Ash contra sua mão possuída, surgiram na cabana a filha do arqueólogo, Annie (Sarah Berry), e seu colega Ed (Richard Domeier), que estavam à procura do Prof. Knowby e sua esposa Henrietta (Lou Hancock), trazendo novidades sobre o “Livro dos Mortos”, através da descoberta de algumas páginas inéditas com passagens que poderiam devolver o mal ao seu universo de origem. No caminho eles encontraram numa estrada próxima à cabana um outro casal, Jake (Dan Hicks) e Bobby Joe (Kassie Wesley), que se juntou a eles. Uma vez todos reunidos na cabana, o jovem Ed é a próxima vítima dos demônios libertados, sendo possuído por um espírito maligno e sentindo o peso de um machado cortando-lhe a carne. Depois foi a vez de Bobby Joe ser violentamente espancada por árvores fantasmagóricas que estavam sob a influência das forças negras da floresta, tendo em seguida seu namorado Jake completamente trucidado por um demônio que possuiu o corpo de Henrietta, cuja criatura horrenda (interpretada por Theodore Raimi, irmão do diretor) estava enterrada no chão do porão da cabana, conforme informação da fita gravada pelo Prof. Knowby.

Faz apenas algumas horas que traduzi e falei em voz alta a primeira passagem da ressurreição do demônio do Livro dos Mortos. E agora receio que minha esposa tenha se tornado hospedeira de um demônio kandariano. Que Deus me perdoe pelo que eu tenha feito nesta terra... Na noite passada, Henrietta tentou me matar... Hoje é 1 de outubro, 16:30 horas e Henrietta está morta. Eu não consegui mutilar o seu corpo, mas o empurrei para baixo pela escada. E eu o enterrei. Eu a enterrei no porão. Deus, me ajude. Eu a enterrei no chão daquele porão.

Restando apenas o herói Ash e a mocinha Annie, a filha do arqueólogo, coube a eles a árdua missão de um confronto final com os demônios, expulsando o Mal através da citação de algumas palavras mágicas do “Livro dos Mortos”, conseguindo abrir uma fenda temporal no espaço e criando uma comunicação com uma época medieval onde demônios voadores habitavam o mundo e aterrorizavam os humanos.

O segundo filme da trilogia de Sam Raimi está repleto de cenas engraçadas como a dança do cadáver decapitado e possuído de Linda, a namorada de Ash, numa sequência filmada no tradicional “stop motion” (técnica utilizada com extrema habilidade por Ray Harryhausen em dezenas de filmes há mais de 50 anos atrás). Outro momento de refinado humor negro é quando a mão direita de Ash fica possuída por um demônio obrigando-o a decepá-la. Ele tenta matar a própria mão que faz gestos obscenos e emite ruídos esquisitos. Além da sequência impagável onde uma cabeça de alce pendurada na parede como troféu de caça e vários outros objetos inanimados da cabana começam a dar enormes e irritantes gargalhadas provocativas contra Ash, que estava imerso num verdadeiro universo de loucura. Aliás, o herói estava o tempo todo sendo atormentado por terríveis alucinações e manipulações de sua mente pelos demônios, confundindo constantemente realidade e fantasia.
Como curiosidade, num exercício de profundo bom humor, Raimi mostrou a capa de um livro em forma de antologia de diversos autores, intitulado “Uma Despedida aos Braços” (“A Farewell to Arms”), numa referência à nova condição da mão possuída de Ash, decapitada de seu braço original. Outro fato curioso e diferente foi o uso de sangue verde na sequência de mutilação do demônio que havia possuído o corpo de Ed.
São várias também as sequências em destaque, como os violentos golpes de Ash com uma motoserra contra a cabeça decepada de Linda; ou os vários banhos de sangue, em verdadeiras enxurradas de molhar até os espectadores; ou a cena onde Bobby Joe engole um horrendo olho da Henrietta possuída, com os nervos e tudo mais, ou ainda o ataque feroz das árvores possuídas da floresta contra as paredes da cabana, lembrando as fascinantes criaturas “ents” do universo ficcional de “O Senhor dos Anéis”, de autoria do escritor J. R. R. Tolkien.

“Evil Dead II” é um ótimo filme de horror com elementos de humor negro, amparado por um orçamento significativo e efeitos especiais mais desenvolvidos que seu antecessor, “The Evil Dead”, filmado cinco anos antes. Porém, o filme original, sem a inclusão de humor, é definitivamente insuperável, não sendo necessárias continuações ou a criação de uma franquia sobre o tema como aconteceu. Seria bem melhor se o diretor Sam Raimi tivesse filmado outras produções com a sua desejada linha humorística, utilizando o filme original de 1982 apenas como inspiração para a criação de um universo ficcional similar, com outro nome e personagens. “The Evil Dead” mostrou uma chocante história de horror sobre mortos malignos possuindo os vivos e terminou de forma fenomenal, longe do tradicional e trivial “final feliz”. Já “Evil Dead II” e “Army of Darkness”, também grandes filmes onde Raimi pode exercitar todo o seu humor negro, deveriam ser independentes da primeira criação do cineasta.
De qualquer forma, a cultuada trilogia “Evil Dead” é indispensável para os fãs do gênero, tendo seu lugar garantido entre os grandes destaques na história do cinema de horror.

Nós somos as coisas que eram e que serão novamente... Espíritos do livro... Nós queremos o que é nosso apenas... Mortos... ao amanhecer. Mortos ao amanhecer.

“Uma Noite Alucinante 2 – Mortos ao Amanhecer ” (Evil Dead II – Dead By Dawn, 1987) – avaliação: 8 (de 0 a 10)
blog: www.juvenatrix.blogspot.com.br
(postado em 06/01/06)

Uma Noite Alucinante 2 – Mortos ao Amanhecer (Evil Dead II – Dead By Dawn, Estados Unidos, 1987). Duração: 82 minutos. Filmado em Wadesboro (North Carolina) e Detroit. Direção de Sam Raimi. Roteiro de Sam Raimi e Scott Spiegel. Produção de Robert G. Tapert, Bruce Campbell e Joseph C. Stillman. Produção Executiva de Irvin Shapiro e Alex DeBenedetti. Fotografia de Peter Deming. Fotografia Noturna de Eugene Shlugleit. Música de Joseph Lo Duca. Efeitos Especiais de Maquiagem de Mark Shostrom. Montagem de Kaye Davis. Direção de Arte de Philip Duffin e Randy Bennett. Animação de Tom Sullivan. Voz do demônio: William Preston Robertson. Elenco: Bruce Campbell (Ashley), Sarah Berry (Annie), Dan Hicks (Jake), Kassie Wesley (Bobby Joe), Richard Domeier (Ed), Theodore Raimi (Henrietta possuída), Denise Bixler (Linda), John Peaks (Prof. Knowby), Lou Hancock (Henrietta).

A Casa do Espanto (House, EUA, 1986)


O Horror encontrou um novo lar. Entre por seu próprio risco

Um filme que reúne de uma só vez três nomes conhecidos do cinema de horror americano produzido durante a saudosa década de 1980, Steve Miner, Sean S. Cunningham e Fred Dekker. Os dois primeiros com envolvimentos nas produções iniciais da série “Sexta-Feira 13”, e o último reconhecido como o diretor do divertido filme de zumbis “Noite dos Arrepios” (86). Trata-se de “A Casa do Espanto” (House, 86), com direção de Miner, produção de Cunningham e história de Dekker, mesclando elementos de horror sutil e humor negro, além de monstros, assombrações e universos paralelos.
Na história, um decadente escritor de livros de horror como o popular “Blood Dance”, Roger Cobb (William Katt), está enfrentando uma série de crises pessoais depois que seu filho Jimmy (Erik e Mark Silver, irmãos gêmeos que alternam o papel) misteriosamente desapareceu na casa de sua tia idosa, Elizabeth Hooper (Susan French). Ele divorciou-se de sua esposa Sandy (Kay Lenz), uma bela atriz de sucesso, está sendo pressionado por seu editor a lançar um novo livro, e recebe a notícia do suicídio de sua tia em circunstâncias estranhas, pois foi encontrada enforcada em sua própria casa.
Para tentar reorganizar sua vida e como Cobb acaba herdando a enorme casa de sua falecida tia, local onde ele próprio viveu sua infância, ele decide voltar a morar no casarão, se isolando para escrever um livro sobre suas amargas experiências como um soldado na Guerra do Vietnã, ao lado do paranóico companheiro de farda Ben (Richard Moll), contrariando seu editor e fãs, que preferiam outra história de horror. Uma vez novamente na casa, o escritor conhece um inoportuno vizinho, Harold Gorton (George Wendt), e uma belíssima vizinha, Tanya (Mary Stavin), e começa a enfrentar uma série de acontecimentos bizarros envolvendo a casa, como visões de sua tia enforcando-se e de seu filho pedindo ajuda, além da descoberta da existência de forças sobrenaturais como um monstro ameaçador atrás do armário e de obscuros universos paralelos com passagens secretas para outras dimensões, em eventos relacionados com uma pendência mal resolvida em seu passado como veterano de guerra na selva.

Particularmente eu não aprecio muito os filmes que misturam horror e comédia, mas “A Casa do Espanto” acabou tornando-se uma exceção principalmente por sua história atrativa envolvendo universos paralelos, um tema fascinante e que possibilita uma infinidade de situações interessantes. O filme possui momentos de pura diversão como as cenas com o temível “demônio da guerra”, que deu muito trabalho para a equipe de efeitos especiais, o outro demônio alado que lembra muito o do “Evil Dead 2”, e todas as sequências com o vingativo soldado sobrenatural, além dos portais de ligação entre os diferentes universos da casa. Porém, uma série de outras falhas contribuíram também para depreciar o filme, como o início onde um garoto entregador de encomendas, numa péssima atuação, está entrando na casa aparentemente vazia sem praticamente demonstrar emoções como ansiedade e medo do desconhecido, ou a trilha sonora horrível, com músicas insuportáveis e mal adaptadas à história, ou ainda a bruxa em que se transformou a esposa de Cobb, mais parecendo uma fantasia ridícula de “Halloween”, e finalmente pelo desfecho decepcionante, forçado, totalmente previsível e asqueroso pela falta de ousadia do diretor Steve Miner em mostrar alguma coisa um pouco diferente do trivial.

Curiosamente, o ator Kane Hodder trabalhou na produção de “A Casa do Espanto” como coordenador da equipe de dublês e atuou também como um deles. Ele, que mais tarde se destacaria por interpretar o famoso psicopata mascarado Jason Voorhees, da série “Sexta-Feira 13”, em quatro filmes da extensa franquia de dez partes. Outro detalhe curioso é o fato de que o pequeno filho do diretor Steve Miner foi quem fez o papel do garoto Robert, filho da bela loira Tanya, vizinha de Roger Cobb na sua “casa do espanto”. E parece que o menino se divertiu bastante na pequena participação que teve, conforme nota-se em sua “interpretação” descontraída e bem à vontade. É interessante notar também como os filmes podem se tornar datados apenas reparando em detalhes simples como o forno de microondas ou o computador utilizado por Roger Cobb, que nitidamente eram modernos na época e hoje são completamente obsoletos comprovando a incrível velocidade do desenvolvimento tecnológico dos aparelhos eletrônicos.

“A Casa do Espanto” foi lançado em DVD no Brasil em Dezembro de 2002 junto com a primeira sequência, “A Casa do Espanto II” (House II: The Second History, 87), em dois discos numa mesma caixa, através da revista “DVD Premium” ano 2 número 21, da “nbo Editora”, com distribuição em bancas e um preço popular. Como material extra veio uma galeria de fotos, sinopse, notas sobre o elenco principal (a dupla de atores William Katt e George Wendt), dois trailers promocionais e um interessante “making of” de 12 minutos, tudo devidamente legendado em português. O pequeno documentário dos bastidores traz depoimentos de William Katt e George Wendt, além de detalhes sobre a concepção dos efeitos especiais e das criaturas do filme, como a bruxa (transformação da esposa de Roger Cobb) e o ameaçador “demônio da guerra”, uma complexa parafernália movida por máquinas elétricas e pneumáticas. O filme teve também um título alternativo quando foi lançado nos Estados Unidos no mercado de vídeo, “House: Ding Dong, You're Dead”.
A capa do DVD anuncia os filmes com a frase publicitária “A espantomania em dose dupla!”. Esse termo foi criado no Brasil por volta de meados dos anos 1980, para agregar uma enorme quantidade de filmes de horror que estavam chegando ao país e que estavam recebendo títulos com o prefixo “A HORA”, como por exemplo “A Hora do Pesadelo” (A Nightmare on Elm Street, 84), “Re-Animator – A Hora dos Mortos-Vivos” (Re-Animator, 85), “A Hora da Zona Morta” (The Dead Zone, 83), “A Hora do Lobisomem” (Silver Bullet, 85), “A Hora do Espanto” (Fright Night, 85), “A Hora do Calafrio” (Savage Weekend, 79), “A Hora das Criaturas” (Critters, 86), entre outros.

De forma praticamente inevitável, “A Casa do Espanto” acabou gerando uma franquia, com a primeira continuação lançada no ano seguinte em 1987, novamente produzida por Sean S. Cunningham e com direção e roteiro de Ethan Wiley, o mesmo roteirista do filme original. A história não tem nenhuma relação com a anterior e apresentou um enorme desfile de besteiras, apesar da interessante premissa do argumento em explorar universos paralelos e outras dimensões dentro da misteriosa casa. Porém, com a inclusão de um humor intragável, personagens insuportáveis e uma incrível sucessão de eventos absurdos misturando dinossauros, um bárbaro troglodita, um grupo de sacerdotes astecas, criaturas ridículas como um filhote de pterodáctilo e um cachorro mutante com corpo de lesma, além de elementos de western, o filme tornou-se completamente descartável e dispensável, não merecendo receber o nome de uma continuação do filme de Steve Miner. E para reforçar ainda mais a obscura carreira de Ethan Wiley, ele escreveu e dirigiu um dos filmes da série “Colheita Maldita”, a parte 5, “Campos do Terror” (1998).
Ainda houve mais dois filmes da franquia. Em 1990 tivemos “House III – A Casa do Espanto” (The Horror Show), sem grandes atrativos também e tendo como única relação com a série o fato de ser produzido por Cunningham. E em 1992 veio “House IV: Home Deadly Home”, dirigido por Lewis Abernathy e com William Katt repetindo seu papel como o escritor Roger Cobb.

O cineasta americano Steve Miner nasceu em 1951 em Connecticut, e sua filmografia possui quase 30 trabalhos, muitos deles voltados para o horror e com filmes importantes para o gênero, fato este que associou sua imagem ao cinema fantástico. Ele começou sua carreira trabalhando com diretores importantes como Wes Craven e o próprio Sean S. Cunningham, explicando sua fascinação pela tema e além de “A Casa do Espanto”, Miner dirigiu as partes 2 e 3 da série “Sexta-Feira 13” no início da década de 1980, e ainda “Warlock, o Demônio” (89), “Halloween H20” (98) e “Pânico no Lago” (99).
O produtor Sean S. Cunningham, nascido no final de 1941 em New York, é mais conhecido como o diretor do primeiro filme da série “Sexta-Feira 13” em 1980, e que originou uma das mais extensas e famosas franquias da história do cinema de horror. Na direção ainda assinou outros trabalhos do gênero como “Terror nas Sombras” (Striking Back, 85) e “Abismo do Terror” (Deep Star Six, 89). Ele tem se dedicado mais na produção e além de “A Casa do Espanto” e de suas 3 sequências, seu currículo ainda inclui as partes 9 e 10 de “Sexta-Feira 13” e o crossover “Freddy x Jason” (2003), além do provável “Halloween 9”, já anunciado para 2004.
Fred Dekker é de 1959, nascido em San Francisco, California. Além de escrever a história de “A Casa do Espanto”, ele ainda dirigiu e foi o roteirista de outros filmes do gênero como “Noite dos Arrepios” (86), “Deu a Louca nos Monstros” (87) e “Robocop 3” (93), e um episódio da série de TV “Contos da Cripta” (89).
O ator William Katt, nascido em 1951 em Los Angeles, California, é mais conhecido pelo papel principal na hilária série de TV “O Super Herói Americano” (1981). Sua filmografia é grande, em torno de 65 trabalhos, e no gênero fantástico atuou em “Carrie, a Estanha” (76) e “Piranha” (99), produzido por Roger Corman. Já George Wendt, americano de Pasadena, California, nasceu em 1948 e é mais conhecido como um comediante de televisão, com passagem pelo fantástico com as duas partes da comédia de FC “Alien Avengers” (96/98), produções especiais para a telinha lançadas pelo lendário Roger Corman.

“A Casa do Espanto” (House, 1986) – avaliação: 7 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com.br
blog: www.juvenatrix.blogspot.com.br (postado em 05/01/06)

A Casa do Espanto (House, Estados Unidos, 1986). New World Pictures. Duração: 93 minutos. Direção de Steve Miner. Roteiro de Ethan Wiley, a partir de história de Fred Dekker. Produção de Sean S. Cunningham. Música de Harry Manfredini. Fotografia de Mac Ahlberg. Edição de Michael N. Knue. Desenho de Produção de Gregg Fonseca. Efeitos Especiais de James Cummings. Efeitos Visuais de Hoyt Yeatman. Elenco: William Katt (Roger Cobb), George Wendt (Harold Gorton), Richard Moll (Ben), Kay Lenz (Sandy), Mary Stavin (Tanya), Michael Ensign (Chet Parker), Erik Silver e Mark Silver (Jimmy), Susan French (Tia Elizabeth Hooper), Alan Autry, Steven Williams, James Calvert, Mindy Sterling, Jayson Kane, Billy Beck, Bill McLean, Steve Susskind.









A Bolha Assassina (The Blob, EUA, 1988)



Nota do Autor: Esse texto foi publicado originalmente no fanzine “Megalon” # 3, em 1989, com o título “A Volta da Bolha”. E agora foi levemente revisado recebendo o nome “A Bolha Assassina”.

Em 1958, o cineasta Irwin S. Yeaworth dirigiu o filme “A Bolha”, um pequeno clássico de ficção científica e horror que acabou se tornando um “cult movie”. Esse antigo filme da “Paramount” foi produzido por Jack H. Harris e trazia no elenco Steve McQueen (em seu primeiro grande papel), Anneta Corseaut e Earl Rowe.
Trinta anos depois, Chuck Russell (que estreou na direção em 1987 com o filme “A Nightmare on Elm Street 3: The Dream Warriors” ou “A Hora do Pesadelo 3: Os Guerreiros do Sonho”) resolveu fazer uma refilmagem da história original. Ele foi apoiado pelo mesmo produtor da primeira versão, Jack H. Harris (que possuía os direitos do filme) e para a satisfação dos apreciadores de Horror dos tempos mais modernos, temos essa nova versão bem mais violenta e sangrenta, sustentada por excelentes efeitos especiais.
A propósito, muitos cineastas já usaram essa fórmula em outras refilmagens de clássicos dos anos 50. Citando dois exemplos, temos a recente versão do filme “A Mosca da Cabeça Branca” (The Fly, Fox, EUA, 1958), que trazia no elenco David Hedison, o grande Vincent Price e Patricia Owens. Esse filme de Kurt Neumann mostrava as experiências de um cientista com a desintegração da matéria. O eficiente David Cronenberg (de “Scanners” e “Videodrome”) refilmou esse clássico em 1986, com Jeff Goldblum e Geena Davis, utilizando poderosos efeitos especiais, que tornaram o filme bem mais “podre” e assustador. Outro exemplo é o clássico “O Monstro do Ártico” (The Thing, RKO, EUA, 1951), dirigido por Christian Nyby e estrelado por Robert Cornthwaite, Kenneth Tobey e Margaret Sheridan. Um monstro alienígena que é encontrado congelado no Ártico, desperta e ataca uma expedição de pesquisadores. Em 1982, John Carpenter (de “Halloween” e “Starman”) dirigiu uma nova versão com Kurt Russell e T. K. Carter, utilizando também mais violência e efeitos especiais de primeira qualidade.
Voltando à refilmagem de “A Bolha”, que recebeu agora o nome de “ A Bolha Assassina”, podemos dizer que é um dos bons e significativos filmes produzidos nos anos 80, com uma considerável dose de cenas de violência e sustos. Com um orçamento de US$ 19 milhões (mais da metade gasto só com os efeitos especiais), o filme não foi bem recebido pela crítica brasileira, porém fez grande sucesso entre o público. O competente diretor Chuck Russell (que iniciou sua carreira produzindo o filme “Back to School” e co-escrevendo a ótima FC “Dreamscape”), contou com a ajuda de Lyle Conway na criação dos efeitos da bolha e de Tony Gardner no comando dos outros efeitos especiais.
Na pequena cidade fictícia de Arborville, a pacata população é atacada por um monstro gelatinoso vindo do espaço através de um meteorito. Inicialmente de pequeno porte, a bolha aumentava seu volume progressivamente ao dissolver e engolir as pessoas que entravam em seu caminho.
A nova bolha está bem mais dinâmica que a sua antecessora original, pois podia criar tentáculos quando quisesse, ajudando muito seus ataques mortíferos. Mais tarde descobriu-se que a gosma viva era fruto de uma fracassada experiência para a guerra bacteriológica e os cientistas responsáveis isolaram a cidade para tentar capturar a criatura com vida. Enquanto muitas mortes violentas ocorrem, um casal, Kevin Dillon (de “Platoon”) e Shawnee Smith, tentavam praticamente sozinhos salvar a cidade.
Entre os destaques, temos as cenas em que um funcionário de uma lanchonete entra literalmente por um cano e para o final interessante com o fanático reverendo Meeker (Del Close, que aliás é o único ator que já participou de outro filme da bolha, a fraca sequência “Son of Blob”, de Larry Hagman, filmada em 1972 e mais voltada para o humor).
Enfim, “A Bolha Assassina” é uma refilmagem interessante, apresentando um roteiro com muita violência explícita, sangue em profusão e cenas assustadoras, mas ainda assim não chega a superar o “charme” do clássico original, que foi produzido com baixo orçamento e é um dos mais lembrados exemplos do cinema fantástico da década de 50 do século passado.

“A Bolha Assassina” (The Blob, 1988) – avaliação: 7 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com.br
blog: www.juvenatrix.blogspot.com.br
(postado em 05/01/06)

A Bolha Assassina (The Blob, Estados Unidos, 1988). Tri-Star Pictures. Duração: 92 minutos. Direção de Chuck Russell. Roteiro de Chuck Russell e Frank Darabont. Fotografia de Mark Irwin. Música de Michael Hoenig. Edição de Terry Stokes e Tod Feuerman. Efeitos Especiais de Tony Gardner. Efeitos da Criatura de Lyle Conway. Efeitos Visuais de “Dream Quest Images” (supervisão de Hoyt Yeatman). Produção Executiva de Andre Blay. Linha de Produção de Rupert Harvey. Produção de Jack H. Harris e Elliott Kastner. Elenco: Kevin Dillon (Brian Flagg), Shawnee Smith (Meg Penny), Donovan Leitch (Paul Taylor), Joe Seneca (Dr. Meddows), Paul McCrane (Bill Briggs), Del Close (Reverend Meeker), Jeffrey De Munn, Candy Clark, Sharon Spelman, Beau Billingslea, Rick Goldin, Art La Fleur.

Amityville 3-D (EUA, 1983)

O escritor Jay Anson lançou um interessante livro chamado “Horror em Amityville” (The Amityville Horror), contando uma típica história de fantasmas e assombrações, inspirada em eventos reais ocorridos em 1975, onde uma família formada pelo casal George e Kathy Lutz e seus filhos pequenos, mudou-se para uma mansão em Amityville, Long Island, e passou a enfrentar uma série de situações misteriosas envolvendo fenômenos paranormais em vários cômodos da casa, num horror cada vez mais progressivo que culminou com a fuga desesperada dos novos moradores depois de 28 dias. A história anterior da casa revelava que um jovem, Ronald DeFeo, matou sua família com uma espingarda, alegando estar recebendo orientações de uma estranha voz em sua mente, e que os espíritos perturbados dos que morreram assassinados ainda permaneciam assombrando o local.
O livro serviu de base para a realização de um filme em 1979, lançado em VHS por aqui como “A Cidade do Horror” (The Amityville Horror), de Stuart Rosenberg. Por abordar uma temática sempre interessante para os fãs do cinema de horror, a famosa história de “mansão assombrada”, e reforçada ainda pela idéia da existência de fatos reais sobre o caso, o filme tornou-se um grande sucesso e originou uma enorme franquia com mais outros oito filmes, todos inferiores ao original, e a partir da parte 3, os roteiros nem tinham uma relação coerente com o argumento principal que inspirou todo o universo ficcional em torno de “Horror em Amityville”.
O segundo filme, dirigido por Damiano Damiani, lançado na televisão e no mercado de vídeo VHS como “Terror em Amityville” (Amityville 2 – The Possession, 1982), e depois em DVD de banca como “Amityville 2”, tem seu argumento justamente enfocando os eventos anteriores à chegada da família Lutz à Amityville, e os quais seriam a motivação para a assombração na casa. O roteiro conta a história de um jovem que matou sua família, alegando estar sob o comando de uma voz externa, sendo preso e considerado possuído por um demônio, precisando receber um exorcismo a cargo de um padre católico.
A terceira parte inicia um ciclo de histórias que não são sequências cronológicas do filme original, além também de não existirem relações com os fatos reais que aconteceram na mansão, demonstrando claramente que os produtores apenas queriam lançar filmes utilizando a marca “Amityville”, que já estava bem conhecida entre o público. Em 1983 foi produzido então “Amityville 3-D”, lançado em DVD de banca e que já havia sido distribuído em VHS no Brasil com os nomes “Amityville 3 – O Demônio” (“Amityville 3 – The Demon”) e “Pesadelo Mortal – Amityville 3”, além de também ser conhecido como “Amityville – A Casa do Medo”, no lançamento no cinema.

A história começa apresentando o repórter investigativo John Baxter (Tony Roberts) e sua colega de trabalho, a fotógrafa Melanie (Candy Clark), que estão a serviço de uma revista chamada “Reveal”, especializada em desmascarar fraudes paranormais. Eles então simulam a participação numa sessão espírita suspeita comandada pelo casal de idosos Harold e Emma Caswell (John Beal e Leora Dana, respectivamente), que utilizam uma imponente mansão em Amityville como base. Após a revelação de ser apenas mais uma farsa, ao serem encontrados diversos equipamentos no porão, próprios para a criação de efeitos especiais que dariam a impressão de manifestação de espíritos, o repórter entra em contato com o proprietário da enorme casa, o agente imobiliário Clifford Sanders (John Harkins), que foi acusado de ser cúmplice nas sessões espíritas falsas. Tentando se livrar do problema, ele explica que a mansão não tem valor comercial pois foi palco no passado de uma chacina cometida contra uma família inteira, e oferece o imóvel por um preço irrisório para o repórter Baxter. Uma vez que o jornalista está enfrentando uma crise conjugal com sua esposa Nancy (Tess Harper), num início de separação, ele decide comprar a casa em Amityville para morar sozinho, convidando sua bela filha de dezesseis anos, Susan (Lori Loughlin), para visitá-lo regularmente.
Numa dessas visitas, Susan e um grupo de amigos formado pela loirinha Lisa (Meg Ryan) e por Jeff (Neill Barry) e Roger (Peter Kowanko), decidem fazer aquela tradicional brincadeira do copo, numa tentativa de comunicação com os espíritos presos na casa, com um resultado assustador. E em outra oportunidade eles fazem um passeio de barco no enorme lago nos fundos da mansão, que culminou numa tragédia onde Susan morreu afogada. Porém, sua mãe Nancy insiste em afirmar que a filha ainda está viva, por causa de uma misteriosa aparição no interior da casa. O repórter Baxter decide então realizar uma investigação convidando uma equipe científica, liderada pelo Dr. Elliot West (Robert Joy), do Instituto de Pesquisas Paranormais da Universidade de Long Island. Eles verificam a presença de fenômenos sobrenaturais misteriosos no interior da casa, além da existência de um estranho poço no porão que mais parece um perigoso portal para as profundezas sombrias do inferno.

“Amityville 3-D” é apenas mais um filme de horror discreto, abordando temas sobrenaturais numa mansão assombrada, sendo bem inferior aos dois filmes anteriores da série, que pelo menos tinham histórias inspiradas em eventos reais. Esse terceiro filme, que não tem qualquer relação com os anteriores, procura explorar num ritmo excessivamente lento, a presença de uma entidade maligna na casa, responsável pelas mortes de alguns personagens em situações misteriosas. Mas nem mesmo essas poucas mortes despertam muito interesse, num roteiro previsível e arrastado demais para um filme de horror, evidenciando uma enorme quantidade de furos e situações mal desenvolvidas. O único elemento interessante é a existência de um poço no porão da casa, uma espécie de “Boca do Inferno” (curiosamente, o nome do melhor e mais completo site de horror da internet brasileira), que reserva alguns poucos momentos mais tensos com a aparição de uma criatura bizarra, aliás, num efeito exageradamente risível, paupérrimo e tosco. Resumindo, o filme vale apenas como curiosidade por fazer parte da conhecida série “Horror em Amityville”, e para quem aprecia histórias (mesmo fracas) sobre casas assombradas.

O filme foi concebido originalmente para exibição nos cinemas com o recurso de visualização em três dimensões, tanto que existem diversas cenas propositais ao longo da história justamente para explorar esse recurso, como por exemplo um cano que atravessa o vidro de um carro num acidente de trânsito, vindo perigosamente em direção ao espectador, ou ainda quando um assistente da equipe de investigação de fenômenos paranormais do Dr. West movimenta um microfone próximo da câmera, simulando a sensação de passar muito perto do rosto do público que está assistindo.
“Amityville 3-D” foi lançado em DVD com distribuição nas bancas por um preço mais popular, encartado na revista “DVD Premium” Ano 3, Número 34 (Maio de 2004), da “NBO Editora”, juntamente com o segundo filme da série. Apesar de manter o “3-D” no nome, o filme está em “2-D”, como corretamente informa a distribuidora na capa do DVD. Como material extra, apenas estão disponíveis uma breve sinopse e pequenas biografias do casal de atores principais, Tony Roberts e Tess Harper. Cada lado do disco tem um filme, num recurso que tem sido utilizado regularmente para a distribuição de filmes de horror em DVD no Brasil. O mesmo aconteceu, por exemplo, com as partes 2 e 3 da série “Halloween”, do psicopata mascarado Michael Myers, lançado nas bancas em Outubro de 2003 pela mesma editora e revista, só que na edição número 29. Aliás, a “DVD Premium” já lançou vários outros filmes interessantes dos anos 80 como “Colheita Maldita” (84) e “A Casa do Espanto” (86).
Curiosamente, a bela e hoje famosa atriz Meg Ryan, participou do filme em início de carreira, interpretando um papel simples e coadjuvante, uma amiga de Susan Baxter chamada Lisa. Aliás, apenas para aproveitar sua conhecida fama atual, seu nome e foto foram colocados em destaque na capa do DVD, numa jogada puramente comercial.

Além das já citadas partes 1, 2 e 3, a franquia “Horror em Amityville” é ainda composta por mais seis filmes. São eles: “Amityville 4: A Maldição” em VHS e “Amityville 4 – A Fuga do Mal” em DVD (Amityville 4: The Evil Escapes, 1989), de Tom Berry, “A Maldição de Amityville” (The Amityville Curse, 1990), de Sandor Stern, “Amityville – Uma Questão de Hora” (Amityville 1992: It’s About Time, 1992), de Tony Randell, “Amityville – A Nova Geração” (Amityville: A New Generation, 1993), de John Murlowski, “Amityville – A Casa Maldita” (Amityville: Dollhouse, 1996), de Steve White, e finalmente por “Amityville 2000” (2000), de Daniel Farrands. Este último é na verdade um documentário para a televisão enfocando as atrocidades reais acontecidas na mansão amaldiçoada, apresentando depoimentos do escritor Jay Anson e do casal George e Kathy Lutz, sendo conhecido também por “The Amityville Horror 9” ou “The Amityville Horror: 25 Years Later”.
A partir da parte 4, as histórias não são mais ambientadas na famosa mansão amaldiçoada, sendo que a relação com a casa vem do fato de determinados objetos possuídos por espíritos malignos serem transferidos por algum motivo de Amityville para as casas de outras pessoas, criando o gancho para uma história de assombração, e confirmando a extrema falta de criatividade dos produtores, querendo lucrar de forma fácil em cima do nome “Amityville”, sem ao menos se preocuparem com um roteiro decente. A única coisa que variava era o tipo de objeto possuído, indo de um abajur, passando por um relógio e um espelho, até culminar numa casa de bonecas parecida com a mansão original.
Em 2005 houve a produção de uma refilmagem do filme original de 1979, que estreou nos cinemas brasileiros em 19/08/05 com o nome “Horror em Amityville” (The Amityville Horror). O novo filme da série foi dirigido por Andrew Douglas e produzido por Michael Bay, a partir de um roteiro de Scott Kosar. A princípio, dois estúdios demonstravam interesse em refilmar a história original, a “MGM” e a “Dimension”. Ambos entraram num acordo e acertaram fazer um único novo filme da casa maldita, com a “MGM” se responsabilizando pelo lançamento nos Estados Unidos, e a “Dimension” encarregada da distribuição pelo resto do mundo. O início das filmagens ocorreu no segundo semestre de 2004. Pelo jeito, a marca comercial “Amityville” ainda desperta interesse dos executivos do cinema, podendo gerar bons lucros, e provavelmente deverá permanecer por muito tempo mais...

Observações: (15/09/17)
1) Em 14/09/2017 entrou em cartaz nos cinemas brasileiros “Amityville – O Despertar” (Amityville – The Awakening).
2) Foram produzidos muitos filmes utilizando de forma não autorizada o nome da franquia “Amityville”. Segue link interessante com a relação deles:

“Amityville 3-D” (1983) # 253 – data: 15/05/04 – avaliação: 4 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com.br
(postado em 05/01/06)

“Amityville 3-D” (Amityville 3-D, Estados Unidos, 1983). Fox. Duração: 90 minutos. Direção de Richard Fleischer. Roteiro de David Ambrose e William Wales. Produção de Stephen F. Kesten. Fotografia de Fred Schuler. Música de Howard Blake. Edição de Frank J. Urioste. Direção de Arte de Giorgio Postiglione e Justin Scoppa Jr.. Elenco: Tony Roberts (John Baxter), Tess Harper (Nancy Baxter), Robert Joy (Dr. Elliot West), Candy Clark (Melanie), John Beal (Harold Caswell), Leora Dana (Emma Caswell), John Harkins (Clifford Sanders), Lori Loughlin (Susan Baxter), Meg Ryan (Lisa), Neill Barry (Jeff), Peter Kowanko (Roger), Rikke Borge, Carlos Romano, Jorge Zepeda, Raquel Pankowsky.

Werewolf - A Noite do Lobo (Werewolf, EUA, 1996)

O mito do lobisomem é um dos temas bastante explorados pelo cinema de horror, e a criatura híbrida formada pela fusão de homem e lobo tornou-se um dos monstros populares do gênero, juntamente com a múmia, a criatura de Frankenstein, os vampiros, e outros. A quantidade de filmes sobre lobisomens é imensa, e logicamente temos exemplos significativos e memoráveis como o clássico “O Lobisomem” (The Wolf Man, 1941), produção da “Universal” em preto e branco com Lon Chaney Jr. no papel da fera, e Bela Lugosi como coadjuvante. Além também de termos muitos filmes ruins e irrelevantes, como é o caso da tranqueira “Werewolf – A Noite do Lobo” (Werewolf, 1996), produzido, escrito e dirigido pelo iraniano Tony Zarindast, lançado em DVD no Brasil pelo selo “Dark Side” da “Works Editora”, trazendo como material extra apenas uma pequena sinopse e breves biografias dos atores George Rivero e Richard Lynch. O filme é também conhecido pelo título original alternativo de “Arizona Werewolf”.

Uma equipe de arqueólogos formada pelo Dr. Noel (Richard Lynch, de “Necronomicon”, 93), o desequilibrado Yuri (o mexicano George Rivero, de “Rio Lobo”, 70), e a assistente Natalie Burke (a completa desconhecida Adrianna Miles), encontra no deserto do Arizona os restos de uma ossada misteriosa, que segundo os nativos navarros locais pertenceu a um “Skinwalker”, ou seja, um homem lobo. Conforme a lenda da região, “Yalloglanchie” é o nome dado a um feiticeiro que utilizava as peles de coiotes, ursos e lobos em rituais mágicos, assumindo o poder desses animais e matando as pessoas violentamente. Impressionados com a descoberta do fóssil e ávidos por fama e fortuna, os arqueólogos o recolhem para estudos numa sala de pesquisas de um museu na pequena cidade de “Flagstown”.
Enquanto isso, um jovem escritor e jornalista nas horas vagas, Paul Niles (o completo desconhecido Fred Cavalli), chega à cidade para se apossar da casa de sua falecida mãe, e conhece Natalie numa festa. Após uma atração mútua, tornam-se logo amigos, e Paul pede para ver os ossos da estranha criatura. Porém, ele é surpreendido por Yuri, que passa boa parte de seu tempo alcoolizado, e numa briga entre eles o escritor é ferido no ombro pela cabeça do fóssil, utilizada pelo arqueólogo como arma. A partir daí, Paul passa a enfrentar uma desconfortável transformação física em lobisomem durante as noites de lua cheia, vagando à procura de vítimas para saciar sua sede de sangue.

O filme é uma produção de baixo orçamento, um fato que por si só não significa necessariamente algo desabonador, pois existem muitos filmes feitos sem dinheiro que são ótimos. Porém, no caso de “Werewolf – A Noite do Lobo” a falta de recursos ajudou a tornar o filme mais desinteressante ainda, pois todas as cenas envolvendo lobisomens são patéticas, através de efeitos risíveis de transformação. Tem uma seqüência de perseguição da fera alcançando uma moça numa imensa poça de lama que provavelmente seria mais convincente se feita por um grupo de amigos com uma câmera na mão para filmar um vídeo caseiro. A história é bem óbvia e previsível, com diálogos ruins. A violência é apenas superficial, além das cenas de mortes serem banais. E sem querer ser muito exigente, é possível listar uma série de fatos que evidenciam a precariedade do roteiro e colaboram para tornar o filme menos convincente ainda.
Numa cena no hospital onde estava internado um índio, Tommy (Jules Desjarlais), que enfrentava uma transformação em lobisomem, surge uma enfermeira loira gostosa (interpretada por Lisa Frantz) com os cabelos longos em destaque, sendo que as enfermeiras não poderiam tratar dos pacientes com os cabelos soltos. Em outro momento, um guarda de segurança do museu (interpretado pelo próprio diretor Tony Zarindast), está dirigindo um carro em alta velocidade, transtornado pela transformação em lobisomem, e suas mãos balançam com tanta intensidade o volante do carro num ato impraticável na realidade, que apenas consegue enfatizar a inverosimilhança da cena. A casa do escritor Paul Niles não proporciona nenhuma privacidade ao seu proprietário, pois é incrível como várias pessoas entram em seu interior com a maior naturalidade, como se as portas estivessem sempre destrancadas. Aliás, a figura do administrador da casa Sam (R. C. Bates) é ridícula, sempre vestindo uniformes militares e portando um rifle, mais parecendo um lunático, e que na hora de se defrontar com um lobisomem de verdade, demonstrou sua fragilidade e ineficiência. A personagem Carrie (Heidi Bjorn) é uma jovem que estava cuidando dos assuntos imobiliários da casa antes da chegada de Paul, e numa determinada cena ela é surpreendida e atacada por um lobisomem na casa, caindo violentamente por uma escada e não sofrendo nenhum arranhão, ainda conseguindo se levantar e fugir como se nada tivesse acontecido. Várias mortes estranhas e misteriosas estavam ocorrendo na pequena cidade e não se percebia nenhuma atividade de investigação policial. E uma pergunta que ficou após o término do filme é qual seria o destino do arqueólogo chefe Dr. Noel, que desapareceu de cena próximo ao final, sendo que a resposta provável é que o roteirista simplesmente deve ter se esquecido dele.

“Werewolf – A Noite do Lobo” (Werewolf / Arizona Werewolf, Estados Unidos, 1996) # 340 – data: 01/10/05 – avaliação: 3 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com.br
blog: www.juvenatrix.blogspot.com.br
(postado em 04/01/06)