O Túmulo Vazio (The Body Snatcher, EUA, 1945)

É através do erro que o homem se levanta. É através da tragédia que ele aprende. Todos os caminhos do aprendizado começam na escuridão e se dirigem para a luz.” – Hipócrates de Cós

Durante a década de 1940, um nome que se destacou dentro do cinema de horror foi o do produtor russo Val Lewton, da RKO, um especialista em trabalhar com orçamentos pequenos, filmes “B” com cenários aproveitados de outras produções, metragens curtas, e compensando a falta de recursos com criatividade e talento. Responsável por uma série de filmes de horror psicológico como Cat People (42), I Walked With a Zombie (43), The Curse of the Cat People (44), Isle of the Dead (45) e Bedlam (46), infelizmente sua morte prematura aos 47 anos de idade em 1951 o impossibilitou de participar de projetos maiores e com mais recursos.
Um dos principais filmes de sua curta carreira é “O Túmulo Vazio” (The Body Snatcher, 1945), de pequena metragem (apenas 73 minutos), fotografia em preto e branco, e que já foi exibido na TV Cultura, de São Paulo, em versão original com legendas em português. O filme apresenta alguns fatores diferenciais que o colocam como destaque do cinema fantástico produzido há mais de meio século atrás. Além de ser dirigido por Robert Wise (1914 / 2005), o mesmo cineasta de clássicos como “O Dia Em Que a Terra Parou” (51) e “Desafio ao Além” (63), além de “O Enigma de Andrômeda” (71) e “Jornada nas Estrelas – O Filme” (79), o filme é baseado no conto “Ladrão de Cadáveres”, do escocês Robert Louis Stevenson (1850 / 1894), autor de “O Médico e o Monstro” (The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde), e tem a participação ilustre de dois dos maiores ícones do horror de todos os tempos, Boris Karloff (1887 / 1969) e Bela Lugosi (1882 / 1956), no último filme em que atuaram juntos.
(Atenção: o texto a seguir contém spoilers)

A história é ambientada em Edinburgo, Grã-Bretanha, em 1831, onde sepulturas eram profanadas e cadáveres eram roubados para serem utilizados em experiências científicas e demonstrações de aulas de anatomia do médico e professor Dr. Wolfe MacFarlane (Henry Daniell), conceituado chefe de uma escola de medicina. A matéria-prima para seu trabalho era fornecida ilegalmente pelo misterioso cocheiro John Gray (Boris Karloff), que possui uma história obscura e em comum com o Dr. MacFarlane, com quem também teve desavenças no passado.
Enquanto isso, um jovem médico chamado Donald Fettes (Russell Wade), é convidado para ser o novo assistente do Dr. MacFarlane, e ele intercede junto ao famoso professor para realizar uma operação complicada em Georgina Marsch (Sharyn Moffett), uma menina paralítica vítima de um acidente de carruagem, a pedido de sua mãe (interpretada por Rita Corday). Num primeiro momento, o Dr. MacFarlane rejeita o desafio da cirurgia, alegando priorizar seu trabalho como professor em vez de médico, onde teria que fazer antes da operação uma série de pesquisas científicas com dissecação, e não haviam cadáveres disponíveis para isso, uma vez que os cemitérios estavam mais bem guardados para evitar as profanações dos túmulos. Como o cocheiro Gray conseguiu um cadáver a força, assassinando uma cantora de rua, o médico foi convencido a operar a menina, num resultado que só seria conhecido próximo do desfecho da história.
Em paralelo, um ajudante do Dr. MacFarlane chamado Joseph (Bela Lugosi), descobre as ações criminosas de Gray e tenta suborná-lo. Porém, o cocheiro faz uma proposta enganosa de parceria, não para desenterrar corpos, mas para matar pessoas e vender seus cadáveres para os estudos científicos. A tentativa de acordo acabou resultando em uma briga mortal, numa cena antológica do cinema de horror, no último confronto direto entre os astros Boris Karloff e Bela Lugosi num mesmo filme.
“O Túmulo Vazio” ainda apresentaria um desfecho extremamente marcante quando numa terrível noite de tempestade, o Dr. MacFarlane é atormentado pelo fantasma de Gray no retorno para sua casa de carruagem, atravessando uma estrada escura e sinistra que lhe reservaria um destino trágico.

Curiosamente, o conto de Robert Louis Stevenson foi baseado num caso real onde a dupla de criminosos Burke e Hare vendiam cadáveres roubados para trabalhos científicos de um médico chamado Dr. Knox. Inclusive, esse fato real foi mencionado no filme, acrescentando que o Dr. MacFarlane foi preso no passado por ser o assistente do Dr. Knox, o médico que comprava os corpos profanados de seus túmulos, e que Gray testemunhou falsamente por dinheiro em seu favor no julgamento, livrando-o da prisão.
A mesma história de “O Túmulo Vazio” foi também explorada em outros filmes seguintes como “A Carne e o Diabo” (The Flesh and the Fiends, 60), dirigido por John Gilling e com outro time de astros, Peter Cushing como o médico anatomista e Donald Pleasence como o ladrão de cadáveres, além de “Burke and Hare” (71), de Vernon Sewell, e de “The Doctors and the Devils” (85), de Freddie Francis, e com Timothy Dalton, Jonathan Pryce, Julien Sands e Stephen Rea.
O nome nacional escolhido para o filme até que não é ruim, pois “O Túmulo Vazio” tem relações diretas com a história, porém o ideal e mais correto seria apenas traduzir o original “The Body Snatcher” para “Ladrão de Cadáveres”.

Você nunca conseguirá se libertar de mim...” – Gray (Karloff) para Dr. MacFarlane (Daniell)

“O Túmulo Vazio” (The Body Snatcher, 1945) – artigo # 256 – data: 24/05/04 – avaliação: 8 (de 0 a 10)
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(postado em 05/12/05)

“O Túmulo Vazio” (The Body Snatcher, Estados Unidos, 1945). RKO Radio Pictures, 73 minutos, Preto e Branco. Direção de Robert Wise. Roteiro de Philip MacDonald e Val Lewton (creditado como Carlos Keith), baseados em história de Robert Louis Stevenson. Produção de Val Lewton. Produção Executiva de Jack J. Gross. Fotografia de Robert De Grasse. Música de Roy Webb. Edição de J. R. Whittredge. Direção de Arte de Albert S. D´Agostino e Walter E. Keller. Cenários de Darrell Silvera. Elenco: Boris Karloff (John Gray), Bela Lugosi (Joseph), Henry Daniell (Dr. Wolfe “Toddy” MacFarlane), Edith Atwater (Meg Camden), Russell Wade (Donald Fettes), Rita Corday (Sra. Marsh), Sharyn Moffett (Georgina Marsch), Donna Lee, Robert Clarke, Aina Constant, Mary Gordon, Carl Kent, Milton Kibbee, Jim Moran, Jack Welch, Larry Wheat, Bill Williams.

Na Solidão da Noite (Dead of Night, Inglaterra, 1945, PB)

Considerado um grande sucesso de público e crítica na sua época, “Na Solidão da Noite” (Dead of Night, 1945) foi um dos primeiros filmes de horror realizado na Inglaterra desde o começo da Segunda Guerra Mundial, pois a censura havia banido os filmes desse gênero por causa do excesso de violência e a maioria dos filmes americanos passava despercebidos por lá até 1945.
O filme é um dos precursores de um estilo que seria muito explorado posteriormente, principalmente pelo estúdio inglês “Amicus” no início dos anos 70, ou seja, a apresentação de várias histórias de temas sobrenaturais em forma de antologia. “Na Solidão da Noite” é dividido em cinco contos de horror interligados por um tema central e dirigidos por quatro grandes cineastas (um deles é o brasileiro Alberto Cavalcanti), tornando-se um clássico do gênero e fonte de inspiração para várias obras que se seguiram. Foi produzido pela “Ealing Studios”, responsável também por outro filme importante com temática de fantasmas do mesmo período, “The Halfway House” (1943), dirigido por Basil Dearden.

O roteiro apresenta a história de um arquiteto, Walter Craig (Mervyn Johns), que sofre constantemente pesadelos horríveis e é convidado a passar um fim de semana numa casa de campo, onde os proprietários pretendem fazer umas reformas. Ao chegar, ele se surpreende ao encontrar exatamente as mesmas pessoas que participam de seus pesadelos. Elas, que nunca haviam visto o arquiteto antes, passam então a narrar casos fantásticos que viveram.
A primeira história, “The Hearse Driver”, dirigida por Basil Dearden, é sobre um piloto de carros de corrida, Hugh (Anthony Baird), que após um grave acidente nas pistas, sobrevive milagrosamente. Ao sair do hospital, ele escapa novamente da morte ao não embarcar num ônibus que sofreu logo em seguida um trágico acidente, graças a um misterioso aviso de um agente funerário (Miles Malleson).
“The Christmas Story” é o segundo episódio, com direção de Alberto Cavalcanti. Conta a história de uma jovem garota, Sally O’Hara (Sally Ann Howes), que numa festa de natal numa velha mansão, encontra um garoto chorando na escuridão de um quarto oculto, desconhecido na enorme casa. Mais tarde ela descobre que ele havia sido assassinado naquele local, por sua irmã, dezenas de anos antes.
O terceiro caso apresenta uma das mais fascinantes histórias de fantasmas do cinema. “The Haunted Mirror”, de Robert Hamer, fala de um velho espelho pertencente a um aleijado que havia assassinado sua esposa. Comprado por Joan (Googie Withers) como um presente de aniversário ao seu marido Peter (Ralph Michael), o espelho passou a refletir a personalidade doentia de seu primeiro dono, incitando Peter a tornar-se um louco homicida e tentar matar sua esposa.
Entre a narração desses acontecimentos sobrenaturais, o grupo de pessoas da fazenda discutia o sonho do arquiteto no qual eles estavam envolvidos, e comentavam suas próprias experiências fantásticas, com o fórum de discussão sendo liderado pelo psicólogo Dr. Van Straaten (Frederick Valk), que procurava sempre encontrar uma explicação lógica e racional para os misteriosos fatos.
O quarto episódio é o mais fraco de todos, apesar de ser baseado numa história do grande escritor Herbert George Wells (autor de clássicos como “A Guerra dos Mundos”, “O Homem Invisível”, “A Ilha do Dr. Moreau”, “Os Primeiros Homens na Lua” e “A Máquina do Tempo”). “The Golfing Story” é dirigido por Charles Crichton, com uma história de fantasmas apresentada com elementos de humor. Dois jogadores de golfe rivais, George e Larry (Basil Radford e Naunton Wayne, respectivamente), disputavam o amor da mesma mulher, Mary (Peggy Bryan), através de uma partida de golfe. Quando Larry é enganado pelo companheiro, ele comete suicídio afogando-se num lago. A partir de então, George, o trapaceiro que venceu o jogo, é atormentado pelo fantasma do oponente morto.
Alberto Cavalcanti dirigiu também o último e mais famoso de todos os episódios, “The Ventriloquist’s Dummy”, estrelado por Michael Redgrave. Ele é Maxwell Frere, um esquizofrênico ventríloquo que apresenta uma dupla personalidade: a sua própria e a do boneco que manipulava. O boneco, chamado Hugo, acabou induzindo-o a matar um outro ventríloquo rival, o americano Sylvester Kee (Hartley Power), sendo preso por isto. Esta história teve um paralelo interessante no clássico “Psicose” (1960), de Alfred Hitchcock, na incrível similaridade com o personagem insano Norman Bates (interpretado por Anthony Perkins), que também apresentava uma dupla personalidade, a sua própria e da falecida mãe possessiva. A história sobrenatural do boneco do ventríloquo foi refilmada diversas vezes depois. Em 1962, num episódio da nostálgica série de TV “Além da Imaginação”, com o nome “The Dummy”, escrito por Rod Serling e estrelado por William Shatner (o eterno Capitão Kirk de “Star Trek”). E ainda, no episódio “The Glass Eye” da série de TV “Alfred Hitchcock Presents”. Já em 1978 tivemos um interessante filme chamado “Um Passe de Mágica” (Magic), dirigido por Richard Attenborough e com Anthony Hopkins e Burgess Meredith no elenco. Outro filme que explora esse tema é "Gritos Mortais" (Dead Silence, 2007), de James Wan.
Após o relato desses casos incomuns, o arquiteto é perseguido por todos os personagens das histórias e acorda repentinamente assustado, descobrindo estar em sua própria casa novamente. Passado mais esse pesadelo, ele recebe um novo convite para pousar por alguns dias numa casa de campo e... todo seu drama se inicia novamente. Percebemos que há um ciclo fechado no tempo envolvendo os horríveis pesadelos, reais ou não, de um perturbado arquiteto.

“Na Solidão da Noite” (Dead of Night, 1945) – avaliação: 9 (de 0 a 10)
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(postado em 05/12/05)

Na Solidão da Noite (Dead of Night, Inglaterra, 1945). Ealing Studios. Preto e Branco. Duração: 104 minutos. Direção de Alberto Cavalcanti, Basil Dearden, Robert Hamer e Charles Crichton. Roteiro de John Baines e Angus Macphail, baseados em histórias de H. G. Wells, John Baines, E. F. Benson e Angus Macphail. Produção de Michael Balcon. Música de Georges Auric. Elenco: Mervyn Johns, Roland Culver, Frederick Valk, Mary Merrall, Renee Gadd, Barbara Leake, Anthony Baird, Judy Kelly, Miles Malleson, Sally Ann Howes, Michael Allan, Robert Wyndam, Googie Withers, Ralph Michael, Esme Percy, Basil Radford, Naunton Wayne, Peggy Bryan, Michael Redgrave, Hartley Power, Allan Jeayes, John Maguire, Magda Kun, Elizabeth Welch, Gary Marsh.



O Conde de Monte Cristo (The Count of Monte Cristo, 2002)

Dois jovens e ativos atores, os talentosos Jim Caviezel (“Olhar de Anjo” / “Crimes em Primeiro Grau”) e Guy Pearce (“Amnésia” / “A Máquina do Tempo”), estão dessa vez contracenando juntos numa co-produção entre Estados Unidos e Inglaterra novamente levando às telas do cinema a aventura “O Conde de Monte Cristo” (The Count of Monte Cristo), baseado na famosa obra homônima de Alexandre Dumas.
Com estréia no Brasil em 01/05/02, o filme conta a trajetória dramática do marinheiro Edmond Dantes (Caviezel), numa reviravolta repentina em sua vida, acusado injustamente de traição ao governo francês, sendo preso, espancado, humilhado, e depois conseguindo fugir encontra um tesouro perdido que o torna um Conde e inicia sua vingança contra todos que o traíram. Essa é a premissa básica para uma deliciosa saga de aventura do gênero capa e espada, com todos os elementos característicos desse estilo, com piratas dos mares, duelos de espada, traição, vingança, aristocracia dos ricos Condes em suas enormes mansões, tramas políticas e, é claro, guerras, sendo nesse caso a disputa interna pelo poder na França de Napoleão Bonaparte no século XIX.
“O Conde de Monte Cristo” começa quando um grupo de marinheiros comandados por Dantes e seu amigo Fernand Mondego (Pearce) deixam seu navio num bote juntamente com seu capitão gravemente doente, procurando ajuda médica na ilha de Elba, na costa da Itália, local onde é mantido exilado o poderoso e agora deposto imperador Napoleão Bonaparte. O capitão do navio não resiste e morre, e Dantes é solicitado por Bonaparte para levar uma carta a um amigo na França. Ingenuamente, o marinheiro aceita a missão, e chegando em Marselha ele reencontra sua noiva, a bela Mercedes (Dagmara Dominczyk), e é promovido à capitão do navio pelo proprietário da companhia de navegação. Seu amigo Mondego, com ciúmes de Mercedes e inveja do novo cargo de Dantes, resolve delatá-lo às autoridades sob o comando de Villefort (James Frain), que o condena por traição por possuir a misteriosa carta e ordena sua prisão no Castelo de If, uma estrutura de pedra isolada numa ilha, onde passou por longos treze anos. Lá, ele encontra o abade Faria (interpretado pelo experiente Richard Harris) que o ensina a ler e escrever, além de lutar com faca e espada. Juntos eles cavam um túnel e Dantes consegue fugir, sendo resgatado por um barco pirata e encontrando um amigo leal que o acompanharia para sempre (Luis Guzmán). Juntos eles partem em busca de um tesouro escondido na ilha de Monte Cristo, alertados de sua existência e localização pelo padre Faria, e após descobrirem a fortuna em ouro, Dantes se transforma no Conde de Monte Cristo. Retornando à França agora como um poderoso Conde, ele descobre que seu ex-amigo Fernand Mondego havia se casado com sua noiva Mercedes (que pensava que ele tinha morrido), aumentando ainda mais sua ira, e iniciando seu plano de vingança contra todos aqueles que arruinaram sua vida.
Alguns momentos curiosos e engraçados são quando o padre Faria revela à Dantes que sabia a localização de um tesouro procurado até por Napoleão Bonaparte dizendo que “Sou um padre, não um santo”; ou quando o mesmo Dantes usou uma frase equivalente ao dizer para o rival Mondego em seu leito de morte, ao cravar uma espada sem piedade em seu coração, “Sou um Conde, não um santo”. Outra curiosidade é a semelhança entre o personagem de Dantes preso no Castelo de If e de Papillon, no filme homônimo de 1973, interpretado por Steve McQueen, quando este é preso em condições similares na Ilha do Diabo e consegue fugir após anos de muita persistência.
Enfim, “O Conde de Monte Cristo” é uma divertida aventura de capa e espada, em seus longos mas não cansativos 131 minutos de projeção, onde o espectador inevitavelmente é induzido a torcer pelo drama do antes ingênuo marinheiro Edmond Dantes em sua trajetória de vingança, agora como um poderoso Conde, e na vitória triunfante sobre seus traidores.

Nota: O filme foi exibido pela primeira vez na televisão aberta em 30/11/05, pela TV Globo, às 22:30 horas na sessão “Cinema Especial”, que acontece às quartas-feiras em ocasiões especiais, quando não há a exibição de algum jogo de futebol.

“O Conde de Monte Cristo” (The Count of Monte Cristo, EUA / Inglaterra / Irlanda / Suiça, 2002) – avaliação: 7,5 (de 0 a 10)
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(postado em 02/12/05)

O Lobisomem (The Wolf Man, EUA, 1941, PB)



Licantropia (lobisomismo): Uma doença mental na qual seres humanos imaginam ser homens-lobos. Segundo uma velha lenda, as vítimas assumem as características físicas do animal. Numa aldeia vizinha ao Castelo Talbot, afirmam ter tido experiências com esta criatura sobrenatural. O sinal do homem-lobo é uma estrela de cinco pontas, um pentagrama, cercando um lobo que salta.

Os lobisomens foram criaturas que tiveram bem menos atenção no cinema que os vampiros e outros monstros, talvez pelo fato da complexa maquiagem exigida e efeitos especiais que envolviam altos custos e tempo de preparação. E apesar dos outros monstros sagrados do Horror desfilarem durante toda a era do cinema mudo, o primeiro filme apropriado de lobisomem só veio em 1935 pela Universal com “Werewolf of London”. Entretanto, a necessidade do monstro como personagem principal ser simultaneamente simpático e ameaçador ao público, acabou trazendo dificuldades e juntamente com a atuação irregular de Henry Hull como o lobisomem, esse filme acabou sendo um fracasso de bilheteria. Como todos os filmes da Universal das décadas de 1930 e 40, “Werewolf of London” é divertido de se assistir, mas bem abaixo das outras produções da época.
Somente em 1941, a Universal tentou novamente com esse tipo de monstro, e fez “O Lobisomem” (The Wolf Man), que originalmente se chamaria “Destiny”, e foi um grande sucesso, tornando-se um clássico na filmografia de Horror e sendo o principal filme de lobisomem no gênero. Acabou sendo também a última grande criação da Universal, que se juntou aos já consagrados monstros como “Drácula”, a “criatura de Frankenstein”, a “Múmia” e o “Homem Invisível”.
O lobisomem foi interpretado brilhantemente pelo ator Lon Chaney Jr., filho de Lon Chaney, grande artista do cinema mudo e astro de clássicos como “O Corcunda de Notre Dame” (1923), “O Fantasma da Ópera” (1925) e “London After Midnight” (1927). Esse papel de monstro solidificou Lon Chaney Jr. também como um dos importantes atores do Horror e o impulsionou para sua participação em diversos outros filmes posteriores do cinema fantástico, geralmente interpretando monstros ou cientistas loucos.
A maquiagem da criatura mista de homem e lobo é um impressionante trabalho de Jack Pierce, maquiador principal da Universal, responsável também por outros monstros sagrados do Horror como a “criatura de Frankenstein” e a “Múmia”, ambos interpretados pelo grande Boris Karloff no início da década de 30. Esse fascinante trabalho consumia pelo menos seis horas caracterizando o ator Lon Chaney Jr. em lobisomem. A maquiagem era tão complexa que as sequências onde ele transformado na fera voltava a ser homem, levaram vinte e duas horas de filmagens, com sua maquiagem sendo removida pouco a pouco em vinte e uma cenas consecutivas. Um enorme trabalho, não imaginado pelo público, e que levava apenas alguns segundos no filme.
“O Lobisomem”, que curiosamente ao longo do filme a criatura nunca era chamada de “werewolf” (o mais comum) e sim de “wolf man”, foi um grande sucesso de público. Além do eficiente roteiro do prestigiado escritor Curt Siodmak, com um belo trabalho de uso de antigos mitos e folclores, o filme contou com impressionantes cenários com castelos góticos e sequências filmadas à noite em florestas com espessas e intensas névoas, misturadas à árvores fantasmagóricas. Apesar dessas sequências noturnas serem poucas e curtas com a presença do lobisomem, o filme foi um sucesso pelo conjunto de toda a obra, desde a música, cenários, maquiagens, direção de arte e principalmente pelo extraordinário elenco formado por, entre outros, Bela Lugosi, Claude Rains e Lon Chaney Jr..
Assim como em “The Black Cat” (1934), Lugosi (de “Drácula”, 1931) também recebeu um pequeno papel, interpretando um cigano visionário chamado Bela (que coincidência!), e que à noite se transformava em lobisomem. Apesar da pequena participação e morte prematura, Lugosi teve uma grande performance, onde explorou muito bem a tragédia de seu personagem, possuído por uma terrível e incontrolável sede de matar, e que transferiu sua maldição para Larry Talbot (Lon Chaney Jr.) antes de ser morto por ele. Lugosi também foi suportado pelo grande elenco, incluindo Maria Ouspenskaya, que interpretou sabiamente sua idosa mãe cigana Maleva, autora dos seguintes versos, sempre ditos quando um lobisomem morre: “O caminho que trilhaste foi espinhoso, embora não por tua própria culpa. Como a chuva entra no solo, o rio corre para o mar, as lágrimas correm para o fim predestinado. Teu sofrimento acabou, agora vai achar paz pela eternidade.”
Já Claude Rains interpretou, entre outros, os personagens homônimos em “O Fantasma da Ópera” (1943) e “O Homem Invisível” (1933). E em “O Lobisomem” foi Sir John Talbot, o pai do personagem amaldiçoado de Lon Chaney Jr..
A história desse clássico começa com a chegada de Larry Talbot (Chaney), um jovem estudante, que retorna a sua cidade natal no ancestral castelo de sua família, após muitos anos distante. Num passeio noturno à lua cheia, ele vê um lobo matar uma mulher e ao tentar salvá-la acaba matando o animal com sua bengala com a ponta de prata. Porém, é mordido pela fera, que na verdade é um lobisomem (o cigano Bela, interpretado por Lugosi). A maldição do lobisomem se manifesta sempre na visão de um pentagrama na palma da mão da futura vítima da criatura. E o jovem Talbot acaba descobrindo sua nova condição de monstro e após matar alguns inocentes em seus passeios noturnos, é finalmente morto num confronto com seu pai.
O popular “lobisomem” de Lon Chaney Jr. ainda apareceu em outros quatro filmes posteriores, “Frankenstein Meets the Wolf Man” (43), “House of Frankenstein” (44), “House of Dracula” (45) e “Abbott and Costello Meet Frankenstein” (48). Porém, todos eles suportados pela presença de outro grande monstro do Horror. E também inspirou outros estúdios a realizar incontáveis imitações como “The Mad Monster” (PRC) e “Undying Monster” (Fox), ambos imediatamente posteriores, de 1942.
Enfim, “O Lobisomem” (The Wolf Man, 1941) é o principal filme desse instigante personagem do Horror e que marcou intensamente sua importância na galeria das grandes obras cinematográficas desse gênero.

Até um homem que é puro no coração, e reza suas orações à noite, pode tornar-se um lobo quando o acônito floresce, e a lua do outono estiver cheia e brilhante.

“O Lobisomem” (The Wolf Man, 1941)
avaliação: 8,5 (de 0 a 10)
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(postado em 02/12/05)

O Lobisomem (The Wolf Man, Estados Unidos, 1941). Preto e Branco. Universal. Duração: 70 minutos. Direção e produção de George Waggner. Roteiro de Curt Siodmak. Maquiagem de Jack Pierce. Fotografia de Joe Valentine. Música de Hans J. Salter. Efeitos especiais de John P. Fulton. Direção de arte de Jack Otterson. Com Bela Lugosi, Lon Chaney Jr., Claude Rains, Warren William, Ralph Bellamy, Patric Knowles, Maria Ouspenskaya, Evelyn Ankers, Fay Helm, Forrester Harvey, J. M. Kerrigan, Doris Lloyd, Harry Stubbs, Harry Cording, Kurt Katch.






A Ilha (The Island, EUA, 2005)

O americano Michael Bay é um cineasta especialista em filmes de ação e orçamentos milionários, como “A Rocha” (1996), “Armageddon” (98) e “Pearl Harbor” (2001), que funcionam de forma satisfatória como produções movimentadas repletas de ótimos efeitos especiais e entretenimento sem compromisso, mas que pecam pelos equívocos e furos no roteiro, investindo em situações forçadas e personagens e relacionamentos desenvolvidos especialmente para satisfazer o grande público. “A Ilha” (The Island), que entrou em cartaz nos cinemas brasileiros em 05/08/05, segue a mesma linha, ou seja, é um bom filme de ação com elementos de ficção científica (o tema da clonagem humana), que tem uma história central bastante interessante e que garante um pouco mais de duas horas de diversão, porém esbarra numa grande quantidade de situações forçadas e criadas apenas para facilitar o trabalho dos roteiristas.
“A Ilha” é ambientado num futuro próximo (o ano é 2019), e uma empresa científica de grande porte, liderada pelo Dr. Merrick (Sean Bean), mantém num complexo de alta segurança centenas de seres humanos numa espécie de sociedade artificial, sempre usando o mesmo estilo de roupas, sem grandes alternativas de alimentos, realizando os mesmos trabalhos, não podendo cultivar amizades muito próximas (principalmente entre homens e mulheres), e vivendo as mesmas rotinas diárias.
Na verdade, eles são clones, identificados apenas como “produtos” por seus criadores. Isso não é nenhuma revelação confidencial ou “spoiler”, pois em muito pouco tempo o roteiro já informa o espectador da realidade dos fatos e até o trailer do filme evidencia essa informação, que a propósito, foi uma decisão equivocada dos produtores, pois seria mais interessante o público descobrir isso somente ao assistir o filme e não saber previamente, no caso daqueles que viram antes o trailer promocional.
O objetivo da existência dos clones é apenas servir de doadores de órgãos para seus “donos”, algo como “gado num matadouro”, prolongando a vida de pessoas ricas que investiram muito dinheiro na criação de cópias de si mesmas. Eles receberam uma lavagem cerebral com uma história simulando uma realidade para seus passados, além de informações que revelam que são sobreviventes privilegiados de uma contaminação que assolou o mundo exterior, e são condicionados para terem como maior motivação de suas vidas a ida para a “ilha”, que seria o único paraíso ainda existente no mundo, sendo que os vencedores são sorteados numa loteria.
Porém, um homem com uma capacidade diferenciada, Lincoln Six Echo (Ewan McGregor), desconfia do ambiente utópico em que vive “aprisionado” e descobre coisas terríveis “no outro lado”. Ele resgata sua amiga Jordan Two Delta (a belíssima Scarlett Johansson, que juntamente com Jessica Alba, estão entre as mais bonitas atrizes do cinema atual), que havia sido sorteada para a “ilha”, e juntos conseguem escapar do complexo na tentativa de descobrirem a verdade sobre suas origens e denunciar os fatos para o resto do mundo, sendo perseguidos implacavelmente por uma equipe liderada por um assassino profissional, Albert Laurent (Djimon Hounsou).
“A Ilha” é um filme com muita correria, perseguições, tiroteios, ação desenfreada, num típico “cinema pipoca” com bons momentos de diversão sem compromisso, desde que o espectador não leve a sério os exageros do roteiro, como a fuga inverossímil do jovem casal de heróis da empresa de clonagem (protegida por um esquema sofisticado de segurança), ou nas ruas de Los Angeles, onde escapam ilesos de intensas perseguições. Ou ainda na cena forçada onde eles sobrevivem após uma queda juntamente com a pesada estrutura de um logotipo de uma empresa, que estava no alto de um prédio (tanto que até um dos personagens, um trabalhador de uma obra civil que testemunhou a queda dos jovens, fez questão de dizer que eles estavam vivos graças a um milagre divino).
Pois, mesmo numa análise crítica sem profundidade, percebemos vários furos no roteiro e situações inseridas para facilitar a condução da história, como o duelo entre o dirigente da empresa Dr. Merrick e Lincoln Echo Six (para definir o destino do vilão), e como o fato de que, com tantas pessoas trabalhando como funcionários na empresa de clonagem e sabendo a terrível verdade sobre o propósito e destino dos clones humanos, é difícil imaginar que essa informação não deixe de ser confidencial e chegue até a opinião pública no mundo exterior. A fuga do casal é facilitada por um desses funcionários, McCord (Steve Buscemi), mas fico imaginando como todos os outros conseguem guardar segredo sobre suas atividades e profissões...
Como pontos positivos, temos as boas atuações do casal Ewan McGregor e Scarlett Johansson, algumas piadas sutis e interessantes (como aquelas envolvendo a nacionalidade escocesa de Ewan), as cenas de ação e perseguições filmadas num ritmo alucinante, com efeitos especiais convincentes de tirar o fôlego do espectador, e aquela seqüência onde um grupo de “produtos defeituosos”, ou seja, clones humanos que desenvolveram uma capacidade de questionar e eventualmente poder descobrir a verdade sobre suas vidas, que são escoltados por uma equipe de segurança até uma câmera de gás, onde são enganados e encaminhados para a morte, de forma similar ao que ocorreu na Segunda Guerra Mundial com os judeus sendo vítimas dos alemães nazistas.

Nota: O filme foi lançado no mercado brasileiro de DVD pela “Warner” em 25/11/05, trazendo como materiais extras um making of e trailer de cinema.

“A Ilha” (The Island, 2005) # 331 – data: 07/08/05 – avaliação: 7,5 (de 0 a 10)
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(postado em 01/12/05)

Frankenstein (Frankenstein, 1931) e A Noiva de Frankenstein (The Bride of Frankenstein, 1935)




Clássicos absolutos do cinema de horror, “Frankenstein” (1931) e A Noiva de Frankenstein” (The Bride of Frankenstein, 1935), dirigidos por James Whale e estrelados pelo lendário Boris Karloff como o monstro, merecem ser revisitados sempre, pois são filmes que fazem parte da galeria imortal das obras primas do fantástico, e que trazem fortes elementos do cinema expressionista alemão do mesmo período.
“Frankenstein” foi um filme que teve diversas importâncias. Em termos financeiros, foi um dos maiores sucessos na temporada de 1931-32 e mostrou aos executivos da produtora Universal que o horror era um gênero que podia agradar ao público. E muito mais do que “Drácula” (do mesmo ano e com o também lendário Bela Lugosi), este filme foi o modelo para o tratamento subsequente de Hollywood aos thrillers de horror. Foi largamente imitado, tanto na época como principalmente nos anos posteriores. A novela que o inspirou, “Frankenstein, or a Modern Prometheus” de 1818 e de autoria de Mary Shelley, já havia sido adaptada desde 1832, inicialmente com a peça teatral “Presumption! Or, the Fate of Frankenstein”, do autor R. B. Peake e com o ator T. .P. Cooke interpretando o monstro. Em seguida veio uma peça musical em 1887, de Richard Henry e Meyer Lutz. No cinema, começou em 1910, numa produção de Thomas A. Edison, dirigida por J. Searle Dawley e com Charles Ogle no papel da criatura. Infelizmente, nenhuma cópia dessa rara película sobreviveu ao tempo. E em 1915, “Life Without a Soul”, de Joseph W. Smiley e com Percy Darrell Standing como o monstro de Frankenstein, sendo considerado na época pela crítica como uma criatura pavorosa, mas nunca grotesca.
No clássico de 1931, o ator escolhido para o papel do monstro foi Boris Karloff, na época um ator inglês pouco conhecido de 44 anos de idade. O papel magnificamente interpretado projetou sua carreira ao estrelato, chegando a fazer cerca de 140 filmes, sendo boa parte deles do gênero fantástico, até falecer em 1969 aos 82 anos.


A história do filme gira em torno de um cientista, Henry Frankenstein (Colin Clive), que é obcecado com a ambição de criar vida artificialmente. Ajudado por um anão corcunda, Fritz (Dwight Frye), ele rouba cadáveres dos cemitérios para completar a sua criatura. Na procura por um cérebro, Fritz vai até a faculdade de medicina de Goldstadt e erradamente pega um cérebro de um criminoso em vez de um normal, dando uma personalidade agressiva ao monstro. Preocupados com o exílio do cientista, que se refugiou numa torre abandonada para fazer suas experiências, sua noiva Elizabeth (Mae Clarke), seu melhor amigo Victor (John Boles) e seu antigo professor Dr. Walman (Edward Van Sloan), vão procurá-lo. Enquanto isso, o jovem cientista se aproveita da energia elétrica criada por uma forte tempestade e em seu laboratório, ajudado por um maquinário bizarro, ele dá a vida a uma criatura inanimada (Karloff).
O monstro de Frankenstein é então mantido preso numa velha masmorra na torre e atormentado pelo anão Fritz. Ele acaba se despertando para o ódio e estrangula o ajudante do cientista. Após muita dificuldade, o monstro é controlado e Henry Frankenstein sofre um colapso nervoso indo para sua casa descansar, deixando a sua criatura nas mãos do Dr. Waldman. No dia do seu casamento com Elizabeth, o cientista é avisado que o monstro havia matado o Dr. Waldman e escapado, circundando os arredores do vilarejo. Depois de afogar acidentalmente uma menina, filha de um agricultor, ele desperta a fúria dos aldeões que passam a caçá-lo, e o jovem Frankenstein junta-se a eles. Chegando num velho moinho, o cientista se confronta com sua criatura, perde a consciência mas consegue escapar momentos antes dos aldeões atearem fogo. O moinho se queima presumivelmente destruindo o monstro e Frankenstein salva-se para casar com Elizabeth.
O estúdio filmou dois finais diferentes, um feliz e o outro não. Segundo uma previsão, eles decidiram usar o final em que o cientista sobrevive, rejeitando um final infeliz. É uma pena pois os finais felizes geralmente estragam os filmes, mas no caso dessa obra prima a gente até acaba se esquecendo desse detalhe. Um corte que foi feito temendo uma reação negativa do público foi a sequência célebre da criação do monstro onde o cientista fascinado exclama: “Agora eu sei o que é ser Deus!”. Essa frase foi censurada e numa cópia legendada exibida pela TV Cultura (São Paulo) há alguns anos atrás, o som foi temporariamente cortado, num atitude ridícula!
As passagens mais antológicas do filme certamente são aquelas no estranho laboratório do cientista, com máquinas elétricas com grandes alavancas de acionamento e enormes eletrôdos e transformadores de energia. O laboratório foi criado e operado pelos especialistas Frank Grove, Kenneth Strickfaden e Raymond Lindsay.
A fantástica maquiagem da criatura ficou a cargo de Jack Pierce, que precisava de quatro horas diárias para realizar seu trabalho com o ator Boris Karloff. Pierce continuou trabalhando em todos os filmes de horror produzidos pela Universal na década de 30, até interromper suas atividades em 1947 e vindo a falecer em 1968.






A Noiva de Frankenstein

Quem pensou que o monstro havia morrido no final do filme de 1931 se enganou, pois ele retornou quatro anos depois no também clássico “The Bride of Frankenstein”, que é considerado pela crítica um filme mais fiel às suas origens, com um roteiro melhor, cenários mais impressionantes, belíssima música e um alegre e fino senso de humor.
O filme começa com a escritora Mary Shelley (Elsa Lanchester), seu marido Percy (Douglas Walton) e seu amigo Lord Byron (Gavin Gordon), conversando reunidos em volta de uma lareira. Eles discutem a novela de Mary Shelley, “Frankenstein”, e expressam o seu desapontamento com o final. A escritora é então persuadida por Lord Byron a continuar a história, seguindo da suposta morte da criatura num moinho em chamas.
Depois dos pais da garota afogada no primeiro filme descobrirem que o monstro havia escapado do fogo, refugiando-se num lago embaixo do moinho, eles caem nas suas garras e são assassinados. Logo após, ele encontra uma velha senhora de voz irritante, empregada do castelo do cientista Henry Frankenstein, assustando-a numa cena muito engraçada, estabelecendo aí o tom humorístico.
Procurando companhia, a criatura parte para a floresta, salva uma pastora (Anne Darling) que conduzia ovelhas, do afogamento, mas é capturado pelos aldeões. Escapando da prisão da vila, ele aterroriza a região matando várias pessoas, até encontrar um velho ermitão cego (O. P. Heggie) com o qual faz amizade e aprende a falar. Mas dois caçadores chegam (um deles é o grande John Carradine, aqui numa pequena ponta) e revelam a identidade da criatura, que foge.
Enquanto se recupera de seu recente e fatal confronto com o monstro que criara, Henry Frankenstein (Colin Clive) é visitado por um antigo professor, Dr. Pretorius (Ernest Thesiger). Ele revela a Henry suas experiências na criação de vida: pequenos seres humanos dentro de jarros de vidro. Nesta sequência vemos excelentes efeitos visuais de miniaturização, principalmente para um filme de 1935. Ansioso para criar uma companheira para o monstro, o Dr. Pretorius convence a força o cientista a ajudá-lo, raptando sua esposa Elizabeth (Valerie Hobson). Reparem que no filme anterior, Elizabeth foi interpretada por uma outra atriz, Mae Clarke. Depois que o ajudante de Pretorius, Karl (Dwight Frye, o mesmo anão corcunda que interpretou Fritz em 1931), assassina uma jovem mulher para utilizar seu coração humano, a criação dos cientistas vem à vida durante uma violenta tempestade elétrica. A criatura, vivida também por Elsa Lanchester, é uma mulher normal com exceção do estranho cabelo com enormes mechas brancas, que foi inspirado em antigas esculturas da rainha egípcia “Nefertiti”.
Quando chega o momento do monstro requerer sua companheira, ela se afasta e grita horrorizada. Agoniado, ele se destrói e a todos puxando uma alavanca que aciona uma explosão no laboratório, depois de permitir que Frankenstein, seu criador, fugisse com sua esposa Elizabeth.
Novamente aqui o final foi alterado. Originalmente o cientista e sua esposa morreriam na explosão do laboratório, mas um novo final feliz foi colocado no lugar, no qual eles escapam em cima da hora. Entretanto, uma cena sobrou onde observadores mais atentos (quem tiver o filme gravado em vídeo, congele a imagem) podem localizar Henry sendo morto no laboratório (no canto esquerdo da tela), esmagado por escombros derrubados na explosão. Algum material de sobra do filme foi ainda mais tarde utilizado em sequências de “Ghost of Frankenstein” (1942) e “House of Dracula” (1945).
Existem muitas outras curiosidades e detalhes de bastidores do filme.
Durante a concepção do roteiro, os escritores consideravam a morte da esposa de Frankenstein, assassinada pelo ajudante Karl, para que seu cérebro pudesse ser insertado no crânio da companheira do monstro, mas a idéia foi rejeitada pela Universal. Originalmente o filme se chamaria “The Return of Frankenstein”, mas o título escolhido acabou sendo “The Bride of Frankenstein”, o que criou o famoso erro no público que Frankenstein é o nome do monstro em vez de seu criador.
Inicialmente, o papel do Dr. Pretorius seria do ator Claude Rains (o fantasma da ópera do cinema na versão de 1943), mas outros compromissos tornaram isso impossível e o escolhido foi Ernest Thesiger, que teve uma performance excelente e que entre outras, foi o autor da seguinte frase numa conversa com Henry: “Enquanto você estava brincando com carne morta, eu vinha com a semente original”.
Cerca de quinze minutos da versão inicial foram cortados. Entre eles, as sequências onde a investigação de um médico legista é interrompida pela repentina chegada do monstro, que mata violentamente o burgomestre da aldeia (E. E. Clive); a cena onde um aldeão, Karl Glutz, mata seu tio para roubar-lhe as economias e põe a culpa no monstro; um diálogo entre um amargurado Dr. Pretorius e Henry Frankenstein, onde o primeiro acusa o cientista de utilizar erradamente suas teorias de criação da vida e de levar a culpa por isso; a cena onde o monstro fugitivo esmaga um aldeão; e aquela onde ele acaricia o rosto de uma garota morta cujas partes do corpo seriam utilizadas na criação de sua companheira.
Entre as sequências antológicas, destaca-se aquela em que o monstro, triste por ser rejeitado por sua companheira, e revoltado com o criador Dr. Pretorius, diz com uma lágrima escorrendo pelo rosto, “Nós pertencemos aos mortos”, e puxa a alavanca que iniciaria uma explosão no laboratório e que os destruiria.
A música de Franz Waxman foi um sucesso tão grande que a Universal utilizou-a em sequências de “Flash Gordon”, “Buck Rogers” e inúmeros outros filmes “B”.
Enfim, apesar dos cortes e finais felizes, são dois clássicos imortais do cinema de horror da década de 30, juntamente com “The Mummy” e “King Kong” , ambos de 1933.

Frankenstein” (Frankenstein, 1931) – avaliação: 8,5 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com.br
blog: www.juvenatrix.blogspot.com.br (postado em 01/12/05)

Frankenstein (Frankenstein, Estados Unidos, 1931, Universal, preto e branco, 71 minutos)
Direção de James Whale. Produção de Carl Laemmle Jr. Roteiro de John L. Balderston, Garrett Fort, Francis Edward Faragoh e Robert Florey (não creditado), baseado na peça cinematográfica de Peggy Webling, adaptada da novela de Mary Wollstonecraft Shelley. Fotografia de Arthur Edeson. Direção de Arte de Charles D. Hall. Edição de Maurice Pivar. Cenários de Herman Rosse. Efeitos Especiais de John P. Fulton. Efeitos elétricos de Kenneth Strickfaden. Maquiagem de Jack Pierce. Música de David Broekman. Elenco: Boris Karloff, Colin Clive, Mae Clarke, Dwight Frye, John Boles, Edward Van Sloan, Frederick Kerr, Lionel Belmore, Michael Mark, Marilyn Harris.

A Noiva de Frankenstein” (The Bride of Frankenstein, 1935) – avaliação: 9 (de 0 a 10)

A Noiva de Frankenstein (The Bride of Frankenstein, Estados Unidos, 1935, Universal, preto e branco, 75 minutos)
Direção de James Whale. Produção de Carl Laemmle Jr. Roteiro de John L. Balderston e William Hurlbut, adaptado da novela de Mary Wollstonecraft Shelley. Fotografia de John J. Mescall. Direção de Arte de Charles D. Hall. Edição de Ted Kent. Efeitos Especiais de John P. Fulton. Efeitos Elétricos de Kenneth Strickfaden. Maquiagem de Jack Pierce. Música de Franz Waxman. Elenco: Boris Karloff, Colin Clive, Valerie Hobson, Ernest Thesiger, Una O’Connor, Elsa Lanchester, E. E. Clive, Dwight Frye, º P. Heggie, Anne Darling, Douglas Walton, Gavin Gordon, Neil Fitzgerald, Reginald Barlow, Mary Gordon, Ted Billings, Lucien Prival, John Carradine, Maurice Black, Billy Barty, Norman Ainsley, Joan Woodbury, Arthur S. Byron, Josephine McKim, Kansas DeForrest, Peter Shaw, Walter Brennan, Helen Parrish.

Sobre o diretor James Whale

Nasceu em Dudley, Inglaterra, em 1896. Primeiramente sendo um cartunista de jornal, Whale se decidiu por uma carreira no teatro depois de atuar em peças num campo de prisão alemão durante o serviço militar na Primeira Guerra Mundial. Ele trabalhou em Londres como ator, produtor e diretor até 1930, quando foi empregado por Hollywood para fazer o filme “Journey’s End”. Depois de co-dirigir “Hell’s Angels” com Howard Hughes, ele foi escolhido pela Universal para dirigir “Frankenstein”, filme que o lançou na carreira de diretor de horror. Trabalhou no ano seguinte em “The Old Dark House” (também com Karloff), e em 1935 com “The Bride of Frankenstein”. Whale também dirigiu um musical, “Show Boat” (1936), um filme de guerra, “The Road Back” (1937) e várias comédias e aventuras. Largou a direção no início da década de 40 e se dedicou à pintura. Foi encontrado morto em 1957, com 61 anos de idade, na piscina de sua casa, afogado aparentemente depois de uma misteriosa queda.

Sobre alguns outros filmes derivados ou baseados em “Frankenstein”

O clássico homônimo de 1931 inspirou inúmeras sequências e imitações. Alguns dos posteriores filmes onde o famoso cientista e sua criatura apareceram foram: Son of Frankenstein (39) / The Ghost of Frankenstein (42) / Frankenstein Meets the Wolf Man (43) / House of Frankenstein (44). Nestes filmes apareceram todos os famosos monstros da Universal: o cientista louco Frankenstein e sua criatura, Drácula e Lobisomem, que foram interpretados por atores conhecidos do gênero fantástico como Boris Karloff, Bela Lugosi, Lon Chaney Jr., John Carradine, Basil Rathbone, Lionel Atwill, Glenn Strange e Cedric Hardwicke.

No final da década de 50, a produtora inglesa “Hammer” iniciou uma série de sete filmes com a criatura, inaugurando com o clássico absoluto “A Maldição de Frankenstein” (The Curse of Frankenstein, 1957, DVD Warner), com Christopher Lee no papel do monstro e Peter Cushing como o cientista. Os filmes seguintes foram: “A Vingança de Frankenstein” (The Revenge of Frankenstein, 58), “O Monstro de Frankenstein” (The Evil of Frankenstein, 64), “Frankenstein Criou a Mulher” (Frankenstein Created Woman, 67, DVD Dark Side), “Frankenstein Tem Que Ser Destruído” (Frankenstein Must Be Destroyed!, 69, DVD Warner), “Horror de Frankenstein” (Horror of Frankenstein, 70, DVD Dark Side), e “Frankenstein and the Monster From Hell” (74, único filme da série ainda inédito no Brasil). Nesta série de filmes, Peter Cushing fez o papel do Dr. Frankenstein em quase todos, exceto por “Horror de Frankenstein”, onde o papel ficou com Ralph Bates. Já o monstro foi interpretado, entre outros, por Michael Gwynn, Kiwi Kingston e Dave Prowse (o Darth Vader da primeira trilogia filmada de “Star Wars”).

Em 1974, o comediante Mel Brooks dirigiu uma excelente paródia em preto e branco dos clássicos da Universal. “O Jovem Frankenstein” (Young Frankenstein) tem Gene Wilder como o cientista, Peter Boyle como a criatura e o engraçadíssimo Marty Feldman como o corcunda de olhos esbugalhados Ygor. Escrito por Wilder e Brooks, o filme está repleto de citações aos clássicos, todas muito bem humoradas. O maquinário do laboratório do cientista é uma cópia perfeita, sendo os equipamentos elétricos originais da época.

Entre meados dos anos 80 e a década de 90 tivemos vários filmes inspirados na obra de Mary Shelley e alguns deles valem um registro. “A Prometida” (The Bride, 1985), com um elenco formado pelo cantor Sting no papel do cientista e a atriz Jennifer Beals como sua criação para fazer companhia ao monstro. Porém, ela é jovem e bonita e rebela-se contra o criador. Em 1990 veio “Frankenstein, o Monstro das Trevas” (Frankenstein Unbound), dirigido por Roger Corman e um elenco formado por John Hurt, Raul Julia e Bridget Fonda. A história mistura horror com elementos de Ficção Científica onde em 2031 um cientista inventa uma máquina do tempo e retorna para o século XIX onde encontra a escritora Mary Shelley e o Dr. Frankenstein com sua criatura monstruosa. Em 1992 foi lançado “Frankenstein, a Verdadeira História” (Frankenstein), numa produção inglesa feita para a TV com Patrick Bergin e Randy Quaid contando a história do cientista e seu monstro. E em 1994, numa produção caprichada de Francis Ford Coppola, foi lançado “Frankenstein, de Mary Shelley” (Mary Shelley’s Frankenstein), dirigido e estrelado por Kenneth Branagh, ao lado de Robert De Niro (como o monstro), Ian Holm e Helena Bonhan-Carter. A história, a exemplo de “Drácula de Bram Stoker” (1992), também de Coppola, procura contar os eventos da forma mais fiel possível ao livro original de Mary Shelley.
No início do século XXI, mais filmes foram produzidos aumentando ainda mais a já extensa filmografia sobre “Frankenstein”. Em 2004 tivemos um filme homônimo dirigido por Marcus Nispel e outro com direção de Kevin Connor, sendo ambos lançados no mercado brasileiro de DVD.






Metrópolis (Alemanha, 1926)


Um dos maiores clássicos da ficção científica mundial e um dos expoentes máximos do cinema expressionista alemão da década de 20, Metrópolis, filme mudo dirigido por Fritz Lang em 1926, impressiona até hoje por seu visual futurista, com cenários e efeitos especiais fantásticos descrevendo uma enorme megalópole controlada por poderosos industriais utilizando uma imensa força de trabalho braçal de uma população renegada e condenada à escravidão, para manter sua oponência e grandiosidade.
Na cópia lançada em vídeo VHS no Brasil pela Continental, os seus longos 140 minutos mostram um espetacular show de imagens que muito influenciariam toda a história da ficção científica posterior, desde a concepção das imensas cidades do futuro, a apresentação de um dos mais famosos robôs de todos os tempos, quanto a estrutura política com seus regimes totalitários dividindo radicalmente a elite do proletariado.
O ano é 2026 no filme, exatamente cem anos a frente de sua produção. Nesse futuro obscuro, o mundo está dividido em duas classes sociais extremamente distintas, a elite dominante representando a mente que planeja, vivendo na superfície em imensas estruturas arquitetônicas rodeadas por um fluxo constante de trens, carros e veículos voadores, e os operários que representam a mão que constrói, vivendo como escravos em sua cidade nas profundezas muito abaixo do solo. Entre eles estão as grandiosas máquinas enterradas no subsolo, porém ainda assim muito acima do lar dos operários, que funcionam para manter o conforto e prazer dos lordes de Metrópolis, operadas ininterruptamente pelos trabalhadores prisioneiros. Essas monstruosas máquinas, típicas dos filmes de FC antigos, eram repletas de grandes alavancas de acionamento, luzes piscando para todos os lados, painéis enormes cobertos de relógios, mostradores analógicos, manípulos e válvulas de todos os tipos. Elas representavam a energia que mantinha o luxo para os ricos de Metrópolis e ao mesmo tempo eram os instrumentos de tortura para os pobres que a operavam incessantemente.
Considerados à margem da civilização, os trabalhadores contém seu compreensível desejo de revolta graças à liderança espiritual da filha de um deles, Maria (Brigitte Helm), que prega a paz conciliadora entre as classes sociais em reuniões regulares com a massa trabalhadora, nas antigas catacumbas ainda mais abaixo da cidade dos operários. Em suas palestras, ela pede a paciência deles em aguardar pacificamente o surgimento de alguém de “coração” que fará o papel de mediador para o entendimento entre os criadores de Metrópolis, o “cérebro que planeja”, e o proletariado, “as mãos que constróem”.
Quando Freder (Gustav Frohlich), o filho de um importante dirigente da cidade, John Fredersen (Alfred Abel), conhece e se apaixona por Maria, tem início uma grandiosa e incansável luta de igualdade de classes. Ele vai até as profundezas para conhecer a vida dos trabalhadores e testemunha um horrível acidente em uma das enormes máquinas, que explodiu devido à falha de um dos operários que desmaiou exausto, causando destruição com vários mortos e feridos. Como algo rotineiro e insignificante, a máquina logo é consertada e novos grupos de operários rapidamente voltam a movimentá-la. Indignado com o que presenciou, Freder se infiltra entre eles trocando sua identidade com um dos operários, sentindo na pele sua torturante jornada de trabalho e conhecendo sua rotina de vida diária sem liberdade.
Enquanto isso, o industrial John Fredersen descobre a existência de mapas das antigas catacumbas nos uniformes dos operários mortos no acidente com a máquina e presencia uma das pregações da líder Maria, juntamente com o cientista “louco” Rotwang (Rudolph Klein-Rogge), criador de um fantástico robô, que revolucionaria num futuro breve substituindo os trabalhadores por máquinas parecidas com o homem, com a vantagem de não se cansarem, reclamarem ou precisarem se alimentar. O dirigente de Metrópolis solicita então ao cientista que aprisione Maria e fizesse um clone dela com o andróide que ele criou, com o objetivo dela se infiltrar entre os trabalhadores substituindo a Maria real e alterando seu discurso de paz, incitando-os à discórdia, violência e a destruição das máquinas. Os operários logo partem para uma revolta e uma imensa massa passa a destruir as máquinas ocasionando a explosão dos reservatórios de água que inundaram sua cidade subterrânea colocando em risco suas próprias famílias.
Ao perceberem o erro que cometeram, eles se voltam contra o andróide de Maria que incitou-os à destruição, e o queimam numa estaca como uma bruxa da antiga inquisição européia. Na fogueira, com a ação das chamas o robô retorna a sua imagem original, uma espécie de armadura de aço, causando surpresa aos trabalhadores motinados. Nesse momento, a verdadeira Maria consegue escapar do laboratório de Rotwang e encontra Freder, onde juntos conseguem salvar os filhos dos operários da inundação da cidade e avisam a eles que suas famílias estavam a salvo, acalmando sua fúria, mas não impedindo uma forte luta entre o jovem e herói Freder e o cientista “louco” Rotwang que os leva até o topo de um prédio e culmina com a morte do cientista numa queda fatal.
Finalmente a massa de trabalhadores liderados pelo capataz do dínamo central, a principal máquina que mantém Metrópolis, e o dirigente John Fredersen, se reúnem para uma conciliação, o que se efetiva através do “coração mediador” de Freder, que une as mãos de ambos num aperto que selaria a paz e convivência com igualdade social.
O que é mais expressivo nesse clássico do cinema fantástico é inegavelmente os grandiosos cenários e o visual impressionante de uma metrópole futurista, que se sobrepõe ao roteiro e às interpretações do elenco. As cenas também da transformação do sensual robô no clone de Maria são épicas e antológicas, estando entre as mais significativas e inesquecíveis da história da ficção científica no cinema. O laboratório do cientista “louco” Rotwang apresenta todos os elementos característicos da FC da época, com enormes máquinas elétricas, eletrodos, alavancas, botões, equipamentos químicos, etc., que influenciariam inúmeras obras a seguir como o fantástico laboratório científico do Dr. Frankenstein em seu filme homônimo de 1931. O cientista Rotwang encarnou o típico personagem insano em meio às suas experiências científicas e ameaçadoras para a humanidade, o que seria eternamente visto em outras produções de horror e ficção científica dos anos seguintes, como a influência clara em Dr. Fantástico (1964, de Stanley Kubrick), onde seu cientista “louco” Dr. Strangelove, interpretado pelo magnífico Peter Sellers, e o Rotwang de Metrópolis tem a mesma mão direita mecânica.
Seu roteiro tem claras ideologias políticas e metáforas com a Alemanha da época de sua produção, como a cidade dos operários nos subterrâneos representando os discriminados guetos judeus. Politicamente existe duas teorias sobre o final do filme, uma mostrando a derrota do totalitarismo com o dirigente principal da metrópole aceitando a participação do proletariado no poder também, e outra onde esse ato de conciliação das classes sociais significaria a vitória da elite dominante conseguindo a aproximação do povo e sua consequente submissão ideológica. A mitologia também está presente na obra, com a bela cidade da superfície e os subterrâneos representando o paraíso e o inferno respectivamente, e com o jovem Freder descendo ao inferno e presenciando os tormentos de um mundo artificial sem liberdade, para tornar-se um “salvador” da paz entre as classes sociais, conforme profetizado pela líder dos operários e sua amada Maria.
Metrópolis é monumental em todos os aspectos, é um épico da ficção científica que durou quase um ano e meio de produção, envolveu cerca de trinta e sete mil extras e foi o maior orçamento na Alemanha até então, porém não foi um sucesso de bilheteria como esperava-se e o prejuízo financeiro para sua produtora Universum Film foi significativa. O diretor Fritz Lang rumou depois para os Estados Unidos, sendo reconhecido como um dos grandes cineastas de seu tempo. Esperamos que o futuro obscuro que ele previu em seu filme não se concretize na realidade, e possamos finalmente nessa primeira metade de um novo século (e milênio) vivermos com a tão esperada paz política e tecnológica, sem guerras e preconceitos, típicos do ser humano.

“Metrópolis” (Metropolis, 1926) – avaliação: 9 (de 0 a 10)
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blog: www.juvenatrix.blogspot.com.br (postado em 01/12/05)

Metrópolis (Metropolis, Alemanha, 1926) – Universum Film A. G., preto e branco, mudo, 140 minutos. Direção de Fritz Lang. Roteiro de Fritz Lang e Thea Von Harbou. Fotografia de Karl Freund e Gunther Rittau. Produção de Erich Pommer. Música de Gottfried Huppertz. Efeitos Especiais de Eugene Schufftan. Com Brigitte Helm (Maria), Alfred Abel (John Fredersen), Gustav Frohlich (Freder), Rudolph Klein-Rogge (Rotwang), Heinrich George, Fritz Rasp. Em vídeo VHS pela Continental.