Jasão e os Argonautas / Jasão e o Velo de Ouro (Jason and the Argonauts, EUA / Inglaterra, 1963)



“Jasão e os Argonautas” (Jason and the Argonauts, 1963), que também é conhecido no Brasil como “Jasão e o Velo de Ouro”, título que recebeu quando foi exibido na televisão, é um daqueles filmes antigos de puro entretenimento que passavam na saudosa “Sessão da Tarde” da TV Globo. Na época em que eram exibidas preciosidades do cinema fantástico como “O Planeta dos Macacos” (1968), “Viagem Fantástica” (1966), “Robur, o Conquistador do Mundo” (1961), “Destino: Lua” (1951), “Jornada ao Centro do Tempo” (1968), “Viagem ao Centro da Terra” (1959), entre outras.
Com direção de Don Chaffey e co-produção entre Estados Unidos e Inglaterra, o filme é muito conhecido entre os apreciadores do cinema fantástico do passado, principalmente por causa dos excepcionais efeitos especiais de Ray Harryhausen (1920 / 2013), um mestre na concepção de criaturas que ganham vida com a técnica de “stop motion”.
Na divertida história inspirada na mitologia grega, Jasão (Todd Armstrong), é o herdeiro do trono de Tessália, e pretende assumir o seu posto vinte anos depois que seu pai foi assassinado e o reino tomado por Pelias (Douglas Wilmer). Porém, Jasão acaba participando de um jogo manipulado pelos deuses do Olimpo, Zeus (Niall MacGinnis) e Hera (Honor Blackman), e reúne um grupo de guerreiros gregos que partem num navio de guerra para o fim do mundo. O objetivo é se apossar de um valioso artefato, o “Velo de Ouro” do título alternativo, um presente dos deuses para o reino de Cólquida, e que garante paz e prosperidade para o povo que o possuir.
No tortuoso caminho, Jasão e os argonautas, os tripulantes da nau “Argos” (mesmo nome de seu proprietário, interpretado por Laurence Naismith), recebem a ajuda limitada de Hera, a rainha dos deuses, e enfrentam grandes perigos que ameaçam suas vidas. Incluindo um gigante de bronze (“Talos”), guardião dos tesouros dos deuses numa ilha escondida; demônios alados (“harpias”), que atormentam um velho cego, Hermes (Michael Gwynn), que sabe como chegar ao destino final da expedição; um desmoronamento mortal na passagem do navio por um estreito das “Rochas Estrondosas”; um monstro de sete cabeças (“hidra”), que protege o “velo de ouro” de saqueadores; e finalmente um grupo de esqueletos guerreiros invocados do mundo dos mortos por vingança pelo rei Aeetes (Jack Gwillim).
Além ainda de enfrentar a traição de Acastus (Gary Raymond), filho de Pelias, infiltrado na expedição. Mas, para compensar a imensa quantidade de desafios mortais em sua jornada, Jasão encontra a bela Medea (Nancy Kovack), resgatada de um naufrágio e que o ajudou na localização do desejado “velo de ouro”.          
“Jasão e os Argonautas” é um clássico “B” da Fantasia com elementos de Horror, com uma história extremamente divertida e sem compromisso com a realidade, um mergulho no escapismo que traz a simples satisfação do entretenimento. Mas, o que principalmente faz do filme algo que fica guardado num lugar especial na memória, se destacando de tantos outros similares, são as criaturas animadas pelo mestre em “stop motion” Ray Harryhausen. Os efeitos de qualidade impecável são obtidos com um trabalho árduo na captação dos movimentos quadro a quadro da miniaturas dos monstros, com um resultado impressionante para a época da produção, e que desperta admiração até hoje. Particularmente, acho essa técnica mais interessante que os efeitos do cinema moderno com imagens geradas por computador, que muitas vezes soam tão artificiais que depreciam os filmes.
Um destaque certamente é a fascinante batalha de três argonautas com um pequeno exército de sete esqueletos criados em “stop motion”, sendo um dos melhores trabalhos de toda a bem sucedida carreira de Ray Harryhausen. Essa sequência serviu de inspiração para os esqueletos de “Uma Noite Alucinante 3” (1992), terceiro filme da trilogia “Evil Dead”, de Sam Raimi.
Seguem algumas pequenas curiosidades. O filme teve um final aberto, com um gancho para a continuação que não aconteceu. Com o fim da perigosa jornada de Jasão, surgiu uma vasta variedade de possibilidades para o herói, infelizmente não exploradas. O ator Todd Armstrong (1937 / 1992), que interpretou Jasão, teve uma carreira curta e “Jasão e os Argonautas” foi seu único trabalho relevante. Sua parceira em cena, Nancy Kovack, que fez a mocinha Medea, aparece pouco, somente a partir do último ato, apesar de seu nome figurar em destaque nos créditos.    

(RR – 10/06/20)












O Parque Macabro / Carnaval de Almas (Carnival of Souls, EUA, 1962, PB)



“Ela era uma estranha entre os vivos”

Os filmes que exploram fantasmas com um horror mais sutil e psicológico normalmente despertam grande interesse. “O Parque Macabro” (Carnival of Souls, 1962), de Herk Harvey, com roteiro de John Clifford, fotografia em preto e branco e produção de baixo orçamento, é um exemplo bem sucedido dentro dessa ideia. Com uma história sobrenatural no estilo típico da nostálgica série de TV “Além da Imaginação” (1959 / 1964), um pouco mais esticada para se enquadrar como um filme de longa- metragem.
A organista profissional Mary Henry (Candace Hilligoss) sofre um acidente traumático de carro numa ponte, com o veículo mergulhando nas águas escuras de um rio. Ela sobrevive misteriosamente, aparecendo desorientada nas margens. Ao receber o convite de um padre (Art Ellison) para tocar órgão numa igreja em outra cidade, ela viaja até o local. No caminho, visualiza perto da estrada um pavilhão abandonado, que no passado foi um movimentado balneário turístico e parque de diversões. De aspecto macabro e sombrio, o parque falido desperta na jovem um estranho fascínio, principalmente depois que ela é atormentada regularmente por alucinações e visões de um fantasma (o próprio diretor Herk Harvey, maquiado como um zumbi e não creditado), que parece querer se comunicar com ela e resolver alguma pendência entre o mundo dos vivos e mortos.
Mary é antissocial e reclusa, e se hospeda numa pensão de propriedade da Sra. Thomas (Frances Feist), onde conhece o jovem galanteador John Linden (Sidney Berger), que tenta conquistá-la sem muito sucesso. Ela recebe também conselhos de um médico, Dr. Samuels (Stan Levitt), sobre sua constante confusão mental talvez relacionada com o stress causado pelo acidente de carro. Mas, a mulher perturbada por fantasmas e obcecada pelo pavilhão abandonado precisa entender as visões sinistras que a assombram, e tenta de forma obstinada descobrir a relação entre o “parque macabro” e seus próprios demônios internos.
“O Parque Macabro” é aquele tipo de filme de horror sugerido, sem violência ou sangue, e apenas com visões oníricas sombrias e alucinações perturbadoras de fantasmas de pessoas que não fazem mais parte desse mundo. Com maquiagem simples, mas eficiente, todas as cenas com os zumbis perseguindo Mary são antológicas e carregadas de horror psicológico.
O filme é indicado para os apreciadores do cinema de horror com atmosfera desconfortável e sobrenatural, sem as barulheiras e correrias de histórias com fluxo narrativo acelerado e que cansam o espectador justamente por esses excessos.      
O diretor Herk Harvey (1924 / 1996) tem um currículo extenso, mas ficou mesmo conhecido através da grande repercussão ao explorar a temática do horror psicológico em “O Parque Macabro”. Ele revelou que, apesar de satisfeito com o sucesso desse filme, acharia mais justo ser reconhecido pelo conjunto de sua obra fora da temática, com muita experiência em centenas de filmes na área educacional, industrial e documentários.
Curiosamente, o filme ganhou dois títulos no Brasil, o oportunista “O Parque Macabro”, com a utilização de um adjetivo com forte ligação com o horror, e depois o correto “Carnaval de Almas”, uma tradução literal do original. Tem também uma versão disponível colorizada por computador e ganhou uma refilmagem lançada em 1998, dirigida por Adam Grossman.
Foi lançado em DVD por aqui com o nome “Carnaval de Almas”, pela “Versátil Home Video”, na Coleção “Obras-Primas do Terror – Volume 3”.

(RR – 27/05/20)





The Creeping Terror (EUA, 1964, PB)



No cinema fantástico bagaceiro temos uma infinidade de filmes extremamente ruins e mal feitos de forma não proposital, ou seja, o baixo orçamento e os recursos mínimos de produção resultaram em porcarias colossais que divertem (a maioria delas) justamente por esses motivos, com histórias óbvias e banais, elenco amador e patético, e efeitos tão toscos e paupérrimos que tornam-se hilários. E por isso essas tranqueiras têm uma legião de fãs e apreciadores do estilo. Uma dessas tralhas inacreditáveis é o filme americano “The Creeping Terror” (1964), com fotografia em preto e branco, dirigido, produzido e editado por A. J. Nelson, que também atuou com o pseudônimo Vic Savage.
Ele é o jovem xerife Martin Gordon, casado com Brett (Shannon O´Neil), responsável pela manutenção da lei e ordem numa pequena cidade americana, junto com o assistente Barney (Norman Boone). A calmaria do lugar muda drasticamente depois que um objeto voador não identificado cai numa floresta próxima, despertando a atenção do exército, sob o comando do Coronel James Caldwell (John Caresio).
Após descobrirem que se trata do pouso de uma nave espacial (usando a imagem real de um foguete decolando, mas num efeito reverso), é convocado o cientista Dr. Bradford (William Thourlby) para assumir o comando da investigação, ocultando as informações secretas do público após encontrarem uma criatura alienígenas monstruosa dentro da nave, presa nas ferragens. O objetivo do cientista é estudar o foguete extraterrestre, sua desconhecida liga metálica e tecnologia avançada, além de tentar comunicação com seus ocupantes.
Porém, outro alienígena, um monstro grotesco rastejante parecendo uma lesma gigante, conseguiu sair da nave logo após a aterrissagem, espalhando o horror na floresta e cidadezinha, devorando as pessoas em seu caminho, obrigando o cientista a unir forças com o xerife local e o exército para tentar deter a ameaça da criatura espacial.
“The Creeping Terror” certamente faz parte da galeria dos piores filmes de horror e ficção científica da história do cinema bagaceiro. Porém, é divertido se desconsiderarmos a história clichê e descartável resumida numa nave espacial que chega à Terra com criaturas monstruosas que engolem gente, para absorver as características dos humanos e enviar as informações para seu planeta preparar uma eventual invasão. E se também esquecermos a produção paupérrima e elenco péssimo de atores incapazes de interpretar os personagens rasos do roteiro. A diversão é garantida exclusivamente pela presença do monstro rastejante do título, que felizmente aparece em várias cenas com seus movimentos lentos à procura da carne de suas vítimas.
O ideal seria que o filme tivesse uma metragem menor (apesar de já ser curto, com apenas 77 minutos), retirando um monte de cenas desnecessárias, como o relacionamento de casal entre o xerife e sua jovem esposa, as reuniões descartáveis entre a polícia, o exército e o cientista (todos completamente incompetentes para lidar com a situação), e o excesso de tempo perdido num baile com as pessoas dançando (e prestes a virar comida de lesma), deixando apenas os momentos com a criatura, numa compilação dos ataques do monstro engolindo as pessoas.
Aliás, o bicho do espaço está entre os mais toscos e hilários já vistos nos filmes bagaceiros, filmado de longe para esconder os defeitos, parecendo um fantoche gigante de dragão chinês ou uma alegoria pobre de carnaval, feita com retalhos de panos e tapetes rastejando pelo chão, com pedaços de mangueiras na cabeça e várias pessoas escondidas por baixo da fantasia para realizar seus pesados movimentos. Totalmente bizarro e divertido.
As cenas de ataques do monstro são hilárias, e merecem registro o momento onde um homem se defende da criatura com golpes de violão, e a carnificina no salão de festas, com a lesma espacial se rastejando de forma extremamente lenta e ainda assim conseguindo devorar várias pessoas incompetentes para fugir.
A nave espacial pousada na floresta nunca é mostrada por inteiro, devido às dificuldades de orçamento da produção, com seu interior repleto de painéis com interruptores e mostradores analógicos, simulando uma tecnologia “avançada” de outro mundo, um clichê sempre explorado nesses filmes bagaceiros de invasão alienígena.
Sem contar que o filme tem uma narração maçante (de Larry Burrell, não creditado) que fica explicando as ações dos personagens durante a maior parte do tempo, num recurso irritante para driblar a falta de dinheiro para a captação do som.
Em 2014 foi lançado um documentário chamado “The Creeping Behind the Camera”, escrito e dirigido por Pete Schuermann, com os bastidores do filme e biografia do polêmico diretor A. J. Nelson (ou Vic Savage), conhecido por condutas condenáveis. 

(Juvenatrix – 24/05/20)




O Zumbi (The Ghoul, Inglaterra, 1933, PB)



O ator inglês Boris Karloff (1887 / 1969) é um dos ícones do Horror e Ficção Científica, com seu nome eternizado na história do cinema fantástico, mais lembrado por sua caracterização do “monstro de Frankenstein” nos filmes da produtora americana “Universal”, além de outros vilões e “cientistas loucos”. Em 1933 ele fez seu primeiro filme inglês, “O Zumbi” (The Ghoul), cuja história utiliza elementos que exploram o universo ficcional das lendas, mistérios, poderes pagãos e maldições da mitologia egípcia.
 Com direção de T. Hayes Hunter, na história o Prof. Henry Morlant (Boris Karloff) é um rico egiptólogo, excêntrico e recluso em sua imensa casa gótica. Ele gastou boa parte de sua fortuna comprando uma misteriosa joia chamada “Luz Eterna”, roubada no Egito pelo mercenário Aga Ben Dragore (Harold Huth). O precioso artefato tem o poder da imortalidade, quando utilizado num ritual com a estátua sagrada do deus Anúbis. Uma vez gravemente doente e imobilizado na cama, o Prof. Morlant orienta seu fiel mordomo Laing (Ernest Thesiger) para enfaixar a joia em sua mão, para que depois pudesse reviver após o sepultamento numa cripta sinistra ao lado de sua casa, com sua tumba sendo iluminada numa noite de lua cheia.
Porém, a joia desaparece e o bizarro Prof. Morlant retorna dos mortos, desfigurado e com a mente distorcida pelo ódio, como um zumbi assassino em busca de vingança contra várias pessoas que estão em sua casa. O grupo é formado por seus sobrinhos Ralph Morlant (Anthony Bushell) e Betty Harlon (Dorothy Hyson), que vieram em busca da herança do tio falecido, além do ganancioso advogado da família, Sr. Broughton (Cedric Hardwicke), de um padre charlatão, Nigel Hartley (Ralph Richardson), do já citado ladrão sofisticado Dragore, e da irritante assistente da Srta. Harlon, Kaney (Kathleen Harrison), responsável por um desnecessário alívio cômico na trama.
“O Zumbi” é o primeiro filme inglês de horror da era do cinema sonoro, que ficou perdido por muitos anos e felizmente foi encontrado e restaurado. Tem fotografia em preto e branco e pouco mais de 70 minutos de duração. Sua narrativa é lenta, característica comum para a época da produção, e o roteiro tem furos e situações que não se encaixam, diminuindo inevitavelmente o interesse nos momentos arrastados sem a presença de Boris Karloff.
Mas, ainda assim, é recomendado para os apreciadores de filmes góticos e fãs do grande ator de “Frankenstein”. Temos aquela tradicional atmosfera sombria no casarão antigo e decrépito, repleto de aposentos escuros iluminados por velas. Karloff fala pouco, apenas na sequência de abertura, doente numa cama, e também não aparece tanto quanto gostaríamos. Mas, ele sempre rouba as cenas quando surge das sombras, estando bem à vontade num dos papéis que costuma fazer com maestria, o assassino que volta do mundo dos mortos para matar todos em seu caminho, na busca da joia egípcia com o poder da vida eterna.
Curiosamente, o filme também é conhecido por aqui como “Dragore”, uma péssima escolha de título nacional, pois é apenas o nome do ladrão que roubou a joia egípcia e vendeu para o Prof. Morlant, tentando recuperá-la novamente, e o grande vilão é o Prof. Morlant, que voltou dos mortos como um zumbi perturbado, assassino e vingativo. Além desse nome, o site “IMDB” (imenso banco de dados sobre filmes) também informa outro título alternativo brasileiro ainda mais ridículo, “Dragore, o Fantasma”.
O filme ganhou uma refilmagem inglesa em 1961 conhecida pelos títulos “No Place Like Homicide!” ou “What a Carve Up!”, com elementos de humor negro.

(Juvenatrix – 22/05/20)








Re-Juvenator (The Rejuvenator / Rejuvenatrix, EUA, 1988)


O fanzine de Horror e Ficção Científica “Juvenatrix” foi criado em Janeiro de 1991 (com mais de 200 edições e 5000 páginas já publicadas) e teve seu nome inspirado num filme americano obscuro e bagaceiro de 1988, lançado em vídeo VHS por aqui pela “Taipan Video” como “Re-Juvenator”. Com direção de Brian Thomas Jones, cineasta desconhecido com um currículo pequeno, e roteiro dele em parceria com Simon Nuchtern.
Uma atriz veterana e rica, Ruth Warren (Jessica Dublin), está depressiva pelo declínio de sua carreira, não recebendo mais convites para atuar em grandes filmes. Ele decide então patrocinar as pesquisas científicas do Dr. Gregory Ashton (John MacKay), que é auxiliado pela assistente Dra. Stella Stone (Katell Pleven). O projeto científico consiste na criação de um soro de rejuvenescimento, cuja fase experimental somente tem testes com animais, e ainda não é seguro para aplicação em seres humanos.
Porém, a atriz em decadência está tão ansiosa para voltar a ter uma nova vida mais jovem, que aceita os riscos e obriga o cientista a testar a fórmula nela mesmo, como cobaia. Depois de uma cirurgia plástica bem sucedida inicialmente, a mulher se transforma em jovem novamente, tanto que até mudou de nome para Elizabeth Warren (Vivian Lanko). E sempre ao seu lado para servi-la, está disponível o fiel mordomo Wilhelm (James Hogue).
Mas, para manter os efeitos do rejuvenescimento, ela precisa ingerir regularmente o tal soro que é obtido através da extração de líquidos dos cérebros de cadáveres, adquiridos ilegalmente pelo cientista. Despertando assim a desconfiança de um colega rival, Dr. Germaine (Marcus Powell), um desafeto que quer denunciá-lo e impedir seu trabalho científico.
Como o processo de rejuvenescimento está sempre se revertendo e a obtenção do soro está cada vez mais difícil, a atriz vai se transformando progressivamente num monstro disforme com a mente distorcida, desenvolvendo um brutal instinto assassino à procura do cérebro de pessoas vivas para a obtenção do soro.
“Re-Juvenator” é o típico filme bagaceiro de horror com elementos de ficção científica dos saudosos anos 80 do século passado, com baixo orçamento, mortes sangrentas e ótimos efeitos especiais com maquiagem “gore” na concepção da criatura mutante gosmenta com voz gutural, sem a utilização de imagens geradas por computador.
A história não tem novidades, porém trata-se de diversão garantida pela combinação de “cientista louco” em busca do bem para a humanidade (o soro da juventude), com “ser humano transformado em monstro” (uma mulher desesperada para voltar a ser jovem), tendo um resultado catastrófico para o projeto científico com uma cobaia humana grotesca assassina, sedenta pelo sangue e faminta pelo cérebro de suas vítimas.  
É verdade que demora um pouco para ocorrer a primeira morte, com quase sessenta minutos, e tudo acontece com mais intensidade no ato final, com o sangue jorrando e o monstro colecionando cadáveres, mas isso não é um problema, pois a história desperta o interesse o tempo inteiro.
O filme foi considerado como uma espécie de refilmagem de “A Mulher Vespa” (The Wasp Woman, 1960), de Roger Corman, pela similaridade da história que se situa dentro dos sub-gêneros do cinema fantástico que exploram “cientistas loucos” e “seres humanos transformados em monstros”.
Entre as curiosidades, a trilha sonora é da banda feminina de rock “Poison Dolly´s” (1986 / 1994), que aparece num show numa boate, e o filme recebeu vários títulos originais como “The Rejuvenator”, “Rejuvenatrix” ou “Juvenatrix – A Classic Tale of Terror”.

(Juvenatrix – 16/05/20)



O Tesouro do OVNI (Top Line, Itália / Colômbia, 1988)


É inegável que boa parte do cinema fantástico bagaceiro italiano é divertido, pois temos uma infinidade de filmes tranqueiras com roteiros repletos de absurdos, para a satisfação dos apreciadores do estilo. Um exemplo disso é a tralha “O Tesouro do OVNI” (Top Line, 1988), já começando pelo título brasileiro no mínimo hilário. É uma co-produção entre Itália e Colômbia (as filmagens ocorreram em Cartagena, na região caribenha do país sul americano) dirigida por Nello Rossati (sob o pseudônimo Ted Archer), e que apesar da grande semelhança com meu sobrenome, não é meu parente.
A história é uma salada misturando elementos de aventura com ficção científica, explorando diversas temas como civilizações perdidas (o ouro dos astecas) com queda de disco voador, passando por robôs assassinos e alienígenas gosmentos hostis que querem invadir nosso planeta, além de conspiração governamental envolvendo o serviço secreto americano (CIA) e russo (KGB). Sem esquecer que a polícia e o exército colombianos são corruptos e ainda tem um nazista colecionador de tesouros.
Para completar, vale citar alguns nomes importantes que agregam muito valor ao elenco, como o ator italiano Franco Nero, com um currículo tão extenso que passa dos 200 filmes, e o veterano americano George Kennedy (1925 / 2016), outro rosto conhecido pela imensa carreira. Depois de tudo isso, dá para imaginar o nível de bizarrice, atiçando a curiosidade para ver o filme.
Um escritor falido e alcoólatra, Ted Angelo (Franco Nero), está na Colômbia pesquisando materiais para um livro sobre a história das civilizações que foram colonizadas pelos espanhóis nos séculos XV e XVI. Depois de ter contato com uma adaga asteca, ele decide procurar mais artefatos preciosos nas montanhas de Cartagena. Ele encontra uma caverna com uma caravela espanhola e uma nave espacial em seu interior, além de muitos objetos de ouro dos astecas.
A partir daí, o escritor aventureiro se envolve numa perigosa rede de intrigas e conspirações, acompanhado da jovem June (Deborah Barrymore), que conheceu depois do assassinato misterioso de seu amigo vendedor de antiguidades Alonso Quintero (William Berger). Eles são perseguidos por mercenários interessados no tesouro e agentes secretos interessados em ocultar a existência do OVNI, enfrentando problemas com sua editora, a ex-esposa americana Maureen De Havilland (Mary Stavin), com um perigoso nazista antiquário, Heinrich Holzmann (George Kennedy), e um robô alienígena assassino (Rodrigo Obregón).  
“O Tesouro do OVNI” é uma produção de baixo orçamento e roteiro hilário de tão ruim. Começa basicamente como um filme comum de aventura tendo o primeiro terço meio arrastado, apesar dos tiroteios e perseguições, e um destaque é a perseguição insana entre jipes numa estrada estreita nas montanhas. Porém, o que realmente irá despertar interesse para os apreciadores do cinema bagaceiro está na metade para o final, onde temos uma maior relevância para os elementos de ficção científica tranqueira, garantindo a diversão com uma grande quantidade de bizarrices. Principalmente com um ciborgue tosco no estilo “Exterminador do Futuro” e um alienígena gosmento (filmado propositalmente com cenas escuras para esconder os defeitos), concebido com aqueles efeitos especiais típicos da década de 80 do século passado, sem o artificial uso de imagens geradas por computador.
O filme foi lançado no Brasil na época dos vídeos VHS, pela VIC e também recebeu o nome alternativo original “Alien Terminator”.

(Juvenatrix – 12/05/20)

 


O Peixe Assassino (Killer Fish, Itália / França / Brasil, 1979)


Entre meados dos anos 70 e 80 do século passado, foram lançados muitos filmes explorando o tema de animais marinhos assassinos, inspirados pelo sucesso comercial de “Tubarão” (Jaws, 1975), de Steven Spielberg. Além da própria franquia criada por esse filme que se tornou um clássico, com três sequências lançadas em 1978, 1983 e 1987, tivemos ainda vários outros filmes como “Orca: A Baleia Assassina” (1977), “Piranha” (1978), “Piranhas 2: Assassinas Voadoras” (1981), “O Último Tubarão” (1981), “O Peixe Assassino” (Killer Fish, 1979), entre outros.
Esse último é uma bagaceira co-produzida pela Itália, França e Brasil, com direção de Antonio Margueriti (sob o pseudônimo Anthony M. Dawson), cineasta responsável por divertidas tranqueiras italianas de ficção científica dos anos 60 como “Destino: Espaço Sideral” e “O Planeta dos Desaparecidos”, lançadas num único DVD por aqui pela “Works Editora” por volta de 2007. As filmagens ocorreram em Angra dos Reis (RJ), e no elenco temos nomes conhecidos do cinema americano como Lee Majors (o ciborgue da nostálgica série de TV “o Homem de Seis Milhões de Dólares”, 1974 / 1978), James Franciscus (“De Volta ao Planeta dos Macacos”, 1970), e Karen Black (“A Casa dos 1000 Corpos”, 2003).
Na história, um grupo de ladrões americanos de joias está no Brasil, formado principalmente por Lasky (Lee Majors) e Kate Neville (Karen Black), além do mentor Paul Diller (James Franciscus), ex-funcionário de uma refinaria de óleo que tem esmeraldas guardadas num cofre. Eles roubam as pedras preciosas após explodirem reservatórios de combustível na usina, aproveitando a confusão do incêndio. Para despistar as autoridades policiais, eles escondem as pedras no fundo de um lago, para retirarem somente depois que os movimentos de busca diminuíssem.
Mas, o lago está repleto de piranhas, causando atritos e desconfiança no grupo de ladrões e espalhando o horror para quem entrasse nessas águas, incluindo um barco de turismo que ficou à deriva depois de enfrentar a fúria de um tornado. O barco estava levando entre seus passageiros uma equipe profissional de sessão de fotos, com o fotógrafo irritante Ollie (Roy Brocksmith), a modelo Gabrielle (Margaux Hemingway) e sua empresária Ann (Marisa Berenson).
“O Peixe Assassino” tem um roteiro muito simples e cheio de clichês, contando uma história banal sobre ladrões de joias, com intrigas e traições entre eles, e com o elemento de horror como pano de fundo através de piranhas assassinas comendo gente num lago (aproveitando a onda no cinema naquele período, explorando criaturas aquáticas carnívoras). O primeiro terço do filme é bastante arrastado, até que finalmente acontece a primeira morte sutil provocada pelas piranhas. Mas, infelizmente elas somente irão sangrar a tela com um pouco de violência mais para o final. Aliás, num total de 100 minutos de projeção, poderia ter uma redução de pelo menos 15 minutos, eliminando vários momentos tediosos sem envolver os peixes assassinos, que certamente são o maior interesse no filme.
Os efeitos especiais são bem toscos, mas garantem alguma diversão com as filmagens utilizando maquetes e miniaturas no desastre da refinaria, e no rompimento de uma barragem por um tornado falso, com uma consequente inundação que espalhou piranhas para todos os lados. Também tem o fato hilário da performance totalmente desinteressada de Lee Majors, um dos principais nomes do elenco, que no meio de cenas que deveriam ser carregadas de tensão, com a ameaça mortal das piranhas, ele parece excessivamente tranquilo e alheio ao perigo, eliminando qualquer credibilidade nos momentos de ataques.  
O filme recebeu também outro título por aqui, “Perigo no Lago”, quando foi exibido na televisão. É uma produção de baixo orçamento com história ambientada no Brasil e tem algumas curiosidades como a menção ao dinheiro da época (final dos anos 70), o cruzeiro, e a aparição no desfecho de um avião comercial da Varig, empresa que controlou boa parte da aviação brasileira e que agora não existe mais. O ator italiano Anthony Steffen (1930 / 2004), conhecido pelas inúmeras participações em filmes do gênero “spaghetti western”, também fez parte do elenco de “O Peixe Assassino”.
Apesar de todos os muitos defeitos, “O Peixe Assassino” ainda vale uma conferida pelas cenas sangrentas com as piranhas e pela curiosidade geral da ambientação da história no Rio de Janeiro.

(Juvenatrix – 07/05/20)