O Monstro do Dr. Orloff (The Invisible Dead, França / Espanha, 1970)

 


Parecendo um filme de horror gótico do cultuado cineasta espanhol Jesús Franco (1930 / 2013) pelas mesmas características de produção de baixo orçamento, roteiro divertido repleto de clichês do estilo e estética geral “exploitation”, mas sendo dirigido pelo diretor francês Pierre Chevalier, “O Monstro do Dr. Orloff” (The Invisible Dead, França / Espanha, 1970) foi lançado em mídia física DVD no Brasil em 2011 pela “Vinny Filmes” na coleção “Clássicos do Terror”, e também está disponível no “Youtube” com áudio em inglês e opção de legendas em português.

O elenco é liderado pelo ator suíço Howard Vernon (1908 / 1996) no papel do tradicional “cientista louco” do título, ele que tem um currículo imenso e é conhecido pelos filmes de horror com pequenos orçamentos. Produzido pela “Eurociné”, o filme faz parte de uma imensa safra de similares conhecidos como “Eurotrash”, filmes europeus de exploração, principalmente das décadas de 1960 e 70, com produções menores e histórias com elementos de horror.

 

O novo médico de um vilarejo, Dr. Garondet (Francis Valladares), é chamado para o castelo do cientista Prof. Orloff (Howard Vernon), por sua filha Cécile (Brigitte Carva), que acredita que seu pai está doente mentalmente devido seu trabalho antinatural e obscuro.

Ele está sempre recluso em seu laboratório, alegando que criou um ser invisível, uma nova raça, uma criatura mista de homem e macaco, superior e com potencial desconhecido que poderia governar a humanidade e dominar a Terra. E que iria utilizar o seu monstro peludo para se vingar dos colegas cientistas que desaprovaram seu trabalho e o humilharam.

O médico é inicialmente mal recebido no castelo por um velho e rude criado (Eugène Berthier) e pela empregada assustada (Evane Hanska), que tem medo e quer fugir do castelo. E depois é recepcionado por Cécile que o apresenta ao pai. O misterioso e frio cientista conta a história de suas pesquisas e um problema de saúde com sua filha que foi considerada morta prematuramente e lacrada num caixão com várias joias da família, despertando a cobiça criminosa do guarda-caça Roland (Fernando Sancho) e seu interesse amoroso Marie (Isabelle del Rio), que enfrentaram a fúria do cientista e de seu monstro invisível, que precisa de sangue humano para sobreviver.    

 

A cópia que tive acesso no “Youtube” tem todas as cenas aleatórias de exploração de nudez das mulheres (Cécile, Marie e a empregada) cobertas com tarjas para não ter problemas com censura.

O roteiro de “O Monstro do Dr. Orloff” é muito simples e despreocupado com lógica, continuidade ou maiores explicações, com os clichês típicos dos filmes bagaceiros de horror gótico. Entre eles, os aldeões assustados que não querem se aproximar do castelo sinistro; um laboratório cheio de equipamentos bizarros e líquidos coloridos borbulhantes; um “cientista louco” ridicularizado pelos colegas e ávido por vingança, com ideias mirabolantes de criação de uma raça superior invisível (aliás, o roteiro nem tenta explicar o processo, o monstro foi apenas criado e fica para o espectador imaginar os detalhes); uma atmosfera sombria nas masmorras e calabouços subterrâneos do castelo; e um monstro com efeitos práticos toscos que é invisível para facilitar nos custos para os produtores, mas que também aparece rapidamente em alguns momentos graças à exposição de um pó branco em seu corpo.

O personagem Dr. Orloff foi criado pelo diretor Jesús Franco e apareceu em vários outros filmes ou nos títulos como “O Terrível Dr. Orloff” (Gritos en la Noche, 1962), “As Amantes do Dr. Jekyll” (El Secreto del Dr. Orloff, 1964), “Les Orgies du Docteur Orloff” (El Enigma del Ataúd, 1967), “Los Ojos Siniestros del Dr. Orloff” (1973) e “El Siniestro Dr. Orloff” (1984).

 

(RR – 07/08/26)




O Dilúvio (Deluge, EUA, 1933, PB)

 


"O DILÚVIO é um conto de fantasia - uma aventura especulativa - uma ilustração épica vívida do voo imaginativo de um autor. Nós, os produtores, o apresentamos agora apenas para seu entretenimento” – Introdução

 

Considerado “perdido” por muitos anos e felizmente recuperado, e considerado um precursor dos filmes de catástrofes e desastres naturais com impressionantes efeitos especiais para a época e história pós-apocalíptica, “O Dilúvio” (Deluge, EUA, 1933), tem direção de Felix E. Feist, fotografia em preto e branco, metragem de apenas 66 minutos, e história baseada em livro de S. Fowler Wright lançado em 1928. Está disponível no “Youtube” com a opção de legendas automáticas em português.

 

O cientista Prof. Carlysle (Edward Van Sloan) descobre estranhas e inexplicáveis variações barométricas no clima mundial que anunciam desastres naturais de grandes proporções e destruição em massa. Uma imensa tempestade obriga os aviões a pousarem o mais rápido possível e terremotos de alta escala começam a ocorrer ao redor do planeta criando tsunamis com ondas gigantescas e um dilúvio catastrófico que invade os Estados Unidos da América (foco do filme), mas também a Europa e outros continentes, num cenário apocalíptico global e prenúncio do fim do mundo.

Após a destruição e inundação de cidades inteiras que afundaram, os sobreviventes tentam se reorganizar novamente em pequenos grupos isolados em ilhas que se formaram com as mudanças geográficas.

A partir daí a história se divide em duas subtramas que se intercalam posteriormente. O advogado Martin Webster (Sidney Blackmer) se separa da família, a esposa Helen (Lois Wilson) e os dois filhos pequenos, Ronnie (Ronnie Cosby) e Marianne (Marianne Edwards), não creditados, após o terremoto que destruiu Nova York. Ele fica isolado num ambiente de desolação onde constrói uma cabana e sem saber da sobrevivência de sua família num assentamento recém-criado e sem leis, liderado por Tom Matt Moore). Em paralelo, a nadadora Claire Arlington (Peggy Shannon) surge em outra ilha próxima e é resgatada por dois homens rudes, Jepson (Fred Kohler) e Norwood (Ralf Harolde), que disputam selvagemente a companhia forçada da mulher.

Claire decide então fugir a nado e é resgatada por Martin, com a convivência entre eles despertando um inevitável envolvimento amoroso, que entra em crise e grande confusão quando Jepson aparece procurando a mulher fugitiva e se unindo com baderneiros da nova cidade onde Martin encontra sua esposa e filhos morando com a segurança de Tom.    

 

O que realmente importa enfatizar como sugestão para conhecer “O Dilúvio” não é a história rasa e sem grandes interesses, com conflitos óbvios e típicos da humanidade num ambiente pós-apocalíptico, com selvageria e luta constante por interesses individuais. Mas, o que vale a pena são os efeitos práticos de destruição com megas terremotos e inundações, impressionantes pelas dificuldades do cinema da época na distante década de 1930. São apenas alguns poucos minutos, porém, significativos na história dos filmes de catástrofes naturais, com cenas de destruição com maquetes de cidades arrasadas, navios arremessados por tsunamis como se fossem brinquedos, e prédios enormes caindo como pedras de um dominó, num trabalho com grande esforço e criatividade, realizado num período com poucos recursos técnicos para os efeitos especiais.  

Curiosamente, o filme esteve perdido por décadas até ser encontrada uma cópia dublada em italiano em 1981 e depois foi feita uma restauração com o áudio original em inglês em 2017.

Também é curioso citar que o “blockbuster” “O Dia Depois de Amanhã” (The Day After Tomorrow, 2004) foi inspirado por “O Dilúvio” na inundação de Nova York com a “Estátua da Liberdade” “afogada” no meio das ondas gigantes do Oceano Atlântico.

 

(RR – 04/08/26)






Os Mortos Falam (The Devil Commands, EUA, 1941, PB)

 


Quando o diabo manda, Karloff obedece...!

O ícone do cinema de horror Boris Karloff (1887 / 1969) ficou eternizado na história por seu papel do “monstro de Frankenstein”. Mas, em sua carreira produtiva com mais de 200 créditos, também se destacam suas performances como o tradicional “cientista louco” que trabalha incansavelmente em descobertas científicas para o bem da humanidade, e que se sente incompreendido pela sociedade com suas criações transformando-se em tragédias. É o caso de “Os Mortos Falam”, filme do distante ano de 1941, dirigido por Edward Dmytryk, produzida pela “Columbia” com fotografia em preto e branco e duração curta de apenas 65 minutos. Uma das taglines promocionais do filme (reproduzida acima) brinca com seu nome original “The Devil Commands” e o apelo comercial do nome de Boris Karloff como astro do Horror, imortalizado para sempre junto com Bela Lugosi, Vincent Price, Peter Cushing, Christopher Lee e outros. 

Karloff é o “cientista louco” Dr. Julian Blair, que faz experiências com ondas cerebrais humanas, e acredita que mesmo após a morte, elas continuam vivas e podem ter seus impulsos gravados numa máquina especial criada por ele, estabelecendo dessa forma um tipo de comunicação com os mortos (dessa ideia deve ter vindo a escolha do título nacional). Ele é auxiliado pelo também cientista Dr. Richard Sayles (Richard Fiske), e juntos trabalham num laboratório repleto de aparelhos elétricos enormes, com botões medidores e alavancas de acionamento para todos os lados. Porém, tudo começa a mudar para pior depois que a amável esposa do Dr. Blair, Helen (Shirley Warde), é vítima fatal de um bizarro acidente de carro nas proximidades do laboratório. Muito perturbado e desorientado por causa da morte repentina da esposa, e com seu trabalho científico desacreditado pelos colegas, o cientista decide se mudar para uma mansão isolada no alto de um penhasco na costa da Nova Inglaterra.
Nesse local sinistro, em meio a tempestades constantes, ele continua suas experiências macabras, influenciado por uma vidente de caráter duvidoso, Sra. Blanche Walters (Anne Revere), que tem interesses obscuros no sucesso dos testes com os cérebros humanos. Também conta com os serviços braçais de Karl (o ator Cy Schindell, creditado como Ralph Penney), um homem bruto e desajeitado que teve o cérebro torrado numa das experiências mal sucedidas do cientista.
Uma vez preocupada com o bem estar e ações misteriosas do pai, a jovem filha do cientista, Anne Blair (Amanda Duff), tenta localizá-lo com a ajuda do Dr. Sayles, para persuadi-lo a interromper seu trabalho suspeito. Enquanto paralelamente o xerife local, Ed Willis (Kenneth MacDonald), está investigando o desaparecimento de cadáveres do cemitério próximo ao laboratório do Dr. Blair, desconfiado de alguma conexão com as bizarras experiências do cientista, cada vez mais temido e indesejável pelos moradores do vilarejo vizinho da mansão.

“Este mago louco mata à vontade a serviço de Satã!” – uma das taglines promocionais do filme

“Os Mortos Falam” é mais uma bagaceira divertida que pertence ao sub-gênero “cientista louco”, com a participação do lendário Boris Karloff, motivo mais que suficiente para o filme se destacar entre a incontável quantidade de produções similares. Temos todos os principais elementos característicos como o laboratório científico exagerado, muito bizarro para a época (quase 80 anos atrás), a mansão no alto de um penhasco à beira do mar, um ambiente extremamente sinistro e apropriado para uma história de horror, e o cientista com boas intenções que foi vítima de uma tragédia pessoal, sendo corrompido pela descrença e obcecado por um objetivo científico com resultados catastróficos. Suas ações suspeitas, resultado da obsessão em se comunicar com a esposa falecida, despertaram a desconfiança das autoridades e a ira cega dos vizinhos, que por temerem o desconhecido, desejavam sua destruição.
O maior destaque, além da atuação convincente de Boris Karloff como o cientista de boas intenções distorcido para “louco”, são as cenas das experiências com os mortos, vestindo armaduras de aço parecidas com trajes espaciais toscos, com seus cérebros conectados uns aos outros, simulando uma única grande rede de ondas cerebrais. Remetendo-nos totalmente ao cinema fantástico bagaceiro, onde o horror e a ficção científica caminham juntos para um resultado bizarro de puro entretenimento.  

“Se a Ciência puder abrir a mente humana, poderá
 descobrir os segredos de cada cérebro humano.”
– Dr. Julian Blair


(RR – 26/06/17)

Mulheres-Gato da Lua (Cat-Women of the Moon, EUA, 1953, PB)

 


"As maravilhas eternas do Espaço e do Tempo. Os sonhos distantes e os mistérios de outros mundos, outras formas de vida, as estrelas, os planetas. O Homem está frente a frente com eles há séculos. É quase impossível desvendar seus segredos desconhecidos. Em algum tempo, em algum dia, essa barreira será rompida. Por que devemos esperar? Por que não agora?”

 

A maioria dos filmes bagaceiros com elementos de horror e ficção científica dos anos 1950 são divertidos pela somatória de características típicas de produções com orçamentos minúsculos como atuações ruins do elenco, efeitos práticos toscos e roteiro ingênuo, com falta de lógica, excessivamente fantasioso e cheio de clichês e principalmente furos absurdos. “Mulheres-Gato da Lua” (Cat-Women of the Moon, EUA, 1953) é um exemplo perfeito que se enquadra nessa ideia, onde apenas pelo título já se imagina o nível de tranqueira.

Com direção de Arthur Hilton, fotografia em preto e branco e metragem de apenas 64 minutos, o filme está em domínio público e disponível no “Youtube” com a opção de legendas automáticas em português.

 

Uma expedição científica com cinco viajantes espaciais num foguete para a Lua é formada por uma tripulação com quatro homens e uma mulher. São eles, o comandante da missão Laird Grainger (Sonny Tufts), o piloto Kip Reissner (Victor Jory), o engenheiro Walt Walters (Douglas Fowley), o operador de rádio Doug Smith (William Phipps) e a navegadora Helen Salinger (Marie Windsor).

Após uma viagem turbulenta que inclui o choque com um meteoro, o foguete é misteriosamente persuadido pela navegadora a pousar no lado sombrio da Lua, e a equipe inicia uma exploração na superfície. Eles entram numa caverna e descobrem a existência de oxigênio, sendo também atacados por aranhas peludas gigantes. Sobrevivendo ao confronto patético, eles encontram uma misteriosa cidade habitada apenas por algumas belas mulheres (do título) e são bem recebidos inicialmente pela líder Alfa (Carol Brewster), além de Beta (Suzanne Alexander) e Lambda (Susan Morrow), entre outras. Elas são as últimas remanescentes de uma civilização subterrânea e antiga de dois milhões de anos que possui poderes telepáticos e que está em processo de extinção pela escassez de oxigênio.

Uma vez desconfiado da estranha sociedade das mulheres selenitas, o destemido piloto Kip decide investigar e descobre a real intenção delas, com um plano de roubar o foguete e fugir para o nosso planeta para uma invasão e conquista da humanidade.

 

O filme recebeu o título original alternativo “Rocket to the Moon” e foi lançado nos cinemas na época em 3D. Os efeitos práticos bagaceiros com o foguete, a cabine de controle e os cenários, além dos figurinos do pequeno elenco foram reciclados em outro filme quase lançado simultaneamente, “Projeto Base Lunar” (Project Moon Base), e também foram reutilizados, assim como a aranha gigante de pelúcia, movimentada por fios “invisíveis”, na refilmagem “Terríveis Monstros da Lua”, também conhecido por aqui como “Míssil Para a Lua” (Missile to the Moon, 1958). A simulação da superfície lunar através da técnica de “matte painting” foi criada por Chesley Bonestell.

O filme é curto e percebe-se claramente uma pressa dos realizadores em finalizar a história no terceiro ato, com a falta de filmagem de cenas que garantiriam uma melhor continuidade e coerência nas ações, principalmente no confronto decisivo entre os viajantes espaciais e as mulheres-gato da Lua pela posse do foguete que retornaria para a Terra.

Curiosamente, alguns atores como Marie Windsor e William Phipps fizeram questão de revelar em entrevistas o quanto consideraram o filme ruim, especialmente o roteiro mirabolante e os efeitos práticos com o ataque das aranhas gigantes.  

    

(RR – 31/07/26)





Ao Cair da Noite (It Comes at Night, EUA, 2017)

 



O triunfo da Morte

O fã de cinema de horror que está procurando diversão escapista, barulheira, correrias desenfreadas, tiroteios, sustos fáceis, sangue em profusão, tripas expostas, monstros em CGI, não irá encontrar no filme “Ao Cair da Noite” (It Comes at Night, 2017), que estreou em circuito comercial restrito nos cinemas brasileiros em 22/06/17, com cópias originais legendadas. Porém, quem aprecia e procura uma história tensa, com constante atmosfera sombria e perturbadora, carregada de paranoia, mistério, pessimismo, com narrativa mais cadenciada onde toda esperança está abandonada, num ambiente de grande pressão psicológica, além de um final depressivo, então esse é o filme indicado.

Com direção e roteiro de Trey Edward Shults, temos uma família morando isolada numa casa no meio da floresta, formada pelo pai protetor, Paul (o australiano Joel Edgerton), a esposa Sarah (a inglesa Carmen Ejogo), e o filho adolescente de 17 anos, Travis (Kelvin Harrison Jr.), que tem pesadelos terríveis frequentemente. O clima é de tensão constante, numa luta pela sobrevivência contra uma contaminação misteriosa que aparentemente mergulhou o mundo no caos. Eles precisam eliminar a ameaça que tomou o corpo do avô, Bud (David Pendleton), enterrado com o cadáver cheio de feridas pestilentas e carbonizado por segurança. Porém, as coisas se complicam mais ainda após a chegada de outra família pedindo refúgio, formada pelo jovem casal Will (Christopher Abbott) e Kim (Riley Keough), e o filho pequeno Andrew (Griffin Robert Faulkner).

Distanciando-se da fantasia tradicional do cinema, “Ao Cair da Noite” se aproxima mais de uma possível realidade com o mundo mergulhando numa contaminação devastadora não explicada, onde os sobreviventes precisam lutar ferozmente por suas vidas fragilizadas. Trazendo à tona seus instintos mais selvagens de sobrevivência, utilizando-se de violência e desconfiança para a autopreservação, eliminando gradativamente os sentimentos e emoções que caracterizam a humanidade, dando lugar à frieza e indiferença.  
Indo na contra mão do cinema que prioriza o entretenimento com pipoca e refrigerante, “Ao Cair da Noite” aposta no mistério, na falta de informação sobre os trágicos acontecimentos externos, no clima de tensão devido à luta selvagem pela sobrevivência, no desespero crescente do fim aparentemente inevitável da humanidade, dizimada por uma doença sem nome.
Após ver o filme e com o sentimento perturbador e desconfortável que invade o espectador, temos a sensação de que seriam pessoas de sorte todas aquelas que fossem carregadas pela Morte logo no início do apocalipse, caso um dia uma pandemia devastasse a Terra.

(RR – 03/07/17)

Hand of Death (EUA, 1962, PB)

 


"Ninguém ousava chegar muito perto!”

 

Escrito e produzido por Eugene Ling e dirigido por Gene Nelson, “Hand of Death” (1962) tem fotografia em preto e branco, metragem de apenas 60 minutos, e está disponível no “Youtube” com a opção de legendas automáticas em português.

É um filme desconhecido que segundo o “IMDB”, a maior fonte na internet sobre informações de filmes, ficou “perdido” por 40 anos, uma curiosidade que já desperta alguma atenção, principalmente para os apreciadores do cinema antigo bagaceiro com elementos de horror e ficção científica abordando os temas de “cientista louco” trabalhando para o suposto bem da humanidade e “homem transformado em monstro”, com a mente distorcida culminando em consequências trágicas.

 

O cientista Alex Marsch (John Agar) está trabalhando numa casa isolada no deserto com o apoio do estudante Carlos (John Alonzo). Trata-se de um projeto secreto para o governo estadunidense com experiências para o desenvolvimento de um gás nervoso paralisante com efeitos hipnóticos, para utilização como arma em tempos de guerra fria entre EUA e a antiga União Soviética. O gás serviria para eliminar a resistência em ações de ocupação, com os inimigos obedecendo comandos e assim podendo evitar uma guerra nuclear, algo muito temido e próximo de ter acontecido naqueles tempos conturbados dos anos 60 do século passado.

Sua namorada Carol Wilson (Paula Raymond) é a secretária do Dr. Frederick Ramsey (Roy Gordon), o chefe do cientista e proprietário de um Centro de Pesquisas em Los Angeles. Ela está desconfiada com o trabalho envolvendo um gás perigoso e preocupada com a possibilidade de acidentes, o que realmente acontece, causando no cientista várias reações no corpo como dores, calor excessivo, inchamento no rosto e mãos, pele enrugada e escurecida, transformando-o num monstro que mata apenas com o toque das mãos, justificando o título do filme, lembrando o “Coisa” do “Quarteto Fantástico” da “Marvel”.

Desesperado e com a mente progressivamente distorcida, o Dr. Marsh caminha sem rumo pelas ruas enquanto pessoas morrem pelo seu toque, sendo perseguido pelo investigador de homicídios da polícia (Norman Burton), e esperando talvez em vão que algum antídoto possa restabelecer sua condição humana, num esforço do Dr. Ramsey e do amigo Tom Holland (Steve Dunne).       

 

O filme é curto e quase não há perda de tempo com futilidades, não demorando muito para o cientista se transformar num monstro deformado e assassino, que de repente muda de um abnegado homem da ciência para uma criatura mutante responsável pela morte de pessoas inocentes. É uma diversão rápida para quem gosta do velho cinema de baixo orçamento com efeitos práticos na maquiagem exagerada do monstro e com mais uma história de “cientista louco” malsucedido na tentativa de criação de uma arma de guerra com resultados catastróficos.

O ator John Agar (1921 / 2002) tem uma filmografia com várias tranqueiras divertidas do cinema fantástico como “Tarântula!” (1955), “O Templo do Pavor” (1956), “O Cérebro do Planeta Arous” (1957), “Dr. Encolhedor” (1958), “Invasores Invisíveis” (1959), “Monstro do Planeta Perdido” (1962) e “Mulheres do Planeta Pré-Histórico” (1966), entre outras.   

Quando o cientista mutante desorientado está vagando por uma praia, o garoto que o encontra é interpretado por Butch Patrick, o jovem ator que pouco tempo depois faria parte do elenco fixo da cultuada série de TV de comédia com elementos de horror “Os Monstros” (The Munsters, 1964 / 1966), fazendo o papel do lobisomem mirim Eddie.

    

(RR – 24/07/26)




Ameaça Espacial (It Conquered the World, EUA, 1956, PB)



"Eu possibilitei que você viesse aqui... Eu te dei as boas-vindas a esta Terra... Você fez dela um cemitério."

– cientista Dr. Tom Anderson para o alienígena de Vênus

 

O especialista em filmes bagaceiros de horror e ficção científica Roger Corman (1926 / 2024), conhecido diretor e produtor habilidoso em fazer filmes rápidos com orçamentos reduzidos, foi também o responsável pela divertida tranqueira de invasão alienígena “Ameaça Espacial” (It Conquered the World, 1956), com fotografia em preto e branco e roteiro de Lou Rusoff e Charles B. Griffith. O interessante elenco é formado por Peter Graves, da série de TV “Missão Impossível” (1967 / 1973), Lee Van Cleef, mais reconhecido pela infinidade de filmes de western, e Beverly Garland, que esteve em várias outras preciosidades como “Curuçu, o Terror do Amazonas” (1956), “O Emissário de Outro Mundo” (1957) e “O Jacaré Humano” (1959).  

Com produção da “American International”, de James H. Nicholson e Samuel Z. Arkoff, e filmado em apenas cinco dias por Corman, o filme está disponível no “Youtube” com a opção de legendas automáticas em português, e tem um lugar especial na história do cinema fantástico de baixo orçamento por causa principalmente do monstro alienígena apelidado de “Beluah”, criado e manuseado por Paul Blaisdell, sendo talvez o mais bagaceiro de todos os tempos, parecendo uma espécie de “casquinha de sorvete invertida com garras”.

 

Na história, o cientista Dr. Tom Anderson (Lee Van Cleef) conseguiu contato por rádio com um alienígena venusiano e ficou convencido que ele poderia ajudar a humanidade eliminando as emoções como ódio e amargura, e consequentemente os problemas das pessoas. Ele tenta convencer as autoridades militares a interromper o programa espacial com lançamentos de satélites alegando que os alienígenas não querem a Terra explorando o espaço. Porém, ele não tem sucesso e recebe desaprovação da esposa, Claire (Beverly Garland), de amigos próximos como o também cientista Dr. Paul Nelson (Peter Graves) e sua esposa Joan (Sally Fraser), além do General James Pattick (Russ Bender).

Com o lançamento de um satélite ao espaço que retornou para a Terra trazendo o alienígena, tem início um plano de invasão com a ajuda do iludido Dr. Anderson, que acredita em boas intenções do invasor, que por sua vez se instala numa caverna com fontes termais que simulam um ambiente similar ao de seu planeta de origem. Poderoso e inteligente, o monstro de Vênus interrompe a geração de energia no mundo inteiro, e passa a controlar as pessoas com a implantação de um dispositivo na cabeça instalado por criaturas similares a morcegos.

Com a “ameaça espacial” do futuro do nosso planeta e de toda a humanidade, e uma vez o Dr. Nelson conseguindo impedir que fosse controlado pelo extraterrestre, resta para ele a árdua missão de combater as pessoas controladas e tentar impedir o sucesso do plano de conquista do monstro venusiano.

 

Como em todos os filmes antigos bagaceiros com monstros toscos, devido às dificuldades com os pequenos orçamentos disponíveis, o alienígena aparece pouco em cena e mais apenas próximo do final no já esperado confronto que definiria a salvação da Terra contra a tirania de uma criatura invasora de outro planeta. E com o restante do tempo sendo preenchido pelo drama dos personagens, seus conflitos de ideias e interesses, especulações sobre o destino da humanidade, e a exploração espacial em tempos de guerra fria entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética.

A diversão fica mais por conta dos efeitos práticos paupérrimos, tanto com os morcegos que carregam os dispositivos de controle mental das pessoas, quanto principalmente o monstro alienígena tosco, projetado, construído e movimentado pelo técnico Paul Blaisdell, conhecido pelos inúmeros monstros bagaceiros que criou para filmes dos anos 1950 como “A Besta do Milhão de Olhos”, “O Dia do Fim do Mundo”, “O Emissário de Outro Mundo”, “Os Monstros Invasores”, “A Ameaça do Outro Mundo” e “Os Adolescentes do Espaço”.

Curiosamente, esse filme bagaceiro de Roger Corman possui referências aos clássicos de FC “O Dia Em Que a Terra Parou” (1951) com o corte de energia no mundo e paralização das máquinas, e “Vampiros de Almas” (1956) com o controle das pessoas retirando suas emoções. E tivemos uma refilmagem para a televisão dirigido por Larry Buchanan em 1967 com o nome “O Monstro de Vênus” (Zontar: The Thing From Venus), com John Agar.

     

(RR – 17/07/26)