Comentários de Cinema - Parte 21

Filmes abordados:

Beijo do Vampiro, O (The Kiss of the Vampire, Inglaterra, 1963)
Chupacabra (Chupacabra vs. The Alamo, Canadá, 2013)
Cyborg – O Dragão do Futuro (Cyborg, EUA, 1989)
Deusa da Cidade Perdida, A (She, Inglaterra, 1965)
Fim do Amanhã, O / No Limite da Salvação (Age of Tomorrow, EUA, 2014)
Górgona, A (The Gorgon, Inglaterra, 1964)
Independence Daysaster (Canadá, 2013)
Mil Séculos Antes de Cristo (One Million Years B.C., Inglaterra, 1966)
Usina de Monstros (Quatermass 2 / Enemy From Space, Inglaterra, 1957, PB)


* O Beijo do Vampiro (1963) – A produtora inglesa “Hammer” tem em seu vasto catálogo vários filmes de vampirismo, muitos deles com a dupla Christopher Lee e Peter Cushing liderando os elencos. Mas, também tem filmes sem a presença desses astros, como “O Beijo do Vampiro”, que traz Clifford Evans no papel do caçador de vampiros e Noel Willman no papel do líder de uma seita vampírica. A direção é do australiano Don Sharp, de “Rasputin – O Monge Louco” (66), e o roteiro é de autoria do produtor Anthony Hinds, utilizando o pseudônimo John Elder. A história é ambientada no início do século XX, onde um casal em lua de mel, Gerald Harcourt (Edward de Souza) e Marianne (Jennifer Daniel), está viajando de carro por estradas remotas da Alemanha quando a falta de gasolina os obriga a se hospedar num decadente hotel pouco frequentado. Os proprietários são um casal de idosos formado por Bruno (Peter Madden) e Anna (Vera Cook), que dizem que não recebem hóspedes há muito tempo e apenas um dos quartos está ocupado. O outro hóspede é o Prof. Zimmer (Clifford Evans), um homem rude e alcoólatra, estudioso de ocultismo e que está na região com objetivos misteriosos investigando as atividades de uma família que vive num imenso castelo vizinho. O sinistro e refinado cientista Dr. Ravna (Noel Willman) é o dono do imponente mausoléu de pedra, onde vive com um casal de filhos, Carl (Barry Warren) e Sabena (Jacquie Vallis). Os jovens viajantes são então convidados para uma festa no castelo e não imaginariam que no local existe um culto vampírico liderado pelo Dr. Ravna, exilado de sua cidade natal devido uma falha num de seus experimentos científicos, e que ficou encantado com a beleza de Marianne, desejando o seu ingresso na sociedade secreta de sugadores de sangue. Mesmo sem os tradicionais “Drácula” e “Prof. Van Helsing”, “O Beijo do Vampiro” é mais uma preciosidade da “Hammer” dentro da temática dos vampiros humanos, seres bestiais que se alimentam do sangue de outros humanos. A narrativa é lenta, com uma atmosfera gótica e de horror sutil, sem violência e com pouca exposição de sangue, mas com as tradicionais características do estilo tão cultuado pelos fãs do estúdio, com um castelo tétrico, um baile com máscaras sinistras e bizarras de gelar a espinha, aldeões vivendo em constante medo, lindas vampiras sedutoras e um culto vampírico secreto. Tem até um ataque de dezenas de morcegos (de borracha e manipulados por barbantes) invocados num ritual de magia negra pelo Prof. Zimmer, contra os discípulos da seita do Dr. Ravna, numa similaridade com o ataque dos pássaros no filme de Alfred Hitchcock lançado no mesmo ano de 1963. Com direito a toques de erotismo de belas mulheres vampiras sendo sugadas pelos morcegos. Curiosamente, o filme teve uma versão americana estendida, produzida para a televisão, com o acréscimo de mais personagens e que recebeu o título de “Kiss of Evil”. “O Beijo do Vampiro” é o terceiro filme de vampirismo da “Hammer” em ordem cronológica, sucedendo “O Vampiro da Noite” (58), com a dupla Lee e Cushing, e “As Noivas do Vampiro” (60), com Cushing sozinho. (RR – 06/06/15)


* Chupacabra (2013) – O canal de TV a cabo “SyFy” é voltado para filmes de ficção científica e horror. Seu slogan é “SyFy – Imagine Mais”. Mas, o ideal seria algo como “Imagine filmes ruins e no SyFy eles são piores ainda”. É o cinema fantástico bagaceiro do século XXI, com histórias fracas, elenco inexpressivo, CGI vagabundo, produção tosca, e tudo com uma roupagem moderna. Se essas tranqueiras serão cultuadas no futuro, somente o tempo dirá, mas o que certamente podemos dizer agora, é que são filmes péssimos e o espectador precisará ser muito paciente e pouco exigente para tentar conseguir alguma diversão, mesmo que em pequenas e logo esquecíveis doses. Dirigido por Terry Ingram, “Chupacabra” tem a curiosidade da presença na liderança do elenco do veterano Erik Estrada, o policial rodoviário Frank Poncherello da série de TV “CHiPs” (1977 / 1983), que foi exibida à exaustão na televisão brasileira. O ator faz o papel do policial da divisão de narcóticos, agente Carlos Seguin, na pequena cidade americana de San Antonio, no Estado do Texas, divisa com o México. Inclusive, provavelmente servindo de homenagem ao ator e à série de TV, temos várias cenas gratuitas com ele dirigindo uma bela e imponente moto, com direito até a uma acrobacia saltando sobre um canteiro de obras. Junto com a nova parceira, Tracy Taylor (Julian Benson), ele recebe a missão de investigar as mortes misteriosas e de forma sangrenta de um grupo de traficantes de drogas. Descobrindo mais tarde que a responsabilidade dos assassinatos é de um bando imenso de “chupacabras”, uma lenda urbana que virou realidade, animais mutantes e nômades, misto de cachorros e coiotes, que invadem a cidade à procura de comida, encontrando nos seres humanos a carne e o sangue para saciarem sua fome. A dupla de policiais forma uma improvável aliança com um grupo de arruaceiros rebeldes, e fortemente armados, partem para o combate contra a invasão da horda de “chupacabras” que já fizeram dezenas de vítimas. Culminando num confronto decisivo dentro do histórico Forte Álamo (daí o título original), que no passado teve importância relevante na guerra entre Estados Unidos e México pela posse do Texas. A invasão de uma pequena cidade por animais enfurecidos ou criaturas sobrenaturais é a já conhecida e largamente explorada premissa básica do filme. Dentro desse clichê, ainda temos um elenco patético, com exceção talvez para a nostalgia da presença de Erik Estrada, somado com uma história despreocupada com lógica ou coerência, e efeitos tão vagabundos de computação gráfica que obviamente não convencem. São “chupacabras” aparecendo por todos os lados, sendo abatidos por tiros, e atacando os humanos como cachorros raivosos. É verdade que tem bastante sangue, com mortes violentas, mas com uma artificialidade que não funciona. Ainda tem os comentários patéticos no meio do caos e o desfecho previsível onde facilmente sabemos quem serão os sobreviventes e os vitoriosos da batalha. Mais um filme descartável exibido pelo canal “SyFy”, que deveria “imaginar” que seus espectadores gostariam de ver filmes melhores. (RR – 05/07/15)


* Cyborg – O Dragão do Futuro (1989) – Com produção da saudosa “Cannon”, de Menahem Golan e Yoram Globus, direção de Albert Pyun e com o ator belga Jean-Claude Van Damme, especialista em artes marciais, “Cyborg – O Dragão do Futuro” é um filme de ação e porradaria com elementos de ficção científica, na ambientação de um mundo pós-apocalíptico, devastado por uma peste. Além da presença de uma cyborg, numa mistura de mulher e máquina, carregando uma informação vital para a cura da doença que assola a civilização em decadência. Van Damme é Gibson Rickenbacker, um homem que vaga pela cidade destruída de New York, num mundo selvagem em ruínas à procura de vingança pessoal contra um pirata chamado Fender Tremolo (o neo-zelândes Vincent Klyn), que lidera uma gangue que espalha terror e violência para os poucos sobreviventes do caos, e que tentam sobreviver num mundo desolado. Ele encontra em seu caminho uma moça guerreira, Nady Simmons (Deborah Richter), e juntos partem em busca dos piratas, que sequestraram uma mulher cyborg, Pearl Prophet (a canadense Dayle Haddon), que possui uma informação essencial que pode curar a praga que assola a humanidade. Eles estão levando-a para a cidade de Atlanta, onde estão os últimos médicos e cientistas que podem evitar a extinção da humanidade. A intenção do maníaco Fender é tornar-se um ditador sanguinário com o poder da cura da peste nas mãos, e até chegarem ao destino final, o caminho de sua gangue e do lutador Gibson se cruzará muitas vezes em confrontos violentos. A história futurista é bem simples, com poucos diálogos (o personagem de Van Damme quase não fala, só distribui porradas), muitas lutas, tiroteios, perseguições e selvageria num mundo pós-apocalíptico. E nem precisa de explicações e conversas fúteis, pois o mundo está em colapso, destruído pela anarquia, genocídios e fome, e uma praga está dizimando o que restou da civilização humana, o que pode ser resumido num breve diálogo entre o monossilábico Gibson e a guerreira Nady:
- Já está acostumado? – pergunta a moça.
- Com o quê?
- A matança.
- Eu não fiz o mundo – responde o áspero Gibson.
- Não. Apenas vive nele.
O filme é até divertido dentro de sua proposta simples de mostrar pancadaria desenfreada e muita gritaria num ambiente futurista de desolação. Van Damme é um daqueles atores com imagem totalmente associada aos filmes de lutas, e que mesmo tentando fazer papéis um pouco diferentes, sempre será lembrado pelas produções de ação e porradas. Em “Cyborg”, sua escolha para o papel principal veio depois de atuar em outros dois filmes similares anteriores, “Retroceder Nunca, Render-se Jamais” (No Retreat, No Surrender, 1986) e “O Grande Dragão Branco” (Bloodsport, 1988), que lhe trouxeram notoriedade dentro do estilo que já tinha atores mais conhecidos como Chuck Norris, sem contar astros mais famosos como Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger. Curiosamente, vieram em seguida outros três filmes dentro desse universo ficcional: “Cyborg 2: Glass Shadow” (1993), “Cyborg 3: The Recycler” (1994) e “Cyborg Nemesis” (2014). O roteiro de “Cyborg – O Dragão do Futuro” também é do diretor Albert Pyun, usando o pseudônimo Kitty Chalmers, e foi criado a partir do cancelamento da produção de “Masters of the Universe 2 – The Cyborg”, utilizando os vestuários e cenários idealizados para a sequência inexistente de “Mestres do Universo” (1987), com Dolph Lundgreen. (RR – 05/06/15)


* A Deusa da Cidade Perdida (1965) – A produtora inglesa “Hammer” é normalmente lembrada por seus filmes de horror gótico, mas também fazem parte de seu catálogo histórias de aventura com elementos de fantasia, como “A Deusa da Cidade Perdida” (1965), com direção de Robert Day e roteiro de David T. Chantler, baseado em livro de H. Rider Haggard. E no elenco ainda temos a dupla Peter Cushing e Christopher Lee, e eles atuam ao lado da estonteante atriz suiça Ursula Andress, a “deusa” do título nacional. Na Palestina de 1918, um arqueólogo a serviço do exército inglês, Major Horace L. Holly (Peter Cushing), juntamente com seu fiel mordomo Job (Bernard Cribbins) e o jovem amigo aventureiro Leo Vincey (John Richardson), tentam descansar num bar dançante, bebendo, conversando e se divertindo com as belas mulheres locais. Porém, a incrível semelhança física de Leo com uma imagem num medalhão antigo, desperta uma atenção especial e ele recebe um anel precioso e um mapa para localizar a misteriosa cidade faraônica de Kuma, perdida no vasto deserto em direção à África. Os três amigos montam uma pequena expedição com a esperança de encontrar a cidade e possíveis tesouros. Kuma é governada com tirania por uma linda e sobrenatural mulher chamada Ayesha (Ursula Andress), que tem o poder de imortalidade, e que conta com o apoio do sumo sacerdote Billali (Christopher Lee) para manter a ordem e obediência com os escravos. Ela acha que Leo pode ser a reincarnação de seu amado companheiro de séculos atrás, Callicrates, oferecendo-lhe a oportunidade de vida eterna com poder e riquezas. O filme é uma típica aventura com fantasia, daquelas que eram exibidas com frequência na saudosa “Sessão da Tarde” da TV Globo. O tema de “cidade perdida” costuma despertar a curiosidade, instigando a imaginação sobre as lendas de civilizações escondidas. Peter Cushing, como sempre, lidera o elenco com seu talento característico, e Christopher Lee aparece menos, ficando com um papel secundário, mas sua presença sempre é motivo de interesse. E tem a beleza de Ursula Andress, no auge da carreira na época, após atuar com Sean Connery no filme do agente secreto 007 em “O Satânico Dr. No” (1962). O escritor Henry Rider Haggard é conhecido por suas histórias de aventuras que inspiraram muitos filmes como “As Minas do Rei Salomão” (1985) e “Allan Quatermain e a Cidade do Ouro Perdido” (1986), ambos com Richard Chamberlain. Além de “She”, que recebeu inúmeras outras versões no cinema. “A Deusa da Cidade Perdida” teve uma sequência em 1968, “A Vingança da Deusa” (The Vengeance of She), também com produção da “Hammer”. (RR – 20/06/15)


* O Fim do Amanhã (2014) – A produtora americana “The Asylum” é conhecida por seus filmes tranqueiras de ficção científica e horror, com roteiros ridículos, atores inexpressivos e efeitos especiais vagabundos. São produções baratas feitas em pouco tempo sem qualquer tipo de preocupação com lógica, verossimilhança ou qualidade. O importante é produzir em quantidade e descarregar seus filmes em lançamentos em DVD e exibições na televisão, como o canal a cabo “SyFy”, especializado no gênero. Podemos considerar como o “cinema bagaceiro do século XXI”, que se hoje é ruim demais e um exercício de coragem e excesso de tolerância para conseguir assistir, pode ser que daqui meio século essas porcarias até sejam cultuadas, justamente por suas características bagaceiras. Assim como atualmente temos uma legião de apreciadores dos filmes tranqueiras com roteiros absurdos e efeitos toscos produzidos em imensa quantidade a partir de meados do século passado. “The Asylum” também é conhecida por descaradamente e assumidamente copiar o nome, a ideia central e partes das histórias de filmes com orçamentos milionários, aproveitando o sucesso comercial dos chamados “blockbusters”. Eles lançam em pouco tempo as suas versões fuleiras desses filmes de grandes bilheterias, que ganharam o nome pejorativo “mockbusters”. Dentro desse princípio, a produtora oportunista fez “O Fim do Amanhã” (Age of Tomorrow), dirigido por James Kondelik, e que também ganhou o título no Brasil de “No Limite da Salvação”, quando exibido pelo canal de TV “SyFy” (algo típico em nosso país, que costuma criar vários nomes para os filmes, confundindo e dificultando um trabalho de pesquisa e catalogação). No caso, o plágio é para o ótimo “No Limite do Amanhã” (Edge of Tomorrow), com o astro Tom Cruise. Na cópia picareta, um grande asteróide está em rota de colisão com a Terra, obrigando o exército, sob o comando do General Magowan (Robert Picardo), com o auxílio do Coronel Mac (Mitchell Carpenter), a organizar uma equipe para uma missão que viajaria até o asteróide a bordo de um foguete e tentaria explodir partes dele, desviando sua rota. A equipe é liderada pelo Capitão James Wheeler (Anthony Marks), que conta com a ajuda da cientista Dra. Gordon (Kelly Hu), entre outros. Lá chegando, eles encontram uma caverna e em seu interior uma sala de controle com um portal tecnológico de teleporte para outro planeta, descobrindo que o asteróide é apenas uma ponte para uma invasão alienígena. Enquanto isso, numa trama paralela, na Terra as pessoas estão sendo atacadas por máquinas fortemente armadas e um bombeiro metido a herói (típico dos americanos), Chris Meher (Lane Townsend), se junta ao militar Major Blake (Nick Stellate) para combater a ameaça do espaço e tentar encontrar sua filha no meio da confusão. Todos acabam se encontrando no planeta dos invasores e descobrem que eles estão abduzindo os humanos, mantendo-os prisioneiros e fazendo experiências. É inevitável um confronto mortal com eles com os heróis lutando pela continuidade da civilização humana. O filme foi rodado em Los Angeles, na California, em apenas quinze dias, o que dá para imaginar o resultado final, com a história sendo contada muito rapidamente, sendo impossível estabelecer qualquer tipo de empatia com os personagens, que são fúteis ao extremo. Tudo é bagaceiro demais, desde o elenco patético ao CGI vagabundo. O bombeiro herói usa um machado como arma, desferindo golpes para todos os lados, destruindo as sondas robóticas que atacam a Terra e os alienígenas em seu planeta, e o machado está sempre limpo e impecável. As decisões estratégicas para definir o futuro da humanidade que está com risco de extinção por uma invasão alienígena, são todas tomadas por um único militar, pois o filme não tem orçamento para reunir uma conferência com representantes que definiriam melhor o destino de nosso mundo. “O Fim do Amanhã” é um filme tão descartável que nem mereceria ter tantas linhas nessa resenha. (RR – 07/06/15)


* A Górgona (1964) – A dupla de atores ícones do gênero Horror, Peter Cushing e Christopher Lee, estiveram juntos em vários filmes, agregando um valor inestimável ao gênero. Alguns destes filmes foram produzidos pelo cultuado estúdio inglês “Hammer”, e parte deles também teve a direção do especialista Terence Fisher, o principal cineasta da produtora. “A Górgona” (1964) reúne os três numa história com elementos góticos explorando um monstro da mitologia grega, com roteiro de John Gilling, a partir de uma história original de J. Llewellyn Devine. “Sobre a aldeia de Vandorf se ergue o Castelo Borski. Desde a virada do século, um monstro de tempos remotos chegou para viver lá. Ninguém que tenha se deparado com ele sobreviveu, e o espírito da morte ronda esperando sua próxima vítima.” Com essa narração, o filme tem início com uma ambientação no início do século XX numa pequena cidade alemã. O médico de um hospital psiquiátrico, Dr. Namaroff (Peter Cushing), tenta guardar um segredo envolvendo a ocorrência de mortes misteriosas na região durante a lua cheia, com os cadáveres literalmente petrificados, registrando atestados de óbito falsos e encobrindo a verdade. Sua assistente, a bela Carla Hoffman (Barbara Shelley), não se sente à vontade com o excesso de super proteção do médico. A polícia, representada pelo Inspetor Kanof (Patrick Troughton), está pressionada pelo contínuo insucesso na investigação dos misteriosos assassinatos, num ambiente que evidencia uma conspiração de silêncio e medo. Nesse cenário de mistério, as coisas complicam mais ainda após a chegada no vilarejo de Paul Heitz (Richard Pasco), que vem para investigar a morte de seu pai, o Prof. Jules Heitz (Michael Goodliffe), estudioso de mitologia grega e que morreu em circunstâncias estranhas. O jovem recém chegado se apaixona por Carla, que corresponde o seu interesse amoroso. Ele também solicita a ajuda de seu amigo Prof. Karl Meister (Christopher Lee), um conceituado acadêmico da Univedrsidade de Leipzig, para juntos tentarem descobrir o mistério por trás das mortes cujas vítimas foram transformadas em pedra. “Havia três horrendas irmãs monstruosas, as Górgonas. Seus nomes eram Tisifona, Medusa e Megera. Tinham serpentes vivas nas cabeças e cada uma delas era um tentáculo do cérebro diabólico que possuíam. Tão espantosas eram as Górgonas que todo aquele que as viam se convertia em pedra.” – anotações do Prof. Heitz, escritas momentos antes de morrer petrificado, revelando informações sobre a lenda de dois mil anos de uma mulher com cobras na cabeça e que poderia estar em atividade ao se apossar do corpo de outra mulher. Gosto pessoal é algo totalmente subjetivo, e no caso específico de “A Górgona” posso revelar que o filme está entre os meus preferidos da “Hammer”. Além da presença da dupla Cushing e Lee e do cineasta Terence Fisher, a ambientação gótica é bastante eficiente, com uma atmosfera sinistra constante, acentuada pelo castelo abandonado há meio século, envolto em névoa e cercado por árvores retorcidas e fantasmagóricas. E tem um monstro habitando suas ruínas decrépitas, a última das górgonas, que transforma suas vítimas em pedra. Apesar da concepção visual da górgona Megera (interpretada por Prudence Hyman) não ter agradado ao produtor Anthony Nelson Keys, que juntamente com Christopher Lee, revelou sua insatisfação com os efeitos toscos utilizados para simular as serpentes, e também pelos clichês inevitáveis da história, o filme ainda assim funciona muito bem como representante legítimo do estilo gótico e horror sugestivo da “Hammer”. Curiosamente, o grande ator Christopher Lee, que normalmente faz os papéis de vilão (com destaque para o eterno vampiro “Drácula”), assume o posto contrário em “A Górgona”, interpretando um influente professor que tenta desvendar os assassinatos misteriosos em Vandorf. E Peter Cushing, que na maioria das vezes está do lado que combate o mal, é agora o principal articulador de uma conspiração para abafar a real causa dos assassinatos, apesar de sua motivação ser passional. (RR – 28/06/15)


* Independence Daysaster (2013) – Típico exemplo do cinema bagaceiro do século XXI. Com produção canadense e direção de W. D. Hogan, de “Behemoth” e “Earth´s Final Hours” (ambos de 2011). Foi exibido pelo canal de TV a cabo “SyFy”, que ajudou na distribuição mundial. O título picareta já diz tudo, com uma história de invasão alienígena no comemorativo dia 04 de Julho nos Estados Unidos, data que lembra a sua independência. Curiosamente, o filme nem é americano, com seus vizinhos de cima demonstrando falta de imaginação, e optando por explorar um assunto que já é um clichê exaustivo. E o nome, com uma junção oportunista das palavras em inglês “Day” e “Disaster”, também nos remete ao anterior da década de 90 do século passado, com Will Smith, Bill Pullman e Jeff Goldblum, mais conhecido e produzido com muito mais dinheiro. Na história, uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos é destruída por imensas máquinas perfuradoras que saem debaixo do solo, com o apoio aéreo de pequenas sondas esféricas voadoras, equipadas com armas poderosas, e que estão em comunicação com uma imensa nave mãe estacionada perto da lua. Logo é revelada uma invasão extraterrestre em escala mundial, num ataque maciço com grande poder de destruição e caos global. Para combater a ameaça mortal dos alienígenas é lógico que temos um improvável time de heróis formado por cidadãos comuns que formarão a base da resistência. O bombeiro Pete Garcette (Ryan Merriman), que é irmão do Presidente americano Sam Garcette (Tom Everett Scott), encontra-se com Celia Lehman (Emily Holmes), uma técnica do programa “S.E.T.I.” (Procura por Inteligência Extraterrestre). Eles se juntam com um grupo de adolescentes que incluem o filho do Presidente, Andrew (Keenan Tracey) e sua namorada Eliza (Andrea Brooks), além de um casal de nerds especialistas em informática e invasão de sistemas de comunicação. O grupo descobre uma arma capaz de anular o funcionamento das sondas voadoras alienígenas e tenta avisar o exército num plano de retaliação contra os invasores. Patético do início ao fim, barulhento, sonolento, com elenco inexpressivo, CGI vagabundo e história entediante de tão previsível, carregada de ufanismo americano. Eles são os salvadores do mundo, nunca desistem, e nosso planeta sem a sua proteção certamente seria um alvo fácil para qualquer invasão alienígena. São tantos filmes medíocres que insistem nesse clichê que fica difícil criar algum tipo de sintonia com a história. O resultado acaba surtindo um efeito contrário, com o espectador impaciente obrigando-se a torcer pelo extermínio da humanidade e pelo sucesso dos invasores vindos do espaço. (RR – 14/06/15)


* Mil Séculos Antes de Cristo (1966) – Dentre as várias temáticas de filmes da produtora inglesa “Hammer”, existem aquelas ambientadas na pré-história, ou seja, aventuras com elementos de fantasia. “Mil Séculos Antes de Cristo” (1966) é um destes filmes, e que traz como diferencial a presença da belíssima Rachel Welch liderando o elenco ao lado de John Richardson (que esteve no anterior “A Deusa da Cidade Perdida”, 1965), além dos divertidos efeitos de “stop motion” do mestre Ray Harryhausen. A direção é de Don Chaffey (de “Criaturas Que o Mundo Esqueceu”, 1971, também da “Hammer”), e a história se passa num longínquo período no passado, onde humanos primitivos e dinossauros conviviam no mesmo ambiente hostil, num planeta Terra ainda em formação. E com muitos perigos que ameaçavam a sobrevivência dos seres vivos, desde a natural e impiedosa cadeia alimentar até a instabilidade do solo, com terremotos e erupções vulcânicas catastróficas. Nesse cenário, um dos homens primitivos, Tumak (John Richardson), é banido de seu grupo pelo próprio pai, o líder Akhoba (Robert Brown), sendo obrigado a explorar as regiões externas, deixando para trás sua antiga tribo, que vivia em cavernas. Após algumas aventuras perigosas e encontros com animais imensos interessados em sua carne, ele é acolhido por outra tribo, formada por homens e mulheres loiros, que também vivia em cavernas próximas ao mar, de onde tiravam parte de seu sustento com a pesca de peixes, além de um cultivo com agricultura rudimentar. Eles eram mais evoluídos, faziam pinturas nas paredes de pedra e fabricavam lanças pontudas para servir de armas na defesa contra os dinossauros e para facilitar a caça. Tumak desperta o interesse de uma bela moça, Loana (Rachel Welch). Porém, depois de uma briga, o intruso também é expulso do novo grupo, e Loana decide acompanhá-lo. Eles enfrentam juntos vários perigos e ameaças com ataques de dinossauros diversos, até reencontrarem a antiga aldeia de Tumak, gerando um confronto com o irmão rival Sakana (Percy Herbert), além de enfrentarem a devastadora erupção de um vulcão. Com apenas algumas frases de um narrador no início e grunhidos dos homens e mulheres pré-históricos no restante do filme, é inevitável o surgimento de certo desinteresse pela história. E o grande destaque despertando a atenção do espectador é o trabalho de “stop motion” de Ray Harryhausen, nas inúmeras cenas com dinossauros e monstros gigantes, tanto nos ataques aos humanos primitivos quanto nos confrontos entre si. Temos tartarugas, aranhas e lagartos gigantescos, sendo que no caso desse último, é um animal real filmado numa perspectiva que passa a sensação de gigante, uma técnica já utilizada em vários filmes anteriores como “Viagem ao Centro da Terra” (59), “O Gigante Monstro Gila” (59) e “O Mundo Perdido” (60). Além de primatas agressivos, criaturas voadoras e dinossauros de todos os tipos e tamanhos, todos ávidos por supremacia territorial, conquista de liderança e por saciar a fome com a carne dos rivais, incluindo no cardápio nossos antepassados. “Mil Séculos Antes de Cristo” é uma refilmagem de “O Despertar do Mundo”, filme americano de 1940 e com Victor Mature e Lon Chaney Jr, e que por sua vez também foi refilmado pela mesma “Hammer” em 1970 com “Quando os Dinossauros Dominavam a Terra” (When Dinosaurs Ruled the Earth), dirigido por Val Guest. (RR – 24/06/15)


* Usina de Monstros (1957) – O estúdio inglês “Hammer” ficou famoso e cultuado por seus inúmeros filmes coloridos de horror gótico. Porém, a produtora também tem em seu catálogo uma série de filmes em preto e branco com temática principal de Ficção Científica, lançados no final dos anos 50 do século passado, e que fazem parte de um conjunto de preciosidades daquele período especial do cinema fantástico. “Usina de Monstros” é um filme de invasão alienígena dirigido por Val Guest e com o ator irlandês Brian Donlevy (de “A Maldição da Mosca”, 1965) repetindo seu papel do cientista Quatermass, que também esteve em “Terror Que Mata” (The Quatermass Xperiment, 1955). Na história, o Prof. Quatermass está tentando obter recursos do governo para financiar seu projeto científico de uma complexa base lunar. Porém, não conseguindo sucesso na liberação de verbas, sua atenção é desviada para a misteriosa ocorrência da queda de inúmeros meteoritos. Indo até a região das quedas para estudar o fenômeno, na pequena cidade de Winnerden Flats, ele encontra uma fábrica imensa controlada por guardas fortemente armados e hostis, que utiliza a população do vilarejo como mão de obra para supostamente produzir comida sintética. Porém, depois que o cientista descobre que os estranhos objetos caídos do espaço possuem formatos aerodinâmicos que guardam em seu interior um gás venenoso composto de amônia, e mortal para os humanos, ele decide investigar junto com o inspetor de polícia Lomax (John Longden), o mistério por trás da usina. A qual curiosamente tem o formato similar ao seu projeto de colonização lunar e que trabalha de forma confidencial, parecendo esconder suas reais intenções. “Usina de Monstros” é uma ficção científica com elementos de horror situada dentro do sub-gênero de invasões alienígenas, ao apresentar uma conspiração secreta para a conquista de nosso mundo por um gigantesco organismo amorfo formado por milhões de partículas inteligentes com uma só consciência. Controlando os seres humanos para colocar em prática seu plano de invasão, e infiltrando-se em importantes setores do governo e das autoridades militares.
Entre as várias curiosidades interessantes, podemos citar:
* o filme também é conhecido pelo título original “Enemy From Space” nos Estados Unidos;
* ele faz parte do universo ficcional criado pelo roteirista Nigel Kneale, composto por vários filmes e séries de TV, porém da “Hammer” temos uma trilogia formada por “Terror Que Mata”, “Usina de Monstros” e “Uma Sepultura na Eternidade” (Quatermass and the Pit, 67), esse último com Andrew Keir no papel do cientista;
* o ator Michael Ripper (1913 / 2000), eterno coadjuvante em muitas produções da “Hammer”, dono de um currículo imenso com mais de duzentos trabalhos, aparece em “Usina de Monstros” como um dos moradores do vilarejo que se rebela contra os “inimigos do espaço”;
* nos créditos finais temos um agradecimento especial dos produtores para a famosa empresa de combustíveis “Shell”, que cedeu uma refinaria de sua propriedade para servir de locação para as cenas na “usina dos monstros”, o projeto secreto dos alienígenas para tomar nosso mundo;
* a palavra “zumbi” é mencionada algumas vezes para se referir às vítimas infectadas pelos alienígenas, transformando-as em criaturas desprovidas de ações próprias, tendo suas mentes controladas. (RR – 05/06/15)

Comentários de Cinema - Parte 20

Filmes abordados:

Dama e o Monstro, A (The Lady and the Monster, EUA, 1944, PB)
Galeria dos Alienígenas, A / Breeders – A Ameaça de Destruição (Breeders, EUA, 1986)
Homem Que Enganou a Morte, O (The Man Who Could Cheat Death, Inglaterra, 1959)
Invasores Invisíveis (Invisible Invaders, EUA, 1959, PB)
Jacarés Mutantes, Os / Alligators – Crocodilos em Fúria (Ragin´ Cajun Redneck Gators / Alligator Alley, EUA, 2013)
Jamie Marks Está Morto (Jamie Marks Is Dead, EUA, 2014)
Monstro de Duas Caras, O (The Two Faces of Dr. Jekyll, Inglaterra, 1960)
Monstro do Himalaia, O (The Abominable Snowman, Inglaterra, 1957, PB)
Vampiro de Black Water, O / Assassino das Sombras, O (The Black Water Vampire, EUA, 2014)



* A Dama e o Monstro (1944) – Direção de George Sherman, cineasta mais conhecido pelos filmes de western, produção da “Republic” com fotografia em preto e branco, e história baseada no conto “O Cérebro de Donovan”, escrita em 1942 por Curt Siodmak. Teve outras duas refilmagens, “Experiência Diabólica” (Donovan´s Brain, 1953) e “The Brain” (1962). Em “A Dama e o Monstro”, o “cientista louco” Prof. Franz Mueller (o austríaco Erich von Stroheim) está trabalhando em seu castelo no deserto do Arizona com experiências para tentar manter vivo o cérebro mesmo após a morte do corpo. Auxiliado por dois assistentes, o Dr. Patrick Cory (Richard Arlen) e a bela Janice Farrell (a atriz Tcheca Vera Hubra Halston), o cientista tenta obter sucesso utilizando animais como um macaco doente à beira da morte, mas seu interesse maior está em testar a experiência em seres humanos. Após surgir a oportunidade com o cadáver de um famoso e misterioso milionário, William H. Donovan, morto no acidente com a queda de um pequeno avião, o Prof. Mueller consegue êxito em manter o cérebro vivo e ativo mergulhado numa solução química especial. Porém, continuando o projeto científico com a tentativa de comunicação com o cérebro, eles não imaginariam que o Dr. Cory seria controlado telepaticamente pelo cérebro de Donovan, obrigando-o inconscientemente a fazer suas vontades obscuras, colocando em risco a vida de todos. A premissa central é de ficção científica bagaceira com elementos de horror, típica dos anos dourados do cinema fantástico das décadas de 40 a 60 do século passado, e nesse caso especificamente misturado com uma história policial. Com 82 minutos de duração e uma interessante atmosfera sinistra nas cenas no interior do castelo gótico, o filme apresenta os clichês característicos dessas divertidas tranqueiras. Temos o tradicional laboratório sombrio do “cientista louco”, que por sua vez tenta se convencer que seu trabalho traz resultados para o bem da humanidade, através da capacidade em manter vivo um cérebro separado do corpo morto, e com isso preservar o conhecimento, sabedoria e pensamentos de personalidades importantes como cientistas, inventores, escritores e estadistas. Porém, apesar desses elementos do cinema bagaceiro de FC sempre garantirem a diversão, temos alguns fatores negativos que chegam a incomodar um pouco, mesmo para os apreciadores do estilo. A atuação forçada e sem expressão da atriz Vera Hubra Halston, que deixa claro que não possui as habilidades necessárias para a arte de atuar, e o roteiro que dá maior enfâse para uma história policial com um assassinato misterioso e pessoas interessadas em dinheiro, em detrimento do mais interessante que é a ficção científica com horror. (RR – 10/05/15)


* A Galeria dos Alienígenas (1986) – Com produção executiva não creditada de Charles Band, da “Empire Pictures”, e escrito e dirigido por Tim Kincaid, “A Galeria dos Alienígenas” (Breeders) é o nome nacional quando exibido na TV de uma tosqueira de ficção científica com elementos de horror. Completamente datado dos anos 80 do século passado, tem uma história tão manjada e rasa de invasão alienígena que mais parece apenas um pretexto para mostrar belas e jovens mulheres nuas. Ambientada na famosa metrópole americana New York, o roteiro tosco mostra mulheres virgens sendo estupradas misteriosamente, ficando deformadas pela ação de um ácido corrosivo. Um detetive da polícia, Dale Andriotti (Lance Lewman) está encarregado das investigações para tentar descobrir o autor dos crimes. Ele é auxiliado pela médica Dra. Gamble Pace (Teresa Farley), que trabalha no Hospital Geral de Manhattan, para onde as vítimas são encaminhadas e ficam internadas em observação. Eles descobrem resquícios de um estranho material orgânico nas mulheres atacadas, que após um tempo despertam em transe e rumam como zumbis para os subterrâneos do hospital, onde numa estação abandonada do metrô está escondido um imenso ninho gosmento de uma raça alienígena capez de assumir a forma humana e que quer dominar nosso planeta. Com pouco mais que 70 minutos de duração, o filme é uma típica tranqueira dos anos 80, com trilha sonora e figurinos datados, e um elenco amador com atuações inexpressivas, além de uma história patética com tantas situações absurdas que até os apreciadores de cinema bagaceiro encontrarão dificuldades para digerir. As únicas coisas que podem se salvar são os efeitos toscos exagerados com borracha e sangue falso nas cenas violentas dos ataques do monstro de olhos esbugalhados do espaço, e que mesmo com orçamentos minúsculos ainda conseguem divertir, diferente dos efeitos de CGI atuais que tornam as cenas sangrentas artificiais demais, e a overdose de exposição gratuita de mulheres peladas gritando por suas vidas. Entre as curiosidades, podemos citar que o filme foi lançado em VHS no Brasil e recebeu o nome alternativo “Breeders – A Ameaça de Destruição”. E teve uma refilmagem inglesa em 1997, com roteiro e direção de Paul Matthews. Além disso, o diretor e roteirista Tim Kincaid é o responsável por outras tranqueiras ruins ao extremo do mesmo período como “Robot Holocaust” e “Mutant Hunt – O Exterminador de Andróides”. O técnico em efeitos de maquiagem Ed French atuou no filme fazendo o papel do médico Dr. Ira Markum, que auxilia a Dra. Pace na pesquisa sobre os misteriosos esporos encontrados nas vítimas do monstro. (RR – 17/05/15)


* O Homem Que Enganou a Morte (1959) – Filme de Horror com elementos de Ficção Científica produzido pelo cultuado estúdio inglês “Hammer”. A direção é de Terence Fisher, o principal cineasta da produtora com grande quantidade de trabalhos, o roteiro é de Jimmy Sangster (baseado em peça de Barré Lyndon), autor das histórias de outras preciosidades como “O Vampiro da Noite” (1958) e “A Múmia” (1959), e com o lendário Christopher Lee, um dos grandes ícones do cinema de horror em todos os tempos. “O Homem Que Enganou a Morte” é ambientado na Paris de 1890, onde o médico Dr. Georges Bonnet (o alemão Anton Diffring, de “Fahrenheit 451”, 1966), que nas horas livres faz esculturas de bustos de belas mulheres servindo de modelo, carrega um mistério em sua longa vida de 104 anos, mesmo aparentando menos de 40. Ele descobriu como “enganar a morte” junto com outro médico famoso, Dr. Ludwigg Weiss (Arnold Marle), através de cirurgias em intervalos regulares de tempo, com a substituição das glândulas paratireóides. Porém, o “cientista louco” precisa ingerir um líquido especial, no melhor estilo de “O Médico e o Monstro”, em momentos críticos quando ocorrem atrasos na realização das cirurgias, para impedir um desequilíbrio mental que o torna um assassino frio e cruel. Apaixonado pela bela Janine Du Bois (Hazel Court, de “A Maldição de Frankenstein”, 1957), o médico centenário precisa tomar uma decisão, continuar prolongando a vida com cirurgias, enfrentando a oposição do velho companheiro Dr. Weiss, que desaprova sua conduta em matar pessoas inocentes para usar suas glândulas, sendo obrigado também a se separar de Janine, que envelhecerá normalmente. Ou eliminar todos aqueles que cruzam seu caminho obrigando sua amada também a ser eterno como ele, enfrentando um rival na figura do cirurgião Dr. Pierre Gerrard (Christopher Lee), que também se interessa por Janine. Além de fugir da investigação policial liderada pelo Inspetor Legris (Francis De Wolff), que desconfia de suas atitudes suspeitas. Mais uma divertida produção da “Hammer”, com menos ação e mais diálogos, numa história interessante de um médico enfrentando o drama de desafiar as leis da natureza, descobrindo o segredo da vida e saúde eterna, mas que não impede a inevitável ocorrência de consequências desconfortáveis, como não poder formar uma família, vivendo eternamente em solidão. E quando a dificuldade de se conseguir glândulas de cadáveres torna-se progressivamente pior, ele encontra a alternativa em retirar de pessoas vivas, com os assassinatos despertando a atenção de investigação policial e a desaprovação do cirurgião Dr. Weiss,  que sempre esteve ao seu lado mantendo o segredo. Entre as curiosidades, o filme é considerado uma versão do americano “O Homem Que Desafiou a Morte” (The Man in Half Moon Street, 1945). E o igualmente ícone do cinema de Horror Peter Cushing estava escalado inicialmente para fazer o papel do Dr. Bonnet, mas desistiu alegando problemas de saúde. (RR – 23/05/15)


* Invasores Invisíveis (1959) – Produção em preto e branco com direção de Edward L. Cahn (1899 / 1963), o mesmo cineasta de outras divertidas tranqueiras do cinema bagaceiro como “O Cadáver Atômico” (1955), “Os Zumbis de Mora Tau” (1957) e “A Ameaça do Outro Mundo” (1958). No elenco temos John Agar (1921 / 2002), de pérolas como “Tarântula” (1955) e “O Cérebro do Planeta Arous” (1957), além do cultuado John Carradine (1906 / 1988), ator com forte relação com o cinema fantástico, tanto que ele aparece em destaque num dos cartazes originais do filme, mesmo com uma participação pequena apenas no início fazendo o papel de um “cientista louco”. Alienígenas conquistadores oriundos de um planeta de outra galáxia invadiram a nossa lua há 20.000 anos e aniquilaram suas formas de vida, instalando uma base para suas naves espaciais. São criaturas invisíveis que adquiriram a capacidade de alterar a estrutura molecular de seus corpos. Até então, a Terra não interessava devido seu lento desenvolvimento tecnológico, mas depois que a humanidade entrou na era espacial, com testes de armas nucleares e foguetes para viajar pelo espaço, os alienígenas ditadores decidiram dominar nosso planeta tomando os corpos dos mortos para dizimar os vivos. Com suas naves construídas com materiais que também poderiam tornar-se invisíveis, eles primeiramente se apossaram do cadáver do cientista Dr. Karol Noymann (John Carradine), morto numa explosão em seu laboratório. O zumbi visita seu colega veterano cientista Dr. Adam Penner (Philip Tonge), solicitando para avisar as autoridades militares para se renderem, ou seria iniciada uma invasão com destruições catastróficas, arrasando edifícios governamentais, unidades de comunicação, depósitos, arsenais de armas, estradas de ferro e aeroportos. Desacreditado pelos governos e ridicularizado pela imprensa com manchetes pejorativas dos jornais, o alerta de rendição não funcionou e os alienígenas invisíveis iniciaram a invasão com uma guerra desproporcional. Restando ao cientista Dr. Penner, sua bela filha Phyllis (Jean Byron), o jovem cientista John Lamont (Robert Hutton, de “Eles Vieram do Espaço Exterior”, 1967) e o militar Major Bruce Jay (John Agar), se refugiarem num abrigo subterrâneo secreto e bem equipado, para tentarem encontrar um meio ou arma eficaz para deter os inimigos do espaço. “Invasores Invisíveis” está situado dentro do sub-gênero da Ficção Científica que aborda invasões alienígenas com elementos de horror, explorando novamente o tema da guerra fria do período pós-Segunda Guerra Mundial, com a corrida armamentista e as consequências nocivas das experiências nucleares.  Para facilitar o baixo orçamento da produção, além da metragem curta com apenas 67 minutos de duração, o roteiro de Samuel Newman apresenta alienígenas invisíveis, com respiração ofegante e que deixam rastros no chão de terra ao caminharem, diminuindo os gastos com efeitos e maquiagem. Eles se apossam dos corpos de seres humanos mortos, transformando-os em zumbis assassinos, numa ideia que serviu de inspiração para George Romero conceber o clássico absoluto “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968), que traz semelhanças tanto na concepção dos zumbis como na forma de caminharem. O filme é mais uma preciosidade do cinema fantástico bagaceiro dos anos 50 do século passado, divertido justamente pela forma simplória e ingênua de condução da história, acontecendo tudo rapidamente e repleto de clichês. Não faltam os “cientistas loucos” cercados de aparelhos em experiências exageradas e os militares truculentos em ações de força. Também não poderia deixar de ter uma jovem mulher bonita sem função na história (a filha do cientista), com o objetivo de criar um triângulo amoroso em meio ao caos, e nesse caso incluindo o Dr. Lamont e o Major Jay. E com aquela tradicional mensagem de cooperação entre as nações do mundo para uma causa comum, deixando os conflitos entre si para unirem-se no combate ao inimigo maior na figura de alienígenas hostis, que por sua vez, são o alvo de uma crítica social contra as ações opressoras de ditadores conquistadores, com o uso de força e destruição. Curiosamente, o ator Philip Tonge morreu aos 61 anos logo após completar suas filmagens e não conseguiu ver seu trabalho editado. E, ao longo do filme, um narrador conduz a história, com constantes informações sobre as ações dos alienígenas. “Num prazo de três dias, os mortos exterminarão todos os vivos, e nós iremos governar a Terra. Para a raça humana, este é o fim de sua existência” – mensagem dos alienígenas invasores. (RR – 09/05/15)


* Os Jacarés Mutantes (2013) – Exibido na TV a cabo “SyFy” como “Os Jacarés Mutantes”, também é conhecido por aqui como “Alligators – Crocodilos em Fúria”. É uma produção americana de 2013 que tem dois títulos por lá: “Ragin´ Cajun Redneck Gators” e “Alligator Alley”. Ou seja, com tantos títulos, torna-se evidente a imensa dificuldade em se fazer um trabalho de catalogação dessas tranqueiras. Dirigido por Griff Furst (de “Pânico no Lago 3” e outras porcarias similares), a história mostra uma jovem estudante, Avery (Jordan Hinson), que retorna da faculdade para visitar a família em sua pequena cidade natal, no Estado da Louisiana, que fica ao lado de lagos e pântanos onde vive uma comunidade colossal de jacarés. Em seu retorno ela terá que enfrentar a histórica rivalidade entre sua família Doucette e os vizinhos Robichaud, além de administrar a dificuldade em namorar um rapaz da família inimiga, Dathan (John Chriss), numa típica história “Romeu e Julieta”. E principalmente, ela terá que lutar contra o ataque feroz de jacarés mutantes assassinos devoradores de homens. Os enormes bichos foram contaminados por uma estranha “mistura azul” tóxica despejada regularmente nas águas dos lagos que cercam a região, transformando-os em criaturas enormes e violentas. E, além da ameaça natural desses animais rastejantes, suas mordidas infectam as vítimas com uma contaminação misteriosa que transforma as pessoas em jacarés. Os americanos gostam muito de fazer filmes bizarros e picaretas com tubarões assassinos. São tantas porcarias que é árdua a tarefa de listar e acompanhar. Mas, eles também se divertem produzindo filmes bagaceiros com outros animais como os jacarés, que são os protagonistas dessa tranqueira ruim ao extremo, com um roteiro absurdo e CGI vagabundo. E para quem tiver a corajosa intenção de ver esse filme um dia, aviso que abaixo seguem alguns “spoilers” inofensivos, que provavelmente não devem ser tão comprometedores para atrapalhar a diversão. O filme é tão tosco que algumas cenas conseguem até ficar divertidas e guardadas na memória por algum tempo para serem citadas em conversas sobre cinema bagaceiro de ficção científica e horror. Por exemplo, em determinado momento, os patriarcas das duas famílias inimigas finalmente encontram a oportunidade de fazerem um duelo mortal, para encerrarem o assunto da inimizade histórica. A questão bizarra é que um deles, o pai da mocinha estudante que volta para casa, se transformou num imenso jacaré depois de ser mordido por um destes bichos contaminados. Os dois ficam de frente um para o outro, no melhor estilo dos duelos de pistoleiros dos filmes de western, e ambos sucumbem ao mesmo tempo, com o jacaré acertando o rival com o disparo de um potente espinho localizado na cauda, e o outro homem mata o animal com um tiro de arma de fogo. Continuando as bizarrices, ainda tem uma cena onde um grupo de pessoas está encurralado por um crocodilo, e um deles tem a ideia de arremessar o cachorro de estimação da família na boca do jacaré, para ganharem tempo e poderem fugir. Ninguém imaginaria o destino do pobre cachorrinho. “Os Jacarés Mutantes” é apenas mais um daqueles filmes ruins e patéticos demais, perdido na imensidão de produções similares, e que um dia no futuro poderá até ser cultuado justamente por isso. (RR – 30/05/15)


* Jamie Marks Está Morto (2014) – Filme americano dirigido e escrito por Carter Smith, baseado em livro de Christopher Barzak, “Jamie Marks Está Morto” é um drama sobrenatural com elementos sutis de horror que foi exibido no Brasil na “38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo”, em Outubro de 2014. Um adolescente que está sempre isolado e sofre bullyng na escola, Jamie Marks (Noah Silver), é encontrado morto misteriosamente na beira de um rio gelado numa pequena cidade dos Estados Unidos, descoberto pela jovem Gracie Highsmith (Morgan Saylor), enquanto procurava pequenas pedras para sua coleção. Como um fantasma desorientado, ele fica perdido entre os mundos dos vivos e mortos, precisando de um amigo para ajudar a guiá-lo pelo túnel para o outro lado, que parece ser Adam McCormick (Cameron Monaghan), esportista bem sucedido na escola e que não participava das sessões de bullyng.. O fantasma de Jamie Marks podia ser visto apenas por Gracie e Adam, criando uma relação estranha e misteriosa entre eles. Melancólico, depressivo, uma história de fantasma perturbado em busca de paz. Com uma narrativa lenta, mas não entediante, como um bom roteiro deve ser, sem precisar apelar para sangue, violência ou sustos fáceis, nem efeitos especiais mirabolantes e artificiais. Não é para todos os públicos, sendo um típico filme para exibição em festivais, com pequeno apelo comercial e por isso difícil de ser exibido nos cinemas em geral. A química de amizade formada por Jamie e Adam funciona bem e de forma convincente, mantendo a atenção do espectador e o interesse pela condução da história. Curiosamente, a bela atriz Liv Tyler, também conhecida por ser filha de Steven Tyler, o líder da banda “Aerosmith”, e que esteve em filmes populares como “Armageddon” (1998), a trilogia “O Senhor dos Anéis” (2001 / 2002 / 2003) e “O Incrível Hulk” (2008), tem uma participação menor no papel da mãe de Adam, num momento meio frio de sua carreira, com poucos trabalhos. (RR – 29/04/15)


* O Monstro de Duas Caras (1960) – Mais uma produção colorida do estúdio inglês “Hammer”, com direção do especialista Terence Fisher e com o ícone Christopher Lee. Apresentando outra versão da conhecida história “O Médico e o Monstro” (The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde), de Robert Louis Stevenson, famosa obra literária de 1886 que foi adaptada inúmeras vezes no cinema, inclusive com outras duas versões da própria “Hammer”, “The Ugly Duckling” (1959) e “O Médico & Irmã Monstro” (1971). “Em cada personalidade humana, duas forças lutam pela supremacia.” Com estas palavras, o obcecado cientista Dr. Henry Jekyll (o canadense Paul Massie) se convence e tenta argumentar para seu amigo, o médico Dr. Ernst Litauer (David Kossof), sobre a importância de suas experiências na descoberta de uma solução química que depois de ingerida poderia trazer à tona o lado mal do ser humano. Ou a sua personalidade mais agressiva e livre de obrigações morais. E uma vez testando a poção em si mesmo, desperta em seu interior o Sr. Edward Hyde, um homem elegante quando é de seu interesse, mas que age sem escrúpulos, sentindo-se livre para se envolver no submundo de Londres de 1874. Relacionando-se com prostitutas, bebendo em bares de categoria inferior, apostando em lutas ilegais e fumando ópio em locais próprios para se consumir a droga. A esposa do pacato Dr. Henry Jekyll, a bela Kitty (Dawn Addams, de “Os Vampiros Amantes”, 1970), cansada da falta de atenção do cientista abnegado em seu trabalho, prefere participar de festas sociais da alta sociedade londrina, sendo amante do amigo de seu marido, Paul Allen (Christopher Lee), que é um homem sedutor, mas sem afeição pelo trabalho. Ele está sempre perdendo dinheiro em jogos de cartas, vivendo endividado e recorrendo à ajuda financeira do Dr. Jekyll. As coisas pioram bastante depois que mortes misteriosas ocorrem despertando a atenção da polícia, e o cientista perde progressivamente o controle da situação, permitindo o domínio do Sr. Hyde. Um destaque notável é a interpretação de Paul Massie, que alterna de forma eficaz a voz e o comportamento geral quando interpreta o educado Dr. Jekyll e o descontraído Sr. Hyde, num trabalho convincente de duas personagens de uma mesma pessoa. Curiosamente, o consagrado ator Christopher Lee também esteve em outra adaptação do livro de Stevenson, “O Soro Maldito” (I, Monster, 1971), produzido pelo estúdio rival “Amicus”, e dessa vez fazendo o papel do “cientista louco”, atuando ao lado do lendário parceiro Peter Cushing. Oura curiosidade é a participação pequena, com uma breve ponta, do ator Oliver Reed. Ele está na mesma casa noturna sofisticada em que se encontra o casal de amantes formado por Paul Allen e Kitty, além do Sr. Hyde, e para defender uma prostituta de luxo, se envolve numa briga com eles. Reed atuou um ano depois em outro filme da “Hammer”, “A Maldição do Lobisomem” (The Curse of the Werewolf) no papel do homem que se transforma em lobo. Ele também esteve em “Dr. Heckyl and Mr. Hype” (1980), outra adaptação do livro de Stevenson, no papel do cientista. (RR – 01/06/15)


* O Monstro do Himalaia (1957) – Um filme da década de 50 do século passado, da produtora inglesa “Hammer”, com fotografia em preto e branco, estrelado por Peter Cushing e com uma história explorando o lendário “abominável homem das neves”, assunto que inspirou a realização de vários filmes especulando sua misteriosa existência. Esse conjunto de fatores é mais do que suficiente para a garantia de diversão em mais uma preciosidade do cinema fantástico bagaceiro. “O Monstro do Himalaia” tem direção de Val Guest, o mesmo de “O Dia Em Que a Terra se Incendiou” (61) e “Quando os Dinossauros Dominavam a Terra” (70), e roteiro de Nigel Kneale, o criador do universo ficcional de “The Quatermass Experiment”. É o primeiro de muitos filmes do “Cavalheiro do Horror” Peter Cushing (1913 / 1994) para o cultuado estúdio “Hammer”. Ele que ficou eternizado no cinema fantástico por sua imensa contribuição ao gênero com participações em dezenas de filmes de horror e ficção científica, interpretando papéis marcantes e se especializando em “caçador de vampiros” e “cientistas loucos”. O cientista botânico Dr. John Rollason (Cushing) está hospedado num monastério situado na base das montanhas geladas do Himalaia, uma região inóspita onde se encontram as montanhas mais altas do mundo, abrangendo lugares como o Tibete (na China) e o Nepal. Junto com sua esposa Helen (Maureen Connell) e o assistente Sr. Peter Fox (Richard Wattis), eles estudam ervas raras que sobrevivem nesse ambiente hostil de frio intenso. Porém, o Dr. Rollason também tem outro objetivo maior, que é fazer parte de uma expedição rumo ao topo da montanha para tentar encontrar o lendário “Yeti”, ou “homem das neves”, uma criatura primitiva enorme com pegadas de 40 cm e altura de 3 m, que poderia ser o elo evolutivo entre o macaco e o homem, e cuja lenda de sua existência fascina o mundo, tendo um equivalente paralelo nas florestas dos Estados Unidos, chamado de “Sasquatch” ou “Pé Grande”. A expedição é liderada pelo explorador Tom Friend (Forrest Tucker), e fazem parte outros três homens, o caçador Edward Shelley (Robert Brown), o fotógrafo Andrew McNee (Michael Brill) e o guia local Kusang (Wolfe Morris). Mesmo com a oposição da esposa Helen, que teme os perigos da empreitada, e do mestre espiritual do monastério, Lhama (Arnold Marle), que tem motivos misteriosos para manter os exploradores afastados da região, o Dr. Rollason decide acompanhar a expedição. Descobrindo mais tarde as reais intenções comerciais de Tom Friend em contraste com seus objetivos científicos, e desvendando o mistério que envolve os imensos antropóides que se escondem nas mais remotas e geladas regiões do planeta. A narrativa é lenta em boa parte do filme, mas em compensação temos a bem sucedida intenção dos realizadores em manter em segredo as enormes criaturas peludas, expondo-as sutilmente apenas no desfecho, instigando a imaginação do espectador. Mesmo que tal intenção também possa ser algo inevitável devido às deficiências orçamentárias da produção, que não permitiria uma grande exposição do “monstro do Himalaia”. Também é bastante louvável o roteiro especular que as misteriosas criaturas que são o foco da expedição, não sejam necessariamente primitivas, e que poderiam ter evoluído em paralelo com a raça humana, desenvolvendo inteligência e preferindo viver em isolamento com receio do poder de autodestruição da humanidade. O filme é uma refilmagem de “The Creature” (1955), episódio de TV da série “BBC Sunday-Night Theatre”, também com Peter Cushing fazendo o mesmo papel do Dr. John Rollason. Além dele, outros dois atores reprisaram seus personagens, Wolfe Morris como o guia da expedição e Arnold Marle como o líder espiritual do mosteiro. Em 1954 foi lançado “O Terror do Himalaia” (The Snow Creature), que é considerado o primeiro filme a abordar a lenda do “Yeti”. Produzindo nos Estados Unidos com baixo orçamento e em preto e branco, tem direção de W. Lee Wilder. “O Monstro do Himalaia” ainda faz parte da fase em preto e branco da “Hammer”. Porém, no mesmo ano de 1957 já começaria a produção dos filmes em cores como “A Maldição de Frankenstein”, também com Peter Cushing no papel do “cientista louco”, só que dessa vez ao lado de Christopher Lee como o monstro, outro ator que se transformou em ícone no gênero e que fez inúmeras parcerias com Cushing. Os filmes coloridos da “Hammer” ajudaram o estúdio a torna-se cultuado, ao mostrar o vermelho vivo do sangue e revitalizando os monstros clássicos da produtora americana “Universal”. O ator americano Forrest Tucker (1919 / 1986), que tem um dos papéis principais no filme, tanto que seu nome aparece em destaque nos cartazes de divulgação, é mais conhecido pelos inúmeros filmes de western. Mas, ele também participou de outros dois filmes ingleses bagaceiros de ficção científica e horror, “The Trollenberg Terror” e “O Monstro Cósmico” (The Strange World of Planet X), ambos de 1958.
Curiosidades:
* Na divertida animação “Monstros S.A.” (2001), cuja história apresenta monstros diversos que vivem num universo paralelo interligado ao nosso através de portas dimensionais, o “abominável homem das neves” é um monstro banido desse mundo oculto. Ele foi obrigado a viver no nosso, isolado nas terras geladas do Himalaia e longe da humanidade. E, inevitavelmente ele despertaria uma lenda sobre sua misteriosa existência.
* “Quando a humanidade lançar a bomba atômica, também nossos descendentes viverão no gelo”. Essas palavras do explorador Tom Friend evidenciam o medo naquela época conturbada da catástrofe nuclear, um temor fortemente presente durante a paranoia da guerra fria entre Estados Unidos e a antiga União Soviética, sendo um assunto abordado à exaustão numa infinidade de filmes, principalmente nas décadas de 1950 e 60.
* O roteiro de “O Monstro do Himalaia” procurou especular o “abominável homem das neves” como um ser inteligente e não primitivo. Porém, curiosamente, apenas dois anos depois do lançamento do filme, em 2 de Fevereiro de 1959 ocorreu um massacre de nove estudantes esquiadores que viajavam pelo Norte dos Montes Urais, uma cordilheira de montanhas geladas e inóspitas na Rússia, região que divide a Europa da Ásia. Os cadáveres dos jovens foram encontrados mutilados e semi nus, e a autoria dos assassinatos tornou-se um grande mistério conhecido como “Incidente do Passo Dyatlov”, que era o nome do líder da expedição de esquiadores mortos. Existe também a especulação sobre uma investigação da polícia secreta russa KGB, escondendo informações que ajudariam a desvendar o mistério. Para muitos jornalistas investigativos e habitantes de aldeias locais, o responsável pelas mortes sangrentas é um “Yeti”, demonstrando que a criatura seria primitiva e violenta. Em 2013 tivemos um filme baseado nessa história, “O Mistério da Passagem da Morte” (The Dyatlov Pass Incident / Devil´s Pass, EUA / Inglaterra / Rússia), dirigido pelo finlandês Renny Harlin, especulando ainda mais sobre o mistério da morte sem explicações dos esquiadores.  (RR – 20/05/17 , 17/07/15 e 10/09/17)


* O Vampiro de Black Water (2014) – Também conhecido no Brasil como “O Assassino das Sombras”, o filme foi exibido na TV a cabo “SyFy” como “O Vampiro de Black Water”. Escrito e dirigido por Evan Tramel, em seu primeiro trabalho, está situado dentro do sub-gênero “found footage”, com muita influência de “A Bruxa de Blair” (The Blair Witch Project, 1999) e elementos de “O Bebê de Rosemary” (Rosemary´s Baby, 1968) no desfecho. Uma equipe de filmagem de documentários está trabalhando no misterioso caso de assassinatos em série de mulheres nas florestas geladas de Black Water, no Estado americano de Washington. As vítimas são encontradas sem sangue e com uma enorme mordida no pescoço. A polícia encerra o caso ao prender um morador da região, Raymond Banks (Bill Oberst Jr.), que é condenado à morte de maneira suspeita. A equipe de documentaristas é formada por Danielle Mason (Danielle Lozeau), Andrea Adams (Andrea Monier), o cinegrafista Anthony Russell (Anthony Fanelli) e o técnico de som Robin Allen (Robin Steffen). O objetivo é investigar os assassinatos, entrevistando os moradores e visitando os locais onde foram encontradas as vítimas. Porém, ao ficarem perdidos na floresta e sendo ameaçados por estranhos ruídos noturnos, eles terão que lutar por suas vidas ao serem atacados por uma violenta criatura de dentes pontudos. Este é um daqueles típicos filmes do cinema bagaceiro de horror do século 21. Ruim e repleto de clichês e ideias de outros filmes, e que talvez um dia no futuro possa até ser cultuado justamente por ser uma tranqueira que não agrega grande coisa ao gênero, mas que até poderia divertir. Assim como fazemos com os filmes bagaceiros de roteiros absurdos e efeitos toscos produzidos dezenas de anos atrás, principalmente as preciosas tranqueiras dos anos 50 e 60 do século passado, podendo até se estender à década de 80. O estilo “found footage” já está saturado ao extremo, mas ainda continua chamando a atenção dos realizadores. “O Vampiro de Black Water” não apresenta nada que já não tenha sido explorado numa infinidade de filmes anteriores, inclusive tem uma imensa similaridade com o já citado “A Bruxa de Blair”. A opção do diretor em mostrar o monstro em vez de apenas sugerir sua presença ameaçadora, com a artificialidade do CGI, também contribui para situá-lo num imenso grupo de filmes apenas comuns. E pelo título, é plenamente óbvio saber com antecedência a identidade da criatura. É para assistir, tentar não dormir, talvez até se divertir um pouco, e esquecer logo em seguida. (RR – 26/05/15)

Comentários de Cinema - Parte 19

Filmes abordados:

Dinosaur From the Deep (França, 1993)
El Espanto Surge de la Tumba (Horror Rises From the Tomb, Espanha, 1973)
Il Coltello di Ghiaccio (Knife of Ice, Itália / Espanha, 1972)
A Múmia Azteca Contra o Robô Humano (La Momia Azteca Contra el Robot Humano / The Robot vs. The Aztec Mummy, México, 1958, PB)
Legend of Dinosaurs and Monster Birds (Japão, 1977)
A Maldição da Chorona (La Maldición de la Llorona / The Curse of the Crying Woman, México, 1963, PB)



* Dinosaur From the Deep (1993) – Inacreditável “filme Z” francês de orçamento quase inexistente, escrito, produzido, editado e dirigido por N. G. Mount (Norbert Moutier), que também atua sob o pseudônimo Bert Goldman. Ele é o responsável por outras porcarias como “Mad Mutilator” (1983) e “Le Syndrome d´Edgar Poe” (1995). Tem ainda a participação no elenco do veterano cineasta e roteirista francês Jean Rollin (1938 / 2010), que interpreta o papel de um “cientista louco”. Rollin teve uma vasta carreira no cinema com uma infinidade de bagaceiras de horror, atuando também em muitas delas, com seu nome tornando-se associado ao gênero. Em 2004, um futuro para a época da produção em 1993, e um passado para nosso momento atual, a pena de morte para criminosos violentos está abolida e então a polícia decide enviar um perigoso prisioneiro junto numa expedição científica para o passado na época dos dinossauros. A missão é comandada pelo cientista Prof. Nolan (Jean Rollin), e o objetivo é estudar os gigantescos animais pré-históricos. O criminoso seria levado junto com seus carrascos para ser executado nesse passado sem lei. No retorno da nave que é uma máquina do tempo, um ovo de dinossauro é trazido à bordo e um pequeno monstro desperta, atacando os tripulantes com mortes sangrentas. Em “Dinosaur From the Deep” tudo é ruim ao extremo, nada se salva, nem a presença de Jean Rollin. A história é ridícula, com algumas piadas sem resultado, os atores são péssimos, e a edição com cortes bruscos é horrível. O diretor claramente demonstra não possuir qualquer tipo de conhecimento sobre como fazer cinema. Sem contar a música totalmente deslocada e que apenas contribui para aumentar o sentimento de rejeição do espectador. Até os créditos são extremamente amadores. Mas, o pior de tudo são os efeitos patéticos, que vão da nave espacial tosca, uma maquete estática paupérrima, aos dinossauros feitos de papel e com alguns movimentos num péssimo “stop motion”, que crianças em idade escolar do ensino fundamental conseguem fazer bem melhor e de forma mais convincente. É até difícil descrever a colossal ruindade geral desse filme. Curiosamente, em determinado momento há uma citação irônica para “Parque dos Dinossauros” (Jurassic Park), de Steven Spielberg, lançado na mesma época em 1993, onde o criminoso condenado à morte e que conseguiu escapar de seus executores, encontra uma “mulher das cavernas” e afirma que agora é o “Rei do Parque Jurássico”. Produzido diretamente para o vídeo, o filme está disponível no “Youtube” na íntegra em francês sem legendas. (RR – 22/04/15)


* El Espanto Surge de la Tumba (1973) – “França, meados do século XV. Quando a superstição e a ignorância controlavam toda a Europa, homens e mulheres acusados de bruxaria eram executados na fogueira, na forca ou por lâminas afiadas. A peste, a mais devastadora das pragas, e a guerra, com todas as calamidades em seu rastro, não são tão temidos quanto o poder sombrio de Satanás, e de sua sinistra corte de demônios e bruxos.” O espanhol Paul Naschy (pseudônimo de Jacinto Molina Álvarez) nasceu em 06/09/1934 em Madri, e faleceu em 30/11/2009 aos 75 anos, sendo considerado um nome cultuado relacionado ao cinema de horror, com uma infinidade de créditos como diretor, roteirista e ator. “El Espanto Surge de la Tumba” (conhecido também pelo título inglês “Horror Rises From the Tomb”) é mais uma de suas várias bagaceiras preciosas com roteiros bizarros e todos os elementos do horror da época da inquisição européia. Dirigido por Carlos Aured, inicia-se na França de 1454, onde um casal é condenado à morte por prática de magia negra. Alaric de Marnac (Paul Naschy) é executado por decapitação e sua cabeça é enterrada longe do corpo, e sua companheira Mabille De Lancré (Helga Line) é morta após ser torturada pendurada de cabeça para baixo numa árvore. Antes de morrerem, eles lançam uma maldição para seus executores, o próprio irmão Armand de Marnac (também Naschy) e Andre Roland (Vic Winner), dizendo que seus corpos morreriam, mas seus espíritos continuariam vivos buscando por vingança contra seus descendentes. Mais de quinhentos anos depois, dois casais de amigos, Hugo de Marnac (novamente Naschy) e a namorada Sylvia (Betsabe Ruiz), e o pintor Maurice Roland (também Vic Winner) e a bela Paula (Cristina Suriani), decidem participar de uma sessão espírita comandada pela médium Madame Irina Komarova (Elsa Zabala). Eles recebem uma mensagem que desperta a curiosidade em encontrar a cabeça decepada de Alaric de Marnac, enterrada em terras próximas das ruínas de um antigo mosteiro, atualmente pertencentes ao descendente Hugo. Lá chegando, eles se juntam ao caseiro que cuida da propriedade, e que mora no local com suas duas belas filhas, Chantal (Maria Jose Cantudo) e Elvira (Emma Cohen), sendo que esta última tem um caso amoroso com Hugo. Juntos, todos eles lutam para sobreviver dos ataques brutais de Alaric de Marnac, que consegue reviver da tumba junto com sua companheira, e utiliza seu poder satânico para controlar as pessoas e transformá-las em zumbis assassinos, além de beber seu sangue e comer seus corações. “El Espanto Surge de la Tumba” é o típico cinema bagaceiro divertido, com uma sinistra trilha sonora gótica de órgão, mortes com significativo grau de violência e sangue, ambientes tétricos envoltos em névoa, corpos que saem de caixões, zumbis deformados caminhando lentamente em busca de suas vítimas, uma cripta em ruínas com atmosfera de gelar o sangue, um talismã mágico capaz de combater as forças demoníacas, a impagável expressão facial de Paul Naschy com seu olhar hipnotizador no melhor estilo imortalizado pelo vampiro “Drácula”, belíssimas mulheres semi nuas desfilando para o abate, e uma história repleta de clichês e situações absurdas que justamente por isso garantem o entretenimento bizarro. Entre as curiosidades, podemos citar: * É mencionado no filme o conhecido demônio “Astaroth”, que foi o nome de um fanzine de horror que editei entre 1995 e 2008, sendo que utilizei como inspiração uma referência de outro filme, “Uma Filha Para o Diabo” (To the Devil a Daughter, 1976). * “El Espanto Surge de la Tumba” é o nome do terceiro disco da banda de metal extremo “Dorso” (Chile), lançado em 1993, com letras inspiradas em filmes de horror. * Foi filmada uma sequência em 1983, “Latidos de Pánico”, escrito, dirigido e atuado pelo multi funcional Paul Naschy. (RR – 12/04/15)


* Il Coltello di Ghiaccio (1972) – O sub-gênero do cinema italiano que aborda histórias de assassinos em série ficou conhecido como “Giallo”, que significa “amarelo” em italiano, numa referência às capas amarelas das revistas populares de suspense e romance policial, com assassinatos sendo investigados por detetives. Esses tipos de filmes tiveram seu ápice entre as décadas de 70 e 80 do século passado, apresentando as ações de assassinos usando luvas pretas, com as vítimas na maioria das vezes sendo mulheres, e com a investigação policial tentando descobrir o mistério por trás das mortes, com a solução apenas no final e reservando surpresas. Com o título original italiano “Il Coltello di Ghiaccio”, o espanhol “Detrás del Silencio” e o inglês “Knife of Ice”, o filme foi lançado em 1972 e dirigido por Umberto Lenzi, um cineasta italiano conhecido por outros significativos trabalhos dentro do Horror como os violentos “Os Vivos Serão Devorados” (80) e “Canibal Ferox” (81), sobre canibais, e “Nightmare City” (80), sobre zumbis. Na história, Martha Caldwell (Carroll Baker) é uma mulher que perdeu a capacidade de falar após um evento traumático ocorrido quando era adolescente, através de um acidente ferroviário que matou seus pais num incêndio. Ela mora com seu tio inglês Ralph (George Rigaud) numa casa ao lado de um cemitério, localizada numa pequena cidade espanhola próxima de Barcelona. Ela recebe a visita de sua prima Jenny Ascot (Ida Galli, atuando sob o pseudônimo de Evelyn Stuart), uma cantora bem sucedida. Porém, mortes misteriosas começam a ocorrer na casa e proximidades, colocando pessoas do círculo de amigos e empregados da família numa lista de suspeitos, como o sinistro motorista Marcos (Eduardo Fajardo) e o médico Dr. Laurent (Alan Scott), além do próprio proprietário da casa, o idoso Ralph, um estudioso de ocultismo. Outro suspeito dos crimes é um jovem hippie viciado em morfina e simpatizante de cultos satânicos. Entre as candidatas a tornarem-se vítimas do misterioso assassino, temos a governanta Sra. Annie Britton (Silvia Monelli) e a adolescente Christina (Rosa-Maria Rodrigues), filha adotiva de um padre local, Martin (José Marco). E para tentar desvendar a autoria dos crimes e impedir mais mortes, o Inspetor Duran (Franco Fantasia) está na liderança das investigações. O filme é um “Giallo” com as tradicionais características desse sub-gênero, tentando manipular o espectador no mistério que envolve os assassinatos, com pistas falsas, elementos de satanismo e investigação policial. Não é muito empolgante e as cenas com as poucas mortes são filmadas “off screen”, reduzindo a intensidade de violência. Mas, ainda assim, a história até desperta algum interesse, principalmente pela surpresa no final, com a esperada revelação da identidade e motivações do assassino. Entre as curiosidades, podemos citar que o diretor Umberto Lenzi procurou mostrar muitas cenas evidenciando os olhos dos personagens, uma característica que ficou mais conhecida e associada com outro diretor italiano de filmes de horror, o cultuado Lucio Fulci. E, em determinado momento, a jovem Jenny recém chegada de viagem, presenteia seu tio Ralph, apreciador de ciências ocultas, com livros sobre feitiçaria, zumbis e demônios, e informa que são materiais raros comprados no Brasil. O cineasta Lenzi, que também participa do roteiro, talvez quisesse apenas citar nosso país como uma breve homenagem, mas com um resultado estranho, uma vez que não somos conhecidos por esses tipos de livros com temáticas não convencionais, principalmente sendo raros. (RR – 03/04/15)



* A Múmia Azteca Contra o Robô Humano (La Momia Azteca Contra el Robot Humano, 1958) – Também conhecido pelo título alternativo inglês “The Robot vs. The Aztec Mummy”, essa produção mexicana em preto e branco de 1958 e dirigida por Rafael Portillo, tem um nome sonoro que já sinaliza para sua história bizarra de crossover entre uma múmia assassina possuidora de força descomunal, e um robô criado a partir de partes de um cadáver humano, que nos remete ao universo ficcional de “Frankenstein”. Tosco ao extremo, desde a produção ao roteiro, passando pelo elenco com interpretações que vão do exagero (caso do “cientista louco”) ao marasmo (demais personagens), o filme diverte os apreciadores do cinema fantástico bagaceiro justamente por sua ruindade involuntária, apesar da tentativa de ser sério ao contar uma história absurda, repleta de clichês e situações distantes de qualquer lógica. Um tesouro da antiga civilização Azteca está escondido e protegido por uma múmia que no passado foi o guerreiro Popoca (difícil não rir desse nome, na interpretação de Angelo De Steffani, atuando sob forte maquiagem tosca). A múmia carrega em si um bracelete e uma couraça peitoral que trazem gravações em hieróglifos que revelam a localização secreta do tesouro. De olho em suas riquezas, para financiar seus projetos científicos mirabolantes, temos um “cientista louco”, o Dr. Krupp (Luis Aceves Castañeda), também conhecido como o bandido “Morcego”, sempre acompanhado de seu capanga Tierno (Arturo Martínez), que tem o rosto deformado num acidente com ácido provocado numa luta com a múmia. Ele criou um robô humano unindo a cabeça de um homem com o corpo mecânico de uma máquina radioativa movimentada por controle remoto, para ajudá-lo no combate contra a múmia e se apossar do tesouro. Para tentar impedí-los, temos o cientista Dr. Eduardo Almada (Ramón Gay) e seu fiel assistente Pinacate (Crox Alvarado), que utilizam as importantes informações da bela Flor (Rosa Arenas), jovem esposa do cientista, através de sessões de hipnose que revelam sua relação com a vida passada da princesa azteca Xochitl. Curiosamente, o filme faz parte de uma série de três, todos com a mesma direção de Rafael Portillo, roteiro de Guillermo Calderón e Alfredo Salazar e elenco principal, sendo precedido por “A Múmia Azteca” (La Momia Azteca,) e “A Maldição da Múmia Azteca” (La Maldición de la Momia Azteca), ambos de 1957, e os quais tiveram várias cenas reaproveitadas na edição final do crossover, para explicar acontecimentos do passado da história, facilitando muito o trabalho dos produtores na redução do orçamento. “La Momia Azteca Contra el Robot Humano” é bem curto, com apenas 65 minutos, e como na maioria dos filmes bagaceiros de múmias, aqui também não encontramos nenhuma preocupação dos roteiristas com situações inverossímeis e absurdas como o fato da múmia se deslocar livremente sem nunca ser notada, ou como consegue se manter escondida em segredo num mausoléu no interior de um cemitério, ou ainda a reduzida e incompetente ação policial. E também temos obviamente alguns daqueles tradicionais elementos do cinema fantástico tranqueira, como o laboratório do cientista louco, repleto de equipamentos bizarros, a atmosfera sombria de um cemitério sinistro e o interior claustrofóbico cheio de ambientes interligados de uma pirâmide abandonada.
O destaque dessa tranqueira inacreditável vai justamente para aquilo que dá nome ao filme, no conjunto formado pela múmia e sua maquiagem risível e pelo robô extremamente hilário de tão tosco, culminando com o confronto entre eles no desfecho, uma breve sequência dígna de constar na memória por muito tempo pelo elevado grau de bizarrice. Indicado apenas para os apreciadores de bagaceiras antigas. (RR – 15/03/15)


* Legend of Dinosaus and Monster Birds (1977) – Filme japonês de monstros gigantes com um título sonoro, dirigido por Junji Kurata e produzido pela “Toei”. Com o nome original “Kyoryu Kaicho no Densetsu”, podemos traduzir o título em inglês para algo como “A Lenda dos Dinossauros e Pássaros Monstruosos”. Na história, acompanhamos os esforços de um geólogo, Ashizawa (Tsunehiko Watase), acompanhado de sua namorada, a fotógrafa submarina Akiko (Nobiko Sawa), na tentativa de desvendar para o mundo a existência de um gigantesco réptil marinho. O plesiossauro estaria vivendo nos lagos do Monte Fuji (algo como “O Monstro do Lago Ness” japonês), e deveria ser o responsável pela ocorrência de mortes misteriosas e violentas na região. Em paralelo, uma caverna de gelo é descoberta em local próximo e em seu interior um ovo pré-histórico traz à vida um enorme pássaro monstruoso. As criaturas esquecidas pelo tempo inevitavelmente se encontram numa floresta e travam um confronto mortal no meio de um terremoto com a erupção de um vulcão. Os monstros desses filmes bagaceiros são sempre uma atração, independente da qualidade da história, justamente por sua concepção tosca ao extremo, numa época sem computação gráfica, e onde os esforços da equipe de produção devem ser valorizados pela intenção séria de apresentar monstros gigantescos atacando os humanos ou em combate entre si. Mesmo fazendo parte de histórias repletas de situações absurdas com elementos fantásticos. Porém, no caso específico de “Legend of Dinosaurs and Monster Birds”, pouca coisa se salva, principalmente por causa da péssima trilha sonora, irritante e totalmente deslocada, convidando o espectador a desistir de acompanhar o roteiro ruim com atores medíocres. A duração de pouco mais de uma hora e meia de projeção poderia ser reduzida para minimizar o tédio, pois as únicas exceções ficam por conta de alguns poucos momentos sangrentos com vítimas desmembradas, e pelas cenas com os monstros. Aliás, eles aparecem pouco na maior parte do filme e se enfrentam no desfecho numa sequência mais longa que acaba tornando-se a mais interessante. (RR – 31/03/15)


* A Maldição da Chorona (1963) – O cinema antigo de horror mexicano tem algumas preciosidades que não podem ficar esquecidas. Essa é uma produção de 1961, porém lançada dois anos depois, com fotografia em preto e branco, dirigida e escrita por Rafael Baledón, a partir de uma história de Fernando Galiana, que por sua vez utilizou elementos de uma lenda popular sobre uma mulher fantasma que chora de forma assustadora. Na história do filme, a jovem Amelia (a venezuelana Rosita Arenas, de “La Momia Azteca Contra el Robot Humano” / “The Robot vs. The Aztec Mummy”, 1958), recém casada com Jaime (Abel Salazar, de “El Barón del Terror” / “The Brainiac”, 1962), recebe o convite para visitar sua tia Selma (Rita Macedo), que não vê há 15 anos e que mora solitária num casarão afastado no meio de uma floresta. A casa de aspecto sombrio é conhecida na região por ser assombrada e temida pelos moradores das aldeias próximas por causa da ocorrência misteriosa de assassinatos noturnos na estrada em seus arredores, cuja autoria é investigada sem sucesso pelo capitão da polícia local (Mario Sevilla), e onde as vítimas são encontradas sem sangue. Chegando ao destino, o casal é recebido pelo rude serviçal Juan (Carlos López Moctezuma), manco e com o rosto desfigurado. No encontro da jovem Amelia com sua tia Selma, logo é informada a real intenção do convite, com a revelação da existência de uma maldição familiar envolvendo a antiga bruxa maléfica Marina, que renegou todos os seus bens e adquiriu um poder sobrenatural das trevas. Ela foi executada com uma lança no peito, e ficou conhecida como “a mulher chorona”, devido seus gritos aterrorizantes de agonia (daí o título original). Seu cadáver apodrecido está escondido no porão da casa, aguardando apenas a oportunidade de ressurgir entre os vivos. E como elas eram suas únicas descendentes, a ideia seria reviver a feiticeira num ritual de magia negra, no aniversário de 25 anos de Amelia, cujo presente seria o seu sacrifício, dando a vida para trazer a antiga bruxa de volta. “A Maldição da Chorona” é uma pérola do cinema gótico com todas as suas tradicionais características de um horror sutil, mas extremamente eficiente na elaboração de uma atmosfera sombria e sinistra. Temos a carruagem como meio de transporte da época, tornando sempre árdua e demorada a tarefa de se locomover; a floresta com árvores secas e aspecto fantasmagórico envoltas numa tenebrosa névoa espessa; e o casarão frio e deprimente de pedra, repleto de passagens secretas e ambientes tétricos, decorado por teias de aranha, habitado por ratos e morcegos e protegido por imensos cães assassinos, que mais parecem guardiões dos portais do inferno. Estão também presentes aqueles esperados clichês que contribuem de forma decisiva para a construção de um clima mórbido como o serviçal demente com o rosto desfigurado; o porão sinistro que esconde um segredo aterrador; e a música tétrica de um órgão tocando acordes de gelar a espinha. Além de um espelho mágico que reflete a personalidade sombria escondida na jovem Amelia, que é vítima de uma maldição familiar; um alçapão que serve de inesperada armadilha; e os gritos estridentes de uma mulher chorona ecoando pelos corredores do casarão. Sem contar a presença de um homem preso no sótão, deformado pela loucura (no caso, é o marido de Selma, o Dr. Daniel Jaramillo, interpretado por Enrique Lucero, e que perdeu a sanidade nos anos forçados de reclusão, vivendo como um animal). A maquiagem da maléfica Selma, quando transformada em bruxa, com o rosto modificado simulando a região dos olhos como escuras cavidades vazias, é um dos pontos fortes do filme, passando a sensação do Mal absoluto. Curto, com apenas uma hora e quinze minutos de duração, e com uma constante atmosfera de tensão e horror sugerido, “A Maldição da Chorona” é recomendável para apreciadores do cinema gótico e histórias de bruxas e maldição familiar, e para quem procura por produções antigas (nesse caso, da década de 60 do século passado) fora do tradicional mercado americano ou europeu. (RR – 29/03/15)