Expresso do Horror (Horror Express, Espanha, 1972)

 


“O seguinte relatório à Royal Geological Society pelo abaixo-assinado, Alexander Saxton, é um relato verdadeiro e fiel dos eventos que aconteceram à expedição da Sociedade na Manchúria. Como líder da expedição, devo aceitar a responsabilidade por seu término em desastre, mas deixo ao critério dos honoráveis ​​membros da Sociedade a decisão de onde reside a culpa pela catástrofe.”

– Professor Alexander Saxton.

 

Essa é a introdução narrada de “Expresso do Horror” (Horror Express, 1972), um clássico espanhol do cinema fantástico bagaceiro, exibido à exaustão na televisão brasileira, geralmente nas divertidas madrugadas com monstros toscos e roteiros exagerados na fantasia.

Foi dirigido por Eugenio Martin e estrelado pela famosa dupla dinâmica do Horror, os ícones ingleses Christopher Lee e Peter Cushing, além de uma pequena participação de Telly Savalas (o detetive Kojak da série homônima da TV da década de 1970).

 

Ambientado em 1906, o arqueólogo inglês Prof. Sir Alexander Saxton (Christopher Lee) é o líder de uma expedição científica nas regiões geladas da China à procura de ossos e fósseis. Ele descobre uma misteriosa criatura presa na geleira, um macaco pré-histórico de dois milhões de anos. Com o objetivo de transportá-la para a Europa Ocidental, ele utiliza um trem transiberiano que viaja por longas distâncias.

Uma vez a bordo do “expresso do horror”, ele encontra o rival Dr. Wells (Peter Cushing), acompanhado pela assistente veterana, a bacterióloga Srta. Jones (Alice Reinheart). Carismático e curioso, o cientista não mede esforços para descobrir o que está dentro de uma grande caixa de madeira lacrada com correntes.

Porém, depois que a criatura (interpretada por Juan Olaguibel) desperta e escapa da caixa, vários assassinatos violentos começam a ocorrer no trem, com as vítimas ficando cegas e com suas memórias e conhecimentos drenados dos cérebros, chamando a atenção para uma investigação policial liderada pelo Inspetor Mirov (Julio Peña).

Entre outros passageiros ilustres ou misteriosos candidatos a vítimas fazendo parte do exército de zumbis controlados pelo monstro devorador de mentes, estão o Conde polonês Maryan Petrovski (George Rigaud) e sua esposa Condessa Irina (Silvia Tortosa), o padre fanático e não confiável Pujardov (Alberto de Mendoza) e a espiã internacional Natasha (Helga Line), além do tirano cossaco Capitão Kazan (Telly Savalas), que interceptou o trem no caminho para tentar colocar ordem no pânico entre os passageiros.

 

“Expresso do Horror”, como todos os filmes do cinema bagaceiro de horror e ficção científica, tem alguns momentos equivocados com situações pouco convincentes e eventuais furos no roteiro, mas certamente o que garante a diversão são os ataques sangrentos do monstro ancestral tosco que se alimenta das informações dos cérebros de suas vítimas. E também a presença de Christopher Lee e Peter Cushing, que sempre possuem uma química incrível em cena, nos diversos filmes que fizeram juntos num período que vai principalmente do final da década de 1950 a meados dos anos 1970. Dessa vez trabalhando mais em cooperação contra uma ameaça comum, sendo que na maioria de seus filmes eles estão em lados opostos. Tanto Lee (falecido em 2015) quanto Cushing (morreu em 1994), ao lado de Vincent Price, Boris Karloff e Bela Lugosi, entre outros, estão imortalizados na história do cinema de horror, com seus nomes eternamente associados ao gênero.

O filme foi lançado no Brasil em VHS pela “Videocast” e em DVD pela “Dark Side”. É conhecido também pelo título original espanhol “Pánico en el Transiberiano”. Apesar de não creditado, é considerado o segundo filme adaptado da história de ficção científica “Who Goes There?”, de John W. Campbell Jr., sobre uma criatura alienígena congelada que desperta e sobrevive em hospedeiros, e que já tinha virado filme em 1951 com “O Monstro do Ártico” (The Thing From Another World), que recebeu outras duas versões, “O Enigma de Outro Mundo” (1982) e “A Coisa” (2011).

 

(RR – 22/09/21)











O Monstro de Frankenstein (The Evil of Frankenstein, Inglaterra, Hammer, 1964)

 


“Eu pretendo refutar as velhas teorias sobre a evolução da vida e a origem da força vital e reformulá-las simplesmente em termos de química biofísica como ações e reações químicas controladas por impulsos externos.” – Barão Frankenstein.


O cultuado estúdio inglês “Hammer” é conhecido principalmente por seus incontáveis filmes com atmosfera e ambientação gótica, e pela exploração dos famosos monstros do cinema de horror, consagrados anteriormente pela produtora americana “Universal”.

Sua série de filmes baseados na famosa história de Mary Shelley, “Frankenstein”, tem sete filmes no total: “A Maldição de Frankenstein” (1957), “A Vingança de Frankenstein” (1958), “O Monstro de Frankenstein” (The Evil of Frankenstein, 1964), “Frankenstein Criou a Mulher” (1967), “Frankenstein Tem Que Ser Destruído” (1969), “Horror de Frankenstein” (1970) e “Frankenstein e o Monstro do Inferno” (1974).

O terceiro filme da série foi dirigido por Freddie Francis e estrelado novamente pelo ícone Peter Cushing no papel do “cientista louco” obcecado pela criação de vida artificial, a partir de um monstro formado por partes de cadáveres.


O Barão Frankenstein (Cushing) e seu jovem assistente Hans (Sandor Elès), estão envolvidos em experiências bizarras de reanimação de um coração retirado de um cadáver recente, mas logo são descobertos por um padre (James Maxwell) e são obrigados a fugir. O barão decide retornar, após dez anos de ser expulso, ao seu castelo próximo da cidade de Karlstaad, onde reencontra seus antigos opositores, o prefeito do vilarejo (David Hutcheson) e o agora chefe de polícia (Duncan Lamont). 

O cientista insiste em continuar seu macabro trabalho após encontrar congelado numa geleira a criatura (Kiwi Kingston) de suas antigas experiências, graças a ajuda de uma jovem mulher surda (Katy Wild), maltratada pelos aldeões, e que auxiliou na fuga do cientista e seu assistente ao indicar uma caverna como refúgio da perseguição policial.

Retomando seus experimentos com a reanimação do monstro no laboratório do castelo através da captura de energia elétrica de um raio de uma forte tempestade, o cientista é obrigado a utilizar os serviços de um hipnotizador ganancioso e traiçoeiro, Zoltan (Peter Woodthorpe). Ele é o único capaz de controlar a mente da criatura, incitando-a depois a roubar artefatos valiosos no vilarejo e atacar as autoridades, contra a vontade do Barão Frankenstein, gerando um conflito trágico entre o cientista, seu monstro distorcido e os aldeões furiosos.


Para quem é apreciador do estilo, os filmes góticos da “Hammer” acabam sempre despertando grande interesse, independente até do roteiro, graças aos elementos característicos comumente encontrados, sendo nesse caso o imponente castelo sombrio e maltratado pelo tempo e abandono e o laboratório do “cientista louco” repleto de equipamentos bizarros. 

A história desse “O Monstro de Frankenstein” desconsidera os eventos dos dois filmes anteriores, que por sua vez possuem ligação direta. A decisão dos realizadores foi agora optar pela liberdade de criação artística nesse universo ficcional do cientista e seu monstro.    

Ao contrário do filme imediatamente anterior, “A Vingança de Frankenstein”, lançado seis anos antes, o visual da criatura interpretada por Kiwi Kingston voltou para um estilo mais macabro, repleto de cicatrizes, remendos e deformidades, lembrando um pouco o monstro interpretado pelo ator Boris Karloff nos filmes da “Universal”, explicado pelo fato do grande estúdio americano ser o distribuidor do filme e por isso finalmente ter liberado os direitos sobre a maquiagem do monstro e dos aparelhos científicos do laboratório.

Parte dos cenários do filme foram reaproveitados em “A Górgona”, também de 1964 e um dos melhores filmes da produtora, dirigido por Terence Fisher e novamente com Peter Cushing, dessa vez contracenando com Christopher Lee.

“O Monstro de Frankenstein” foi lançado no Brasil em DVD pela “NBO”, que utilizou uma capa oportunista evidenciando uma ilustração estilizada de Boris Karloff, em vez de mostrar alguma foto da criatura do próprio filme em questão. De material extra, temos biografias do diretor Freddie Francis e dos atores Peter Cushing e Duncan Lamont. 


(RR – 13/09/21)







Fahrenheit 451 (Inglaterra, 1966)

 


“Temos todos de ser semelhantes. A única maneira de sermos felizes é se todos formos iguais. Por isso que temos que queimar os livros.” – Capitão Beatty.


Ray Bradbury (1920 / 2012) é um cultuado escritor de Ficção Científica com várias de suas obras adaptadas para o cinema. Uma delas é “Fahrenheit 451”, livro distópico escrito em 1953 e transformado em filme em 1966 pelo diretor francês François Truffault, numa produção inglesa estrelada por Julie Christie e Oskar Werner.

Num futuro próximo, uma sociedade governada por um regime totalitário que não quer que os cidadãos tenham liberdade de pensamento, impõe leis rígidas contra a leitura de livros e revistas, que segundo eles, causam a infelicidade das pessoas. Então, nesse cenário opressivo, os bombeiros possuem uma função inversa, em vez de apagar incêndios, eles são treinados para localizar livros escondidos e queimá-los.

Guy Montag (Oskar Werner) é um bombeiro que fala pouco e executa sua função com disciplina, recebendo elogios do rígido Capitão Beatty (Cyril Cusack) para uma possível promoção, e despertando a ira do ciumento colega de trabalho Fabian (Anton Diffring). Montag é casado com Linda (Julie Christie, de cabelo comprido), e sua vida é uma rotina sem emoções, com sua esposa ingerindo drogas narcotizantes fornecidas pelo governo e sendo consumidora de programas estatais patéticos de televisão que mantém as pessoas pacatas e obedientes. 

Tudo começa a mudar depois que Montag conhece a professora de crianças Clarisse (também Julie Christie, de cabelo curto), que é sua vizinha e sempre se encontram no trem monotrilho a caminho de casa. Clarisse faz parte de um grupo secreto de pessoas que adoram livros e tentam se esquivar do controle opressivo do governo. O bombeiro passa então a questionar seu trabalho e se aproximar da leitura, tendo que decidir entre sua vida monótona de cidadão disciplinado e obediente, ou lutar pela liberdade se dedicando para que os livros continuem existindo.

“Fahrenheit 451” é uma crítica social sempre muito válida e atual, no sentido de evidenciar o quanto nocivo pode ser qualquer regime político que queira controlar a liberdade de pensamento das pessoas e suas relações sociais. É também uma declaração de apoio e admiração à literatura, aos livros e revistas que são indispensáveis no cotidiano da humanidade, registrando informações, ideias e histórias para divertir, emocionar e passar conhecimentos. 

Entre as curiosidades vale citar que os créditos de abertura são todos narrados, sem nada escrito na tela. O título do filme é uma referência à escala de temperatura Fahrenheit, com o número 451 sendo a quantidade de graus onde o papel dos livros incendeia (algo equivalente aos 233 graus Célsius, uma escala mais conhecida e utilizada). Na comunidade secreta das chamadas pessoas-livros, onde seus integrantes escolhem um livro para decorá-lo com o objetivo de voltar um dia a ser impresso num mundo mais livre, temos obras como “As Crônicas Marcianas”, do próprio Ray Bradbury, e “Histórias de Mistério e Imaginação”, do cultuado escritor de horror Edgar Allan Poe. 

Se eu fosse uma pessoa-livro, e pensando em nossa literatura fantástica nacional, escolheria para decorar o livro de lobisomens “Jarbas”, de André Bozzetto Junior, uma overdose de horror sangrento e tripas dilaceradas, e certamente quando fosse declamar o livro, teria que vomitar sangue.  

Entre os filmes baseados em histórias de Ray Bradbury podemos citar “Veio do Espaço” (1953), “O Monstro do Mar” (1953), “Uma Sombra Passou Por Aqui” (1969), “Um Grito de Mulher” (1972), “No Templo das Tentações” (1983), “A Ameaça Que Veio do Espaço” (1996) e “O Som do Trovão” (2005). 

“Fahrenheit 451” foi lançado no Brasil em DVD pela “Silver Screen”. E em 2018 foi lançada uma nova versão, dessa vez priorizando os elementos de ação, com direção de Ramin Bahrani e com Michael B. Jordan. 


(RR – 07/09/21)






Os Malditos (These Are the Damned, Inglaterra, Hammer, 1963, PB)

 


No final dos anos 1950, a produtora inglesa “Hammer” surgiu com a proposta de explorar novamente os tradicionais monstros do cinema de Horror como o vampiro “Drácula”, “Criatura de Frankenstein”, “Múmia”, “Fantasma da Ópera”, “Lobisomem”, entre outros. Apostando na fotografia colorida e no vermelho do sangue, tivemos muitos filmes que ficaram eternizados, agregando muito valor às carreiras de atores como Christopher Lee e Peter Cushing, que se transformaram em ícones do gênero.

Mas, não é só de filmes de horror com monstros que a “Hammer” é lembrada, pois o estúdio também tem em seu extenso catálogo filmes com histórias de ficção científica. No caso de “Os Malditos” (These Are the Damned, 1963), o tema é a paranoia atômica que foi criada nas décadas de 50 e 60 do século passado, com o medo do fim do mundo numa destruição com bombas nucleares, durante a guerra fria entre Estados Unidos e a antiga União Soviética, pelo domínio do planeta após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Com direção de Joseph Losey, fotografia em preto e branco e história baseada no livro “The Children of Light”, de H. L. Lawrence, o filme foi lançado em DVD no Brasil em 2015 pela “Versátil”, na coleção “Clássicos Sci-Fi – Volume 1”, e também recebeu anteriormente os títulos “O Mundo os Condenou” e apenas “Malditos”.

Um turista americano, Simon Wells (Macdonald Carey), está na Inglaterra em férias quando conhece a jovem Joan (Shirley Anne Field), irmã de King (Oliver Reed), o líder de uma gangue de motoqueiros arruaceiros que roubam turistas com o uso de violência. Simon e Joan acabam saindo juntos num passeio de barco, sendo perseguidos pelo irmão ciumento da garota.

Eles passam a noite numa casa isolada localizada perto de uma estação militar secreta e entram em contato com um grupo misterioso de crianças que vivem em instalações subterrâneas da base do exército. Inocentes, elas recebem bem os estranhos, ajudando-os a se esconderem tanto do violento King quanto dos militares. Geladas e radioativas, as crianças fazem parte de um sinistro experimento científico confidencial, liderado pelo cientista Bernard (Alexander Knox), que esconde seu trabalho obscuro da amante Freya Neilson (Viveca Lindfors), uma artista que faz esculturas bizarras.

“Os Malditos” é um filme diferente da “Hammer”, bem longe dos monstros e horror gótico que normalmente caracteriza o estilo da produtora. Com a fotografia em preto e branco, a história pessimista explora o medo e tensão constantes gerados pela paranoia de uma catástrofe nuclear, com um projeto científico sombrio envolvendo as crianças “malditas”. A primeira metade é um pouco arrastada e a gangue de motoqueiros ladrões de turistas não desperta muito interesse. Mas, as coisas melhoram bastante quando efetivamente surgem as crianças sinistras, vítimas de uma conspiração militar com objetivos sombrios. Carregado de mistério, o grupo não tem contato com o mundo exterior, as crianças só conhecem as coisas no interior do subterrâneo e nem imaginam quem são seus pais, não fazendo a menor ideia do propósito do projeto científico em que fazem parte.

Entre as curiosidades, vale citar que o filme é um dos primeiros trabalhos do ator Oliver Reed, com uma carreira bem sucedida, e que esteve antes em “A Maldição do Lobisomem” (1962), também da “Hammer”, no papel do homem transformado em lobo. Também é curioso o fato de que as crianças misteriosas formavam um grupo de nove e todas tinham nomes de reis ou rainhas da história da Inglaterra, como Henry e Victoria, as principais crianças do grupo.

 

(RR – 16/02/21)





Viagem ao Centro da Terra (Journey to the Center of the Earth, EUA, 1959)

 


“Sabemos menos sobre a Terra em que vivemos, do que sobre estrelas e galáxias do espaço sideral” 

– Prof. Oliver Lindenbrook, sobre o desafio de exploração do nosso próprio planeta

 

O escritor francês Jules Verne é muito conhecido por suas populares histórias de aventura com elementos de ficção científica e fantasia, como por exemplo “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias”, “20 Mil Léguas Submarinas”, “Da Terra à Lua”, e outras. De sua brilhante mente saiu também a história divertida e escapista “Viagem ao Centro da Terra” (Journey to the Center of the Earth), que recebeu inúmeras versões e adaptações para o cinema. A principal é de 1959, produzida pela “Twentieth Century Fox”, dirigida por Henry Levin e com James Mason, Pat Boone, Arlene Dahl e Diane Baker no elenco.

Com história ambientada no século XIX, o professor escocês Oliver Lindenbrook (James Mason), da universidade de Edimburgo, seguindo seus instintos de cientista em busca de conhecimento após encontrar um objeto manufaturado dentro de um pedaço de lava transformada em rocha, decide organizar uma expedição com destino ao centro da Terra. Viajando ao interior do planeta através de uma abertura localizada num vulcão extinto na Islândia, uma passagem secreta descoberta muitos anos antes por um lendário explorador local chamado Arne Saknussemm, um especialista em vulcões que desapareceu misteriosamente.

A expedição formada por Lindenbrook ainda conta com a companhia do jovem estudante Alec McEwan (Pat Boone), namorado da sobrinha do professor, Jenny Lindenbrook (Diane Baker). E o time é completado pela senhora Carla Goteborg (Arlene Dahl), viúva de outro cientista rival na corrida ao centro da Terra, e o ajudante Hans Belker (Peter Ronson, em seu único trabalho no cinema), um islandês alto e forte, importante como carregador dos acessórios para a exploração. O filme tem muitos elementos de humor, principalmente nas cenas envolvendo Gertrude, a pata de estimação de Hans, que acompanha seu dono na jornada.

Em paralelo, na disputa pelo reconhecimento das novas descobertas no interior do planeta, temos também o cientista Conde Saknussemm (Thayer David), que organiza sua própria expedição secreta, agindo de forma inescrupulosa e desonesta, com conspirações e sabotagens para conseguir a fama e os lucros das descobertas científicas.

Durante o arriscado trajeto por dentro da crosta terrestre, eles enfrentam diversos perigos como deslizamentos, terremotos, inundações e ataques de répteis carnívoros gigantes. Mas, também encontram cenários de imensa beleza natural como cavernas com cristais de quartzo e algas luminescentes nas paredes, minas de areia, florestas com cogumelos gigantes comestíveis, uma praia com oceano subterrâneo, culminando ainda com a descoberta dos escombros da lendária cidade perdida de Atlântida.

“Viagem ao Centro da Terra” tem uma duração longa, com 129 minutos, porém é divertido o tempo todo com uma típica aventura recheada de elementos fantásticos e efeitos especiais grandiosos e convincentes, principalmente pela época da produção, no final doas anos 50 do século passado. Sem a tecnologia de computação gráfica para a criação dos monstros, foram utilizados animais vivos (lagartos, iguanas e camaleões) para simular os dimetrodontes e outros répteis, caminhando sobre cenários em miniatura, com a perspectiva de filmagem por baixo, dando a sensação de serem monstros gigantescos ameaçadores.

O filme foi lançado em DVD por aqui pela “Fox”, com a opção da dublagem clássica da exibição na televisão, na saudosa “Sessão da Tarde” da TV Globo, numa época que eram exibidos filmes divertidos como “A Guerra dos Mundos” (1954), “A Máquina do Tempo” (1960), “O Mundo Perdido” (1960), “Viagem Fantástica” (1966), “Planeta dos Macacos” (1968) e muitos outros similares. Foi uma experiência extremamente nostálgica rever o filme com a dublagem original, com vozes reconhecidas que ficaram eternizadas em nossa imaginação pelos filmes e séries que assistíamos nos anos 70 e 80.

Curiosamente, entre as várias outras versões tem uma espanhola de 1977 chamada “Viaje al Centro de la Tierra”, também conhecida pelos títulos alternativos “The Fabulous Journey to the Center of the Earth” e “Where Time Began”. Tem direção de Juan Piquer Simón e está disponível no “Youtube” com uma dublagem bem ruim. O filme é uma produção de baixo orçamento, mas muito divertida principalmente pelos efeitos práticos precários com confrontos entre dinossauros, ameaças de tartarugas imensas e o ataque de um gorila gigantesco (um ator numa roupa de macaco), além de uma cena rápida mostrando uma cidade no interior do planeta com diversos cientistas trabalhando em laboratórios futuristas.    

 

(RR – 29/12/20)








O Rato Humano (Quella villa in fondo al parco / The Rat Man, Itália, 1988)

 


Os italianos sempre gostaram de fazer filmes de horror e ficção científica bagaceiros com personagens americanos e ambientação na América Central ou do Sul. Em 1988 foi lançado “O Rato Humano” (Quella villa in fondo al parco / The Rat Man), dirigido por Giuliano Carnimeo (sob o pseudônimo Anthony Ascot), e com Nelson de la Rosa, de apenas 72 cm de altura, no papel da criatura assassina híbrida de macaco e rato.

O roteiro de Dardano Sacchetti (sob o pseudônimo David Parker Jr.), o mesmo autor de “Demons – Os Filhos das Trevas” (1985), é extremamente ruim e cheio de furos, falhas e situações absurdas e convenientes apenas para facilitar o trabalho de direção e produção. Uma história tão simples e patética que não deve ser considerada, e o que vale a pena no filme garantindo a diversão hilária são os ataques sangrentos do rato mutante.

O “cientista louco” americano Dr. Olman (Pepito Guerra) está trabalhando numa experiência genética numa vila remota de uma ilha do Caribe, criando um ser híbrido juntando o instinto do rato com a inteligência do macaco (Nelson de la Rosa), esperando apresenta-lo para a comunidade científica internacional e ganhar fama e dinheiro com a descoberta. Porém, a criatura foge da gaiola e começa a atacar violentamente as pessoas que cruzam seu caminho.

Entre os candidatos acéfalos para virar comida do rato com feições humanas está uma equipe americana formada pelo fotógrafo Mark (Werner Pochath), sua assistente Monique (Ana Silvia Gruyllon) e as modelos Peggy (Luisa Menon) e Marilyn (Eva Grimaldi), além do escritor de histórias de mistérios Fred Williams (David Warbeck), que foi para o Caribe pesquisar materiais para seus livros, e Terry (Janet Agren), que veio dos Estados Unidos procurar sua irmã Marilyn para tentar uma reaproximação.

Enquanto ocorrem mortes misteriosas na região, com as vítimas apresentando escoriações e ferimentos bizarros, um incompetente inspetor da polícia local, Lopez (Franklin Dominguez), tenta descobrir a autoria dos assassinatos.

“O Rato Humano” é uma daquelas tranqueiras de horror onde se consegue alguma diversão nas cenas com o monstro pequenino (literalmente), que salta sobre suas vítimas, com grunhidos estridentes, rasgando suas carnes com os dentes e garras venenosas afiadas. E o mais bizarro é que a criatura não é obtida artificialmente com algum efeito tosco, uma fantasia de borracha ou boneco animatrônico, e sim com a atuação de um ator real de apenas 72 cm de altura, que ganhou também uma maquiagem para ajudar na concepção da criatura carnívora. Aliás, Nelson de la Rosa (que nasceu na República Dominicana) também participou do filme “A Ilha do Dr. Moreau” (1996), ao lado de Marlon Brando e Val Kilmer, e faleceu aos 38 anos em 2006.

Como o entretenimento está quase que totalmente associado apenas aos momentos em cena do pequeno monstro, é uma pena que ele aparece pouco, e seus ataques mortais deveriam ser mais intensos e constantes, uma vez que a história não desperta grande interesse e a narrativa é arrastada em boa parte do filme.

É curioso notar como era a tecnologia disponível na época (sem fotos digitais e celulares), e vemos que o escritor utiliza uma máquina de datilografia, que o fotógrafo precisa revelar suas fotos e é uma dificuldade imensa encontrar um telefone disponível nos arredores da vila perdida no Caribe.

O filme também recebeu o manjado e totalmente sem criatividade título alternativo original “Terror House”, numa distribuição em DVD alemão, que foi a cópia que vi legendada no “Youtube”.   

 

(RR – 09/10/20)









A Noite do Terror / A Noite dos Mortos-Vivos (Le Notti del Terrore / Nights of Terror, Itália, 1981)

 


“A terra irá tremer... covas serão abertas... eles virão até os vivos como mensageiros da morte e haverá as noites de terror...”

 

O cinema fantástico italiano é muito divertido e sangrento. A lista de filmes é imensa, assim como os diretores que associaram seus nomes e eternizaram suas obras na história do horror bagaceiro. Em 1981, o cineasta Andrea Bianchi lançou uma pérola do horror explorando o sub-gênero dos zumbis, “Le Notti Del Terrore”. O filme recebeu vários títulos no Brasil, como sempre apenas para confundir e atrapalhar um eventual trabalho de catalogação e organização dos colecionadores e apreciadores.

“A Noite do Terror” foi o nome no lançamento em VHS pela “Century Video” (com uma capa péssima, sem relação com o filme). “A Noite dos Mortos-Vivos” no lançamento em VHS pela “Poderosa Filmes” (aliás, confundindo o nome com o clássico de George Romero, de 1968). Completando a bagunça, também recebeu o título “Noites de Terror” quando foi lançado em DVD pela “Versátil”, no box “Zumbis no Cinema – Volume 2”. Para o mercado internacional recebeu também os nomes “Nights of Terror” e “Burial Ground”, entre outros.

 

O filme tem apenas um fiapo de história, “mortos-vivos despertados que atacam um grupo de pessoas presas numa mansão isolada, com o único objetivo de rasgar seus corpos e devorar suas carnes”. Mas, o que interessa mesmo e sendo o motivo da diversão, é precariedade geral da produção, com a exagerada violência sangrenta dos ataques (e se ainda impressiona atualmente, imagine no distante ano de 1981...), além da maquiagem e efeitos toscos dos zumbis.

Um veterano pesquisador de ciências ocultas (Renato Barbieri) descobre um segredo misterioso na inscrição de uma pedra antiga retirada de uma escavação arqueológica, despertando acidentalmente uma legião de ancestrais etruscos mortos-vivos, que o atacam violentamente ao sair de seus túmulos frios de pedra e covas podres sob a terra.

Os zumbis então vão até uma mansão isolada próxima para atacar um grupo de pessoas convidadas pelo professor historiador. No grupo, temos dois empregados da mansão, Nicholas (Claudio Zucchett) e Kathryn (Anna Valente), e três casais, George (Roberto Caporali), Evelyn (Maria Angela Giordan) e seu filho Michael (Peter Bark), além de Janet (Karin Well) e Mark (Gian Luigi Chririzzi), e James (Simone Matiolli) e Leslie (Antonietta Antinori).

Com o caos instaurado, resta somente ao grupo sitiado no imenso casarão com estilo gótico, lutar desesperadamente por suas vidas, se defendendo dos mortos-vivos asquerosos que querem saciar a sede de sangue e fome de suas carnes.

 

“A Noite do Terror” é uma preciosidade do cinema tranqueira de horror, extremamente divertido não pela história simples, rasa e quase inexistente, com personagens acéfalos que estão ali apenas para servir de vítimas dos zumbis e que merecem mortes dolorosas, mas pelos excessos de violência, sangue e cenas gráficas de mortes. Seguindo a escola tradicional dos zumbis lentos, eles comem a carne humana, são destruídos apenas com ferimentos na cabeça e as vítimas retornam também como mortos-vivos. Um diferencial é que os zumbis até evidenciam um certo grau de inteligência, quando organizam ações em grupos e portam armas como machados e foices para seus ataques.

O filme tem decapitação, cabeças esmagadas, zumbis em chamas (nesse caso em cenas bem produzidas e convincentes) e tripas dilaceradas num banquete de sangue. Um destaque certamente é o trabalho tosco de maquiagem dos zumbis, com vermes saindo das cavidades dos olhos, e os efeitos das mortes violentas, tudo sem a artificialidade da computação gráfica, garantindo os momentos de entretenimento.

Apesar de ter “noite” no nome, a primeira parte dos ataques dos zumbis é toda realizada em plena luz do dia. O ator Peter Bark, que interpreta o garoto Michael, tinha na verdade 26 anos na época, e realmente não parecia uma criança, mas como tem algumas cenas bizarras no relacionamento dele com a mãe, é fácil entender porque escolheram um adulto com estatura menor para esse papel. Como a quantidade de zumbis em cena é grande, é até compreensível por questões de orçamento que parte deles nem estejam maquiados adequadamente, pois em algumas cenas podemos ver os rostos dos atores apenas pintados de verde, sem a maquiagem de mortos putrefatos.

Curiosamente, a primeira vez que vi o filme foi por volta de 1988, numa fita VHS com o nome “A Noite dos Mortos-Vivos”, alugada de uma locadora de bairro. Até hoje, sempre que passo perto do local onde ela ficava lembro-me desse filme e do aluguel da fita. É um momento nostálgico que ficou eternamente gravado na memória.          

 

(RR – 05/10/20)