A Fera Assassina (Big Bad Wolf, EUA, 2006)

Filme de lobisomem que homenageia claramente o clássico “Um Lobisomem Americano em Londres” (1981), de John Landis, e que tenta inserir novas situações à mitologia tradicional da licantropia no cinema, com resultados questionáveis e reações diferentes entre os apreciadores do estilo.

Particularmente, não gostei das piadas idiotas, dos adolescentes fúteis (ainda bem que morreram de forma dolorosa) e do fato do monstro falar com suas vítimas, apesar do uso constante de ironias e deboche contra suas presas vulneráveis. Mas, por outro lado, vale ressaltar a ousadia do diretor Lance W. Dreesen nas cenas fortes de violência, com sangue em demasia, tripas, desmembramentos, castração e diversas atrocidades exibidas à vontade. 

O filme preferiu explorar mais o lado humano (com as piadas e falas do predador) do que o lado animal na condição de uma fera irracional na mutação entre o homem e o lobo, e essa escolha pode influenciar na apreciação final do espectador. Em resumo, para mim esse fato foi negativo, mas houve a compensação com a enxurrada de sangue e vísceras. O final, convencional e óbvio, permite um gancho para continuação.

Lançado em DVD no Brasil como “A Fera Assassina”.

“Big Bad Wolf” (Estados Unidos, 2006) # 498 – data: 15/06/08
www.bocadoinferno.com.br
(postado em 15/06/08)

Fim dos Tempos (The Happening, EUA / Índia, 2008)

Estreando nos cinemas brasileiros em 13/06/08, o cineasta indiano radicado nos Estados Unidos M. Night Shyamalan (especialista em filmes do gênero fantástico) nos brinda novamente com uma história intrigante. 

Estrelado por Mark Wahlberg (que é apenas um ator esforçado, mas nitidamente deficiente no ofício), acompanhado da bela morena de olhos azuis Zooey Deschanel, o filme mostra como um fenômeno natural pode levar a humanidade a pensar no “fim dos tempos”, como sugere o título nacional. E mostra também o poder da natureza em revolta contra a raça predominante do planeta, que progressivamente tem causado a sua destruição. 

O mais interessante é justamente acompanhar o drama dos protagonistas tentando sobreviver contra a ameaça de algo completamente estranho e misterioso, não sabendo como agir e nem para onde ir, num desconforto realmente perturbador.

“Fim dos Tempos” (The Happening, Estados Unidos / Índia, 2008) # 497 – data: 14/06/08
www.bocadoinferno.com.br
(postado em 14/06/08)

O Orfanato (El Orfanato, Espanha / México, 2007)

Ótimo filme sobre fantasmas perturbados, com ambientação num casarão antigo, que serviu de orfanato no passado e que guarda um terrível e misterioso segredo oculto há décadas. 

Remete-nos diretamente para um outro excelente filme de casa assombrada, “Os Outros” (The Others, 2001), com a bela Nicole Kidman. Sem a exposição de sangue, e apenas explorando um horror psicológico, o filme é envolvente e prende a atenção do espectador à espera angustiante do desfecho.

“O Orfanato” (El Orfanato, Espanha / México, 2007) # 496 – data: 14/06/08
www.bocadoinferno.com.br
(postado em 14/06/08)

Carver (EUA, 2008)

O cineasta Franklin Guerrero Jr. tem apenas dois trabalhos no currículo (onde faz de tudo, direção, produção e roteiro), e ambos são filmes de horror extremamente violentos, levando-nos a imaginar que sua intenção é se especializar em cinema com mortes sangrentas. Em 2006 ele lançou “The 8th Plague”, filme ensangüentado de possessões demoníacas, e em 2008 foi a vez de “Carver”, uma história banal sobre assassinatos brutais de jovens numa floresta, porém caprichada no quesito violência, com exposição de grande variedade de atrocidades na tela, indo de castração com alicate, pregos na testa, passando por pauladas na cabeça, crânio explodido por marreta, até serrote no pescoço, braço dilacerado por porta...

Quatro jovens estão a caminho de uma floresta para acampar. São eles: Pete (Matt Carmody), seu irmão Bryan (Neil Kubath), e o casal de namorados Zack (Jonathan Rockett) e Rachel (Kristyn Green). No local do acampamento eles encontram uma outra garota, Kate (Ursula Taherian), que se junta a eles. Após aceitarem a oferta de um pequeno serviço para o dono de um bar local, Billy Hall Carver (David G. Holland), eles chegam até uma cabana no meio da floresta onde encontram rolos de filmes amadores com assassinatos tão chocantes que pareciam reais. Porém, os problemas iriam se tornar muito piores quando um psicopata escroto, Bobby Shaw Carver (Erik Fones), começa a persegui-los para aumentar a coleção de filmes.

Apresentado ao público como inspirado em fatos reais, a única coisa que parece mesmo ser real é a intenção em apenas mostrar violência e sangue em profusão, pois a história é tão ridícula como a de centenas de outros filmes similares. Toda a premissa básica se resume a um grupo de jovens idiotas que acampam na floresta em busca de diversão e encontram a morte dolorosa nas mãos de um psicopata. O resto é exposição de atrocidades. Tem até uma brincadeira do roteiro com um dos velhos clichês do gênero, quando uma loira acéfala, vestindo apenas lingerie, sai sozinha à noite pela floresta em busca do namorado, com o desfecho óbvio que todos os conhecedores de filmes “slasher” já sabem. “Carver” é uma salada vermelha com elementos de filmes como “O Massacre da Serra Elétrica”, “O Albergue”, “Viagem Maldita” e a série “Jogos Mortais”, que serve como entretenimento rápido pelas cenas de violência, não deixando de ser apenas mais um filme de horror trivial, ousado no sangue, mas limitado no resto.

“Carver” (Estados Unidos, 2008) # 495 – data: 25/05/08
www.bocadoinferno.com.br
(postado em 25/05/08)

Dia dos Mortos (Day of the Dead, EUA, 2008)


George Romero é um cineasta consagrado, principalmente por seus filmes de zumbis. Ele dirigiu “A Noite dos Mortos-Vivos” (Night of the Living Dead, 1968), “Despertar dos Mortos” (Dawn of the Dead, 1978), “Dia dos Mortos” (Day of the Dead, 1985), e “Terra dos Mortos” (Land of the Dead, 2005), todos com roteiros carregados de ultra violência e interessantes críticas sociais. Seus filmes inspiraram novas versões, algumas boas e outras péssimas.
Em 1990, o primeiro filme de Romero serviu de base para uma refilmagem de Tom Savini, que honrou a saga. Em 2004, foi a vez do segundo filme inspirar a produção de “Madrugada dos Mortos” (Dawn of the Dead), de Zack Snyder, que trouxe a novidade em tornar os zumbis velocistas e mais predadores e ferozes que de costume (esse filme não foi uma unanimidade positiva entre os fãs, mas eu pessoalmente gostei). Em 2005, os oportunistas e incompetentes Ana Clavell e James Glenn Dudelson dirigiram uma bomba chamada “Dia dos Mortos 2: O Contágio” (Day of the Dead 2: Contagium), uma tranqueira que usou o título do filme de Romero, mas que não é uma continuação. E em 2008 chegou a vez da refilmagem “Dia dos Mortos” (Day of the Dead), de Steve Miner, uma produção da “Nu Image”, conhecida pelos péssimos filmes de seu catálogo.
O fato de ter a direção de um cineasta habituado ao horror como Steve Miner (“Sexta-Feira 13” partes 2 e 3, “A Casa do Espanto”, “Warlock – O Demônio”, “Halloween H-20”, “Pânico no Lago”) não trouxe credibilidade ao projeto, pois o filme é um lixo dispensável que não acrescenta nada à mitologia dos zumbis nem aos filmes de George Romero. A melhor palavra que o define é “clichê”, com um elenco amador, e um roteiro assinado por Jeffrey Reddick que é uma ofensa à inteligência do público, com piadas idiotas e personagens fúteis e descartáveis. Tem muito sangue, violência, corpos putrefatos, gosmas escorrendo para todos os lados. Porém, isso é absolutamente inexpressivo sem uma história com um mínimo de interesse. Fazer filmes violentos e repletos de mortos vivos devoradores de carne humana já é algo comum demais. A violência no cinema está se tornando banal, sendo necessário criar e oferecer algo adicional, mesmo que pequeno. Mas, definitivamente, o que menos o cinema americano tem para oferecer é criatividade. Como dinheiro fácil é o mais importante no pensamento dos produtores mercenários, a idéia é apostar em refilmagens descartáveis (outro exemplo é a onda de lançamentos de filmes americanos baseados nas boas produções orientais, a maioria com fantasmas perturbados).

Filmado na Bulgária, e com uma equipe imensa de produtores (característica da “Nu Image”), entre eles os picaretas Boaz Davidson, Avi Lerner e o já citado James Glenn Dudelson, a versão de 2008 de “Dia dos Mortos” é tão ruim que não merece mais do que poucas linhas para contar a história medíocre: uma dupla de soldados, Sarah Bowman (Mena Suvari), e o idiota Salazar (Nick Cannon, autor de piadas constrangedoras obrigando-nos a torcer por sua morte o mais dolorosa possível), se juntam a um casal de jovens fúteis, Trevor (Michael Welch), irmão de Sarah, e sua namorada Nina (AnnaLynne McCord), que demonstraram uma improvável habilidade com armas de fogo. O grupo tenta sobreviver a um ataque de mortos-vivos super ágeis (aqui a idéia tradicional de zumbis lentos também foi abandonada), infectados por uma doença desconhecida.

Existe a tentativa sem sucesso de apresentar alguns dos mesmos personagens do filme original de 1985, como Sarah, Salazar, o cientista Dr. Logan (papel agora de Matt Rippy), Capitão Rhodes (Ving Rhames, em péssima atuação), e até o zumbi Bub, que se transformou numa espécie de mascote desse sub-gênero do horror, mas que foi totalmente ridicularizado na refilmagem, interpretado por Stark Sands, um soldado mordido por um infectado. De uma maneira geral, o novo “Dia dos Mortos” tem pouquíssimas relações com o filme original de 1985, apresentando uma história excessivamente diferente e sem interesse, abusando da liberdade de criação artística (e nesse caso, de “destruição artística”, com uma história ridícula). Exagerando nos clichês, na gritaria e correrias desenfreadas, nos tiroteios ensurdecedores, convidando o espectador ao sono. Não consegue prestar nenhuma homenagem, não acrescenta nada e ainda desonra o universo ficcional dos mortos-vivos de George Romero. Já encheu o saco assistir filmes com infectados podres perseguindo os vivos, com exceção notável dos dois ótimos filmes da franquia “Extermínio”, da dupla de ingleses Danny Boyle e Alex Garland.

Obs.: Como o assunto desse texto também é o diretor George Romero, o “pai dos mortos-vivos”, vale registrar que em 2007 ele lançou um quinto filme dentro do sub-gênero em que é especialista. Trata-se de “Diary of the Dead”, utilizando a moda de histórias filmadas com câmeras de mão em primeira pessoa. E existe o projeto de uma seqüência em 2009.

“Dia dos Mortos” (Day of the Dead, Estados Unidos, 2008) # 494 – data: 22/05/08
www.bocadoinferno.com.br
(postado em 22/05/08)

O Nevoeiro (The Mist, EUA, 2007)


A filmografia baseada na obra literária de Stephen King é muito grande e normalmente considerada de qualidade duvidosa, com algumas exceções. Mas, o ano de 2007 revelou dois filmes especialmente relevantes que foram dignos das histórias de King: “1408” e “O Nevoeiro” (The Mist), onde este último entrou em cartaz nos cinemas brasileiros somente no final do primeiro semestre de 2008, baseado na novela homônima do famoso autor, e que foi publicada em 1985 na coletânea “Tripulação de Esqueletos” (Skeleton Crew). O roteiro e direção são de Frank Darabont, o mesmo de outras duas ótimas adaptações de King, “Um Sonho de Liberdade” (The Shawshank Redemption, 1994), com Morgan Freeman, e “À Espera de Um Milagre” (The Green Mile, 1999), com Tom Hanks.

David Drayton (Thomas Jane) é um artista que faz ilustrações para posters de filmes (curiosamente, em sua galeria aparece o cartaz de “O Enigma de Outro Mundo”, filme de 1982 dirigido por John Carpenter). Ele vive nos arredores de uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos e quando vai com o filho pequeno, Billy (Nathan Gamble), até o supermercado fazer compras de mantimentos após uma severa tempestade que derrubou árvores em sua propriedade, ele é surpreendido por um misterioso fenômeno, um nevoeiro colossal. Uma vez refugiado no interior da loja, juntamente com várias outras pessoas, entre elas a professora Amanda Dumfries (a bela Laurie Holden), a fanática religiosa Sra. Carmody (Marcia Gay Harden), e seu vizinho encrenqueiro e cético Brent Norton (Andre Braugher), David descobre que o nevoeiro esconde criaturas horrendas de todos os tipos, desde monstros enormes com tentáculos até insetos alados menores, além de aranhas e outros seres similares. Agora, seu desafio é tentar entender o que aconteceu, defender a vida de seu filho e sobreviver tanto ao ataque dos monstros repulsivos ocultos na névoa quanto dos conflitos da própria raça humana, gerados no interior do supermercado nos momentos de adversidade.

Um ótimo filme de horror, com final perturbador e a presença de criaturas indizíveis e grotescas que parecem vindas diretamente da literatura macabra de outro escritor famoso, H. P. Lovecraft, que talvez tenha servido de influência para Stephen King criar sua história. Temos também a tradicional “conspiração militar”, com o Exército sempre envolvido em projetos secretos, escondendo da opinião pública suas atividades obscuras, além da exploração bem arquitetada das conseqüências equivocadas do fanatismo religioso e os conflitos pessoais da espécie humana, onde os relacionamentos tensos passam também a tornarem-se uma preocupação para a sobrevivência, quando um grupo de pessoas está acuado num lugar fechado e isolado, sob a ameaça de algo desconhecido.

“O Nevoeiro” (The Mist, Estados Unidos, 2007) # 493 – data: 21/05/08
www.bocadoinferno.com.br
(postado em 22/05/08)

A Dama na Água (Lady in the Water, EUA, 2006)



O cineasta indiano radicado nos Estados Unidos M. Night Shyamalan tornou-se famoso de forma instantânea em 1999 com “O Sexto Sentido” (The Sixth Sense). A partir daí, ele lançou outros filmes que não conseguiram igualar o mesmo resultado, mas que o rotularam como um diretor comercial associado ao gênero fantástico, sempre apresentando histórias interessantes (onde também é o autor dos roteiros). Foram assim com “Corpo Fechado” (Unbreakable, 2000), “Sinais” (Signs, 2002) e “A Vila” (The Village, 2004). É um cineasta comercial, pois seu nome já desperta um interesse especial como marketing para a indústria de cinema, também reforçado por trabalhar com atores renomados como Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Mel Gibson, Joaquin Phoenix, Adrien Brody, William Hurt, Sigourney Weaver e Paul Giamatti. Seu perfil está definitivamente ligado ao fantástico, pois todos os seus filmes mais importantes investem na utilização de situações sugestivas (ao invés de violência e sangue) e sempre possuindo fortes elementos de horror, suspense, ficção científica e fantasia. Aliás, esse último sub-gênero é o foco principal de “A Dama na Água” (Lady in the Water, 2006), que entrou em cartaz nos cinemas brasileiros em 01/09/06.

Um zelador de um condomínio de prédios, Cleveland Heep (Paul Giamatti), que vive atormentado por um passado marcado por violência, encontra uma bela mulher, Story (Bryce Dallas Howard), que surgiu da piscina. Ele descobre que ela é uma “narf”, uma criatura aquática que veio para tentar ajudar a humanidade. Porém, ela é ameaçada por uma fera similar a um lobo, com pelagem verde e extremamente agressiva, que a impede de retornar ao seu mundo. Cabe ao zelador descobrir todos os elementos que envolvem literalmente esse “conto de fadas” para tentar salvar a vida de Story e ajuda-la a retornar para casa.

Shyamalan baseou-se numa história poética e sensível que criou para contar aos seus filhos, transformando-a em filme. Aliás, um filme com ritmo mais cadenciado, investindo mais num drama com elementos fantásticos, apresentando uma mitologia com seres retirados tipicamente de uma “história de ninar”. Apesar da narrativa excessivamente pausada, da falta de situações mais tensas, da existência de alguns personagens patéticos e sem importância, além do desfecho previsível e convencional (fugindo totalmente das reviravoltas e finais surpresas de seus filmes anteriores), “A Dama na Água” tem seus bons momentos de entretenimento, principalmente nas cenas entre Cleveland e Story, com ótimas interpretações de Paul Giamatti (que atuou sob forte maquiagem na versão de 2001 de “Planeta dos Macacos”) e da jovem Bryce Dallas Howard (que também esteve em “A Vila”).

“A Dama na Água” (Lady in the Water, Estados Unidos, 2006) # 492 – data: 07/04/08
www.bocadoinferno.com.br
www.juvenatrix.blogspot.com.br (postado em 08/04/08)