O Planeta dos Vampiros (Planet of the Vampires, Itália, 1965)



“Eles ousaram ir para além do espaço conhecido, e pelo terror desconhecido.”
‘O terror atormenta as galáxias! E o Universo estremece!”
“Um suspense arrebatador!”

A utilização de frases de efeito como essas acima, nitidamente exageradas, era uma estratégia comum de marketing para chamar a atenção do público nos antigos filmes de horror e ficção científica. Elas foram extraídas do trailer de “O Planeta dos Vampiros” (Terrore Nello Spazio / Planet of the Vampires), uma divertida bagaceira italiana de 1965.
A direção é do especialista e mestre do Horror gótico Mario Bava (1914 / 1980), cultuado pelo significativo legado no cinema fantástico, com preciosidades como “A Maldição do Demônio” (1960), “As Três Máscaras do Terror”, “O Chicote e o Corpo” (ambos de 1963) e “O Ciclo do Pavor” (1966), entre outros, e foi lançado em DVD no Brasil pela “Versátil”, na coleção “Clássicos Sci-Fi – Volume 1”. Antes, já havia sido lançado por aqui na época do VHS pela “LK-Tel Vídeo”.
Quando se pensa num filme de Ficção Científica com elementos de Horror, logo vem à mente “Alien – O Oitavo Passageiro” (1979), de Ridley Scott, que ficou eternizado na cultura pop, com toda uma franquia composta por vários filmes, quadrinhos, videogames e outros produtos, tornando-se referência para uma infinidade de filmes seguintes. Mas, um fato relevante que deve ser evidenciado é que muitos anos antes já havia sido lançado “O Planeta dos Vampiros”, um exemplo genuíno de FC com Horror e que certamente serviu de inspiração para “Alien”, devido aos elementos similares.
O filme é baseado na história “One Night of 21 Hours”, de Renato Pestriniero, publicada na revista “Interplanet” # 3. No roteiro de Ib Melchior temos duas naves espaciais, Argos e Galliot, em missão rumo ao nebuloso planeta Aura, para investigar misteriosos sinais eletrônicos que indicavam serem emitidos por alguma raça alienígena inteligente. Porém, chegando ao planeta, numa aterrissagem turbulenta, a tripulação da Argos sofre um ataque temporário de loucura e violência, com os astronautas tentando matar uns aos outros. Após recobrarem o controle de suas ações, eles tentam entender o mistério e descobrem que seus companheiros da Galliot também pousaram no planeta, mas estão mortos num ataque descontrolado de fúria entre eles.
O Capitão Mark Markary (o americano Barry Sullivan) e outros membros da tripulação como a oficial de comunicações Sanya (a brasileira Norma Bengell) e o engenheiro Wess Wescant (o espanhol Ángel Aranda), tentam consertar a nave para retornar ao espaço, mas enfrentam uma série de crises crescentes com os tripulantes mortos da Galliot saindo de seus túmulos e uma terrível ameaça invisível dos habitantes hostis do planeta.
“O Planeta dos Vampiros” é um daqueles divertidos filmes que representam muito bem o cinema antigo de ficção científica e horror com produção de baixo orçamento, desde a interessante história aos efeitos especiais datados, com a utilização de miniaturas e truques de perspectiva, numa época sem computação gráfica e com grande valor para a criatividade. O ambiente interno da nave é espaçoso, com grandes áreas livres e painéis repletos de interruptores, sinaleiros e botões com luzes coloridas, numa representação típica da época. E a estética externa da nave também é bem simples e rústica. Os uniformes dos astronautas são estilosos e exagerados no couro preto. A superfície do planeta Aura é fantasmagórica, envolta em névoa densa e rochas coloridas para todos os lados, evidenciando um sentimento perturbador de um ambiente alienígena, tudo encenado num estúdio vazio e preenchido com fumaça e luzes coloridas.
Em determinado momento, o Capitão Markary e sua colega Sanya encontram os destroços de uma nave colossal e os ossos enormes de seus tripulantes, sendo um dos destaques do filme quando eles investigam o interior dessa nave misteriosa.  
Antigamente não havia tanta preocupação com revelações e os chamados “spoilers” não tinham a importância de hoje, com a internet e as redes sociais proliferando informações. Esse fato é bem exemplificado no trailer, que traz um “spoiler” gigantesco sobre os alienígenas e suas intenções. Outra curiosidade interessante é que seria bem mais apropriado que o nome do filme fosse “O Planeta dos Zumbis”, pois os astronautas que abandonam suas covas estão mais para mortos vivos do que vampiros. O título foi escolhido para a versão americana da “American International”, produtora dos lendários Samuel Z. Arkoff e James H, Nicholson.
A narrativa é mais lenta, uma característica comum nos filmes mais antigos em oposição ao ritmo frenético, acelerado e barulhento das produções atuais carregadas de efeitos em CGI, e para os apreciadores do cinema fantástico bagaceiro do passado esse fluxo narrativo mais cadenciado é melhor e mais desejável.
“O Planeta dos Vampiros” é altamente recomendável, tem o mestre Mario Bava e um desfecho pessimista com final surpresa memorável.               

Diário de bordo do Capitão:
“Um capitão não deveria ter medo. E eu confesso agora, a quem estiver ouvindo, que hoje, agora mesmo, eu estou com medo. Minha tripulação não deve ficar sabendo. Devo mantê-la ocupada. Não devem saber que a situação é cada vez mais desesperadora à medida que passam os dias. Fala o Capitão Markary, da nave Argos, no planeta Aura, ano...

(RR – 22/01/20)
















Nosferatu (Alemanha, 1922, PB, mudo)


À noite, Nosferatu crava suas presas em sua vítima e alimenta-se de seu sangue, seu infernal elixir da vida. Cuidado para que a sombra dele não sobrecarregue seus sonhos com medos horríveis.”

Um dos mais importantes estilos cinematográficos da história do cinema de Horror é o “Expressionismo Alemão”, que produziu filmes principalmente na década de 1920. Caracterizado pelo uso de cenários e personagens distorcidos, com maquiagem exagerada e uma atmosfera sombria e sobrenatural obtida por recursos criativos de fotografia, com a ideia de expressar o momento pessimista e depressivo que a Alemanha enfrentava após a derrota na Primeira Guerra Mundial (1914 / 1918).
E um dos mais significativos representantes desse estilo é “Nosferatu” (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, 1922), mudo, fotografia em preto e branco, e direção de F. W. Murnau. Foi lançado em DVD no Brasil em 2019, numa edição especial da “Versátil”, junto com a versão de 1979 dirigida por Werner Herzog, e vários materiais extras interessantes.
Ambientado em 1838 na cidade alemã de Wisborg, o corretor de imóveis Hutter (Gustav V. Wangenheim) vai para a Transilvânia, nos Montes Cárpatos, visitar o misterioso Conde Orlok (Max Scherek) para oferecer a venda de uma grande casa abandonada, que fica situada em frente da sua própria casa em Wisborg. Ao chegar num vilarejo próximo ao castelo desolado de seu cliente, ele é alertado pelos aldeões amedrontados e supersticiosos para não continuar a viagem até o sinistro conde, mas Hutter ignora os avisos. Ele é recebido por Orlok, também conhecido como o temível vampiro Nosferatu, e concretiza a venda do imóvel, mesmo sentindo uma desconfortável atmosfera sombria no castelo e com seu anfitrião estranho. As coisas complicam ainda mais depois que Orlok vê uma foto da bela e jovem esposa de Hutter, Ellen (Greta Schroder), por quem ele fica obcecado.
Nosferatu viaja para Wisborg e seu navio amaldiçoado chega ao porto trazendo um caixão com a terra natal do conde, junto com uma invasão de ratos pestilentos e todos os tripulantes mortos, deixando a polícia local intrigada e preocupada com a disseminação da peste negra na cidade. O vampiro se instala na nova casa e com hábitos noturnos e aversão ao sol, passa a perseguir implacavelmente a inocente Ellen em busca de seu sangue imaculado.
“Nosferatu” é um dos principais filmes mudos de horror que ficou eternizado com algumas das cenas mais clássicas e marcantes na história do gênero. Temos “a sombra do vampiro subindo as escadas para o ataque no quarto de Ellen” (e que ilustra um dos cartazes do filme); “o navio fantasma chegando ao porto sem ninguém vivo, trazendo a praga para a cidade”, e “Nosferatu levantando-se vagarosamente de seu repouso no caixão que está no navio da morte”, entre outras.
O filme possui uma diferença significativa em comparação com outros do expressionismo alemão, ao realizar filmagens externas com planos sinistros de florestas fantasmagóricas e do castelo gótico, em vez de cenários artificiais criados em estúdios. Outro detalhe interessante que merece registro é a concepção do vampiro, num estilo mais folclórico e assustador, com orelhas pontudas, sem cabelos, olhos profundos, dentes pontiagudos e dedos longos com unhas imensas, diferente dos vampiros românticos e sedutores muito explorados nos filmes seguintes. Curiosamente, na versão lançada em DVD pela “Versátil”, ao contrário de outras versões, as cenas externas possuem uma coloração azulada para passar uma ideia de ação noturna, uma vez que o vampiro seria destruído pela luz do dia.
Na época do lançamento nos cinemas, o retorno financeiro foi abaixo do esperado com uma recepção fria do público, e a produtora “Prana” entrou em falência poucos meses depois, ao enfrentar também um processo judicial movido pela viúva do escritor irlandês Bram Stoker, que acusou o filme de ser baseado sem autorização no livro “Drácula”, escrito em 1897. As cópias de “Nosferatu” foram recolhidas e destruídas, mas por sorte o filme conseguiu ainda sobreviver “como um vampiro” e recebeu várias restaurações para serem apreciadas pela eternidade, agregando um valor inestimável para o cinema de horror gótico.      

Da semente do Belial veio o vampiro Nosferatu, que vive e se alimenta do sangue dos homens e, sem redenção, faz sua morada em horrendas cavernas, sepulturas e caixões repletos de terra amaldiçoada dos campos da Peste Negra.

(RR – 01/01/20)












Zombi 3 (Zombie Flesh Eaters 2, Itália, 1988)




Também conhecido como “Zombie Flesh Eaters 2”, “Zombi 3” é uma bagaceira italiana no sub-gênero “mortos-vivos” dirigida por Lucio Fulci e Bruno Mattei (não creditado). Tudo é muito confuso e longe de qualquer coerência, desde o roteiro de Claudio Fragasso, um clichê imenso dentro do universo ficcional largamente já explorado sobre as criaturas que retornam da morte, até a bagunça com o título do filme. “Zombi 3” é considerado uma sequência (mesmo sem relação direta entre as histórias) de “Zombie – A Volta dos Mortos” (Zombie Flesh Eaters, 1979, lançado em DVD no Brasil pela “Dark Side”), que por sua vez também era conhecido como “Zombi 2”, numa jogada de marketing picareta insinuando alguma relação (inexistente) com o americano “Despertar dos Mortos” (Dawn of the Dead, 1978, de George Romero). É tudo tão confuso que nem vale a pena gastar energia tentando encontrar alguma lógica nesses títulos.
Um cientista maluco está trabalhando num projeto militar de arma química e depois que um grupo terrorista rouba um poderoso vírus, ocorre uma contaminação numa ilha das Filipinas, com a população se transformando em zumbis carnívoros repletos de feridas pútridas e sangue gosmento escuro. Alguns soldados unem-se com um grupo de turistas e todos lutam por suas vidas refugiando-se num hotel abandonado, combatendo um ataque de zumbis.     
                O filme é ruim, com elenco amador e efeitos toscos, sendo infinitamente inferior ao anterior de 1979, bem mais violento e significativo dentro da história do subgênero do cinema de horror sobre zumbis comedores de carne humana. Sempre esperamos por uma boa diversão no cinema bagaceiro de horror, mas em “Zombi 3” a história é entediante e a enorme quantidade de absurdos, furos no roteiro e cenas risíveis de ataques dos zumbis contribuem para o desinteresse.
Não existe um padrão para os mortos-vivos, às vezes são lentos e pouco ameaçadores, e em outros momentos são ágeis, violentos e letais. Até tem algumas cenas sangrentas, mas que perdem em comparação com outros filmes de Lucio Fulci, um cineasta especialista no gênero e conhecido pelos excessos de violência.
Existem cenas envoltas em quantidade exagerada de névoa, algo compreensível uma vez que o objetivo é aumentar uma já desconfortável sensação de insegurança com os ataques dos zumbis, mas que desaparecem de forma abrupta, evidenciando falhas de continuidade significativas, e uma falta de atenção para detalhes que desrespeita o espectador.
Entre as curiosidades, tem uma cena patética envolvendo uma cabeça decepada zumbi, que escondida numa geladeira, surpreende uma vítima voando para rasgar sua garganta. Cena similar aparece também no posterior “Pelo Amor e Pela Morte” (Dellamorte Dellamore, 1993), outra bagaceira italiana, dirigida por Michele Soavi.
O cineasta Lucio Fulci (1927 / 1996) é bastante cultuado por seus filmes exagerados em violência e sangue, como “Pavor na Cidade dos Zumbis” (1980) e “Terror nas Trevas” (1981). Ele revelou que não gostou do roteiro de “Zombi 3” e filmou cerca de 70 minutos, obrigando os produtores a chamar outro diretor para a conclusão. O escolhido foi Bruno Mattei (1931 / 2007), também conhecido pelo currículo repleto de tranqueiras utilizando pseudônimos, muitas delas no gênero Horror e várias igualmente pouco divertidas.

Os mortos se levantam, matam seus amigos e comem seus corpos.

(Juvenatrix – 03/06/19)

A Noite do Demônio (Night of the Demon, Inglaterra, 1957, PB)


Que terrível destino acontecerá àqueles que desafiam a “Noite do Demônio”?

Lançado em DVD no Brasil pela “Versátil”, na coleção “Obras Primas do Terror – Volume 1”, “A Noite do Demônio” (Night of the Demon / Curse of the Demon, 1957) é uma produção inglesa de horror psicológico, com fotografia em preto e branco e direção do francês Jacques Tourneur, famoso cineasta com preciosidades no currículo como “Sangue de Pantera” (1942), “A Morta-Viva” (1943),  “Farsa Trágica” (1963) e “Monstros da Cidade Submarina” (1965), esses dois últimos com Vincent Price.

Está escrito desde o início do tempo, até mesmo nessas antigas pedras (referência ao monumento histórico Stonehenge, na Inglaterra), que criaturas malignas sobrenaturais existem em um mundo de trevas. E também se diz que o Homem que pode utilizar o poder mágico dos antigos símbolos rúnicos, pode invocar esses poderes das trevas e os demônios do inferno. Ao longo das eras, o Homem tem temido e venerado tais criaturas. A prática da bruxaria e dos cultos do mal resistiu e ainda continua em nossos dias. 

Um psicólogo americano, John Holden (Dana Andrews, de “Uma Fenda no Mundo”, 1965), viaja até Londres, Inglaterra, para participar de uma convenção científica com o objetivo de investigar e denunciar como fraude as ações de um culto demoníaco liderado pelo ocultista Dr. Julian Karswell (Niall MacGinnis).
Holden recebe a ajuda da jovem Joanna Harrington (Peggy Cummins), uma professora de escola infantil que é sobrinha do Prof. Harrington (Maurice Denham), um cientista que investigava a seita satânica e que morreu de forma misteriosa num acidente de carro. Ela tenta convencer o cético psicólogo americano dos perigos reais do satanismo e das práticas de bruxaria, e que ele pode ser uma vítima de uma maldição demoníaca que ameaça sua vida, através de um pergaminho com inscrições rúnicas.
“A Noite do Demônio” é um filme de horror psicológico e magia negra, cuja ideia central é o questionamento da existência do Mal, representado por criaturas do inferno invocadas em cultos satânicos. Combatendo o ceticismo e em alguns momentos o sarcasmo de John Holden, um homem da ciência que defende que os demônios são apenas invenções de auto-sugestão ou histeria em massa. Mas, os conceitos de feitiçaria não são apenas originários de princípios simplórios como a lendária bruxa cavalgando sobre sua vassoura, ou o mau olhado que tortura os pensamentos de sua vítima, ou o alfinete espetado na imagem que enfraquece a mente e o corpo. Os demônios podem ser reais e o cético John Holden irá arriscar sua vida para conhecer a verdade sobre essas criaturas ancestrais que já faziam parte de diversas culturas antigas, como o “Baal” dos babilônios, “Seth” dos egípcios, “Asmodeu” dos persas, ou “Moloch” dos hebreus.
Entre as curiosidades, vale destacar que o filme é baseado no conto “Casting the Runes”, de Montagne R. James, publicado em 1911. E uma questão bastante comentada é sobre a exposição do demônio, que aparece pouco e mesmo visto apenas em alguns momentos rápidos, muitos fãs e profissionais que trabalham com o gênero parecem concordar que seria mais eficaz para a história se ele nem aparecesse. Tanto que o diretor Jacques Tourneur, que prefere o horror sugestivo, fez questão de evidenciar que não era sua intenção mostrar a criatura, deixando para a imaginação do espectador, e que a decisão da exposição do monstro do inferno foi dos produtores, com as cenas adicionadas na pós-produção, sem a participação do diretor. Eu, particularmente, como apreciador do cinema bagaceiro de horror, gostei da aparição do demônio em efeitos toscos e divertidos (a criatura infernal estampa o pôster e recebeu grande destaque, ajudando muito na divulgação e trabalho de marketing).  

Como quem vai com medo e horror num caminho deserto. Pois sabe que algum demônio medonho o segue bem de perto. – trecho do poema “A Balada do Velho Marinheiro”

(RR – 07/03/19)









O Chicote e o Corpo (The Whip and the Body, Itália / França, 1963)



Horror gótico italiano de primeira linha, dirigido pelo mestre Mario Bava e com o ícone Christopher Lee

Lançado em DVD no Brasil pela “Versátil”, na coleção “Obras Primas do Terror – Volume 1”, “O Chicote e o Corpo” (The Whip and the Body) é um filme de horror gótico dirigido pelo especialista italiano Mario Bava e com Christopher Lee como vilão.
Curto, com apenas 78 minutos de duração, a história é ambientada na Europa do século XIX, num castelo à beira do mar, de propriedade do Conde Vladimir Menliff (Gustavo De Nardo, creditado como Dean Ardow). Lá vivem também seu filho Cristiano (Tony Kendall), prestes a se casar com a noiva Nevenka (Daliah Lavi), além de Katia (Evelyn Stewart, creditada como Isli Oberon) e os empregados Giorgia (Harriet Medin, creditada como Harriet White) e Losat (Luciano Pigozzi, creditado como Alan Collins). O ambiente fica bastante tenso com a chegada de Kurt Menliff (Christopher Lee), outro filho do conde, que já teve um relacionamento conturbado com Nevenka e foi o responsável pelo suicídio de Tanya, a filha da empregada Giorgia, após outro romance mal resolvido.
Kurt é recebido com hostilidade pela família, com conflitos constantes e sentimentos de desconfiança e ódio. Depois que ele é assassinado misteriosamente, como num plano de vingança, as tensões no castelo se intensificam ainda mais e Nevenka passa a sofrer terrivelmente com alucinações e ataques do fantasma perturbado de Kurt, que retorna da tumba para assombrar o castelo.
O cineasta Mario Bava (1914 / 1980), de clássicos como “A Maldição do Demônio” (1960), “As Três Máscaras do Terror” (1963) e “O Planeta dos Vampiros” (1965), entre outros, é considerado um mestre italiano do Horror gótico. Em “O Chicote e o Corpo” temos a tradicional ambientação sombria de um castelo imponente no alto de uma montanha beirando o mar. Com o barulho constante de fortes ventanias e ondas se chocando contra as rochas, contribuindo ainda mais para uma atmosfera sinistra que perdura o tempo todo pelos aposentos e becos escuros do castelo, com suas passagens secretas e armaduras medievais decorativas. Vozes, sombras, o horror à espreita, mortes, perseguições, loucura, todos esses elementos juntos para fazer do castelo um palco de pesadelos num horror gótico de gelar a alma dos vivos.
Christopher Lee (1922 / 2015), com seu currículo de quase 300 filmes, está imponente como sempre, no papel de um vilão que chicoteia uma mulher e assombra o castelo da família em busca de vingança contra seus detratores.

Eu te assusto? Você gostava de mim antes. Você sempre gostou de violência. Você não mudou nada. Você não mudou e nunca mudará.” – Kurt para Nevenka    

(Juvenatrix – 25/11/18)

O Vampiro da Noite (Horror of Dracula, Inglaterra, Hammer, 1958)




Clássico absoluto da Hammer, um dos mais importantes filmes do sub-gênero vampirismo, da história do Conde Drácula e da carreira de Christopher Lee

No final da década de 50 do século passado, o cinema de Horror enfrentava uma crise com perdas de audiência para a televisão. Nessa época, a produtora inglesa “Hammer”, sob a liderança dos executivos Michael Carreras e Anthony Hinds, decidiu revitalizar o gênero trazendo novamente às telas do cinema os famosos monstros consagrados pelo estúdio americano “Universal” com seus filmes em fotografia em preto e branco. Dessa forma, os famosos ícones populares do Horror voltaram, e novos filmes foram produzidos com “Drácula”, “Criatura de Frankenstein”, “Múmia”, “Fantasma da Ópera”, “Lobisomem”, e outros. Porém, dessa vez com fotografia em cores e destacando o vermelho do sangue, surgindo clássicos absolutos do Horror gótico como “A Maldição de Frankenstein” (1957) e “O Vampiro da Noite” (1958), lançando atores que se transformaram em lendas do gênero como Christopher Lee e Peter Cushing. Além de diretores que se tornaram nomes conhecidos como Terence Fisher, o principal cineasta do estúdio, e roteiristas como Jimmy Sangster.
A história é baseada no famoso livro de Bram Stoker, mas nesse caso com alguma liberdade de criação artística e alterações que não prejudicaram. Jonathan Harker (John Van Eyssen) vai trabalhar como bibliotecário no castelo do Conde Drácula (Christopher Lee), numa cidadezinha alemã, para supostamente catalogar os livros de seu acervo. Ele tem um encontro tenso tanto com seu anfitrião quanto com uma vampira escravizada (Valerie Gaunt). Drácula conhece a noiva de Harker através de uma foto, Lucy Holmwood (Carol Marsh), e fica obcecado por ela, decidindo viajar para a Inglaterra a sua procura. Lá, conhece também seu irmão Arthur (Michael Gough) e a esposa Mina (Melissa Stribling), que se transforma em mais uma de suas vítimas vampirizadas. Para combatê-lo, surge o Prof. Van Helsing (Peter Cushing), estudioso de vampirismo e que tenta salvar Lucy das garras do “vampiro da noite”.    
Como infelizmente uma infinidade de filmes com vampiros contribuíram para desqualificar a mitologia tradicional dessas criaturas da noite, é extremamente louvável que a “Hammer” e seu clássico “O Vampiro da Noite” tenha respeitado alguns dos elementos típicos do vampirismo, como aversão ao sol, ao cheiro do alho, ao crucifixo como símbolo religioso do bem contra o mal, e a evidência da tão temida estaca de madeira cravada no coração como ato de destruição de um vampiro.
Ao contrário do igualmente clássico de Tod Browning lançado em 1931, com fotografia em preto e branco e Bela Lugosi interpretando magistralmente Drácula, e que tinha interpretações teatrais do elenco e uma narrativa mais pausada, o filme de 1958 da “Hammer” tem mais ação e cenas com violência e sangue. Como quando Drácula agride uma vampira escravizada em seu castelo, jogando-a brutalmente no chão, além dos vários momentos onde o sangue escorre das vítimas do conde vampiro.
Christopher Lee (1922 / 2015) aparece e fala pouco, mas todas as suas cenas são sinistras e marcantes. Com sua atuação como Drácula nesse e em vários outros filmes, tanto da “Hammer” como de outras produtoras, ele registrou para sempre seu nome na história do cinema de Horror e vampirismo. Seu parceiro de muitos filmes, Peter Cushing (1913 / 1994), também se tornou outro ícone do Horror e é muito lembrado pelas diversas performances como Van Helsing, o eterno inimigo de Drácula. O confronto final entre eles em “O Vampiro da Noite” é antológico.
Aliás, esse filme inaugurou uma série da “Hammer” com Drácula e foi seguido por “As Noivas do Vampiro” (The Brides of Dracula, 1960, esse sem Christopher Lee e com David Peel interpretando um descendente de Drácula), “Drácula, o Príncipe das Trevas” (Dracula, Prince of Darkness, 1965), “Drácula, O Perfil do Diabo” (Dracula Has Risen From the Grave, 1968), “O Sangue de Drácula” (Taste the Blood of Dracula, 1970), “O Conde Drácula” (Scars of Dracula, 1970), “Drácula no Mundo da Mini Saia” (Dracula AD 1972), “Os Ritos Satânicos de Drácula” (The Satanic Rites of Dracula, 1973), e “A Lenda dos Sete Vampiros” (The Legend of the 7 Golden Vampires, 1974, esse também sem Christopher Lee, e com John Forbes-Robertson em seu lugar).    

(RR -  19/11/2018)














Comentários de Cinema - Parte 40





Invasion of the Saucer Men (1957)

FC bagaceira divertida dos anos 50 com discos voadores e pequenos alienígenas cabeçudos com olhos esbugalhados

Para os apreciadores dos antigos filmes bagaceiros de ficção científica e horror da década de 1950 (principalmente), um filme que sempre é lembrado por suas características que moldaram o sub-gênero de invasão alienígena é “Invasion of the Saucer Men”. Tem o tradicional disco voador pousando numa floresta perto de uma pequena cidade americana, os alienígenas pequenos com cabeças enormes e olhos esbugalhados, ameaçadores e hostis para a humanidade, e as ações (nesse caso incompetentes) da polícia local e principalmente do exército em ocultar as evidências para não criar pânico.
O filme foi distribuído em 1957 pela cultuada “American International”, da dupla de especialistas James H. Nicholson e Samuel Z. Arkoff. Com fotografia em preto e branco, a direção é de Edward L. Cahn, que também foi o responsável por diversas outras tosquices divertidas do período como “O Cadáver Atômico” (55), “O Fantasma de Mora Tau” (57) e “Invasores Invisíveis” (59). Curto com apenas 69 minutos, seu roteiro tem muitos elementos de humor interagindo com os momentos de horror e sua ideia básica de FC fuleira, baseado na história “The Cosmic Frame”, de Paul W. Fairman. 
Um jovem casal de namorados, Johnny Carter (Steven Terrell) e Joan Hayden (Gloria Castillo), vão de carro para um local conhecido como parada tradicional para namorar e beber cerveja, localizado dentro da propriedade do fazendeiro Larkin (Raymond Hatton), que não gosta da invasão dos intrusos e dos restos de cerveja jogados no campo e que são consumidos depois por seu touro de estimação. Quando os jovens decidem retornar para a cidade, atropelam acidentalmente um pequeno alienígena que acabara de chegar com sua nave espacial em forma de disco voador.
A partir daí, inicia-se uma série de confusões depois que dois sócios oportunistas e interessados em ganhar dinheiro de qualquer forma, Joe Gruen (Frank Gorshin) e Artie Burns (Lyn Osborn), se envolvem com a descoberta da nave e seus ocupantes cabeçudos, que emitem ruídos estranhos e possuem garras nas mãos que injetam álcool nas suas vítimas. Para aumentar o tumulto, ainda tem o exército atrapalhado, que tenta esconder a nave e ocultar a invasão, em ações lideradas pelo Coronel Ambrose (Sam Buffington) e o Tenente Wilkins (Douglas Henderson).
“Invasion of the Saucer Men” é o exemplo típico do cinema bagaceiro de ficção científica que diverte com suas inúmeras bobagens, em histórias ingênuas e exageradas na fantasia, representando o período conturbado da década de 1950, com a paranoia de invasão alienígena depois do famoso incidente ufológico em 1947 na cidade americana Roswell.
O disco voador é uma maquete tosca (numa época sem computação gráfica), os alienígenas invasores são interpretados por atores anões vestindo roupas e máscaras de borracha, com imensas cabeças e olhos esbugalhados, encarnando o típico estereótipo criado pelo cinema para esses seres hostis vindos de outros mundos. A história é simples e sem profundidade, não há explicações sobre o disco voador e os extraterrestres, eles apenas vieram e são ameaçadores. Tudo é tratado de forma superficial e conveniente para os baixos custos da produção, com diálogos rasos e situações previsíveis. Mas, o resultado final é pura diversão para quem aprecia o cinema fantástico bagaceiro.    
Curiosamente, tanto a nave espacial quanto a maquiagem dos alienígenas foram confeccionados pelo técnico em efeitos especiais Paul Blaisdell (1927 / 1983), que trabalhou para vários outros filmes similares na época, marcando seu nome no gênero. E foi lançada uma refilmagem em 1965 com o título “The Eye Creatures”, dirigido por Larry Buchanan.
(RR – 29/04/18)





The War in Space (Japão, 1977)

Ficção Científica bagaceira japonesa da Toho e clone pobre de Star Wars

The War in Space” é o título americano dessa bagaceira de FC japonesa produzida pela “Toho” em 1977, aproveitando o lançamento de “Star Wars” para tentar lucrar com as histórias de guerras no espaço. O filme também é conhecido como “Battle in Outer Space 2”, numa referência como algum tipo de sequência para “Os Bárbaros Invadem a Terra” (The Mysterians, 1957) e “Mundos em Guerra” (Battle in Outer Space, 1959), ambos dirigidos por Ishirô Honda.
A história é ambientada em 1988, um futuro para a época da produção e um passado já distante para os tempos atuais, 30 anos depois. A Terra está sendo atacada por alienígenas de um planeta muito distante que está em processo de extinção, e que procuram outro lugar para viverem, um dos clichês mais saturados desse sub-gênero da FC. Eles estabelecem uma base em Vênus e promovem um ataque destrutivo nas principais cidades do nosso mundo. Para combatê-los, um renomado cientista japonês, Professor Takigawa (Ryô Ikebe, que esteve também no anterior “Mundos em Guerra”), projetou a nave de guerra “Gothen”, que é utilizada como representante da humanidade e da “Federação Espacial das Nações Unidas” para deter a invasão alienígena.
A “Gothen” tem uma broca perfuradora gigante localizada na parte frontal e com suas armas de raios laser e um sistema de lançamento de aviões similar ao disparo de projéteis de um revólver, vai até Vênus para destruir a base inimiga. A bela filha do cientista, June (Yûko Asano), é sequestrada pelo líder dos vilões e seu antigo namorado, Miyoshi (Kensaku Morita), tenta resgatá-la, respondendo um pedido do atual noivo da moça, o piloto Morrei (Masaya Oki), formando um tradicional e clichê triângulo amoroso. Trava-se então uma guerra no espaço longínquo, no distante planeta Vênus, entre os humanos e os alienígenas invasores, com sua imensa nave na forma de um galeão típico de navegação em nossos oceanos, com suas esferas voadoras que soltam raios laser.
“The War in Space” ou “Wakusei Daisenso” (no original japonês) é um filme bagaceiro de ficção científica dirigido por Jun Fukuda, com uma história típica das exageradas batalhas espaciais entre os humanos e invasores alienígenas, pela defesa de nosso planeta tão cobiçado. A única característica realmente interessante, para os apreciadores do cinema fantástico bagaceiro, são as esperadas maquetes e miniaturas de naves e aviões de guerra, os cenários coloridos tanto das bases terrestre como a alienígena, os computadores gigantes imaginados pelas mentes dos roteiristas da época, e o vilão estranho, aqui representado pelo líder tirano Comandante Supremo do Império da Galáxia, de pele verde e usando um capacete e vestuário hilários. As naves são barulhentas e a “Gohten” até solta fumaça, “poluindo” o espaço.
Porém, de resto, o filme é muito ruim. A interpretação dos atores é sofrível, sendo impossível estabelecer alguma empatia com os personagens e seus destinos. O inexpressivo ator David Perin, que faz o papel do piloto Jimmy, tem uma cena patética onde tenta esboçar alguma emoção ao saber da morte da família num ataque alienígena. Mas, ele falha de forma desastrosa na tentativa. O roteiro é extremamente superficial, explorando os mesmos elementos de dezenas de filmes similares sobre invasão alienígena pela posse da Terra.
Curiosamente, em outra cena patética, temos um clone pobre do “Chewbacca”,o “Wookiee” que se tornou um ícone popular pela cultuada saga “Star Wars”. Só que a cópia japonesa tem chifres bizarros e é um simples guarda que aterroriza a mocinha presa pelo vilão. Porém, ao contrário do famoso guerreiro original, esse é tão incompetente que dá pena.
(RR – 26/07/18)




Drácula (1931)


Um dos mais importantes filmes do famoso conde vampiro, definitivo para registrar Bela Lugosi na história do gênero

Em 1897, o escritor irlandês Bram Stoker presenteou o mundo com seu livro de horror gótico “Drácula”, que conta a história do famoso conde vampiro que deixa seu castelo na Transilvânia (Romênia) e vai para a Inglaterra, onde compra alguns imóveis e se alimenta do sangue de suas vítimas.
Em 1931, os fãs do cinema de horror e vampirismo são novamente presenteados com o clássico “Drácula”, produção com fotografia em preto e branco, direção de Tod Browning, o mesmo de “Monstros” (Freaks, 1932), e com o ator húngaro Bela Lugosi encarnando magistralmente o conde vampiro.
O advogado Reinfield (Dwight Frye) está a caminho da Transilvânia com o objetivo de entregar para o Conde Drácula em seu castelo no alto de uma montanha, alguns documentos referentes à locação de uma velha abadia em Londres. Quando chega ao vilarejo próximo do castelo, ele é alertado pelos aldeões supersticiosos que é “Noite de Walpurgis”, e que os vampiros saem de seis caixões para se transformar em lobos e morcegos, vagando à noite em busca de sangue dos vivos.
Desconsiderando os avisos, ele é levado até o castelo numa carruagem conduzida por um cocheiro sinistro. Ao entrar na imponente construção de pedra, se depara com aposentos enormes repletos de poeira e teias de aranhas, numa atmosfera sinistra de gelar a alma. Depois, é recepcionado pelo misterioso anfitrião Conde Drácula e acertam os detalhes burocráticos do aluguel da abadia inglesa.
Depois de transformar Reinfield em seu servo através de controle hipnótico, tornando-o um louco comedor de moscas e aranhas, eles vão para Londres num navio que chega ao destino com seus tripulantes misteriosamente mortos. Ao se apossar da abadia de Carfax, que fica ao lado de um sanatório dirigido pelo Dr. Seward (Herbert Bunston), o conde vampiro instaura o horror alimentando-se do sangue de suas vítimas. Ele também conhece os novos vizinhos, as belas jovens Lucy (Frances Dade) e Mina (Helen Chandler), além de John Harker (David Manners) e o temível Prof. Van Helsing (Edward Van Sloan), que se tornaria seu inimigo mortal.
A versão americana de 1931 para “Drácula” é curta, com apenas 75 minutos de duração. Tem produção com orçamento reduzido e as características daqueles primeiros filmes sonoros que foram concebidos naquela distante época, com interpretações exageradamente teatrais do elenco, num ritmo narrativo lento e com efeitos toscos na criação dos morcegos. Porém, a história cativante do conde vampiro assustou de forma decisiva as plateias do período e marcou para sempre o cinema de horror gótico, popularizando o mito do vampirismo em uma infinidade de filmes posteriores.
O roteiro apresentou com respeito algumas das características tradicionais dos vampiros e que se tornariam eternizadas no imaginário popular, como o fato deles não terem reflexo em espelhos, não tolerarem símbolos religiosos como crucifixos, não gostarem de sol, não suportarem uma erva conhecida como acônito, dormirem em caixões com terra de seu local de origem, e serem criaturas imortais, porém que poderiam ser destruídos com uma estaca de madeira cravada no coração.
O filme é altamente recomendado para os apreciadores do vampirismo e do cinema gótico de horror, seja pela atmosfera sombria do castelo na Transilvânia ou da abadia abandonada em Londres, e pela interpretação convincente de Bela Lugosi, tornando o Conde Drácula um vilão ameaçador, povoando os pesadelos dos espectadores da época e registrando para sempre seu nome na galeria de astros do Horror. Ele é reconhecido como o principal Drácula do cinema, ao lado do ícone Christopher Lee, que fez o vampiro em vários filmes da cultuada produtora inglesa “Hammer”.
 
“Tem coisas bem piores à espera do Homem que a morte” – Conde Drácula
  
(RR – 14/10/18)