O Raio Invisível (The Invisible Ray, EUA, 1936, PB)


A carreira do grande ator Boris Karloff (falecido em 1968), imortalizado por interpretar a criatura de Frankenstein nos clássicos da produtora Universal das décadas de 30 e 40, foi também marcada por inúmeras participações em filmes de ficção científica e horror onde atuava como um “cientista louco”, ou seja, alguém cujas descobertas científicas tornavam-se de alguma forma uma ameaça para a sociedade. O lançamento de “O Raio Invisível” (The Invisible Ray) em 1936, foi um dos primeiros resultados cujas motivações do enredo serviram de modelo para toda uma enxurrada posterior de filmes similares do período pós Segunda Guerra Mundial. Portanto, “O Raio Invisível” pode ser considerado um dos precursores do gênero “mad scientist” do cinema de horror. Foi importante também por ser uma das poucas obras a reunir Karloff e o também ícone do gênero Bela Lugosi, imortalizado por ser um dos principais Dráculas do cinema em todos os tempos, juntamente com Christopher Lee, fato este que já assegura sua importância e diferencial dentro do gênero.

Todo fato científico aceito atualmente, no passado atormentou muito a mente de um louco. Quem de nós, deste pequeno e jovem planeta, poderia dizer que O Raio Invisível é impossível para a ciência? O que verão agora é uma teoria desenvolvida nos meandros da ciência. Essa teoria poderá assombrar o mundo.

(Atenção: o texto a seguir contém spoilers)

Assim começa “O Raio Invisível”, onde em um poderoso telescópio especialmente criado, o cientista Dr. Janos Rukh (Boris Karloff), em seu laboratório localizado no topo de uma montanha, conseguiu capturar raios de luz do passado reconstituindo constelações de estrelas num aparelho em forma de um domo gigantesco de vidro. Esse aparelho científico, uma espécie de máquina do tempo, conseguiu reproduzir as imagens gravadas em um dos raios de luz e simular a trajetória de um misterioso meteoro que teria caído na Terra, no continente africano. O cientista sempre foi considerado como um “rebelde” pela sociedade científica tradicional e seu trabalho e teorias eram tratados com indiferença e desprezo, até que ele convidou um grupo de famosos cientistas ingleses, formado principalmente por Sir Francis Stevens (Walter Kingsford) e Dr. Felix Benet (Bela Lugosi), para presenciarem sua descoberta científica. Dessa forma, o Dr. Rukh conseguiu provar com sucesso, através da captação de um raio de luz do espaço, que em épocas muito remotas, um meteoro realmente caiu na África, próximo à Nigéria, e então ele, auxiliado pelo Dr. Benet, um dos maiores especialistas em química orgânica do mundo, decidiram formar uma expedição para localizar o meteoro, que possivelmente seria também uma poderosa fonte de elementos químicos.
Ao se separar da expedição principal, prosseguindo sozinho pelas montanhas africanas, Rukh descobriu escavando as pedras um elemento químico especial desconhecido trazido pelo meteoro, o “Radium X”, uma substância mais poderosa que o radium comum. Esse elemento, de força impressionante, é capaz de curar cegueira ou derreter montanhas com seus imponentes raios.
Mas o cientista ficou contaminado pela radioatividade do elemento que tornava-o brilhante no escuro, e descobriu o poder que estava em suas mãos, onde seu simples toque significava a morte, como percebeu ao acariciar seu cachorro de guarda levando-o instantaneamente à morte. Uma vez confuso com sua descoberta letal e para combater os efeitos dessa radioatividade luminosa com seus horríveis resultados, o Dr. Rukh se juntou novamente ao seu colega Dr. Benet recorrendo à criação de um antídoto para o seu mal. O remédio foi então preparado a partir de uma amostra do produto através das mãos experientes do químico Dr. Benet, porém com restrições, sendo de efeito temporário e com a obrigação de ingeri-lo regularmente para sempre, além da possibilidade de agora os efeitos da radiação poderem afetar a sanidade da mente do Dr. Rukh, podendo levá-lo à loucura.
E isso foi realmente o que aconteceu com o cientista. Após voltar para seu laboratório e trabalhar para o controle total do “Radium X”, conseguindo até curar a cegueira de sua velha mãe (Violet Kemble Cooper), Rukh passa a acreditar que Benet e os outros de sua equipe queriam na verdade enganá-lo roubando sua descoberta para apresentá-la em um congresso científico em Paris. Na verdade, o Dr. Benet estava utilizando o elemento químico para curar várias doenças nas pessoas, não deixando nunca de creditar ao seu colega cientista os méritos da descoberta. Porém, Rukh, ainda assim é consumido pelo ódio e sentimento de vingança pois seu cérebro foi afetado pela radioatividade e ele decidiu matar os membros da expedição científica. Primeiro simulando sua própria morte para facilitar suas ações, o Dr. Rukh começou sua vingança assassinando Sir Francis Stevens e sua esposa Lady Arabella, culminando logo depois com o próprio Dr. Benet. A cada crime cometido, ele derretia uma das estátuas da escultura “Deadly Sin”, que eram símbolos esculpidos em pedra localizados no telhado de uma grandiosa construção, onde em sua paranóia insana ele imaginava a comparação das seis estátuas com seus seis colegas da expedição.
Depois que Rukh quase matou sua própria esposa (Frances Drake), que havia se separado dele para se casar com um dos membros da expedição, o jovem Ronald Drake (Frank Lawton), sua mãe apareceu e destruiu seu antídoto, impedindo assim sua cura e alegando que seu filho havia quebrado a primeira lei da ciência ao não utilizar sua descoberta científica para o bem da humanidade. Num momento de lucidez, o cientista luminoso concordou com sua mãe e consumido pelos venenos do “Radium X”, transformou-se numa bola de fogo enquanto saltou por uma janela desabando em meio à fumaça para sua morte.

“O Raio Invisível” foi dirigido por Lambert Hillyer, um especialista em westerns e que fez somente um outro filme de horror, “Dracula’s Daughter”, também em 1936. Ele aproveitou em seu filme os mesmos cenários da conhecida ficção científica “Flash Gordon” (do mesmo ano) e utilizou também algumas cenas dos maquinários elétricos do clássico “Frankenstein” (1931). Em compensação, algumas cenas de “O Raio Invisível” também foram utilizadas mais tarde em um outro filme com Lugosi, “The Phantom Creeps” (1939). Aliás, esse recurso de utilizar cenários existentes com o objetivo de diminuir os custos de produção foi largamente explorado no cinema fantástico da época.
Os efeitos especiais, a cargo de John P. Fulton, tiveram forte influência para o sucesso do filme. A sequência passada no laboratório do Dr. Rukh, onde foi reproduzida uma batalha entre sóis e estrelas na galáxia de Andromeda como aconteceu há 750 milhões de anos luz no passado, foi considerada como uma inovação na época. Tanto é que a Universal, numa estratégia de marketing e acreditando no sucesso do filme, manteve em segredo os métodos de produção desses efeitos durante as filmagens, criando grande expectativa na imprensa cinematográfica e em todos que acompanhavam os bastidores quanto aos resultados finais.
Por curiosidade, ocorreram algumas mudanças normais no período de pré-produção. A princípio, o título original do filme seria “The Death Ray” e o personagem interpretado por Bela Lugosi seria chamado de Dr. Morceau, mudando depois para o definitivo Dr. Benet. A personagem Diane Rukh, esposa do cientista “louco” interpretado por Karloff, seria inicialmente da atriz Gloria Stuart, sendo substituída mais tarde por Frances Drake. O ator Donald Briggs estava escalado para compor um dos membros da expedição científica à África, mas foi retirado do elenco. O diretor seria Stuart Walker, porém devido ao fato dele descordar de alguns detalhes do roteiro e do curto tempo disponível para filmar, acabou sendo substituído por Lambert Hillyer.
Outro fato bem curioso do filme, e só observado por espectadores mais atentos, é uma cena onde o exímio químico Dr. Benet (Lugosi), acampado na África à procura do meteoro radioativo, fazia experiências no povo local com o uso dos raios solares. Num determinado momento ele utilizou um bebê negro africano doente e comprovou a reação positiva da criança ao seu tratamento, mencionando num relatório a um colega cientista que a “criatura” obtivera a cura através de suas descobertas. Não foi um erro de tradução e ele realmente utilizou o termo “creature” (em inglês) ao se referir à criança, numa clara expressão de indiferença e comparação do bebê a um simples animal de uma experiência. Os pobres nativos africanos podiam ficar sem essa arrogância dos nobres ingleses imperialistas...

“O Raio Invisível” foi um dos poucos filmes em que os “monstros sagrados do Horror” Boris Karloff e Bela Lugosi contracenaram juntos, algo raro e um fator decisivo para manter seu interesse. Os outros filmes foram “The Gift of Gab” (34), “The Black Cat” (34), “The Raven” (35), “Son of Frankenstein” (39), “Black Friday” (40), “You’ll Find Out” (40) e “The Bodysnatcher” (45). Em “O Raio Invisível”, Lugosi teve um papel menor (Dr. Benet) em relação ao companheiro Karloff (Dr. Rukh), porém nem por isso menos importante. O Dr. Benet era um cientista humanitário e racional, em contraste com seu opositor Dr. Rukh, cuja personalidade foi se desintegrando com os efeitos nocivos do elemento químico do meteoro, até culminar num assassino, ou melhor, num “cientista louco”. Tanto é que, no duelo entre os cientistas, Lugosi acabou morrendo literalmente nas mãos radioativas de Karloff.
Com o sucesso desse filme, considerado um precursor e imitado diversas vezes nos anos seguintes, a produtora Universal tinha a intenção de repetir a dose logo em seguida com mais uma outra produção envolvendo Karloff e Lugosi em tema similar. Mas, em vez de um homem assassino radioativo como em “O Raio Invisível”, Karloff faria o papel de uma criatura elétrica. O roteiro, baseado na história “The Electric Man” de H. J. Essex, Sid Schwartz e Len Golos, foi preparado com o título “The Man in the Cab”, porém a produção foi abandonada numa decisão da Universal com base no crescente desinteresse do público, que já estava se desgastando com os filmes do gênero no final dos anos 30. Esse projeto foi somente retomado em 1940 e filmado com o título americano de “Man Made Monster” (na Inglaterra, “The Electric Man”), com Lionel Atwill e Lon Chaney Jr. nos papéis que seriam de Karloff e Lugosi, respectivamente, constituindo-se em mais uma pérola do cinema fantástico, sempre presente nas mais diversas literaturas de referência do gênero.

Não é necessário falar muito de O Raio Invisível, pois um filme em preto e branco dos anos 30, da produtora Universal, responsável pelos principais personagens de Horror do cinema (Fantasma da Ópera, Monstro de Frankenstein, Drácula, Múmia, Lobisomem, Monstro da Lagoa Negra, etc.), que traz em seu elenco Boris Karloff e Bela Lugosi, e num roteiro de ficção científica e horror no melhor estilo “cientista louco”, só poderia trazer créditos mais do que suficientes para uma verdadeira sessão de nostalgia do mais puro entretenimento. Só nos resta, na condição de fãs e produtores, reverenciar, cultuar, apreciar, divulgar e imortalizar todo esse universo para toda a eternidade.

“O Raio Invisível” (The Invisible Ray, 1936) – avaliação: 8,5 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com.br
(postado em 07/12/05)

O Raio Invisível (The Invisible Ray, Estados Unidos, 1936). Universal. Preto e Branco. Duração: 79 minutos. Lançado no mercado brasileiro de vídeo VHS pela Continental. Direção de Lambert Hillyer. Produção de Carl Laemmle. Roteiro de John Colton, baseado na história de Howard Higgin e Douglas Hodges. Fotografia de George Robinson. Música de Franz Waxman. Edição de Bernard Barton. Efeitos Especiais de John P. Fulton. Elenco: Boris Karloff, Bela Lugosi, Frances Drake, Frank Lawton, Walter Kingsford, Beulah Bondi, Violet Kemble Cooper, Nydia Westman, Daniel Haines, George Renavent, Paul Weigel, Adele St. Maur, Frank Reicher, Lawrence Stewart, Inez Seabury, Ernie Adams, Walter Miller.


A Maldição do Altar Escarlate (Curse of the Crimson Altar, EUA / Inglaterra, 1968)



... e drogas deste tipo podem produzir as mais complexas alucinações e sob sua influência é possível por hipnose induzir uma pessoa a fazer coisas que normalmente ela não faria. – trecho de um artigo de um jornal médico

A exemplo de “Morte Para Um Monstro” (1965), com o imortal ator Boris Karloff em história inspirada em conto do mestre da literatura Howard Phillips Lovecraft, um outro filme da mesma época, A Maldição do Altar Escarlate” (Curse of the Crimson Altar, 1968), também reuniu novamente essas magistrais personalidades do horror, com a vantagem de ainda somarem-se a eles um outro ícone do gênero, Christopher Lee, o “Drácula” da produtora inglesa “Hammer”, e a atriz Barbara Steele, musa dos anos 60. Apesar desses ingredientes, o resultado não foi um grande filme dentro da história do fantástico, porém certamente é obrigatório para todos os fãs do estilo em qualquer época, principalmente pela presença desses grandes atores, o que por si só já torna a obra uma raridade que deve ser sempre reverenciada.
“A Maldição do Altar Escarlate” foi também produzido pela mesma “American International Pictures”, produtora de “Morte Para Um Monstro” e responsável por outras diversas pérolas do horror nas décadas de 60 e 70, muitas delas obras adaptadas de histórias de Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft, como por exemplo as outras duas versões lovecraftianas do mesmo período, “O Castelo Assombrado” (The Haunted Palace, 1963), dirigido e produzido por Roger Corman e com Vincent Price e Lon Chaney Jr. numa história inspirada em “The Case of Charles Dexter Ward”, e “O Altar do Diabo”, novamente produzido por Corman e com Dean Stockwell e Sandra Dee numa história baseada em “The Dunwich Horror”.

(Atenção: o texto a seguir contém spoilers)

Um comerciante de antiguidades raras, Robert Manning (interpretado por Mark Eden), recebeu uma carta de seu sócio e irmão Peter, timbrada de uma pousada da cidade de Greymarsh, para onde ele havia viajado à procura de artefatos para seu antiquário, dizendo que estaria retornando pois não estava bem de saúde. Passados alguns dias e não tendo o retorno de seu irmão, Manning decidiu então ir até a pequena cidade onde coincidentemente, seus ancestrais viveram por várias gerações. Porém, chegando lá, ao se informar com o proprietário da pousada, uma antiga construção chamada Craxted Lodge, o senhor J. D. Morley (interpretado pelo grande Christopher Lee), o recebeu muito bem e avisou que seu irmão nunca havia se hospedado ali. Desconfiado da informação, o comerciante decidiu ficar e investigar melhor o paradeiro de Peter, sendo convidado de Morley para ficar na pousada.
Paralelamente a isso, Manning conheceu a bela sobrinha do proprietário, Eve Morley (Virginia Wetherell), numa festa típica dos anos 60 que ocorria na pousada, regada a muita bebida, danças e mulheres semi nuas. E naquela mesma noite, por coincidência também, os habitantes de Greymarsh celebrariam um festejo folclórico da região, para lembrar a morte no passado de uma bruxa verdadeira que praticava feitiçaria há trezentos anos atrás, e que morreu executada impiedosamente numa fogueira, prática comum naquele período da história da humanidade. Lavínia Morley (interpretada por Barbara Steele), era a bruxa de Greymarshe, a mãe dos mistérios, a guardiã do segredo negro, conhecida pela prática de magia oculta contra os aldeões do vilarejo, e que foi assassinada agonizando viva nas chamas da inquisição.
Manning, através de suas investigações na cidade e ajudado pela jovem Eve, conheceu também um estudioso e grande autoridade em bruxaria, o professor John Marsh (interpretado pelo magnífico Boris Karloff, em cadeira de rodas) que lhe revelou que o sinistro senhor Morley era um descendente direto da bruxa Lavínia. A partir daí, ele passou a ter vários pesadelos onde participava de rituais satânicos com a presença da bruxa negra e outras estranhas pessoas fantasiadas, que na verdade representavam figuras mitológicas pagãs. Eles obrigavam-no a assinar com o sangue de um animal sacrificado um livro obscuro, e que com a sua recusa em fazê-lo, era atacado com um punhal. O pesquisador, sempre em companhia de seu mordomo mudo Basil, revelou também à Manning que na verdade a feiticeira Lavínia havia amaldiçoado a todos os seus acusadores e responsáveis por sua morte na fogueira e que esses aldeões e todos os seus descendentes seriam mortos em circunstâncias misteriosas com fins dolorosos e violentos, o que se comprovou na história da cidade. E que ele, Robert Manning, era o último descendente ainda vivo de Jonathan Manning, um dos principais acusadores de Lavínia. O comerciante após essa revelação, acabou chegando à conclusão que seu irmão poderia estar realmente morto sendo vítima de algum desses rituais de magia negra e descobriu que ninguém se lembrava dele pois ao chegar na cidade, ele usou um nome fictício, Dennis Vosper, com o objetivo de negociar melhor suas compras de antiguidades. Manning então decidiu mesmo assim a permanecer em Greymarshe e denunciar às autoridades policiais os macabros eventos que estavam sendo realizados.
Continuando suas investigações, Manning descobriu uma passagem secreta em seu quarto na pousada de Morley, a qual levava a um ambiente oculto que era o mesmo local de seus pesadelos onde se realizavam os rituais de feitiçaria com a presença da bruxa Lavínia. Explorando o quarto secreto, ele descobriu também o cadáver do estranho mordomo da pousada, Elder (Michael Gough), que igualmente era descendente de um dos acusadores de Lavínia no passado. Juntamente com a bela Eve, eles descobriram mais fatos sobre a bruxa Lavínia, recorrendo também à ajuda de um vigário (Rupert Davies), pesquisando nos registros antigos da paróquia local. O julgamento fatal da bruxa foi em 25 de janeiro de 1652 e todos os acusadores descritos nos documentos da igreja tinham os mesmos nomes da lista encontrada no livro negro que estava no quarto oculto e o qual as pessoas do ritual obrigavam Manning a assinar em seus pesadelos, tentando selar o seu destino.
O senhor Morley na verdade estava obcecado na missão de se vingar de todos os descendentes dos aldeões do passado que queimaram Lavínia na estaca, e sua intenção passou também a de assassinar sua sobrinha devido ao fato dela estar ajudando Manning em suas investigações. Percebendo que a jovem Eve corria perigo e indo ao seu encontro, Manning foi capturado num descuido e obrigado a testemunhar um rito oculto onde a jovem seria sacrificada e oferecida ao reino das trevas. Entretanto, o professor Marsh apareceu nesse momento e conseguiu salvar a garota no altar do sacrifício, disparando um revólver e ferindo uma das mãos de Morley, que estava prestes a cravar um punhal em sua sobrinha. Em sua fuga o senhor Morley incendiou o local e tentou escapar pelo telhado, enquanto o professor, seu ajudante mudo e o casal de jovens fugiam também das chamas. No telhado da pousada, Morley acabou transformando-se ao final na imagem da bruxa Lavínia enquanto era consumido pelas chamas ardentes do fogo que destruía a pousada (infelizmente, como era de se esperar, o inevitável final feliz prevaleceu novamente...).

Boris Karloff já estava bastante idoso e doente no fim dos anos 60, atuando em “Na Mira da Morte” (Targets, 1968), dirigido por Peter Bogdanovich, e logo depois filmando “A Maldição do Altar Escarlate”, esse que foi um de seus últimos filmes da longa carreira de sucesso, que incluiu clássicos absolutos como “Frankenstein” (1931) e “A Múmia” (1933), além de inúmeras participações em filmes de outros gêneros, totalizando aproximadamente 140 películas. Após participar de “A Maldição do Altar Escarlate”, onde filmou boa parte das cenas numa cadeira de rodas devido a uma séria crise respiratória, ele ainda reuniu suas últimas energias e atuou em outros quatro filmes mexicanos que foram todos lançados no início dos anos 70, após sua morte em 1969.
O inglês Christopher Lee fez parte de uma geração impagável de astros do horror, juntamente com Peter Cushing, Vincent Price, John Carradine e Donald Pleasence. Ele interpretou de tudo em sua vasta carreira, desde a criatura de Frankenstein no clássico inglês da Hammer, “A Maldição de Frankenstein” (1957), a múmia em “The Mummy” (1959), e culminando principalmente no famoso conde vampiro em “O Vampiro da Noite” (1958), todos dirigidos por Terence Fisher. Sendo “Drácula” o personagem que ele interpretou inúmeras vezes mais, tornando-se juntamente com o lendário Bela Lugosi das décadas de 30 e 40, os verdadeiros “vampiros” do cinema. Christopher Lee pode ainda ser visto rapidamente como um juiz em uma ponta no filme “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” (1999), de Tim Burton, que claramente homenageou o ator numa história típica do horror do passado. E também os diretores Peter Jackson e George Lucas homenagearam o veterano astro fornecendo a ele os papéis do mago Saruman e Conde Dookan em “O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel” e “Star Wars: Episódio II – Ataque dos Clones”, respectivamente.
Uma das atrizes mais ligadas ao horror na década de 60, a inglesa Barbara Steele ganhou notoriedade no gênero após sua aparição no clássico italiano “A Máscara de Satã” (Black Sunday, 1960), do especialista Mario Bava. A partir daí, ela estrelou inúmeras películas americanas e principalmente européias, produções da Itália e Espanha, participando até de um filme do escatalógico diretor canadense David Cronenberg em início de carreira, “Calafrios” (Shivers / The Parasite Murders, 1975).
O roteiro é levemente inspirado, porém não creditado, em história do escritor Howard Phillips Lovecraft, que foi juntamente com Edgar Allan Poe, dois dos maiores autores de horror do século XX. Criador dos famosos “Mitos de Cthulhu”, que descreve a existência de ancestrais criaturas grotescas e indizíveis de tempos imemoriais, que habitavam o planeta num passado remoto, e que aguardam silenciosamente a oportunidade de retomarem seu poder sobre a humanidade, Lovecraft teve inúmeras de suas histórias emprestadas ao cinema, que só o descobriu para as telas a partir da década de 60. Ele e Poe somam-se aos modernos Clive Barker e Stephen King, como os maiores escritores de literatura de horror de todos os tempos, e também os que mais contribuíram para o cinema com suas macabras histórias.
A fotografia de “A Maldição do Altar Escarlate” é repleta de efeitos psicodélicos típicos dos anos 60, com um colorido exagerado, principalmente nas cenas dos pesadelos do comerciante de antiguidades com os rituais envolvendo a bruxa negra Lavínia. Várias cenas são carregadas de erotismo, como na festa da pousada onde diversas jovens dançavam quase nuas e principalmente quando uma delas descarregava duas garrafas de champanhe em seu corpo enquanto vários homens bebiam o líquido que escorria por suas belas pernas. E não faltam também os elementos característicos do horror da época, como o clima sombrio do cemitério ao lado da pousada, em meio aos túmulos de pedra e árvores fantasmagóricas, a sala dos rituais de magia negra com o altar do sacrifício e repleta de instrumentos de tortura, e o próprio estilo gótico da casa, cercada de móveis e artefatos antigos, levando-nos a um ambiente macabro de bruxaria e ocultismo. A trilha sonora, principalmente dos letreiros iniciais, com uma música fúnebre de órgão, ajudava intensamente para um clima mórbido de horror.
O filme aproveita a oportunidade e ainda faz uma justa homenagem ao imortal ator Boris Karloff, numa sequência de diálogos entre o comerciante Manning e a jovem Eve Morley, quando ele estava ainda conhecendo a pousada. A jovem dizia a ele “...essa casa parece de filme de horror...”, e ele completava ironicamente “...como se Boris Karloff fosse aparecer...”.
Outra curiosidade interessante do roteiro é uma explicação logo no início, onde Manning fala para sua secretária da loja de antiguidades a respeito de alguns artefatos raros que seu irmão Peter havia enviado, e que foram obtidas em sua viagem à Greymarshe. Entre estes objetos havia um punhal falso cuja lâmina cortante era sustentada por um sistema de molas, fazendo com que se escondesse na bainha quando pressionado contra alguma coisa. Ele era utilizado na época da inquisição para condenar pessoas a queimar na fogueira acusadas de práticas de bruxaria. Diziam que se apunhalassem uma pessoa e não saísse o sangue era porque tratava-se de alguém envolvido com magia negra. E os inquisidores da época utilizavam os punhais falsos para provar atos de feitiçaria e condenar pessoas inocentes a morrerem queimadas vivas na estaca. Isso foi um fato real da história em um período cruel da humanidade, e muita gente inocente morreu vítima desse tipo de atrocidade.
“A Maldição do Altar Escarlate” é mais um filme muito divertido de uma época deliciosa do cinema de horror. Época que ainda existiam Boris Karloff (mesmo cansado e em fim de carreira) e Christopher Lee (ainda em grande momento nesse período). Época de pouco sangue jorrado aleatoriamente nas telas e mais histórias envolvendo as platéias (mesmo que com seus inocentes e quase sempre óbvios finais felizes...). Época de um estilo próprio do horror, bem diferente das podreiras do cinema moderno, que, é claro, também tem suas características que o tornam “fantástico”, tendo por exemplo “The Evil Dead” (1982), como um de seus expoentes máximos. Época que já passou, porém deve ser revista sempre, para nunca esquecermos o seu significado e importância para o gênero como entretenimento.

“A Maldição do Altar Escarlate” (Curse of the Crimson Altar, 1968)
blog: www.juvenatrix.blogspot.com.br
(postado em 07/12/2005)

A Maldição do Altar Escarlate (Curse of the Crimson Altar / The Crimson Cult / The Crimson Altar / The Crimson Curse, Estados Unidos / Inglaterra, 1968-70). Tigon British / American International Pictures. Duração: 87 minutos. Lançado no mercado brasileiro de vídeo VHS pela Globo. Direção de Vernon Sewell. Produção de Tony Tenser. Roteiro de Mervyn Haisman e Henry Lincoln, inspirado na história “Os Sonhos Na Casa Das Bruxas” de H. P. Lovecraft. Fotografia de John Coquillon. Música de Peter Knight. Edição de Howard Lanning. Elenco: Boris Karloff, Christopher Lee, Barbara Steele, Rupert Davies, Michael Gough, Mark Eden, Virginia Wetherell, Rosemarie Reede, Derek Tansey.







Planeta Proibido (Forbidden Planet, EUA, 1956)



Produzido em 1956, durante a década de ouro do cinema fantástico, e considerado um clássico absoluto da Ficção Científica, Planeta Proibido (Forbidden Planet) deve ser homenageado e reverenciado sempre. O filme assinalou um marco histórico no cinema do gênero, com produção da Metro Goldwyn Mayer (MGM) e apresentou um roteiro original que oferecia um futuro onde a humanidade se aventura na vastidão do Universo através de naves espaciais que viajam com velocidades superiores a da luz. Apesar de um tema já largamente utilizado na literatura há mais de vinte anos antes, o assunto era ainda um pouco inexplorado pelo cinema conservador, que continuava estacionado em aventuras não muito distantes de nosso planeta, preferindo os nossos vizinhos Lua e Marte.
A história, de autoria de Irving Block e Allen Adler, é fortemente inspirada no drama A Tempestade, de William Shakespeare. Nele, uma embarcação encalha numa ilha encantada (no filme, o cruzador interplanetário C-57D aterriza no planeta Altair IV). Nessa ilha, um mago chamado Prospero vivia com sua filha Miranda e a criada Ariel (no filme, o filólogo Dr. Morbius com sua filha Altaira e o ajudante Robby, um robô especial). No drama de Shakespeare havia ainda o escravo de Prospero, Caliban, que no filme corresponderia ao invisível “Monstro do Id”.
O roteiro ficou a cargo de Cyril Hume, que havia trabalhado em filmes do personagem “Tarzan”; a direção foi de Fred McLeod Wilcox, um aficcionado por astronomia e que havia consultado cientistas e centros de engenharia e astronáutica por três meses; e a produção ficou por conta de Nicholas Nayfack.


(Atenção: o texto a seguir contém spoilers)

O filme começa com a chegada do cruzador C-57D ao planeta Altair IV, a serviço dos “Planetas Unidos”, com o objetivo de resgatar um grupo de cientistas colonizadores que lá haviam aterrissado vinte anos antes com a nave espacial Belerofonte, e que nunca haviam dado notícias à Terra. São então estranhamente recebidos com insatisfação pelo Dr. Edward Morbius (Walter Pidgeon) e sua filha Alta (Anne Francis), os únicos seres humanos ainda vivos, e que eram auxiliados pelo fantástico robô Robby, um dos mais famosos robôs do cinema, juntamente com o clone de Maria de Metrópolis (1926), o imponente Gort de O Dia em que a Terra Parou (1951) e o cômico robô da série de TV Perdidos no Espaço (1965-68).
O Dr. Morbius informa então ao Comandante da expedição terráquea, J. J. Adams (Leslie Nielsen), que os outros exploradores da Belerofonte haviam morrido tragicamente devido à uma força invisível e misteriosa, e que somente ele e sua filha eram imunes a essa força. Com a inexplicável insistência do Dr. Morbius em não deixar o planeta e requerer a retirada da expedição recém chegada, além da morte súbita e violenta de um dos oficiais com causas desconhecidas, o Comandante Adams decide ficar e investigar melhor o planeta proibido.
Ele então descobre os segredos de uma antiga e super desenvolvida civilização, os Krell, que vivia em Altair IV num passado muito longínquo. Essa raça conseguiu desenvolver um incomensurável poder mental que eliminou a fome, dor, medos e guerras, mas que inevitavelmente os levou também à extinção. Com o desejo do Dr. Morbius em permanecer no planeta estudando a incrível tecnologia Krell, ele torna-se inconscientemente o responsável pelo surgimento do “Monstro do Id”, uma força invisível e destruidora que é uma projeção dos medos e sentimentos negativos do cientista, que se manifestam numa parte desconhecida do subconsciente de sua mente. Essa força terrível foi a causadora das mortes de seus companheiros anos antes e agora é a fonte ameaçadora dos novos visitantes.
Mas, como sempre, um final feliz e inevitável reserva a fuga intacta do cruzador de Altair IV, com o Comandante Adams levando a jovem e belíssima Altaira, principiando um previsível romance, e deixando o Dr. Morbius no planeta, que explode junto com todo o conhecimento Krell e o “Monstro do Id”.

Sobre os atores principais: Walter Pidgeon (Dr. Morbius) foi o Almirante Nelson do filme Viagem ao Fundo do Mar (1961), que originou a série homônima da televisão poucos anos depois, com criação do lendário produtor Irwin Allen. Leslie Nielsen (Comandante Adams) é hoje bastante conhecido por seus filmes de comédia como a série Corra que a Polícia vem aí (1988). Anne Francis (Altaira) estrelou vários episódios de séries de TV como Além da Imaginação e Os Invasores.
Quanto aos atores coadjuvantes: Warren Stevens (Tenente Doc Ostrow), que morre no filme ao tentar utilizar um aparelho mental dos alienígenas Krell, participou de inúmeras séries de TV dos anos 1960, sendo um rosto bastante conhecido por Jornada nas Estrelas, Viagem ao Fundo do Mar, Perdidos no Espaço e Terra de Gigantes. Richard Anderson (Chefe Quinn), que também morre no filme sendo o primeiro oficial assassinado pelo “Monstro do Id”, foi o memorável Oscar Goldman da série de TV Cyborgue, o Homem de Seis Milhões de Dólares, além de participar também de outras nostálgicas séries como Os Invasores e O Fugitivo. Earl Holliman (o cozinheiro), que fez o papel cômico do filme, estrelou o episódio piloto de Além da Imaginação, “Onde Estão Todos?”, de 1959, além também de ser um marinheiro no elenco fixo da série Viagem ao Fundo do Mar.
O robô Robby representava a síntese harmoniosa entre o progresso científico e o bem social. Cordial, ele tinha em seu programa as famosas três leis da robótica, criadas pelo escritor Isaac Asimov, e sua diretriz principal era a preservação e proteção da vida humana. Manipulado por um ator de baixa estatura que tinha que suportar os 32 quilos da roupagem do robô, a maior parte deles concentrados na cabeça, Robby tornou-se uma celebridade e foi requisitado para atuar em outro filme da MGM, The Invisible Boy (1957), que infelizmente não teve sucesso e o robô foi então encostado nos estúdios, vindo somente a participar como convidado de algumas séries de televisão como Perdidos no Espaço, Além da Imaginação e A Família Addams.
O cruzador interplanetário C-57D é uma das naves espaciais mais tradicionais do cinema, com seu formato típico de disco-voador. A cena em que se aproxima da superfície de Altair IV e aterriza lentamente no deserto do planeta é simplesmente antológica, num dos momentos mais memoráveis da história do cinema de Ficção Científica. A nave participou também de três episódios de Além da Imaginação, um deles escrito por Richard Matheson, A Nave da Morte, um dos melhores de toda a série e com a participação do ator Ross Martin (o Artemus Gordon da série de TV de western James West).
Os efeitos especiais e cenários do filme são fantásticos. Desde o deserto com céu colorido e duas luas, passando pela casa futurista do Dr. Morbius, até a impressionante cidade subterrânea dos Krell, repleta de imensos controles com luzes piscando e enormes alavancas de acionamento, elementos típicos e sempre presentes nas produções de ficção científica antigas.
Para a realização dos efeitos do terrível “Monstro do Id”, foram utilizados os serviços dos estúdios Walt Disney, sob o comando de Joshua Meador, mestre na tecnologia de animação. Um dos pontos fortes da trama era a invisibilidade do monstro, onde apareciam apenas suas pegadas na areia do deserto próximo à nave. A criatura, uma massa que se arrastava, sendo o equivalente físico dos estímulos primários deformados pelo subconsciente do Dr. Morbius, teve uma rápida materialização óptica quando entrou em contato com o campo de força do cruzador terrestre, e sua forma se assemelhava a uma enorme fera que rugia de forma ameaçadora, talvez até pudesse ser uma referência ao famoso leão Leo, símbolo da produtora MGM. A equipe de efeitos de animação precisou de mais de seis meses para concluir o seu trabalho no filme.
A música eletrônica da trilha sonora é obra de Louis e Bebe Barron, e representou uma revolução na orquestração dos filmes de ficção científica. E juntamente com as músicas de Bernard Herrmann, foram as composições mais originais do gênero.
Planeta Proibido foi concluído em quinze meses e o orçamento girou em torno de 1 a 2 milhões de dólares, uma quantia considerada alta para a MGM na época, pois seu filme mais caro até então tinha sido Quo Vadis (1951), com US$ 5 milhões. É interessante notar que com o passar dos anos, esse conceito de valores de orçamento para a produção de um filme mudou completamente, pois existem atores atualmente que ganham bem mais do que isso somente para atuarem em determinados filmes.
Na época, o filme concorreu ao cobiçado prêmio “Oscar” na categoria de efeitos especiais, mas o vencedor acabou sendo a super produção Os Dez Mandamentos.
Planeta Proibido é um dos maiores filmes de Ficção Científica de todos os tempos, geralmente presente em qualquer lista das dez produções mais significativas no gênero. E sempre que possível devemos relembrar sua importância aos que já o conhecem, ou apresentar aos que ainda o desconhecem. O filme está disponível no mercado brasileiro de vídeo VHS, e a televisão aberta costuma reprisá-lo em cópia dublada com certa regularidade. Portanto, utilizando um pequeno trocadilho, “proibido” é não conhecer Planeta Proibido.

“Planeta Proibido” (Forbidden Planet, 1956)
data: Abril/94 – avaliação: 10 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com.br
blog: www.juvenatrix.blogspot.com.br (postado em 07/12/05)

Planeta Proibido (Forbidden Planet, Estados Unidos, 1956) – MGM. Colorido. Duração: 98 minutos. Direção de Fred McLeod Wilcox. Roteiro de Cyril Hume, baseado em história de Irving Block e Allen Adler. Fotografia de George Folsey. Produção de Nicholas Nayfack. Música de Louis e Bebe Barron. Efeitos especiais de A Arnold Gillespie, Warren Newcombe e Irving G. Ries. Direção de arte de Cedric Gibbons e Arthur Lonergan. Montagem de Ferris Webster. Efeitos de Animação de Joshua Meador, da Walt Disney Productions. Elenco: Walter Pidgeon, Anne Francis, Leslie Nielsen, Warren Stevens, Richard Anderson, Earl Holliman, Jack Kelly, George Wallace, James Drury, Bob Dix, Jimmy Thompson.










Museu de Cera (House of Wax, EUA, 1953)



Um dia se revela todo o crime. Mesmo aquele que o peso da terra oprime.” – Prof. Henry Jarrod

Um filme em especial, bastante lembrado e comentado do nostálgico cinema de horror produzido na década de 1950, e também da carreira do lendário ator Vincent Price, além de apresentar uma técnica inovadora em sua época, a exibição em três dimensões, está completando 50 anos de idade. Trata-se de “Museu de Cera” (House of Wax, 1953), dirigido por André De Toth a partir de uma história de Charles Belden. É aquele típico filme que não envelhece e sustenta seu interesse ao longo de décadas, apresentando um protagonista principal que é uma pessoa importante e inteligente, mas que transforma-se num ser insano e vingativo após ser vítima de eventos trágicos e criminosos. Nesse caso, um célebre escultor de estátuas de cera que é traído pelo sócio e tem suas obras de arte destruídas por um incêndio que também desfigura violentamente seu rosto e mãos, fazendo com que retornasse como um assassino vingativo obcecado em reconstruir sua obra artística a qualquer preço, mesmo que em troca de vidas inocentes.

A história de “Museu de Cera” é ambientada na New York do início do século passado, onde um talentoso escultor chamado Prof. Henry Jarrod (Vincent Price), possui um museu com estátuas reproduzindo personalidades históricas moldadas habilmente em cera, como por exemplo a rainha do Egito Cleópatra e seu amante Marco Antonio, o presidente americano Lincoln e seu assassino John Wilkes Booth, a líder revolucionária Joana D’Arc, e outros. Ele é visitado por um conceituado e rico crítico de arte, Sidney Wallace (Paul Cavanagh), que fica fascinado pela beleza artística das obras de Jarrod, comprometendo-se em financiar seu trabalho quando voltasse de uma viagem após alguns meses. Porém, como os negócios estavam um fracasso e a situação financeira do museu passava por uma grande crise, o sócio de Jarrod na galeria, Matthew Burke (Roy Roberts), interessado unicamente nos lucros como empresário, preferiu agir desonestamente provocando um incêndio criminoso no museu para receber o dinheiro do seguro. Após uma briga com Jarrod, este último é abandonado desmaiado em meio ao fogo que consumia suas obras de arte, derretendo implacavelmente anos de trabalho dedicado com as figuras de cera.
Passado algum tempo, o famoso escultor reaparece novamente, sobrevivendo ao incêndio que desfigurou violentamente seu rosto e atrofiou as mãos impedindo-o de voltar a moldar suas estátuas. Ele agora apenas ensina outros escultores como o surdo-mudo Igor (Charles Bronson) e o alcoólatra e ex-presidiário Leon Averill (Nedrick Young), montando um novo museu de cera com a batizada “Câmara dos Horrores”, uma ala da galeria reservada especialmente para a exposição de estátuas de assassinos famosos e instrumentos de execução como a guilhotina e cadeira elétrica, além da reprodução de assassinatos históricos, investindo num negócio mais rentável ao explorar o mórbido fascínio que o horror e a violência sempre exerceram no público.
A partir daí, começaram a ocorrer mortes misteriosas na cidade com o estranho desaparecimento dos cadáveres do necrotério, como a namorada do ex-sócio de Jarrod, a loira Cathy Gray (Carolyn Jones), e o próprio criminoso Matthew Burke, responsável pelo incêndio que impediu para sempre o escultor de criar sua arte. Até que a bela Sue Allen (Phyllis Kirk), que dividia o aluguel de um quarto com Cathy, reconheceu uma incrível semelhança física entre a amiga desaparecida e a estátua de cera de Joana D’Arc numa visita ao museu através de um contato com seu namorado, o jovem escultor Scott Andrews (Paul Picerni), um novo aluno de Jarrod. Nesse momento, entra em cena uma dupla de policiais investigadores, o Tenente Tom Brennan (Frank Lovejoy) e o Sargento Jim Shane (Dabbs Greer), que começam a suspeitar de relações entre os desaparecimentos de cadáveres e as figuras de cera.

“Museu de Cera” tornou-se muito conhecido por apresentar a técnica de exibição em três dimensões, num trabalho intenso de marketing que levou muita gente aos cinemas para conferir a novidade. Em determinado momento do filme, uma sequência em especial foi filmada de forma proposital para enfatizar os efeitos tridimensionais, onde um homem faz diversos malabarismos com uma bola amarrada por um fio em uma raquete, em frente ao museu de cera para chamar a atenção do público em conferir o espetáculo. Ele faz uma série de movimentos com a bola e raquete dando a impressão de acertar as pessoas que estão assistindo o filme sentadas nas poltronas do cinema. Curiosamente, na metade do filme houve até uma pausa inusitada, com a interrupção da projeção e aparecendo na tela uma breve mensagem de “intervalo”.
Vincent Price está como sempre muito convincente e intenso no papel de um artista amargurado com uma tragédia pessoal, e que se transforma num assassino insano e obcecado por vingança. “Museu de Cera” é um de seus primeiros trabalhos de horror, gênero que o consagraria para sempre. Já Charles Bronson ainda está em início de carreira, e mesmo sem falar uma única palavra, já demonstra um talento que lhe garantiria uma enorme e merecida carreira de sucesso, principalmente em filmes de ação. Por curiosidade, a cena final faz uma interessante menção ao seu personagem surdo-mudo Igor, e que poderia tranquilamente servir como um gancho para uma continuação onde ele daria sequência ao legado de horror de seu mestre.

O cineasta húngaro André De Toth nasceu em 1912 e faleceu no final de Outubro de 2002 na California, Estados Unidos. Ele era especialista em filmes do gênero “western” e conhecido por seu talento em trabalhar com filmes de baixo orçamento. Com uma filmografia relativamente pequena, de aproximadamente 40 títulos, seu último trabalho foi em 1987 com o obscuro “Terror Night”, trazendo no elenco o falecido ator Cameron Mitchell, sempre bastante participativo no gênero fantástico e que curiosamente também interpretou um vingativo e desfigurado curador de museu em “Nightmare in Wax” (69), com história similar ao “Museu de Cera”.
O elenco é liderado por Vincent Price, um dos maiores atores de horror de todos os tempos, permanecendo imortal numa galeria de astros formada ainda por Lon Chaney, Bela Lugosi, Boris Karloff, Peter Lorre, John Carradine, Peter Cushing, Donald Pleasence e Christopher Lee, entre outros. Este último é o único ainda vivo e na ativa, como podemos conferir em filmes como “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” (de Tim Burton), e nas sagas “O Senhor dos Anéis” (de Peter Jackson) e “Star Wars” (de George Lucas). Price nasceu em 1911 no Estado de Missouri, Estados Unidos, e faleceu em Outubro de 1993, vítima de câncer no pulmão. Ao longo de sua bem sucedida carreira cinematográfica, ele participou de uma infinidade de séries de televisão e realizou mais de 100 filmes, sendo muitos deles de horror, gênero que o imortalizou definitivamente. Em sua obra encontram-se diversas preciosidades como “A Mosca da Cabeça Branca” (58), “A Casa dos Maus Espíritos” (59), “A Queda da Casa de Usher” (60), “O Poço e o Pêndulo” (61), “Muralhas do Pavor” (62), “O Corvo” (63), “O Castelo Assombrado” (63), “Farsa Trágica” (64), “A Máscara Mortal” (64), “O Caçador de Bruxas” (68), “O Ataúde do Morto-Vivo” (69), “Força Diabólica” (69), “O Abominável Dr. Phibes” (71), “As Sete Máscaras da Morte” (73), “A Casa do Terror” (74), “A Mansão da Meia-Noite” (83), entre outros. Muitos desses filmes foram dirigidos por Roger Corman em histórias baseadas na literatura macabra de Edgar Allan Poe.
Curiosamente, entre os coadjuvantes de “Museu de Cera”, estão dois nomes que merecem uma citação especial. A atriz Carolyn Jones (1929/83), que interpretou uma das vítimas da câmara de horrores, foi a cadavérica Morticia na série de TV “A Família Addams” (1964/66), num visual gótico com longos cabelos negros, bem diferentes de sua personagem loira em “Museu de Cera”, o que demonstra a facilidade em se mudar a cor dos cabelos dependendo da necessidade (algo similar e notável aconteceu também com Christina Ricci, que foi a garota morena Wednesday no filme “A Família Addams” (91), e uma bela jovem loira em “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” (99). Já Charles Bronson, que nasceu em 1921 e morreu no final de Agosto de 2003, participou em “Museu de Cera” como o surdo-mudo Igor, em início de carreira quando ainda era creditado como Charles Buchinski. Com um personagem que não fala uma única palavra, ninguém imaginaria que o ator viria a se tornar famoso e muito requisitado depois, com uma carreira de sucesso de quase 100 filmes, e se destacando em papéis de policiais e justiceiros violentos. Sua imagem ficou eternamente associada à série de filmes “Desejo de Matar”, iniciada em 1974 e com uma franquia de cinco produções.

“Museu de Cera” foi lançado no Brasil no formato DVD em 24/09/2003 pela “Warner”, trazendo também no lado “B” do disco o filme original de 1933, “Os Crimes do Museu” (Mystery of the Wax Museum), de Michael Curtiz, que é bem inferior à refilmagem de 1953, podendo ser considerado apenas como um bônus do material extra. Também vieram como extras um trailer de dois minutos sem legendas e apresentando basicamente várias frases promocionais em letras garrafais, enfatizando as inovadoras técnicas de 3D (para a época), num estilo de marketing que era bastante utilizado nos filmes do passado, além de imagens rápidas da movimentação de bastidores numa pré-estréia de “Museu de Cera” no cinema.

Vinte anos antes do lançamento de “Museu de Cera”, em 1933 foi produzido “Os Crimes do Museu” com Lionel Atwill no papel do escultor desfigurado Ivan Igor e a bela Fay Wray (a mocinha de “King Kong”, do mesmo ano) como sua musa inspiradora Charlotte Duncan. O filme tem várias diferenças em relação à refilmagem de André De Toth, as quais acabaram definindo-o como uma obra infinitamente inferior, sendo uma exceção quando na maioria das vezes o filme original tem superado as versões posteriores. Começando pela performance de Atwill, como o vingativo proprietário do museu, muito abaixo da atuação de Vincent Price, e também do assistente surdo-mudo Hugo (Matthew Betz), sem nenhum destaque e bem mais inexpressivo que o carismático Charles Bronson. Além de outros elementos que afastaram o filme de um clima de horror, aproximando-o mais de um thriller policial arrastado, cheio de erros de continuidade e edição, comuns nas produções do início da década de 1930, nos primeiros anos do cinema falado, além de ser filmado num sistema de poucos recursos em apenas duas cores. Outro fator negativo é a inclusão de uma inconveniente jornalista, Florence Dempsey (Glenda Farrell), que fala demais e muito rápido, sendo a heroína da trama por desvendar o mistério do museu de cera antes dos incompetentes policiais, e que tem uma relação conflituosa com seu igualmente descartável chefe, o editor do jornal “Express”, Jim (Frank McHugh). A utilização de irritantes diálogos com tentativas de comédia romântica e a medíocre cena final também ajudaram a fazer de “Os Crimes do Museu” um filme pouco empolgante e apenas comum.
Como curiosidade nesse filme de Michael Curtiz, numa determinada cena a jornalista Florence, ao tentar descrever para a polícia a aparência do assassino desfigurado, deformado no incêndio, disse que ele se parece com “Frankenstein”. Esse é um erro que já foi e continua sendo cometido uma infinidade de vezes, tanto pelo cinema quanto por fãs em geral, insistindo no equívoco de associar uma imagem horrível à “Frankenstein”, que na verdade é o nome de um cientista, em vez de fazerem a comparação com “a criatura de Frankenstein”, que é o monstro criado pelo cientista a partir de pedaços de cadáveres de seres humanos. Essa confusão aumentou ainda mais após o lançamento de “A Noiva de Frankenstein” (35), cujo título do filme reforçou a impressão, errada por sinal, de que o monstro se chamava “Frankenstein”, pois na história o cientista criava uma noiva para o monstro.

Para finalizar e confirmando a falta de originalidade que a indústria do cinema americano está enfrentando atualmente, “Museu de Cera”, que já é uma refilmagem de “Os Crimes do Museu”, com algumas variações, recebeu também por sua vez uma refilmagem através da produtora “Dark Castle”, de Joel Silver e Robert Zemeckis. O filme estreou nos cinemas brasileiros em 03/06/05 como “A Casa de Cera” (House of Wax), e tem uma história bem diferente do clássico de 1953. A produtora é responsável por outras refilmagens de filmes dos anos 1960 como “A Casa da Colina” (House on Haunted Hill, 99) e “Treze Fantasmas” (Thirteen Ghosts, 2001), além de “Navio Fantasma” (Ghost Ship, 2002) e “Na Companhia do Medo” (Gothika, 2003).

As figuras de cera também se parecem com outras pessoas. Pessoas que desapareceram...

“Museu de Cera” (House of Wax, 1953) – avaliação: 9 (de 0 a 10)
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(postado em 07/12/05)

Museu de Cera (House of Wax, Estados Unidos, 1953). Warner. Duração: 88 minutos. Direção de André De Toth. Roteiro de Crane Wilbur, a partir de história de Charles Belden. Produção de Bryan Foy e Joe Dreier. Música de David Buttolph. Fotografia de Bert Glennon e J. Peverell Marley. Edição de Rudi Fehr. Direção de Arte de Stanley Fleischer. Maquiagem de George Bau. Elenco: Vincent Price (Prof. Henry Jarrod), Frank Lovejoy (Tenente Tom Brennan), Phyllis Kirk (Sue Allen), Carolyn Jones (Cathy Gray), Paul Picerni (Scott Andrews), Roy Roberts (Matthew Burke), Angela Clarke (Sra. Andrews), Paul Cavanagh (Sidney Wallace), Dabbs Greer (Sargento Jim Shane), Charles Bronson (Igor), Nedrick Young (Leon Averill).





O Mundo em Perigo (Them!, EUA, 1954, PB)


Quando o Homem entrou na era atômica, ele abriu a porta para um novo mundo. O que eventualmente encontraremos nesse novo mundo, ninguém pode prever.” – Dr. Harold Medford

Um fato bastante evidente na raça humana é a incrível quantidade de sangue que tem manchado a trajetória de sua conturbada história, sempre envolta em guerras absurdas. Boa parte do desenvolvimento científico e tecnológico da humanidade foi e ainda é voltado para a indústria bélica, objetivando fortalecer os interesses econômicos das nações mais poderosas e expandir um imperialismo hipócrita pelo mundo. Quando os Estados Unidos atacaram com bombas nucleares duas cidades japonesas em meados dos anos 1940 durante a Segunda Guerra Mundial, nosso planeta entrou definitivamente na era atômica. E, através desse ato, a nossa espécie inevitavelmente abriu uma porta desconhecida para um mundo novo, sustentado pela paranóia nuclear que por sua vez geraria a criação de uma infinidade de idéias e argumentos a serem explorados pelo cinema fantástico a partir da década de 1950.
É desse período que se originou um sub-gênero conhecido como “Big Bug” (“Inseto Gigante”), onde em vários filmes divertidos a humanidade passaria a enfrentar terríveis ameaças vindas de insetos de todos os tipos, os quais devido à exposição excessiva de radiação, de forma acidental ou até mesmo intencional no caso dos “cientistas loucos”, acabaram transformando-se em imensos monstros prontos para lutar com a raça humana pelo mesmo espaço. De ingênuos, pequenos e aparentemente inofensivos, eles passaram a gigantescas criaturas ameaçadoras.
Um dos primeiros filmes do tipo “Big Bug” foi produzido em preto e branco em 1954 com o nome de “Them!” (ou “Elas!), batizado no Brasil como “O Mundo em Perigo”, e explorando a existência de terríveis formigas gigantes, que variavam de 2 a 4 metros de comprimento. Dirigido por Gordon Douglas a partir de uma história de George Worthing Yates, o filme foi uma das primeiras tentativas de injetar a paranóia nuclear numa fórmula de causa e efeito, ou seja, a ação nociva do Homem através da manipulação de elementos atômicos e a reação da natureza, gerando um novo e terrível tipo de praga na imaginário coletivo. Nesse caso específico, a ação foi sobre inocentes formigas que cresceram assustadoramente de tamanho devido à testes com bombas nucleares realizadas no deserto do Novo México, nos Estados Unidos, em 1945.

A história se inicia com um policial, o Sargento Ben Peterson (James Whitmore), investigando estranhas ocorrências num deserto do sudoeste americano, onde encontra um trailer destruído, com seus ocupantes desaparecidos, um agente do FBI em férias e a esposa, e a filha do casal vagando sem rumo pelos campos áridos e em estado de choque. Para aumentar ainda mais o clima de mistério, o policial encontra também um armazém isolado e igualmente destruído, com seu proprietário morto violentamente e corroído por uma grande quantidade de ácido fórmico. Para auxiliá-lo nas investigações é enviado um agente do FBI, Robert Graham (James Arness), e juntos eles encontram uma enorme e estranha pegada na areia do deserto, próxima ao trailer atacado. Ao imprimirem e enviarem a evidência para uma perícia em Washington, eles recebem como resposta a visita e ajuda de um experiente cientista do Departamento de Agricultura, Dr. Harold Medford (Edmund Gwenn), juntamente com sua bela filha e assistente Patricia (Joan Weldon).
Uma vez todos juntos, o grupo inicia uma investigação no deserto e encontram a incrível existência de formigas mutantes gigantes, transformadas pela exposição à radiação de testes nucleares no mesmo local nove anos antes. Auxiliados pelo apoio militar do General Robert O’Brien (Onslow Stevens), do Serviço Secreto da Força Aérea, eles tentam destruir o formigueiro com um pesado ataque de fogo e veneno, porém duas formigas rainhas aladas conseguem escapar e voam até Los Angeles, escondendo-se nos complexos subterrâneos da cidade.
A partir daí, trava-se um combate mortal entre homens e formigas gigantescas, na tentativa de encontrar seus ninhos e destruir as rainhas, evitando dessa forma a procriação e proliferação dos insetos em larga escala e que colocaria em risco a sobrevivência da humanidade.

“O Mundo em Perigo” é considerado um precursor dos filmes com insetos gigantes, sendo muito bem recebido pelo público e até ganhando um cobiçado prêmio “Oscar” por seus eficientes efeitos especiais, muito interessantes para a época e nitidamente datados, coordenados por Ralph Ayers, que utilizou uma sofisticada parafernália mecânica formada por uma complexa combinação de cordas, roldanas e engrenagens para movimentar as grandes formigas. Em comparação com as modernas técnicas de computação gráfica atuais, as formigas são até hilariantes, mas analisando-se apenas os recursos existentes naquele período distante do cinema, é impossível não enaltecer o grande trabalho realizado.
O filme é sem dúvida uma tentativa de sucesso em se produzir com um tratamento sério uma história de ficção científica e horror explorando insetos gigantes que reagiram aos efeitos nocivos da ciência. E acabou impulsionando toda uma safra de filmes com temática similar, que apesar de tratados com orçamentos e seriedade menores, não minimizaram suas propostas de entretenimento. Como resultado disso, vários outros tipos de insetos acabaram ampliados pelo cinema como aranhas, lagartos, vespas, gafanhotos e até um louva-deus, numa série de filmes super divertidos.
Como todo filme enfocando uma revolta da natureza contra a ciência, em “O Mundo em Perigo” não poderia faltar a presença marcante de um cientista para tentar entender a origem da ameaça e como combatê-la, através do uso racional de seus conhecimentos. Nesse caso, o Dr. Medford é um especialista em formigas e o responsável por várias frases interessantes e com conteúdos significativos como por exemplo quando eles descobrem a existência das formigas gigantes, numa inevitável ameaça mortal contra a humanidade:
“Podemos estar testemunhando uma profecia bíblica se realizando: A destruição e a escuridão descerão sobre o mundo e as feras reinarão sobre a Terra.”
Ou quando ele explica aos militares a natureza guerreira das formigas e o perigo que elas representam para o mundo ao se transformarem em monstros imensos: “As formigas são as únicas criaturas fora o Homem, que fazem guerra. Elas fazem campanha, são agressivas e escravizam as prisioneiras que não são mortas”.

O nome nacional “O Mundo em Perigo” é bem diferente do original “Them!”, mas parece ser um título mais adequado, numa escolha feliz dos responsáveis em nomear os filmes que chegam ao Brasil. Porém, uma curiosidade é a forma como os produtores se referiram à palavra “THEM” para aproveitarem a oportunidade de um interessante marketing, evidenciando suas letras como iniciais de palavras expressivas como “Terror”, “Horror”, “Excitement” e “Mystery”.

“O Mundo em Perigo” foi lançado no Brasil em vídeo DVD pela “Warner Home Video”, numa rara oportunidade de termos acesso a mais essa preciosidade do cinema fantástico, com a caixa trazendo uma bela capa destacando uma ilustração colorida do filme, com formigas monstruosas atacando as pessoas e gerando o caos, num bom exemplo daqueles cartazes típicos dos filmes dos anos 1950. O material extra inclui um trailer original de 3 minutos de duração e sem legendas, além de uma interessante galeria de fotos e algumas poucas imagens de cenas não aproveitadas. O menu interativo também é bastante criativo aproveitando imagens de divulgação do filme para inserir os tópicos de navegação.

O cineasta americano Gordon Douglas (1907 / 1993) nasceu em New York e morreu de câncer em Los Angeles, California. Sua filmografia é grande contando com quase 100 filmes de todos os gêneros, entre westerns, policiais, aventuras, dramas de guerra, espionagem e noir. No cinema fantástico ele também dirigiu a comédia de horror “Zombies on Broadway” (45), com Bela Lugosi.
O escritor George Worthing Yates (1901 / 1975), autor da história que serviu de base para “O Mundo em Perigo”, é especialista no gênero horror e ficção científica e suas idéias inspiraram a produção de uma série de filmes de pura diversão da década de 1950 como “Conquest of Space” (55), “It Came From Beneath the Sea” (55), “Earth vs. The Flying Saucers” (56), “The Amazing Colossal Man” (57), “Frankenstein 1970” (58), “War of the Colossal Beast” (58), “Attack of the Puppet People” (58), “Earth vs. The Spider” (59), entre outros.
O elenco principal do filme é formado pela dupla James Whitmore e James Arness. O primeiro nasceu em 1921 e continua ativo tendo participado de “Um Sonho de Liberdade” (94), com Morgan Freeman e Tim Robbins, e “Cine Majestic” (2001), com Jim Carrey e Martin Landau. Sua semelhança física com o consagrado ator Spencer Tracy é tão grande que eles frequentemente eram confundidos como irmãos, só que Tracy era 21 anos mais velho e faleceu em 1967. Whitmore atuou em quase 80 filmes, e entre eles, sob forte maquiagem como um orangotango no clássico “O Planeta dos Macacos” (68). Já James Arness nasceu em 1923, em Minnesota, e é mais conhecido como o eterno xerife Matt Dillon na divertida e longa série televisiva de western “Gunsmoke” (1955-75). No cinema fantástico, ele foi a criatura alienígena no clássico “O Monstro do Ártico” (51), de Howard Hawks, e que foi refilmado por John Carpenter em 1982 como “O Enigma de Outro Mundo”. Curiosamente, o ator Fess Parker tem uma pequena participação em “O Mundo em Perigo” como um aviador internado num hospital psiquiátrico por alegar ter visto imensas formigas voadoras. Ele nasceu no Texas em 1925 e é mais conhecido como o lendário desbravador Daniel Boone na série de TV homônima produzida entre 1964 e 70.

Uma horda de formigas gigantes vindas de profundas catacumbas para causar o terror na superfície.

“O Mundo em Perigo” (Them!, 1954) – avaliação: 9 (de 0 a 10)
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blog: www.juvenatrix.blogspot.com.br (postado em 07/12/05)

O Mundo em Perigo (Them!, Estados Unidos, 1954). Warner. Preto e Branco. Duração: 92 minutos. Direção de Gordon Douglas. Roteiro de Ted Sherdeman, a partir de adaptação de Russell Hughes para a história de George Worthing Yates. Produção de David Weisbart. Música de Bronislau Kaper. Fotografia de Sid Hickox. Edição de Thomas Reilly. Direção de Arte de Stanley Fleischer. Maquiagem de Gordon Bau. Efeitos Especiais de Ralph Ayres. Elenco: James Whitmore (Sargento da polícia Ben Peterson), Edmund Gwenn (Dr. Harold Medford), Joan Weldon (Dra. Patricia Medford), James Arness (Robert Graham), Onslow Stevens (General Robert O’Brien), Sean McClory (Major Kibbee), Chris Drake (Ed Blackburn), Sandy Descher (garota), Mary Alan Hokanson (Sra. Lodge), Don Shelton (Capitão Fred Edwards), Fess Parker (Alan Crotty), Olin Howlin (Jensen).







O Monstro da Lagoa Negra (Creature From the Black Lagoon, EUA, 1954, PB)



No começo, Deus criou o céu e a terra, e a terra era vazia e sem forma. Veio então o planeta Terra, recém nascido e esfriando rapidamente de uma temperatura de 6000 graus e umas poucas centenas em menos de cinco bilhões de anos. O calor se eleva, encontra a atmosfera, formam-se as nuvens e a chuva desaba sobre a endurecida superfície por séculos sem conta. Surge o mar revolto, encontra obstáculos, é contido, começa o mistério da vida. Aparecem coisas vivas em infinita variedade e se transformam e atingem a terra, deixando o registro de sua vinda, de sua luta para sobreviver e de seu fim eventual. O registro da vida é escrito na terra onde 50 milhões de anos depois, no âmago da região do Amazonas, o homem ainda tenta decifrá-lo.

Com essa introdução narrada começa o filme “O Monstro da Lagoa Negra” (1954), dirigido por Jack Arnold, o mesmo de clássicos como “Veio do Espaço” (It Came From Outer Space, 53) e “O Incrível Homem Que Encolheu” (The Incredible Shrinking Man, 57). Fotografado em preto e branco, “O Monstro da Lagoa Negra” é considerado um pequeno clássico de horror “B” e que originou mais duas sequências, “Revenge of the Creature” (55) e “The Creature Walks Among Us” (56).
A história passa-se na Amazônia, e era muito comum nos roteiros de ficção científica e horror das décadas de 40 e 50, a utilização dessa enorme e intrigante região desconhecida como tema. Outros filmes importantes como “Delírio de um Sábio” (Dr. Cyclops, 39) e “O Mundo Perdido” (The Lost World, 60) também utilizaram a Amazônia como cenário de seus eventos. Na época, o imenso pulmão verde servia de inspiração para os imaginativos roteiristas, sendo palco de civilizações perdidas, mundos ocultos, animais pré-históricos que sobreviveram ao longo do tempo, laboratórios de cientistas loucos, e todo tipo de mistério que fascina a humanidade.

Um grupo de cientistas está procurando fósseis antigos na região do Rio Amazonas e encontram a pata de uma criatura desconhecida. Eles resolvem então organizar uma pequena expedição e partem à bordo do barco “Rita” à procura de outros vestígios e esqueletos. Viajam até um local chamado de “Lagoa Negra”, devido às águas muito escuras, e encontram uma estranha criatura viva, um ser anfíbio muito parecido com o homem. Considerando a maior descoberta de todos os tempos, os cientistas tentam capturá-lo com vida, e após vários confrontos com o ser, parte da expedição morre. Assim como ocorreu em “King Kong” (33), a criatura também se simpatiza com a única mulher do grupo, a jovem e bela Kay (interpretada por Julia Adams).

As ótimas sequências aquáticas envolvendo as lutas entre os pesquisadores e o monstro anfíbio, interpretado por Ricou Browning (em terra, o papel da criatura era de Ben Chapman, que faleceu em 2008), e criado por Bud Westmore e Jack Keran, são os grandes destaques do filme, além do interessante roteiro baseado em história de Maurice Zimm, criando o “monstro da lagoa negra”, um dos personagens mais importantes da história do horror e que juntou-se à galeria já formada por outros monstros clássicos como o vampiro “Drácula”, a “criatura de Frankenstein”, o “Fantasma da Ópera”, a “Múmia” e o “Lobisomem”, os quais juntos foram responsáveis por dezenas de filmes que aterrorizaram por gerações os fãs do cinema fantástico.
Curiosamente, o ator Whit Bissell, que faz o papel do Dr. Thompson, faria parte mais tarde do elenco fixo da série de TV “O Túnel do Tempo” (The Time Tunnel, 1966), criada por Irwin Allen.

“O Monstro da Lagoa Negra” (Creature From the Black Lagoon, 1954) – avaliação: 8,5 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com.br
blog: www.juvenatrix.blogspot.com.br (postado em 06/12/05)

O Monstro da Lagoa Negra (Creature From the Black Lagoon, Estados Unidos, 1954). Universal. Preto e Branco. Duração: 78 minutos. Direção de Jack Arnold. Produção de William Alland. Roteiro de Harry Essex & Arthur Ross, baseado em história de Maurice Zimm. Música de Joseph Gershenson. Fotografia de William E. Snyder. Som de Leslie I. Carey & Joe Lapis. Direção de Arte de Bernard Herzbrun & Hilyard Brown. Decoreção de Russell A Gausman & Ray Jeffers. Edição de Ted J. Kent. Assistente de Direção: Fred Frank. Direção das Sequências Aquáticas: James C. Havens. Fotografia Especial: Charles S. Welbourne. Elenco: Richard Denning (como Mark Williams), Richard Carlson (David Reed), Julia Adams (Kay), Antonio Moreno (Carl Maia), Nestor Paiva (Lucas), Whit Bissell (Dr. Thompson), Bernie Gozier (Leo), Henry Escalante (Chico), Ben Chapman (criatura na terra, não creditado), Ricou Browning (criatura na água, não creditado).