O Círculo do Diabo (1962)


Oh Camba, grande deus do mal, senhor dos destinos humanos. Oferecemos essa bela jovem no altar do sacrifício. O senhor, em sua sabedoria, vai julgá-la. Se duvida de sua lealdade, ela deve ser punida. Mas se for digna de servi-lo, seu poder irá poupá-la.

O cinema de horror possui uma grande quantidade de subgêneros bem diferentes entre si, e todos eles, de uma forma ou de outra, acabam satisfazendo as mais diversas e variadas expectativas dos fãs.
E mais especificamente, para aqueles que apreciam filmes antigos, fotografados em preto e branco, produzidos com baixo orçamento, de curta duração (somente 70 minutos), apresentando uma história simples e despretensiosa, sem cenas de ação, sustos, barulheiras, correrias desenfreadas nem efeitos especiais, e apenas investindo num horror sutil, discreto e sugerido (com ausência de sangue ou violência), vale citar “O Círculo do Diabo” (The Devil’s Hand, 1962), lançado em DVD no Brasil pelo selo “Dark Side” da “Works Editora”, de Jundiaí/SP.

O filme é dirigido por William J. Hole Jr. a partir de um roteiro de Jo Heims, com uma história básica abordando as atividades secretas de um grupo de satanistas que veneram um demônio obscuro chamado Camba.
Um homem, Rick Turner (Robert Alda), está enfrentando uma crise de sono com várias noites seguidas sem dormir por causa de pesadelos que mostram uma bela mulher dançando sugestivamente para ele, preocupando sua noiva Donna Trent (Ariadna Welter). Em certo momento, de forma misteriosa, ele descobre uma loja de bonecas de propriedade do Sr. Francis Lamont (Neil Hamilton), onde encontra uma boneca com o rosto da mulher de seus sonhos perturbadores, além de ver outra boneca com a fisionomia semelhante a de sua noiva Donna.
Intrigado pela incrível coincidência, o homem decide investigar o caso e descobre que a mulher que tenta se comunicar com ele nos sonhos é Bianca Milan (Linda Christian), uma praticante de um culto demoníaco, e que os envolvidos na seita possuem bonecas esculpidas conforme suas imagens, aprisionando suas almas através de magia negra. Rick acaba inevitavelmente se apaixonando e tornando-se mais um membro da sociedade secreta de adoradores do diabo, enquanto em paralelo sua noiva é internada misteriosamente num hospital com fortes dores pelo corpo.

Após ver o filme, surge nitidamente uma impressão de se tratar de um episódio estendido da nostálgica série de TV “Além da Imaginação” (The Twilight Zone, 1959/64), criada por Rod Serling (1924/75), e que era conhecida por apresentar histórias voltadas para o fantástico. Pois o roteiro de “O Círculo do Diabo” parece se encaixar perfeitamente num episódio da cultuada série, desde o tema abordado, uma seita de seguidores de uma entidade maligna, passando pela produção modesta e a idéia totalmente despretensiosa de contar uma história simples com elementos sugestivos de horror. E por apresentar essas características, o filme deverá não agradar aqueles que esperam justamente o contrário, sangue em profusão, violência exagerada, suspense perturbador, sustos, ação, reviravoltas, surpresas, etc.
Como pontos positivos e de destaques no filme, podemos citar o argumento básico sobre uma seita satânica e seus rituais demoníacos, um tema explorado no início dos anos 60, num momento que ainda não estava saturado, e o que inevitavelmente aconteceu nas décadas seguintes. Tem também a presença da belíssima atriz Linda Christian como uma bruxa moderna, além da tentativa de mostrar um final fora do convencional, pendendo para o pessimismo na eterna disputa do Bem contra o Mal.
Já ao contrário, são bem evidentes vários furos no roteiro em situações forçadas, principalmente o fato de Rick Turner se converter tão rápido e facilmente como um adepto da seita de culto ao deus do mal Camba, se bem que a beleza escultural de Bianca poderia explicar o feitiço exercido sobre ele. Mas, ainda assim, pareceu inverossímil sua aproximação dos satanistas, sem grandes questionamentos ou resistência. A seita, por sua vez, também tinha liberdade em excesso para agir e realizar seus rituais de sacrifício, apesar da tentativa fracassada de denúncia através de um jornalista infiltrado entre eles. Se fizermos uma análise crítica mais rigorosa, certamente encontraríamos várias falhas e situações mal explicadas que estragariam a diversão, por isso o melhor a fazer é assistir o filme de forma tranqüila e sem compromisso, como um episódio da saudosa “Além da Imaginação”.
“O Círculo do Diabo” recebeu outros nomes alternativos como “Devil’s Doll”, “Live to Love”, “The Naked Goddess” e o manjado e repetitivo “Witchcraft”, e pode ser um filme “B” recomendado sem exigência para os colecionadores e fãs de produções mais desconhecidas e pouco comentadas de horror sugerido.

“O Círculo do Diabo” (The Devil’s Hand, Estados Unidos, 1962) # 382 – data: 23/05/06 – avaliação: 6 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com / blog: www.juvenatrix.blogspot.com (postado em 24/05/06)