O Lago dos Zumbis (Zombie Lake / Le Lac des Morts Vivants, França / Espanha, 1981)



Durante a Segunda Guerra Mundial, alguns soldados alemães são surpreendidos e mortos numa emboscada feita por um grupo de resistência formado por moradores de uma pequena cidade francesa. Sem tempo para enterrar os corpos, eles são abandonados e jogados num lago. Alguns anos mais tarde, a cidade e seu prefeito (Howard Vernon) têm que enfrentar o mistério envolvendo brutais assassinatos que estão acontecendo na região, e a suposta ligação dessas ocorrências com zumbis que estão à espreita nas profundezas do lago.

Numa co-produção entre França e Espanha através da Eurociné, “O Lago dos Zumbis” (Zombie Lake / Le Lac des Morts Vivants, 1981) é dirigido pelo francês Jean Rollin (1938 / 2010), sob o pseudônimo de J. A. Laser, e escrito pelo espanhol Jesus Franco (creditado como A. L. Mariaux), em parceria com Julián Esteban. O filme é uma daquelas tranqueiras repletas de cenas absurdas, atores péssimos (exceto pelo veterano Howard Vernon, de “O Terrível Dr. Orloff” e “A Queda da Casa de Usher”, entre outros), efeitos fuleiros com maquiagens toscas, erros colossais de continuidade e excesso de furos no roteiro, numa história com ideia central até que interessante, mas muito mal explorada.
“O Lago dos Zumbis” é extremamente ruim, filmado às pressas e sem interesse em manter alguma coerência nas ações e eventos, mas a falta de qualidade parece também ser resultado em parte devido ao orçamento minúsculo disponível para a produção. Porém, a somatória desses fatores, juntamente com as várias cenas de mulheres nuas servindo de vítimas para os zumbis, confere ao filme uma atmosfera de curiosidade, chamando a atenção e sendo recomendado para os apreciadores de filmes ruins e do cinema de horror bagaceiro.
Entre a imensa quantidade de situações ridículas, podemos citar a maquiagem verde dos zumbis; a incrivelmente patética e fora de contexto relação de “amor familiar” entre um zumbi e sua filha Helena (Anouchka, filha do produtor Daniel Lesoeur), que é uma das piores atrizes crianças de todos os tempos; a bisonha briga de faca entre dois mortos-vivos; a procissão de moradores do vilarejo carregando uma mulher morta até a casa do prefeito, com a reação fria e hilária do pai da vítima; as cenas aquáticas de ataque dos zumbis, que deveriam ser num lago e são nitidamente filmadas numa piscina; a inexistência de polícia na vila, e ainda quando surgem dois policiais (um deles é “interpretado” pelo próprio diretor Jean Rollin e o outro é feito pelo experiente Antonio Mayans), a imensa incompetência não permite mantê-los em cena além de poucos minutos, virando comida dos zumbis; etc...      
O filme foi lançado em DVD no Brasil pela “Vinny Filmes”, na coleção “Clássicos do Terror”.

O Lago dos Zumbis” (Zombie Lake / Le Lac des Morts Vivants, França / Espanha, 1981) # 578 – data: 26/08/12
(postado em 26/08/12)


A Queda da Casa de Usher (Revenge in the House of Usher, Espanha / França, 1982)



O conhecido conto “A Queda da Casa de Usher”, de Edgar Allan Poe, publicado em 1839, foi adaptado para o cinema diversas vezes, tendo como a versão mais conhecida o filme de Roger Corman de 1960, estrelado pelo ícone Vincent Price. Mas, o cineasta espanhol Jess Franco, dono de uma filmografia imensa de produções de baixo orçamento de horror, também deu sua contribuição para o tema com um filme de 1982, com Howard Vernon e a musa Lina Romay (falecida em Fevereiro de 2012).
Eric Wladimir Usher (Howard Vernon) é um cientista formado em Biologia que vive recluso em seu castelo, impossibilitado legalmente de exercer a profissão. Em suas experiências misturando células embrionárias com plasma, ele descobriu uma espécie de elixir que consegue manter a juventude. Porém, ele é obcecado em tentar curar sua filha Melissa (Françoise Blanchard), assassinando jovens moças para utilizar seu sangue fresco como restaurador da vitalidade da filha doente. Ocorre então a visita de um ex-aluno, Dr. Alan Harker (Antonio Mayans), que ao chegar ao castelo testemunha o antigo mestre confessar atos terríveis de um passado tenebroso de crimes, descobrindo também uma atmosfera de loucura atormentando o lugar. Para conseguir o sangue das mulheres, o cientista é auxiliado pelo mordomo Mathias (Jean Tolzac) e pelo servo cego Morpho (Olivier Mathot). No castelo, onde as paredes e tetos estão em constante e ameaçadora movimentação (numa referência ao conto de Poe), ainda vive uma bela empregada, Maria (Lina Romay), além da assombração do fantasma da esposa morta do cientista.  
Curiosamente, muitas cenas de “O Terrível Dr. Orloff” (1962, fotografado em preto e branco), foram inseridas para mostrar o passado criminoso de Usher, na tentativa desesperada de curar a filha através da transfusão de sangue de belas mulheres assassinadas pelo grotesco Morpho. Jess Franco também aproveitou a ideia para aumentar um pouco mais a duração do filme, que passou para aproximadamente 89 minutos.
Com produção da Eurociné, o filme procura recriar aquela atmosfera gótica dos castelos imponentes de pedra que escondiam segredos sombrios, maldições familiares e loucura, com efeitos toscos de maquiagem (Morpho está risível, e suas aparições até divertem justamente por isso), e Howard Vernon é um ator com um rosto natural de “cientista louco”, recebendo também maquiagem para parecer mais cadavérico ainda. Porém, o roteiro, igualmente de autoria de Jess Franco, é confuso e cheio de furos, podendo causar certo estranhamento no espectador, colocando em risco a diversão.
Tendo várias versões e nomes diferentes, dificultando um trabalho de catalogação, vale registrar que o filme é conhecido pelos títulos originais “La Chute de la Maison Usher” (França), “El Hundimiento de la Casa Usher” (Espanha), “Neurosis – The Fall of the House of Usher”, entre outros, e foi lançado em DVD no Brasil pela “Vinny Filmes”, na coleção “Clássicos do Terror”, com opção de áudio em francês, inglês e português, e legendas em inglês e português, sem materiais extras. A ilustração de uma das capas originais, que também foi utilizada no Brasil, é até bem interessante, mostrando uma mulher amarrada sendo ameaçada por alguém portando uma furadeira elétrica, porém essa cena não existe no filme (o sangue das vítimas é extraído num sistema tosco com agulhas), numa demonstração clara de apelo comercial de marketing através da bela capa. E a sinopse que consta na contra capa do DVD nacional, que é uma tradução literal de informações obtidas no site “IMDB”, contém várias falhas na história.

“A Queda da Casa de Usher” (Revenge in the House of Usher, Espanha / França, 1982) # 577 – data: 18/07/12
www.juvenatrix.blogspot.com.br (postado em 18/07/12)

Epidemia de Zumbis (The Plague of the Zombies, Inglaterra, Hammer, 1966)



A produtora inglesa “Hammer” nos presenteou com dezenas de filmes de horror entre o final dos anos 50 e meados da década de 70 do século passado, abordando todos os sub-gêneros do estilo, e “Epidemia de Zumbis” (The Plague of the Zombies, 1966) é a sua contribuição para o tema dos mortos-vivos. Ele antecede o clássico de George Romero “A Noite dos Mortos-Vivos” (Night of the Living Dead, 68), que introduziu no cinema os zumbis putrefatos comedores de carne humana, e que influenciou toda uma safra de produções similares até os dias de hoje. Dirigido por John Gilling, de “A Carne e o Diabo” (The Flesh and the Fiends, 60, com Peter Cushing e Donald Pleasence), e estrelado por André Morell (de “O Cão dos Baskervilles”, 59, com Christopher Lee e novamente Cushing), esse filme da “Hammer” sobre zumbis é inspirado em “Zumbi Branco” (White Zombie, 32), produção em preto e branco com elenco liderado pelo ícone Bela Lugosi, apresentando mortos que levantam de suas tumbas geladas em rituais de magia negra e vodu, não em busca de carne, mas para vagarem errantes como escravos de seu mestre.     

Um médico, Dr. Peter Tompson (Brook Williams), está enfrentando sérios problemas para diagnosticar a causa da morte de vários aldeões de uma pequena vila no interior da Inglaterra em 1860. Preocupado com a situação e vendo também sua jovem esposa, Alice Mary Tompson (Jacqueline Pearce), apresentar sinais progressivos de fraqueza, ele escreve para seu antigo professor, Sir James Forbes (André Morell), relatando sua angústia por não conseguir impedir a crescente onda de mortes misteriosas. O renomado professor de medicina da Universidade de Londres decide então viajar até o vilarejo com sua bela filha Sylvia (Diane Clare), para tentar auxiliar seu ex-aluno. Chegando lá, enfrenta hostilidades dos moradores supersticiosos e assustados com a desconhecida epidemia, e sua investigação o leva a suspeitar do envolvimento de um rico fidalgo rural, Clive Hamilton (John Carson), proprietário de uma mina de estanho, com rituais de magia negra, e com as estranhas mortes que estão ocorrendo.   

Diferente de seu sucessor americano “A Noite dos Mortos-Vivos”, o filme da “Hammer” apresenta bem menos violência e cenas sangrentas, focando mais na atmosfera gótica e no suspense sombrio, ingredientes típicos das produções do cultuado estúdio inglês, que se transformaram em sua marca registrada, responsável por conquistar uma imensa legião de apreciadores. Mas, a despeito do clima mais voltado ao horror sugerido, temos também boas sequências de mortes, com aparições e ataques dos mortos-vivos muito bem caracterizados, num trabalho notável de maquiagem, principalmente para a época da produção, há meio século atrás.  
Entre as várias curiosidades, vale citar que o diretor John Gilling (1912 / 1984) e o ator André Morell (1909 / 1978) estiveram juntos em outro filme da “Hammer”, “A Mortalha da Múmia”, também conhecido por aqui como “O Sarcófago Maldito” (The Mummy´s Shroud, 67). O roteiro de “Epidemia de Zumbis” é de autoria de Peter Bryan, o mesmo do já citado “O Cão dos Baskervilles” e de “As Noivas do Vampiro” (60), com Peter Cushing. Foi filmado ao mesmo tempo de “A Serpente” (The Reptile), com o mesmo cineasta John Gilling, alguns atores em comum como Michael Ripper e Jacqueline Pearce, e utilizando as mesmas locações e cenários ambientando um pequeno vilarejo europeu da metade do século XIX. Enquanto o primeiro filme aborda a temática dos mortos-vivos, ressuscitados por feitiçaria e transformados em escravos, o outro explora também o poder de cultos proibidos na criação de um horrível monstro assassino mutante, misto de mulher e serpente. Aliás, o inglês Michael Ripper (1913 / 2000), que em “Epidemia de Zumbis” fez o papel do policial Sargento Jack Swift, é o ator que mais esteve presente em filmes da “Hammer”, sempre como coadjuvante, participando de “A Vingança de Frankenstein” (58), “A Múmia” (59), “A Maldição do Lobisomem” (61), “O Fantasma da Ópera” (62), “A Maldição da Múmia” (64), “Rasputin – O Monge Louco” (66), “O Continente Esquecido” (68), “Drácula – O Perfil do Diabo” (68), “O Sangue de Drácula” (70), “O Conde Drácula” (70), entre outros.
“Epidemia de Zumbis” teve lançamento em DVD no Brasil pelo extinto selo “Dark Side” da “Works Editora”. Praticamente sem materiais extras, trazendo apenas pequenas biografias de John Gilling e André Morell, e com uma frase sensacionalista exagerada e equivocada na contra capa (“Milhares de mortos estão levantando de suas tumbas. Uma horripilante descoberta que chocará toda a raça humana”), sendo que o filme nem precisaria desse tipo de apelo forçado.  

“Epidemia de Zumbis” (The Plague of the Zombies, Inglaterra, 1966) # 576 – data: 27/06/12
www.juvenatrix.blogspot.com.br (postado em 27/06/12)








Terra Tranquila (The Quiet Earth, Nova Zelândia, 1985)



Na Nova Zelândia, um cientista de meia idade, Zac Hobson (Bruno Lawrence), acorda na cama de um hotel e descobre que está sozinho no mundo, todos desapareceram de forma misteriosa. Ele procura insistentemente por outras pessoas através de mensagens de rádio e caminhando pelos lugares desertos, sem sucesso. Refletindo sobre a situação, desconfia que a causa do mistério esteja relacionada com algum acidente envolvendo um projeto secreto em que trabalhava, sobre manipulação de uma fonte de energia que circunda o planeta, uma parceria entre vários países numa típica conspiração governamental. Desorientado e deprimido, ele passa a agir de forma estranha, fingindo ser um ditador tirano, discursando para platéias inexistentes, carregando um potente rifle nas mãos e disparando sem coerência, ou blasfemando contra igrejas e imagens religiosas. Até que um dia, ele encontra outras duas pessoas em locais diferentes, uma jovem mulher, Joanne (Alison Routledge), e um homem maori, Api (Peter Smith), ambos igualmente atormentados com o isolamento e falta de companhia. Agora juntos, eles tentam sobreviver num planeta vazio, enquanto em paralelo surgem novos indícios misteriosos de crises de instabilidade de energia, que podem afetar novamente a realidade das coisas. 
 
Filmes com temática pós-apocalíptica geralmente são interessantes, explorando o terrível sentimento de estar sozinho no mundo. Nesse caso, a abordagem do roteiro preferiu investir bem menos em cenas de ação e efeitos visuais, e bem mais no drama existencial dos personagens, na tortuosa tarefa de entender o que se passa a sua volta e se adaptar numa situação de isolamento forçado. Pois, é impossível não classificar como no mínimo aterrador o fato de andar sozinho pelas ruas desertas, encontrando carros abandonados sem motoristas, destroços de um avião caído em chamas sem cadáveres carbonizados, lojas e bares sem atendentes, ou casas sem moradores, num silêncio perturbador de uma “Terra Tranquila”, sem seres vivos.
Certamente um dos destaques é a imagem final, de uma beleza visual impressionante e memorável, e conteúdo de forte impacto, que merece figurar na galeria dos grandes finais ao lado de filmes como “O Planeta dos Macacos” (1968) ou “O Dia Seguinte” (1983).  
Terra Tranquila” é um filme de Ficção Científica com produção neozelandesa. A direção é de Geoff Murphy, responsável por outros filmes do mesmo gênero como “Freejack – Os Imortais” (1992), com o cantor Mick Jagger, e “A Fortaleza 2” (2000), com Christopher Lambert. Faz parte dos produtivos e saudosos anos 80 do século passado, e para a sorte dos colecionadores, foi lançado em DVD no Brasil pela “Cult Classics”, apesar de praticamente sem materiais extras (apenas algumas fotos), e com um erro na capa, informando em destaque o ano de produção como sendo 1983, sendo que o correto é 1985.

“Terra Tranquila” (The Quiet Earth, Nova Zelândia, 1985) # 575 – data: 09/06/12
(postado em 09/06/12)

Delírio de Um Sábio (Dr. Cyclops, EUA, 1940)


Em 1940 foi realizado um pequeno clássico do cinema de ficção científica e horror que por muitos é até hoje ignorado e desconhecido, apesar dos impressionantes efeitos especiais de miniaturização e pelo uso das cores, raros e significativos para a época de sua produção. Tanto é que somente com a chegada da década de 50, o período de ouro do cinema fantástico, com a explosão de incontáveis filmes de FC na televisão americana numa invasão interminável de produções baratas e com todos os tipos de argumentos, o filme Delírio de Um Sábio (Dr. Cyclops), dirigido por Ernest B. Schoedsack (dos também clássicos King Kong – 1933, e Mighty Joe Young – 1949), foi mais reconhecido e apreciado pelo público e críticos. Esse reconhecimento tardio dos próprios americanos talvez se deva ao fato de que as audiências só encontrariam ao longo dos anos 50 certas similaridades do filme com as inúmeras produções realizadas nesse período, onde prevaleciam a mesma estrutura básica nos roteiros e personagens que tinham invariavelmente sempre o mesmo clichê, com um "cientista louco" em meio às suas experiências e um par romântico de jovens heróis para combatê-lo e salvar o mundo de suas invenções e ameaças científicas.

(Atenção: o texto a seguir contém "spoilers")

O filme começa com a sombra do míope e calvo biólogo Dr. Alexander Thorkel (interpretado por Albert Dekker), que em seu laboratório localizado na América do Sul, em plena selva Amazônica, trabalha numa série de experimentos para descobrir o efeito químico do radium em criaturas vivas. Aliás, essa região do mundo até hoje misteriosa e fascinante, foi muito utilizada pelos roteiristas como palco de suas histórias fantásticas, como a chave para o elo perdido da evolução do planeta devido ao seu tamanho descomunal e desconhecido, ocultando criaturas e civilizações, como pode ser visto em filmes igualmente maravilhosos como "O Mundo Perdido", baseado em livro de Arthur Conan Doyle e filmado em versão muda em 1925 e sonora em 1960, ou em "O Monstro da Lagoa Negra", clássico de 1954 e que teve outras duas sequências.
O Dr. Thorkel descobriu uma enorme mina de urânio no meio da selva e com a qual podia utilizar sua matéria prima como fonte de energia para suas experiências, usando um estranho aparelho (tipicamente futurista, assim como sua roupa especial para evitar o contato com a radiação, artefatos estes muito utilizados em outras produções da época) para canalizar o poder do radium em uma máquina que possibilita a diminuição de seres vivos. Após muitas tentativas em ratos, galinhas, cachorros e gatos, ele não obtém o sucesso definitivo devido a algum pequeno detalhe que faz com que os animais morram após pouco tempo miniaturizados. Enquanto isso, ele acaba discutindo com seu assistente, um antigo aluno, sobre as questões morais e objetivos dos experimentos, levando-o a assassiná-lo impedindo que seu trabalho fosse denunciado ao mundo e interrompido.
Porém, devido à fragilidade de sua visão, mesmo com óculos de grossas lentes, para a observação em microscópio, e à necessidade de descobrir a solução final para o êxito de seu trabalho científico, o Dr. Thorkel convida outros cientistas para auxiliá-lo em sua missão, recorrendo à “Fundação Norte Americana de Pesquisas” em New York. Um grupo formado pelo biólogo Dr. Rupert Bulfinch (Charles Halton), pela jovem cientista Mary Robinson (Janice Logan) e pelo engenheiro químico, especialista em minearologia, Bill Stockton (Tom Coley), parte então numa viagem de quinze mil quilômetros rumo à Amazônia. Ao chegarem num vilarejo próximo ao laboratório do cientista, rodeado por belíssimas montanhas nevadas dos Andes, eles solicitam o aluguel de mulas para o transporte de suas bagagens, porém o dono dos animais, Steve Baker, (Victor Killian), interessado na possibilidade de encontrar ouro no meio da floresta motivado por histórias a respeito, exige a sua inclusão no grupo. Os quatro chegam então ao laboratório e encontram um auxiliar do Dr. Thorkel, um habitante local chamado Pedro, que fornecia os animais para as experiências sinistras do cientista.
Eles são recebidos pelo biólogo míope e logo são requisitados para ajudá-lo a decifrar uma falha numa composição química fundamental em seu trabalho. O erro é logo descoberto através da presença de cristais de ferro na estrutura molecular de um tecido orgânico e com a solução dessa falha o Dr. Thorkel obtém finalmente o sucesso na miniaturização de um cavalo malhado, deixando-o com incríveis sete polegadas de altura. Após ajudar o cientista a descobrir o problema, o grupo é solicitado a ir embora rapidamente. Eles relutam e decidem ficar para saber mais sobre o misterioso trabalho dele. Eles acabam descobrindo a mina de urânio e, desconfiado que os novos visitantes pudessem roubar suas invenções e levar o crédito por seu trabalho científico, o Dr. Thorkel os engana levando-os a uma câmara onde se encontrava sua máquina de encolhimento e aciona seus aparelhos canalizando energia radioativa em um poderoso raio miniaturizador. O grupo recém chegado juntamente com o ajudante local do cientista são então encolhidos e perdem a consciência durante o processo.
Uma vez no porão embaixo do laboratório, eles acordam assustados porém aparentemente saudáveis, e aproveitando um momento de descanso e sono do cientista “louco” eles fogem para o jardim, agora terrivelmente ameaçador, devido aos seus pequenos tamanhos e à presença de galinhas e de um feroz gato preto, sugestivamente chamado de “Satanás”, e responsável pelo sumiço dos pequenos animais miniaturizados nas fracassadas experiências do Dr. Thorkel. Quando o cientista acorda, ele procura seus “hóspedes” e encontra-os fazendo várias atividades, como preparar suas pequenas roupas, e o Dr. Rupert lendo suas anotações tentando entender o trabalho do cientista. Eles então conversam e o biólogo miniaturizado diz se sentir humilhado por sua condição e desafia o Dr. Thorkel dizendo que suas experiências ainda tem um grave erro e vai denunciá-lo ao mundo para impedir suas atrocidades. Só que ele se esqueceu que está pequeno e incapaz de enfrentar o gigante Dr. Thorkel, ou Dr. Cyclops do título original, que é uma criatura mitológica com um único olho e descomunal em tamanho e força, sendo o Dr. Rupert seu antagonista, o também lendário Ulisses, com grande inteligência porém inferior e mais fraco num eventual confronto. O cientista “louco” sentido-se ameaçado pelo biólogo visitante, o captura em sua gigantesca mão e o conduz à morte sufocando-o com um algodão embebido em clorofórmio. Ele então parte na captura dos outros que fogem para a floresta chegando na margem de um rio onde tentam movimentar uma canoa que serviria para sua fuga. Após um breve confronto com um ameaçador crocodilo, eles são novamente descobertos pelo Dr. Thorkel e recapturados, porém com uma nova baixa, a morte do ajudante Pedro, denunciado involuntariamente por seu próprio cachorro gigante e alvejado com um disparo certeiro do rifle do cientista.
De volta ao laboratório, os três sobreviventes são informados pelo Dr. Thorkel que estão num lento processo de crescimento e que voltariam ao tamanho normal, confirmando a teoria do Dr. Rupert que alegava que o "cientista louco" estava errado. Porém, agora ele estava furioso e queria destruí-los antes que crescessem e pudessem denunciá-lo para o resto do mundo. Eles travam uma batalha no interior do laboratório que continua até o lado de fora nas proximidades da mina de urânio, onde os pequeninos encontram refúgio em seu interior. Então o alucinado cientista, no encalço deles, pendura-se na frágil estrutura que sustenta o aparelho canalizador de energia radioativa e acaba caindo para a morte nas profundezas escuras da mina.
Num previsível final feliz, o filme termina com os três sobreviventes das macabras experiências do Dr. Thorkel retornando ao vilarejo já com seus tamanhos normais reestabelecidos, e fazendo um pacto de silêncio sobre tudo que aconteceu, visando explorarem os lucros da mina radioativa, e com o casal de cientistas Mary Robinson e Bill Stockton ensaiando um inevitável romance.

Certamente é um filme admirável, levando-se em conta sua época de produção, por apresentar um roteiro muito interessante a despeito dos inevitáveis e previsíveis clichês característicos do gênero, e efeitos de trucagem muito além de seu tempo quando comparado aos seus contemporâneos, pois foi um dos pioneiros em histórias de miniaturização. Foram raros os trabalhos anteriores que utilizaram a idéia, vista também com qualidade e convincentemente em “A Noiva de Frankenstein” (1935), onde o "cientista louco" Dr. Pretorius ensaiava experiências com miniaturizações de pessoas. Podemos dizer que "Dr. Cyclops" foi um precursor e forte influenciador de outros excelentes filmes posteriores como o magnífico “O Incrível Homem Que Encolheu” (1957), baseado em obra de Richard Matheson, “Viagem Fantástica” (1966), e a série de televisão “Terra de Gigantes” (1970), criada pelo lendário Irwin Allen. Seus efeitos de miniaturização são muito convincentes, principalmente num filme a cores, supervisionados pelo diretor de arte alemão Hans Dreier (1884-1966) que foi o responsável pelos cenários com os enormes objetos que foram usados em conjunção com as cenas envolvendo os atores “encolhidos”. Em seu currículo no cinema fantástico destacam-se também outros clássicos como o mudo “O Corcunda de Notre Dame” (1923), da obra de Victor Hugo e “O Médico e o Monstro” (1932), da obra de Robert Louis Stevenson.
“Delírio de Um Sábio” foi também um dos primeiros filmes a abordar o radium como um elemento químico sinistro nas mãos de cientistas sem escrúpulos, antecipando a paranóia atômica que preencheria toda a década de 50 em inúmeros filmes de insetos gigantes e similares onde elementos radioativos afetavam o tamanho de criaturas vivas.
O ator Albet Dekker, que encarnou magistralmente o "cientista louco" Dr. Thorkel ou Dr. Cyclops, teve nesse papel sua principal interpretação em sua longa carreira de trinta anos, que inclui participações em importantes filmes como “Beau Geste” (1939) e o violento western “The Wild Bunch” (Meu Ódio Será Tua Herança, 1969), de Sam Peckinpah. O diretor Ernest B. Schoedsack é mais conhecido por co-dirigir com Merian C. Cooper o clássico “King Kong” em 1933 (baseado em obra de Edgar Wallace), de onde adquiriu muita experiência com técnicas de “back-projection” nas cenas contracenadas com atores e animais gigantescos. Muitos dos efeitos especiais do filme foram originados de "King Kong”, como a mão gigante do Dr. Thorkel agarrando o pequenino Dr. Rupert.
"Dr. Cyclops" é até hoje um filme raro e uma preciosidade meio esquecida pelo público, onde sua qualidade geralmente é subestimada. Produzido pela Paramount e com uma duração relativamente curta em seus 76 minutos, é uma obra cinematográfica de grande valor para a história do gênero fantástico e imperdível para todo e qualquer colecionador, pesquisador e apreciador em geral de fitas de horror e ficção científica antigos.

“Delírio de Um Sábio” (Dr. Cyclops, EUA, 1940) – avaliação: 9 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com.br
blog: www.juvenatrix.blogspot.com.br 
(postado em 02/12/05)

O Terrível Dr. Orloff (The Awful Dr. Orloff, Espanha / França, 1962, PB)



Um mistério atormenta a polícia com os desaparecimentos de jovens e belas mulheres. O inspetor Tanner (Conrado San Martin) investiga o caso, contando com a ajuda não solicitada, mas providencial, de sua namorada, a bailarina Wanda Bronsky (Diana Lorys). Eles descobrem o rastro do Dr. Orloff (Howard Vernon), um médico aposentado de uma antiga prisão, que após um acidente com incêndio em seu laboratório causando queimaduras graves no rosto de sua filha, passa a sequestrar e matar mulheres para experiências com transplante de peles, no intuito de tentar recuperar a beleza do rosto da moça. O terrível médico conta com a ajuda de Morpho Lodner (Ricardo Valle), um violento troglodita cego com olhos esbugalhados, que faz o trabalho sujo dos assassinatos. 

Produção de baixo orçamento e fotografia em preto e branco, com direção do cultuado cineasta espanhol Jesus Franco, dono de um currículo imenso de filmes bagaceiros do gênero fantástico. Sua parceria com o ator suiço Howard Vernon gerou vários outros filmes, alguns deles com o mesmo personagem Dr. Orloff. Curiosamente, muitas cenas desse filme foram inseridas em “A Queda da Casa de Usher” (Revenge in the House of Usher, 1982), baseado em famoso conto de Edgar Allan Poe, também dirigido por Jesus Franco e com Howard Vernon, para mostrar o passado sombrio e criminoso de Roderic Usher, um cientista atormentado e obcecado pela tentativa de curar sua filha através da transfusão de sangue de belas mulheres assassinadas pelo grotesco Morpho. 
Ambientado em 1912, “O Terrível Dr. Orloff” (The Awful Dr. Orloff / Gritos en la Noche / L´horrible Docteur Orlof, Espanha / França, 1962), apresenta todos os clichês típicos dos filmes de “cientista louco”, com seu laboratório num castelo imponente, um ajudante psicopata assassino, mortes misteriosas, investigação policial, e belas mulheres servindo de vítimas (nesse caso cedendo suas peles para as experiências do vilão). 
Foi lançado em DVD no Brasil no final de 2011 pela “Vinny Filmes”, na coleção “Clássicos do Terror”, com opção de áudio em inglês e francês, além de dublagem em português. Disponibiliza também legendas em inglês e português, sem materiais extras.

“O Terrível Dr. Orloff” (The Awful Dr. Orloff / Gritos en la Noche / L´horrible Docteur Orlof, Espanha / França, 1962) # 574 – data: 05/02/12
www.juvenatrix.blogspot.com.br (postado em 05/02/12)

O Cérebro (The Brain, EUA / Canadá, 1988)




Na pequena cidade americana de Meadowvale, existe um Instituto de Pesquisas Psicológicas (com uma arquitetura futurista que mais parece uma gigantesca nave espacial), que é dirigido pelo “cientista louco” Dr. Anthony Blakely (David Gale), auxiliado pelo violento enfermeiro Verna (George Buza). Ele tem um programa de TV chamado “Pensamento Independente”, com o suposto objetivo de ajudar as pessoas com seus conflitos interiores. Mas, o que interessa mesmo é a lavagem cerebral e o controle da mente de seus telespectadores, induzindo-os a cometer assassinatos e suicídios sob a influência de terríveis alucinações. Alimentando com suas ondas cerebrais e às vezes até literalmente com suas próprias carnes, uma criatura alienígena similar a um enorme cérebro, que pretende dominar o mundo. Porém, surge em seu caminho um casal de namorados adolescentes fúteis, o rebelde Jim Majelevski (Tom Breznahan), e a bela Janet (Cindy Preston), que resiste ao seu controle e tenta alertar as pessoas sobre sua existência ameaçadora.   
O Cérebro” (The Brain, EUA / Canadá, 1988) tem direção de Edward Hunt e roteiro de Barry Pearson, que fizeram juntos alguns outros filmes do gênero como “Plague” (1979), “Aniversário Sangrento” (1981) e “Alien Warrior” (1986). É um típico filme bagaceiro que até lembra um pouco aquelas divertidas tranqueiras dos anos 50 do século passado, com sua estética de produção barata, história bizarra, personagens patéticos e efeitos toscos.
Algumas cenas são tão ruins que até ficam hilárias, com direito a decapitação com um machado sem uma única gota de sangue, ou um ataque de motosserra rasgando a barriga de uma vítima, também sem a presença do líquido vermelho, que deveria jorrar em profusão, ou ainda uma cabeça sendo arrancada do corpo com um simples soco. Sem contar a total displicência do roteiro, totalmente desinteressado com detalhes ou coerência, citando como exemplo o simples fato do cérebro alienígena aparecer do nada e devorar suas vítimas, não esclarecendo como seria sua inverossímil locomoção.
Porém, por outro lado, a despeito do desfile de bobagens do roteiro, é interessante ressaltar uma pertinente crítica aos meios de comunicação, principalmente a televisão, pelos métodos utilizados para manipular as pessoas (nesse caso, incitando-as à violência e tornando-as marionetes sob o controle do “Cérebro”).   
Por curiosidade, vale registrar que o ator inglês David Gale (1936 / 1991), fez o papel alguns anos antes do igualmente “cientista louco” Dr. Carl Hill, no sangrento e cultuado “Re-Animator” (1985), onde também perdeu literalmente a cabeça. E que o filme já foi lançado no Brasil em VHS pela “Tec Home”, porém aguarda ainda alguma distribuição em DVD.   

O Cérebro” (The Brain, EUA / Canadá, 1988) # 573 – data: 30/01/12
(postado em 30/01/12)