Aranhas (Spiders 3D, EUA, 2013)


As aranhas são muita exploradas como tema para filmes com elementos de ficção científica e horror, principalmente quando são transformadas em criaturas gigantes e ainda mais ameaçadoras.
Com produção americana e filmagens em Sofia, capital da Bulgária, para baratear os custos, o filme “Aranhas” (Spiders 3D) foi lançado em 2013, com o propósito de mostrar em três dimensões os ataques desses aracnídeos que geralmente povoam os pesadelos das pessoas.
É mais um daqueles típicos filmes que costumo situar dentro do cinema bagaceiro de horror do século XXI, com monstros gerados por computador e história cheia de clichês e ideias recicladas. Porém, devido essas mesmas características talvez até possa um dia no futuro ser lembrado como uma tranqueira que não agrega, mas poderia divertir, mesmo que apenas um pouco. Num paralelo com os filmes antigos bagaceiros de roteiros absurdos e efeitos toscos produzidos dezenas de anos atrás, e que agora são cultuados e garantem uma diversão hilária.
Uma chuva de meteoros atinge uma estação espacial da antiga União Soviética e destroços caem em direção à Terra, atingindo uma estação de metrô no centro da cidade de New York. Esses detritos espaciais trazem também aranhas que logo se espalham pelos túneis escuros de obras abandonadas do metrô. O controlador de tráfego Jason Cole (Patrick Muldoon, de “Tropas Estelares”) e sua esposa Rachel (Christa Campbell), que trabalha no Departamento de Saúde, tentam investigar a queda do objeto e descobrem a invasão das aranhas, que procuram hospedeiros para depositar seus ovos, crescem de tamanho descomunal e são disciplinadas para proteger a rainha, que se transforma num monstro gigantesco.
Em paralelo, uma conspiração governamental liderada pelo inescrupuloso Coronel Jenkins (William Hope), está por trás de uma obscura pesquisa com as aranhas geneticamente modificadas, para através dos estudos do cientista russo Dr. Darnoff (Pete Lee-Wilson), desenvolver uma couraça super resistente para fins miliares. Cabe então ao casal de heróis tentar evitar a proliferação das aranhas mutantes, proteger sua filha pequena Emily (Sydney Sweeney), e impedir o caos na cidade. 
A direção de “Aranhas” é do húngaro Tibor Takacs, que tem em seu currículo títulos como “984 – Prisioneiro do Futuro” (1982), “O Portão” (1987) e “MosquitoMan” (2005). A história não tem elementos muito atrativos, explorando clichês cansativos com a velha ideia de objeto que cai do espaço trazendo alguma ameaça aterradora para a humanidade, nesse caso aranhas mutantes que crescem e gostam da carne humana no cardápio. Temos o militar arrogante com propósitos obscuros, o “cientista louco” com um interesse bizarro nas aranhas, e o casal típico de heróis que tenta combater a ameaça e salvar a cidade. Tem correrias, perseguições, tiroteios, ação desenfreada, ataques, corpos despedaçados, sangue jorrado e aranhas de CGI com dois metros de comprimento, sem contar a rainha colossal que arremessa carros como se fossem bolas de tênis (e estampa o pôster promocional do filme numa jogada de marketing como sempre exagerada).
“Aranhas” diverte um pouco nas cenas violentas de confrontos, mas como filme bagaceiro de horror, ainda prefiro as tranqueiras mais antigas, com seus monstros de borracha e maquetes.    

(Juvenatrix – 10/04/20)



Lisa e o Diabo (Lisa and the Devil, Itália / Espanha / Alemanha, 1973)


“Uma noite sem luar, esta casa, e uma certa atmosfera. Devo confessar que preferia fantasmas e vampiros, no entanto. Eles são muito mais humanos, eles têm uma tradição a cumprir. De alguma forma, conseguem manter todo o horror sem derramar sangue.” – Sophia Lehar, desconfortável pelo ambiente sinistro da “casa do exorcismo”

No início dos anos 70 do século passado, os filmes com fantasias góticas estavam começando a declinar, após o auge na década de 1960. Eles estavam cedendo espaço para filmes cada vez mais violentos, com o satanismo sendo um tema bastante explorado.
O cineasta Mario Bava (1914 / 1980), eternamente cultuado na história do horror gótico, ainda lançou em 1973 “Lisa e o Diabo” (Lisa e il Diavolo / Lisa and the Devil), mais uma preciosidade desse fascinante estilo, inserindo elementos urbanos e o diabo.
Uma turista americana, Lisa Reiner (a alemã Elke Sommer), se perde no meio de um vilarejo espanhol sinistro com becos estreitos desertos e casas antigas de pedra. Quando a noite chega trazendo ainda mais insegurança, ela solicita uma carona no carro de Francis Lehar (Eduardo Fajardo), que está acompanhado de sua esposa infiel Sophia (a croata Silva Koscina), amante do motorista George (Gabriele Tinti). O carro tem pane mecânica próximo de uma mansão sombria e eles são convidados pelo jovem hospitaleiro Max (Alessio Orano), filho da Condessa (Alida Valli), cega e uma anfitriã bem menos amistosa. Para completar a estranheza do lugar, eles são recepcionados pelo sinistro mordomo Leandro (Telly Savalas), e ainda tem a presença misteriosa de Carlo (Espartaco Santoni), marido infiel da Condessa e pivô de uma história de traição e tragédia familiar.
Mario Bava teve a ideia para o filme se inspirando numa pintura mural com a representação do “Diabo que transporta os mortos”, cuja semelhança física com o Mordomo Leandro é bastante notável. Aliás, o calvo Leandro, que constantemente tem um pirulito na boca para substituir o cigarro, é interpretado por Telly Savalas (1922 / 1994), ator do clássico de guerra “Os Dozes Condenados” (1967) e da divertida bagaceira “O Expresso do Horror” (1972), além de várias séries de TV, sendo um rosto muito conhecido pelos 117 episódios da série policial “Kojak” (1973 / 1978).
Como em todos os filmes do cineasta italiano, temos uma narrativa mais lenta com uma atmosfera perturbadora de pesadelo na mansão macabra, cheia de aposentos enormes, coloridos e mobília antiga. O clima é bem pesado, angustiante, depressivo, desconfortável, que envolve o mistério de uma família bizarra atormentada pela tragédia, desconfiança e insanidade. Não há profusão de sangue, mas as poucas mortes são bem violentas.   
“Lisa e o Diabo” foi lançado em DVD no Brasil em 2015 pela “Versátil”, na coleção “Obras-Primas do Terror – Volume 2”. De material extra veio incluso o documentário “O Exorcismo de Lisa” (2004), com depoimentos interessantes do biógrafo Alberto Pezzotta, do roteirista Roberto Natale (que escreveu o filme, mas curiosamente não foi creditado), além de Lamberto e Rov Bava, respectivamente filho e neto do diretor. Eles comentaram, entre outras coisas, sobre a versão americana lançada em 1975 com o título “The House of Exorcism”, aproveitando o apelo comercial com o grande sucesso de “O Exorcista” (1973), de William Friedkin. A nova versão é basicamente formada pelo mesmo filme “Lisa e o Diabo” anterior, com o acréscimo de cenas de exorcismo de Lisa possuída e a inclusão do Padre Michael (Robert Alda), como um exorcista que tenta livrá-la da influência do demônio. Outra diferença significativa refere-se à exploração das cenas de nudez e sexo, bem mais explícitas.

(RR – 08/04/20)




No Mundo de 2020 (Soylent Green, EUA, 1973)


“As pessoas sempre foram ruins, o mundo é que era bonito.”
– policial Solomon Roth

“No Mundo de 2020” (Soylent Green) é um filme futurista americano produzido em 1973, dirigido por Richard Fleischer (1916 / 2006) e com elenco de grandes nomes como Charlton Heston (1923 / 2008) e o romeno Edward G. Robinson, que curiosamente faleceu logo após as filmagens aos 79 anos. O roteiro é de Stanley R. Greenberg, inspirado na história “Make Room! Make Room!” (1966), de Harry Harrison.
Ambientado mais precisamente em 2022, nosso planeta está totalmente poluído, com os recursos naturais esgotados e enfrentando uma grave crise com superpopulação. A cidade de New York tem quarenta milhões de habitantes e o mundo passa fome, com as pessoas pobres e desamparadas sendo apenas alimentadas por tabletes chamados “verde soilente” (do título original), obtidos a partir de algas dos oceanos. E apenas uma pequena parte da população rica tem acesso à comida “de verdade” como frutas e carnes.
Esse alimento industrializado é fornecido em monopólio por uma empresa onde um de seus diretores, William R. Simonson (Joseph Cotten), é encontrado misteriosamente morto em seu apartamento de luxo. O policial Thorn (Charlton Heston) é o encarregado das investigações, auxiliado por seu companheiro veterano Solomon Roth (Edward G. Robinson), com quem mora e sempre conversa sobre o passado recente da humanidade, quando a natureza ainda estava viva e existiam rios, peixes, animais, flores e árvores.
Durante as investigações, Thorn entra em contato com o suspeito guarda-costas do falecido, Tab Fielding (Chuck Connors), e conhece a bela jovem Shirl (Leigh Taylor-Young), uma “alugada”, empregada que fazia parte do aluguel do apartamento e servia também de acompanhante para o inquilino. Ao descobrir que o rico empresário foi na verdade assassinado, Thorn desperta a ira de pessoas importantes do poder econômico e político da cidade, com seus interesses obscuros ameaçados, principalmente o Governador Santini (Whit Bissell), ao mesmo tempo em que também descobre um segredo terrível envolvendo a matéria-prima do “verde soilente”.
“No Mundo de 2020” apresenta uma distopia perturbadora, com a Terra devastada pelo efeito estufa, natureza em decadência, um lugar onde os rios, animais e plantas são coisas do passado, e a humanidade enfrenta a fome e falta de espaço nas grandes cidades. Há escassez de água, comida, papel, energia, saneamento. Não existe dignidade mínima de sobrevivência. Nesse cenário aterrador, apenas os ricos usufruem de luxos como sabonete e água quente, ou comer frutas e carnes.
O elenco é de primeira linha e os destaques certamente são as interpretações de Charlton Heston (com excepcional currículo que inclui o clássico “Planeta dos Macacos”) e Edward G. Robinson, numa ótima interação entre eles, criando empatia com o espectador preocupado com seus destinos num ambiente de caos. 
Para os apreciadores de cinema, sempre existem algumas sequências de filmes que ficam eternizadas em nossa memória até o fim de nossos dias. A grande maioria não fica armazenada e rapidamente é descartada, às vezes logo em seguida ao terminarmos de ver os filmes. Porém, ao contrário, tem momentos que ficam gravados para sempre em nossa mente. Como é o caso para mim de uma sequência poética de “No Mundo de 2020” sobre o “asilo”, com o roteiro explorando a ideia de eutanásia como forma de minimizar os efeitos da superpopulação, também numa relação com o misterioso “verde soilente”. O policial idoso Solomon, cansado da degradação do planeta e de viver apenas com as boas lembranças do passado, decide livre e espontaneamente visitar o “asilo”. Lá, ele é muito bem recepcionado e depois de fazer uma rápida entrevista sobre suas preferências de cor e tipo de música, vai para uma sala especial ver um vídeo em tela grande, com belíssimas imagens da natureza que dava vida à Terra, ao som da sinfonia “Pastoral”, de Beethoven. Essa sequência deveria ser vista por todos e sempre, como uma mensagem para talvez a humanidade evitar que a realidade do filme possa se tornar verdade no futuro e que a natureza possa ser respeitada nesse planeta.
Foi lançado em DVD por aqui pela “Versátil Home Video”, na Coleção “Clássicos Sci-Fi – Volume 2”. 

(RR – 02/04/20)






O Ciclo do Pavor (Kill Baby... Kill!, Itália, 1966)


“Só uma moeda no coração pode dar paz àqueles que foram mortos de forma violenta.”

O cinema gótico italiano, assim como os filmes da produtora inglesa “Hammer”, garantiu seu lugar de destaque de forma significativa na história do Horror. “O Ciclo do Pavor” (Operazione Paura / Kill Baby... Kill!, 1966) é mais uma dessas preciosidades de valor inestimável para os apreciadores do estilo. O filme tem direção do mestre Mario Bava (1914 / 1980), um dos grandes nomes cultuados do cinema fantástico, especialmente pelas obras-primas do horror gótico como “Os Vampiros” (1957), “A Maldição do Demônio” (1960), “As Três Máscaras do Terror”, “O Chicote e o Corpo” (ambos de 1963), entre outros.
O médico legista Dr. Paul Eswai (Giacomo Rossi-Stuart) vai até um distante vilarejo chamado Karmingam para realizar a autópsia de uma jovem mulher, Irena Hollander (Mirella Panfili), que morreu de forma violenta e misteriosa. Ao chegar, logo é avisado pelo cocheiro da carruagem que o transportou que o local é maldito, e também é mal recebido pelos aldeões supersticiosos, percebendo que no vilarejo impera o medo e reina a morte.
As investigações do óbito suspeito são lideradas pelo Inspetor da polícia Kruger (Piero Lulli), que recebe o apoio, mesmo que meio contrariado, do burgomestre local Sr. Karl (Max Lawrence, pseudônimo de Luciano Catenacci).   
O Dr. Eswai recebe a ajuda de uma estudante de medicina também recém chegada, Monica Schuftan (Erika Blanc), que tem uma história familiar misteriosa com a pequena cidade. E também recebe o apoio de uma estranha feiticeira, Ruth (Fabienne Dali), que parece conhecer os enigmas obscuros que rondam as ruas do vilarejo amaldiçoado, e a relação com a Villa Graps, uma mansão tétrica e decadente onde vive reclusa a Baronesa Graps (Giana Vivaldi), que tinha uma filha, Melissa (curiosamente interpretado por um menino, Valerio Valei, em seu único trabalho no cinema), que morreu num acidente trágico enforcada há vinte anos, com seu espírito atormentado vagando em busca de vingança.  
O Horror Gótico é um dos subgêneros mais fascinantes do cinema fantástico. Esse filme de Mario Bava tem uma atmosfera sinistra constante de gelar a espinha, um clima pesado, sombrio e depressivo com o vilarejo amaldiçoado, os aldeões supersticiosos e péssimos anfitriões, o cemitério envolto em névoa espessa, as casas frias de pedra, a mansão macabra com aposentos enormes cheios de teias de aranha, a escada em espiral hipnotizante, a cripta com túmulos gelados, os gemidos agonizantes povoando a mente com tormentos e fantasmagorias.    
“O Ciclo do Pavor” teve uma versão americana reduzida, que recebeu o título “Curse of the Living Dead”, e outra mais completa para distribuição em vídeo com o nome mal escolhido “Kill Baby... Kill! (não é só no Brasil que muitos títulos são péssimos).
Para a satisfação dos colecionadores e apreciadores do Horror Gótico, foi lançado em DVD no Brasil pela “Versátil”, na coleção “Obras-Primas do Terror – Volume 2”. Como material extra temos um valioso depoimento do diretor e roteirista italiano Luigi Cozzi, sobre uma entrevista que ele fez com Mario Bava quando ainda era bem jovem e jornalista a serviço da lendária revista americana “Famous Monsters of Filmland”, do editor Forrest J. Ackerman (1916 / 2008). Cozzi relatou várias curiosidades interessantes.
As filmagens externas foram feitas em apenas seis noites e o total com as cenas de estúdio totalizou doze dias. Bava revelou que não gostava de excesso de sangue e a exposição de monstros aterrorizantes nos filmes, e que preferia um horror mais sugerido, optando por não mostrar o monstro, obtendo um resultado melhor.
O diretor italiano não era reconhecido na época em seu próprio país, mas era admirado nos Estados Unidos, justificando o interesse pela entrevista, num exemplo similar com o nosso José Mojica Marins (“Zé do Caixão”), que recebeu o nome “Coffin Joe” nos Estados Unidos, onde seus filmes eram cultuados, e que felizmente depois (antes tarde do que nunca) foi reconhecido no Brasil como um merecido “mestre do Horror”.
“O Ciclo do Pavor” teve muitas dificuldades na distribuição, pois a produtora responsável pelo filme faliu antes do lançamento. Cozzi disse que conseguiu ver o filme num cinema pequeno e que ficou em cartaz por pouco tempo. Felizmente foi reconhecido mais tarde como “obra-prima” e respeitado como um filme de horror gótico que deve ser reverenciado eternamente.

(Juvenatrix – 30/03/20)


A Ilha dos Homens-Peixe (Island of the Fishmen, Itália, 1979)


Utilizando como inspiração a história do livro “A Ilha do Dr. Moreau”, escrito em 1896 por H. G. Wells, sobre um “cientista louco” que realiza experiências genéticas misturando animais e homens, o diretor italiano Sergio Martino lançou em 1979 a aventura com elementos de horror e ficção científica “A Ilha dos Homens-Peixe” (Island of the Fishmen). Trata-se de uma divertida preciosidade dos antigos filmes bagaceiros com elementos fantásticos, que muitos apreciadores do estilo se lembrarão pelas exaustivas reprises na televisão.
Ambientado em 1891 na região do Mar do Caribe, temos um grupo de náufragos de um navio francês de prisioneiros tentando se salvar à bordo de um bote que acaba se chocando contra os rochedos de uma ilha. Somente alguns poucos conseguem sobreviver e se reúnem para explorar a região em busca de comida e abrigo. Enfrentando os perigos de uma ilha vulcânica como as águas venenosas de um lago ou ainda armadilhas mortais como um buraco com lanças pontiagudas, o médico Tenente Claude de Ross (Claudio Cassinelli) e dois prisioneiros, José (Franco Iavarone) e Peter (Roberto Posse), encontram um casarão e o improvável morador da ilha, Edmond Rackham (Richard Johnson). Ele comanda com austeridade um grupo de nativos praticantes de vodu, através de sua líder sacerdotisa Shakira (Beryl Cunningham), e mantém sob seu domínio uma jovem mulher, Amanda (Barbara Bach).
O médico náufrago inevitavelmente fica intrigado com a bela mulher vivendo numa ilha remota fora dos mapas e com seu misterioso anfitrião, que revela estar longe da civilização há quinze anos. Além também com as estranhas criaturas anfíbias, mistura de homens e peixes, que ele não sabe ao certo se fazem parte de um pesadelo ou realidade.
As coisas se complicam ainda mais depois que seus companheiros náufragos desaparecem misteriosamente e o médico descobre a existência de um laboratório bem equipado, comandado por um veterano biólogo, Prof. Ernest Marvin (Joseph Cotten), que está doente e realiza experiências proibidas como o típico “cientista louco” que dedica seu trabalho para o bem da humanidade.
“A Ilha dos Homens-Peixe” é uma daquelas divertidas tranqueiras italianas com história aproveitando ideias recicladas, já vistas em filmes como “A Ilha do Dr. Moreau”, lançado apenas dois anos antes em 1977, sobre o cientista recluso responsável por criaturas híbridas de homens e animais, ou “O Monstro da Lagoa Negra” (1954), na apresentação de seres anfíbios mutantes, mistos de homens e peixes. Nele encontramos todos aqueles elementos que caracterizam o cinema fantástico bagaceiro, destacando principalmente os efeitos toscos com os monstros do título, muito mais divertidos com suas fantasias de borracha, garras afiadas e expressões estáticas, quando comparados com a artificialidade da computação gráfica dos filmes atuais.
Curiosamente, o filme teve uma versão americana lançada pelo produtor Roger Corman, acrescentando um prólogo e novo título, “Screamers”, com a participação de atores conhecidos dos filmes de poucos recursos como Cameron Mitchell e Mel Ferrer. Teve também uma continuação picareta em 1995, uma produção para a TV também dirigida por Sergio Martino chamada “La regina degli uomini pesce”, que basicamente é uma colagem com cenas reutilizadas do filme anterior e também de “2019: After the Fall of New York” (1983).
       
(Juvenatrix – 27/03/20)



A Invasão das Aranhas Gigantes (The Giant Spider Invasion, EUA, 1975)



Pensando no sub-gênero dentro do cinema fantástico bagaceiro que explora o ataque ou invasão de insetos ou aracnídeos, gigantes ou não, as aranhas estão entre aqueles que mais são escolhidos pelos roteiristas para aparecer nos filmes, rivalizando com as formigas. Em 1975, o diretor e produtor Bill Rebane, responsável por diversas tranqueiras no currículo, lançou “A Invasão das Aranhas Gigantes” (The Giant Spider Invasion), uma preciosidade dos “filmes ruins” que era reprisada à exaustão na televisão nos bons e saudosos tempos onde os canais exibiam tralhas divertidas de horror e ficção científica.
Um meteoro cai próximo de uma pequena cidade americana no Estado do Wisconsin, causando panes mecânicas nos carros e fazendo os rádios pararem de funcionar. Da pequena cratera aberta no chão pela queda surgem diversas pedras redondas com diamantes em seu interior, e quando abertas liberam aranhas peludas alienígenas parecidas com as nossas tarântulas. Elas inicialmente atacam as vacas de uma fazenda e ao aumentar seus tamanhos de forma descomunal, invadem a cidade colecionando vítimas pelo caminho.
Um cientista da NASA, Dr. Vance (Steve Brodie), se desloca de Houston, Texas, até a região da queda da bola de fogo do espaço para investigar junto com os esforços de outra cientista local, Dra. Jenny Langer (Barbara Hale). Eles descobrem um buraco negro responsável pela vinda das aranhas de outra dimensão. Depois que uma aranha gigante com quinze metros causa um rastro de destruição por onde passa, a dupla de cientistas tenta encontrar um meio de anular o buraco negro, fechando a porta do inferno, e destruir a criatura aracnídea extraterrestre, contando com a ajuda do xerife local, Jeff Jones (Alan Hale).
“A Invasão das Aranhas Gigantes” é um daqueles filmes divertidos pela ruindade geral, desde a produção paupérrima ao roteiro típico do horror bagaceiro, passando pelos efeitos extremamente toscos da aranha gigante, lembrando um carro alegórico fuleiro de carnaval (na verdade, um bicho de pelúcia enorme montado sobre um fusca). Já no caso das aranhas de tamanho normal foram usadas criaturas de oito pernas reais passeando pelos cenários e sobre os atores, algo que o grande cineasta brasileiro José Mojica Marins já fazia muitos anos antes, como no clássico “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” (1963).
É verdade que o monstro aparece pouco em cena, seja destruindo uma casa, atacando um carro ou perseguindo pessoas desesperadas pela cidade, e a primeira cena só vem com quase 50 minutos de filme. Mas, é inegável a diversão garantida com a aranha colossal espalhando o caos por onde anda.
Devido às dificuldades orçamentárias da produção, o roteiro tratou de gastar muito tempo com enrolação na história, seja na investigação dos cientistas ou com os habitantes de uma cidadezinha não acostumada com movimentações na rotina simples. Mas, a espera pelas cenas da aranha imensa é recompensada com momentos hilariantes para os apreciadores de tosquices. Existem também várias cenas noturnas (filmadas na luz do dia) que ficaram muita escurecidas, algo bem apropriado para os realizadores esconderem os defeitos do monstro.
A história mistura um tom de seriedade com elementos cômicos inseridos por Robert Easton, um dos roteiristas e que também atuou como o fazendeiro Kester que encontrou as pedras espaciais com as aranhas. E tem o xerife bonachão apenas acostumado em resolver problemas comuns de uma pequena cidade do interior americano, e que passa a maior parte do tempo em seu escritório lendo o livro “Flying Saucers Want You” (Os Discos Voadores Querem Você) e atendendo chamadas no telefone.
Curiosamente, tem uma piada referenciando o filme “Tubarão”, o clássico de Steven Spielberg lançado no mesmo ano de 1975, onde um comentário hilário do xerife sobre a aranha gigante revela que numa comparação, “o tubarão é um peixinho dourado”.  
       
(RR – 25/03/20)



O Ataque das Criaturas Bestiais (Attack of the Beast Creatures, 1985)


A fórmula básica do cinema fantástico bagaceiro é bem simples, basta unir os elementos “produção paupérrima”, “roteiro óbvio e clichê”, “elenco amador” e “efeitos toscos”. O filme americano “O Ataque das Criaturas Bestiais” (Attack of the Beast Creatures, 1985) tem tudo isso e consegue o mais importante para os apreciadores das tranqueiras de horror: “divertir” (mesmo que se for apenas poucos momentos e esquecidos logo depois).
Um navio de cruzeiro afunda em algum lugar do Atlântico Norte em Maio de 1920, e um pequeno grupo de náufragos consegue se salvar num bote, ficando à deriva no oceano. Com sorte, eles logo encontram uma ilha e tentam manter-se vivos até a chegada de algum resgate. Ao procurar água e comida pela floresta, eles são surpreendidos por bizarrices que desafiam a sobrevivência, desde um lago com águas corrosivas que derretem o rosto de um deles, até os ataques constantes, seja de noite ou de dia, de pequenas criaturas bestiais que querem provar o sabor das carnes dos invasores de seu território.
O filme está disponível no “Youtube” com legendas em português e é daqueles que poucas pessoas fazem de tudo, característica das produções com pouco dinheiro e muito idealismo para conseguir os resultados, mesmo que sejam de qualidade menor. A direção é de Michael Stanley, que também participa da produção, e o roteiro é de Robert A. Hutton, que também assina a edição e fotografia.
Claro que para conseguir a metragem necessária, existem muitos momentos de enrolação, com o grupo de náufragos fazendo longas caminhadas pela floresta da ilha, contribuindo para o tédio do espectador, Mas, em compensação, e o que realmente interessa no filme, os ataques da tribo de criaturas do título são muitos e sempre divertidos. Os pigmeus veneram algum tipo de divindade representada por uma estátua. Eles têm longos cabelos pretos, grandes olhos brancos e dentes afiados, e saltam contra suas vítimas mordendo violentamente suas carnes e provando o sangue.
Eles ficam observando no alto das árvores, correndo agilmente pelas matas, emitindo grunhidos bizarros e atacando em grupos, não dando descanso para os sobreviventes do navio afundado, que por sua vez fogem desesperados e lutam o tempo todo pela vida, mas obviamente poucos conseguirão ter sucesso nesse desafio.
A história é muito simples, definida em poucas palavras, “grupo de náufragos é atacado por criaturas carnívoras numa ilha”. O elenco é inexpressivo e os atores só fizeram esse filme. Os efeitos dos monstrinhos são extremamente toscos e patéticos, bonecos estáticos grudados nos atores, que gritam como se estivessem sendo devorados.
Para quem aprecia tranqueiras com elementos de horror, a diversão é garantida.
       
(Juvenatrix – 22/03/20)