Os Mortos Falam (The Devil Commands, EUA, 1941, PB)

 


Quando o diabo manda, Karloff obedece...!

O ícone do cinema de horror Boris Karloff (1887 / 1969) ficou eternizado na história por seu papel do “monstro de Frankenstein”. Mas, em sua carreira produtiva com mais de 200 créditos, também se destacam suas performances como o tradicional “cientista louco” que trabalha incansavelmente em descobertas científicas para o bem da humanidade, e que se sente incompreendido pela sociedade com suas criações transformando-se em tragédias. É o caso de “Os Mortos Falam”, filme do distante ano de 1941, dirigido por Edward Dmytryk, produzida pela “Columbia” com fotografia em preto e branco e duração curta de apenas 65 minutos. Uma das taglines promocionais do filme (reproduzida acima) brinca com seu nome original “The Devil Commands” e o apelo comercial do nome de Boris Karloff como astro do Horror, imortalizado para sempre junto com Bela Lugosi, Vincent Price, Peter Cushing, Christopher Lee e outros. 

Karloff é o “cientista louco” Dr. Julian Blair, que faz experiências com ondas cerebrais humanas, e acredita que mesmo após a morte, elas continuam vivas e podem ter seus impulsos gravados numa máquina especial criada por ele, estabelecendo dessa forma um tipo de comunicação com os mortos (dessa ideia deve ter vindo a escolha do título nacional). Ele é auxiliado pelo também cientista Dr. Richard Sayles (Richard Fiske), e juntos trabalham num laboratório repleto de aparelhos elétricos enormes, com botões medidores e alavancas de acionamento para todos os lados. Porém, tudo começa a mudar para pior depois que a amável esposa do Dr. Blair, Helen (Shirley Warde), é vítima fatal de um bizarro acidente de carro nas proximidades do laboratório. Muito perturbado e desorientado por causa da morte repentina da esposa, e com seu trabalho científico desacreditado pelos colegas, o cientista decide se mudar para uma mansão isolada no alto de um penhasco na costa da Nova Inglaterra.
Nesse local sinistro, em meio a tempestades constantes, ele continua suas experiências macabras, influenciado por uma vidente de caráter duvidoso, Sra. Blanche Walters (Anne Revere), que tem interesses obscuros no sucesso dos testes com os cérebros humanos. Também conta com os serviços braçais de Karl (o ator Cy Schindell, creditado como Ralph Penney), um homem bruto e desajeitado que teve o cérebro torrado numa das experiências mal sucedidas do cientista.
Uma vez preocupada com o bem estar e ações misteriosas do pai, a jovem filha do cientista, Anne Blair (Amanda Duff), tenta localizá-lo com a ajuda do Dr. Sayles, para persuadi-lo a interromper seu trabalho suspeito. Enquanto paralelamente o xerife local, Ed Willis (Kenneth MacDonald), está investigando o desaparecimento de cadáveres do cemitério próximo ao laboratório do Dr. Blair, desconfiado de alguma conexão com as bizarras experiências do cientista, cada vez mais temido e indesejável pelos moradores do vilarejo vizinho da mansão.

“Este mago louco mata à vontade a serviço de Satã!” – uma das taglines promocionais do filme

“Os Mortos Falam” é mais uma bagaceira divertida que pertence ao sub-gênero “cientista louco”, com a participação do lendário Boris Karloff, motivo mais que suficiente para o filme se destacar entre a incontável quantidade de produções similares. Temos todos os principais elementos característicos como o laboratório científico exagerado, muito bizarro para a época (quase 80 anos atrás), a mansão no alto de um penhasco à beira do mar, um ambiente extremamente sinistro e apropriado para uma história de horror, e o cientista com boas intenções que foi vítima de uma tragédia pessoal, sendo corrompido pela descrença e obcecado por um objetivo científico com resultados catastróficos. Suas ações suspeitas, resultado da obsessão em se comunicar com a esposa falecida, despertaram a desconfiança das autoridades e a ira cega dos vizinhos, que por temerem o desconhecido, desejavam sua destruição.
O maior destaque, além da atuação convincente de Boris Karloff como o cientista de boas intenções distorcido para “louco”, são as cenas das experiências com os mortos, vestindo armaduras de aço parecidas com trajes espaciais toscos, com seus cérebros conectados uns aos outros, simulando uma única grande rede de ondas cerebrais. Remetendo-nos totalmente ao cinema fantástico bagaceiro, onde o horror e a ficção científica caminham juntos para um resultado bizarro de puro entretenimento.  

“Se a Ciência puder abrir a mente humana, poderá
 descobrir os segredos de cada cérebro humano.”
– Dr. Julian Blair


(RR – 26/06/17)

Mulheres-Gato da Lua (Cat-Women of the Moon, EUA, 1953, PB)

 


"As maravilhas eternas do Espaço e do Tempo. Os sonhos distantes e os mistérios de outros mundos, outras formas de vida, as estrelas, os planetas. O Homem está frente a frente com eles há séculos. É quase impossível desvendar seus segredos desconhecidos. Em algum tempo, em algum dia, essa barreira será rompida. Por que devemos esperar? Por que não agora?”

 

A maioria dos filmes bagaceiros com elementos de horror e ficção científica dos anos 1950 são divertidos pela somatória de características típicas de produções com orçamentos minúsculos como atuações ruins do elenco, efeitos práticos toscos e roteiro ingênuo, com falta de lógica, excessivamente fantasioso e cheio de clichês e principalmente furos absurdos. “Mulheres-Gato da Lua” (Cat-Women of the Moon, EUA, 1953) é um exemplo perfeito que se enquadra nessa ideia, onde apenas pelo título já se imagina o nível de tranqueira.

Com direção de Arthur Hilton, fotografia em preto e branco e metragem de apenas 64 minutos, o filme está em domínio público e disponível no “Youtube” com a opção de legendas automáticas em português.

 

Uma expedição científica com cinco viajantes espaciais num foguete para a Lua é formada por uma tripulação com quatro homens e uma mulher. São eles, o comandante da missão Laird Grainger (Sonny Tufts), o piloto Kip Reissner (Victor Jory), o engenheiro Walt Walters (Douglas Fowley), o operador de rádio Doug Smith (William Phipps) e a navegadora Helen Salinger (Marie Windsor).

Após uma viagem turbulenta que inclui o choque com um meteoro, o foguete é misteriosamente persuadido pela navegadora a pousar no lado sombrio da Lua, e a equipe inicia uma exploração na superfície. Eles entram numa caverna e descobrem a existência de oxigênio, sendo também atacados por aranhas peludas gigantes. Sobrevivendo ao confronto patético, eles encontram uma misteriosa cidade habitada apenas por algumas belas mulheres (do título) e são bem recebidos inicialmente pela líder Alfa (Carol Brewster), além de Beta (Suzanne Alexander) e Lambda (Susan Morrow), entre outras. Elas são as últimas remanescentes de uma civilização subterrânea e antiga de dois milhões de anos que possui poderes telepáticos e que está em processo de extinção pela escassez de oxigênio.

Uma vez desconfiado da estranha sociedade das mulheres selenitas, o destemido piloto Kip decide investigar e descobre a real intenção delas, com um plano de roubar o foguete e fugir para o nosso planeta para uma invasão e conquista da humanidade.

 

O filme recebeu o título original alternativo “Rocket to the Moon” e foi lançado nos cinemas na época em 3D. Os efeitos práticos bagaceiros com o foguete, a cabine de controle e os cenários, além dos figurinos do pequeno elenco foram reciclados em outro filme quase lançado simultaneamente, “Projeto Base Lunar” (Project Moon Base), e também foram reutilizados, assim como a aranha gigante de pelúcia, movimentada por fios “invisíveis”, na refilmagem “Terríveis Monstros da Lua”, também conhecido por aqui como “Míssil Para a Lua” (Missile to the Moon, 1958). A simulação da superfície lunar através da técnica de “matte painting” foi criada por Chesley Bonestell.

O filme é curto e percebe-se claramente uma pressa dos realizadores em finalizar a história no terceiro ato, com a falta de filmagem de cenas que garantiriam uma melhor continuidade e coerência nas ações, principalmente no confronto decisivo entre os viajantes espaciais e as mulheres-gato da Lua pela posse do foguete que retornaria para a Terra.

Curiosamente, alguns atores como Marie Windsor e William Phipps fizeram questão de revelar em entrevistas o quanto consideraram o filme ruim, especialmente o roteiro mirabolante e os efeitos práticos com o ataque das aranhas gigantes.  

    

(RR – 31/07/26)





Ao Cair da Noite (It Comes at Night, EUA, 2017)

 



O triunfo da Morte

O fã de cinema de horror que está procurando diversão escapista, barulheira, correrias desenfreadas, tiroteios, sustos fáceis, sangue em profusão, tripas expostas, monstros em CGI, não irá encontrar no filme “Ao Cair da Noite” (It Comes at Night, 2017), que estreou em circuito comercial restrito nos cinemas brasileiros em 22/06/17, com cópias originais legendadas. Porém, quem aprecia e procura uma história tensa, com constante atmosfera sombria e perturbadora, carregada de paranoia, mistério, pessimismo, com narrativa mais cadenciada onde toda esperança está abandonada, num ambiente de grande pressão psicológica, além de um final depressivo, então esse é o filme indicado.

Com direção e roteiro de Trey Edward Shults, temos uma família morando isolada numa casa no meio da floresta, formada pelo pai protetor, Paul (o australiano Joel Edgerton), a esposa Sarah (a inglesa Carmen Ejogo), e o filho adolescente de 17 anos, Travis (Kelvin Harrison Jr.), que tem pesadelos terríveis frequentemente. O clima é de tensão constante, numa luta pela sobrevivência contra uma contaminação misteriosa que aparentemente mergulhou o mundo no caos. Eles precisam eliminar a ameaça que tomou o corpo do avô, Bud (David Pendleton), enterrado com o cadáver cheio de feridas pestilentas e carbonizado por segurança. Porém, as coisas se complicam mais ainda após a chegada de outra família pedindo refúgio, formada pelo jovem casal Will (Christopher Abbott) e Kim (Riley Keough), e o filho pequeno Andrew (Griffin Robert Faulkner).

Distanciando-se da fantasia tradicional do cinema, “Ao Cair da Noite” se aproxima mais de uma possível realidade com o mundo mergulhando numa contaminação devastadora não explicada, onde os sobreviventes precisam lutar ferozmente por suas vidas fragilizadas. Trazendo à tona seus instintos mais selvagens de sobrevivência, utilizando-se de violência e desconfiança para a autopreservação, eliminando gradativamente os sentimentos e emoções que caracterizam a humanidade, dando lugar à frieza e indiferença.  
Indo na contra mão do cinema que prioriza o entretenimento com pipoca e refrigerante, “Ao Cair da Noite” aposta no mistério, na falta de informação sobre os trágicos acontecimentos externos, no clima de tensão devido à luta selvagem pela sobrevivência, no desespero crescente do fim aparentemente inevitável da humanidade, dizimada por uma doença sem nome.
Após ver o filme e com o sentimento perturbador e desconfortável que invade o espectador, temos a sensação de que seriam pessoas de sorte todas aquelas que fossem carregadas pela Morte logo no início do apocalipse, caso um dia uma pandemia devastasse a Terra.

(RR – 03/07/17)

Hand of Death (EUA, 1962, PB)

 


"Ninguém ousava chegar muito perto!”

 

Escrito e produzido por Eugene Ling e dirigido por Gene Nelson, “Hand of Death” (1962) tem fotografia em preto e branco, metragem de apenas 60 minutos, e está disponível no “Youtube” com a opção de legendas automáticas em português.

É um filme desconhecido que segundo o “IMDB”, a maior fonte na internet sobre informações de filmes, ficou “perdido” por 40 anos, uma curiosidade que já desperta alguma atenção, principalmente para os apreciadores do cinema antigo bagaceiro com elementos de horror e ficção científica abordando os temas de “cientista louco” trabalhando para o suposto bem da humanidade e “homem transformado em monstro”, com a mente distorcida culminando em consequências trágicas.

 

O cientista Alex Marsch (John Agar) está trabalhando numa casa isolada no deserto com o apoio do estudante Carlos (John Alonzo). Trata-se de um projeto secreto para o governo estadunidense com experiências para o desenvolvimento de um gás nervoso paralisante com efeitos hipnóticos, para utilização como arma em tempos de guerra fria entre EUA e a antiga União Soviética. O gás serviria para eliminar a resistência em ações de ocupação, com os inimigos obedecendo comandos e assim podendo evitar uma guerra nuclear, algo muito temido e próximo de ter acontecido naqueles tempos conturbados dos anos 60 do século passado.

Sua namorada Carol Wilson (Paula Raymond) é a secretária do Dr. Frederick Ramsey (Roy Gordon), o chefe do cientista e proprietário de um Centro de Pesquisas em Los Angeles. Ela está desconfiada com o trabalho envolvendo um gás perigoso e preocupada com a possibilidade de acidentes, o que realmente acontece, causando no cientista várias reações no corpo como dores, calor excessivo, inchamento no rosto e mãos, pele enrugada e escurecida, transformando-o num monstro que mata apenas com o toque das mãos, justificando o título do filme, lembrando o “Coisa” do “Quarteto Fantástico” da “Marvel”.

Desesperado e com a mente progressivamente distorcida, o Dr. Marsh caminha sem rumo pelas ruas enquanto pessoas morrem pelo seu toque, sendo perseguido pelo investigador de homicídios da polícia (Norman Burton), e esperando talvez em vão que algum antídoto possa restabelecer sua condição humana, num esforço do Dr. Ramsey e do amigo Tom Holland (Steve Dunne).       

 

O filme é curto e quase não há perda de tempo com futilidades, não demorando muito para o cientista se transformar num monstro deformado e assassino, que de repente muda de um abnegado homem da ciência para uma criatura mutante responsável pela morte de pessoas inocentes. É uma diversão rápida para quem gosta do velho cinema de baixo orçamento com efeitos práticos na maquiagem exagerada do monstro e com mais uma história de “cientista louco” malsucedido na tentativa de criação de uma arma de guerra com resultados catastróficos.

O ator John Agar (1921 / 2002) tem uma filmografia com várias tranqueiras divertidas do cinema fantástico como “Tarântula!” (1955), “O Templo do Pavor” (1956), “O Cérebro do Planeta Arous” (1957), “Dr. Encolhedor” (1958), “Invasores Invisíveis” (1959), “Monstro do Planeta Perdido” (1962) e “Mulheres do Planeta Pré-Histórico” (1966), entre outras.   

Quando o cientista mutante desorientado está vagando por uma praia, o garoto que o encontra é interpretado por Butch Patrick, o jovem ator que pouco tempo depois faria parte do elenco fixo da cultuada série de TV de comédia com elementos de horror “Os Monstros” (The Munsters, 1964 / 1966), fazendo o papel do lobisomem mirim Eddie.

    

(RR – 24/07/26)




Ameaça Espacial (It Conquered the World, EUA, 1956, PB)



"Eu possibilitei que você viesse aqui... Eu te dei as boas-vindas a esta Terra... Você fez dela um cemitério."

– cientista Dr. Tom Anderson para o alienígena de Vênus

 

O especialista em filmes bagaceiros de horror e ficção científica Roger Corman (1926 / 2024), conhecido diretor e produtor habilidoso em fazer filmes rápidos com orçamentos reduzidos, foi também o responsável pela divertida tranqueira de invasão alienígena “Ameaça Espacial” (It Conquered the World, 1956), com fotografia em preto e branco e roteiro de Lou Rusoff e Charles B. Griffith. O interessante elenco é formado por Peter Graves, da série de TV “Missão Impossível” (1967 / 1973), Lee Van Cleef, mais reconhecido pela infinidade de filmes de western, e Beverly Garland, que esteve em várias outras preciosidades como “Curuçu, o Terror do Amazonas” (1956), “O Emissário de Outro Mundo” (1957) e “O Jacaré Humano” (1959).  

Com produção da “American International”, de James H. Nicholson e Samuel Z. Arkoff, e filmado em apenas cinco dias por Corman, o filme está disponível no “Youtube” com a opção de legendas automáticas em português, e tem um lugar especial na história do cinema fantástico de baixo orçamento por causa principalmente do monstro alienígena apelidado de “Beluah”, criado e manuseado por Paul Blaisdell, sendo talvez o mais bagaceiro de todos os tempos, parecendo uma espécie de “casquinha de sorvete invertida com garras”.

 

Na história, o cientista Dr. Tom Anderson (Lee Van Cleef) conseguiu contato por rádio com um alienígena venusiano e ficou convencido que ele poderia ajudar a humanidade eliminando as emoções como ódio e amargura, e consequentemente os problemas das pessoas. Ele tenta convencer as autoridades militares a interromper o programa espacial com lançamentos de satélites alegando que os alienígenas não querem a Terra explorando o espaço. Porém, ele não tem sucesso e recebe desaprovação da esposa, Claire (Beverly Garland), de amigos próximos como o também cientista Dr. Paul Nelson (Peter Graves) e sua esposa Joan (Sally Fraser), além do General James Pattick (Russ Bender).

Com o lançamento de um satélite ao espaço que retornou para a Terra trazendo o alienígena, tem início um plano de invasão com a ajuda do iludido Dr. Anderson, que acredita em boas intenções do invasor, que por sua vez se instala numa caverna com fontes termais que simulam um ambiente similar ao de seu planeta de origem. Poderoso e inteligente, o monstro de Vênus interrompe a geração de energia no mundo inteiro, e passa a controlar as pessoas com a implantação de um dispositivo na cabeça instalado por criaturas similares a morcegos.

Com a “ameaça espacial” do futuro do nosso planeta e de toda a humanidade, e uma vez o Dr. Nelson conseguindo impedir que fosse controlado pelo extraterrestre, resta para ele a árdua missão de combater as pessoas controladas e tentar impedir o sucesso do plano de conquista do monstro venusiano.

 

Como em todos os filmes antigos bagaceiros com monstros toscos, devido às dificuldades com os pequenos orçamentos disponíveis, o alienígena aparece pouco em cena e mais apenas próximo do final no já esperado confronto que definiria a salvação da Terra contra a tirania de uma criatura invasora de outro planeta. E com o restante do tempo sendo preenchido pelo drama dos personagens, seus conflitos de ideias e interesses, especulações sobre o destino da humanidade, e a exploração espacial em tempos de guerra fria entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética.

A diversão fica mais por conta dos efeitos práticos paupérrimos, tanto com os morcegos que carregam os dispositivos de controle mental das pessoas, quanto principalmente o monstro alienígena tosco, projetado, construído e movimentado pelo técnico Paul Blaisdell, conhecido pelos inúmeros monstros bagaceiros que criou para filmes dos anos 1950 como “A Besta do Milhão de Olhos”, “O Dia do Fim do Mundo”, “O Emissário de Outro Mundo”, “Os Monstros Invasores”, “A Ameaça do Outro Mundo” e “Os Adolescentes do Espaço”.

Curiosamente, esse filme bagaceiro de Roger Corman possui referências aos clássicos de FC “O Dia Em Que a Terra Parou” (1951) com o corte de energia no mundo e paralização das máquinas, e “Vampiros de Almas” (1956) com o controle das pessoas retirando suas emoções. E tivemos uma refilmagem para a televisão dirigido por Larry Buchanan em 1967 com o nome “O Monstro de Vênus” (Zontar: The Thing From Venus), com John Agar.

     

(RR – 17/07/26)





O Beijo da Tarântula (Kiss of the Tarantula, EUA, 1975)

 


 

O Beijo da Tarântula” (Kiss of the Tarantula, EUA, 1975) é um filme pouco conhecido e perdido no limbo das produções independentes de baixo orçamento que explora o tema de ataques de animais. A direção é de Chris Munger, que tem um currículo quase nulo e a história, como diz o título, é sobre os temíveis aracnídeos que assombram os pesadelos de quem não gosta de aranhas peludas. Foi exibido na televisão e está disponível no “Youtube” numa versão original em inglês com opção de legendas em português.

 

Susan Bradley (Suzanna Ling) é uma jovem moça que cria tarântulas como animais de estimação. Ela tem o apoio de seu pai atencioso John Bradley (Herman Wallner), um agente funerário dono de um necrotério, mas por outro lado, enfrenta a desaprovação de sua mãe megera e adúltera, Martha Bradley (Beverly Eddins), que tem um caso amoroso com o cunhado, o desonesto policial Walter Bradley (Ernesto Macias).

Insatisfeita com o casamento e sempre rude com a filha, dizendo que seu marido tem “cheiro de produtos químicos e morte”, ela planeja matá-lo num plano junto com seu amante, despertando a ira de Susan, que utiliza suas aranhas para vingança contra a mãe e o tio abusivo, além também de todos que atravessam seu caminho zombando dela ou maltratando suas tarântulas assustadoras.

 

Filmes com histórias de ataques de animais são sempre interessantes, e o cinema de horror e ficção científica tem uma lista colossal de exemplos com todos os tipos de animais, sendo que as aranhas estão entre os mais temíveis. Em “O Beijo da Tarântula” elas são reais e rastejam pelos corpos de suas vítimas, sem efeitos especiais ou computação gráfica, causando certamente um grande desconforto para quem tem aracnofobia. As tarântulas, também conhecidas como caranguejeiras, são grandes, peludas e causam repulsa e medo nas pessoas, porém não são tão nocivas comparando com outros aracnídeos mais perigosos.

Susan é uma moça tímida que criou laços afetivos com suas tarântulas, e após sofrer contínuos maus tratos de sua mãe severa e ser vítima de abusos sexuais de seu tio Walter, além de vítima de bullyng por seus colegas, encontrou em sua mente distorcida uma forma de se vingar utilizando suas aranhas para atacar os inimigos. Mesmo com uma história clichê, o filme até garante alguns momentos de tensão nas cenas de mortes, principalmente com uma vítima presa num duto de ar com muitas aranhas como companhia, e no desfecho perturbador envolvendo seu tio e outra vítima num caixão do necrotério de seu pai.

Curiosamente, além das aranhas, uma infinidade de outros animais assassinos já foram abordados pelo cinema de horror com histórias de vingança da natureza contra a humanidade, como vespas, abelhas, formigas, gafanhotos, baratas, cobras, sapos, morcegos, jacarés, ratos, pássaros, macacos, ovelhas, coelhos, cachorros, musaranhos, porcos, javalis, lobos, ursos, leões, piranhas, orcas, e não podendo deixar de citar, os temíveis tubarões, talvez o animal mais explorado de todos.       

 

(RR – 16/07/26)



O Gorila Matador (The Ape, EUA, 1940, PB)

 


Disponível no “Youtube” com opção de legendas automáticas em português, “O Gorila Matador” (The Ape, 1940) é um filme com elementos sutis de horror e suspense estrelado pelo ícone Boris Karloff (1887 / 1969) num papel que sempre fez magistralmente numa infinidade de outros filmes: o “cientista louco” obcecado por seu trabalho para o bem da humanidade, nem que tenha que matar para conseguir seus objetivos.

 

Dirigido por William Nigh, com fotografia em preto e branco, metragem de apenas 62 minutos e produzido pela “Monogram”, Karloff é o médico Dr. Bernard Adrian, envolvido com experiências para descobrir a cura da poliomielite, focado em ajudar a jovem cadeirante Frances Clifford (Maris Wrixon), que tem paralisia e não consegue mais andar há muitos anos. O cientista a considera como uma filha, determinado a curar sua doença, uma vez que não conseguiu evitar no passado a morte da esposa e filha com o mesmo problema de saúde.

Porém, mesmo com boas intenções seu trabalho não é bem visto em Red Creek, a pequena cidade onde mora, com as pessoas desconfiadas das experiências bizarras com animais para obter um soro eficaz contra a paralisia, tendo que enfrentar a reprovação dos vizinhos e do também médico local Dr. McNulty (Selmer Jackson), além da desconfiança do namorado de Frances, o mecânico de carros Danny Foster (Gene O´Donnell).

Para completar seu trabalho científico, o Dr. Adrian necessita de um líquido espinhal de pessoas recém-falecidas. Enquanto isso, um gorila imenso chamado Nabu (Ray Corrigan, não creditado), escapa de um circo após um acidente com incêndio, e assassinatos misteriosos começam a ocorrer na cidade, despertando a atenção e investigação do xerife Jeff Halliday (Henry Hall).

 

Qualquer filme com Boris Karloff, nome eternizado na história do cinema de horror como a criatura de Frankenstein nos filmes da produtora “Universal”, já desperta interesse por sua presença marcante, sempre com atuações convincentes, geralmente em papéis de vilão e “cientista louco”.

Em “O Gorila Matador”, apesar do ritmo arrastado típico dos filmes da década de 1940, com histórias ingênuas e tentativas de apresentar cenas com algum suspense ou horror sutil, que deveriam funcionar para as plateias da época, temos Karloff para compensar a falta de ação e horror mais sangrento, interpretando um médico abnegado em encontrar uma cura para a paralisia, com forte senso de altruísmo, mesmo perdendo parte da sanidade e os escrúpulos para obter o sucesso acompanhado de crimes.    

 

(RR – 14/07/26)




A Volta do Homem Colossal (War of the Colossal Beast, EUA, 1958, PB)

 


“O terror colossal saído do inferno!”

 

“War of the Colossal Beast” (1958), que recebeu no Brasil o título “A Volta do Homem Colossal” quando foi lançado em mídia física DVD pela “Cult Classic”, é a sequência direta de “The Amazing Colossal Man” (1957), lançado por aqui na época como “O Monstro Atômico” e depois com o nome “O Incrível Homem Colossal” no mesmo DVD citado.

Produzido e dirigido por Bert I. Gordon, especialista conhecido por seus filmes com criaturas gigantes, que lhe rendeu a alcunha de “Mr. BIG” (das iniciais de seu nome), o filme tem fotografia original em preto e branco e metragem de apenas 69 minutos, e além da disponibilidade em DVD também pode ser acessado no “Youtube” com áudio em inglês e opção de tradução automática com legendas em português, tanto em P&B quanto numa versão colorizada.  

Com produção da “AIP” (American International Pictures), de James H. Nicholson e Samuel Z. Arkoff, o roteiro é de George Worthing Yates, que tem no currículo uma infinidade de filmes preciosos como “O Mundo em Perigo” (1954) e “A Invasão dos Discos Voadores” (1956), entre tantos outros.  

 

No filme anterior, o tenente coronel Glenn Manning se transformou num “homem colossal” com 18 metros de altura depois que foi exposto à radiação da explosão de uma bomba atômica num teste do exército dos Estados Unidos na época da guerra fria com a antiga União Soviética. Após um confronto com os militares no alto da barragem de uma represa, ele caiu supostamente para a morte.

Porém, como o imenso corpo não foi encontrado, sua irmã Joyce Manning (Sally Frazer) continua à sua procura, principalmente depois de ouvir rumores sobre caminhões carregando alimentos serem misteriosamente saqueados nas montanhas desérticas de Guavos, no México. Contando com a ajuda do Major Mark Baird (Roger Pace) e do médico Dr. Carmichael (Russ Bender), do Departamento de Exposição à Radiação, eles localizam o gigante (agora interpretado por outro ator, Duncan ´Dean´ Parker), que está com o rosto terrivelmente desfigurado e com graves danos cerebrais e mente ainda mais distorcida, agindo apenas por instinto de sobrevivência selvagem, emitindo grunhidos animalescos.

Ele é capturado e transportado para os Estados Unidos, onde nenhuma agência do governo quer recebê-lo por falta de estrutura para um homem insano e com dez vezes o tamanho de um ser humano comum. Sem opções, o monstro acaba ficando acorrentado num galpão no aeroporto de Los Angeles, onde consegue escapar e vai para o Observatório de Griffith Park, onde ocorre a famosa cena que ilustra o cartaz do filme, num momento tenso envolvendo um ônibus escolar cheio de crianças.  

 

Como o elenco principal do primeiro filme não aceitou participar da sequência, seus personagens não retornaram, como a noiva do “homem colossal” e os médicos e militares que acompanharam de perto a sua tragédia. O foco na continuação está agora em sua irmã angustiada, com o apoio de outro militar. O filme é mais curto que o anterior e ainda tivemos várias cenas de flashback reproduzindo momentos importantes do original para auxiliar na compreensão da história.

É fato que os realizadores estavam apressados em produzir e lançar o mais rápido possível um novo filme para tentar lucrar com todo o movimento do público com o mistério da suposta morte do monstro no desfecho do primeiro filme, e com os temas muito explorados na época da guerra fria, com os efeitos nocivos e desconhecidos da radiação atômica. Como resultado, o roteiro está repleto de furos e situações inverossímeis, mas o que importa para o entretenimento de quem aprecia o cinema fantástico bagaceiro com orçamentos minúsculos daquele período justamente é o escapismo da história e a tosquice geral da produção, com a maquiagem do rosto deformado do monstro e todos os efeitos práticos de retroprojeção e tela dividida para simular seu tamanho descomunal.

Entre as curiosidades, os efeitos de maquiagem criados pelo técnico Jack H. Young para o monstro com o rosto deformado são muito similares ao ciclope gigante do filme anterior de Bert I. Gordon, “A Maldição do Monstro Sinistro” (The Cyclops). A fotografia original é em preto e branco, mas a cena final do homem colossal com os cabos de alta tensão foi produzida em cores.  

 

(RR – 13/07/26)




O Monstro Atômico (The Amazing Colossal Man, EUA, 1957, PB)

 


“Qual altura você acha que vou crescer até que a morte me liberte dessa maldição?”

– Tenente Coronel Glenn Manning ou “O Incrível Homem Colossal”

 

O multifuncional Bert I. Gordon ou Mr. B.I.G. (“grande” em inglês), apelido que ganhou por sua contribuição significativa com filmes com criaturas gigantes, foi um diretor, roteirista, produtor e técnico em efeitos especiais que se especializou na criação de monstros imensos em vários filmes preciosos e divertidos do cinema fantástico bagaceiro, principalmente dos anos 50 e 60 do século passado.

O Monstro Atômico” (The Amazing Colossal Man, 1957) tem fotografia original em preto e branco e história explorando as temáticas “homem transformado em monstro” e “paranoia nuclear”, assuntos que foram muito abordados pelo cinema de horror e ficção científica de baixo orçamento no período da guerra fria entre Estados Unidos da América e a antiga União Soviética, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, com a corrida armamentista e desenvolvimentos de bombas atômicas para destruição em massa.  

A produção é da “American International”, da dupla James H. Nicholson e Samuel Z. Arkoff, e está disponível no “Youtube” na versão original em inglês com a opção de tradução automática com legendas em português. Também foi lançado no Brasil em DVD pela “Cult Classic” com o nome “O Incrível Homem Colossal”, junto com a sequência “A Volta do Homem Colossal” (1958).

 

Na história, o exército dos Estados Unidos está realizando testes no deserto de Nevada com uma bomba de plutônio e o Tenente Coronel Glenn Manning (Glenn Langan) acidentalmente é exposto pela radiação da explosão. Mesmo com queimaduras graves pelo corpo inteiro, ele sobrevive e inexplicavelmente as feridas desaparecem e seu corpo começa a crescer três metros por dia, num efeito colateral desconhecido pela exposição à radiação, surpreendendo todos que convivem ao seu redor como a noiva Carol Forrest (Cathy Downs), os médicos Dr. Paul Linstrom (William Hudson) e Major Eric Coulter (Larry Thor), além do militar Coronel Hallock (James Seay).

Mantido em cativeiro pelo governo, o “incrível homem colossal” do título original ou o “homem atômico” do nacional, atingiu aproximadamente dezoito metros de altura e oito toneladas de peso, e uma vez com a mente distorcida por sua condição de aberração da natureza, conseguiu escapar da base militar e fugiu desorientado para Las Vegas, onde causou grande tumulto entre as pessoas e estragos com destruição de alguns hotéis famosos da cidade, até ser encurralado na barragem de uma represa num confronto com os militares.

  

Com um título sonoro e sensacionalista, posters de divulgação e frases promocionais exagerados, o filme é mais uma tranqueira divertida dos anos 1950 com um homem gigante vítima dos efeitos desconhecidos da energia atômica, e além da história carregada de escapismo e fantasia criativa da mente dos roteiristas Mark Hanna, George Worthing Yates e o próprio Bert I. Gordon, o grande destaque para os apreciadores do cinema bagaceiro são os efeitos práticos de retroprojeção para a simulação do homem gigante interagindo com as pessoas e objetos e nas cenas de ataques aos prédios, numa época sem a computação gráfica.

 

Teve uma continuação no ano seguinte chamada “War of the Colossal Beast” e com novos personagens, trazendo de volta apenas o Tenente Coronel Glenn Manning, gigante, deformado e mais violento, interpretado por outro ator (Duncan ´Dean´ Parker). Outros filmes do mesmo período utilizando tema semelhante são “A Maldição do Monstro Sinistro” (The Cyclops, 1957), “A Mulher de 15 Metros” (Attack of the 50 Foot Woman, 1958) e “A Cidade dos Gigantes” (Village of the Giants, 1965).

Curiosamente, a ideia do filme é considerada uma inspiração para o popular “Incrível Hulk” dos quadrinhos, criado pela “Marvel” poucos anos depois e com semelhanças sobre os efeitos de uma bomba nuclear no cientista Dr. Bruce Banner, transformando-o no mutante verde Hulk.  

 

(RR – 11/07/26)





Terror no Cemitério (Terror-Creatures From the Grave / 5 Tombe Per Un Medium, Itália, 1965, PB / versão colorizada)

 


"Eu os convoquei de seus túmulos e agora me tornei um deles.”

– Dr. Jeronimus Hauff

 

Terror no Cemitério” (Terror-Creatures From the Grave / 5 Tombe Per Un Medium, 1965) é mais uma preciosidade do horror gótico italiano, novamente com a musa Barbara Steele, nome associado ao gênero pela infinidade de filmes com sua presença sempre marcante. Com fotografia original em preto e branco e roteiro inspirado na literatura macabra de Edgar Allan Poe, foi dirigido por Massimo Pupillo (dos similares “A Vingança de Lady Morgan” e “O Carrasco Escarlate”, ambos também de 1965), que ficou descontente com o filme e optou por repassar os créditos de direção para o produtor Ralph Zucker.

Ele até pode ter ficado desapontado com o resultado final, mas para os apreciadores do estilo felizmente está disponível no “Youtube” uma versão lançada nos Estados Unidos, nas opções tanto em P&B quanto colorizado, com dublagem em inglês e possibilidade de ativar legendas automáticas em português.  

 

Ambientado no início do século XX, o advogado Albert Kovac (Walter Brandt) recebe uma correspondência do médico e cientista Dr. Jeronimus Hauff (Umberto Raho, não creditado), para visitá-lo em seu castelo “Villa de Hauff”, próximo ao vilarejo de Brattonville, para realizar o seu testamento.

Chegando ao local, ele encontra a filha de seu cliente, Corinne Hauff (Mirella Maravidi, creditada como Marilyn Mitchell) e a madrasta Cleo Hauff (Barbara Steele), uma atriz de teatro que abandonou os palcos após o casamento. Ela informa que seu marido já havia morrido há um ano, criando um mistério sobre a carta e o pedido do testamento.

A partir daí, com a ocorrência de fatos estranhos no castelo como as alucinações de Corinne com o fantasma do pai falecido, histórias dos supersticiosos aldeões sobre o envolvimento do Dr. Hauff com ocultismo e experiências macabras com os mortos, a presença desconfortável do sinistro jardineiro do castelo, Kurt (Luciano Pigozzi, creditado como Allan Collins), e principalmente o surgimento de mortes misteriosas na região, o advogado decide investigar com a ajuda do médico local Dr. Nemek (Alfred Rizzo, creditado como Alfred Rice).

Enquanto estão curiosos para esclarecer o mistério, surge o sócio no escritório de advocacia Joseph Morgan (Riccardo Garrone, creditado como Richard Garrett) e descobrem a existência de cinco testemunhas da morte suspeita do Dr. Hauff, além de vários elementos fantasmagóricos que nos remetem à avassaladora Peste Bubônica que dizimou boa parte da Europa Medieval.  

 

Como um típico filme de horror gótico italiano inspirado em Poe e ambientado num “castelo de sombras e sangue” (nas próprias palavras da Sra. Cleo Hauff), “Terror no Cemitério” é uma história de traição e vingança sobrenatural com todos aqueles elementos indispensáveis para uma atmosfera sombria de gelar a espinha até dos mortos.

Temos assombrações, mãos decepadas mumificadas, tumbas que se abrem, ruídos que não são desse mundo como as rodas das carroças dos coletores de cadáveres, e todo aquele sentimento depressivo de um lugar construído a partir das ruínas de um hospital onde morreram milhares de vítimas da praga da Idade Média, e onde estão enterrados os propagadores da doença que poluíam as águas e espalhavam a peste por maldade.

Não há sangue e a violência é discreta, pois a ideia parece apostar mais num clima de horror sugerido com mortes fora da tela, porém com divertidos efeitos práticos de maquiagem simulando um olho arrancado, um rosto corroído por ácido e as feridas pútridas nas vítimas da peste.

 

(RR – 07/07/26)