Frankenstein Contra o Monstro Espacial (Frankenstein Meets the Spacemonster, EUA, 1965, PB)

 


“Ganhamos a guerra, mas não temos mulheres. Viemos a este planeta com um único propósito: adquirir reprodutores para repovoar nosso planeta.”

– Princesa Marcuzan

 

Entre principalmente os anos 50 e 60 do século passado tivemos muitas produções bagaceiras de filmes bizarros com elementos de horror e ficção científica. Entre a infinidade de tranqueiras daquele período, produções precárias divertidas justamente por suas histórias exageradas no escapismo e com efeitos toscos de naves espaciais e monstros fuleiros, temos “Frankenstein Contra o Monstro Espacial” (Frankenstein Meets the Spacemonster, EUA, 1965), com fotografia em preto e branco e direção de Robert Gaffney.

 

Após uma guerra nuclear devastar uma raça alienígena dizimando todas as mulheres, a líder sobrevivente Princesa Marcuzan (Marilyn Hanold) parte para o espaço sideral com sua nave, auxiliada pelo assistente cientista Dr. Nadir (Lou Cutell), à procura de mulheres similares em outros planetas que pudessem contribuir para a reprodução e continuidade da sua espécie em extinção. Eles acabam pousando na Terra, mais precisamente em Porto Rico, e iniciam um plano de sequestro de belas mulheres humanas em praias e festas em piscinas.  

Em paralelo, uma missão espacial da NASA, liderada pelo General Bowers (David Kerman), tem como objetivo alcançar o planeta Marte, utilizando um robô com características humanoides como astronauta, o Coronel Frank Saunders (Robert Reilly). Ele é uma criatura com cérebro eletrônico, resultado do trabalho do cientista Dr. Adam Steele (James Karen, de “A Volta dos Mortos-Vivos”, 1985) e sua assistente Srta. Karen Grant (Nancy Marshall), no melhor estilo do famoso “Frankenstein”, da escritora Mary Shelley, um tema largamente explorado no cinema fantástico.

Escondido da mídia num projeto secreto, o astronauta partiu em sua missão e o foguete entrou em conflito com a nave alienígena no espaço, caindo depois de volta na Terra. Mesmo sobrevivendo ao acidente, seu rosto foi severamente desfigurado e com a mente distorcida e agindo unicamente pelo instinto de sobrevivência, ele passou a vagar desorientado e sem rumo, matando violentamente as pessoas em seu caminho, como um “monstro de Frankenstein”, até ser localizado pela dupla de cientistas responsáveis por sua criação.

A partir daí o astronauta cibernético tenta combater o plano maquiavélico dos invasores raptores de mulheres, até culminar num confronto final com Mull, o monstro espacial do título.

 

O filme é extremamente bagaceiro, com um título sonoro e oportunista para chamar a atenção. A diversão se garante unicamente pela história patética e pelos efeitos práticos toscos. Entre os destaques temos a nave espacial extraterrestre, um enorme objeto construído para simular um disco voador de outro mundo. As filmagens em seu interior mostram os tradicionais painéis de controle futuristas repletos de mostradores analógicos e luzes piscando. E temos também a maquiagem tosca do astronauta com o rosto disforme e o monstro espacial Mull, interpretado por um ator (Bruce Glover, não creditado) vestindo uma roupa tranqueira de borracha.

A dupla formada pela Princesa Marcuzan (seu nome nunca é mencionado no filme e ela é tratada sempre apenas como Princesa) e o Dr. Nadir (sem cabelos e com orelhas pontudas, no melhor estilo do vulcano Spock, de “Star Trek”), também garante bons momentos de entretenimento com diálogos carregados de arrogância, ironia, sarcasmo e deboche com os humanos inferiores.

O astronauta “Frankenstein”, andando desorientado pelas estradas e florestas de Porto Rico, matando quem aparecer no caminho, talvez até pudesse ter inspirado o astronauta de “O Incrível Homem Que Derreteu” (1977), que começou a derreter literalmente após seu retorno de uma missão à Saturno, e ao se transformar num monstro psicótico, caminhava feito um zumbi sangrento assassinando pessoas aleatoriamente.

É uma pena que Mull só apareça em cena por pouco tempo e mais ativamente no confronto final, pois como já mencionado, o filme vale a pena para apreciadores do cinema bagaceiro de horror & FC apenas pelas cenas com a nave e os alienígenas, além do astronauta androide e o monstro espacial. De resto, os realizadores utilizaram muito material aproveitado de outras filmagens, especialmente cenas reais de movimentos de tropas de soldados do exército, além de aviões e foguetes. E também o filme é preenchido com muitos momentos tediosos em cenas longas para poder alcançar a metragem mínima, mesmo o filme ainda sendo curto, como por exemplo a dupla de cientistas andando numa moto vespa pelas ruas de San Juan, a capital porto-riquenha.       

“Frankenstein Contra o Monstro Espacial” está disponível no “Youtube”, numa versão original com opção de legendas em português. E foi lançado em DVD por aqui pela “Continental”, em sua “Trash Collection”.

 

(RR – 27/02/23)











O Dia Em Que Marte Invadiu a Terra (The Day Mars Invaded Earth, EUA, 1963, PB)

 


O tema de invasão alienígena sempre foi muito explorado no cinema fantástico, e geralmente os filmes mais lembrados pelos fãs vieram da saudosa década de 1950 e são “A Guerra dos Mundos” (War of the Worlds, 1953) e “Vampiros de Almas” (Invasion of the Body Snatchers, 1956), considerados clássicos com histórias influenciadoras da produção que veio a seguir.

“O Dia Em Que Marte Invadiu a Terra” (The Day Mars Invaded Earth) é claramente inspirado nesse último, na ideia de substituição dos seres humanos por duplicatas idênticas fisicamente. Com direção de Maury Dexter e roteiro de Harry Spalding, é uma produção de baixo orçamento de 1963, com fotografia em preto e branco, título sonoro e chamativo, poucos personagens e duração curta com apenas 70 minutos, numa diversão rápida que difere dos outros filmes bagaceiros de FC e Horror do período, apostando unicamente numa história de suspense sem naves espaciais toscas e monstros fuleiros de outros mundos com olhos esbugalhados, que sempre são os maiores elementos de entretenimento nesses tipos de filmes, mas que aqui não foram necessários para transmitir a mensagem pessimista de invasão alienígena.

 

O renomado cientista Dr. David Fielding (Kent Taylor) é o líder de um projeto ambicioso que consiste no pouso de uma nave espacial não tripulada em Marte. Ele é auxiliado pelo colega Dr. Web Spencer (William Mims), e a missão teve sucesso com a liberação de um dispositivo robô que caminhou em solo marciano e conseguiu transmitir dados para a Terra até ser misteriosamente interrompido.

O cientista está em crise conjugal em seu casamento com Claire (Marie Windsor), por causa do afastamento em decorrência do excesso de trabalho na pesquisa espacial, mas ele retorna por alguns dias de encontro com a família, esposa e dois filhos, a adolescente Judi (Betty Beall) e o irmão mais novo Rocky (Gregg Shank).

Depois de um acidente de carro fatal em circunstâncias estranhas, envolvendo o namorado de Judi, Frank Hazard (Lowell Brown) e situações envoltas em mistérios com os membros da família se deparando com aparições de cópias sinistras de si mesmos, o Dr. Fielding desconfia que algo ameaçador possa ter vindo junto com as informações transmitidas pela sonda que pousou em Marte antes de ser destruída.

 

O filme parece um episódio estendido da série “Além da Imaginação”, sendo sutil ao tratar do tema de invasão alienígena, sem alarde ou uso de armas e violência, com poucos personagens praticamente num único ambiente. Sem monstros de borracha, naves e pistolas de raios mortais. Os marcianos são criaturas inteligentes em forma de energia e que querem se defender da exploração dos habitantes da Terra, que chegaram primeiro ao seu planeta com uma sonda robótica de pesquisa. Então, eles colocam em prática um plano de substituição dos humanos por réplicas artificiais. O roteiro simples procura criar uma atmosfera de insegurança aproveitando o cenário imponente da mansão e jardins enormes, com o cientista e sua família sendo vítimas de uma conspiração marciana bem sucedida.

Maury Dexter (1927 / 2017) também dirigiu outro filme situado no cinema de gênero, “O Castelo Maldito” (House of the Damned, 1963), igualmente com roteiro de Harry Spalding, e também utilizando as mesmas locações de “Greystoke Mansion”, que foi a propriedade herdada pela esposa do cientista, que tem uma grande piscina e belos e imensos jardins. Na vida real, a mansão está localizada na cidade de Beverly Hills, no Estado americano da California, e pouco tempo depois da produção do filme transformou-se num parque público aberto para visitação. É bem conhecida por ceder seu espaço para filmes e séries.

“O Dia Em Que Marte Invadiu a Terra” está disponível no “Youtube”, numa versão original com opção de legendas em português.

 

(RR – 20/02/23)







Os Monstros do Planeta Hidra (2+5: Missione Hydra, Itália, 1966)

 


"Uma noite, durante a última parte do século XX, em um pequeno planeta chamado Terra, o terceiro depois do Sol, num sistema solar da Via Láctea, um fato estranho ocorreu na ilha de Sardenha. Este evento alteraria a vida de todos os seres vivos no planeta.”

 

Uma vantagem que o fã apreciador do cinema antigo de horror e ficção científica certamente tem nesses tempos modernos é a disponibilidade de assistir filmes menos conhecidos gratuitamente na internet, através da plataforma de vídeos online “Youtube”. E ainda com a vantagem adicional de muitos deles em versões originais com opções de legendas em português.

Esse é o caso da FC bagaceira italiana “Os Monstros do Planeta Hidra” (2+5: Missione Hydra, 1966), dirigida por Pietro Francisci e que também é conhecida pelos títulos alternativos “Star Pilot” (Estados Unidos) e “Destination: Planète Hydra” (França).

Antes da popularização da internet, filmes como esse eram considerados raros e de difícil acesso, produzidos numa época sem o auxílio da computação gráfica para criar os monstros, naves espaciais e cenários futuristas, obrigando seus realizadores a driblar as dificuldades orçamentárias e falta de recursos tecnológicos com efeitos práticos bagaceiros e divertidos, com atores vestindo fantasias exageradas e o uso de maquetes e miniaturas.  

 

Alienígenas humanoides vindos da constelação de Hydra pousam sua nave espacial na ilha de Sardenha, na Itália, para investigar o perigo do uso de energia nuclear com bombas atômicas de grande poder de destruição em massa na Terra. A missão dos extraterrestres é liderada pela Capitã Kaena (Leonora Ruffo), auxiliada pelos tripulantes Belsy (Kirk Morris) e Artie (Alfio Caltabiano).

Após a ocorrência de um terremoto no local do pouso, o foguete de outro mundo é soterrado numa fenda e para ajudar nos reparos necessários para a decolagem e saída do planeta, os alienígenas raptam um grupo de humanos formado, entre outros, pelo renomado cientista Prof. Solmi (Roland Lesaffre) e sua jovem filha Luisa (Leontine Snell), personagem de exploração, sempre com maquiagem carregada e roupas curtas, além dos jovens engenheiros Dr. Paolo Bardi (Anthony Freeman, pseudônimo de Mario Novelli) e Dr. Morelli (Nando Angelini). Completam ainda o time uma dupla de espiões orientais, interessados na tecnologia do foguete.

Após conseguirem sair da Terra eles enfrentam uma série de problemas no espaço, precisando de novos reparos no meio do cosmos. Além de riscos de acidente numa colisão com um planeta desconhecido, eles ainda enfrentam um ataque de uma tribo de monstros selvagens parecidos com símios e encontram uma nave fantasma terrestre perdida vagando sem rumo pelo espaço. Para completar, se deparam com uma grande surpresa na chegada na constelação de Hydra.  

 

“Os Monstros do Planeta Hidra” é uma diversão descompromissada no estilo daqueles filmes antigos de FC e aventura espacial que eram exibidos na antiga “Sessão da Tarde” da TV Globo, uma época saudosa da televisão aberta. Porém, não é indicado para quem procura efeitos especiais bem produzidos, com auxílio de CGI, pois o entretenimento é garantido justamente pelos efeitos práticos toscos, pelas maquetes estáticas do foguete e as miniaturas da cidade alienígena, além dos atores fantasiados de monstros parecidos com macacos e simulando robôs ridículos e que deveriam ser ameaçadores em vez de risíveis.

A história é exagerada em situações inverossímeis e escapistas, com pouca criatividade no trabalho de roteiro e para não gerar muitas dificuldades para a equipe de produção.

Entre as diversas cenas de pura tosquice, um destaque vai para o momento em que um reparo do foguete alienígena com a troca de uma antena no meio do espaço, permite a revelação de um balão inflável simulando a nave. E não faltam as tradicionais luzes piscando e painéis cheios de manípulos e botões do interior do foguete, tudo devidamente operado pelos personagens sérios e concentrados na tarefa de pilotagem.

Entre as curiosidades, o filme tem a presença do ator americano Gordon Mitchell, de carreira extensa e participação em muitos filmes italianos variados, sobretudo no gênero “western”, numa cena rápida como Murdu, o líder dos alienígenas de Hydra, falando algumas palavras desconexas que simulam um idioma extraterrestre, com um resultado final no mínimo hilário.

Várias cenas nos interiores do foguete foram aproveitadas de outro filme bagaceiro da mesma época, mas inacabado por falta de recursos financeiros, “The Doomsday Machine”, e que só conseguiu ser lançado em 1976.

Outra curiosidade é que percebemos uma certa similaridade entre o pensamento tirano dos líderes do,Conselho de Genética de Hydra, através da falta de liberdade imposta aos seus cidadãos quanto à escolha dos pares para a reprodução da espécie, buscando obter a raça perfeita, e o que se pretendia por exemplo, na Alemanha do período da Segunda Guerra Mundial.      

 

(RR – 02/02/23)






Terror Tropical (Dragon Wasps, EUA, 2012)

 


Dirigido por Joe Knee, “Terror Tropical” é outra bagaceira moderna com elementos de horror e ficção científica que o canal de TV a cabo “SyFy” gosta de exibir em sua programação. Faz parte daquela manjada equação que pode ser representada como “roteiro desinteressante” + “elenco inexpressivo” + “CGI vagabundo” = tranqueira dispensável.

O cientista entomologista Dr. Humphries (David Stasko), especialista em engenharia biogenética, está trabalhando para uma empresa misteriosa chamada “Transgen Tech” e se perde numa floresta tropical na América Central. Sua filha Gina (a polonesa Dominika Juillet) e a amiga Rhonda Guiterrez (Nikolette Noel) partem em sua procura, unindo-se com um grupo do exército americano que patrulha a floresta combatendo terroristas e traficantes, liderado por John Hammond (Corin Nemec) e entre os soldados, Willy Meyers (Benjamin Easterday). Ao investigarem a mata fechada, são obrigados a enfrentar dois grandes problemas, sendo um deles um grupo de guerrilheiros fortemente armados e supersticiosos, sob o comando de Jaguar (Gildon Roland), um líder violento que acredita em magia e na proteção de espíritos da floresta. O outro, bem pior, é enfrentar um inesperado ataque de vespas gigantes mutantes que cospem fogo.

O desfile de clichês é enorme. Tem o imperialismo americano num país “que não consegue cuidar de suas fronteiras”, o militar metido a herói, as piadas banais, o “cientista louco” (que nesse caso não tem quase importância na história, deixando o protagonismo para sua filha), os tiroteios óbvios na floresta, e os ataques dos insetos modificados geneticamente. De um filme apresentando vespas dragões incendiárias (daí o título) logicamente já se espera um roteiro absurdo e carregado de clichês, perdido numa avalanche de produções com temática similar. Talvez um dia num futuro distante, essas porcarias até possam se tornar cultuadas dentro de um estilo de cinema fantástico bagaceiro produzido exaustivamente nesse início de século XXI, de forma parecida com o que aconteceu com os nostálgicos filmes dos anos 1950. Porém, pelo menos por enquanto, filmes como esse “Terror Tropical” ainda são extremamente ruins e difíceis de assistir, com uma história patética e insetos gigantes não convincentes, criados por efeitos artificiais de computação gráfica.

Curiosamente, as filmagens ocorreram em Belize, na América Central. E Corin Nemec, o ator que interpretou o soldado durão e herói, também foi um dos produtores do filme. Seu nome está envolvido em inúmeras outras tranqueiras como “Tubarões Assassinos” (Raging Sharks, 2005), “Mosquito Man” (2005), “Tubarões da Areia” (Sand Sharks, 2012), “Dracano” (2013), “Robocroc” (2013) e “Pânico no Lago: Projeto Anaconda” (Lake Placid vs. Anaconda, 2015).


(RR – 06/07/16)

Lavalantula (EUA, 2015)

 


A produção é da “Cinetel Films”, de bagaceiras como “A Queda da Terra”, a distribuição é do canal de TV a cabo “SyFy”, o apoiador oficial do cinema fantástico bagaceiro do século 21, e a direção é de Mike Mendez, de outras tranqueiras como “Maldita Aranha Gigante!” (2013). A história é sobre aranhas do tamanho de homens que cospem fogo pela boca, oriundas de uma erupção vulcânica em Los Angeles, nos Estados Unidos, e no elenco temos a liderança das ações por Steve Guttenberg, mais conhecido pela participação na popular e cultuada franquia de humor “Loucademia de Polícia”, dos anos 80 e 90 do século passado. O resultado disso tudo tem um nome: “Lavalantula”, a contração das palavras lava com tarântula.

Colton West (Steve Guttenberg) é um astro do cinema de ação dos anos 90, conhecido por atuar como o “Foguete Rubro”, um super-herói vestido numa armadura que voa. Casado com a bela Olivia (Nia Peeples), que luta kickbox, e pai do adolescente Wyatt (Noah Hunt), ele está no momento trabalhando num filme bagaceiro sobre baratas gigantes (num divertido exercício de metalinguagem, onde os realizadores estão brincando com os seus próprios clichês). Quando decide sair do set de filmagens para encontrar o filho, se depara com uma explosão nas montanhas de Santa Monica, causando terremotos e o pior de tudo, uma invasão de aranhas enormes incendiárias. Encarnando o verdadeiro herói americano, ele se junta com um fã patético, Chris (Patrick Renna), que encontra num ônibus de turismo, e parte para combater as aranhas, tentando encontrar a esposa e o filho no meio do desastre, ao mesmo tempo em que defende a cidade, procurando uma forma de deter as aranhas, principalmente uma imensa rainha.

Em “Lavalantula” tudo é exagerado, desde o roteiro carregado de forma proposital com elementos absurdos até os efeitos dos monstros aracnídeos em CGI vagabundo. Para não enrolar o espectador, já em menos de dez minutos de projeção, ocorre uma erupção vulcânica que liberta as enormes aranhas que cospem lava pela boca. Tem muitas homenagens e brincadeiras com o próprio cinema fantástico bagaceiro em que o filme se situa. Não falta nem o tradicional discurso padrão do herói convocando nesse caso os funcionários do estúdio de cinema para se motivarem na batalha contra as criaturas de oito patas. Dentro desse ponto de vista, podemos dizer que existe claramente uma intenção honesta dos realizadores em produzir e oferecer ao público uma porcaria colossal sem pretensão de mostrar uma história séria, e por isso mesmo, consegue o objetivo maior que é exclusivamente a diversão simples e sem compromisso com a lógica. O espectador não é enganado, pois sabe com antecedência que verá um filme ruim, que quer apenas divertir debochando dos próprios clichês e situações estrambólicas.    

Entre as várias curiosidades, temos a participação de quatro atores da franquia “Loucademia de Polícia”, pois além de Steve Guttenberg, ainda temos Michael Winslow, Marion Ramsey e Leslie Easterbrook no meio do ataque das tarântulas vulcânicas, numa interessante homenagem. O roteirista Leigh Whannell, criador da série de filmes “Sobrenatural”, aparece numa ponta logo no início, interpretando justamente um diretor de cinema. O ator Ian Ziering, principal nome na cultuada franquia “Sharknado”, aparece rapidamente no meio do caos com a invasão dos aracnídeos pré-históricos, encontrando Colton West no tumulto. Após cumprimentá-lo, ele diz para o colega de profissão que “adoraria ajudá-lo, mas estou com problemas com tubarões”, numa brincadeira muito divertida com a série de filmes de ataques de tubarões nas grandes cidades americanas, usando os tornados como meio de transporte. Na dublagem brasileira, o termo “lavalantula”, utilizado como título do filme e mencionado várias vezes na história, é pronunciado como “lavantula”, numa decisão acertada e mais apropriada. E por último, e especiamente para os brasileiros, em determinado momento, durante a confusão no ataque das aranhas, aparece um poste de identificação de uma praça na “Hollywood Boulevard” com a placa indicando “Carmen Miranda Square”, referindo-se à famosa cantora luso-brasileira.

Para concluir esse texto, vale registrar que antes mesmo dos produtores avaliarem o retorno do lançamento de “Lavalantula”, já foi anunciada uma sequência para 2016 com o nome “2 Lava 2 Lantula!”, cujo gancho enorme foi revelado no desfecho com a pergunta: “Esse é o fim das lavalantulas?”. Parece que não...   

 

(RR – 06/09/15)

 

Nota do Autor: No Brasil recebeu o nome “Lavalantula 2”, com direção de Nick Simon e novamente com Steve Guttenberg.

A Mosca da Cabeça Branca (The Fly, EUA, 1958)


“A Mosca” é um conto de Ficção Científica com elementos de Horror escrito pelo francês George Langelaan e publicado na edição de Junho de 1957 da revista americana “Playboy”. No ano seguinte, a ótima história com grande potencial para o cinema, transformou-se no filme “A Mosca da Cabeça Branca” (The Fly), produzido e dirigido pelo alemão Kurt Neumann (1908 / 1958), de “Da Terra à Lua” (1950) e “Kronos, o Monstro do Espaço” (1957). No elenco, temos o ícone Vincent Price num papel coadjuvante, e David Hedison como o protagonista, ele que esteve em “O Mundo Perdido” (1960) e seu rosto é mais conhecido pelo papel do Capitão Lee Crane da série de TV “Viagem ao Fundo do Mar” (1964 / 1968).

 

“Quanto mais eu sei, mais eu tenho certeza que sei tão pouco. O eterno paradoxo.”

– frase do “cientista louco” Andre Delambre num momento de reflexão sobre seus avanços científicos

 

A história é ambientada na cidade canadense de Montreal, onde o cientista Andre Delambre (David Hedison) faz experiências com teletransporte de matéria. Casado com a bela Helene (a canadense Patricia Owens) e pai do pequeno Phillipe (Charles Herbert), ele também é sócio de seu irmão François (Vincent Price) numa bem sucedida empresa de eletrônica. Obcecado por seu trabalho na pesquisa científica para o bem da humanidade, ele não mede esforços para conseguir seus objetivos. Fazendo testes de desintegração de objetos e cobaias vivas (sua gata de estimação e um porquinho da índia) numa cabine especial, com seus átomos viajando na velocidade da luz pelo tempo e espaço até se reintegrarem novamente em outro local. Porém, após a ocorrência de um acidente onde ele próprio decidiu ser a cobaia da experiência, seu corpo misturou-se ao de uma mosca intrusa na câmara de teletransporte. Como resultado desastroso, o cientista transformou-se num monstro onde sua cabeça e braço esquerdo eram de uma mosca, e o inseto fugiu com cabeça e braço humanos. Para tentar reverter o processo, ele pede para sua esposa e filho tentarem capturar a “mosca da cabeça branca”, antes que ele pudesse perder a sanidade e o resto de sua humanidade pela influência da mosca em seu corpo. Paralelamente, a polícia, sob a liderança do Inspetor Charas (o inglês Herbert Marshall), investiga os mistérios e eventos sinistros envolvendo o cientista e seu trabalho pioneiro de teletransporte.

 

O filme é um clássico dos saudosos anos 50 do século passado abordando as temáticas de “cientista louco” e “homem transformado em monstro”. Faz parte de um período fértil com centenas de filmes divertidos do cinema fantástico, muitos deles produzidos com orçamentos baixos e roteiros exagerados na fantasia, com características bagaceiras que justamente despertam o interesse dos apreciadores do estilo. O laboratório do “cientista louco” possui todos aqueles aparelhos sofisticados da época, repletos de luzes piscando, botões e mostradores analógicos, num período turbulento onde a humanidade convivia com a paranoia nuclear da guerra fria, com a preocupação e medo da destruição do planeta e das consequências de atos equivocados com o avanço da tecnologia, dos aparelhos eletrônicos, foguetes, satélites espaciais e vôos supersônicos.

 

Foi criada uma franquia dentro desse interessante universo ficcional, inicialmente com uma trilogia composta pelo original de 1958 e outras duas sequências com fotografia em preto e branco, “O Monstro de Mil Olhos” (Return of the Fly, 1959), e “A Maldição da Mosca” (Curse of the Fly, 1965). Cerca de vinte anos depois, o cineasta David Cronenberg retomou o assunto e lançou a refilmagem “A Mosca” (The Fly, 1986), com horror gráfico e mortes sangrentas em ótimos efeitos especiais, e que foi seguido por “A Mosca II” (The Fly II, 1989), de qualidade bem inferior. “A Mosca da Cabeça Branca” foi lançado em DVD no Brasil pela “Fox”, com a opção de exibição do filme com a dublagem em português da época em que foi exibido na televisão. Na parte de materiais extras, temos apenas os trailers sem legendas do próprio filme e também da refilmagem de 1986, sua continuação de 1989, e do clássico de FC “Viagem Fantástica” (Fantastic Voyage, 1966).

 

(RR – 22/02/16) 





O Monstro de Mil Olhos (Return of the Fly, EUA, 1959, PB)

 


O sucesso de “A Mosca da Cabeça Branca” (The Fly, 1958) inevitavelmente despertou a atenção dos produtores para o lançamento de uma continuação. Então, no ano seguinte, só que com fotografia em preto e branco para reduzir os custos, foi lançado “O Monstro de Mil Olhos”, escrito e dirigido por Edward L. Bernds (1905 / 2000), um cineasta mais conhecido por seus filmes de comédia, mas que dirigiu algumas preciosidades do cinema fantástico bagaceiro como “Vinte Milhões de Léguas a Marte” (1956), “Rebelião dos Planetas” (1958) e “Valley of the Dragons” (1961).

Após quinze anos da experiência com teletransporte do “cientista louco” do filme original, cujos resultados catastróficos transformaram-no num monstro misto de homem e mosca, seu filho Philippe Delambre (Brett Halsey) tenta seguir os passos do pai., depois da morte da mãe, deprimida com a tragédia do passado. Ele convence com muito custo o tio François (Vincent Price) para patrocinar a aquisição de novos equipamentos para montar um novo laboratório e retomar o projeto de desintegração e reintegração de matéria, transmitindo estruturas moleculares e explorando terras selvagens do conhecimento científico. Ele tem um parceiro, Alan Hinds (David Frankham), que possui interesses obscuros ao fazer parte do projeto, roubando as ideias com o intuito de vendê-las para magnatas da indústria eletrônica. Ele é aliado de Max Barthold (Dan Seymour), um criminoso interceptador de objetos roubados. Num confronto entre eles, o jovem cientista Philippe torna-se vítima do mesmo acidente que ocorreu com seu pai. Virando um monstro com cabeça, braço esquerdo e perna direita de mosca, fugindo desorientado do laboratório e despertando a atenção da polícia, através das investigações do Inspetor Beecham (John Sutton), que já tinha enfrentado situação similar ao auxiliar o Inspetor Charas no filme anterior.  

Essa continuação é uma produção com orçamento bem modesto e duração curta, com apenas 77 minutos. Foi claramente lançada numa jogada oportunista dos produtores para tentar lucrar com a boa receptividade do filme original. Tanto que a história é muito similar, contando apenas com o acréscimo de outros personagens coadjuvantes e o fato do “homem transformado em monstro” sair do laboratório e percorrer as ruas em busca de vingança, com algumas mortes dos oponentes que causaram sua tragédia. Os efeitos são extremamente bagaceiros, principalmente a representação de um porquinho da índia com mãos humanas, depois que o bicho se misturou com um policial que investigava os crimes de Alan Hinds, e foi colocado na máquina de teletransporte, se transformando numa criatura bizarra com as patas do animal. Mas em compensação, o cientista com uma cabeça enorme de mosca ficou mais interessante que no filme original, onde a cabeça de mosca do cientista transformado era bem menor e menos assustadora. Outro detalhe desabonador é o desfecho comum e previsível, com resultados improváveis. 

A questão é que “O Monstro de Mil Olhos” é na verdade apenas mais um filme bagaceiro de horror com elementos de ficção científica, igual a centenas de outros com características parecidas. E o diferencial que o tornou mais conhecido é apenas o fato de ser uma continuação do clássico “A Mosca da Cabeça Branca”, além também por ter o privilégio da presença de Vincent Price no elenco. Se não fosse por isso, provavelmente o filme se perderia na imensidão de produções similares.  

“O Monstro de Mil Olhos” foi seguido por “A Maldição da Mosca” (1965), que concluiu a trilogia. Depois, em 1986, a história de George Langelaan foi novamente adaptada para o cinema em “A Mosca”, de David Cronenberg, apostando em cenas sangrentas, que por sua vez inspirou a sequência “A Mosca II” (1989), de Chris Wallas.

 

 (RR – 28/02/16)