O Morcego Diabólico (The Devil Bat, EUA, 1940, PB)


“Todos em Heathville adoravam Paul Carruthers, o gentil médico do vilarejo. Ninguém suspeitava que no seu laboratório doméstico, numa encosta com vista para a magnífica propriedade de Martin Heath, o médico encontrava tempo para realizar certas experiências privadas - experiências estranhas e aterradoras.”

 

O húngaro Bela Lugosi foi um dos atores ícones do cinema de horror e ficção científica principalmente nas décadas de 1930 e 1940, ao lado de Boris Karloff, muitas vezes interpretando o papel de “cientista louco” em filmes de pequenos orçamentos e muita diversão. Em 1940 ele liderou o elenco de “O Morcego Diabólico” (The Devil Bat), dirigido por Jean Yarbrough e originalmente com fotografia em preto e branco e duração curta com apenas 68 minutos. Com roteiro de John T. Neville e George Bricker, traz uma história básica de cientista vingativo envolvido em experiências bizarras com a criação de morcegos gigantes assassinos.

 

Numa pequena cidade o cientista Dr. Paul Carruthers (Lugosi) trabalha para uma lucrativa empresa de cosméticos. Enquanto ele desenvolve os novos produtos para comercialização, seus empregadores ficam ricos com os altos ganhos de suas pesquisas e criações. Uma vez descontente com essa situação, ele decide realizar experiências na estimulação glandular de morcegos, utilizando energia elétrica, transformando-os em criaturas gigantes que ficam agressivas e mortais quando em contato com a fragrância de uma determinada loção pós-barba. O cientista então utiliza morcegos diabólicos (do título) para colocar em prática um plano de vingança contra as famílias de seus patrões, incluindo os patriarcas Martin Heath (Edmund Mortimer) e Henry Morton (Guy Usher), além de seus filhos Mary (Suzanne Kaaren), Roy (John Ellis) e Tommy Heath (Alan Baldwin), e Don Morton (Gene O´Donnell).

Os assassinatos violentos despertam a atenção da polícia, com o xerife Wilkins (Hal Price), e da imprensa sensacionalista, através do jornalista investigativo Johnny Layton (Dave O´Brien) e seu assistente, o fotógrafo McGuire (Donald Kerr), que tentam descobrir a autoria das mortes misteriosas e a conexão entre as vítimas e a aparição de um morcego imenso nas cenas dos crimes. 

 

Produzido pela “PRC” (“Producers Releasing Corporation”), “O Morcego Diabólico” está disponível no “Youtube” numa versão colorizada por computador e cópia de ótima qualidade, com a opção de legendas em português. No Brasil, como já é de costume a péssima escolha dos nomes dos filmes lançados por aqui, a película também recebeu o título “A Volta de Drácula”, numa jogada oportunista de marketing utilizando a imagem de Bela Lugosi, que foi o vampiro homônimo no clássico “Drácula” (1931), da produtora “Universal”.

Com baixo orçamento e recursos modestos, a história é bem simples e os efeitos práticos nas cenas de ataques do morcego gigante são extremamente toscos e por isso mesmo divertidos. Tem também o laboratório com aparelhos elétricos bizarros projetados por Kenneth Strickfaden, os mesmos vistos no icônico “Frankenstein” (1931), com Boris Karloff interpretando o monstro feito de pedaços de cadáveres.

Porém, o grande diferencial que certamente destaca o filme separando-o do limbo onde estão perdidos dezenas de filmes comuns e similares é a presença ilustre de Bela Lugosi, sempre muito convincente como vilão, especialmente como “cientista louco” com suas “experiências estranhas e aterradoras” (como descrito no texto de abertura, reproduzido por curiosidade no início desse texto).

Diversão rápida e garantida para os fãs do ator e apreciadores em geral dos antigos filmes baratos de horror com elementos de ficção científica, “O Morcego Diabólico” ganhou uma continuação sem a presença de Lugosi, “Devil´s Bat Daughter” (1946), e outra lançada bem mais tarde, “Revenge of the Devil Bat” (2020), que é mais considerada como uma homenagem ao filme original.


(RR – 06/09/23)


Battle Beyond the Sun (Nebo Zovyot, URSS / EUA, 1959 / 1962)

 


“Nos anos seguintes a grande guerra nuclear, quase toda a população desapareceu sobre a Terra devastada. Aqueles que sobreviveram à tragédia, esperavam por uma nova vida, um novo futuro. Mas o mundo estava novamente dividido. Desta vez, foram erguidas novas fronteiras. O mundo estava dividido em duas partes. As duas potências foram chamadas de poderes: Hemisfério Norte e Hemisfério Sul.”

 

Em 1959 a antiga União Soviética lançou o filme de ficção científica “Nebo Zovyot”, dirigido por Aleksandr Kozyr e Mikhail Karyukov. A produtora americana “American International”, de Roger Corman, como sempre atenta em oportunidades de gerar lucros, comprou os direitos do filme russo e fez a sua versão em 1962 com o título “Battle Beyond the Sun”, sob a responsabilidade de Francis Ford Coppola (o cultuado diretor da trilogia “O Poderoso Chefão” e de “Apocalypse Now” começou a carreira na equipe de Corman), utilizando o pseudônimo Thomas Colchart. Dublando em inglês reduzindo o tempo original passando para apenas 64 minutos de duração, alterando alguns diálogos, especialmente questões relacionadas aos soviéticos, e acrescentando algumas cenas novas, como a luta entre dois monstros fuleiros de exploração, simulando genitálias masculina e feminina, no melhor estilo do cinema de horror divertido e bagaceiro de Roger Corman.

 

Ambientado em 1997, um futuro distante para a época da produção, após a inevitável destruição do planeta com bombas atômicas, conforme informa a introdução narrada e reproduzida parcialmente no início desse texto, o novo mundo pós-apocalipse continua dividido em dois grandes países, o do Norte e o do Sul. As viagens espaciais com foguetes já são corriqueiras e a humanidade lançou uma estação em órbita da Terra. Mantendo uma rivalidade política entre as duas grandes potências do planeta, o foco agora é uma corrida espacial para chegar em Marte, o fascinante e ainda desconhecido planeta vermelho.

Enquanto o Hemisfério Sul saiu na frente, num projeto liderado pelo cientista Dr. Albert Gordon (Ivan Pereverzev) e o assistente Craig Matthews (Aleksandr Shvorin), que partem para Marte na nave “Mercury”, o Hemisfério Norte tenta reagir com o cientista Dr. Martin (Konstantin Bartashevich) e o Capitão Torrance (Gurgen Tonunts), que viajam no foguete “Typhoon”. Porém, a influência do campo magnético do Sol os direciona a caminho da destruição.

A nave do Sul decide abandonar a missão e parte em socorro dos rivais, e uma vez todos juntos eles são obrigados a aterrissar numa lua de Marte, ficando sem combustível. Outro foguete é enviado em missão de resgate, com o astronauta Paul Clint (Valentin Chernyak), mas ele não imaginaria que teria que enfrentar uma dupla de monstros bizarros.        

 

A versão americana “Battle Beyond the Sun” pode ser encontrada no “Youtube” com a opção de legendas em português. O roteiro explora a tensão da guerra fria entre EUA e URSS num período turbulento com ameaças constantes de bombas de destruição em massa, tanto que a história futurística mostra o mundo depois do apocalipse nuclear e que continua dividido em dois grandes blocos antagônicos.

A narrativa é lenta, fato que sempre incomoda apesar do filme ser curto com pouco mais de uma hora de duração. E o que realmente interessa para os apreciadores do cinema fantástico bagaceiro são os divertidos efeitos práticos dos foguetes viajando pelo espaço exterior, a imensa estação espacial, as enormes bancadas cheias de botões, luzes piscando e mostradores analógicos, e as cenas no asteroide, com o ataque dos monstros fuleiros ao estilo dos filmes baratos de Corman (com direito a um pôster sensacionalista destacando os monstros, mesmo com participação pequena). Os realizadores russos tentaram fazer um filme mais sério, ao contrário de Corman e sua equipe, especialistas em apresentar elementos bagaceiros para agradar os fãs de suas tranqueiras. Os efeitos práticos são bastante toscos e datados quando em comparação com a computação gráfica do cinema moderno, mas são muito eficientes e impressionáveis para a época da produção.   

 

(RR – 30/08/23)







Jesse James Contra a Filha de Frankenstein (Jesse James Meets the Frankenstein´s Daughter, EUA, 1966)

 


“Você não é mais Hank Tracy. Você é Igor. Você entendeu? Igor! Assim você será conhecido. Eu sou Maria Frankenstein. Como eu penso, você vai pensar. Nós somos um. Eu vou comandar. Você vai obedecer. Você viverá tanto quanto eu desejar. Você morrerá quando eu ordenar. Lembre-se, você estará sempre sob o meu controle.” – Dra. Maria Frankenstein para a criatura Igor

 

O cinema bagaceiro de ficção científica e horror tem como características, além dos efeitos práticos precários devido aos orçamentos reduzidos e falta de recursos, os roteiros exagerados no escapismo, repletos de situações improváveis e inverossímeis. Então imaginem uma mistura desses gêneros do cinema fantástico com o “western”, naquilo que podemos chamar de “crossover”, e ainda juntando numa mesma história monstros clássicos do horror e vilões históricos do velho oeste americano. O resultado pode ser conferido na tranqueira com título sonoro “Jesse James Contra a Filha de Frankenstein” (Jesse James Meets the Frankenstein´s Daughter, EUA, 1966), de William Beaudine, disponível no “Youtube” com a opção de legendas em português.

 

A Dra. Maria Frankenstein (a estoniana Narda Onyx), envolvida em experiências sinistras com cobaias humanas, é obrigada a fugir das autoridades de seu país natal, Áustria, juntamente com o irmão bem mais velho Dr. Rudolph (Steven Geray), chegando aos Estados Unidos e se estabelecendo na fronteira com o México numa mansão macabra. A intenção da “cientista louca” é continuar as pesquisas obscuras de sua família, encontrando nas terras isoladas a tranquilidade necessária para seu trabalho científico utilizando os camponeses locais para os testes e a energia elétrica para seus aparelhos com as fortes tempestades que ocorrem regularmente na região.

Sua presença assusta os moradores mexicanos de uma vila próxima, que decidem abandonar o local, mas a bela camponesa Juanita Lopez (a cubana Estelita Rodriguez, em seu último filme, falecendo ainda em 1966) decide ficar para vingar a morte do irmão adolescente, e a cientista ainda precisa lidar com a desaprovação do irmão na continuidade das experiências com a morte recorrente das cobaias.

Em paralelo, o famoso ladrão Jesse James (John Lupton), juntamente com o forte e fiel parceiro Hank Tracy (Cal Bolder), surge na cidade para um roubo de carregamento de dinheiro, e eles são perseguidos pelo xerife McPhee (Jim Davis). Uma vez ferido, o grandalhão Hank é socorrido pela cientista, que aproveita a oportunidade para utilizá-lo em suas experiências com transplante de cérebro, transformando-o em Igor, conforme sua empolgada dissertação reproduzida no início desse texto.

Com a ocorrência de um estranho triângulo amoroso entre Juanita, Jesse James e a Dra. Frankenstein, a ideia é tentar impedir o sucesso das experiências da cientista e evitar mais assassinatos praticados pelo zumbificado Igor.  

  

“Jesse James Contra a Filha de Frankenstein” explora o velho e desgastado clichê sobre “cientistas loucos”, sendo que no caso é uma mulher da ciência, a neta de Frankenstein (evidenciando um erro no título do filme), pegando inspiração no famoso nome e nas experiências macabras com seres humanos, misturando com elementos de western, na ambientação do velho oeste selvagem americano e utilizando um vilão tradicional do gênero, o ladrão Jesse James. O resultado dessa salada toda é mais uma tranqueira que até garante alguma diversão rápida justamente pelos absurdos do roteiro e efeitos práticos toscos.

Tem alguns momentos de horror gótico com a mansão (com o plano geral sendo retratado por uma pintura) e laboratório bizarro (curiosamente são os mesmos instrumentos elétricos dos filmes de Frankenstein da “Universal”, que agora podem ser vistos em cores), além do capacete colorido com eletrodos e a própria “criatura de Frankenstein”, com a cabeça costurada abrigando um cérebro artificial. E tem também a história clichê do velho oeste com a mocinha se apaixonando pelo vilão que é perseguido pelo xerife, num ambiente selvagem onde tudo se resolve com o saque de revólveres.  

O diretor William Beaudine (1892 / 1970), que teve uma carreira imensa com centenas de créditos, também é o responsável por outro filme similar misturando horror com western e personagens clássicos, “Billy the Kid versus Dracula” (1966), com o lendário ator John Carradine no papel do vampiro.

 

(RR – 22/08/23)






Stranger From Venus / The Venusian / Immediate Disaster (EUA / Inglaterra, 1954, PB)

 


“Não tem pulso. Existem duas explicações possíveis para isto; eu estou bêbado ou você está morto.” – Dr. Meinard para o "Estranho de Vênus"

 

Nos anos 1950 foram lançados muitos filmes com elementos de horror e ficção científica abordando a temática de invasão alienígena, na maioria das vezes com intenções hostis e de conquista. Mas também tivemos alguns casos de seres do espaço visitando nosso planeta com objetivos pacíficos, alertando a humanidade dos perigos do uso indevido da energia nuclear para a criação de bombas e armas de destruição em massa, tema que preocupava o mundo após o fim da Segunda Guerra Mundial e início da guerra fria com a corrida armamentista entre Estados Unidos e a antiga União Soviética.

Um exemplo desses filmes com alienígenas pacifistas é “O Monstro da Era Atômica” (The Cosmic Man, 1959), com John Carradine, mas o principal representante é o clássico “O Dia Em Que a Terra Parou” (The Day the Earth Stood Still, 1951), de Robert Wise e com Michael Rennie e Patricia Neal, além do robô Gort, figura emblemática na história do cinema de ficção científica.

Em 1954 foi lançado “Stranger From Venus”, dirigido por Burt Balaban, uma co-produção entre EUA e Inglaterra na mesma ideia e curiosamente também com a atriz Patricia Neal, que tem o nome estampado em destaque no cartaz de divulgação. Também conhecido como “The Venusian” e “Immediate Disaster”, felizmente para os apreciadores das divertidas bagaceiras antigas, o filme está disponível no “Youtube” com a opção de legendas em português, e tanto na versão original em preto e branco quanto na colorizada por computador.

 

Um humanoide do planeta Vênus (o austríaco Helmut Dantine), o “estranho” do título original, aterrissa no interior da Inglaterra e salva a vida de Susan North (Patricia Neal), vítima de um acidente de carro causado justamente pela interferência luminosa da nave extraterrestre. Ele pede hospedagem no pequeno hotel de Tom (Willoughby Gray) e sua filha Gretchen (Marigold Russell). Extremamente misterioso, ele tem a capacidade de ler mentes, curar doenças, falar vários idiomas, afirma não ter um nome nem dinheiro, além da ausência de sinais digitais nos dedos das mãos e ao ser examinado por outro hóspede, o médico Dr. Meinard (Cyril Luckham), acabou gerando a inusitada declaração do início desse texto. Depois de mais ambientado, o venusiano revela que sua missão é de paz e solicita uma reunião com os líderes políticos mundiais para alertar sobre os perigos da fissão nuclear e bombas atômicas.

Um político funcionário do governo inglês, Arthur Walker (Derek Bond), noivo de Susan, é o encarregado de convocar essa reunião. Mas o alienígena é traído pelas autoridades inglesas, numa comissão formada entre outros, pelo militar General (Stanley Van Beers), o jornalista Charles Dixon (Kenneth Edwards) e o cientista (Arthur Young). Eles querem primeiramente se beneficiar com a obtenção de conhecimentos tecnológicos avançados como o sistema de navegação da nave por energia magnética.   

  

 “Stranger From Venus” é curto com apenas uma hora e quinze minutos, e a história concentra-se na ideia de um alerta alienígena sobre a energia nuclear para fins bélicos, colocando em risco a estabilidade da Terra, a continuidade de nossa espécie e a segurança do sistema solar, incluindo Vênus. Sem monstros de olhos esbugalhados e naves espaciais imponentes e conquistadoras, temos apenas uma cena rápida e mais próxima do final com um tradicional disco voador tosco obtido com efeitos práticos divertidos.

Monstros e naves bagaceiras são sempre muito bem-vindos, mas é compreensível que pela escassez de recursos de uma produção de orçamento reduzido, a opção dos realizadores foi priorizar a história de invasão alienígena pacifista, com uma narrativa mais lenta e muitos diálogos. A mensagem do venusiano é totalmente pertinente, avisando dos riscos e consequências perigosas de uma área da ciência ainda desconhecida, num momento conturbado de hostilidade entre nações rivais.      

 

(RR – 15/08/23)





A Torre de Londres (Tower of London, EUA, 1962, PB)

 


“São nossos atos que escurecem o céu, ou o céu que escurece a alma do Homem?

 

Durante o cultuado ciclo de filmes da década de 1960 inspirados em histórias de Edgar Allan Poe, na parceria entre o diretor Roger Corman e o ator Vincent Price, tivemos uma pausa para o lançamento de “A Torre de Londres” (Tower of London, 1962), um horror gótico com fotografia em preto e branco e que está disponível no “Youtube” em versão original com opção de legendas em português.

Dirigido por Roger Corman, produzido por seu irmão Gene Corman e estrelado pelo ícone do horror Vincent Price, é refilmagem de uma produção da “Universal” de 1939 dirigida por Rowland V. Lee e com Basil Rathbone e Boris Karloff, além do próprio Price em outro papel.

 

No século XV, após a morte do Rei da Inglaterra, seu irmão Richard de Gloucester (Vincent Price), um tirano com deformação no ombro, é nomeado Protetor do Reino e auxiliado pelo comparsa de crimes Sir Ratcliffe (Michael Pate), não mede esforços para conquistar o trono do Rei. Para isso, ele planeja eliminar todos que cruzarem seu caminho ou que possam criar algum empecilho para seu objetivo obscuro, incluindo membros de sua própria família como o irmão George, Duque de Clarence (Charles Macaulay), e criados como a jovem Srta. Shore (Sandra Knight).

Para tentar impedir seu sucesso, um grupo une esforços para proteger os herdeiros legítimos do Rei, seus dois filhos pequenos, o Príncipe Richard (Donald Losby) e o sucessor do trono Edward V (Eugene Mazzola). O grupo é formado por Sir Justin (Robert Brown), sua namorada Lady Margaret (Joan Freeman), a rainha (Sarah Selby) e o curandeiro Tyrus (Richard Hale).

Com as mãos sujas de sangue e a consciência atormentada, o desonesto e conspirador Richard de Gloucester vai perdendo lentamente a sanidade ao ser assombrado por visões e vozes dos fantasmas de suas vítimas, que vagando no limbo sem paz, procuram por vingança contra seu perverso algoz.  

  

 “A Torre de Londres” de Roger Corman tem uma inclinação maior para o horror em vez do drama histórico do filme da “Universal”. E logo já sabemos se tratar de mais uma divertida produção de baixo orçamento com as tradicionais características do cinema de Corman. O filme é curto com apenas 79 minutos, e tem o diferencial da presença ilustre de Vincent Price, ator totalmente associado ao gênero com uma vasta e valiosa carreira, principalmente com personagens vilões e com a já reconhecida atuação que o imortalizou na galeria de atores lendários do horror.

A diversão dos fãs de filmes atmosféricos é garantida pelo imponente castelo com câmara de torturas no subsolo, pela família amaldiçoada com atos de traição e assassinatos, além dos fantasmas atormentados assombrando os cantos escuros e a mente perversa do vilão.

Curiosamente, a história tem alguma inspiração no poeta e dramaturgo William Shakespeare, que não foi creditado. E como característica nos filmes de orçamentos reduzidos de Corman, as cenas da batalha de Bosworth foram reaproveitadas do filme de 1939.

 

(RR – 08/08/23)






O Monstro da Era Atômica (The Cosmic Man, EUA, 1959, PB)

 


John Carradine (1906 / 1988) é um dos atores do passado cujo nome tem grande associação aos filmes bagaceiros de horror e ficção científica. Seu currículo é imenso (mais de 350 filmes) e está repleto de tranqueiras divertidas. “O Monstro da Era Atômica” (The Cosmic Man, 1959) é uma produção de baixo orçamento da “Allied Artists” com direção de Herbert S. Greene, roteiro de Arthur C. Pierce e fotografia original em preto e branco, que está disponível no “Youtube” com opção de legendas em português. E além da versão original em P&B, tem também uma versão colorizada por computador.

 

Um objeto voador não identificado de formato esférico desperta a atenção dos militares americanos sob o comando do General Knowland (Herbert Lytton), que envia um grupo para investigar o fenômeno, formado principalmente pelo Coronel Matthews (Paul Langton) e o cientista Dr. Karl Sorenson (Bruce Bennett). Ao chegar no local do pouso do objeto de outro mundo, nas montanhas da Califórnia, eles especulam sobre sua origem, eventual tripulação e intenções, estabelecendo visões diferentes e conflitantes entre eles. O militar da Força Aérea está sempre preocupado com a segurança nacional e possibilidade de ataque inimigo, e o astrofísico procura defender a ciência e possibilidades de obter novos conhecimentos com tecnologia de antigravidade.

Da nave esférica surge um alienígena humanoide com poder de camuflagem, o “Homem Cósmico” do título original (John Carradine) com comportamento pacífico, mas que é recebido com hostilidade, obrigando a se refugiar disfarçado numa hospedaria, entrando em contato com Kathy Grant (Angela Greene) e seu filho pequeno, Ken (Scotty Morrow), que anda em cadeira de rodas e gosta de astronomia.  

  

O nome nacional escolhido é bastante oportunista para chamar a atenção do público, explorando o medo do desconhecido com os efeitos das bombas atômicas de destruição em massa, e utilizando algo que não tem no filme: o tal “monstro”. Em seu lugar temos um alienígena humanoide com intenções pacíficas. Curiosamente, no mesmo período, em 1960, foi lançado um filme italiano com o nome internacional “Atom Age Vampire”, lançado em DVD no Brasil como “O Vampiro da Era Atômica”, na Coleção “Lobisomens, Vampiros e Zumbis” Volume 3, da “Revista Digital Showtime”.

“O Monstro da Era Atômica” situa-se dentro da temática de invasão alienígena e paranoia nuclear da guerra fria entre EUA e a antiga URSS, que são ideias muito exploradas principalmente nos filmes bagaceiros de FC com elementos de horror nas décadas de 50 e 60 do século passado, um período de grande tensão no mundo após a Segunda Guerra Mundial. O filme nos remete sutilmente ao clássico “O Dia Em Que a Terra Parou” (1951), ao retratar um alienígena humanoide pacifista sem desejos tiranos de conquista, que é recebido com desconfiança pelos humanos obrigando-se a se esconder, ao contrário do que acontecia com a maioria dos filmes similares, repletos de criaturas do espaço exterior ávidas por tomar posse da Terra com o uso de violência e arrogância com supremacia tecnológica.

É pena que os maiores interesses dos apreciadores do cinema fantástico bagaceiro, ou seja, naves espaciais e monstros toscos, estão ausentes aqui, e temos apenas um objeto voador espacial esférico parecido com uma bola de golfe, com dimensões suficientes para abrigar apenas um alienígena de tamanho próximo de um homem comum. O único diferencial para a infinidade de produções parecidas é a participação do ator John Carradine, mas que não surte grande efeito pois ele aparece pouco e somente depois de metade do filme.     

 

(RR – 26/07/23)






Invasion of the Animal People (Suécia / EUA, 1959, PB)


“Monstros caminham pela Terra em uma fúria arrebatadora de garras! Gigantes de todos os tempos correm enlouquecidos em ataques gelados de morte controlados por cérebros alienígenas!”

 

É raro termos algum filme bagaceiro antigo de horror e ficção científica vindo da Suécia, pois a maioria das tranqueiras mais conhecidas daquele período precioso dos anos 50 e 60 do século passado eram produzidas nos Estados Unidos, Inglaterra, Itália ou Espanha, apenas citando alguns com significativa produção de baixo orçamento de cinema de gênero. “Terror in the Midnight Sun” é um filme sueco de 1959 dirigido pelo americano Virgil W. Vogel com fotografia m preto e branco a partir de um roteiro de Arthur C. Pierce e Robert. M. Fresco (não creditado).

O filme ganhou uma versão americana lançada em 1962 com o título alterado para “Invasion of the Animal People”, através do distribuidor Jerry Warren, com a eliminação de algumas cenas do original sueco e o acréscimo de outras novas com um início inteiramente diferente, além de principalmente a inclusão de um narrador na tela, interpretado pelo lendário ator John Carradine, numa clara jogada oportunista de marketing. Essa versão, que ficou com 81 minutos de duração, está disponível no “Youtube” com a opção de legendas em português.  

  

A americana patinadora de gelo Diane Wilson (Barbara Wilson) vai parar num hospital após um surto psicótico ao acordar de um pesadelo e sair correndo desenfreada pelas ruas, numa atitude inusitada que poderia ter alguma conexão com o aparecimento de luzes misteriosas de um objeto voador não identificado. Uma vez sob cuidados de médicos psiquiatras que tentam entender o seu problema, as ações se voltam para um flashback na Europa, onde ela está com seu tio, o famoso geólogo Dr. Frederick Wilson (Robert Burton). Ele é convocado, juntamente com outro geólogo mais jovem e especialista em geleiras, Erik Engström (o sueco Esten Gester), para investigar um misterioso meteoro que caiu numa região montanhosa gelada em Lapland, na Suécia.

Eles lideram uma expedição até o local da queda e descobrem que o meteoro é na verdade uma nave espacial alienígena e os invasores de outro mundo libertam um monstro bípede peludo de 6 metros de altura (interpretado por Lars Ahrén), que sequestra a jovem Diane causando grande destruição por onde passa, incluindo o avião dos geólogos e aldeias de nativos locais, que se reagrupam para combater o monstro em busca de vingança e para tentar salvar a moça.

  

“Invasion of the Animal People” é mais uma tranqueira com alienígenas e um monstro gigante. É claro que o filme possui muitos problemas e não é pelo fato de ser uma produção paupérrima com efeitos toscos, mas sim pela história arrastada e que demora demais para mostrar o que realmente interessa: os extraterrestres invasores e o monstro assassino. Somente depois de mais da metade do filme, após muita enrolação, é que surge discretamente um alienígena dentro da nave confundida com meteoro, e mais próximo do final aparece o monstro, similar a um “Yeti” das montanhas geladas, destruindo tudo pela frente, sob o comando dos alienígenas, que infelizmente aparecem pouco em cena.

Apesar da narrativa lenta com uma história sem grandes interesses, vale a pena esperar pelo terceiro ato onde finalmente os apreciadores do cinema bagaceiro de horror e ficção científica do passado poderão ser recompensados pela tão aguardada diversão com as ações do monstro.

Como característica comum nesses filmes, as “taglines” são sensacionalistas, como no exemplo reproduzido no início desse texto. Também os cartazes de divulgação possuem ilustrações coloridas exageradas para chamar a atenção do público. Num desses cartazes apelativos temos uma moça com roupas rasgadas no meio de monstros, sendo que no filme só tem um único monstro (por óbvias razões orçamentárias), além da mocinha estar sempre bem vestida (coerente com o ambiente de frio intenso). Já em outro pôster promocional temos estampado o rosto de John Carradine, sendo que ele é apenas um narrador que foi acrescentado na versão americana.        

 

(RR – 12/07/23)