O Abominável Dr. Phibes (The Abominable Dr. Phibes, 1971) e A Câmara de Horrores do Abominável Dr. Phibes (Dr. Phibes Rises Again, 1972)

 


Um dos maiores monstros sagrados do cinema de horror, Vincent Price é lembrado por vários de seus personagens ao longo de sua carreira, mas nada tão marcante quanto sua interpretação como o psicopata Dr. Anton Phibes. Assim como imortalizamos ao longo da história o monstro de Frankenstein a Boris Karloff e o Conde Drácula a Bela Lugosi (anos 1930 e 40) e Christopher Lee (décadas de 1950, 60 e 70), ou ainda Freddy Krueger a Robert Englund (anos 1980 e 90 - este, é claro, infinitamente inferior aos mitos anteriores), Price ficou associado ao Dr. Phibes, único personagem em sua carreira a ter uma sequência de filmes.
Dirigido em 1971 por Robert Fuest e com produção inglesa da “American International Pictures”, “O Abominável Dr. Phibes”, é um típico exemplo do estilo “camp”, com visual e cenários muito coloridos e estética brega, porém um clássico absoluto do humor negro em sua essência.

O Dr. Phibes, deformado em um acidente e dado como morto, planeja uma maquiavélica vingança contra a equipe de cirurgiões que ele acusa de falharem em salvar a sua esposa Victoria (Caroline Munro), na mesa de operações. Auxiliado por uma bela, misteriosa e silenciosa jovem, Vulnavia (Virginia North), ele executa todos com muita arte e engenhosidade, inspirando-se nas históricas dez pragas de Deus contra um faraó egípcio. Os assassinatos calculados despertaram a atenção da polícia que em vão fica em seu encalço tentando impedi-lo.
Desfigurado pelo acidente, Dr. Phibes transformou-se numa criatura hedionda que utilizava uma máscara com suas antigas feições e falava através de um gramofone plugado a sua garganta que alterava seu tom de voz para algo bem gutural. E é através desse orifício que ele também ingeria seus alimentos.
Apesar dos brutais e inventivos assassinatos, Dr. Phibes mantinha uma atmosfera romântica em torno de sua vingança, onde possuía até uma orquestra de bonecos mecânicos em seu esconderijo, que tocavam para ele e sua assistente dançarem comemorando cada crime cometido. Além disso, ele mantinha também um órgão no estilo “O Fantasma da Ópera”, onde tocava suas melodias fúnebres, enquanto derretia a face de bonecos de cera com fogo após o sucesso de mais assassinatos.

Após dizimar com maestria a equipe de médicos incompetentes, Dr. Phibes voltou novamente em 1972 na sequência “A Câmara de Horrores do Abominável Dr. Phibes”, que também se chamou no Brasil “A Vingança do Dr. Phibes”, com mesma direção e produção do filme original. Agora ele parte para o Egito buscando um rio perdido e oculto nas pirâmides (“O Rio da Vida”), onde supostamente se alcançava a imortalidade. Leva então consigo sua esposa Victoria embalsamada, na esperança de ressuscitá-la e obter a vida eterna para os dois. Em seu rastro segue também um grupo de arqueólogos com o mesmo objetivo, obrigando o Dr. Phibes a liquidá-los.
A sequência de assassinatos artísticos continua com a mesma intensidade, talvez um pouco mais gratuitos agora, porém cada vez mais engenhosos e divertidos, o que inspirou outro filme de Vincent Price no ano seguinte, “As Sete Máscaras da Morte” / “Teatro da Morte” (Theatre of Blood), onde interpretou um ator shakespereano que simula suicídio e se vinga ferozmente de seus críticos, inspirando-se em textos de Shakespeare. Curiosamente, o ícone do horror Peter Cushing faz uma ponta como o capitão de um navio.

O Dr. Phibes foi um típico “serial killer” do cinema, porém ele chacinava suas vítimas com classe e genialidade, arquitetando cuidadosamente seus métodos e maneiras de matar, como um verdadeiro cavalheiro, combinando com a personalidade aristocrática de Vincent Price. Bem diferente das dezenas de filmes posteriores onde os assassinos em série como os psicopatas famosos, porém pouco inteligentes, Jason Voorhees (“Sexta-Feira 13”) e Michael Myers (“Halloween”), interpretados por atores inexpressivos, sempre mancharam as telas de sangue ao exagero e com pouca inventividade em seus crimes, variando apenas no uso das armas (de machados a serras elétricas), ou nos métodos brutais (mutilações diversas).
Mas o horror é fascinante por tudo isso, por abranger um infindável universo onde há espaço para todas as manifestações e estilos e onde tudo tem características próprias e sua importância na consolidação do gênero como arte de entretenimento.

“O Abominável Dr. Phibes” (The Abominable Dr. Phibes, 1971) – avaliação: 9 (de 0 a 10)
“A Câmara de Horrores do Abominável Dr. Phibes” (Dr. Phibes Rises Again, 1972) – avaliação: 9 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com.br
blog: www.juvenatrix.blogspot.com.br (postado em 25/11/05)

O ABOMINÁVEL DR. PHIBES (The Abominable Dr. Phibes, Inglaterra / EUA, 1971). 90 minutos. Direção de Robert Fuest. Produção de Louis M. Heyward e Ron Dunas. Roteiro de James Whiton e William Goldstein. Música de Basil Kirchin. Fotografia de Norman Warwick. Efeitos Especiais de George Blackwell. Maquiagem de Trevor Cole-Rees. Elenco: Vincent Price, Joseph Cotten, Peter Jeffrey, Hugh Griffith, Terry-Thomas, Virginia North, Caroline Munro, Aubrey Woods, Susan Travers.

A CÂMARA DE HORRORES DO ABOMINÁVEL DR. PHIBES / A VOLTA DO DR. PHIBES (Dr. Phibes Rises Again, Inglaterra / EUA, 1972). 90 minutos. Direção de Robert Fuest. Produção de Louis M. Heyward. Roteiro de Robert Fuest e Robert Blees. Música de John Gale. Elenco: Vincent Price, Robert Quarry, Peter Jeffrey, Valli Kemp, Fiona Lewis, Peter Cushing, Berry Reid, Caroline Munro.


 



O Médico e o Monstro (Dr. Jekyll and Mr. Hyde, EUA, 1931)


Minha análise da alma, da psique humana, leva-me a crer que o ser humano não é verdadeiramente um, mas verdadeiramente dois. Um deles esforça-se para alcançar tudo que é nobre na vida. É o que chamamos de lado bom. O outro, quer expressar impulsos que prendam-no a obscuras relações animais com a terra. Esse é o que podemos chamar de mal. Ambos travam um eterno combate no íntimo da natureza humana, e contudo, estão atados um ao outro. E este elo provoca a repressão ao mau e remorsos no bom. Agora, se esses dois seres pudessem ser separados um do outro, quão livre o bom em nós poderia ser, que alturas poderia alcançar! E o assim chamado mal, uma vez liberto, buscaria sua própria realização, e deixaria de nos perturbar...

Com esse profundo discurso inflamado para uma platéia de acadêmicos numa universidade, o médico cientista Dr. Henry Jekyll, interpretado por Fredric March (1897/1975), que ganhou um Prêmio Oscar por sua atuação, apresenta sua visão da real natureza humana e divulga suas experiências com uma poção química capaz de separar as duas personalidades existentes no Homem, evidenciando seus lados “bom” e “mal”, na versão expressionista de 1931 de “O Médico e o Monstro” (Dr. Jekyll and Mr. Hyde).
O livro clássico do escocês Robert Louis Stevenson (1850/1894), escrito em 1886 com o nome original de “The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde”, é um dos mais filmados na história do cinema fantástico, com uma infinidade de versões das quais podemos a título de ilustração citar quatro produções antigas. Uma da época do cinema mudo (1920), de John S. Robertson e estrelada por John Barrymore, a já citada versão de 32, dirigida e produzida por Rouben Mamoulian e com Fredric March, o filme de 41, de Victor Fleming e com Spencer Tracy, Ingrid Bergman e Lana Turner, sendo essas três versões com fotografia em preto e branco, e finalmente “O Soro Maldito” (I, Monster, 71), produção inglesa da “Amicus” protagonizada pela dupla Christopher Lee e Peter Cushing, além do misterioso Mike Raven.

A história é ambientada na Londres do final do século XIX, onde o respeitado médico Dr. Henry Jekyll é o defensor de uma teoria onde existem dois lados totalmente distintos nos homens, um “bom” e um “mal”. Acreditando que ao separar essas duas personalidades poderia dar mais liberdade ao ser humano, ele então decide criar uma substância química capaz de realizar tal feito. Testando em si próprio, os efeitos são devastadores, fazendo-o alternar entre o recatado Dr. Jekyll e o monstruoso Sr. Hyde, responsável por uma série de crimes horrendos. Ao descobrir que na verdade libertou um monstro interior, o médico tentou interromper a dosagem da poção, mas já era tarde demais e ele perdera o controle sobre suas duas personalidades, colocando em risco a vida das pessoas que o cercam como seu amigo Dr. Lanyon (Holmes Herbert), sua amável noiva Muriel Carew (Rose Hobart), o rígido pai dela, General Carew (Halliwell Hobbes), e uma bela dançarina de bar noturno, Ivy Pearson (Miriam Hopkins), uma jovem atormentada pela tirania do Sr. Hyde.

Essa versão de “O Médico e o Monstro” tem algumas falhas de continuidade e erros de edição com inconvenientes cortes abruptos, mas levando-se em consideração que o filme foi produzido logo após o término do cinema mudo, há mais de setenta anos atrás, com as técnicas de filmagens sendo ainda aprimoradas, esses detalhes têm pouca importância e podem ser até desconsiderados. E, em contrapartida, os maiores destaques do filme certamente são o laboratório do Dr. Jekyll e todas as cenas envolvendo o Sr. Hyde, representando o lado maligno do ser humano, ávido pelos prazeres da carne, num trabalho de maquiagem muito bem produzido, principalmente para a tão distante década de 30. O laboratório é o típico ambiente para os “cientistas loucos” concretizarem suas bizarras experiências ameaçadoras para a humanidade, repleto de frascos de vidro com líquidos estranhos borbulhantes, tubos de ensaio, microscópios e equipamentos elétricos diversos. A caracterização de Fredric March no monstruoso Sr. Hyde é extremamente marcante, e após o cientista ingerir uma misteriosa poção química ele transforma-se rapidamente numa criatura horrenda, com enormes dentes pontudos e protuberantes, olheiras profundas, sobrancelhas espessas e inchadas, além de mãos peludas que dão um aspecto selvagem ao Sr. Hyde, com voz, postura e forma de caminhar totalmente diferentes do Dr. Jekyll. Depois de um certo tempo, após ingerir o líquido várias vezes, o cientista já não podia mais controlar a transformação, e de forma aleatória, mesmo sem beber a poção, ele alterava contra sua vontade as feições para o malévolo Sr. Hyde.
Outro momento interessante é a súplica de arrependimento do desesperado Dr. Jekyll ao perder o controle sobre sua experiência, num fato bastante recorrente no cinema fantástico onde os “cientistas loucos” costumam percorrer caminhos proibidos em busca de conhecimento, como por exemplo a clássica história do Dr. Frankenstein e seu monstro gerado a partir de reciclagem de pedaços de cadáveres humanos, e que igualmente perde o controle sobre sua criação bizarra.
Seguem as palavras de agonia do Dr. Jekyll:
Ó Deus! Não era esse o meu desígnio! Eu vi uma luz, mas não enxerguei onde ela me levaria. Invadi os Seus domínios. Fui além do que um homem deveria ir. Perdoe-me. Ajude-me!

“O Médico e o Monstro” foi lançado em DVD no Brasil pela “Warner” em Janeiro de 2004 num disco contendo no “lado A” a versão de 1931 e no “lado B” o filme de 41. Aliás, isso tem acontecido também com outros clássicos do horror como “Museu de Cera” (53) e “Os Crimes do Museu” (33), lançados num mesmo disco, e as duas versões de “À Meia-Luz” (Gaslight), tanto a inglesa de 40 quanto a americana de 44.
A capa do DVD nacional de “O Médico e o Monstro” possui um erro significativo, onde na apresentação do filme de 41, está indicado que a direção é de Robert Louis quando o correto é Victor Fleming. O material extra só está disponível no “lado A”, trazendo um episódio de sete minutos do desenho animado “Pernalonga” (Bugs Bunny), criado na década de 40, colorido e com opção de legendas em português, abordando a famosa história de horror de Stevenson. O nome do episódio é “O Coelho e o Monstro” (Hyde and Hare) e é muito divertido, mostrando Pernalonga se metendo em encrencas com um velhinho cientista que alterna constantemente sua personalidade entre o “bom” e o “mal”. Completam ainda os extras um trailer da versão de 41, sem legendas, e a exibição do filme de 32 com comentários de Greg Mank, infelizmente também sem a opção de legendas em português.
A versão muda de 1920 também foi lançada no mercado brasileiro de DVD em Novembro de 2005, através da revista digital “Showtime Clássicos”, da “Aspen Editora”, com o disco sendo distribuído nos grandes supermercados por um preço popular (R$ 9,90). A revista digital traz como atrações: “Literatura nas Telas” – A relação entre o cinema e os clássicos; “Clássicos de Horror” – Os primeiros do cinema mudo; “Mundo Perdido – Os primeiros dinossauros do cinema”.

Por curiosidade, vale a pena citar mais alguns outros filmes baseados na cultuada obra de Robert Louis Stevenson sobre as experiências do Dr. Jekyll, que aliás acabou tornando-se um dos importantes personagens da história do cinema de horror, sendo tema de muitos filmes e figurando numa galeria imortal já composta por nomes consagrados como “Drácula”, “Criatura de Frankenstein”, “Lobisomem”, “Múmia”, “Fantasma da Ópera”, “Monstro da Lagoa Negra”, “Homem Invisível”, “Zé do Caixão”, e outros.
Além das já citadas versões de 1920, 31 e 41 de “O Médico e o Monstro”, ainda temos uma produção inglesa da “Hammer” de 60, “O Monstro de Duas Caras” (The Two Faces of Dr. Jekyll), de Terence Fisher e com Christopher Lee, uma versão de 68 para a TV, dirigida por Charles Jarrott e com Jack Palance no papel duplo de Dr. Jekyll e Sr. Hyde, e mais recentemente um filme produzido em 2002 com direção de Maurice Phillips e com John Hannah no papel principal. Alguns outros atores que também experimentaram a sensação de atuarem como as duas personalidades do médico cavalheiro imaginado por Stevenson foram Boris Karloff numa comédia com Bud Abbott e Lou Costello em 53, Michael Rennie (na série de TV “Climax”, 54/58), Denis DeMarne (em 72), Kirk Douglas (73), David Hemmings (81), Anthony Andrews e Anthony Perkins (ambos em 89), Adam Baldwin (99) e Mark Redfield (2002). E em 71, no filme “O Médico e a Irmã Monstro” (Dr. Jekyll and Sister Hyde), da “Hammer”, Ralph Bates foi o cientista e Martine Beswick interpretou seu alter-ego, sendo nesse caso uma mulher maligna.

Um é exemplo de perfeição e virtude. O outro é a criatura assassina das noites de Londres. Eles são Dr. Jekyll e Sr. Hyde. E eles são a mesma pessoa.

“O Médico e o Monstro” (Dr. Jekyll and Mr. Hyde, 1931) # 237 – 08/04/04 – avaliação: 8 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com.br
blog: www.juvenatrix.blogspot.com.br (postado em 25/11/05)

O Médico e o Monstro (Dr. Jekyll and Mr. Hyde, Estados Unidos, 1931). Paramount Pictures, 96 minutos. Direção e produção de Rouben Mamoulian. Roteiro de Samuel Hffenstein e Percy Heath, baseados em livro de Robert Louis Stevenson. Fotografia de Karl Struss. Direção de Arte de Hans Dreier. Maquiagem de Wally Westmore. Elenco: Fredric March (Dr. Jekyll / Sr. Hyde), Miriam Hopkins (Ivy Pearson), Rose Hobart (Muriel Carew), Holmes Herbert (Dr. Lanyon), Halliwell Hobbes (General Carew), Edgar Norton (Poole), Arnold Lucy, Tempe Piggott.



Black Sabbath - As Três Máscaras do Terror (Black Sabbath - The Three Faces of Fear, Itália, 1963)


Aproximem-se, por favor. Tenho algo a lhes contar. Senhoras e senhores, sou Boris Karloff. Estou aqui para lhes apresentar três pequenos contos de terror e do sobrenatural. Espero que não tenham vindo ao cinema sozinhos. Como perceberão vendo este filme, os espíritos, os vampiros, estão por toda parte. Talvez haja um sentado ao seu lado agora. Sim, porque eles também vão ao cinema, eu lhes asseguro. Os vampiros têm um aspecto perfeitamente normal e na verdade, o são. Apenas tem o estanho hábito de beber sangue, especialmente o sangue daqueles que amam... Mas estou falando e perdendo tempo... Portanto, vamos ao primeiro conto. – narração de abertura de Boris Karloff

Um filme europeu de horror do início dos anos 60 do século passado, dividido em três histórias independentes, narradas pelo lendário ator Boris Karloff (que também atua num dos episódios, que aliás é o melhor deles), com direção do mestre Mario Bava, e com um elenco de lindas e maravilhosas mulheres como as atrizes Michèle Mercier e principalmente a estonteante Suzy Andersen. O resultado disso tudo pode ser encontrado sob o título “Black Sabbath – As Três Máscaras do Terror” (Black Sabbath – The Three Faces of Fear / I Tre Volti Della Paura, 63), que por todas essas características atraentes e qualificações inegáveis, obtemos momentos absolutos de entretenimento e satisfação numa sessão de cinema.

O Telefone” (Il Telefono / The Telephone) é o primeiro episódio apresentado. Nele, uma bela mulher, Rosy (a francesa Michèle Mercier), está em sua casa e recebe vários telefonemas ameaçadores contra sua vida, supostamente vindos de um ex-amante, Frank Rainer (o argentino Milo Quesada, não creditado), que fugiu da cadeia depois de ser denunciado por ela. Rosy pede ajuda para sua amiga Mary (a italiana Lidia Alfonsi), e juntas elas tentam se proteger das ameaças.
Em seguida vem a história “O Wurdalak” (I Wurdalak / The Wurdalak), mostrando uma família do leste europeu composta por Giorgio (Glauco Onorato), sua esposa Maria (a grega Rika Dialina) e o filho pequeno Ivan, além de seu irmão Pietro (Massimo Righi) e a bela irmã Sdenka (Suzy Andersen). Eles estão esperando a chegada do patriarca, Gorca (Boris Karloff), que havia partido com o objetivo de matar um perigoso bandido turco que estava aterrorizando a região. Enquanto isso, o jovem Conde Vladimire d´Urfe (o americano Mark Damon, de “A Queda da Casa de Usher”, 60) está de passagem e é convidado para passar a noite com a família de camponeses, criando instantaneamente uma atração mútua entre ele e a jovem Sdenka. A preocupação da família é que no retorno do patriarca ele poderia ter se tornado vítima de uma lenda local, transformando-se num “wurdalak”, uma espécie de cadáver ambulante, um vampiro que tem sede de sangue justamente das pessoas que mais amou na vida.
O último conto de horror chama-se “A Gota d´Água” (La Goccia d´Acqua / The Drop of Water), baseado numa obra de Ivan Chekhov. Uma enfermeira, Helen Chester (a francesa Jacqueline Pierreux), é chamada às pressas durante uma noite chuvosa pela empregada (Milly Monti) de uma velha condessa, para preparar o cadáver dela para o funeral, pois ela havia morrido pouco tempo antes de ataque cardíaco durante uma sessão espírita, na tentativa de comunicação com os mortos. Durante os preparativos do corpo, Helen não resiste e rouba um anel de diamantes do dedo indicador da mão direita da falecida. Porém, ela não imaginaria o tormento que enfrentaria em sua volta para casa, assombrada pelo fantasma da condessa em busca de vingança.

Dos três episódios da antologia, “O Telefone” é o mais fraco, principalmente pelo roteiro apenas convencional, baseado em história do desconhecido F. G. Snyder, constituindo-se num “thriller” ou “giallo” (para os italianos) mediano apresentando o drama enfrentado pela personagem principal, a bela Rosy, presa em sua própria casa e sendo ameaçada de morte por uma voz no telefone. O episódio explora o tema do lesbianismo, um assunto considerado tabu e ainda mais difícil de se lidar no cinema há quase meio século atrás. A história é praticamente filmada num único ambiente, lembrando vários episódios da série de TV “Além da Imaginação” (1959/64), criada por Rod Serling, e que usava o mesmo recurso, gerando grande economia no orçamento. Curiosamente, a versão americana traz uma sequência final diferente do filme italiano, e que realça uma sugestão até então inexistente de elementos sobrenaturais, concluindo a história de forma bem mais interessante. “O Telefone” também antecipou em mais de trinta anos a idéia utilizada pelo cineasta Wes Craven no prólogo de “Pânico” (96), o cultuado filme de horror adolescente que impulsionou uma imensa safra de filmes similares com psicopatas assassinos mascarados.
O segundo episódio, “O Wurdalak”, baseado numa história do escritor russo Aleksei Tolstoy, é disparado o melhor de todos e o mais comprido em duração, sem contar o fato decisivo de termos o lendário ator Boris Karloff como o protagonista Gorca, numa performance digna de seu imenso talento e carisma dentro do cinema de horror em todos os tempos. A história lembra fortemente as características e estilos explorados pelo estúdio inglês “Hammer”, com todos aqueles elementos góticos que tanto despertam fascínio entre os apreciadores deste tipo de cinema de horror. Não faltam a tradicional floresta bizarra com árvores de aspecto fantasmagórico, a constante névoa sinistra, o ruído assustador do vento noturno, o perturbado cachorro uivando, a casa isolada no meio do mato, com suas portas rangendo, as ruínas ameaçadoras (nesse caso um convento antigo, abandonado e destruído pela ação impiedosa do tempo), uma família atormentada por uma lenda maldita sobre vampiros (chamados de “wurdalak”), entre outras coisas mais. E para completar, temos também um desfecho pessimista e trágico, totalmente diferente daqueles finais previsíveis e descartáveis onde todos “viveriam felizes para sempre”. É uma história verdadeiramente sinistra e memorável, num dos mais marcantes trabalhos de Boris Karloff, que faleceria poucos anos depois por causa de complicações respiratórias, no início de 1969.
O terceiro e último episódio (ou “face do medo” como sugere os títulos originais italiano e americano) também é muito interessante, abordando os temas do medo e a vingança de um fantasma. “A Gota d’Água” explora com sucesso o efeito perturbador que simples ruídos gerados por gotas d’água caindo das torneiras podem exercer sobre a fragilidade psicológica da protagonista, a enfermeira Helen Chester, que está assombrada pelo sentimento de culpa após ter roubado um anel valioso da mão do cadáver de uma velha decrépita quando preparava seu corpo para o funeral. É como diz Boris Karloff no encerramento do filme: “Com os fantasmas não se brinca, porque eles se vingam...”

Para o deleite dos apreciadores do cinema fantástico do passado, em especial dos fãs do ator inglês Boris Karloff e do cineasta italiano Mario Bava, “Black Sabbath – As Três Máscaras do Terror” (versão italiana) foi lançado em DVD no Brasil pelo selo “Dark Side” da “Works Editora”, recheado de interessantes materiais extras. Temos um trailer original italiano com legendas em português e duração de três minutos e meio (que curiosamente revela “spoilers” que denunciam detalhes importantes, principalmente sobre o episódio “O Telefone”), além de uma galeria de fotos e cartazes originais. Temos também as biografias de Boris Karloff e Mario Bava, sendo no caso desse último um texto detalhado sobre sua carreira e uma filmografia caprichada, onde destacam-se filmes como “A Máscara de Satã” (60), com Barbara Steele, “Hércules no Centro da Terra” (61), com Christopher Lee, “O Planeta dos Vampiros” (65), com a brasileira Norma Bengell, “Mata, Bebê, Mata” (66), e “Banho de Sangue” (71), entre outros títulos. Além disso, o material extra ainda inclui uma seleção de cenas exclusivas da versão americana do filme, lançada pela AIP (“American International Pictures”), trazendo a narração de introdução de cada episódio, feita por Boris Karloff no original em inglês e sem legendas em português, e os créditos de abertura. Porém, ficou faltando o final alternativo do episódio “O Telefone”, com ênfase no sobrenatural, e cujo resultado é bem superior ao da versão italiana.

Pronto. Não lhes parece que devia terminar assim? Com os fantasmas não se brinca, porque eles se vingam... Bem, chegamos ao fim de nossas histórias e agora infelizmente devo deixa-los. Mas tomem cuidado quando voltarem para casa. Olhem ao redor, olhem para trás. Cuidado quando abrirem a porta, não entrem no escuro... Sonhem comigo! Nós nos tornaremos amigos! – narração de encerramento de Boris Karloff

“Black Sabbath – As Três Máscaras do Terror” (Black Sabbath – The Three Faces of Fear, 1963) # 339 – data: 21/09/05 – avaliações: episódio “O Telefone” (6,5) / “O Wurdalak” (10) / “A Gota d´Água” (8,5)
site: www.bocadoinferno.com.br
(postado em 24/11/05)

Black Sabbath – As Três Máscaras do Terror (Black Sabbath – The Three Faces of Fear / I Tre Volti Della Paura, Itália / França / Estados Unidos, 1963). Duração: 92 minutos. Direção de Mario Bava e Salvatore Billitteri. Roteiro de Marcello Fondato, Alberto Bevilacqua e Mario Bava, a partir de histórias de Ivan Chekhov (“A Gota d’Água”), Alekxei Tolstoy (“O Wurdalak”) e F. G. Snyder (“O Telefone”). Produção de Salvatore Billitteri e Paolo Mercuri. Música de Roberto Nicolosi e Les Baxter (versão americana). Fotografia de Ubaldo Terzano. Edição de Mario Serandrei. Direção de Arte de Giorgio Giovannini. Desenho de Produção de Riccardo Dominici. Maquiagem de Otello Fava. Elenco: Episódio “O Telefone” – Michèle Mercier (Rosy), Lidia Alfonsi (Mary), Milo Quesada (Frank Rainer). Episódio “O Wurdalak” – Boris Karloff (Gorca), Mark Damon (Conde Vladimire d´Urfe), Suzy Andersen (Sdenka), Massimo Righi (Pietro), Rika Dialina (Maria), Glauco Onorato (Giorgio). Episódio “A Gota d´Água” – Jacqueline Pierreux (Helen Chester), Milly Monti (a empregada), Harriet Medin (a vizinha), Gustavo de Nardo (Inspetor de Polícia).






Terra dos Mortos (Land of the Dead, EUA / França / Canadá, 2005)

Primeiro veio o perturbador clássico de baixo orçamento “A Noite dos Mortos Vivos” (Night of the Living Dead, 68); depois após dez anos foi a vez do sangrento “Despertar dos Mortos” (Dawn of the Dead); seguido por “O Dia dos Mortos” (Day of the Dead, 85). E agora finalmente, depois de vinte anos, o principal mestre dos filmes de zumbis comedores de carne humana George Romero, retorna às telas com “Terra dos Mortos” (Land of the Dead), o quarto filme da mais famosa série desse fascinante subgênero do cinema de horror e que entrou em cartaz nos cinemas brasileiros em 22/07/05.

O mundo está dominado por mortos vivos e os remanescentes da humanidade tentam sobreviver protegidos numa cidade isolada e protegida dos ataques dos zumbis. Entre os sobreviventes, existe um grupo de mercenários, entre eles o líder Riley (Simon Baker), seu companheiro Charlie (Robert Joy), que tem o rosto deformado por queimaduras, a bela Slack (Asia Argento), uma mulher que foi salva por Riley quando foi obrigada a lutar contra dois zumbis num jogo, e Cholo (John Leguizamo), um mexicano insubordinado. Eles fazem missões nos locais dominados por mortos vivos para recuperarem alimentos, bebidas e outras coisas úteis abandonadas após o início do caos gerado por um vírus que levantou os mortos de seus túmulos e contagiou todos por eles mordidos.
Na cidade dos sobreviventes humanos existe uma grande diferença de classes, onde o rico e poderoso Kaufman (Dennis Hopper), é o dono de um prédio luxuoso e seguro, cercado de privilégios, e os pobres vivem nas ruas em meio à violência urbana.
Mas, o maior problema a ser enfrentado pelos remanescentes da raça humana é a ameaça de uma invasão dos zumbis, que sob a liderança de aparentemente um simples frentista de um posto de gasolina (que na verdade é uma espécie de versão mais evoluída de Bub de “Dia dos Mortos”), encontraram condições de evoluírem de forma crescente e planejam um ataque mais organizado contra a cidade dos humanos, tentando consolidar seu espaço como espécie dominante no planeta.

Confesso que estava bem ansioso em ver um filme genuíno de horror em cartaz nos cinemas, principalmente depois do péssimo “Amaldiçoados” (Cursed), que estreou no Brasil na semana anterior, em 15/07, um filme muito ruim com uma história contemporânea de lobisomens sem interesse, num grande vacilo do diretor Wes Craven, o criador da franquia “A Hora do Pesadelo” e responsável no passado por filmes perturbadores e não comerciais como “Aniversário Macabro” e “Quadrilha de Sádicos”. Os apreciadores do gênero precisavam de um filme mais intenso nos cinemas, depois de vários exemplos ruins no primeiro semestre de 2005 como “O Filho de Chucky”, “O Chamado 2” e “O Pesadelo”. E felizmente, essa tarefa ficou nas mãos do mestre George Romero, que nos brindou novamente com mais um filme de sua sangrenta série sobre zumbis.
Porém, para confirmar a característica de ser classificado com um filme violento e bem menos comercial, a distribuição de “Terra dos Mortos” nas salas de exibição foi irregular, tendo como referência a famosa rede de cinemas “Cinemark”, onde pelo menos na cidade de São Paulo e mais especificamente na região de Interlagos, em dois Shopping Centers de grande movimento o filme esteve disponível em sua primeira semana de exibição apenas em horários noturnos.
“Terra dos Mortos” segue a linha dos episódios anteriores quanto ao seu argumento básico, ou seja, uma mensagem pessimista do futuro da humanidade, que luta com as últimas forças pela sobrevivência num mundo caótico dominado por uma legião de mortos vivos carnívoros. Porém, uma diferença notável é que agora, além de serem violentos e comedores de carne humana, os zumbis estão evoluindo e conseguindo encontrar formas de se comunicarem e organizarem, mesmo que precariamente, tornando-se cada vez mais ameaçadores para os últimos sobreviventes da raça humana.
Se em “A Noite dos Mortos Vivos” percebemos no argumento uma crítica social contra o racismo, em “Despertar dos Mortos” contra o consumismo desenfreado da sociedade, e em “Dia dos Mortos” observamos um alerta sobre a intransigência militar, agora em “Terra dos Mortos” a história evidencia uma imensa diferença de classes sociais, com os ricos vivendo num prédio luxuoso cercado de mordomias e mais distantes da ameaça dos zumbis, e o resto da população pobre lutando pelas sobras e migalhas numa cidade dominada pela violência urbana, jogos e vícios.
Analisando rapidamente todos os quatro filmes da série, ainda prefiro os dois primeiros. O filme original em preto e branco de 1968 ganha uma nota 10 principalmente pela ousadia de Romero em chocar o público com cenas de extrema violência há aproximadamente quarenta anos atrás. “Despertar dos Mortos”, que continuou a saga dos zumbis com fotografia colorida, também vale uma nota máxima, com o diretor mantendo a exposição de violência com o vermelho vivo do sangue derramado e vísceras destroçadas. Já “Dia dos Mortos”, apesar de também privilegiar cenas fortes de mortos vivos devorando suas vítimas, não conseguiu manter a mesma intensidade dos anteriores, talvez porque a idéia básica da história já havia se transformado em algo repetitivo e com impacto menor sobre o público, ou seja, um mundo dominado completamente pelos zumbis, que tentam atacar os poucos sobreviventes humanos. E, finalmente com “Terra dos Mortos”, a volta de George Romero à saga depois de vinte anos, igualmente apesar de caprichar nas cenas de violência não poupando o espectador de ver muito sangue sendo jorrado, e também de apresentar elementos novos como a evolução dos zumbis, o filme não conseguiu atingir plenamente seu objetivo talvez porque o cinema de horror atual está tão envolvido com violência que corpos despedaçados, cabeças estouradas e vísceras expostas já não impressionam tanto. E nesse caso, seria necessário um investimento maior no conteúdo da história, algo que não pareceu ser muito diferente do convencional e dos clichês de filmes de zumbis. Porém, pelo fato de ser George Romero o homem por trás das câmeras, pelos zumbis carnívoros que são a grande atração, pela carnificina e banquete de sangue, pela presença de Asia Argento que nos presenteou com sua beleza, e pela pequena aparição nostálgica de Tom Savini, “Terra dos Mortos” merece no mínimo uma nota 8.

A saga dos mortos vivos de George Romero gerou uma franquia bem extensa, pois além dos quatro filmes dirigidos por ele próprio, ainda houve as refilmagens dos dois primeiros episódios da série. Em 1990 tivemos “A Noite dos Mortos Vivos” com direção de Tom Savini e mais recentemente a nova versão de “Despertar dos Mortos”, que recebeu o nome no Brasil de “Madrugada dos Mortos” (2004), de Zack Snyder, sendo que ambos os filmes são dignos da franquia e de toda a mitologia dos zumbis criada por George Romero, apesar da liberdade de criação artística no trabalho de Snyder, que transformou seus zumbis em criaturas de grande agilidade e por isso mesmo ainda mais ameaçadoras, abandonando a tradicional lentidão de movimentos dos mortos vivos originais.
Algumas curiosidades e notas: A filha do diretor George Romero, Tina Romero, aparece no filme como uma militar, assim como o famoso técnico em maquiagem Tom Savini, um habitual colaborador do cineasta, que teve uma participação bem rápida, mas bastante efetiva, como um violento zumbi. Aliás, a repórter de um jornal americano, chamada Susan Wloszczyna, também apareceu como figurante interpretando uma morta viva. A atriz Asia Argento, que faz o papel de Slack, além de ser uma bela mulher, é filha do diretor italiano Dario Argento, que produziu juntamente com Romero o segundo filme da série, “Despertar dos Mortos”, sendo um importante cineasta especialista no gênero, conhecido por vários filmes significativos como “Suspiria” (77), “A Mansão do Inferno” (80) e “Dois Olhos Satânicos” (90), entre outros. Alguns títulos alternativos originais haviam sido imaginados anteriormente para “Terra dos Mortos” como “Dead City”, “Twilight of the Dead”, e “Dead Reckoning”, que é o nome original do imenso caminhão blindado carregado de armas pesadas utilizado pelos humanos na luta contra os zumbis, chamado na legenda brasileira de “Destruidor”. O cineasta George Romero tinha inicialmente a intenção de utilizar locações na cidade em que viveu a maior parte de sua vida, Pittsburgh, na Pensylvania, local das filmagens dos outros três filmes anteriores da saga, mas os realizadores de “Terra dos Mortos” optaram por filmar em Toronto, no Canadá, devido aos menores custos de produção, sendo que o orçamento do filme ficou em torno de US$ 18 milhões.

“Terra dos Mortos” (Land of the Dead, 2005) – # 327 – data: 23/07/05 – avaliação: 8 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com.br
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(postado em 24/11/05)

Terra dos Mortos (Land of the Dead, Estados Unidos / França / Canadá, 2005). Universal / Atmosphere. Duração: 93 minutos. Direção e roteiro de George Romero. Produção de Mark Canton, Bernie Goldmann e Peter Grunwald. Produção Executiva de Steve Barnett, Neil Canton, Dennis E. Jones e Ryan Kavanaugh. Música de Reinhold Heil e Johnny Klimek. Fotografia de Miroslaw Baszak. Edição de Michael Doherty. Desenho de Produção de Arvinder Grewal. Direção de Arte de Douglas Slater. Elenco: Simon Baker (Riley), John Leguizamo (Cholo), Dennis Hopper (Kaufman), Asia Argento (Slack), Robert Joy (Charlie), Eugene Clark, Joanne Boland, Tony Nappo, Jennifer Baxter, Boyd Banks, Jasmin Geljo, Max McCabe.

A Mortalha da Múmia (The Mummy´s Shroud, Inglaterra, Hammer, 1967)

Um pesadelo de terror vindo da tumba. Uma antiga maldição ganha vida, para matar os vivos e levantar os mortos. O horror de uma história que começa no antigo Egito. Quando Kah-to-Bey, o filho de um faraó, morre no deserto e é coberto por uma mortalha que possui um poder secreto de vida e morte.
– reprodução de narração do trailer original

Além de Drácula (com oito filmes) e a criatura de Frankenstein (sete), outros monstros famosos do cinema foram igualmente abordados pela produtora inglesa “Hammer” em seus nostálgicos filmes dos anos 50, 60 e 70 do século passado, como a múmia, o fantasma da ópera, o Dr. Jekyll e Mr. Hyde, o lobisomem, e outros. O estúdio explorou com uma série de quatro filmes o tema das múmias do antigo Egito e as terríveis maldições que envolviam suas lendas e afetavam os profanadores de suas tumbas. São eles: “A Múmia” (The Mummy, 59), de Terence Fisher e com Christopher Lee e Peter Cushing, “A Maldição da Múmia” (The Curse of the Mummy’s Tomb, 64), de Michael Carreras, “A Mortalha da Múmia” (The Mummy’s Shroud, 67), de John Gilling e com André Morell, e “Sangue no Sarcófago da Múmia” (Blood From the Mummy’s Tomb, 71), de Seth Holt e Michael Carreras, e com Andrew Keir e Valerie Leon.

Aproximadamente no ano 2.000 A.C., um importante faraó egípcio (Bruno Barnabe) lamentava a grave doença de sua esposa (Toni Gilpin) no leito de morte, ao lado do filho pequeno Kah-to-Bey (Toolsie Persaud). Porém, eles não imaginavam que paralelamente havia uma conspiração para a tomada do poder que culminou com sua morte. Antes de morrer pela espada do inimigo traidor, o faraó ordenou para que seu servo Prem (Dickie Owen) protegesse seu filho numa fuga pelo deserto. As condições climáticas desfavoráveis com o forte calor levou Kah-to-Bey à morte, sendo enterrado num túmulo construído especialmente para ele, e com uma misteriosa mortalha repleta de inscrições cobrindo-lhe o corpo.
Cerca de 4.000 anos depois, em 1920, uma expedição inglesa financiada por um rico empresário, o egocêntrico e arrogante Stanley Preston (John Phillips, de “Aldeia dos Amaldiçoados”), parte pelo deserto em busca do túmulo de Kah-to-Bey. O grupo é formado pelo arqueólogo e líder Sir Basil Walden (André Morell, de “Epidemia de Zumbis”), além de Paul Preston (David Buck), filho do empresário, o fotógrafo Harry Newton (Tim Barrett), e Claire de Sangre (Maggie Kimberly), a única moça do grupo, especialista em idiomas antigos e com poderes de vidência.
Eles encontram a tumba do príncipe e transportam o corpo para a cidade do Cairo, porém a partir daí começa a ocorrer uma série de assassinatos misteriosos envolvendo os membros da expedição e outras pessoas que invadiram a tumba, como o assessor de imprensa do empresário, Sr. Longbarrow (Michael Ripper, de “A Serpente” e “O Conde Drácula”), através das mãos de uma terrível múmia (Eddie Powell) que saiu de seu “sarcófago maldito” para cumprir uma maldição contra os invasores da sepultura proibida de Kah-to-Bey. Os assassinatos brutais despertaram a atenção da polícia, com o Inspetor Barrani (Richard Warner) assumindo o comando das investigações. Uma das poucas pessoas que parece livre da ira vingativa da múmia é Barbara Preston (Elizabeth Sellars), esposa do empresário e que não entrou na cripta do filho do faraó.

“A Mortalha da Múmia” segue a mesma linha dos filmes que abordam essas criaturas sobrenaturais cobertas de trapos e bandagens, e que voltam à vida com força descomunal para se vingar violentamente de todos que ousaram invadir seus domínios, roubar seus tesouros ou perturbar seu sono profundo. Ou seja, não falta a tradicional maldição e seus efeitos mortais contra os intrusos e saqueadores de túmulos. Nesse caso, é através da citação de textos proibidos inscritos numa mortalha que tem poderes especiais, e que estava cobrindo o cadáver de Kah-to-Bey, o filho adolescente de um poderoso faraó que foi assassinado num golpe de traição de seu irmão, que queria tomar o poder.
O filme apresenta algumas cenas razoáveis de mortes, nos ataques da múmia de Prem, o fiel servo do faraó assassinado e que tinha como objetivo proteger eternamente o filho de seu mestre, durante a fuga pelo deserto, onde o garoto fatalmente sucumbiu ao calor. Mas como pontos negativos, temos a presença inoportuna de uma velha e irritante cartomante chamada Haiti (Catherine Lacey), que com sua bola de cristal conseguia ver o futuro sombrio de todos aqueles que invadiram o túmulo do filho do faraó. Ela é a mãe de Hasmid (Roger Delgado), o guardião da tumba e o responsável pelo despertar da múmia através da recitação da maldição inscrita na mortalha de Kah-to-Bey.

O terceiro filme sobre múmias da “Hammer”, “A Mortalha da Múmia”, foi lançado em DVD no Brasil pelo selo “Dark Side”, da “Works Editora”, trazendo entre os materiais extras as biografias do cineasta inglês John Gilling (1912 / 1982), que dirigiu outros filmes para o mesmo estúdio como “A Serpente” e “Epidemia de Zumbis” (ambos em 1966), e do ator também inglês André Morell (1909 / 1978), que esteve em “O Cão dos Baskervilles” (59), ao lado de Christopher Lee e Peter Cushing. Temos também uma sinopse, um trailer de cinema legendado em português e com três minutos de duração, um trailer combo promocional também com legendas apresentando “A Mortalha da Múmia” e “Frankenstein Criou a Mulher”, e dois spots de TV legendados e em preto e branco dos mesmos filmes, num pacote promocional da “Hammer” anunciando suas produções sobre a múmia e o monstro de Frankenstein lançados em 67.
Como curiosidades, podemos destacar que o filme já havia recebido o nome nacional de “O Sarcófago Maldito” quando exibido na televisão e agora recebeu o título “A Mortalha da Múmia” (uma tradução literal do original) no lançamento em DVD. E a longa narração de abertura, explicando detalhadamente as bases de origem da história, é de autoria de Peter Cushing, um dos atores mais presentes nos filmes da “Hammer”, só que sua narração não está creditada.

“A Mortalha da Múmia” (The Mummy’s Shroud, 1967) # 352 – data: 23/11/05 – avaliação: 6 (de 0 a 10)
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(postado em 23/11/05)

A Mortalha da Múmia / O Sarcófago Maldito (The Mummy’s Shroud, Inglaterra, 1967). Hammer. Duração: 90 minutos. Direção de John Gilling. Roteiro de John Gilling, a partir de história de John Elder (pseudônimo de Anthony Hinds). Produção de Anthony Nelson Keys. Música de Don Banks. Fotografia de Arthur Grant. Edição de Chris Barnes. Desenho de Produção de Bernard Robinson. Direção de Arte de Don Mingaye. Maquiagem de George Partleton. Efeitos Especiais de Les Bowie. Elenco: André Morell (Sir Basil Walden), John Phillips (Stanley Preston), David Buck (Paul Preston), Elizabeth Sellars (Barbara Preston), Maggie Kimberly (Claire de Sangre), Michael Ripper (Longbarrow), Tim Barrett (Harry Newton), Richard Warner (Inspetor Barrani), Roger Delgado (Hasmid), Catherine Lacey (Haiti), Dickie Owen (Prem), Bruno Barnabe (Faraó), Toni Gilpin (Esposa do Faraó), Toolsie Persaud (Kah-to-Bey), Eddie Powell (Múmia), Andreas Malandrinos (Curador), Peter Cushing (Narração, não creditado).

Suspiria (Suspiria, Itália, 1977)



“Você pode correr de Suspiria. Você pode se esconder de Suspiria. Você não pode escapar de Suspiria.”

 

O italiano Dario Argento, nascido em Roma em 1940, é um dos mais conhecidos e cultuados cineastas da história do gênero fantástico, juntamente com outros nomes relevantes como seus conterrâneos Mario Bava e Lucio Fulci, os ingleses Terence Fisher e Alfred Hitchcock, e os americanos George Romero e Roger Corman, entre outros mais. E o maior destaque de sua carreira bem-sucedida, sendo considerado por muitos como um dos grandes filmes de toda a história do horror, é “Suspiria” (Suspiria, 1977), com produção de seu irmão Claudio e do pai Salvatore Argento, e escrito pelo próprio diretor em parceria com sua esposa na época, a atriz Daria Nicolodi, inspirados no livro “Suspiria de Profundis”, de Thomas De Quincey. Na verdade, “Suspiria” é o primeiro filme de uma trilogia inacabada sobre o esconderijo de três criaturas demoníacas misteriosas conhecidas como “As Três Mães”, abordando no caso a “Mãe dos Suspiros” que vive na Alemanha. Em seguida foi filmado “A Mansão do Inferno” (Inferno, 80), numa história ambientada na cidade americana de New York com a “Mãe das Trevas”, e por último e ainda inédito, falta a produção de um filme abordando a “Mãe das Lágrimas”, que vive em Roma.

 

Notas do autor:

24/05/09: Dario Argento dirigiu em 2007 o final da trilogia numa co-produção entre Itália e Estados Unidos; o filme foi lançado em DVD no Brasil com o título “O Retorno da Maldição: A Mãe das Lágrimas” (Mother of Tears / The Third Molther / La Terza Mother), trazendo no elenco Asia Argento, Daria Nicolodi e Udo Kier, numa história carregada em cenas sangrentas e efeitos especiais computadorizados.

10/09/24: Em 2018 foi lançada uma refilmagem que recebeu o título brasileiro “Suspíria: A Dança do Medo”, com Chloë Grace Moretz e Tilda Swinton.

 

A história de “Suspiria” apresenta uma estudante americana de balé, Suzy Bannion (Jessica Harper, de “O Fantasma do Paraíso”, 74, e “Minority Report – A Nova Lei, 2003), que vai para a Alemanha aprimorar seus estudos de dança numa conceituada academia. Porém, em sua chegada à Europa já enfrenta uma série de dificuldades como uma forte tempestade no aeroporto que complica sua viagem de táxi até a escola de dança. Lá chegando, ela se depara com outra situação insólita, com uma mulher saindo desesperada da escola, gritando palavras incompreensíveis pelo barulho da chuva. Ao tentar se apresentar na porta da academia, é mal recebida por uma voz feminina no interfone, obrigando-a a retornar no dia seguinte.

Uma vez finalmente ingressada na escola, ela é recepcionada por uma das professoras, a severa Srta. Tanner (Alida Valli), e pela vice diretora, Madame Blanc (Joan Bennett), as quais a apresentam para vários outros estudantes como o jovem Mark (Miguel Bosé), e as moças que viriam a ser suas companheiras de quarto, Olga (Barbara Magnolfi) e Sara (Stefania Casini), além de alguns dos professores como Daniel (Flavio Bucci), um cego que toca piano, e Prof. Verdegast (Renato Scarpa), que também é médico, e um ajudante geral romeno com uma cara de doente mental chamado Pavlo (Giuseppe Transocchi).

Na escola, Suzy fica sabendo que a mulher histérica que ela vira anteriormente na chuva fugindo desesperada, Patty Hingle (Eva Axén), era uma aluna expulsa que descobrira um segredo proibido e que fora brutalmente assassinada logo depois numa cena forte de violência gráfica envolvendo também uma outra amiga, Sonia (Susanna Javicoli), com direito a facadas, enforcamento e pedaços de vidro perfurando o peito e a cabeça. Além disso, a jovem bailarina americana recém-chegada entra em contato com vários eventos bizarros na academia, como lesmas caindo do teto, e a ocorrência de outros assassinatos como o do pianista cego destroçado pelo próprio cachorro que lhe servia de guia, numa outra cena sangrenta no melhor estilo dos filmes de horror italianos.

Ela desconfia de algo muito misterioso acontecendo dentro da escola através do estranho comportamento dos professores, e conhece então o psiquiatra Dr. Frank Mandel (o alemão Udo Kier) e o Prof. Milius (Rudolf Schundler), autor do livro “Paranóia ou Magia?”, os quais lhe relatam a existência e prática de bruxaria pelo mundo. Confira nas próprias palavras do psiquiatra:

 

“Bruxo é um adepto do ocultismo que vive no mundo material e tem perturbações psiquiátricas. Acredito que a onda de crença na magia e no oculto faz parte de uma doença mental. O azar não está em espelhos despedaçados, mas em mentes despedaçadas.”

 

Ou nas palavras do escritor:

 

“As bruxas são más, negativas e destrutivas. O conhecimento da arte do oculto dá a elas grandes poderes. Podem mudar o curso dos eventos e da vida das pessoas. Mas apenas para causar o mal... A magia está em todo lugar. E em todo o mundo é um fato conhecido. Sempre.”

 

Depois da morte violenta de sua amiga de quarto Sara, em condições igualmente misteriosas, Suzy chega à conclusão que a escola de dança é um covil de bruxas, descobrindo que a academia foi fundada em 1895 por uma grega acusada de feitiçaria chamada Helena Markus, conhecida mais tarde como “Rainha Negra”, a qual está por trás das mortes e lidera uma seita oculta de bruxas, e quem a bailarina americana deverá enfrentar num confronto decisivo.

 

O cinema italiano de horror é bastante conhecido pelas fortes cenas de violência e sangue e os filmes de Dario Argento reforçam essa ideia. Em “Suspiria”, ocorre uma cena de duplo assassinato no início do filme que é extremamente violenta, onde duas mulheres são brutalmente dilaceradas, uma diretamente pelas mãos de uma criatura diabólica, com pesados golpes de faca culminando num enforcamento impressionante, e outra indiretamente pela ação devastadora dos pedaços cortantes de uma vidraça despedaçada. São poucas as cenas de mortes, mas todas são muito chocantes, como aquela em que um cego tem seu pescoço destroçado por um cachorro que supostamente seria o melhor amigo do homem, e a sequência final envolvendo uma morta-viva desfigurada e uma bruxa bestial. Tem ainda uma cena grotesca envolvendo um morcego raivoso atacando uma mulher através de efeitos bem precários e artificiais, mas que ainda assim impressionam principalmente por datarem de quase trinta anos atrás.

Outros detalhes relevantes no filme e que ajudaram a torná-lo cultuado e sempre lembrado é a inclusão de uma trilha sonora macabra e bizarra composta de suspiros, gritos e vozes indefinidas, criada pelo grupo de rock progressivo italiano Goblin, ajudando muito no clima de tensão e desconforto durante toda a projeção, e o uso exagerado de cores fortes em tons vermelhos, laranjas, azuis e verdes dependendo dos cenários, num incrível e delirante surrealismo de grande impacto visual.

A trilha sonora foi composta quase que totalmente antes do início da produção do filme, e Dario Argento fazia questão de tocá-la num volume alto durante as filmagens para justamente envolver os atores num clima tenso de horror e perturbação enquanto estavam em cena.

“Suspiria” apresenta uma história sobrenatural, uma espécie de conto de fadas assombrado, um pesadelo real. Porém, desconsiderando as sangrentas cenas de mortes e os excelentes trabalhos de música e fotografia, podemos dizer que o roteiro é óbvio demais e não desperta muito interesse, utilizando clichês comuns para contar uma história simples e contemporânea de bruxaria. Em alguns momentos o filme é cansativo, de ritmo lento e até sonolento, num intervalo muito grande entre as cenas chocantes de violência, acontecendo pouca coisa entre esses períodos e deixando muita informação solta sem destino, para somente chegar ao ápice na intensa e memorável sequência final.       

 

Dario Argento é filho de uma fotógrafa brasileira, Elda Luxardo, e de um produtor de cinema italiano, e foi casado com a atriz Daria Nicolodi, com quem teve uma filha, a bela Asia Argento, que também seguiu a carreira de atriz, tendo inclusive participado de muitos filmes do próprio pai. Nicolodi também tem uma outra filha de um casamento anterior, Fiore Argento, igualmente atriz. O cineasta sempre demonstrou sua apreciação pelos giallos italianos, pequenos livros populares de mistério e suspense com capas amarelas, e nunca escondeu sua admiração pelo cineasta Alfred Hitchcock, diretor de clássicos como “Psicose” (60) e “Os Pássaros” (63), e pela literatura macabra do escritor Edgar Allan Poe, em elementos que tornaram-se influências percebidas em seus filmes.

Inicialmente trabalhando como um crítico de cinema, ele entrou definitivamente no mundo dos filmes através de uma oportunidade recebida do cineasta Sergio Leone, escrevendo o roteiro no final dos anos 60 do clássico do western “Era Uma Vez no Oeste”, em parceria com Bernardo Bertolucci. Além de roteirista e produtor (de obras como “Zombie, o Despertar dos Mortos” de George Romero, e “Demons” de Lamberto Bava), ele é muito conhecido na direção de diversos trabalhos consagrados. Sua carreira é composta, entre outros, pela chamada trilogia dos animais, formada por “O Pássaro das Plumas de Cristal” (L´ucello dalle piume di cristallo / The Bird with the Crystal Plumage, 70), seu primeiro suspense e sucesso comercial, “O Gato de Nove Caldas” (Il gatto a nove code / The Cat of Nine Tails, 71), e “Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza” (4 mosche di velluto grigio / Four Flies on Grey Velvet, 72).

Depois vieram “Prelúdio Para Matar” (Profondo Rosso / Deep Red, 75), o início de sua parceria com a banda Goblin, “Suspiria” e “A Mansão do Inferno”, única parceria com o lendário Mario Bava. A partir dos anos 80, sua filmografia é completada com “Trevas” (Tenebre, 82), “Phenomena” (85, lançado em DVD pela “Works Editora” em Janeiro de 2006), “Terror na Ópera” (Opera, 87), “Dois Olhos Satânicos” (Two Evil Eyes, 90), em parceria com George Romero na adaptação de dois contos do mestre da literatura de horror Edgar Allan Poe, sendo que Argento dirigiu sua versão para “O Gato Preto”, “Trauma” (93), “Síndrome Mortal” (The Stendhal Syndrome, 96), e “Um Vulto na Escuridão” (The Phantom of the Opera, 98), sua versão para a famosa história de Gaston Leroux, “O Fantasma da Ópera”.

Mais recentemente ele dirigiu “Insônia” (Sleepless, 2001), e seu último trabalho é “The Card Player” (2004), com sua filha Fiore no elenco e com trilha sonora de Claudio Simonetti, integrante da extinta banda Goblin.   

 

“Suspiria”, que estava inédito no Brasil, foi finalmente lançado em Junho de 2004 no mercado nacional de DVD pela “Works Editora” (www.worksdvd.com.br) e o selo “Dark Side” (www.darksidedvd.com.br), numa caprichada edição dupla recheada com um interessante material extra. O primeiro disco traz o filme no formato de tela “Widescreen”, na versão original em inglês com opção de legendas em português, além de vários extras como um trailer internacional de dois minutos somente com imagens do filme, um trailer americano de um minuto e sem legendas, um spot para a TV sem legendas de aproximadamente trinta segundos de duração, três spots de rádio com áudio em inglês de trinta segundos cada, uma imensa galeria de fotos e posters com sete minutos de duração, as biografias da atriz Jessica Harper e do diretor Dario Argento, e finalmente uma sinopse simplificada do filme.

O segundo disco traz o documentário “O Terror de Dario Argento” (An Eye for Horror, 2000), de 57 minutos, dirigido e editado por Leon Ferguson, com produção executiva de Richard Journo, narração de Mark Kermode, e com a consultoria e condução das entrevistas pelo biógrafo Alan Jones.

O documentário é uma verdadeira homenagem ao cineasta italiano trazendo diversas entrevistas, cenas de bastidores, trechos de filmes, depoimentos e curiosidades sobre sua cultuada obra, revelando detalhes e informações interessantes sobre os pensamentos de Dario Argento, através de uma longa entrevista com o diretor. Muitos nomes importantes e conhecidos do mundo do Horror deram suas opiniões como os diretores John Carpenter, George Romero e William Lustig, além do técnico em efeitos especiais Tom Savini, e os atores Michael Brandon (de “Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza”), Jessica Harper (“Suspiria”), Piper Laurie (“Trauma”), sua ex-esposa Daria Nicolodi e suas filhas Asia e Fiore Argento. Outras pessoas que também deram seus depoimentos foram o cantor de rock Alice Cooper, o biógrafo Alan Jones, o produtor Claudio Argento, a escritora Maitland McDonagh, e os compositores Claudio Simonetti e Keith Emerson (esse falando de sua experiência em criar a trilha sonora macabra de “Mansão do Inferno”).

Foram exibidas várias sequências de seus filmes como “Prelúdio Para Matar”, “O Gato de Nove Caldas”, “Suspiria”, “Phenomena”, “Trauma”, “Dois Olhos Satânicos”, “A Mansão do Inferno”, além de cenas dos bastidores de “Terror na Ópera”, um filme que tem em sua trama central uma jovem com agulhas enfiadas sob os olhos para que não pudesse fechá-los, sendo obrigada a ver cenas de profundo horror, numa característica que sempre foi a metáfora do cinema de Dario Argento.

Entre os assuntos abordados na obra do diretor italiano, foi comentado o fato que em seus filmes a maioria dos assassinatos brutais são cometidos contra as mulheres, e que se isso não seria uma característica misógina de Argento, fato logo negado por ele e por todos que trabalham a sua volta. Foi também destacada a preferência do diretor pelo resultado visual de suas imagens fortes em relação à própria atuação do elenco, revelando até que não é de sua preferência a interação com os atores, apesar de sempre tratá-los bem. Ele diz que as filmagens são a parte mais desgastante de todo o trabalho, pois precisa comandar uma grande quantidade de pessoas, e ele sempre deu muita importância em sua vida para os momentos de solidão e reflexão, onde através de experiências em sua personalidade sombria obteve muitas ideias que se transformaram em filmes, pois o cinema permitia entrar na dimensão dos sonhos ou pesadelos.          

 

“Uma vez você tendo assistido, você nunca mais se sentirá novamente seguro na escuridão.”

 

Suspiria” (Suspiria, 1977) – artigo # 262

data: 27/06/04 – avaliação: 8 (de 0 a 10)

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(postado em 24/11/05)

 

Suspiria” (Suspiria / Suspiria – In den Kralen des Bosen, Itália / Alemanha, 1977). Seda Spettacoli. Duração: 98 minutos. Direção de Dario Argento. Roteiro de Dario Argento e Daria Nicolodi, baseados no livro “Suspiria de Profundis”, de Thomas De Quincey (não creditado). Produção de Claudio Argento. Produção Executiva de Salvatore Argento. Fotografia de Luciano Tovoli. Música de Dario Argento e do grupo de rock progressivo Goblin, formado por Agostino Marangolo, Massimo Morante, Fabio Pignatelli e Claudio Simonetti. Edição de Franco Fraticelli. Desenho de Produção de Giuseppe Bassan. Efeitos Especiais de Germano Natali. Elenco: Jessica Harper (Suzy Bannion), Stefania Casini (Sara), Flavio Bucci (Daniel), Miguel Bosé (Mark), Barbara Magnolfi (Olga), Susanna Javicoli (Sonia), Eva Axén (Patty Hingle), Rudolf Schundler (Prof. Milius), Udo Kier (Dr. Frank Mandel), Alida Valli (Srta. Tanner), Joan Bennett (Madame Blanc), Jacopo Mariani (Albert), Giuseppe Transocchi (Pavlo), Renato Scarpa (Prof. Verdegast), Margherita Horowitz, Fulvio Mingozzi, Franca Scagnetti, Serafina Scorceletti.





Malditas Aranhas! (Eight Legged Freaks, EUA, 2002)

A década de 1940 foi marcada pela paranóia nuclear motivada por objetivos bélicos na condução principalmente da “Guerra Fria”, surgida após a Segunda Guerra Mundial entre as potências Estados Unidos e União Soviética. Esse período conturbado da humanidade inspirou significativamente o exercício da imaginação dos roteiristas de cinema, que a partir dos anos 50 começaram a lançar um sub-gênero do cinema de horror e ficção científica denominado de “Big Bug”, ou “Inseto Gigante”. As histórias basicamente envolviam contaminações de insetos por elementos tóxicos transformando-os em monstros horrendos ou “cientistas loucos” em meio às suas criações bizarras ameaçando a humanidade. E introduziam como principais protagonistas os mais diferentes insetos, entre formigas, aranhas, gafanhotos, escorpiões e vespas, que de pequenos e aparentemente inofensivos, transformavam-se em criaturas macabras gigantescas, alteradas pela exposição à elementos radiativos que atacavam suas estruturas genéticas agindo diretamente no aumento desproporcional de seus tamanhos.
Os filmes mais representativos dessa fase incluem “O Mundo em Perigo” (Them!, 1954), de Gordon Douglas, sobre formigas gigantes, e “Tarantula” (1955), dirigido por Jack Arnold, sobre uma aranha que acidentalmente cresce a uma altura de 30 metros devido ao contato com um hormônio de crescimento de uma fórmula desenvolvida por um cientista que também se transformou num mutante grotesco por causa da mesma solução química. O enorme inseto passa então a aterrorizar a população do Arizona até ser abatido pelas bombas dos caças da força aérea americana.
Os filmes de aranhas gigantes e mais especificamente este último são a referência básica de inspiração para a moderna produção “Malditas Aranhas!” (Eight Legged Freaks), que entrou em cartaz nos cinemas brasileiros em 16/08/02. O filme é produzido por Dean Devlin e Roland Emmerich com um orçamento de US$ 30 milhões, que é pouco se comparado às suas outras super produções como “O Patriota”, “Godzilla” e “Independence Day”, mas o suficiente para uma demonstração de magníficos efeitos especiais e muito dinheiro quando comparado aos filmes “B” da década de 50. A direção é do novato Ellory Elkayem que também assina o roteiro em parceria com Jesse Alexander. E o elenco principal é igualmente desconhecido com exceção de David Arquette (da série “Pânico”, de Wes Craven).
“Malditas Aranhas!” é uma paródia dos antigos filmes fantásticos com insetos gigantes dos anos 50, nesse caso investindo na atuação de gigantescas aranhas que aterrorizam uma pequena cidade mineira do interior dos Estados Unidos chamada “Prosperity”, no Arizona. Um caminhão causa um acidente ao se desviar do atropelamento de um coelho na estrada e descarrega parte de sua carga tóxica que desliza e atinge uma lagoa contaminando suas águas. Após uma semana começam a surgir gafanhotos mutantes infectados no local, os quais são então utilizados como alimento para uma criação de aranhas exóticas mantidas por um velho fazendeiro esquisito e os aracnídeos aos poucos vão tornando-se gigantes até que mais uma semana depois seus tamanhos chegam a superar o de um homem para os casos dos machos, e quase se igualar ao de um ônibus no caso da rainha fêmea (carinhosamente chamada de “Consuela”, originária do Chile). Uma vez gigantes, cerca de uma centena de aranhas se deslocam até a cidade invadindo e aterrorizando a população, obrigando os sobreviventes a se encurralarem num shopping center. Para combatê-las surgem o “herói” Chris McCormack (Arquette), um ex-morador de Prosperity que retorna após dez anos para se apossar de uma mina de ouro e gás metano pertencente ao seu pai falecido, e a bela xerife Sam Parker (Kari Wuhrer), por quem Chris é apaixonado. Outros personagens da trama incluem o prefeito corrupto do local, Wade (Leon Rippy), que tentava vender ilegalmente a mina, seu enteado motoqueiro Bret (Matt Czuchry), a namorada dele e filha da xerife, Ashley Parker (Scarlett Johansson), além do típico adolescente “nerd” e estudioso de aranhas Mike Parker (Scott Terra), também filho da xerife, do dono maluco de uma rádio pirata local, Harlan (Doug E. Doug), que insiste em denunciar em seu microfone supostas conspirações governamentais envolvendo extraterrestres, e finalmente do assistente atrapalhado da xerife, Pete (Rick Overton).
As curiosidades, referências, homenagens e destaques são muitos e constituem um dos principais atrativos do filme. “Malditas Aranhas” iria se chamar originalmente “Arac Attack”, porém como a pronúncia em inglês se confundia com algo como “Ataque do Iraque”, o título foi substituído, pois principalmente após os atentados terroristas contra os Estados Unidos no fatal dia 11/09/01, os produtores procuraram evitar qualquer tipo de lembrança ou relacionamento com o terrorismo para não espantar o público dos cinemas. A cena onde os habitantes de Prosperity se refugiam desesperadamente num shopping lembra “Despertar dos Mortos” (Dawn of the Dead 1978) de George Romero, onde os sobreviventes de uma invasão de zumbis assassinos se isola também num shopping tentando se salvarem de um ataque maciço de mortos-vivos. A invasão das aranhas na cidade lembra uma cena similar de “Tropas Estelares” (Starship Troopers, 1998) de Paul Verhoeven, onde um grupo de soldados se isola num forte abandonado no deserto de um planeta, e são surpreendidos por uma invasão descomunal de insetos gigantes.
Uma sequência muito engraçada de “Malditas Aranhas!” é quando um grupo de aracnídeos invade uma loja e vão matando pessoas e animais pelo caminho e uma das aranhas ataca a cabeça de um alce pendurada como troféu na parede e após comer um pouco de matéria inanimada, acaba cuspindo em reprovação numa cena hilariante. Outro grande destaque é quando um grupo de aranhas ataca e persegue ferozmente vários motoqueiros pelas areias do deserto, saltando com grande agilidade e velocidade que chega até a superar as motos transformando seus condutores em vítimas fatais de suas garras. Todas as cenas com as aranhas são muito realistas, graças aos modernos efeitos especiais, e basicamente vemos cinco categorias de aracnídeos com as que andam no teto e paredes, as que capturam suas presas em buracos escondidos no chão, as saltadeiras com incrível agilidade nos pulos, as que empurram as coisas à sua frente, e as terríveis e mais perigosas que imobilizam as vítimas com suas teias para comê-las vivas depois no ninho da rainha. Os ruídos engraçados que as aranhas emitem são criação da equipe de produção, e esses estranhos zunidos acabaram causando um tom humorístico nas cenas em que apareciam.
Várias foram as homenagens como por exemplo o papagaio do criador das aranhas exóticas, que vivia repetindo “Eu vejo pessoas mortas”, numa citação ao filme “O Sexto Sentido” (The Sixth Sense, 1999) de M. Night Shyamalan, passando por “Sexta-Feira 13” com um dos sobreviventes da chacina das aranhas tentando se defender do ataque se fantasiando de Jason Voorhees com a máscara de hóquei, e envolvendo até o herói “Homem-Aranha” num inteligente trocadilho proferido por um dos personagens. Outra homenagem notável foi para o clássico da ficção científica “Vampiros de Almas” (Invasion of the Body Snatchers, 1956) de Don Siegel, na cena onde o personagem Chris McCormack grita em desespero para um telefone de emergência na tentativa de alertar o mundo que sua cidade estava sendo invadida por aranhas gigantes, “Eles estão aqui!”, numa referência à paranóia da invasão comunista dos anos 50, e também na cena onde aparecem os cadáveres das vítimas das aranhas presos em casulos de teias, lembrando as “vagens” alienígenas do mesmo filme. Ainda teve uma outra curiosidade interessante que foi uma citação ao assassino Lee Harvey Oswald, que supostamente matou o presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy em 1963, numa cena em que o assistente da xerife está separando algumas armas para enfrentar o ataque das aranhas e encontra o rifle do famoso assassino perdido no meio de um armário.
Enfim, “Malditas Aranhas!” é super divertido, com muita ação, correrias, perseguições, aranhas enormes, cenas de humor bem colocadas e sutis, além de muitas citações, referências e homenagens. É claro que desfilam todos os clichês característicos de filmes com temática similar, com personagens banais, diálogos óbvios, situações previsíveis, porém nota-se claramente que a intenção é homenagear e principalmente divertir, com uma típica história de invasão de insetos gigantes em mais um filme do sub-gênero “Big Bug” que foi largamente explorado pelo cinema há 50 anos atrás, porém dessa vez moderno e com um orçamento infinitamente superior, além de muitas aranhas gigantes, monstruosas e famintas...

“Malditas Aranhas!” (Eight Legged Freaks, Estados Unidos, 2002) – avaliação: 8,5 (de 0 a 10)
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(postado em 22/11/05)