Monster From the Ocean Floor (EUA, 1954, PB)

 


O cultuado diretor e produtor americano Roger Corman (1926 / 2024) foi um especialista em fazer filmes divertidos com pouco dinheiro, se situando principalmente no gênero fantástico bagaceiro, com uma infinidade de preciosidades de horror e ficção científica. Iniciando a carreira escrevendo roteiros e estreando com o filme “Consciência Culpada” (Highway Dragnet, 1954), ele produziu seu primeiro filme no mesmo ano, “Monster From the Ocean Floor”, uma tranqueira sobre um monstro aquático mutante, criado pela exposição à radiação dos testes com bombas nucleares no oceano na época da Segunda Guerra Mundial.

O filme de orçamento modesto, história simples e efeitos práticos toscos, faturou bem mais do que o valor de produção, mostrando para Corman o caminho de seu futuro profissional tendo como característica principal o talento para as produções com custos baixos, filmagens em poucos dias e aproveitamento de cenários. Ainda assim, ele teve o privilégio de trabalhar com atores renomados como Vincent Price, Boris Karloff, Peter Lorre, Ray Milland e Basil Rathbone, além de ajudar a lançar diretores como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Peter Bogdanovich, Jonathan Demme, James Cameron, Joe Dante e Ron Howard, e atores que se tornariam consagrados como Robert DeNiro e Jack Nicholson.

 

“Monster From the Ocean Floor” está disponível no Youtube, tanto a versão original em preto e branco quanto outra colorizada por computador. Com direção de Wyott Ordung, na história temos uma ilustradora americana, Julie Blair (Anne Kimbell) que gosta de mergulhar no mar próximo de uma vila costeira no México. Num desses mergulhos ela conhece o biólogo marinho Steve Dunning (Stuart Wade), que está realizando pesquisas com seu minissubmarino para um trabalho científico liderado pelo Dr. Baldwin (Dick Pinner).

Em seus passeios subaquáticos Julie descobre a existência de uma criatura bizarra escondida no fundo do mar, parecendo uma espécie de ameba gigante com um único olho, que dissolve suas vítimas. Porém, ninguém acredita nela, apesar de relatos de pescadores locais como o bêbado Pablo (o diretor Wyott Ordung), sobre desaparecimentos misteriosos de pessoas e animais e a relação com superstições e uma fera assassina que habita as profundezas do mar.

E são essas superstições que ameaçam a vida de Julie, depois que uma velha anciã do vilarejo, Tula (Inez Palange), tenta convencer Pablo que é necessário um sacrifício humano para saciar a fúria do monstro, restando para a moça lutar pela sobrevivência e tentar provar para todos que o “monstro do fundo do oceano” é real.

 

O filme tem uma lembrança maior dos fãs e apreciadores do cinema antigo com elementos de horror e FC por ser a primeira produção de Roger Corman, ganhando um certo destaque dentro da infinidade de similares bagaceiros feitos no mesmo período e explorando a mesma temática de monstro modificado pelos efeitos da energia atômica. Curto com apenas 64 minutos, tem seus momentos de diversão escapista nas cenas subaquáticas e nas aparições do monstro tosco, criado pelo marionetista Bob Baker, que também foi o responsável não creditado pelo bizarro rato-morcego-aranha de “Viagem ao Planeta Proibido” (The Angry Red Planet, 1959).

Entre as curiosidades, as filmagens ocorreram em apenas seis dias; Roger Corman fez uma ponta não creditada como Tommy, um membro da equipe científica, um hábito que ele adotou em muitos de seus filmes seguintes, fazendo pequenas aparições; o minissubmarino para uma única pessoas e que é movido manualmente, tendo participação relevante na história, foi emprestado pela empresa fabricante sem custos para a produção, em troca apenas da publicidade de divulgação para o conhecimento do público e eventual interesse para fins de lazer.

 

(RR – 27/12/24)






O Horror Vem do Espaço (Fiend Without a Face, Inglaterra, 1958, PB)

 


O Horror Vem do Espaço”, também conhecido como “Monstro Sem Face (Fiend Without a Face, 1958) é uma produção inglesa com fotografia em preto e branco, dirigida por Arthur Crabtree e com roteiro baseado na história “The Thought Monster”, de Amelia Reynolds Long. Filme curto (apenas 75 minutos) da década de 1950 do século passado, com história absurdamente divertida, e com dois títulos nacionais. O primeiro e mais coerente pela tradução literal, “Monstro Sem Face” (conforme o livro “Ficção Científica”, de Gilberto Schoereder, 1986), e o outro pessimamente escolhido quando lançado em DVD, “O Horror Vem do Espaço”, pois a história não tem relação com algo vindo do espaço.

As ações se passam numa base militar americana e canadense, que trabalha com pesquisas com energia nuclear para o desenvolvimento de um potente radar atômico que possibilitaria espionar atividades suspeitas na antiga União Soviética, durante o conturbado período da guerra fria. Porém, soldados e moradores de uma pequena cidade próxima aparecem mortos e estampando o horror em suas faces desesperadas. O Major Cummings (Marshall Thompson) é destinado para investigar os misteriosos assassinatos e em paralelo, tenta defender a mocinha Barbara Griselle (Kim Parker), irmã de uma das vítimas dos demônios invisíveis.

Ele descobre relações entre as bizarras experiências de um cientista, Prof. Walgate (Kynaston Reeves), com a materialização de pensamentos e a influência destrutiva da energia radiativa dos reatores atômicos da base militar, criando monstros inicialmente “sem rostos” e depois visíveis na forma grotesca de um cérebro com espinha dorsal. Percebemos aqui uma influência e relações com a ideia central do clássico de FC “Planeta Proibido” (1956), onde um terrível monstro invisível, criado pela mente perturbada de um cientista, ataca um grupo de astronautas que chegam num planeta colonizado por humanos.

Com efeitos especiais de “stop motion” complexos para a época, ao mostrar os monstros e seus movimentos de ataque, e situado dentro do ambiente que retrata a paranoia da guerra fria e o medo dos efeitos nocivos da energia nuclear, o filme “O Horror Vem do Espaço” (na verdade, vem do “pensamento”), é mais uma garantia de diversão para quem aprecia essas preciosas tranqueiras do cinema bagaceiro antigo de FC & Horror.

 

(RR – 26/05/13)





Rastros do Espaço (The Monolith Monsters, EUA, 1957, PB)

 


Rastros do Espaço” (The Monolith Monsters, EUA, 1957) é uma produção menor da “Universal”, dirigida por John Sherwood e com fotografia em preto e branco, vindo da saudosa década de 1950, um período fértil em filmes bagaceiros de FC & Horror com histórias absurdas e por isso mesmo super divertidas.

Nesse caso, um meteoro chega à Terra trazendo misteriosas pedras negras que em contato com água crescem de forma descomunal, transformando-se em imensos monolitos monstruosos (daí o título original), que desabam destruindo tudo ao redor e gerando novas pedras num processo contínuo de crescimento e destruição, impulsionado pelas chuvas. Além também de trazer o horror para as pessoas que entram em contato com essas pedras, as quais retiram o silício de seus corpos, endurecendo a carne e transformando suas vítimas em estátuas solidificadas. Uma pequena cidade no deserto americano, San Angelo, no Estado da California, através de um geólogo, Dave Muller (Grant Williams), tenta impedir o avanço dos monolitos gigantes procurando uma solução para deter a ameaça.

“Rastros do Espaço” é uma daquelas tranqueiras divertidas, de curta duração (só 77 minutos), com um roteiro baseado em história de Jack Arnold, mais conhecido como diretor de preciosidades como “Veio do Espaço” (1953), “O Monstro da Lagoa Negra” (1954), “Tarântula” (1955) e “O Incrível Homem Que Encolheu” (1957), este que também tem Grant Williams como protagonista. A ideia central procura especular sobre os perigos que chegam ao nosso planeta através das quedas de meteoros, e seus segredos ancestrais vindos do espaço que podem resultar em terríveis ameaças para a humanidade.

 

(RR – 06/05/13)






A Górgona (The Gorgon, Inglaterra, Hammer, 1964)

 


A dupla de atores ícones do gênero Horror, Peter Cushing e Christopher Lee, estiveram juntos em vários filmes, agregando um valor inestimável ao gênero. Alguns destes filmes foram produzidos pelo cultuado estúdio inglês “Hammer”, e parte deles também teve a direção do especialista Terence Fisher, o principal cineasta da produtora. A Górgona” (The Gorgon, 1964) reúne os três numa história com elementos góticos explorando um monstro da mitologia grega, com roteiro de John Gilling, a partir de uma história original de J. Llewellyn Devine.


“Sobre a aldeia de Vandorf se ergue o Castelo Borski. Desde a virada do século, um monstro de tempos remotos chegou para viver lá. Ninguém que tenha se deparado com ele sobreviveu, e o espírito da morte ronda esperando sua próxima vítima.” 


Com essa narração, o filme tem início com uma ambientação no início do século XX numa pequena cidade alemã. O médico de um hospital psiquiátrico, Dr. Namaroff (Peter Cushing), tenta guardar um segredo envolvendo a ocorrência de mortes misteriosas na região durante a lua cheia, com os cadáveres literalmente petrificados, registrando atestados de óbito falsos e encobrindo a verdade. Sua assistente, a bela Carla Hoffman (Barbara Shelley), não se sente à vontade com o excesso de super proteção do médico. A polícia, representada pelo Inspetor Kanof (Patrick Troughton), está pressionada pelo contínuo insucesso na investigação dos misteriosos assassinatos, num ambiente que evidencia uma conspiração de silêncio e medo. 

Nesse cenário de mistério, as coisas complicam mais ainda após a chegada no vilarejo de Paul Heitz (Richard Pasco), que vem para investigar a morte de seu pai, o Prof. Jules Heitz (Michael Goodliffe), estudioso de mitologia grega e que morreu em circunstâncias estranhas. O jovem recém chegado se apaixona por Carla, que corresponde o seu interesse amoroso. Ele também solicita a ajuda de seu amigo Prof. Karl Meister (Christopher Lee), um conceituado acadêmico da Universidade de Leipzig, para juntos tentarem descobrir o mistério por trás das mortes cujas vítimas foram transformadas em pedra.


 “Havia três horrendas irmãs monstruosas, as Górgonas. Seus nomes eram Tisifona, Medusa e Megera. Tinham serpentes vivas nas cabeças e cada uma delas era um tentáculo do cérebro diabólico que possuíam. Tão espantosas eram as Górgonas que todo aquele que as viam se convertia em pedra.” – anotações do Prof. Heitz, escritas momentos antes de morrer petrificado, revelando informações sobre a lenda de dois mil anos de uma mulher com cobras na cabeça e que poderia estar em atividade ao se apossar do corpo de outra mulher. 


Gosto pessoal é algo totalmente subjetivo, e no caso específico de “A Górgona” posso revelar que o filme está entre os meus preferidos da “Hammer”. Além da presença da dupla Cushing e Lee e do cineasta Terence Fisher, a ambientação gótica é bastante eficiente, com uma atmosfera sinistra constante, acentuada pelo castelo abandonado há meio século, envolto em névoa e cercado por árvores retorcidas e fantasmagóricas. E tem um monstro habitando suas ruínas decrépitas, a última das górgonas, que transforma suas vítimas em pedra. Apesar da concepção visual da górgona Megera (interpretada por Prudence Hyman) não ter agradado ao produtor Anthony Nelson Keys, que juntamente com Christopher Lee, revelou sua insatisfação com os efeitos toscos utilizados para simular as serpentes, e também pelos clichês inevitáveis da história, o filme ainda assim funciona muito bem como representante legítimo do estilo gótico e horror sugestivo da “Hammer”. 

Curiosamente, o grande ator Christopher Lee, que normalmente faz os papéis de vilão (com destaque para o eterno vampiro “Drácula”), assume o posto contrário em “A Górgona”, interpretando um influente professor que tenta desvendar os assassinatos misteriosos em Vandorf. E Peter Cushing, que na maioria das vezes está do lado que combate o mal, é agora o principal articulador de uma conspiração para abafar a real causa dos assassinatos, apesar de sua motivação ser passional.


(RR – 28/06/15)
















Cyborg 2087 (EUA, 1966)

 


Dezoito anos antes de “O Exterminador do Futuro” (The Terminator), que virou uma franquia cultuada impulsionando a carreira de Arnold Schwarzenegger e tornando-se parte da cultura pop, tivemos o thriller de ficção científica “Cyborg 2087” (1966), com Michael Rennie, o eterno alienígena pacífico Klaatu de “O Dia Em Que a Terra Parou” (1951), que utiliza uma ideia básica similar com um organismo cibernético retornando ao passado para tentar alterar eventos que evitariam acontecimentos sombrios no futuro.

Com direção de Franklin Adreon e roteiro de Arthur C. Pierce (de outras tranqueiras preciosas do mesmo período como “O Monstro da Era Atômica”, “Invasion of the Animal People” e “Além da Barreira do Tempo”), o filme está disponível no Youtube em sua versão original americana com a opção de legendas em português traduzidas simultaneamente.

 

Em 2087 o mundo é controlado por um sistema político autoritário onde a liberdade de pensamento é ilegal e as mentes das pessoas são monitoradas por um governo tirano. Nesse ambiente de tortura e horror, um grupo de rebeldes resistentes a favor do pensamento livre consegue enviar um agente especial ciborgue chamado Garth (Michael Rennie) numa máquina do tempo de volta ao passado de 1966, numa missão para tentar impedir os estudos científicos e experiências de radio-telepatia (transmissões de mensagens entre cérebros) do Prof. Sigmund Marx (Eduard Franz), trabalhando para a “Indústria do Futuro”. Essa técnica aperfeiçoada seria utilizada por um governo ditador para o controle em massa das populações do futuro, numa sociedade oprimida por seus líderes, implantando receptores nos cérebros das pessoas desde a infância.

O viajante do tempo recebe o apoio dos cientistas Dr. Carl Zellar (Warren Stevens) e Dra. Sharon Mason (Karen Steele), assistentes do professor, mas também enfrenta problemas com a perseguição do xerife (Wendell Corey) de uma pequena cidade, que investiga suas ações, além da presença de um jornalista investigativo oportunista, Jay C. (Harry Carey Jr.) à procura de notícias, e ainda tem que confrontar dois outros ciborgues também enviados do futuro, conhecidos como “Rastreadores” ou “Tracers” na versão original (interpretados por Dale Van Sickel e Troy Melton), representantes do governo totalitário, e  que tentam impedir o sucesso de sua missão.

 

A história de “Cyborg 2087” lembra aqueles filmes divertidos sobre viagem no tempo dos anos 60 e 70 do século passado que passavam na televisão na saudosa sessão da tarde da TV Globo. Filmes ingênuos, com orçamentos pequenos, efeitos práticos toscos, roteiros escapistas e sem compromisso com lógica ou questões científicas, como “Jornada ao Centro do Tempo” (1967) ou “Degraus Para o Passado” (1976), só para citar alguns.

É um filme para desligar o cérebro e tentar apenas interagir com a história, se divertindo com a visão do futuro; a arquitetura da cidade em 2087 mostrada rapidamente num frame logo no início com o título do filme; a máquina do tempo extremamente simples (por questões orçamentárias); os painéis e computadores enormes cheios de botões, interruptores, mostradores e luzes coloridas; o laboratório com seus aparelhos científicos bizarros; a pistola de raios (mortais no caso dos “tracers” e apenas para tonteio no caso de Garth), e outras bizarrices de efeitos práticos que fazem a festa dos apreciadores do cinema fantástico bagaceiro do passado.

Sobre o elenco, Michael Rennie esteve em filmes como “O Mundo Perdido” (1960) e séries de TV como “Perdidos no Espaço” (1965/1968), e Warren Stevens esteve em “Planeta Proibido” (1956), sendo um rosto conhecido por uma infinidade de participações em séries de TV e filmes de western.

“Cyborg 2087” foi produzido pela “United Pictures Corporation” (UPC) inicialmente para a televisão, sendo exibido depois nas salas de cinema. Outros filmes com temática de horror e FC dessa pequena produtora lançados no mesmo ano de 1966 foram “O Castelo do Mal”, “Viagem Rumo ao Infinito” e “Dimensão 5”.       

 

(RR – 03/12/24)







Mundos Em Guerra (Battle in Outer Space, Japão, 1959)

 


Quase duas décadas antes da cultuada space opera “Star Wars” tivemos uma ficção científica japonesa dirigida pelo especialista em cinema fantástico Ishiro Honda (1911 / 1993), “Mundos Em Guerra” (Battle in Outer Space, 1959), que está disponível no Youtube com áudio em inglês e opção de legendas em português.

O filme é indicado para aqueles que apreciam os saudosos efeitos práticos com maquetes de foguetes, naves, estações espaciais, bases lunares, poderosas armas de raios térmicos, além de divertidas cenas de batalhas no espaço sideral e destruição de cidades na Terra.

 

Ambientado em 1965, um pouco à frente da época de produção e já um passado distante para os dias atuais (e ainda estamos longe também das viagens espaciais rotineiras do filme), depois que uma estação espacial em órbita da Terra é destruída num ataque de discos voadores alienígenas vindos do planeta Natal, ocorrem catástrofes misteriosas em alguns países com levitação de pontes e enormes inundações. Para investigar, um grupo formado pelas nações mais poderosas do mundo tendo à frente um comandante japonês (Minoru Takada) envia dois foguetes de reconhecimento para a Lua, sendo um deles liderado pelo cientista japonês Prof. Adachi (Koreya Senda) e o outro pelo cientista americano Dr. Roger Richardson (Len Stanford).

Eles encontram uma base dos alienígenas agressores instalada na superfície do lado sombrio da Lua, e após um confronto mortal com perdas para ambos os lados, ocorre uma retaliação dos extraterrestres tiranos com destruição em massa de cidades na Terra, despertando uma reação conjunta da humanidade justificando o título nacional de “Mundos Em Guerra”, através de uma “Batalha no Espaço Sideral”, do título original internacional.  

 

A história nem é muito interessante, sendo apenas um grande clichê de invasão alienígena por criaturas conquistadoras, com atuações pouco convincentes de todo o elenco, não faltando o tradicional e enfadonho casal apaixonado formado pelo Major Ichiro Katsumya (Ryo Ikebe) e Etsuko Shiraishi (Kyoko Anzai). Também não há preocupação com coerência e lógica ou atenção com as leis da física.

Porém, o que importa realmente são os efeitos práticos que eram produzidos em meados do século passado, que impressionavam as plateias da época e que são divertidos até hoje, exigindo muita criatividade e esforço da equipe técnica, sem as facilidades da computação gráfica. Os efeitos especiais são dirigidos por Eiji Tsuburaya, que tem um currículo imenso repleto de bagaceiras preciosas de horror e ficção científica, e entre seus créditos destaca-se o clássico “Godzilla” (1954).

Por curiosidade, vale citar que “Mundos Em Guerra” é considerado sequência de “Os Bárbaros Invadem a Terra” (The Mysterians, 1957), também dirigido por Ishiro Honda, e foi sucedido ainda por “The War in Space”, de Jun Fukuda. Não existe exatamente uma conexão direta entre as histórias deles, sendo a mesma ideia básica nos três filmes, ou seja, uma invasão alienígena hostil com a óbvia reação da humanidade num esforço de união entre as principais nações, independente de ideologias distintas, apresentando apenas pequenas variações nos roteiros, e todos com os mesmos clichês de extraterrestres com aparências hilárias querendo conquistar nosso tão cobiçado planeta, escravizando a humanidade e destruindo nossas cidades, culminando em guerras exageradas travadas no espaço exterior.   

 

(RR – 27/11/24)







O Monstro da Morgue Sinistra / A Carne e o Diabo (The Flesh and the Fiends, Inglaterra, 1960)

 


"Esta é uma história de homens perdidos e almas perdidas. É uma história de vício e assassinato. Nós não pedimos perdão aos mortos. Tudo é verdade.”

 

Também conhecido no Brasil como “A Carne e o Diabo” quando foi exibido na televisão, “O Monstro da Morgue Sinistra” (The Flesh and the Fiends, 1960) é um filme inglês com fotografia original em preto e branco, dirigido e escrito por John Gilling e com elenco liderado pelo lendário Peter Cushing junto com Donald Pleasence em início de carreira (o psiquiatra Dr. Loomis de “Halloween”).

A história é baseada no famoso caso real da dupla de saqueadores de túmulos Burke e Hare, criminosos oportunistas que forneciam cadáveres para pesquisas e estudos científicos de anatomia, roubando corpos de cemitérios e quando necessário, matando pessoas para utilizarem os cadáveres.

Esse tema foi bastante explorado no cinema, principalmente no mais famoso “O Túmulo Vazio” (The Body Snatcher, 1945), dirigido por Robert Wise, produzido por Val Lewton e com Boris Karloff e Bela Lugosi, e outros como “O Maquiavélico William Hart” (The Greed of William Hart, 1948), com Tod Slaughter, e “Burke and Hare” (1972), só para citar alguns.

 

Ambientado em 1828 na cidade escocesa de Edimburgo, o médico e professor de anatomia Dr. Robert Knox (Peter Cushing) precisa de corpos humanos para suas aulas e pesquisa científica, comprando os cadáveres fornecidos pelos ladrões de sepulturas William Burke (George Rose) e William Hare (Donald Pleasence), que recebem ajuda e cumplicidade da esposa de Burke, Helen (Renee Houston). Não se importando com ética ou a origem do fornecimento, o médico acaba involuntariamente estimulando a dupla de profanadores assassinos a matar pessoas para vender seus corpos.

A jovem sobrinha do Dr. Knox, Martha (June Laverick), retorna de uma viagem à França e forma um par romântico com o Dr, Geoffrey Mitchell (Dermot Walsh), que trabalha com seu tio e fica observando à distância o misterioso fornecimento de cadáveres. Outros personagens são o assistente do Dr, Knox e estudante de medicina Christopher Jackson (John Cairney) e sua namorada dançarina de boate Mary Patterson (Billie Whitelaw), além do atrapalhado Jamie (Melvyn Hayes), os quais servem de vítimas convenientes para a dupla de vendedores de cadáveres.  

 

O ator inglês Peter Cushing (1913 / 1994) é um dos grandes ícones do cinema de horror com uma carreira consagrada por uma infinidade de filmes relevantes para o gênero, principalmente da produtora “Hammer”, nos papéis do “cientista louco” Dr. Frankenstein e do caçador de vampiros Van Helsing. Em “O Monstro da Morgue Sinistra” ele é um médico e professor de anatomia tão altruísta e comprometido com o ofício de ensinar e formar médicos competentes que deixa de questionar a origem sinistra dos cadáveres que compra para o seu trabalho científico. Sua atuação é excepcional, interpretando com maestria papéis refinados. Assim como também Donald Pleasence (1919 / 1995), outro ator consagrado no cinema de horror, que interpreta um vilão cruel, frio e interesseiro, planejando assassinatos por dinheiro e recebendo punição da justiça popular.    

O filme está disponível no “Youtube” com opção de legendas em português e foi lançado em DVD no Brasil pela “Versátil Home Video” no box “Obras-Primas do Terror” Volume 15. Também é conhecido pelos títulos originais alternativos “The Fiendish Ghouls” e “Mania”.

O diretor inglês John Gilling (1912 / 1984), tem em seu currículo alguns filmes da produtora “Hammer” como “Epidemia de Zumbis” (1966), “A Serpente” (1966) e “A Mortalha da Múmia” (também conhecido como “O Sarcófago Maldito”, 1967), além de outros como “Os Monstros do Raio Gama” (1956) e o espanhol “A Cruz do Diabo” (1975).

Curiosamente, a banda americana de Death Metal “Exhumed” lançou em 2017 o álbum “Death Revenge”, que foi inspirado em eventos do filme e no caso dos assassinos Burke e Hare.

 

(RR – 21/11/24)






The Doll of Satan (La Bambola di Satana, Itália, 1969)

 


“La Bambola di Satana” é um filme italiano de 1969, menos conhecido e mais obscuro, também identificado pelo título internacional “The Doll of Satan”. Disponível no “Youtube” com áudio original italiano e opção de legendas em português, foi dirigido por Ferruccio Casapinta (em seu único trabalho), e sua história mistura elementos de horror atmosférico de um castelo gótico e o tradicional “giallo” com mortes misteriosas cometidas por um assassino com luvas pretas.

 

A jovem Elizabeth Ball Janon (Erna Schurer) é a única herdeira de um castelo sinistro, após a morte de seu tio. Junto com o noivo, o jornalista Jack Seaton (Roland Carey), e um casal de amigos, Gérard (Giorgio Gennari) e Blanche (Beverly Fuller), eles vão para o castelo, que é administrado pela governanta Srta. Carol (Lucia Bomez), com a ajuda de alguns empregados como o mordomo Edward (Manlio Salvatori) e o jardineiro Andrea (Eugenio Galadini).

Ao chegarem, são logo informados de um suposto desejo do tio falecido em vender o castelo, com o interesse de compra por um rico vizinho, Paul Reno (Ettore Ribotta), em oposição ao que diz o veterano advogado da família Sr. Shinton (Domenico Ravenna), já gerando um clima desconfortável de indecisão com a herdeira.

O destino do castelo é motivo também de curiosidade para as pessoas do vilarejo próximo como a misteriosa pintora de quadros Claudine (Aurora Batista) e o intrometido Sr. Cordova (Franco Daddi), ambos sempre atentos por informações e novidades.

E a atmosfera vai ficando cada vez mais sinistra para Elizabeth, que sofre com pesadelos e alucinações constantes, após visitar os subterrâneos do castelo e uma câmara de torturas repleta de armas medievais, e depois de saber sobre uma história bizarra da lenda do fantasma de um antepassado assombrando o castelo em busca de sua antiga amada de mesmo nome que ela. Além de todas essas turbulências, as coisas pioram ainda mais após Elizabeth entrar em contato com Jeanette (Teresa Ronchi), que era a fiel secretária de seu tio, e que agora está doente, muda, decrépita e paralítica, considerada louca e mantida trancafiada num quarto.

Com a ocorrência de desaparecimentos misteriosos, estranhos sonhos eróticos e alucinações perturbadoras de torturas, Elizabeth precisa lidar com o tormento de uma confusão mental e uma conspiração para vender o castelo e desestabilizar sua sanidade.   

 

O cinema fantástico italiano é bastante conhecido e expressivo pela bem sucedida exploração da atmosfera do horror gótico e do suspense dos assassinatos característicos dos “giallos”. Como mencionado no início desse texto, “The Doll of Satan” é uma mistura de ambos. A história especula sobre supostos eventos sobrenaturais e o interesse obscuro na venda do castelo, que esconde um segredo rentável em seus porões.

Porém, principalmente para os apreciadores do horror atmosférico, o filme perde muitas oportunidades para um clima mais perturbador e desconfortável que o castelo naturalmente sinistro oferece. A cena de tortura, que estampa um dos cartazes numa jogada de marketing para atrair a atenção, deveria ser melhor explorada, com mais tempo em cena e importância na história, em vez de ser apenas um momento rápido. Os elementos de “giallo” também são muito sutis, com mortes discretas e sem sangue. E a reviravolta com revelações previsíveis provavelmente não irá agradar a maioria dos espectadores que esperavam uma história de fantasmas num castelo assombrado.

Entre outras falhas, algo que também incomoda é a alternância constante de tomadas diurnas e noturnas na mesma cena, demonstrando incoerência e descaso com o espectador, além do fato do casal de amigos de Elizabeth, seus acompanhantes no castelo, não terem nenhuma relevância para a trama, esquecidos na maior parte do tempo pelo roteiro.     


(RR – 05/11/24)




Drácula (Dracula, EUA, 1931, PB)

 


Um dos mais importantes filmes do famoso conde vampiro, definitivo para registrar Bela Lugosi na história do gênero

 

Em 1897, o escritor irlandês Bram Stoker presenteou o mundo com seu livro de horror gótico “Drácula”, que conta a história do famoso conde vampiro que deixa seu castelo na Transilvânia (Romênia) e vai para a Inglaterra, onde compra alguns imóveis e se alimenta do sangue de suas vítimas.

Em 1931, os fãs do cinema de horror e vampirismo são novamente presenteados com o clássico “Drácula”, produção com fotografia em preto e branco, direção de Tod Browning, o mesmo de “Monstros” (Freaks, 1932), e com o ator húngaro Bela Lugosi encarnando magistralmente o conde vampiro.

O advogado Reinfield (Dwight Frye) está a caminho da Transilvânia com o objetivo de entregar para o Conde Drácula em seu castelo no alto de uma montanha, alguns documentos referentes à locação de uma velha abadia em Londres. Quando chega ao vilarejo próximo do castelo, ele é alertado pelos aldeões supersticiosos que é “Noite de Walpurgis”, e que os vampiros saem de seis caixões para se transformar em lobos e morcegos, vagando à noite em busca de sangue dos vivos.

Desconsiderando os avisos, ele é levado até o castelo numa carruagem conduzida por um cocheiro sinistro. Ao entrar na imponente construção de pedra, se depara com aposentos enormes repletos de poeira e teias de aranhas, numa atmosfera sinistra de gelar a alma. Depois, é recepcionado pelo misterioso anfitrião Conde Drácula e acertam os detalhes burocráticos do aluguel da abadia inglesa.

Depois de transformar Reinfield em seu servo através de controle hipnótico, tornando-o um louco comedor de moscas e aranhas, eles vão para Londres num navio que chega ao destino com seus tripulantes misteriosamente mortos. Ao se apossar da abadia de Carfax, que fica ao lado de um sanatório dirigido pelo Dr. Seward (Herbert Bunston), o conde vampiro instaura o horror alimentando-se do sangue de suas vítimas. Ele também conhece os novos vizinhos, as belas jovens Lucy (Frances Dade) e Mina (Helen Chandler), além de John Harker (David Manners) e o temível Prof. Van Helsing (Edward Van Sloan), que se tornaria seu inimigo mortal.

A versão americana de 1931 para “Drácula” é curta, com apenas 75 minutos de duração. Tem produção com orçamento reduzido e as características daqueles primeiros filmes sonoros que foram concebidos naquela distante época, com interpretações exageradamente teatrais do elenco, num ritmo narrativo lento e com efeitos toscos na criação dos morcegos. Porém, a história cativante do conde vampiro assustou de forma decisiva as plateias do período e marcou para sempre o cinema de horror gótico, popularizando o mito do vampirismo em uma infinidade de filmes posteriores.

O roteiro apresentou com respeito algumas das características tradicionais dos vampiros e que se tornariam eternizadas no imaginário popular, como o fato deles não terem reflexo em espelhos, não tolerarem símbolos religiosos como crucifixos, não gostarem de sol, não suportarem uma erva conhecida como acônito, dormirem em caixões com terra de seu local de origem, e serem criaturas imortais, porém que poderiam ser destruídos com uma estaca de madeira cravada no coração.

O filme é altamente recomendado para os apreciadores do vampirismo e do cinema gótico de horror, seja pela atmosfera sombria do castelo na Transilvânia ou da abadia abandonada em Londres, e pela interpretação convincente de Bela Lugosi, tornando o Conde Drácula um vilão ameaçador, povoando os pesadelos dos espectadores da época e registrando para sempre seu nome na galeria de astros do Horror. Ele é reconhecido como o principal Drácula do cinema, ao lado do ícone Christopher Lee, que fez o vampiro em vários filmes da cultuada produtora inglesa “Hammer”.

 

“Tem coisas bem piores à espera do Homem que a morte” – Conde Drácula

  

(RR – 14/10/18)

















Terror in the Haunted House / My World Dies Screaming (EUA, 1958)

 


“E então, através dos galhos das velhas árvores, vejo a casa novamente. Ela fica lá esperando por mim. Silenciosa, maligna. Um lugar de horror indescritível. Não há ninguém lá agora.” – Sheila Wayne

 

Terror in the Haunted House”, também conhecido como “My World Dies Screaming”, ambos títulos sonoros e chamativos, é uma produção americana de baixo orçamento com apenas 77 minutos, com direção de Harold Daniels e fotografia original em preto e branco, que também ganhou uma versão colorizada por computador. Para a satisfação dos apreciadores de filmes antigos de horror, ambas as versões estão disponíveis no “Youtube” com a opção de legendas em português.

 

A americana Sheila Wayne (Cathy O´Donnell) vive na Suiça desde a infância e sofre com constantes pesadelos envolvendo uma casa misteriosa. Ela participa de sessões de terapia com o Dr. Victor Forel (Barry Bernard) na tentativa de encontrar alívio para seu tormento. Casada há pouco tempo com Philip Tierney (Gerald Mohr), e sem resultados positivos com o tratamento, eles partem para os Estados Unidos, indo morar numa velha casa de campo na Flórida, grande, isolada e onde Sheila encontra similaridades sinistras com a mesma casa de seus pesadelos.

Lá eles encontram o amargurado zelador Jonah Snell (John Qualen), que toma conta da casa há muitos anos, além também do proprietário, Mark Snell (Bill Ching), que tenta convencer a atormentada moça a abandonar o local para sua segurança, indo contra a vontade do marido, que insiste na permanência no local, com um interesse especial pelo sótão, que parece guardar segredos obscuros.

 

“Terror in the Haunted House” possui as conhecidas características de uma produção de baixo orçamento, com elenco reduzido formado por apenas cinco atores (mais o cachorro Jaggard) e filmagens praticamente numa única locação, a casa amaldiçoada do título, envolta em mistério e palco de uma tragédia sangrenta. Tem alguns bons momentos de suspense e atmosfera de horror psicológico, mas o roteiro de Robert C. Dennis explora os velhos clichês com um conjunto de ideias recicladas misturando família amaldiçoada, trauma de infância, assassinatos com violência extrema, perturbação mental, e a tradicional reviravolta que não surpreende, pois não exige muita atenção do espectador já habituado com uma infinidade de situações iguais.

Curiosamente, o filme se apresenta como o primeiro com a técnica chamada “Psycho-Rama”, que utiliza comunicação subliminar com apresentação de flashes muito rápidos ao longo do filme mostrando imagens como o rosto de um diabo, outro com olhos arregalados, uma caveira e frases enfatizando situações de horror. Lembrando os filmes do diretor e produtor William Castle, que lançou muitos no mesmo período utilizando diversas técnicas promocionais para assustar e entreter o público com interação entre as histórias e os espectadores. Aliás, essa mesma técnica de mensagens subliminares foi utilizada na versão do diretor William Friedkin para “O Exorcista” (The Exorcist) em 2000, com imagens rápidas do demônio Pazuzu ao longo do filme.   

 

“O machado, ele está usando o machado. Parem ele! O sangue. O sangue está em mim! Está em todo lugar. É sangue! Estão todos mortos.” – Sheila Wayne

 

(RR – 29/10/24)