O Ataque dos Roedores (The Killer Shrews, EUA, 1959, PB)


 

"Aqueles que caçam à noite dirão que o mais selvagem e cruel de todos os animais é o pequeno musaranho. Ele se alimenta apenas no escuro da lua. Ele deve comer seu próprio peso corporal a cada poucas horas - ou morrer de fome. E devora tudo: ossos, carne, tutano... tudo. Em março, primeiro no Alasca, e depois invadindo constantemente para o sul, houve relatos de uma nova espécie: o musaranho gigante assassino.”

 

Dirigido por Ray Kellogg (mais conhecido como técnico de efeitos visuais) e produzido por Ken Curtis (o atrapalhado ajudante de xerife Festus da enorme série de TV de western “Gunsmoke”, 1959 / 1975), “O Ataque dos Roedores”, também conhecido por aqui como “Os Roedores Assassinos” (The Killer Shrews, EUA, 1959), é mais uma divertida tranqueira com fotografia original em preto e branco, do antigo cinema fantástico bagaceiro com criaturas mutantes atacando as pessoas para se alimentar de suas carnes.

 

Um grupo de cientistas, o Dr. Marlowe Craigis (Baruch Lumet), juntamente com sua bela filha, a zoóloga especializada em genética Ann (a sueca Ingrid Goude, que ganhou vários concursos de beleza na vida real) e o biólogo Dr. Radford Baines (Gordon McLendon, também o produtor executivo não creditado), está desenvolvendo uma pesquisa científica numa ilha isolada, utilizando como cobaias os carnívoros musaranhos (“shrews” do título original), mamíferos parecidos com ratos que tem como característica a fome voraz. Como todo “cientista louco” trabalhando para o suposto bem da humanidade, o objetivo é encontrar uma solução para a fome mundial de um futuro sombrio com superpopulação no planeta. Porém, as experiências saem do controle e os animais roedores transformam-se em criaturas gigantes assassinas, com saliva venenosa, que saem à noite em busca de alimento.

Em paralelo, o Capitão Thorne Sherman (James Best) e seu ajudante Rook Griswold (Judge Henry Dupree) chegam de barco à ilha trazendo suprimentos para a equipe de pesquisadores, mas são impossibilitados de deixar a ilha devido uma forte tempestade, juntando-se ao grupo, que ainda tem o empregado Mario (Alfredo de Soto) e o inescrupuloso e bêbado Jerry Farrell (Ken Curtis).

Após descobrir o perigo e ameaça mortal dos monstros mutantes ávidos por carne humana, Sherman precisa enfrentar os conflitos internos no grupo e liderar um esforço de resistência e colocar em prática um plano de fuga contra o “ataque dos roedores” do título nacional.        

 

Sendo uma produção de orçamento minúsculo e duração curta (só 69 minutos), o elenco tem apenas sete atores, seis homens e uma única mulher e com os dois produtores atuando, e boa parte deles ainda serviu de alimento para os musaranhos gigantes famintos. A ideia básica do roteiro de Jay Simms em colocar um grupo de pessoas isoladas numa casa (e nesse caso específico, também numa ilha remota), sendo ameaçados por um ataque de criaturas mutantes assassinas, lembra o mesmo conceito da história do clássico de zumbis “A Noite dos Mortos-Vivos”, de George Romero, que foi filmado vários anos depois em 1968.

Num interessante exercício de criatividade para driblar a falta de recursos, e tentando encontrar uma solução para apresentar os roedores mutantes assassinos, nas tomadas mais amplas foram utilizados cachorros disfarçados de ratos gigantes, com cauda e presas enormes e afiadas, que perseguem suas vítimas e ameaçam as pessoas dentro da casa roendo as paredes. Sem efeitos modernos de CGI ou criaturas animatrônicas. Apenas nas cenas mais de perto foram usados fantoches. O resultado, inevitavelmente bizarro e até hilário, também ficou divertido dentro da proposta de um filme bagaceiro de cinema de gênero com pequeno orçamento.   

“O Ataque dos Roedores” está disponível no “Youtube” tanto a versão original em PB quanto uma colorizada por computador lançada em 2007, ambas com a opção de legendas em português. O filme também foi lançado em DVD no Brasil pela “FlashStar” em 2012 em sua “Classic Collection”, com as duas versões, sendo a original em PB apresentada como material extra. Essa coleção de filmes bagaceiros antigos também lançou “O Gigante Monstro Gila” (1959), que é da mesma equipe de direção e produção, com uma história igualmente bizarra e dessa vez utilizando um lagarto real como um monstro gigante. O bicho foi filmado andando entre maquetes de casas e carros numa perspectiva que simula um tamanho descomunal. É um efeito prático curioso com resultados divertidos que também foi utilizado em outros filmes cultuados e de maior visibilidade como “Viagem ao Centro da Terra” (1959) e “O Mundo Perdido” (1960).

Teve uma sequência em 2012, “Return of the Killer Shrews”, dirigido por Steve Latshaw e com roteiro de James Best (1926 / 2015), que também retornou no mesmo papel de Thorne Sherman do original.

   

(RR – 28/06/22)






A Hora do Espanto (Fright Night, EUA, 1985)

 


 

Em meados dos saudosos anos 80 do século passado tivemos uma onda de filmes de horror que chegaram aqui no Brasil nos cinemas ou diretamente no mercado de vídeo VHS, num movimento que recebeu o nome de “Espantomania”. E que por decisões de marketing esses filmes tiveram seus títulos precedidos por “A Hora de...”.

Alguns deles tive a sorte de ver em tela grande. Vieram então “A Hora do Pesadelo” (A Nightmare on Elm Street, 1984), “A Hora dos Mortos-Vivos” (Re-Animator, 1985), “A Hora das Criaturas” (Critters, 1986), “A Hora do Lobisomem” (Silver Bullet, 1985), “A Hora da Zona Morta” (Dead Zone, 1983), “A Hora do Calafrio” (Savage Weekend, 1979), e principalmente “A Hora do Espanto” (Fright Night, 1985), de Tom Holland, o mesmo diretor de “Brinquedo Assassino” (Child´s Play, 1988), do boneco maligno Chucky, que acabou fazendo parte da cultura pop.

 

Na história, o jovem adolescente Charley Brewster (William Ragsdale), fã de filmes de horror, observa a chegada de um novo e misterioso vizinho, espionando no estilo “Janela Indiscreta”, de Alfred Hitchcock. Ele é Jerry Dandrige (Chris Sarandon), que veio morar na casa ao lado com um amigo igualmente estranho, Billy Cole (Jonathan Stark). Desconfiado de uma relação entre o novo vizinho e o recente surgimento de mulheres assassinadas na região, Charley acredita que o galante Jerry é um vampiro ameaçador, denunciando-o sem sucesso para a polícia.

Depois de um conflito com a criatura das trevas, Charley fica receoso pela segurança tanto da namorada Amy Peterson (Amanda Bearse), que interessa ao vampiro pela semelhança física com alguém de seu passado, quanto da sua mãe Judy Brewster (Dorothy Fielding) e ainda seu amigo adolescente Edward (ou “Evil Ed”, Stephen Geoffreys). Ele decide então pedir ajuda para um ator decadente de filmes de horror, Peter Vincent (Roddy McDowall, que só aparece em cena depois de mais de 30 minutos de filme), que também apresenta um programa de TV sobre filmes bagaceiros, interpretando um personagem matador de vampiros. Juntos, eles enfrentam a criatura da noite sedenta por sangue.

 

Tenho muita sorte, pois tive o privilégio de ver “A Hora do Espanto” nos cinemas em 1986, e depois de mais de 35 anos, rever num exercício de nostalgia e entretenimento garantido, na plataforma de streaming “Netflix”, com a dublagem original. Foi uma experiência de viagem ao passado numa “máquina do tempo”, aterrissando na década de 80, um período fértil em produções divertidas do cinema de horror, com os seus efeitos práticos de monstros sangrentos que superam a artificialidade das imagens geradas por computação.

A primeira metade é mais cadenciada na apresentação da história e construção dos personagens, e a partir daí o clima de horror, tensão e violência torna-se cada vez mais crescente, amparado por um trabalho eficiente de maquiagem e efeitos especiais, além do respeito do roteiro aos elementos tradicionais da mitologia do vampirismo, com as criaturas da noite tendo aversão ao crucifixo, sem reflexo no espelho, sendo queimadas pelos raios do sol, ou entrando nos ambientes de suas vítimas somente se forem convidados.

 

O ator inglês Roddy McDowall (1928 / 1998) é muito lembrado por suas performances como o chimpanzé Cornelius e Caesar na franquia clássica do cinema “O Planeta dos Macacos” (1968 / 1973), e como “Galen” na série de TV (1974). Mesmo com o rosto coberto pela maquiagem de macaco, suas expressões faciais e domínio do personagem são marcantes e uma grande contribuição para o sucesso e legião de fãs do universo ficcional “ape”. Ele também esteve em outros filmes importantes como “O Carrasco de Pedra” (1967), “O Destino do Poseidon” (1972), “A Casa da Noite Eterna” (1973) e “Shakma: A Fúria Assassina” (1990), além da série de TV “Viagem Fantástica” (1977).

Entre as várias curiosidades, alguns segundos de cenas de “Octaman” (1971), um filme bagaceiro de horror e ficção científica com um monstro bizarro atacando as pessoas, aparecem no programa de TV “Fright Night”, como se fosse um filme de alienígenas. O nome do personagem Peter Vincent, é uma homenagem aos astros que marcaram seus nomes na história do cinema fantástico, Peter Cushing e Vincent Price. Outro detalhe curioso é uma declaração do matador de vampiros reclamando que os temíveis sugadores de sangue estavam perdendo espaço para os psicopatas mascarados correndo atrás de suas vítimas, numa referência aos filmes “slasher” que estavam proliferando na época (“Sexta-Feira 13”, “A Hora do Pesadelo”, “Halloween”, etc). 

“A Hora do Espanto” gerou uma franquia formada por uma continuação em 1988, com o retorno de William Ragsdale e Roddy McDowall, e uma refilmagem em 2011, com Colin Farrell e a participação de Chris Sarandon como outro personagem, que por sua vez teve também uma sequência em 2013.

 

(RR – 22/06/22)






Gorgo (Inglaterra, 1961)

 


"Será que todos os esforços do Homem poderão superar a força irresistível desse monstro?” – repórter de rádio, no meio do caos

 

“Gorgo” (Inglaterra, 1961) é um filme situado no sub-gênero de monstros gigantes e considerado a resposta britânica para o clássico japonês “Godzilla”, que por sua vez acabou fazendo parte da cultura pop. É mais um daqueles filmes divertidos que eram exibidos com frequência na televisão aberta e que podemos encontrar uma versão no “Youtube” com a dublagem clássica e algumas partes em versão original em inglês sem legendas, para voltarmos ao passado e reviver uma experiência nostálgica de valor inestimável.

A direção é de Eugène Lourié (1903 / 1991), cineasta ucraniano (na época ainda fazia parte da Rússia) que também já havia feito outros filmes de monstros colossais como “O Monstro do Mar” (The Beast From 20.000 Fathoms, 1953), “O Monstro de New York” (The Colossus of New York, 1958), e “O Monstro Submarino” (Behemoth the Sea Monster, 1959). 

 

Os sócios caçadores de tesouros no fundo do mar Joe Ryan (Bill Travers) e Sam Slade (William Sylvester) capturam um monstro marinho de origem pré-histórica, que vive perto de uma ilha irlandesa, escondido numa caverna oceânica oculta na crosta terrestre, e exposta após uma erupção vulcânica.

Apelidado de “Gorgo”, ele é levado para a Inglaterra, onde é explorado como atração de circo em Londres, contrariando um grupo de cientistas que tinha o objetivo de estudá-lo. E um menino, Sean (Vincent Winter), que sente afeição pela criatura, acompanhou clandestinamente a viagem do monstro até o continente.

Porém, as coisas se complicam bastante depois que os cientistas descobrem que o monstro é apenas um filhote, e que sua mãe de 60 metros de altura e imponentes olhos vermelhos está raivosa e vai resgatá-lo destruindo tudo pelo caminho, incluindo importantes marcos históricos de Londres como a torre do relógio do Big Ben e a Ponte da Torre.  

 

Para quem aprecia os filmes antigos de horror e ficção científica com monstros gigantes, assistir “Gorgo” é garantia de diversão, com seus efeitos especiais toscos para os tempos modernos de CGI, mas eficientes e impressionantes para a época de produção no início da década de 60 do século passado. É curto, com apenas 75 minutos, e os destaques obviamente são as cenas de naufrágios dos barcos no mar como se fossem brinquedos e o monstro colossal destruindo Londres, com a utilização da técnica “suitmation”, onde um ator está vestindo uma fantasia de borracha caminhando entre as ruínas de uma cidade em miniatura, com escala proporcional.

Curiosamente, o nome “Gorgo” foi inspirado na criatura “Górgona” da mitologia grega, que tinha serpentes na cabeça e o poder de transformar em pedra todos que olhassem diretamente para o seu rosto. O filme tem algumas similaridades de roteiro com outro clássico, “King Kong” (1933), onde o famoso macaco gigante foi capturado numa ilha esquecida pelo tempo e trazido para o ambiente urbano para ser explorado pelos humanos por cobiça e dinheiro.

   

(RR – 17/06/22)





A Volta Ao Mundo Pré-Histórico (Dinosaurus!, EUA, 1960)

 


A saudosa “Sessão da Tarde” da TV Globo exibia nas décadas de 1970 e 1980, principalmente, uma enxurrada de filmes antigos de ficção científica e horror com elementos de aventura, ou vice-versa, que tinham histórias ingênuas e efeitos práticos que não devem funcionar para a maioria das audiências do século XXI devido ao crescente nível de tecnologia com CGI (Computed Generated Imagery) dos tempos modernos. Mas, que funcionavam de forma eficaz e divertida para os apreciadores de cinema de gênero daquele período. É uma lista com tantos filmes (e já escrevi sobre dezenas deles), que ficaria inviável e repetitivo demais citá-los novamente aqui.

Porém, o assunto desse texto agora é sobre outro filme divertido e com efeitos bagaceiros com dinossauros toscos em miniatura e movimentos na técnica “stop motion”, que foi exibido à exaustão nas tardes da televisão e que para a nossa sorte tem disponível no “Youtube” com a dublagem clássica: “A Volta ao Mundo Pré-Histórico” (Dinosaurus!, EUA, 1960), dirigido pelo alemão Irvin S. Yeaworth Jr., cineasta de poucos filmes no currículo, mas que deixou um legado com algumas preciosidades do gênero fantástico como “A Bolha” (1958) e “Quarta Dimensão” (1959), em parceria com o produtor Jack H. Harris.    

 

Bart Thompson (Ward Ramsey) lidera uma equipe de construtores encarregados de transformar uma enseada de uma ilha do Caribe num ponto favorável para receber mais barcos com turistas, administrando explosões aquáticas no local. A equipe ainda conta com o segundo em comando Chuck (Paul Lukather) e o engraçado Dumpy (Wayne Treadway). O que eles não imaginavam é que acabaram descobrindo no fundo do mar dois dinossauros congelados há um milhão de anos, um tiranossauro, carnívoro e perigoso, e um brontossauro, herbívoro e imenso, além de um homem das cavernas (Gregg Martell).

Uma vez resgatadas as criaturas de “um mundo pré-histórico” (do título nacional), eles também nunca imaginariam que um raio de uma tempestade iria trazê-los de volta à vida, causando um alvoroço na ilha e obrigando a refugiar os habitantes nativos numa antiga fortaleza de pedra em ruínas.

Ainda tem as belas mulheres para fazer os pares românticos, com Betty Piper (Kristina Hanson) sendo a namorada do chefe Bart e Chica (Luci Blain), que está interessada em Chuck. E finalmente tem o menino órfão Julio (Alan Roberts), que faz amizade com o homem das cavernas e o brontossauro. 

Em paralelo, tem também uma trama com o inescrupuloso administrador da ilha e vilão da história, Mike Hacker (Fred Engelberg), que está interessado apenas nos lucros que poderá receber com a exposição do homem de Neanderthal para o mundo, contando com a ajuda de seus capangas atrapalhados Jasper (Jack Younger) e Mousey (Howard Dayton).

 

A história certamente esbarra em inúmeras situações absurdas para apenas facilitar o trabalho dos roteiristas, e em filmes como “A Volta ao Mundo Pré-Histórico” temos que relevar os clichês e desconsiderar a falta de coerência de uma ideia básica com dinossauros congelados em perfeito estado de animação suspensa no fundo do oceano, próximo de uma ilha paradisíaca, e que são descobertos e resgatados intactos após explosões subterrâneas, e que ainda despertam retornando à vida com a descarga elétrica de raios de uma tempestade (no estilo “Monstro de Frankenstein”). Uma sugestão para uma experiência de entretenimento nostálgico é apenas “desligar o cérebro” e entrar no clima de aventura com elementos do gênero fantástico.

O filme também tem intencionalmente elementos de humor, principalmente em cenas com os personagens T. J. O´Leary (James Logan), um bêbado que ficou de “babá” para os dinossauros adormecidos, além de Dumpy, que também tem alguns momentos atrapalhados, e com o homem das cavernas, totalmente desorientado ao acordar num mundo estranho, protagonizando várias cenas cômicas na casa dos pais de Betty.

Entre os destaques, vale citar uma luta violenta entre o tiranossauro e o brontossauro, com aqueles efeitos práticos bagaceiros que tornam esses filmes as preciosidades que os apreciadores tanto estimam, e o desfecho com um confronto entre o tiranossauro e o chefe Bart pilotando uma escavadeira.

Curiosamente, tem uma cena hilária e memorável do homem das cavernas junto com o menino Julio cavalgando o brontossauro. Aliás, a relação de amizade deles deve ter inspirado o desenho animado “Dino Boy e o Vale Perdido” (1966), produção da Hanna-Barbera.

E o produtor Steve H. Harris apareceu numa pequena ponta como um turista a bordo de um barco.


(RR - 05/06/22)






O Monstro Indestrutível (Indestructible Man, EUA, 1956, PB)

 


O ator Lon Chaney Jr. (1906 / 1973) teve uma longa carreira com quase 200 créditos na filmografia. Filho de Lon Chaney, um astro renomado da época do cinema mudo, ele é bastante lembrado pelo papel do amaldiçoado Larry Talbot no clássico “O Lobisomem” (1941) da produtora “Universal”. E fez muitos filmes de orçamentos modestos do cinema de gênero, marcando seu nome na história do horror e ficção científica. Em 1956 ele esteve em “O Monstro Indestrutível” (Indestructible Man), no papel principal que deu nome ao filme, uma produção bagaceira com fotografia em preto e branco, dirigida por Jack Pollexfen.     

 

O criminoso Charles “O Açougueiro” Benton (Lon Chaney Jr.) é um criminoso preso pelo roubo de 600 mil dólares (algo em torno de 6 milhões de dólares em 2020), e condenado à morte na câmara de gás. Sentindo-se traído pelos companheiros de gangue, o advogado inescrupuloso Paul Lowe (Ross Elliott) e os comparsas Squeamy Ellis (Marvin Press) e Joe Marcellia (Ken Terrell), ele jura vingança contra eles, mesmo estando atrás das grades e com pena de morte.

Depois de executado, seu corpo vai parar nas mãos de um “cientista louco”, o bioquímico Prof. Bradshaw (Robert Shayne) e seu assistente (Joe Flynn), que o utilizam em experiências para a cura do câncer, aplicando uma descarga elétrica de 300 mil volts no cadáver. Charles Benton retorna então do mundo dos mortos, mudo, pois a descarga elétrica afetou suas cordas vocais, e extremamente forte devido alterações na estrutura celular de seu corpo, tornando-se o “homem indestrutível” do título original (que no Brasil recebeu o nome oportunista alterando para “monstro”).

O detetive da polícia Tenente Dick Chasen (Max Showalter, creditado como Casey Adams), sob a supervisão do chefe Capitão John Lauder (Stuart Randall), é o responsável pela investigação do roubo, cujo dinheiro nunca foi encontrado, estando bem escondido de todos e com possibilidade de pistas do paradeiro com a bela dançarina Eva Martin (Marian Carr), amiga do “açougueiro”. O policial, obcecado em desvendar o caso, está no rastro do criminoso que voltou à vida, depois dele fugir do laboratório do cientista e iniciar seu plano sangrento de vingança, eliminando todos que cruzavam o seu caminho.    

 

“O Monstro Indestrutível” é curto, com apenas 71 minutos, e é um filme de investigação policial de um roubo de dinheiro, com elementos de horror e ficção científica na figura do “cientista louco” (sempre trabalhando para o suposto bem da humanidade) e sua criação de um “homem indestrutível”. A história é toda narrada pelo policial Tenente Dick Chasen, que conta os detalhes de sua investigação e perseguição do assassino vingador. Lon Chaney Jr. faz novamente o papel do vilão, e depois de perder a voz após o imenso choque elétrico que lhe deu força descomunal, ele passa a evidenciar sua raiva com expressões faciais que mostram seu ódio mortal pelos companheiros traidores responsáveis por sua prisão e condenação à morte.

Para os apreciadores de ficção científica bagaceira, é pena que a participação do “cientista louco” e suas experiências bizarras seja apenas pequena, como pano de fundo para a história policial, com o laboratório sendo pouco explorado, com seus mostradores analógicos e aparelhos elétricos. Seria também bem mais interessante se o “homem indestrutível”, que resiste contra o disparo de projéteis de armas de fogo, tivesse o corpo deformado ou o rosto distorcido pela experiência com a descarga elétrica, transformando-se num monstro tosco em busca de vingança. Mas, a opção dos realizadores, talvez por questões orçamentárias ou pelo foco numa história policial, foi manter o ator Lon Chaney Jr. sem maquiagem de monstro, sendo apenas um homem forte que mata as pessoas com seus poderosos golpes.

Curiosamente, existe uma foto do açougueiro com Eva Martin desacordada em seus braços, a típica cena do “monstro carregando a mocinha”. Mas, isso não aparece no filme e apenas é revelado que a dançarina estava no hospital se recuperando de ferimentos não mostrados.

Lon Chaney Jr. teve várias participações em filmes de monstros clássicos da “Universal”, e além de ser o lobisomem no filme de 1941, também interpretou a criatura de Frankenstein, o vampiro Drácula e a Múmia. No caso dos diversos filmes bagaceiros de Horror e FC a partir da década de 1950 (período pós-Universal), vale citar alguns como “O Castelo do Pavor” (The Black Castle, 1952), “A Torre dos Monstros” (The Black Sleep, 1956), “A Maldição do Monstro” (The Cyclops, 1957), “The Alligator People” (1959), “O Castelo Assombrado” (The Haunted Palce, 1963), “Dracula vs. Frankenstein” (1971), entre outros.   


(RR – 29/05/22)






O Ataúde do Morto-Vivo (The Oblong Box, Inglaterra, 1969)

 


"Um homem desfigurado pela bruxaria, por um punhado de pó e drogas obscuras. Minha mente foi transtornada, meu rosto destruído. Fui assassinado e trazido milagrosamente de volta à vida.”

– Edward Markham para o Dr. Neuhartt

 

O primeiro filme com a presença dos ícones do cinema de horror Vincent Price e Christopher Lee foi “O Ataúde do Morto-Vivo” (The Oblong Box, Inglaterra, 1969), com roteiro levemente inspirado numa história de Edgar Allan Poe. A direção é de Gordon Hessler, que ainda fez outros dois filmes ingleses em 1970 também com Vincent Price: “O Uivo da Bruxa” (1970) e “Grite, Grite Outra Vez!” (1970), sendo este último novamente com Lee e ainda Peter Cushing, outro nome consagrado, numa época onde existiam atores com nomes totalmente associados ao Horror.

 

Julian Markham (Vincent Price) é um rico aristocrata inglês que está noivo de Elizabeth (Hilary Heath) e que possui grande quantidade de terras para plantações na África. Ele mantém encarcerado no sótão de sua mansão o irmão Edward (Alister Williamson), depois de um incidente trágico num ritual de bruxaria dos nativos africanos, que o deixou com o rosto desfigurado e a mente distorcida.

Porém, Edward, injustiçado e atormentado com a falta de liberdade, coloca em prática um plano de fuga com a ajuda do inescrupuloso advogado da família, Samuel Trench (Peter Arne), juntamente com seu assistente Mark Norton (Carl Rigg) e um feiticeiro africano N´Galo (Harry Baird). Mas, ao ser traído por eles, o caixão onde estava enterrado é roubado para o Dr. Neuhartt (Christopher Lee), um médico que utiliza ilegalmente cadáveres em suas experiências. E assim, Edward ganha uma oportunidade para efetivar um sangrento plano de vingança contra todos que o prejudicaram.    

 

Em “O Ataúde do Morto-Vivo”, é pena que Christopher Lee tenha apenas um papel secundário como um médico que faz experiências com corpos roubados de cemitérios, e também é lamentável que ele e Vincent Price quase não contracenaram juntos, estando apenas uma única vez na mesma cena e muito rapidamente. Seria melhor se o personagem de Lee fosse mais relevante na história e com muitas cenas com Price. Para os fãs fica inevitavelmente um sentimento de frustração de uma oportunidade perdida.

Porém, ainda assim, o filme tem seus bons momentos de horror gótico, com ambientação inglesa de 1865, algumas mortes evidenciando pescoços cortados com navalhas ensanguentadas, uma história violenta de vingança e uma crítica social ao colonialismo inglês na África, com a posse e exploração de terras dos nativos.

Tem também o uso interessante de câmera subjetiva, a partir do ponto de vista do perturbado Edward sedento por vingança, com seu rosto desfigurado escondido por trás de um capuz vermelho, e só revelado próximo ao final, instigando a curiosidade do espectador.

O filme foi lançado em DVD no Brasil pela “Versátil” em 2020, na coleção “Edgar Allan Poe no Cinema – Volume 03”. Curiosamente, era exibido com certa regularidade na televisão aberta, num tempo nostálgico onde era comum a exibição de filmes antigos divertidos, ficando agora apenas como lembranças boas do passado, em substituição pelas atuais plataformas de streaming que não se interessam muito pelos velhos filmes de horror. Por sorte, também é possível encontrar no “Youtube” com legendas em português e uma versão sem cortes (96 minutos).

 

“Nas profundezas do solo úmido, onde coisas vis rastejam entre o lodo, uma mão pálida se contorce e um coração sem batimentos ainda anseia por vingança.”

     

(RR – 23/05/22)









Night of the Blood Beast (EUA, 1958, PB)

 


O especialista em filmes de pequenos orçamentos Roger Corman tem um currículo imenso como produtor e diretor. “Night of the Blood Beast” (1958) tem seu nome creditado na produção executiva, ao lado do irmão Gene Corman como produtor e Bernard L. Kowaski na direção, a mesma equipe de outras bagaceiras divertidas do mesmo período como “O Ataque das Sanguessugas Gigantes” (Attack of the Giant Leeches, 1959).

 

O astronauta Major John Corcoran (Michael Emmet) está retornando de uma missão com satélites orbitando no espaço, à bordo de uma cápsula que sofre um acidente trágico ao retornar para a Terra, culminando numa queda fatal. Apesar da falta de sinais vitais como respiração e batimentos cardíacos, ele misteriosamente parece ainda vivo, em estado de coma, mas com temperatura e pressão arterial normais, para a surpresa da equipe científica que monitorava sua viagem ao espaço. Equipe essa formada pela noiva do astronauta, Dra. Julie Benson (Angela Greene), Dr. Alex Wyman (Tyler McVey), Steve Dunlap (John Baer), Dave Randall (Ed Nelson) e Donna Bixby (Georgianna Carter).

Após o resgate do astronauta eles ficam isolados numa base afastada, sem comunicação externa devido a interferência de uma misteriosa fonte magnética, e são ameaçados pela presença de um monstro (Ross Sturlin) que ronda o local e que pode ter vindo junto com a cápsula espacial, com um interesse obscuro no astronauta, que está servindo de hospedeiro para embriões alienígenas.

 

“Night of the Blood Beast” tem fotografia em preto e branco e duração curta de apenas 62 minutos, um fato comum para os filmes com orçamentos minúsculos do período. Tem também um nome original sonoro para chamar a atenção do público e um cartaz expressivo evidenciando uma mulher com poucas roupas e um slogan promocional exagerado sobre um monstro caçador de cabeças. Mas, o mais importante mesmo é que tem a esperada criatura tosca vinda do espaço sideral, para justificar o título do filme.

O elenco é pequeno, somente sete atores, cinco homens e duas mulheres, incluindo o ator que veste a roupa de borracha do monstro. O roteiro básico de Martin Varno (que tinha só 21 anos na época) explora o clichê de invasão alienígena, um tema recorrente numa infinidade de filmes bagaceiros divertidos principalmente dos anos 50 e 60 do século passado. Sendo dessa vez explorando a dúvida sobre a hostilidade ou boas intenções da raça extraterrestre invasora, com o alerta sobre o uso indevido da energia atômica. Tanto que existe o dilema da equipe científica em destruir o que é desconhecido e ameaçador ou permitir a tentativa de contato e ouvir a mensagem de uma criatura inteligente de outro planeta.

A história, apesar de simples e carregada de clichês, desperta interesse para os apreciadores de filmes tranqueiras com elementos de horror e ficção científica, com a ideia do astronauta servir de hospedeiro para pequenas criaturas alienígenas, algo que foi igualmente explorado na franquia “Alien”, que por sua vez estabeleceu seu lugar na Cultura Pop.

Um destaque certamente é o monstro tosco e sempre divertido, que aparece em cena somente a partir da segunda metade do filme, e garante os melhores momentos nos confrontos com a equipe científica. A criatura do espaço parece uma mistura hilária de papagaio e urso com enormes garras afiadas e foi aproveitada (com pequenas alterações) de outro filme de Corman, “Teenage Caveman”, lançado alguns meses antes. É mais um monstro bizarro imortalizado junto com dezenas de outros do cinema de gênero produzido com poucos recursos.

Curiosamente, o filme recebeu o título original alternativo “The Creature From Galaxy 27”.