O Homem Gorila (The Ape Man, EUA, 1943, PB)

 


O ator húngaro Bela Lugosi (1882 / 1956) ficou eternizado na história do cinema de horror pelo papel do popular vampiro criado por Bram Stoker no clássico “Drácula” da produtora “Universal” em 1931. Ele, ao lado de Boris Karloff (o monstro de “Frankenstein”), faz parte de um grupo seleto e lendário de atores representando os anos 1930 a 1950 que tem seus nomes associados ao gênero. Assim como Christopher Lee, Peter Cushing e Vincent Price numa geração seguinte principalmente nas décadas de 60 e 70. Quando o assunto é horror no cinema, esses são os cinco grandes ícones que são lembrados num primeiro momento, entre vários outros também cultuados, mas de forma secundária.   

 Lugosi também foi especialista em interpretar os chamados “cientistas loucos” em muitos filmes explorando a temática de “homens transformados em monstros”, como por exemplo “O Homem Gorila” (The Ape Man, 1943), uma produção em preto e branco de Sam Katzman para a “Monogram” e dirigida por William Beaudine, que está disponível no “Youtube” com opção de versão colorizada por computador e legendas em português.

 

Em apenas 64 minutos de duração, o roteiro de Karl Brown e Barney A. Sarecky utiliza ideias recicladas já exploradas em filmes anteriores com macacos ameaçadores. O cientista Dr. James Brewster (Bela Lugosi), envolvido em experiências com um gorila que mantém preso em cativeiro (interpretado por Emil Van Horn usando uma fantasia tosca), acidentalmente se transforma numa criatura mista de homem e gorila. Tendo o rosto com feições assustadoras, ele fica escondido das pessoas por seu colega de ofício, o físico e cirurgião Dr. George Randall (Henry Hall), que uma vez defendendo a ética de seu trabalho, se recusa a ajudar o amargurado “homem gorila” do título, que precisa sacrificar inocentes para tentar reverter desesperadamente o processo, utilizando o fluído espinal das vítimas em suas experiências bizarras.

Quando surge a irmã do cientista, Agatha Brewster (Minerva Urecal), uma escritora veterana e famosa especialista em casos de assombração, despertando a atenção para entrevistas pelo repórter de jornal Jefferson Barney Carter (Wallace Ford) e a fotógrafa Billie Mason (Louise Currie), a revelação do cientista deformado fica ameaçada. E com a ocorrência de assassinatos misteriosos na região, tem início uma investigação da polícia através do Capitão O´Brien (J. Farrell MacDonald).

 

“O Homem Gorila” é indicado apenas para quem aprecia o cinema antigo de horror com suas narrativas arrastadas, atuações teatrais e roteiros ingênuos em comparação com os filmes mais modernos, mas que funcionavam para as plateias da época. O filme tem aquela mesma história clichê com “cientista louco” e suas experiências catastróficas, valendo conhecer quase que exclusivamente por causa de Bela Lugosi, cuja presença sempre ilustre já qualifica o suficiente para o filme não ficar perdido no limbo dos esquecidos. Porém, falha também por não explorar melhor as experiências que transformaram o cientista obcecado em um monstro.

É verdade que felizmente temos o tradicional laboratório no porão de uma mansão fantasmagórica, com seus aparelhos bizarros e líquidos em ebulição, porém, pouco explorado e esquecido numa história que prefere priorizar as ações do casal de jornalistas em tentar desvendar o mistério por trás do cientista disforme. O próprio filme não se leva muito a sério ao reconhecer a “ideia maluca” da história com um personagem que aparece aleatoriamente algumas vezes em cena e encerra a película com um alívio cômico e as tradicionais palavras “The End” (O Fim).    

Curiosamente, o sucesso comercial do filme motivou os produtores para outro similar, que não é uma sequência direta, mas foi lançado como uma conexão por questões de marketing. “A Volta do Homem Gorila” (Return of the Ape Man, 1944) tem novamente Bela Lugosi, só que em outro papel de “cientista louco”, tendo ao seu lado agora outros ícones secundários do Horror, John Carradine, interpretando seu colega de profissão, e George Zucco, no papel do homem macaco, apesar de pouco tempo em cena, dividindo a função com Frank Moran.

Outra curiosidade é que alguns anos antes, em 1940, foi lançado “O Gorila Matador” (The Ape), também da “Monogram”, já apresentando ideias similares com a presença ameaçadora de um gorila e tema de “cientista louco” com experiências bizarras para o bem da humanidade. O papel do obcecado homem da ciência ficou com Boris Karloff.

 

(RR – 02/02/24)





Attack of the Mayan Mummy (EUA, 1964, PB)

 


O filme mexicano “A Múmia Azteca” (The Aztec Mummy, 1957), de Rafael Portillo, serviu de base fornecendo muitas cenas para a produção do americano “Attack of the Mayan Mummy” (1964), de Jerry Warren. Com fotografia em preto e branco, esse filme de baixo orçamento está disponível no “Youtube” com legendas em português. Curto, com apenas 71 minutos, é um exemplo de história com ritmo arrastado que nos convidam ao sono, num grande desafio para manter a atenção, com o esforço só valendo mesmo a pena e talvez um pouco recompensado pelas cenas de ataques da múmia vingativa deformada, que infelizmente não passam de apenas alguns minutos.

 

O cientista Dr. Frederick Munson (G. J. Mitchell) revela em detalhes para o editor de um jornal (Bruno VeSota) uma história extravagante envolvendo sua irmã Ann Taylor (Rosita Arenas), que participava de uma experiência com sessões de hipnose, que revelaram uma vida passada como uma princesa maia. Uma vez tendo agora acesso a informações privilegiadas de outra experiência de vida, ela faz parte de uma expedição científica liderada pelo naturalista Dr. Edmund Redding (Ramón Gay), para explorar o interior de uma famosa pirâmide em Yucatán, México, encontrando uma múmia que servia de guardião e que desperta para atacar violentamente o grupo invasor. O monstro de 2000 anos é capturado e mantido preso numa Fundação de Pesquisas Científicas, mas consegue escapar do cativeiro para espalhar o horror por onde passava.

 

“Attack of the Mayan Mummy” tem um título sonoro e belos cartazes ilustrativos de divulgação, características típicas das produções bagaceiras de horror e ficção científica do passado. Mas, nesse caso a propaganda é enganosa, com uma história entediante, perdendo muito tempo precioso com cenas cansativas de danças dos anos 1960 e longos rituais antigos de civilizações pré-colombianas. E o que realmente interessa, os ataques da múmia maia do título, aparecem somente depois de 50 minutos de projeção e em cenas rápidas. Mas, felizmente para os apreciadores dessas tranqueiras antigas, temos aqui o famoso clichê sempre esperado, o monstro caminhando carregando nos braços a mocinha desacordada, nesse caso Ann Taylor, a reencarnação da princesa maia.    

Muitos filmes apresentam excesso de enrolação com cenas arrastadas de diálogos cansativos para cumprir a metragem necessária, deixando pouco tempo para os monstros. Nessas horas sempre fico pensando na overdose de diversão escapista com uma compilação apenas com cenas dos ataques dos monstros desses filmes de orçamentos paupérrimos, um desfile somente com os momentos dos vampiros, lobisomens, múmias, zumbis, demônios, bruxas, alienígenas hostis e todo tipo de monstros disformes manchando as telas com o sangue de suas vítimas.

 

Curiosamente, a filmografia do diretor Jerry Warren (1925 / 1988) tem várias outras produções do cinema fantástico bagaceiro como “Man Beast” (1956), “Teenage Zombies” (1959), “The Incredible Petrified World” (1959), “Face of the Screaming Werewolf” (1964), “Curse of the Stone Hand” (1965), “Creature of the Walking Dead” (1965), “House of the Black Death” (1971) e “A Ilha de Frankenstein” (1981).

 

(RR – 24/01/24)





Marte Precisa de Mulheres (Mars Needs Women, EUA, 1968)

 


Enquanto “Marte Precisa de Mulheres” (Mars Needs Women, EUA, 1968), nós precisamos de filmes bagaceiros antigos de ficção científica e horror para um exercício de escapismo e diversão passageira nesses tempos turbulentos de meio século depois. Mas, provavelmente esse filme dirigido e escrito por Larry Buchanan não seja uma boa escolha. Disponível no “Youtube” com legendas em português, é uma tranqueira produzida para a televisão com poucas atrações, um roteiro simples sem interesse e com ausência de monstros bagaceiros e alienígenas hostis, oferecendo apenas marcianos parecidos com humanos e pouquíssimas cenas com um disco voador fuleiro.

 

As autoridades militares americanas (sempre eles representando a Terra), através da liderança do Coronel Robert Page (Byron Lord), recebem mensagens do espaço que informam de forma simples e direta que “Marte Precisa de Mulheres”. Então, uma missão marciana tendo à frente o Número 1 (Tommy Kirk) e outros quatro tripulantes, chega ao nosso planeta numa nave espacial no estilo “luminária redonda” para solicitar cinco mulheres solteiras e saudáveis para serem levadas com eles ao seu planeta, num esforço para equilibrar a população que está sofrendo um problema genético, apenas com o nascimento de homens.

Com o pedido negado pelos militares, os invasores marcianos com “intenções pacíficas” decidem “sequestrar” por conta própria as mulheres que tanto precisam, com os alienígenas do planeta vermelho se infiltrando entre os humanos para escolher três belas jovens, uma aeromoça, uma dançarina de strip-tease e uma estudante. Porém, o sucesso do plano fica ameaçado depois do líder marciano se apaixonar por uma cientista especialista em genética, a Dra. Marjorie Bolen (Yvonne Craig), séria candidata para as pretensões dos invasores do espaço.

 

Como já mencionado no início desse texto, é pena que o filme deixe a desejar justamente naquilo que mais procuramos num filme bagaceiro divertido do cinema fantástico do passado, a falta dos monstros ameaçadores, das naves espaciais exóticas e dos alienígenas horrendos com olhos esbugalhados. Nesse filme os marcianos são iguais aos humanos, apenas vestindo roupas que parecem mergulhadores e usando nos ouvidos aparelhos estranhos com antenas. A nave tosca também aparece poucas vezes e muito rapidamente. De resto, temos somente uma história banal de marcianos desinteressantes precisando de nossas mulheres para garantir a continuidade de sua espécie em decadência.

Curiosamente, para ajudar a atingir a metragem temos várias cenas de arquivo com exercícios militares com aviões aleatórios simulando tentativas de interceptação dos invasores vindos do espaço sideral.

O diretor Larry Buchanan (1923 / 2004) tem várias outras tranqueiras similares no currículo, geralmente produções para a televisão da mesma época, na segunda metade da década de 60 do século passado, como “Olhos Satânicos” (1967), “O Monstro de Vênus” (1967), “Curse of the Swamp Creature” (1968), “A Criatura da Destruição” (1968), “It´s Alive” (1969) e “In the Year 2889” (1969).

 

(RR – 20/01/24)

 




Vingança do Túmulo (Dead Men Walk, EUA, 1943, PB)

 


“Vocês, criaturas da noite, como podem se certificar que a profundidade insondável da noite não esconde nada? Por que reduzir as legiões do mal a meros frutos da imaginação, a pretexto de que a sua mente estreita negaria a sua existência? Uma história sussurrada com angústia ao longo dos séculos, uma lenda aproxima as bruxas, lobisomens, vampiros e os lacaios do diabo. Levada nas asas escuras da noite, para a comunhão odiosa do sabbath das bruxas.”

 

“Vingança do Túmulo” (Dead Men Walk, EUA, 1943), tem direção de Sam Newfield, produção da PRC (Producers Releasing Corporation), fotografia em preto e branco e é estrelado pelo ator inglês George Zucco, nome associado ao cinema fantástico de baixo orçamento, principalmente da década de 1940. Está disponível no “Youtube” com a opção de legendas em português, e também foi lançado no Brasil em DVD em 2007 pela “Works” (Dark Side) com o título “Mortos Que Andam”, junto com outro filme do mesmo período, “O Morcego Vampiro” (The Vampire Bat, 1933).

 

Ambientado numa pequena cidade, George Zucco é o físico Dr. Lloyd Clayton, que tem um irmão gêmeo chamado Elwyn envolvido com ocultismo, feitiçaria e vampirismo. Depois de morto e enterrado, ele é ajudado pelo servo Zolarr (Dwight Frye), que resgata seu caixão para retornar ao mundo dos vivos e colocar em prática um plano de vingança contra o irmão e também assediando a sobrinha Gayle (Mary Carlisle), que fica doente. Para tentar salvá-la, o Dr. Clayton recebe o auxílio do noivo dela, o Dr. David Bentley (Nedrick Young), e precisa convencer o xerife Losen (Hal Price) e um grupo de aldeões furiosos que o responsável por mortes misteriosas na região é seu irmão gêmeo vampiro.

 

Filmado em apenas seis dias, o roteiro de Fred Myton é bem simples e previsível, numa história curta de 64 minutos, narrativa lenta, atmosfera sombria sutil e com os clichês característicos do gênero. É apenas mais um filme menor perdido entre vários outros similares do mesmo período, com o diferencial da presença de George Zucco (1886 / 1960), ator reconhecido pelos papéis de vilão ou “cientista louco” em diversos filmes de horror com pequenos orçamentos como “O Gato e o Canário” (1939), “A Mão da Múmia” (1940), “A Bela e o Monstro” (1941), “O Monstro Sinistro” (1942), “A Tumba da Múmia” (1942), “O Abutre Humano” (1943), “O Corvo Negro” (1943), “Mistério da Magia Negra” (1944), “A Sombra da Múmia” (1944), “A Volta do Homem Gorila” (1944), entre outros, ao lado em alguns casos, de ícones como Bela Lugosi e John Carradine. Ele também esteve no elenco de “A Mansão de Frankenstein” (1944), junto com Boris Karloff e Lon Chaney Jr.

Curiosamente foi um dos últimos filmes do ator Dwight Frye (1899 / 1943), que interpreta o servo do vampiro Elwyn, e que também teve papel similar nos clássicos de 1931 da produtora “Universal”, “Frankenstein” e “Drácula”.

 

“Vampiros! Criaturas do diabo, nem mortos nem vivos. De dia eles descansam nas suas sepulturas, mas à noite caminham entre os vivos.”

 

(RR – 28/12/23)







The Hideous Sun Demon (EUA, 1958, PB)

 


“A chama do Sol fez dele um Monstro!”

 

É significativa a quantidade de filmes de orçamentos minúsculos com elementos de Horror e Ficção Científica principalmente das décadas de 50 e 60 do século passado, que utilizam como tema o sub-gênero “Homem Transformado em Monstro”. Geralmente são “cientistas loucos” obcecados pelo trabalho incansável para o suposto bem da humanidade, perdendo o controle das experiências bizarras mal sucedidas com resultados catastróficos, utilizando cobaias humanas e muitas vezes até eles próprios, transformando-se em monstros ameaçadores com suas mentes ainda mais distorcidas.

“The Hideous Sun Demon” (EUA, 1958) é mais um filme bagaceiro situado nesse contexto, abordando a ideia de transformação em monstro, apesar que de forma mais sutil em relação ao perigo na manipulação de elementos radioativos e ações inescrupulosas dos responsáveis pelas pesquisas e experiências. A direção, roteiro e produção são Robert Clarke, que também atua na liderança do elenco como o homem da ciência que virou um monstro disforme. Com fotografia original em preto e branco, o filme está disponível gratuitamente na internet pela plataforma “Youtube”, com a opção de legendas em português e também numa versão colorizada por computador.

  

O cientista Dr. Gilbert McKenna (Robert Clarke) está trabalhando num projeto com um isótopo radioativo, auxiliado pelo colega Dr. Frederick Buckell (Patrick Whyte) e a assistente Dra. Ann Russell (Patricia Manning). Acidentalmente ele recebe grandes doses de radiação e é levado ao hospital ficando aos cuidados do Dr. Stern (Robert Garry). Porém, sempre que exposto aos raios solares, que funcionam como catalisador na alteração de suas células, ocasionando um processo de reversão, ele se transforma num monstro assassino parecido com lagarto (daí o título do filme).

Transtornado com sua nova condição, tendo que sair apenas à noite e com problemas recorrentes com alcoolismo, o cientista recebe a tentativa de ajuda de um especialista em envenenamento por radiação, o Dr. Jacob Hoffman (Fred La Porta), mas sentindo-se solitário e deprimido, conhece uma cantora e pianista numa boate, Trudy Osborne (Nan Peterson), e se envolve em várias confusões, sendo perseguido pela polícia, com equipe liderada pelo Tenente Peterson (William White), se escondendo num capo de extração de petróleo e culminando num desfecho no alto de uma torre.   

 

O filme explora principalmente o drama pessoal do cientista transformado em monstro quando exposto ao sol, na dificuldade em administrar as mudanças para uma criatura mutante e ameaçadora, deixando mais de lado as questões científicas, tanto que não temos o esperado laboratório com aparelhos bizarros, nem a rotina das experiências com radioatividade e não é mostrado o acidente com o cientista.

Filmado apenas em finais de semana com poucos recursos, equipe de produção com estudantes e elenco amador, é indicado para quem aprecia esses filmes tranqueiras com efeitos práticos paupérrimos, com destaque para o monstro pré-histórico reptiliano, bagaceiro e divertido como sempre, o “Horrível Demônio do Sol”, com o ator Robert Clarke vestindo um traje tosco de borracha, e que ainda assim é bem interessante e melhor que muitos outros monstros similares de filmes da mesma época e temática.

Robert Clarke (1920 / 2005) é um nome conhecido por diversas outros filmes bagaceiros divertidos do gênero fantástico como “O Homem do Planeta X” (1951), “The Astounding She-Monster” (1957), “The Incredible Petrified World” (1959), “Além da Barreira do Tempo” (1960), e até tranqueiras no fim da carreira como “Alienator – A Exterminadora Indestrutível” (1990).

 

(RR – 17/12/23)





O Elo Perdido (Land of the Lost, EUA, 1974/1976, série de TV)

 


“Marshall, Will e Holy, em uma viagem de rotina enfrentaram o maior terremoto já visto. Descendo a correnteza que atingiu seu pequeno bote, e os lançou para outra dimensão. Para o Elo Perdido.”

 

Essa é a introdução da série de TV “O Elo Perdido” (Land of the Lost, EUA, 1974 / 1976), apresentada como música tema que ficou eternizada na memória de quem assistiu na televisão nas décadas de 70 e 80 do século passado.

Os roteiros apresentavam elementos sobrenaturais e de ficção científica, com ambientação numa dimensão paralela, povoada por dinossauros variados e criaturas humanoides parecidas com macacos, chamados de “pakuni”, e alienígenas similares a lagartos conhecidos como “sleestak”, entre outras bizarrices. Mas as histórias eram bem ingênuas e fantasiosas, com efeitos práticos toscos utilizando a técnica de “stop motion”. Independente disso, ou justamente por isso tudo, por essas características bagaceiras, a série sempre despertou um estranho fascínio que garantiu a diversão de gerações que ficavam grudadas na televisão para ver seus episódios curtos de aproximadamente 25 minutos.

Produzida por Marty e Sid Krofft, a série teve três temporadas com total de 43 episódios (17 + 13 + 13). Para a satisfação dos colecionadores e apreciadores de mídia física, foi lançada por aqui em DVD e também está disponível completa em vários canais na plataforma de vídeos on line “Youtube”, dublada ou com opção de legendas em português.

 

O guarda florestal Rick Marshall (Spencer Milligan) e seus dois filhos adolescentes, Will (Wesley Eure) e Holly (Kathy Coleman) estavam fazendo um passeio despretensioso de barco quando foram surpreendidos por um terremoto e a correnteza do rio em que estavam os levou direto para uma cachoeira que abriu um portal do tempo, lançando-os para uma dimensão dominada por animais pré-históricos, o “Elo Perdido”.

A partir daí, num primeiro instinto de sobrevivência num ambiente hostil, eles se refugiam numa caverna no alto de uma montanha para depois tentarem entender o que aconteceu e onde estão, passando a explorar a região, e se defendendo da ameaça mortal de dinossauros ferozes, como o tiranossauro macho “Zangado” e o alossauro fêmea “Alice”, que mora na “Cidade Perdida”, um complexo de ruínas que esconde cavernas e corredores no subsolo, povoadas pelos “sleestaks”.

A família Marshall encontra também um filhote de brontossauro, “Tonto”, e um grupo de “pakunis” formado pelo macho “Ta” (papel dividido entre Scutter McKay e Joe A. Giamalva), a fêmea “Sa” (Sharon Baird) e a criança “Cha-Ka” (Phillip Paley), que faz amizade com eles, principalmente com Holly.

Os encontros com os noturnos e esverdeados “sleestaks” sempre são turbulentos, com confrontos para definir uma suposta supremacia nesse mundo selvagem. Eles não falam nas primeiras temporadas, apenas emitem um ruído que ficou na memória dos fãs da série, exceto por Enik (Walker Edmiston), um ancestral superior em inteligência, de cor dourada e estatura menor, que tem participação importante em vários episódios nas tentativas de solucionar os diversos problemas e desafios que surgiam.

Entre as diversas aventuras e situações bizarras, a família descobre a existência de pequenas estruturas piramidais misteriosas chamadas de “pylons” (pilões), que guardam em seu interior painéis com cristais coloridos que possuem o poder de controlar o clima, com tempestades, escuridão ou excesso de calor. Essas estruturas estranhas se revelam portais do tempo, com possibilidades de abrir passagens para outras dimensões e épocas.

 

Com o sucesso das duas primeiras temporadas e a criação de uma rede fiel de fãs, foi produzida uma terceira que teve muitas alterações, desde o elenco até as histórias que tornaram-se ainda mais fantasiosas e com personagens novos e nitidamente deslocados da ideia básica.

O ator Spencer Milligan decidiu sair da série por questões financeiras e então seu personagem Rick Marshall foi sugado por um portal do tempo, saindo do “Elo Perdido”. Em seu lugar veio o irmão “Tio Jack” (Ron Harper, um rosto conhecido pela série de TV “O Planeta dos Macacos”, 1974). Ele estava à procura da família desaparecida e seguindo seus passos também atravessou o mesmo portal, sendo lançado ao passado no vale dos dinossauros e reencontrando os sobrinhos.

Nesta terceira e última temporada, um terremoto destrói a caverna onde moravam, obrigando-os a se mudarem para um templo dos “sleestaks” na “Cidade Perdida”. Os “pakunis” Ta e Sa saem de cena e Cha-Ka agora aprendeu o idioma dos humanos. O filhote de brontossauro “Tonto” também desaparece e surgem outros novos dinossauros, um deles bem extravagante, que mora no pântano e tem duas cabeças, uma espécie de plesiossauro, um réptil aquático apelidado de “Lulu”, e outro chamado de “Maçarico” ou “Tocha”, algo similar a um dimetrodon que solta fogo pela boca.

Além do inteligente Enik, agora temos um líder dos “sleestaks” (Jon Locke) que também fala ao invés de apenas soltar aqueles ruídos característicos da raça.

Will Marshall também decide cantar pequenas músicas bregas nessa terceira temporada, e as histórias ficam ainda mais exageradas na fantasia com a adição de personagens estranhos e fora do contexto. Na segunda temporada já tinha surgido o sarcástico alienígena iluminado “Zarn” (Van Snowden), que tem um robô, vive em sua nave encalhada num pântano nebuloso e que não suporta as emoções humanas.

Na temporada final apareceram vários personagens bizarros como o humano pré-histórico “Malak” (Richard Kiel), a criatura mitológica “Medusa” (Marion Thompson), com serpentes na cabeça e que vive no “Jardim da Eternidade” (talvez o episódio mais extravagante de toda a série), e o monstro peludo “Konak”, um “Abominável Homem das Neves” que vive nas “Terras Altas”.

Além dos que vieram de outras dimensões e tempos como o baloeiro explorador “Coronel Roscoe T. Post” (David Healy), vindo de 1920, o consertador “William Blandings” (Laurie Main), cuja missão era reparar erros cometidos no passado que poderiam alterar o futuro, o espírito amaldiçoado do “Capitão Ruben Van de Meer” (Rex Holman) de um navio fantasma, inspirado na lenda do “Holandês Voador” (outro episódio extremamente bizarro), um índio pajé chamado “Lobo Solitário” (Ned Romero), que veio de 1877 e é perseguido por um soldado, o “Capitão Elmo Diggs” (Gregory Walcott), entre outros.

 

“O Elo Perdido” seguiu os passos de várias outras séries e também virou franquia inspirando a produção de outra série similar em 1991/1992 e um filme homônimo em 2009, desnecessário e entediante, dirigido por Brad Silberling e com o comediante Will Ferrell.

Em 2019, a “Editora Estronho” lançou o livro “A Família Marshall e o Elo Perdido”, de Saulo Adami, com informações de bastidores da cultuada série.

 

(RR – 17/11/23)








Monster From Green Hell (EUA, 1957, PB)

 


 

“Esta é a Era do Foguete, o jato, energia atômica. Quando o Homem se prepara para alcançar as estrelas. Mas, antes que Ele ouse lançar-se ao espaço, há uma ótima pergunta a ser respondida: O que acontece com a vida no vazio sem ar acima da atmosfera da Terra? A vida permanecerá intocada, ilesa por seu voo no espaço, ou vai se transformar em quê? Havia apenas uma maneira de descobrir, e estávamos trabalhando nisso.” – cientista Dr. Quent Brady

 

Com esse prólogo narrado tem início “Monster From Green Hell” (1957), título sonoro e sensacionalista para mais um filme com elementos de Ficção Científica e Horror típico do divertido e extravagante cinema fantástico de baixo orçamento dos anos 50 do século passado. Com a temática de “monstros gigantes”, mais especificamente “big bug”, apresentando um inseto colossal, uma vespa mutante contaminada por radiação cósmica, e também flertando de forma um pouco mais sutil com o subgênero “cientista louco”, através de experiências envolvendo animais lançados em foguetes ao espaço para testar a sobrevivência num ambiente desconhecido, como informa a narração de abertura.

Dirigido por Kenneth G. Crane e fotografia original em preto e branco, está disponível no “Youtube” com a opção de legendas em português e também em versão colorizada por computador.

 

Os cientistas americanos Dr. Quent Brady (Jim Davis) e Dan Morgan (Robert Griffin) estão trabalhando num projeto para estudar os efeitos da radiação cósmica em animais enviados ao espaço, como macacos, vespas, caranguejos e aranhas. O objetivo é tentar assegurar a sobrevivência saudável de humanos astronautas num programa espacial pioneiro. Depois que eles perdem o controle de um dos foguetes que caiu no continente africano, e com a notícia de um inseto gigante instaurando pânico nos nativos com mortes causadas por grandes doses de veneno nas vítimas, os cientistas decidem realizar uma expedição para uma região inóspita conhecida como “Inferno Verde” (do título original) para investigar.

Auxiliados pelo experiente guia árabe Mahri (Eduardo Ciannelli), eles desejam chegar até o hospital comunitário do Dr. Lorentz (Vladimir Sokoloff), que cuida dos nativos supersticiosos. Ele trabalha com sua filha Lorna (Barbara Turner) e recebe o apoio fiel de um líder local, Arobi (Joel Fluellen).

A expedição enfrenta muitas dificuldades no caminho, com forte calor, excesso de chuvas e ataques de nativos hostis, e após localizarem o acampamento do Dr. Lorentz, eles partem em busca do monstro gigante, próximo de um vulcão ativo, culminando num confronto decisivo. 

 

Numa época com simulação de computadores gigantescos, “Monster From Green Hell” é um daqueles filmes toscos e divertidos justamente pela história exagerada abordando a paranoia nuclear que se estabeleceu após o fim da Segunda Guerra Mundial e início da guerra fria entre EUA e URSS. Um período de medo das consequências do uso de energia atômica e a possibilidade de seus efeitos destrutivos sobre o planeta e a humanidade, na pressão da corrida pela exploração espacial e da disputa armamentista das grandes potências para a criação de bombas de destruição em massa.

O filme é bem curto, com apenas 70 minutos, e boa parte dessa duração ainda é preenchida por imagens de arquivo, com aproveitamento de cenas de outros filmes. Com orçamento reduzido, os efeitos práticos são bem precários, mas divertidos, com os ataques da vespa gigante, numa época sem as facilidades da computação gráfica, e que infelizmente aparece pouco (fato comum nos filmes bagaceiros do período), justamente pelas dificuldades técnicas. Para simular o inseto gigante foram utilizadas maquetes toscas da vespa em tamanho descomunal, ou filmagens em “stop motion” de miniaturas, como no caso de um confronto da vespa com uma cobra.    

 

(RR – 14/11/23)