Comentários de Cinema - Parte 20

Filmes abordados:

Dama e o Monstro, A (The Lady and the Monster, EUA, 1944, PB)
Galeria dos Alienígenas, A / Breeders – A Ameaça de Destruição (Breeders, EUA, 1986)
Homem Que Enganou a Morte, O (The Man Who Could Cheat Death, Inglaterra, 1959)
Invasores Invisíveis (Invisible Invaders, EUA, 1959, PB)
Jacarés Mutantes, Os / Alligators – Crocodilos em Fúria (Ragin´ Cajun Redneck Gators / Alligator Alley, EUA, 2013)
Jamie Marks Está Morto (Jamie Marks Is Dead, EUA, 2014)
Monstro de Duas Caras, O (The Two Faces of Dr. Jekyll, Inglaterra, 1960)
Monstro do Himalaia, O (The Abominable Snowman, Inglaterra, 1957, PB)
Vampiro de Black Water, O / Assassino das Sombras, O (The Black Water Vampire, EUA, 2014)


* A Dama e o Monstro (1944) – Direção de George Sherman, cineasta mais conhecido pelos filmes de western, produção da “Republic” com fotografia em preto e branco, e história baseada no conto “O Cérebro de Donovan”, escrita em 1942 por Curt Siodmak. Teve outras duas refilmagens, “Experiência Diabólica” (Donovan´s Brain, 1953) e “The Brain” (1962). Em “A Dama e o Monstro”, o “cientista louco” Prof. Franz Mueller (o austríaco Erich von Stroheim) está trabalhando em seu castelo no deserto do Arizona com experiências para tentar manter vivo o cérebro mesmo após a morte do corpo. Auxiliado por dois assistentes, o Dr. Patrick Cory (Richard Arlen) e a bela Janice Farrell (a atriz Tcheca Vera Hubra Halston), o cientista tenta obter sucesso utilizando animais como um macaco doente à beira da morte, mas seu interesse maior está em testar a experiência em seres humanos. Após surgir a oportunidade com o cadáver de um famoso e misterioso milionário, William H. Donovan, morto no acidente com a queda de um pequeno avião, o Prof. Mueller consegue êxito em manter o cérebro vivo e ativo mergulhado numa solução química especial. Porém, continuando o projeto científico com a tentativa de comunicação com o cérebro, eles não imaginariam que o Dr. Cory seria controlado telepaticamente pelo cérebro de Donovan, obrigando-o inconscientemente a fazer suas vontades obscuras, colocando em risco a vida de todos. A premissa central é de ficção científica bagaceira com elementos de horror, típica dos anos dourados do cinema fantástico das décadas de 40 a 60 do século passado, e nesse caso especificamente misturado com uma história policial. Com 82 minutos de duração e uma interessante atmosfera sinistra nas cenas no interior do castelo gótico, o filme apresenta os clichês característicos dessas divertidas tranqueiras. Temos o tradicional laboratório sombrio do “cientista louco”, que por sua vez tenta se convencer que seu trabalho traz resultados para o bem da humanidade, através da capacidade em manter vivo um cérebro separado do corpo morto, e com isso preservar o conhecimento, sabedoria e pensamentos de personalidades importantes como cientistas, inventores, escritores e estadistas. Porém, apesar desses elementos do cinema bagaceiro de FC sempre garantirem a diversão, temos alguns fatores negativos que chegam a incomodar um pouco, mesmo para os apreciadores do estilo. A atuação forçada e sem expressão da atriz Vera Hubra Halston, que deixa claro que não possui as habilidades necessárias para a arte de atuar, e o roteiro que dá maior enfâse para uma história policial com um assassinato misterioso e pessoas interessadas em dinheiro, em detrimento do mais interessante que é a ficção científica com horror. (RR – 10/05/15)

* A Galeria dos Alienígenas (1986) – Com produção executiva não creditada de Charles Band, da “Empire Pictures”, e escrito e dirigido por Tim Kincaid, “A Galeria dos Alienígenas” (Breeders) é o nome nacional quando exibido na TV de uma tosqueira de ficção científica com elementos de horror. Completamente datado dos anos 80 do século passado, tem uma história tão manjada e rasa de invasão alienígena que mais parece apenas um pretexto para mostrar belas e jovens mulheres nuas. Ambientada na famosa metrópole americana New York, o roteiro tosco mostra mulheres virgens sendo estupradas misteriosamente, ficando deformadas pela ação de um ácido corrosivo. Um detetive da polícia, Dale Andriotti (Lance Lewman) está encarregado das investigações para tentar descobrir o autor dos crimes. Ele é auxiliado pela médica Dra. Gamble Pace (Teresa Farley), que trabalha no Hospital Geral de Manhattan, para onde as vítimas são encaminhadas e ficam internadas em observação. Eles descobrem resquícios de um estranho material orgânico nas mulheres atacadas, que após um tempo despertam em transe e rumam como zumbis para os subterrâneos do hospital, onde numa estação abandonada do metrô está escondido um imenso ninho gosmento de uma raça alienígena capez de assumir a forma humana e que quer dominar nosso planeta. Com pouco mais que 70 minutos de duração, o filme é uma típica tranqueira dos anos 80, com trilha sonora e figurinos datados, e um elenco amador com atuações inexpressivas, além de uma história patética com tantas situações absurdas que até os apreciadores de cinema bagaceiro encontrarão dificuldades para digerir. As únicas coisas que podem se salvar são os efeitos toscos exagerados com borracha e sangue falso nas cenas violentas dos ataques do monstro de olhos esbugalhados do espaço, e que mesmo com orçamentos minúsculos ainda conseguem divertir, diferente dos efeitos de CGI atuais que tornam as cenas sangrentas artificiais demais, e a overdose de exposição gratuita de mulheres peladas gritando por suas vidas. Entre as curiosidades, podemos citar que o filme foi lançado em VHS no Brasil e recebeu o nome alternativo “Breeders – A Ameaça de Destruição”. E teve uma refilmagem inglesa em 1997, com roteiro e direção de Paul Matthews. Além disso, o diretor e roteirista Tim Kincaid é o responsável por outras tranqueiras ruins ao extremo do mesmo período como “Robot Holocaust” e “Mutant Hunt – O Exterminador de Andróides”. O técnico em efeitos de maquiagem Ed French atuou no filme fazendo o papel do médico Dr. Ira Markum, que auxilia a Dra. Pace na pesquisa sobre os misteriosos esporos encontrados nas vítimas do monstro. (RR – 17/05/15)

* O Homem Que Enganou a Morte (1959) – Filme de Horror com elementos de Ficção Científica produzido pelo cultuado estúdio inglês “Hammer”. A direção é de Terence Fisher, o principal cineasta da produtora com grande quantidade de trabalhos, o roteiro é de Jimmy Sangster (baseado em peça de Barré Lyndon), autor das histórias de outras preciosidades como “O Vampiro da Noite” (1958) e “A Múmia” (1959), e com o lendário Christopher Lee, um dos grandes ícones do cinema de horror em todos os tempos. “O Homem Que Enganou a Morte” é ambientado na Paris de 1890, onde o médico Dr. Georges Bonnet (o alemão Anton Diffring, de “Fahrenheit 451”, 1966), que nas horas livres faz esculturas de bustos de belas mulheres servindo de modelo, carrega um mistério em sua longa vida de 104 anos, mesmo aparentando menos de 40. Ele descobriu como “enganar a morte” junto com outro médico famoso, Dr. Ludwigg Weiss (Arnold Marle), através de cirurgias em intervalos regulares de tempo, com a substituição das glândulas paratireóides. Porém, o “cientista louco” precisa ingerir um líquido especial, no melhor estilo de “O Médico e o Monstro”, em momentos críticos quando ocorrem atrasos na realização das cirurgias, para impedir um desequilíbrio mental que o torna um assassino frio e cruel. Apaixonado pela bela Janine Du Bois (Hazel Court, de “A Maldição de Frankenstein”, 1957), o médico centenário precisa tomar uma decisão, continuar prolongando a vida com cirurgias, enfrentando a oposição do velho companheiro Dr. Weiss, que desaprova sua conduta em matar pessoas inocentes para usar suas glândulas, sendo obrigado também a se separar de Janine, que envelhecerá normalmente. Ou eliminar todos aqueles que cruzam seu caminho obrigando sua amada também a ser eterno como ele, enfrentando um rival na figura do cirurgião Dr. Pierre Gerrard (Christopher Lee), que também se interessa por Janine. Além de fugir da investigação policial liderada pelo Inspetor Legris (Francis De Wolff), que desconfia de suas atitudes suspeitas. Mais uma divertida produção da “Hammer”, com menos ação e mais diálogos, numa história interessante de um médico enfrentando o drama de desafiar as leis da natureza, descobrindo o segredo da vida e saúde eterna, mas que não impede a inevitável ocorrência de consequências desconfortáveis, como não poder formar uma família, vivendo eternamente em solidão. E quando a dificuldade de se conseguir glândulas de cadáveres torna-se progressivamente pior, ele encontra a alternativa em retirar de pessoas vivas, com os assassinatos despertando a atenção de investigação policial e a desaprovação do cirurgião Dr. Weiss,  que sempre esteve ao seu lado mantendo o segredo. Entre as curiosidades, o filme é considerado uma versão do americano “O Homem Que Desafiou a Morte” (The Man in Half Moon Street, 1945). E o igualmente ícone do cinema de Horror Peter Cushing estava escalado inicialmente para fazer o papel do Dr. Bonnet, mas desistiu alegando problemas de saúde. (RR – 23/05/15)

* Invasores Invisíveis (1959) – Produção em preto e branco com direção de Edward L. Cahn (1899 / 1963), o mesmo cineasta de outras divertidas tranqueiras do cinema bagaceiro como “O Cadáver Atômico” (1955), “Os Zumbis de Mora Tau” (1957) e “A Ameaça do Outro Mundo” (1958). No elenco temos John Agar (1921 / 2002), de pérolas como “Tarântula” (1955) e “O Cérebro do Planeta Arous” (1957), além do cultuado John Carradine (1906 / 1988), ator com forte relação com o cinema fantástico, tanto que ele aparece em destaque num dos cartazes originais do filme, mesmo com uma participação pequena apenas no início fazendo o papel de um “cientista louco”. Alienígenas conquistadores oriundos de um planeta de outra galáxia invadiram a nossa lua há 20.000 anos e aniquilaram suas formas de vida, instalando uma base para suas naves espaciais. São criaturas invisíveis que adquiriram a capacidade de alterar a estrutura molecular de seus corpos. Até então, a Terra não interessava devido seu lento desenvolvimento tecnológico, mas depois que a humanidade entrou na era espacial, com testes de armas nucleares e foguetes para viajar pelo espaço, os alienígenas ditadores decidiram dominar nosso planeta tomando os corpos dos mortos para dizimar os vivos. Com suas naves construídas com materiais que também poderiam tornar-se invisíveis, eles primeiramente se apossaram do cadáver do cientista Dr. Karol Noymann (John Carradine), morto numa explosão em seu laboratório. O zumbi visita seu colega veterano cientista Dr. Adam Penner (Philip Tonge), solicitando para avisar as autoridades militares para se renderem, ou seria iniciada uma invasão com destruições catastróficas, arrasando edifícios governamentais, unidades de comunicação, depósitos, arsenais de armas, estradas de ferro e aeroportos. Desacreditado pelos governos e ridicularizado pela imprensa com manchetes pejorativas dos jornais, o alerta de rendição não funcionou e os alienígenas invisíveis iniciaram a invasão com uma guerra desproporcional. Restando ao cientista Dr. Penner, sua bela filha Phyllis (Jean Byron), o jovem cientista John Lamont (Robert Hutton, de “Eles Vieram do Espaço Exterior”, 1967) e o militar Major Bruce Jay (John Agar), se refugiarem num abrigo subterrâneo secreto e bem equipado, para tentarem encontrar um meio ou arma eficaz para deter os inimigos do espaço. “Invasores Invisíveis” está situado dentro do sub-gênero da Ficção Científica que aborda invasões alienígenas com elementos de horror, explorando novamente o tema da guerra fria do período pós-Segunda Guerra Mundial, com a corrida armamentista e as consequências nocivas das experiências nucleares.  Para facilitar o baixo orçamento da produção, além da metragem curta com apenas 67 minutos de duração, o roteiro de Samuel Newman apresenta alienígenas invisíveis, com respiração ofegante e que deixam rastros no chão de terra ao caminharem, diminuindo os gastos com efeitos e maquiagem. Eles se apossam dos corpos de seres humanos mortos, transformando-os em zumbis assassinos, numa ideia que serviu de inspiração para George Romero conceber o clássico absoluto “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968), que traz semelhanças tanto na concepção dos zumbis como na forma de caminharem. O filme é mais uma preciosidade do cinema fantástico bagaceiro dos anos 50 do século passado, divertido justamente pela forma simplória e ingênua de condução da história, acontecendo tudo rapidamente e repleto de clichês. Não faltam os “cientistas loucos” cercados de aparelhos em experiências exageradas e os militares truculentos em ações de força. Também não poderia deixar de ter uma jovem mulher bonita sem função na história (a filha do cientista), com o objetivo de criar um triângulo amoroso em meio ao caos, e nesse caso incluindo o Dr. Lamont e o Major Jay. E com aquela tradicional mensagem de cooperação entre as nações do mundo para uma causa comum, deixando os conflitos entre si para unirem-se no combate ao inimigo maior na figura de alienígenas hostis, que por sua vez, são o alvo de uma crítica social contra as ações opressoras de ditadores conquistadores, com o uso de força e destruição. Curiosamente, o ator Philip Tonge morreu aos 61 anos logo após completar suas filmagens e não conseguiu ver seu trabalho editado. E, ao longo do filme, um narrador conduz a história, com constantes informações sobre as ações dos alienígenas. “Num prazo de três dias, os mortos exterminarão todos os vivos, e nós iremos governar a Terra. Para a raça humana, este é o fim de sua existência” – mensagem dos alienígenas invasores. (RR – 09/05/15)

* Os Jacarés Mutantes (2013) – Exibido na TV a cabo “SyFy” como “Os Jacarés Mutantes”, também é conhecido por aqui como “Alligators – Crocodilos em Fúria”. É uma produção americana de 2013 que tem dois títulos por lá: “Ragin´ Cajun Redneck Gators” e “Alligator Alley”. Ou seja, com tantos títulos, torna-se evidente a imensa dificuldade em se fazer um trabalho de catalogação dessas tranqueiras. Dirigido por Griff Furst (de “Pânico no Lago 3” e outras porcarias similares), a história mostra uma jovem estudante, Avery (Jordan Hinson), que retorna da faculdade para visitar a família em sua pequena cidade natal, no Estado da Louisiana, que fica ao lado de lagos e pântanos onde vive uma comunidade colossal de jacarés. Em seu retorno ela terá que enfrentar a histórica rivalidade entre sua família Doucette e os vizinhos Robichaud, além de administrar a dificuldade em namorar um rapaz da família inimiga, Dathan (John Chriss), numa típica história “Romeu e Julieta”. E principalmente, ela terá que lutar contra o ataque feroz de jacarés mutantes assassinos devoradores de homens. Os enormes bichos foram contaminados por uma estranha “mistura azul” tóxica despejada regularmente nas águas dos lagos que cercam a região, transformando-os em criaturas enormes e violentas. E, além da ameaça natural desses animais rastejantes, suas mordidas infectam as vítimas com uma contaminação misteriosa que transforma as pessoas em jacarés. Os americanos gostam muito de fazer filmes bizarros e picaretas com tubarões assassinos. São tantas porcarias que é árdua a tarefa de listar e acompanhar. Mas, eles também se divertem produzindo filmes bagaceiros com outros animais como os jacarés, que são os protagonistas dessa tranqueira ruim ao extremo, com um roteiro absurdo e CGI vagabundo. E para quem tiver a corajosa intenção de ver esse filme um dia, aviso que abaixo seguem alguns “spoilers” inofensivos, que provavelmente não devem ser tão comprometedores para atrapalhar a diversão. O filme é tão tosco que algumas cenas conseguem até ficar divertidas e guardadas na memória por algum tempo para serem citadas em conversas sobre cinema bagaceiro de ficção científica e horror. Por exemplo, em determinado momento, os patriarcas das duas famílias inimigas finalmente encontram a oportunidade de fazerem um duelo mortal, para encerrarem o assunto da inimizade histórica. A questão bizarra é que um deles, o pai da mocinha estudante que volta para casa, se transformou num imenso jacaré depois de ser mordido por um destes bichos contaminados. Os dois ficam de frente um para o outro, no melhor estilo dos duelos de pistoleiros dos filmes de western, e ambos sucumbem ao mesmo tempo, com o jacaré acertando o rival com o disparo de um potente espinho localizado na cauda, e o outro homem mata o animal com um tiro de arma de fogo. Continuando as bizarrices, ainda tem uma cena onde um grupo de pessoas está encurralado por um crocodilo, e um deles tem a ideia de arremessar o cachorro de estimação da família na boca do jacaré, para ganharem tempo e poderem fugir. Ninguém imaginaria o destino do pobre cachorrinho. “Os Jacarés Mutantes” é apenas mais um daqueles filmes ruins e patéticos demais, perdido na imensidão de produções similares, e que um dia no futuro poderá até ser cultuado justamente por isso. (RR – 30/05/15)

* Jamie Marks Está Morto (2014) – Filme americano dirigido e escrito por Carter Smith, baseado em livro de Christopher Barzak, “Jamie Marks Está Morto” é um drama sobrenatural com elementos sutis de horror que foi exibido no Brasil na “38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo”, em Outubro de 2014. Um adolescente que está sempre isolado e sofre bullyng na escola, Jamie Marks (Noah Silver), é encontrado morto misteriosamente na beira de um rio gelado numa pequena cidade dos Estados Unidos, descoberto pela jovem Gracie Highsmith (Morgan Saylor), enquanto procurava pequenas pedras para sua coleção. Como um fantasma desorientado, ele fica perdido entre os mundos dos vivos e mortos, precisando de um amigo para ajudar a guiá-lo pelo túnel para o outro lado, que parece ser Adam McCormick (Cameron Monaghan), esportista bem sucedido na escola e que não participava das sessões de bullyng.. O fantasma de Jamie Marks podia ser visto apenas por Gracie e Adam, criando uma relação estranha e misteriosa entre eles. Melancólico, depressivo, uma história de fantasma perturbado em busca de paz. Com uma narrativa lenta, mas não entediante, como um bom roteiro deve ser, sem precisar apelar para sangue, violência ou sustos fáceis, nem efeitos especiais mirabolantes e artificiais. Não é para todos os públicos, sendo um típico filme para exibição em festivais, com pequeno apelo comercial e por isso difícil de ser exibido nos cinemas em geral. A química de amizade formada por Jamie e Adam funciona bem e de forma convincente, mantendo a atenção do espectador e o interesse pela condução da história. Curiosamente, a bela atriz Liv Tyler, também conhecida por ser filha de Steven Tyler, o líder da banda “Aerosmith”, e que esteve em filmes populares como “Armageddon” (1998), a trilogia “O Senhor dos Anéis” (2001 / 2002 / 2003) e “O Incrível Hulk” (2008), tem uma participação menor no papel da mãe de Adam, num momento meio frio de sua carreira, com poucos trabalhos. (RR – 29/04/15)

* O Monstro de Duas Caras (1960) – Mais uma produção colorida do estúdio inglês “Hammer”, com direção do especialista Terence Fisher e com o ícone Christopher Lee. Apresentando outra versão da conhecida história “O Médico e o Monstro” (The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde), de Robert Louis Stevenson, famosa obra literária de 1886 que foi adaptada inúmeras vezes no cinema, inclusive com outras duas versões da própria “Hammer”, “The Ugly Duckling” (1959) e “O Médico & Irmã Monstro” (1971). “Em cada personalidade humana, duas forças lutam pela supremacia.” Com estas palavras, o obcecado cientista Dr. Henry Jekyll (o canadense Paul Massie) se convence e tenta argumentar para seu amigo, o médico Dr. Ernst Litauer (David Kossof), sobre a importância de suas experiências na descoberta de uma solução química que depois de ingerida poderia trazer à tona o lado mal do ser humano. Ou a sua personalidade mais agressiva e livre de obrigações morais. E uma vez testando a poção em si mesmo, desperta em seu interior o Sr. Edward Hyde, um homem elegante quando é de seu interesse, mas que age sem escrúpulos, sentindo-se livre para se envolver no submundo de Londres de 1874. Relacionando-se com prostitutas, bebendo em bares de categoria inferior, apostando em lutas ilegais e fumando ópio em locais próprios para se consumir a droga. A esposa do pacato Dr. Henry Jekyll, a bela Kitty (Dawn Addams, de “Os Vampiros Amantes”, 1970), cansada da falta de atenção do cientista abnegado em seu trabalho, prefere participar de festas sociais da alta sociedade londrina, sendo amante do amigo de seu marido, Paul Allen (Christopher Lee), que é um homem sedutor, mas sem afeição pelo trabalho. Ele está sempre perdendo dinheiro em jogos de cartas, vivendo endividado e recorrendo à ajuda financeira do Dr. Jekyll. As coisas pioram bastante depois que mortes misteriosas ocorrem despertando a atenção da polícia, e o cientista perde progressivamente o controle da situação, permitindo o domínio do Sr. Hyde. Um destaque notável é a interpretação de Paul Massie, que alterna de forma eficaz a voz e o comportamento geral quando interpreta o educado Dr. Jekyll e o descontraído Sr. Hyde, num trabalho convincente de duas personagens de uma mesma pessoa. Curiosamente, o consagrado ator Christopher Lee também esteve em outra adaptação do livro de Stevenson, “O Soro Maldito” (I, Monster, 1971), produzido pelo estúdio rival “Amicus”, e dessa vez fazendo o papel do “cientista louco”, atuando ao lado do lendário parceiro Peter Cushing. Oura curiosidade é a participação pequena, com uma breve ponta, do ator Oliver Reed. Ele está na mesma casa noturna sofisticada em que se encontra o casal de amantes formado por Paul Allen e Kitty, além do Sr. Hyde, e para defender uma prostituta de luxo, se envolve numa briga com eles. Reed atuou um ano depois em outro filme da “Hammer”, “A Maldição do Lobisomem” (The Curse of the Werewolf) no papel do homem que se transforma em lobo. Ele também esteve em “Dr. Heckyl and Mr. Hype” (1980), outra adaptação do livro de Stevenson, no papel do cientista. (RR – 01/06/15)

* O Monstro do Himalaia (1957) – Um filme da década de 50 do século passado, da produtora inglesa “Hammer”, com fotografia em preto e branco, estrelado por Peter Cushing e com uma história explorando o lendário “abominável homem das neves”, assunto que inspirou a realização de vários filmes especulando sua misteriosa existência. Esse conjunto de fatores é mais do que suficiente para a garantia de diversão em mais uma preciosidade do cinema fantástico bagaceiro. “O Monstro do Himalaia” tem direção de Val Guest, o mesmo de “O Dia Em Que a Terra se Incendiou” (61) e “Quando os Dinossauros Dominavam a Terra” (70), e roteiro de Nigel Kneale, o criador do universo ficcional de “The Quatermass Experiment”. É o primeiro de muitos filmes do “Cavalheiro do Horror” Peter Cushing (1913 / 1994) para o cultuado estúdio “Hammer”. Ele que ficou eternizado no cinema fantástico por sua imensa contribuição ao gênero com participações em dezenas de filmes de horror e ficção científica, interpretando papéis marcantes e se especializando em “caçador de vampiros” e “cientistas loucos”. O cientista botânico Dr. John Rollason (Cushing) está hospedado num monastério situado na base das montanhas geladas do Himalaia, uma região inóspita onde se encontram as montanhas mais altas do mundo, abrangendo lugares como o Tibete (na China) e o Nepal. Junto com sua esposa Helen (Maureen Connell) e o assistente Sr. Peter Fox (Richard Wattis), eles estudam ervas raras que sobrevivem nesse ambiente hostil de frio intenso. Porém, o Dr. Rollason também tem outro objetivo maior, que é fazer parte de uma expedição rumo ao topo da montanha para tentar encontrar o lendário “Yeti”, ou “homem das neves”, uma criatura primitiva enorme com pegadas de 40 cm e altura de 3 m, que poderia ser o elo evolutivo entre o macaco e o homem, e cuja lenda de sua existência fascina o mundo, tendo um equivalente paralelo nas florestas dos Estados Unidos, chamado de “Sasquatch” ou “Pé Grande”. A expedição é liderada pelo explorador Tom Friend (Forrest Tucker), e fazem parte outros três homens, o caçador Edward Shelley (Robert Brown), o fotógrafo Andrew McNee (Michael Brill) e o guia local Kusang (Wolfe Morris). Mesmo com a oposição da esposa Helen, que teme os perigos da empreitada, e do mestre espiritual do monastério, Lhama (Arnold Marle), que tem motivos misteriosos para manter os exploradores afastados da região, o Dr. Rollason decide acompanhar a expedição. Descobrindo mais tarde as reais intenções comerciais de Tom Friend em contraste com seus objetivos científicos, e desvendando o mistério que envolve os imensos antropóides que se escondem nas mais remotas e geladas regiões do planeta. A narrativa é lenta em boa parte do filme, mas em compensação temos a bem sucedida intenção dos realizadores em manter em segredo as enormes criaturas peludas, expondo-as sutilmente apenas no desfecho, instigando a imaginação do espectador. Mesmo que tal intenção também possa ser algo inevitável devido às deficiências orçamentárias da produção, que não permitiria uma grande exposição do “monstro do Himalaia”. Também é bastante louvável o roteiro especular que as misteriosas criaturas que são o foco da expedição, não sejam necessariamente primitivas, e que poderiam ter evoluído em paralelo com a raça humana, desenvolvendo inteligência e preferindo viver em isolamento com receio do poder de autodestruição da humanidade. O filme é uma refilmagem de “The Creature” (1955), episódio de TV da série “BBC Sunday-Night Theatre”, também com Peter Cushing fazendo o mesmo papel do Dr. John Rollason. Além dele, outros dois atores reprisaram seus personagens, Wolfe Morris como o guia da expedição e Arnold Marle como o líder espiritual do mosteiro. Em 1954 foi lançado “O Terror do Himalaia” (The Snow Creature), que é considerado o primeiro filme a abordar a lenda do “Yeti”. Produzindo nos Estados Unidos com baixo orçamento e em preto e branco, tem direção de W. Lee Wilder. “O Monstro do Himalaia” ainda faz parte da fase em preto e branco da “Hammer”. Porém, no mesmo ano de 1957 já começaria a produção dos filmes em cores como “A Maldição de Frankenstein”, também com Peter Cushing no papel do “cientista louco”, só que dessa vez ao lado de Christopher Lee como o monstro, outro ator que se transformou em ícone no gênero e que fez inúmeras parcerias com Cushing. Os filmes coloridos da “Hammer” ajudaram o estúdio a torna-se cultuado, ao mostrar o vermelho vivo do sangue e revitalizando os monstros clássicos da produtora americana “Universal”. O ator americano Forrest Tucker (1919 / 1986), que tem um dos papéis principais no filme, tanto que seu nome aparece em destaque nos cartazes de divulgação, é mais conhecido pelos inúmeros filmes de western. Mas, ele também participou de outros dois filmes ingleses bagaceiros de ficção científica e horror, “The Trollenberg Terror” e “O Monstro Cósmico” (The Strange World of Planet X), ambos de 1958.
Curiosidades:
* Na divertida animação “Monstros S.A.” (2001), cuja história apresenta monstros diversos que vivem num universo paralelo interligado ao nosso através de portas dimensionais, o “abominável homem das neves” é um monstro banido desse mundo oculto. Ele foi obrigado a viver no nosso, isolado nas terras geladas do Himalaia e longe da humanidade. E, inevitavelmente ele despertaria uma lenda sobre sua misteriosa existência.
* “Quando a humanidade lançar a bomba atômica, também nossos descendentes viverão no gelo”. Essas palavras do explorador Tom Friend evidenciam o medo naquela época conturbada da catástrofe nuclear, um temor fortemente presente durante a paranoia da guerra fria entre Estados Unidos e a antiga União Soviética, sendo um assunto abordado à exaustão numa infinidade de filmes, principalmente nas décadas de 1950 e 60.
* O roteiro de “O Monstro do Himalaia” procurou especular o “abominável homem das neves” como um ser inteligente e não primitivo. Porém, curiosamente, apenas dois anos depois do lançamento do filme, em 2 de Fevereiro de 1959 ocorreu um massacre de nove estudantes esquiadores que viajavam pelo Norte dos Montes Urais, uma cordilheira de montanhas geladas e inóspitas na Rússia, região que divide a Europa da Ásia. Os cadáveres dos jovens foram encontrados mutilados e semi nus, e a autoria dos assassinatos tornou-se um grande mistério conhecido como “Incidente do Passo Dyatlov”, que era o nome do líder da expedição de esquiadores mortos. Existe também a especulação sobre uma investigação da polícia secreta russa KGB, escondendo informações que ajudariam a desvendar o mistério. Para muitos jornalistas investigativos e habitantes de aldeias locais, o responsável pelas mortes sangrentas é um “Yeti”, demonstrando que a criatura seria primitiva e violenta. (RR – 20/05 e 17/07/15)

* O Vampiro de Black Water (2014) – Também conhecido no Brasil como “O Assassino das Sombras”, o filme foi exibido na TV a cabo “SyFy” como “O Vampiro de Black Water”. Escrito e dirigido por Evan Tramel, em seu primeiro trabalho, está situado dentro do sub-gênero “found footage”, com muita influência de “A Bruxa de Blair” (The Blair Witch Project, 1999) e elementos de “O Bebê de Rosemary” (Rosemary´s Baby, 1968) no desfecho. Uma equipe de filmagem de documentários está trabalhando no misterioso caso de assassinatos em série de mulheres nas florestas geladas de Black Water, no Estado americano de Washington. As vítimas são encontradas sem sangue e com uma enorme mordida no pescoço. A polícia encerra o caso ao prender um morador da região, Raymond Banks (Bill Oberst Jr.), que é condenado à morte de maneira suspeita. A equipe de documentaristas é formada por Danielle Mason (Danielle Lozeau), Andrea Adams (Andrea Monier), o cinegrafista Anthony Russell (Anthony Fanelli) e o técnico de som Robin Allen (Robin Steffen). O objetivo é investigar os assassinatos, entrevistando os moradores e visitando os locais onde foram encontradas as vítimas. Porém, ao ficarem perdidos na floresta e sendo ameaçados por estranhos ruídos noturnos, eles terão que lutar por suas vidas ao serem atacados por uma violenta criatura de dentes pontudos. Este é um daqueles típicos filmes do cinema bagaceiro de horror do século 21. Ruim e repleto de clichês e ideias de outros filmes, e que talvez um dia no futuro possa até ser cultuado justamente por ser uma tranqueira que não agrega grande coisa ao gênero, mas que até poderia divertir. Assim como fazemos com os filmes bagaceiros de roteiros absurdos e efeitos toscos produzidos dezenas de anos atrás, principalmente as preciosas tranqueiras dos anos 50 e 60 do século passado, podendo até se estender à década de 80. O estilo “found footage” já está saturado ao extremo, mas ainda continua chamando a atenção dos realizadores. “O Vampiro de Black Water” não apresenta nada que já não tenha sido explorado numa infinidade de filmes anteriores, inclusive tem uma imensa similaridade com o já citado “A Bruxa de Blair”. A opção do diretor em mostrar o monstro em vez de apenas sugerir sua presença ameaçadora, com a artificialidade do CGI, também contribui para situá-lo num imenso grupo de filmes apenas comuns. E pelo título, é plenamente óbvio saber com antecedência a identidade da criatura. É para assistir, tentar não dormir, talvez até se divertir um pouco, e esquecer logo em seguida. (RR – 26/05/15)