O Olho Que Tudo Vê (My Little Eye, Inglaterra, França, EUA, 2002)

Você não vê o medo. Você sente

Abordando a moda atual dos “reality shows”, no estilo do popular programa de TV “Big Brother”, utilizando como cenário uma enorme casa com estilo gótico isolada numa floresta, e com o auxílio da moderna tecnologia através da transmissão ininterrupta pela internet, a rede mundial de computadores, obtemos como resultado o thriller com elementos de horror “O Olho Que Tudo Vê” (My Little Eye), dirigido pelo galês Marc Evans e que estreou nos cinemas brasileiros em 30/05/03, explorando essa mistura de idéias de forma perturbadora.

Um grupo de cinco jovens é escolhido para participar de um “reality show” transmitido pela internet. Os eleitos são típicos estereótipos representados através de três homens, o galã Matt (Sean Cw Johnson), o rejeitado Danny (Stephen O’Reilly) e o “doidão” Rex (Kris Lemche), e de duas mulheres, a exibicionista Charlie (Jennifer Sky), e a “certinha” Emma (Laura Regan). Com motivações variadas, desde a obtenção de sucesso, fama, dinheiro e até por simples curiosidade, eles precisam passar seis meses confinados numa mansão com estilo gótico, localizada no meio de uma floresta, sendo filmados por diversas câmeras espalhadas por todos os cômodos. Ao contrário dos tradicionais jogos similares da televisão, os participantes não são eliminados com o passar do tempo, não há aquelas “festinhas” ridículas e nem precisam realizar provas para ganhar comida ou outros objetos. Eles precisam permanecer todos juntos até o final do programa, sem nenhuma desistência, para serem recompensados cada um com a quantia significativa de um milhão de dólares. Se qualquer um deles sair por desistência, todos perdem juntos, tornando o objetivo final ainda mais difícil de ser conquistado.
Esse argumento básico já foi utilizado de forma similar e com algumas variações no filme “A Casa da Colina” (House on Haunted Hill, 1999), de William Malone, onde nesse caso cinco pessoas são convidadas a passar uma noite numa mansão assombrada e quem sobrevivesse ganharia um milhão de dólares. Por sua vez, “A Casa da Colina” é uma refilmagem de uma produção “B” de 1958, “A Casa dos Maus Espíritos”, dirigida por William Castle e estrelada pelo lendário Vincent Price.

“O Olho Que Tudo Vê” começa mostrando cenas da fase de seleção dos participantes, com curtos depoimentos dos escolhidos. Depois passa rapidamente para o confinamento na casa, já próximo do final dos seis meses, na última semana do programa. Nesse momento os personagens são melhor apresentados e ocorrem alguns inevitáveis sinais de desgaste entre eles após tanto tempo juntos no mesmo lugar e isolados do resto do mundo, sendo vigiados constantemente por incômodas câmeras.
Porém, para tumultuar ainda mais o tenso ambiente, começam a acontecer eventos estranhos ameaçando a estabilidade emocional dos jovens, como a descoberta de uma inscrição ofensiva em uma das janelas da casa, ou o aparecimento de um martelo ensanguentado na cama de Emma, ou pior ainda, a visita inesperada de um misterioso esquiador perdido, Travis Petterson (Bradley Cooper), que alega não conhecer o jogo transmitido pela internet.
A partir daí, a história alcança seu clímax de tensão, com crescentes conflitos psicológicos entre os personagens e com a morte e o mistério envolvendo o assustado grupo de jovens, culminando com um trágico desfecho revelador.

Lembrando filmes como “A Bruxa de Blair”, pelo clima de claustrofobia e horror, e “O Show de Truman”, pela incômoda exposição pública da vida dos personagens 24 horas por dia, o roteiro básico de “O Olho Que Tudo Vê”, escrito por David Hilton e James Watkins, não tem grande originalidade, aproveitando todos os clichês usuais de filmes similares. Com um grupo vivendo numa enorme casa gótica, isolada numa floresta coberta por chuvas incessantes de neve, enfrentando o aparecimento de situações misteriosas e sendo dizimado violentamente pelas ações de um assassino, que pode ser de origem externa ou do próprio grupo. E alguns absurdos da história ficaram muito evidentes como por exemplo o fato de simplesmente ser desprezada a óbvia repercussão e influência dos familiares dos jovens confinados na macabra mansão quando começam a acontecer atividades fora da normalidade, ou ainda a notável falta de intimidade e interação entre os participantes do jogo, mesmo estando reclusos numa mansão isolada por quase seis meses.
Mas o filme tem ao seu favor a interessante idéia de acrescentar novos elementos à trama, com um suposto “jogo” no estilo “reality show”, filmado de forma ininterrupta por câmeras que transmitem as imagens por internet para espectadores sedentos por violência real, explorando com eficiência a misteriosa mitologia que envolve os chamados “snuff movies” (filmes ilegais com supostas mortes reais em cena e que já se transformaram numa espécie de “lenda urbana”).
O título escolhido para o lançamento do filme no Brasil é até adequado e coerente com a história, porém o ideal e mais apropriado ainda seria a simples tradução do original, “My Little Eye” para “Meu Pequeno Olho”. Os responsáveis pela escolha dos nomes nacionais dos filmes que chegam por aqui ainda continuam insistindo em complicar de forma equivocada essa fácil tarefa. Outro detalhe é que “O Olho Que Tudo Vê” é mais um desses filmes que demoram demais para serem lançados no Brasil, o que é um fato lamentável, sendo desnecessária essa longa espera, pois estreou na Inglaterra em 04/10/02 e somente veio para nós quase oito meses depois.
O diretor Marc Evans não é muito conhecido, e seu principal trabalho anterior foi com o thriller “A Ressurreição” (Resurrection Man, 1998), filme inglês com Stuart Townsend. Os atores também são novatos, com destaque para Kris Lemche que interpretou Rex, o personagem mais interessante da trama, um viciado em informática e fumante de maconha que fica fazendo caretas para as câmeras e dizendo claramente seus objetivos em participar do jogo, visando unicamente o dinheiro do prêmio, provocando com frases ofensivas o público que está assistindo pela internet. Ator canadense nascido em 1978, ele participou também do perturbador filme de realidade virtual “ExistenZ”, dirigido por David Cronenberg em 1999, e do filme de horror “Possuída” (Ginger Snaps, 2000), de John Fawcett.
Dos outros atores, Sean Cw Johnson pode ser visto na série de TV e nos filmes para cinema da dispensável franquia “Power Rangers”, como Carter Grayson (Red Lightspeed Ranger); Jennifer Sky participou em vários episódios da série de TV “Xena: A Princesa Guerreira” (1995/2001), como a personagem Amarice e fez uma pequena ponta na comédia “O Amor é Cego” (Shallow Hal, 2001); e Laura Regan esteve num papel secundário em “Corpo Fechado” (Unbreakable, 2000), de M. Night Shyamalan e ao lado de Bruce Willis e Samuel L. Jackson, além da comédia “Alguém Como Você” (Someone Like You, 2001) e do suspense “Habitantes da Escuridão” (2002), apresentado por Wes Craven.

“O Olho Que Tudo Vê” (My Little Eye, 2002) – avaliação: 7 (de 0 a 10)
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(postado em 21/02/06)

O Olho Que Tudo Vê (My Little Eye, Inglaterra, França, Estados Unidos, 2002). Working Title. Duração: 95 minutos. Direção de Marc Evans. Roteiro de David Hilton e James Watkins. Produção de Jonathan Finn, Allan Greenspan, David Hilton e Jane Villiers. Fotografia de Hubert Taczanowski. Música de Bias. Direção de Arte de Laura MacNutt. Edição de Mags Arnold. Efeitos Especiais de Mark Ahee, Darcy Callaghan, Michael Gagnon e John LaForet. Elenco: Sean Cw Johnson (Matt), Jennifer Sky (Charlie), Kris Lemche (Rex), Stephen O’Reilly (Danny), Laura Regan (Emma), Bradley Cooper (Travis Patterson), Nick Mennell (Policial).

Olhos Famintos 2 (Jeepers Creepers 2, EUA, 2003)

A cada 23 primaveras, durante 23 dias, a coisa precisa comer

No dia 15 de Novembro de 2001 estreou nos cinemas brasileiros o filme de horror “Olhos Famintos” (Jeepers Creepers), escrito e dirigido por Victor Salva e produzido pela “American Zoetrope”, do prestigiado cineasta Francis Ford Coppola. A história mostra um casal de jovens irmãos, Darry e Trish (interpretados por Justin Long e Gina Phillips, respectivamente), que estão viajando de carro pelo interior dos Estados Unidos rumo a uma visita aos pais, quando surpreendem um misterioso motorista de caminhão despejar dois grandes pacotes amarrados envoltos em lençóis brancos e manchados de vermelho numa clara alusão a corpos, em uma sinistra tubulação nos jardins de uma igreja abandonada. Ao investigarem descobrem uma cena bizarra, um porão com centenas de cadáveres apodrecidos. A partir daí, eles passam a ser perseguidos por uma criatura demoníaca alada (Jonathan Breck), que se fortalece alimentando-se de partes de corpos humanos como os olhos, língua, coração ou vísceras, escolhidos metodicamente pelo cheiro exalado das vítimas quando em estado de medo.
Apesar de irregular, o filme conseguiu o sucesso suficiente para justificar a produção de uma sequência e pouco mais de dois anos depois, em 01/01/04, entrou em cartaz em nossos cinemas a continuação, “Olhos Famintos 2” (Jeepers Creepers 2), novamente escrito e dirigido por Victor Salva e produzido por Coppola. O novo filme da franquia é notavelmente superior, bem mais intenso, apresentando mais ação e violência, e principalmente com uma participação maior e mais efetiva do grande vilão, o lendário demônio antropófago, mais temível e ameaçador do que nunca.

Segundo uma lenda, uma criatura diabólica surge a cada 23 anos, para atacar e se alimentar das pessoas durante 23 dias. O monstro não mata aleatoriamente, ele escolhe cuidadosamente suas vítimas de acordo com o interesse em determinadas partes de seus corpos, alimentando-se e regenerando seu próprio corpo, utilizando como principal referência o cheiro exalado devido ao medo.
A história de “Olhos Famintos 2” é ambientada dez dias depois dos eventos trágicos do primeiro filme e entre os dois últimos dias do ciclo de alimentação de demônio. Um fazendeiro, Taggart (Ray Wise), e seus dois filhos, Jack (Luke Edwards) e Billy (Shaun Flemming), estão trabalhando numa plantação de milho cercada de espantalhos, quando o garoto Billy é brutalmente atacado e levado como alimento por uma criatura alada (novamente interpretada por Jonathan Breck), despertando uma fúria vingativa no pai, perplexo e impotente por testemunhar a ação assassina do incrível monstro de asas.
A ação volta-se para um ônibus escolar percorrendo uma estrada pouco movimentada de uma região rural. Em seu interior está um grupo de estudantes adolescentes formado por uma equipe de jogadores de basquete que acabaram de conquistar um campeonato, tendo entre eles os rivais Deaundre Davis (Garikayi Mutambirwa) e Scott Braddock (Eric Nenninger), além de três líderes de torcida, a sensitiva Minxie Hayes (Nicki Lynn Aycox), Chelsea Farmer (Lena Cardwell) e Rhonda Truitt (Marieh Delfino), as únicas mulheres do grupo junto com a motorista Betty (Diane Delano). Entre os homens, há também a presença dos dois treinadores, Charlie Hanna (Thom Gossom Jr.) e Dwayne Barnes (Tom Tarantini).
O ônibus é obrigado a parar quando tem um pneu estourado misteriosamente por um artefato desconhecido parecido com uma estrela confeccionada com ossos ou dentes pontiagudos, arremessado com extrema velocidade e precisão por um predador preparando o ataque em sua caça.
A partir daí, com a chegada da noite as pessoas candidatas à vítimas ficam presas no interior do ônibus, sendo ferozmente atacadas por um demônio voador, instigando seus mais básicos instintos de sobrevivência, obrigando-as a lutar por suas vidas e evidenciando também uma série de conflitos internos e crises de relacionamento típicos do ser humano, num intenso clima de claustrofobia. Abandonados na estrada, os jovens enfrentam as ações da criatura até receberem a ajuda de Taggart, sedento de ódio e vingança, que está no encalço do monstro e traz em sua carro uma arma caseira parecida com um arpão de caçar baleias, culminando num confronto mortal entre ele e o terrível demônio, “um morcego fora do inferno”.

“Olhos Famintos 2” é certamente superior ao original, o que já é um fato notável, pois a maioria das continuações não conseguem manter o nível de qualidade de seus anteriores, muito menos ainda superá-los. Essa segunda parte é muito mais intensa, carregada de uma boa dose de ação, com mortes violentas, muitas cenas de tensão envolvendo o confronto mortal entre a faminta criatura demoníaca e suas vítimas, além de apresentar mais personagens e explorar seus relacionamentos, evidenciando a fragilidade do ser humano quando pressionado num estado de tensão crescente ao lutar pela sobrevivência. O roteiro procurou enfatizar os preconceitos étnicos e as rivalidades entre jovens estudantes, que abandonam sem hesitar o senso de humanidade quando suas vidas correm perigo, defendendo unicamente seus interesses pessoais, mesmo que isso signifique a morte de quem está ao seu lado.
Algumas cenas de destaque são quando o monstro alado degola uma vítima para utilizar sua cabeça num processo de regeneração, devido à perda de parte de seu cérebro num confronto com os estudantes. Ou todos os momentos de pura claustrofobia quando os jovens estão presos no ônibus isolado numa estrada escura e deserta, sendo observados pelo monstro em seu processo de escolha da vítima pelo cheiro do medo. Ou ainda quando os jovens decidem abandonar o ônibus num momento de grande tensão, correndo de forma desesperada por suas vidas espalhando-se nas fazendas vizinhas da estrada, como se fossem um tipo de gado fugindo de um predador, que nesse caso é um demônio voador que da sua posição privilegiada no alto, escolhe quem vai morrer.
Porém, como sendo um filme de horror voltado exclusivamente para o entretenimento, numa análise sem muita atenção podemos encontrar uma série de situações inverossímeis em cenas exageradas e absurdas com furos significativos no roteiro, mas que não comprometem a diversão para os menos exigentes. Uma cena em especial que incomoda é quando o demônio está lutando com um dos “heróis” sobreviventes, o estudante negro Deaundre Davis, onde mesmo o monstro estando ferido, deveria facilmente estrangular seu oponente, um simples ser humano, que aliás, já estava no lucro ao sobreviver milagrosamente (ou melhor, graças ao roteirista), de um incrível acidente de carro momentos antes. Outras situações difíceis de serem assimiladas pelo espectador são quando Taggart, um simples fazendeiro promovido a “destemido caçador de demônios”, se confronta mortalmente com a criatura mais de uma vez, com um arpão caseiro parecido com aqueles que são utilizados para caçar baleias em alto mar.

Entre as curiosidades, a mais interessante é uma frase muito engraçada escrita na placa de um carro que viajava pela estrada e que cujo motorista também tornou-se mais uma vítima da criatura: “Eu não sou um idiota completo. Algumas partes ainda estão faltando.” Além do bom humor a frase tem uma relação com o próprio demônio do filme, que se alimenta de partes de suas vítimas, conforme a necessidade, tendo o poder de regeneração de seus órgãos afetados.
O visual obscuro da criatura é bem atrativo também, vestido todo de preto, com chapéu e sobretudo, evidenciando o destaque macabro do branco dos olhos e dentes afiados. A intenção anunciada dos produtores é realizar uma terceira parte como uma pré-sequência, que seria ambientada nos tempos do velho oeste americano, se bem que o desfecho desse segundo filme deixou claramente um gancho aberto para uma sequência com eventos posteriores. Resta-nos esperar pelos próximos acontecimentos envolvendo a franquia.
O ator coadjuvante Tom Tarantini, que foi o treinador Dwayne na continuação, também havia participado do primeiro filme, no papel de Austin McCoy. Assim como Justin Long, um dos protagonistas do original, que voltou com uma participação rápida em cenas de pesadelo da jovem sensitiva Minxie, que tem o poder psíquico de se comunicar com o jovem morto, sendo alertada por ele da existência e história da criatura, e conseguindo prever alguns dos acontecimentos trágicos que assolaram o grupo de estudantes.
O orçamento de “Olhos Famintos 2” foi de aproximadamente 25 milhões de dólares, cujo investimento já foi recuperado pelas boas bilheterias nos Estados Unidos, quando estreou no final de Agosto de 2003.
Na sequência final, numa determinada cena em especial podemos visualizar a frase “Like a bat out of hell” (“Como um morcego fora do inferno”), a qual seria inicialmente utilizada como subtítulo para o filme. Depois, os produtores decidiram abandonar a idéia e o título original ficou apenas “Jeepers Creepers 2”, numa decisão acertada porque os subtítulos na maioria das vezes apenas criam confusões e mais burocracia (basta ver como exemplo os inúmeros e descartáveis subtítulos para os vários filmes das séries “Sexta-Feira 13”, “A Hora do Pesadelo”, “Halloween”, “Hellraiser” e “Colheita Maldita”, quando eles poderiam apenas ser nomeados com suas respectivas partes 2, 3, 4, etc...). Aliás, já que estamos falando de nomes nacionais para os filmes que chegam por aqui, podemos dizer que “Olhos Famintos” foi uma boa escolha, pois tem relações com a história e o título original possui uma tradução muito difícil que não soaria bem em nosso idioma. Curiosamente, segundo o conceituado dicionário Inglês-Português “Michaelis”, “Jeepers” significa uma interjeição usada para definir uma exclamação de admiração ou emoção e “Jeepers Creepers” é um eufemismo para a expressão “Jesus Christ”, muito utilizada como gíria entre os americanos. Mas outra referência para o título “Jeepers Creepers” é uma canção homônima de Johnny Mercer, gravada em 1938 por Louis Armstrong.

O cineasta americano Victor Salva nasceu na California em 1958 e sua carreira ainda é curta, com poucos filmes no currículo. Ele foi descoberto por Francis Ford Coppola num concurso de curtas metragens e recebeu a oportunidade de criar os personagens, escrever a história e dirigir os dois filmes do universo ficcional de “Olhos Famintos”. No gênero horror ele já dirigiu “Palhaço Assassino” (Clownhouse, 88).
Francis Ford Coppola é um daqueles nomes que estão eternamente associados ao cinema como diretor, produtor e roteirista, devido a sua significativa contribuição para a história dessa arte fascinante. Nascido em 1939 no Estado americano de Michigan, ele iniciou sua consagrada carreira fazendo parte da equipe de produção do lendário Roger Corman, o conhecido “Rei dos Filmes B”, ao dirigir o horror “Dementia 13” em 1963, uma história de assassinatos e loucura inspirada por “Psicose”, filmado por Alfred Hitchcock três anos antes. Coppola ficou muito conhecido pela trilogia da máfia “O Poderoso Chefão” (iniciada em 72), trabalhando com atores como Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall e Robert De Niro. Alguns anos depois, em 1979, ele lançou um dos maiores clássicos de todos os tempos sobre a guerra do Vietnã, com o polêmico, crítico e insuperável “Apocalypse Now”, com Marlon Brando e Martin Sheen. No horror, Coppola também foi o responsável por um dos mais importantes filmes abordando o lendário vampiro Drácula através de sua obra “Drácula de Bram Stoker” (92), com Gary Oldman, Anthony Hopkins, Winona Ryder e Keanu Reeves.

Ele pode sentir o gosto de seu medo

“Olhos Famintos 2” (Jeepers Creepers 2, 2003) – avaliação: 7 (de 0 a 10)
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(postado em 21/02/06)

Olhos Famintos 2 (Jeepers Creepers 2, Estados Unidos, 2003). American Zoetrope. Duração: 104 minutos. Direção e roteiro de Victor Salva. Produção de Tom Luse. Produção Executiva de Francis Ford Coppola. Música de Bennett Salvay. Fotografia de Don E. FauntLeRoy. Edição de Ed Marx. Elenco: Ray Wise (Taggart), Jonathan Breck (Criatura), Garikayi Mutambirwa (Deaundre Davis), Eric Nenninger (Scott Braddock), Nicki Lynn Aycox (Minxie Hayes), Travis Schiffner (Izzy Bohen), Lena Cardwell (Chelsea Farmer), Billy Aaron Brown (Andy Buck), Marieh Delfino (Rhonda Truitt), Diane Delano (Betty), Thom Gossom Jr. (Charlie Hanna), Tom Tarantini (Dwayne Barnes), Al Santos (Dante Belasco), Josh Hammond (Jake Spencer), Kasan Butcher (Kimball Ward), Drew Tyler Bell (Jonny Young), Luke Edwards (Jack Taggart Jr.), Shaun Flemming (Billy Taggart), Justin Long (Darry Jenner).

O Observador (The Watcher, EUA, 2000)

Nunca é fácil. Você passa pela porta e eles nunca estão ali sentados, te esperando com um sorriso de boas vindas no rosto. Você sabe que eles vão te sacanear, mas tem que fazer o melhor possível... O tempo acabou.
Joel Campbell, agente do FBI

Os filmes que apresentam violentos “assassinos em série” como assunto principal em seus argumentos fazem parte de mais uma interessante temática dentro do fascinante cinema de Horror. Como existe uma infinidade de produções que já exploraram à exaustão essas idéias básicas, as histórias sobre “serial killers” raramente conseguem trazer alguma originalidade ao estilo, com os diversos filmes se parecendo muito entre si. É o caso também de “O Observador” (The Watcher, 2000), filme de estréia (e o único até agora) do desconhecido diretor Joe Charbanic, que traz um elenco acima da média com James Spader, a bela Marisa Tomei e o popular Keanu Reeves.
“O Observador” entrou em cartaz nos cinemas brasileiros em Março de 2001, e foram e continuam sendo produzidos tantos filmes com história similar nos últimos anos que o tema perdeu um pouco de sua intensidade, com o interesse por esses thrillers se desgastando inevitavelmente. Após o bem sucedido “Seven – Os Sete Crimes Capitais” (95), com Morgan Freeman e Brad Pitt, vieram em seu rastro “O Principal Suspeito” (98), com Nick Nolte, “Ressurreição – Retalhos de Um Crime” (99), com Christopher Lambert, “O Colecionador de Ossos” (99), com Denzel Washington e Angelina Jolie, entre outros, e todos explorando as conturbadas relações psicológicas entre o assassino psicopata e seus perseguidores implacáveis, policiais determinados e também exaustos, próximos de um colapso físico e mental.

A história de “O Observador” está centrada no duelo particular entre um sádico e frio assassino de mulheres, David Allen Griffin (Keanu Reeves), e um agente do FBI, Joel Campbell (James Spader). Após três anos no caso e com o fracasso de não conseguir evitar a morte de onze vítimas em Los Angeles, incluindo de Lisa (Yvonne Niami), uma namorada que morreu queimada graças a um erro seu (fato que o atormenta em constantes pensamentos de flashbacks), o policial Campbell decidiu se mudar para Chicago, deixando a investigação e tentando se curar de uma perturbação mental que só é amenizada com a ingestão de fortes medicamentos. Ele faz duas sessões de terapia por semana com a psiquiatra Dra. Polly Beilman (a bela Marisa Tomei), onde tenta exorcizar seus demônios, vivendo uma vida atormentada pelo vício em remédios, a solidão, o sentimento de culpa e a incapacidade de deter o “serial killer”.
Porém, o assassino, um exímio e inteligente “observador”, que estuda detalhadamente o perfil e rotina de suas vítimas, mulheres jovens e solitárias, vem atrás de Campbell e passa a atacar em Chicago, despertando a atenção da polícia local ao iniciar um jogo mortal enviando sempre uma foto da futura vítima e estabelecendo para a polícia o curto prazo de 24 horas para localizar a mulher antes de sua morte.
Uma vez o psicopata incitando Campbell a voltar para o caso e fazer parte novamente do jogo psicológico, o agente aceita o desafio e com a ajuda de dois parceiros do FBI, Hollis (Chris Ellis) e Mitch (Robert Cicchini), eles partem para uma caçada desesperada contra o tempo na tentativa de evitar o assassinato anunciado de duas mulheres, a funcionária de uma loja de shopping, Ellie (Louise Smith), e uma moradora de rua, Jessica (Jill Peterson). Após uma série de perseguições, correria, tiroteios, e mortes, o confronto final entre o assassino e o policial culmina com um clímax envolvendo também a psiquiatra Dra. Polly como escolhida para próxima vítima.

“O Observador” é apenas mais um filme comum do gênero “serial killer”, não conseguindo despertar um interesse maior ou ser empolgante acima da média em sua história de eterna perseguição entre assassino e policial. Existem várias boas sequências de ação como barulhentas perseguições de carros, além também de alguns momentos tensos de suspense psicológico, mas nada tão relevante que não se esqueça rapidamente. São poucas mortes e o assassino poderia ser bem mais insano e cruel, além do fato de que Keanu Reeves não parece muito entusiasmado em sua atuação (curiosamente ele também fez outro papel de homem violento em “O Dom da Premonição”, 2001, de Sam Raimi). Do trio principal de protagonistas, a atriz Marisa Tomei também não está muito inspirada como uma psiquiatra que só tem ao seu favor o fato de ser uma mulher muito bela, e somente James Spader parece convencer como um policial atormentado e viciado em remédios, conseguindo evidenciar em alguns momentos o sufocante sentimento de “stress” de seu personagem.
Um furo considerável no roteiro é quando uma das vítimas do assassino “observador” é apresentada como uma jovem foragida de casa e moradora de rua, que em nenhum momento desperta veracidade pois é muito “bonitinha e limpinha” como alguém que vive pedindo esmolas e dorme em becos escuros de uma grande cidade. Outro detalhe negativo é o super previsível desfecho, resolvido numa sequência muito rápida e que poderia ser melhor desenvolvido, intensificando mais o confronto psicológico entre o assassino e o policial.

Seguem algumas informações sobre o elenco principal. Keenu Reeves nasceu em 1964 na cidade de Beirute, Líbano, e ficou muito conhecido ao fazer o papel de Neo na trilogia de FC “Matrix”. Outros filmes de horror de sua carreira são “Drácula de Bram Stoker” (92) e “O Advogado do Diabo” (97). Um de seus próximos projetos é “Constantine”, adaptação para as telas de outro personagem cultuado dos quadrinhos, com previsão de lançamento em 2004. James Spader nasceu em 1960 no Estado americano de Massachusetts, e com uma carreira de mais de 40 filmes, no gênero fantástico já atuou na FC “Stargate” e no horror “Lobo” (ambos de 94), além de “Crash – Estranhos Prazeres” (96) e “Supernova” (2000). Já Marisa Tomei, nascida em 1964 em New York, é mais conhecida como comediante em filmes como “Tratamento de Choque” (2003), e curiosamente ela participou de forma não creditada numa ponta no obscuro “O Vingador Tóxico” (The Toxic Avenger, 1985), divertida produção trash da “Troma”, de Lloyd Kaufman.

“O Observador” (The Watcher, 2000) – avaliação: 6 (de 0 a 10)
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(postado em 20/02/06)

O Observador (The Watcher, Estados Unidos, 2000). Universal. Duração: 97 minutos. Direção de Joe Charbanic. Roteiro de David Elliot e Clay Ayers, baseado em história de Darcy Meyers e David Elliot. Produção de Christopher Eberts, Elliott Lewitt e Jeff Rice. Música de Marco Beltrami. Fotografia de Michael Chapman. Edição de Richard Nord. Elenco: James Spader (Joel Campbell), Marisa Tomei (Polly Beilman), Keanu Reeves (David Allen Griffin), Chris Ellis (Hollis), Robert Cicchini (Mitch), Yvonne Niami (Lisa), Ernie Hudson (Ibby), Jenny McShane (Diana), Gina Alexander (Sharon), Rebakah Louise Smith (Ellie), Jill Peterson (Jessica).

O Enviado (Godsend, EUA / Canadá, 2004)

Geralmente a existência de um elenco conhecido desperta o interesse dos fãs em assistir um filme, mas nem sempre esses atores talentosos conseguem garantir seu sucesso. Uma prova disso é “O Enviado” (Godsend), que entrou em cartaz nos cinemas brasileiros em 24/09/04 e que apesar de ter o grande Robert De Niro ao lado do casal Greg Kinnear e Rebecca Romijn-Stamos, é um filme tão convencional e com um roteiro tão confuso e cheio de furos e clichês que nem os atores famosos puderam evitar seu resultado insatisfatório e inevitável fracasso.

A história é sobre a família Duncan, formada pelo pai Paul (Greg Kinnear, de “O Dom da Premonição”), um professor de biologia, a mãe Jessie (Rebecca Romijn-Stamos, de “Femme Fatale”), uma fotógrafa, e o alegre filho Adam (Cameron Bright). Eles viviam felizes até o oitavo aniversário de Adam, quando o garoto morre num violento acidente de carro (aqui o filme perdeu uma grande oportunidade de mostrar em detalhes um atropelamento). Arrasado com a morte trágica do filho, o casal é surpreendido pela visita do Dr. Richard Wells (Robert De Niro), um renomado geneticista que já foi professor de Jessie e que faz uma proposta incrível para eles: a clonagem do filho morto, num procedimento similar a uma inseminação artificial.
Inicialmente relutantes com a surpresa da proposta, principalmente o pai Paul pelas questões éticas, morais e a legalidade do procedimento, logo depois eles aceitam a oferta na esperança de aliviar seus sofrimentos com a perda prematura do filho, ganhando uma nova oportunidade de terem o menino de volta, mesmo que na figura de um clone.
A partir daí, eles são obrigados a se mudarem para uma cidade pequena e distante, onde se localiza o instituto de fertilização “Godsend” (daí o título original do filme), comandado pelo Dr. Richard Wells, onde ganham da clínica uma bela e enorme casa, emprego e vida nova para criarem o filho Adam, numa exigência necessária para se afastarem dos antigos amigos e familiares pois ninguém poderia saber da experiência ilegal de clonagem. Eles voltaram a viver felizes novamente até o filho completar oito anos, quando a partir de então, ingressando num período de vida inédito até para seu predecessor original, o garoto copiado começou a enfrentar uma série de eventos desconhecidos, sofrendo terríveis terrores noturnos com pesadelos e alucinações onde era atormentado pelo espectro de um garoto chamado Zachary, apresentando uma nova e misteriosa personalidade que poderia mudar o rumo das vidas de todos ao seu redor.

“O Enviado” é um thriller com elementos de ficção científica (através do tema da clonagem humana) e de horror (através da manifestação de uma personalidade maligna no garoto clonado), que infelizmente possui uma história confusa e que se sustenta praticamente apenas na tentativa de suspense com sustos fáceis que não convencem em nenhum momento. Essa idéia de crianças aparentemente dóceis se transformando em figuras ameaçadoras com olhares e expressões malignos é uma temática já tão explorada pelo cinema que já perdeu um pouco daquele efeito perturbador sobre o público, e no caso especificamente desse filme, o garoto influenciado pelo fantasma de um outro menino com um passado trágico não consegue transmitir aquela sensação de desconforto que deveria. A história toda é fantasiosa demais, principalmente pelo fato da família Duncan decidir clonar o filho morto e ser por isso obrigada a se isolar de tudo e todos que conheciam, afastando-se da vida anterior para ingressarem num mundo novo que gira em torno de uma experiência de clonagem que não pode ser descoberta devido a sua ilegalidade.

Entre as várias curiosidades podemos citar:
* “O Enviado” teve o trabalho de filmagens concluído no final de 2002, mas o filme somente entrou em cartaz nos cinemas americanos em 30/04/04, depois de adiamentos e somente quase cinco meses depois é que veio para o Brasil.
* As locações foram no Canadá, na cidade de Toronto, e a produtora “Lions Gate” fez uma promoção interessante permitindo que os fãs pudessem escolher qual seria o poster oficial do filme.
* Aliás, a produtora também utilizou outra idéia bem sucedida para a divulgação através da internet, lançando além do tradicional site com informações gerais do filme (www.godsendthemovie.com), um outro portal especificamente sobre o fictício “Instituto Godsend”, a clínica responsável pela clonagem do personagem Adam, o garoto de oito anos morto num atropelamento de carro no filme. Com o endereço eletrônico www.godsendinstitute.org muitos internautas acessaram o site e enviaram mensagens de protesto pela prática ilegal de clonagem humana, pois acreditaram que a clínica fosse real, já que não foi colocada nenhuma relação com o filme, demonstrando o bom resultado esperado pelos produtores ao criar um movimento e interesse em torno do assunto e da produção cinematográfica. Esse tipo de divulgação pela internet está cada vez mais sendo utilizado pelos produtores devido ao baixo custo e grande resposta dos visitantes, tendo como o maior exemplo de sucesso dessa tática promocional a lenda criada em torno dos eventos do filme “A Bruxa de Blair” (The Blair Witch Project, 1999), onde todos acreditavam serem reais antes de irem ao cinema.
* O diretor inglês Nick Hamm (de “O Buraco”), filmou vários finais diferentes e teve grande dificuldade na escolha daquele que se tornou o oficial. Não sei quanto às outras alternativas, mas a escolhida foi extremamente decepcionante e sem graça, com o filme tendo um desfecho irritante, que apenas manteve e confirmou o desinteresse da história.

“O Enviado” (Godsend, 2004) # 272 – data: 26/09/04 – avaliação: 5 (de 0 a 10)
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(postado em 20/02/06)

“O Enviado” (Godsend, Estados Unidos / Canadá, 2004). Lions Gate. Duração: 102 minutos. Direção de Nick Hamm. Roteiro de Mark Bomback. Produção de Marc Butan, Sean O´Keefe, Cathy Schulman, Mark Bomback e Steve Mitchell. Produção Executiva de Michael Burna, Mark Canton, Mark Cuban, Jon Feltheimer, Eric Kopeloff, Michael Paseornek e Todd Wagner. Fotografia de Kramer Morgenthau. Música de Brian Tyler. Edição de Niven Howie e Steve Mirkovich. Desenho de Produção de Doug Kraner. Direção de Arte de Arvinder Grewal, Nicolas Lepage e Jarik Van Sluijs. Elenco: Greg Kinnear (Paul Duncan), Rebecca Romijn-Stamos (Jessie Duncan), Robert De Niro (Dr. Richard Wells), Cameron Bright (Adam Duncan), Merwin Mondesir, Sava Drayton, Jake Simons, Elle Downs, Edie Inksetter, Raoul Bhaneja, Jenny Levie, Thomas Chambers, Munro Chambers, Jeff Christensen.

O Chamado (The Ring, EUA / Japão, 2002)

Before you die, you see... The Ring

Ultimamente o cinema de horror tem sido muito bem representado por filmes que tem priorizado explorar os sentimentos sugeridos de medo do ser humano, em vez de apenas apresentar de forma explícita monstros sobrenaturais, assassinos psicopatas tradicionais e banhos de sangue exagerados. Ótimos exemplos dessa bem sucedida linha de ação são os filmes “Os Outros” (The Others / Los Otros), no melhor estilo “casa mal assombrada”, com direção e roteiro do cineasta chileno Alejandro Amenábar, “O Pacto dos Lobos” (Le Pacte des Loups), produção francesa dirigida por Christophe Gans sobre uma criatura sobrenatural que aterroriza uma aldeia, “A Última Profecia” (The Mothman Prophecies), com Richard Gere enfrentando trágicas profecias, e “A Mão do Diabo” (Frailty), com direção estreante do ótimo ator Bill Paxton (que também atuou), tratando sobre insanidade e o mal interior do Homem. Todos esses filmes foram exibidos em 2002 nos cinemas brasileiros.
Em 31/01/03 estreou oficialmente no Brasil outro filme seguindo esse interessante estilo do cinema de horror, “O Chamado” (The Ring), um thriller sobrenatural da “DreamWorks” produzido por Walter F. Parkes e Laurie MacDonald (de “Gladiador” e “Homens de Preto II”), dirigido por Gore Verbinski (da comédia “A Mexicana”) e com roteiro de Ehren Kruger e Scott Frank, baseado em livro homônimo de Koji Suzuki. Kruger escreveu também “Pânico 3” e a ficção científica “Impostor”, com história inspirada em obra de Philip K. Dick, além de “A Chave Mestra” (2005).
O filme é na verdade uma refilmagem de um original japonês chamado “Ringu”, dirigido por Hideo Nakata em 1998 e escrito por Hiroshi Takahashi, e que transformou-se numa trilogia com a produção de outros dois filmes seguintes, “Ringu 2” e “Ringu 0”, sendo este último uma pré-sequência, os quais receberam nos Estados Unidos os títulos “The Ring 2” e “Ring 0: The Birthday”. Outro fato interessante a se notar tem sido também uma tendência atual do cinema americano em refilmar histórias que renderam bons filmes em outros países como já foi o caso do suspense com elementos de ficção científica “Vanilla Sky”, estrelado por Tom Cruise, que é uma refilmagem do espanhol “Abre los Ojos” (“Preso na Escuridão”, 1997), dirigido por Alejandro Amenábar.

“O Chamado” procura explorar uma “lenda urbana” mortal, a exibição de um estranho vídeo VHS amador amaldiçoado que provoca a morte de quem o assistiu após exatos 7 dias. Uma repórter, Rachel Keller (Naomi Watts, de “Cidade dos Sonhos”), teve sua sobrinha de dezesseis anos Katy Nurick (Amber Tamblyn) misteriosamente morta, e ao investigar o caso a pedido de sua irmã e mãe da menina, Ruth (Lindsay Frost), percebeu a existência de uma possível relação entre a morte dela e de mais três outros adolescentes (o namorado da garota e mais um casal de amigos), com a suposta maldição de uma fita de vídeo. Ela decidiu então realizar uma investigação pessoal que levou-a a uma pousada nas montanhas conhecida como “Shelter Mountain”, local onde encontrou o tal vídeo obscuro. Com imagens produzidas de forma amadora e mostrando cenas aparentemente desconexas com num confuso pesadelo, a fita mostra basicamente a tragédia da família de uma criadora de cavalos, Anna Morgan (Shannon Cochran), que mora numa ilha chamada “Moesko”, e a relação conturbada entre ela, seu marido Richard (Brian Cox, de “A Identidade Bourne”) e a misteriosa filha adotiva Samara (Daveigh Chase), incluindo ainda fatos estranhos como suicídios de cavalos desesperados que se atiravam ao mar.
Rachel acabou descobrindo realmente a existência da terrível maldição, quando após assistir a fita recebeu um telefonema anônimo informando de sua morte em sete dias. Ela procurou ajuda com seu ex-marido Noah (Martin Henderson, de “Códigos de Guerra”), que também assistiu a fita e é um especialista em fotografia e tecnologia de vídeo. O filho pequeno do casal, Aidan (David Dorfman), que demonstra possuir uma capacidade extrasensorial de comunicação com os mortos, lembrando os personagens sensitivos dos garotos Haley Joel Osment em “O Sexto Sentido” (1999) ou Danny Lloyd em “O Iluminado” (1980), acidentalmente também viu o filme, obrigando seus pais a correrem contra o tempo para descobrir a verdade sobre o macabro vídeo e uma forma de anular o feitiço e salvarem suas vidas.

O roteiro de “O Chamado” está repleto de reviravoltas, surpresas e informações soltas que propositadamente tem a intenção de criar dúvidas e divergências de interpretações no público, ganhando um interesse especial e obrigando-nos a refletir e imaginar os eventos que envolvem a sinistra história de um vídeo amador amaldiçoado. Detalhes que deverão ficar mais esclarecidos nas continuações que serão filmadas inevitavelmente, já que houve um grande sucesso comercial do filme.
Os maiores destaques certamente são uma sequência tensa envolvendo uma balsa e um cavalo em desespero, e a cena em que um “fantasma eletrônico” sai literalmente através da imagem de uma televisão para cumprir sua missão de vingança, lembrando situações similares do clássico moderno “Poltergeist – O Fenômeno” (1982), de Tobe Hooper.
Como curiosidade existem várias homenagens ao mestre do suspense Alfred Hitchcock, em sequências com referências aos seus filmes clássicos como “Psicose” (1960), na passagem onde há água escorrendo para o ralo do banheiro quando Rachel está tomando um banho (numa referência à famosa cena do assassinato do chuveiro), ou “Janela Indiscreta” (1954), através do vizinho de prédio de Rachel, que está assistindo televisão sentado numa poltrona e com uma das pernas quebrada (lembrando o personagem similar de James Stewart, que gostava de observar seus vizinhos com uma luneta).
Outros fatos curiosos foram o aparecimento rápido de imagens de círculos sutis de tamanhos variados, ao longo do filme, numa referência clara ao símbolo do vídeo amaldiçoado, e a ausência do ator Chris Cooper, que havia filmado algumas cenas como um assassino de crianças e foi cortado na edição final.
A exemplo do que já havia acontecido com o fenômeno “A Bruxa de Blair” (1999), foi também criado um interessante marketing pelos produtores utilizando a internet como meio de divulgação, para chamar a atenção do público quanto ao filme e a mitologia que envolve sua terrível “lenda urbana”. Foram construídos vários sites com produção amadora interligados entre si mostrando depoimentos de pessoas que supostamente tiveram contato com a fita macabra e sofreram as consequências da maldição, ou mesmo pessoas que tinham alguma informação sobre esse mistério, ou ainda mais detalhes da tragédia que se abateu sobre a família Morgan, que serviu de base para o conteúdo da fita de vídeo amaldiçoada.
É interessante notar como a história básica da refilmagem de “O Chamado” tem certa similaridade com outro filme de horror produzido na mesma época, “Medopontocombr” (FeardotCom), com direção de William Malone, onde seu roteiro é sobre um misterioso site da web que uma vez visitado causa a morte do internauta em 48 horas. Está cada vez mais perigoso navegar pela internet e assistir vídeos amadores obscuros e bizarros...
Dessa vez, os responsáveis pela escolha do título nacional para o filme foram bem sucedidos, já que “O Chamado” tem uma relação interessante com a história, uma vez que o espectador do vídeo misterioso é “chamado” para morrer uma semana após assistir as enigmáticas imagens, sendo uma alternativa muito boa para o consagrado título original “The Ring” (“O Anel”), que também tem uma forte ligação com a trama numa revelação interessante. Poderíamos até inventar uma frase similar a que foi utilizada para a propaganda original do filme, algo como “Antes de morrer, você ouve... O Chamado”.
Na equipe técnica da refilmagem americana destaca-se a presença do prestigiado maquiador Rick Baker, um dos melhores profissionais dessa área no mundo cinematográfico atual. Ele foi o responsável por premiados trabalhos em filmes como “Grito de Horror” (1980), “Um Lobisomem Americano em Londres” (1981), “Homens de Preto” (1997), “O Grinch” (2000), “Planeta dos Macacos” (2001), e “Homens de Preto II” (2002), especializando-se em filmes fantásticos e contribuindo de forma decisiva para transformar em realidade vários monstros do cinema. Ele foi o responsável pela famosa e já clássica sequência do bar repleto de alienígenas estranhos no primeiro filme produzido da franquia “Star Wars” (1977), além de criar o lobisomem do videoclip “Thriller” do cantor Michael Jackson.
Os produtores de “O Chamado” ficaram tão satisfeitos com o desempenho nas bilheterias que decidiram realizar uma seqüência. Foi grande o sucesso comercial do lançamento do filme, que teve um orçamento de US$ 45 milhões e faturou em pouco tempo o triplo desse valor.
“O Chamado 2” foi lançado nos cinemas brasileiros em Março de 2005 e distribuído em DVD em Setembro, trazendo novamente Naomi Watts e o garoto David Dorfman (que também esteve na refilmagem de “O Massacre da Serra Elétrica”, 2003). A continuação teve um resultado final bem inferior em relação ao original, dando um destaque maior para a assustadora garota de longos cabelos negros Samara.
Já o DVD de “O Chamado” tem como destaque entre o material extra, um vídeo inédito de quinze minutos feito pelo diretor Gore Verbinski revelando detalhes e segredos importantes para um melhor entendimento do mistério que envolve a fita amaldiçoada.
“O Chamado” é um filme de horror intrigante que merece a atenção dos fãs do gênero, e independente da veracidade da abordagem sobre uma lenda urbana de um vídeo amaldiçoado, sempre é bom lembrar as palavras do garoto sensitivo Aidan, quando preocupado falou para sua mãe sobre o fantasma vingativo de Samara: “Você não entende Rachel? Ela nunca dorme...

Nota: O filme foi exibido pela primeira vez na televisão aberta em 17/04/06, pela TV Globo, na sessão “Tela Quente”.

“O Chamado” (The Ring, 2002) – avaliação: 8,5 (de 0 a 10)
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(postado em 20/02/06)

O Chamado (The Ring, Estados Unidos / Japão, 2002). Duração: 115 minutos. Direção de Gore Verbinski. Roteiro de Ehren Kruger e Scott Frank, baseado em livro homônimo de Koji Suzuki. Produção de Walter F. Parkes e Laurie MacDonald. Fotografia de Bojan Bazelli. Música de Hans Zimmer. Maquiagem de Rick Baker. Montagem de Craig Wood. Direção de Arte de Patrick M. Sullivan Jr. Elenco: Naomi Watts (Rachel Keller), Martin Henderson (Noah), David Dorfman (Aidan), Amber Tamblyn (Katy Nurick), Lindsay Frost (Ruth Nurick), Brian Cox (Richard Morgan), Shannon Cochran (Anna Morgan), Daveigh Chase (Samara Morgan).

O Núcleo - Missão ao Centro da Terra (The Core, EUA, 2003)

O que seria de nosso planeta Terra se não existissem os americanos? No cinema eles novamente foram os heróis salvadores de nosso mundo em “O Núcleo – Missão ao Centro da Terra” (The Core), uma aventura de ficção científica que estreou no Brasil em 04/04/03, com direção de Jon Amiel, a partir de um roteiro de Cooper Layne e John Rogers e elenco formado por astros como Hilary Swank e Stanley Tucci.

Uma força inicialmente desconhecida (na verdade mais uma conspiração governamental num projeto secreto militar) causou uma terrível consequência ao planeta, paralizando a movimentação de rotação interna do magma fundido em volta do núcleo, a qual mantém o campo eletromagnético responsável por proteger o planeta dos raios solares e por garantir a estabilidade climática do mundo. Como resultado desse incidente, uma série de eventos catastróficos tem início ao redor do mundo, rumando de forma inevitável para um apocalipse final.
Inicialmente, os distúrbios misteriosos ocorrem com a morte intantânea de dezenas de pessoas que vivem com aparelhos de marca-passo no coração em Boston, causando diversos transtornos como acidentes de trânsito; depois com um ataque desorientado de milhares de pombas em Londres, que ao perderem seus reflexos de vôo passaram a se chocarem violentamente contra pessoas, carros e janelas dos prédios, causando um enorme tumulto na cidade (lembrando o clássico “Os Pássaros”/1963, de Alfred Hitchcock); passando também por mudanças radicais no visual do céu com a formação de uma estranha aurora boreal permanente; e culminando com um acidente aéreo envolvendo um ônibus espacial que desviou sua trajetória de aterrissagem tendo que descer de forma improvisada em Los Angeles, num vôo rasante por um estádio de baseball e pousando no leito de concreto de um rio urbano. (Essa cena gerou grande polêmica nos Estados Unidos por causa de um acidente trágico e real na época de lançamento do filme, com um ônibus espacial que explodiu ao entrar na atmosfera em sua viagem de retorno, matando todos seus tripulantes. O trailer promocional chegou a ser retirado dos cinemas e quase que a sequência do acidente foi censurada do filme. Essas atitudes são equivocadas, pois a vida real é bem diferente das histórias felizes do cinema, que são apenas diversão, e o público deve aprender a lidar com ambas as situações. A dura realidade da vida deve ser encarada com determinação e o cinema deve ser tratado apenas como um mundo de ilusão e entretenimento.)
Preocupado com os diversos incidentes estranhos, o governo americano recruta os serviços de um talentoso professor de faculdade, o geofísico Josh Keyes (Aaron Eckhart), juntamente com seu amigo especialista em armas atômicas, o francês Sergei Laveque (Tchéky Karyo), para estudarem os confusos acontecimentos. (Outro fato curioso: com a guerra no Iraque e a invasão imperialista dos Estados Unidos, e tendo a França na liderança da Europa como oposição a esse conflito de interesses econômicos, parece bem inviável na atualidade do mundo real a união ocorrida no filme entre americanos e franceses, mesmo que por um objetivo comum de salvar o mundo.)
Após uma série de estudos e cálculos, o professor Keyes chega à conclusão que o núcleo da Terra parou de girar e que como consequência ocorrerão uma infinidade de eventos climáticos que destruirão o planeta num curto prazo de um ano. Ao informar o laudo para uma cúpula do alto escalão do exército americano, e com a confirmação do cientista do governo, o arrogante Dr. Conrad Zimsky (Stanley Tucci), eles decidem criar um projeto secreto para tentar reativar a rotação do núcleo do planeta através da detonação de bombas atômicas em seu interior.
Para chegar ao núcleo eles constróem em tempo recorde de apenas três meses um veículo especialmente projetado pelo Dr. Edward Brazleton (Delroy Lindo), um antigo desafeto do Dr. Zimsky, um aparelho capaz de perfurar a crosta terrestre e viajar em alta velocidade por ambientes de temperaturas super elevadas. Para pilotar a incrível máquina, foram chamados os astronautas do ônibus espacial acidentado, a Major Rebecca “Beck” Childs (Hilary Swank) e o Coronel Robert Iverson (Bruce Greenwood), e o time de especialistas da missão ao centro da Terra foi concluído com os outros tripulantes, o professor Keyes, seu amigo Sergei, e os cientistas Dr. Brazleton e Dr. Zimsky. Além de um excêntrico hacker que ficaria no centro de operações do projeto, com a função de controlar o fluxo de informações e boatos pela internet sobre a missão, conhecido como “Rat” (D. J. Qualls).
A missão tem início e a equipe de “terranautas” enfrenta todo tipo de perigos e aventuras rumo ao centro do planeta para detonar um grupo de ogivas nucleares que numa reação em cadeia poderiam reativar o “motor” interior, novamente acionando a rotação das rochas fundidas ao redor do núcleo, e assim poder salvar o mundo de sua iminente destruição.

“O Núcleo – Missão ao Centro da Terra” tem um enorme subtítulo nacional totalmente desnecessário, confirmando mais uma vez a equivocada tendência de nomear os filmes que chegam ao Brasil com subtítulos que não trazem nada de útil. Nesse caso, basta manter a tradução literal do original, “O Núcleo” (The Core), que funcionaria muito bem, de forma simples e sem burocracia.
O filme deve ser interpretado unicamente como exercício de entretenimento, através de suas belas imagens visuais como nas cenas de desastres com a explosão do histórico “Coliseu” em Roma, por um combinado de potentes descargas elétricas, ou a famosa ponte “Golden Gate” em San Francisco, vítima do poder destrutivo dos raios solares quando não foram amparados pelo campo eletromagnético que envolve o planeta, e que permitiu sua entrada por buracos provocados pela inatividade de rotação do núcleo da Terra. Ou ainda através das belíssimas imagens do interior do planeta, num desfile de magmas derretidos e enormes cristais.
Pois a quantidade de situações inverossímeis, clichês característicos e pouca originalidade tende ao infinito, típico de filmes de catástrofes sobre o fim do mundo e onde a humanidade (leia-se “americanos”) precisa encontrar um meio de salvação num prazo curtíssimo de tempo. “O Núcleo” lembra com grande semelhança uma infinidade de outros filmes, em especial o recente “Armageddon” (1998), de Michael Bay, com o perito em escavações Bruce Willis liderando uma equipe formada por um grande elenco com Ben Affleck, Will Patton, Steve Buscemi, Owen Wilson, Michael Clarke Duncan e Peter Stormare, na tentativa de explodir um enorme meteoro que está em rota de colisão com a Terra, voando numa nave espacial até o corpo celeste e implantando uma bomba de grande potência em seu interior. A diferença para “O Núcleo” é que a ameça agora vem de dentro do nosso próprio planeta.
“O Núcleo” já teve alguns filmes antecessores que também utilizaram o centro da Terra como ambiente para suas tramas. Em 1959, “Viagem ao Centro da Terra” (Journey to the Center of the Earth), dirigido por Henry Levin baseado na clássica história escrita por Jules Verne, mostrava um grupo liderado pelo cientista professor Lidenbrooke (interpretado pelo astro James Mason) fazendo uma perigosa expedição rumo ao interior de nosso planeta, descobrindo a existência de um oceano subterrâneo, além da presença de gigantescos animais pré-históricos vivendo num mundo desconhecido e restos de uma antiga civilização intraterrestre. E em 1976, “No Coração da Terra” (At the Earth´s Core), filme inglês dirigido por Kevin Connor e com Doug McClure e Peter Cushing, baseado em fantástica história de Edgar Rice Burroughs, um veículo projetado especialmente para perfurar as rochas do solo, faz uma viagem para o núcleo da Terra, encontrando uma misteriosa civilização vivendo em seu interior, além de perigosos animais pré-históricos.
Se o mundo do cinema pudesse ser refletido para a vida real, nós todos estaríamos despreocupados pois os heróicos americanos estão sempre prontos para salvar a humanidade e o nosso planeta de todos os tipos de ameaças, sejam elas do intrigante e infinito espaço exterior ou mesmo das profundezas desconhecidas da própria Terra. Mas o cinema é apenas ficção, e o mundo real está repleto de guerras, fome e violência, com grande participação dos Estados Unidos e sua política externa equivocada.
Voltando para o campo da imaginação, o melhor a fazer é relaxar e procurar se divertir com as fantasias apresentadas nos filmes, mergulhando num mundo onde tudo é possível e há solução para todos os tipos de problemas.
Nota: O filme foi exibido pela primeira vez na televisão aberta em 26/03/06, Domingo, às 20:30 horas, pelo SBT, na sessão “Oito e Meia”.

“O Núcleo – Missão ao Centro da Terra” (The Core, 2003) – avaliação: 7 (de 0 a 10)
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(postado em 17/02/06)

O Núcleo – Missão ao Centro da Terra (The Core, Estados Unidos, 2003). Horsepower Films / Paramount Pictures / UIP. Duração: 134 minutos. Direção de Jon Amiel. Roteiro de Cooper Layne e John Rogers. Produção de Sean Bailey, David Foster e Cooper Layne. Música de Christopher Young. Fotografia de John Lindley. Direção de Arte de Andrew Neskoromny e Sandi Tanaka. Desenho de Produção de Philip Harrison. Edição de Terry Rawlings. Elenco: Aaron Eckhart (Josh Keyes), Hilary Swank (Major Rebecca “Beck” Childs), Delroy Lindo (Dr. Edward Brazleton), Stanley Tucci (Dr. Conrad Zimsky), D.J. Qualls (Rat), Tchéky Karyo (Sergei Laveque), Bruce Greenwood (Coronel Robert Iverson), Alfred Woodard, Nicole Leroux, Gregory Bennett, Dion Johnstone, Christopher Shyer, Richard Jenkins.

No Cair da Noite (Darkness Falls, EUA, 2003)

O que eu levava por bondade, levarei para sempre por vingança

Com essa maldição anunciada momentos antes de ser injustamente executada por enforcamento, Matida Dixon eternizou a lenda da “Fada dos Dentes” para aterrorizar na escuridão uma pequena cidade dos Estados Unidos.
Apresentando uma exposição apenas discreta de sangue e violência, e investindo bem mais num clima de suspense e horror psicológico, “No Cair da Noite” (Darkness Falls), dirigido por Jonathan Liebesman a partir de uma história de Joe Harris, entrou em cartaz nos cinemas brasileiros em 28/03/03, já vindo de uma exibição de sucesso nos Estados Unidos onde chegou a figurar entre os primeiros nas bilheterias por algumas semanas.

A história é sobre uma lenda de 150 anos atrás, onde uma simpática senhora viúva, Matilda Dixon, era muito popular na pequena cidade de “Darkness Falls”, na Nova Inglaterra, por trocar os dentes de leite caídos das crianças por moedas de ouro. Esse amável hábito acabou lhe trazendo o apelido carinhoso de “Fada dos Dentes” (Tooth Fairy). Porém, repentinamente tudo começou a desmoronar quando numa noite um incêndio em sua casa queimou tragicamente seu rosto, obrigando-a a usar uma máscara de porcelana branca para esconder a deformidade de sua face e com isso passando a viver reclusa. Paralelamente, quando duas crianças desaparecem na cidade, os habitantes de “Darkness Falls” se enganam e culpam a velha, com uma multidão furiosa invadindo sua casa e condenando-a à morte por enforcamento. Antes de morrer, Matilda, agora sedenta de ódio, consegue ainda lançar uma terrível maldição dizendo que voltaria na escuridão para se vingar. Após sua execução, as crianças desaparecidas surgem novamente saudáveis na cidade, mas já é tarde demais...
A ação volta-se agora para 138 anos à frente, onde um menino de 10 anos, Kyle Walsh (Joshua Anderson), tem visões constantes com uma criatura sobrenatural que aparece na escuridão sempre quando toda criança perde seu último dente de leite. Após um encontro com sua namorada, Caitlin Greene (Emily Browning, a garotinha fantasma de “Navio Fantasma”), ele recebe a visita indesejada da “Fada dos Dentes”, vestindo uma manta negra sobre todo o corpo e uma máscara de porcelana escondendo o rosto hediondo, movimentando-se no ar com uma incrível agilidade (méritos para a equipe de efeitos especiais responsável pela concepção da criatura, liderados pelo especialista Stan Winston). O jovem Kyle escapa da fúria assassina da bruxa fantasmagórica, mas testemunha o assassinato brutal da mãe, Margaret Walsh (Rebecca McCauley).
Com a polícia não acreditando na sua história da “Fada dos Dentes” e achando que Kyle tem participação na misteriosa morte da mãe, o garoto sai de Darkness Falls e passa nove anos num hospital psiquiátrico, fazendo terapias e intensivos tratamentos contra doenças psicológicas como “terror noturno” (medo da escuridão).
Doze anos depois, Kyle (Chaney Kley), é um paranóico que vive em Las Vegas num apartamento super iluminado por lanternas e lâmpadas de todos os tipos, e passa seus dias à base de fortes medicamentos contra depressão e anti psicóticos.
Em Darkness Falls, sua antiga namorada Caitlin (Emma Caulfield) está enfrentando um grande problema com seu irmão mais novo, Michael (Lee Cormie), que está hospitalizado e não dorme há vários dias tendo um medo doentio da escuridão, alegando ter visões com a “Fada dos Dentes”, que está apenas esperando uma oportunidade para matá-lo.
Caitlin decide então procurar Kyle e pedir-lhe ajuda para seu irmão, cujos sintomas de paranóia são semelhantes aos vividos pelo antigo namorado de infância. Relutante no início, Kyle aceita ajudar, mas envolve-se numa série de encrencas locais envolvendo ex-colegas do passado como o bêbado inconveniente Ray (Mark Blackmore), o policial Andy Batten (Andrew Bayly), e o agora advogado Larry Fleishman (Grant Piro), apaixonado por Caitlin desde os tempos de infância, em encontros fatais com a “Fada dos Dentes”. Apesar dos inúmeros desaparecimentos sem solução de crianças nos últimos anos em “Darkness Falls”, a polícia não acredita na história de Kyle sobre o fantasma vingativo de Matilda Dixon, até eles próprios tornarem-se vítimas da criatura maligna, que ataca todos que a vêem na escuridão.
Quando ocorre um “blackout” providencial em Darkness Falls, a bela cidade situada à beira do mar e que tem um enorme farol para orientação dos navios, justifica seu nome e uma imensa escuridão propicia o ambiente ideal para a “Fada dos Dentes” perpetuar sua vingança histórica, culminando num confronto repleto de perseguições com Kyle e seus amigos.

“Darkness Falls” estreou nos Estados Unidos em 24/01/03 e curiosamente os posters promocionais do filme no Brasil anunciavam que entraria em cartaz nos cinemas nacionais somente em 09/05, mas sua exibição foi antecipada para 28/03, diminuindo significativamente a defasagem com seu lançamento original.
Antes da definição oficial do nome para o filme, uma série de títulos alternativos foram estudados pelos produtores, e todos obviamente relacionados com a temática da história: “The Tooth Fairy” (A Fada dos Dentes), “Don´t Peek” (Não Espie), “Fear of the Dark” (Medo do Escuro), “The Tooth Fairy: The Ghost of Matilda Dixon” (A Fada dos Dentes: O Fantasma de Matilda Dixon) e “The Tooth Fairy: Every Legend Has Its Dark Side” (A Fada dos Dentes: Toda Lenda Tem Seu Lado Sombrio). No final, “Darkness Falls” foi sem dúvida a melhor escolha, representando muito bem a proposta do roteiro.
Quanto ao nome nacional, “No Cair da Noite”, também foi bem indicado (ao contrário de uma outra infinidade de exemplos de filmes que receberam péssimos nomes no Brasil), pois tem relações diretas com a história. Porém, seria melhor ainda se fosse mantido o título americano, “Darkness Falls”, que é o nome de uma cidade (que geralmente não são traduzidos), além de soar bem ao ser pronunciado, mesmo em seu idioma original.
Devido ao sucesso que o filme alcançou em sua estréia, os produtores já anunciaram a intenção de realizar uma sequência investindo talvez numa franquia com a criatura sobrenatural “Fada dos Dentes”, que possui uma mitologia suficientemente complexa e atraente para proporcionar inúmeras idéias aos roteiristas na criação de novos filmes.

“Darkness Falls” é mais um filme de horror que traz os tradicionais clichês do gênero, com muitos sustos fáceis, correrias, um suspense psicológico que tenta manipular o público, atores jovens em início de carreira vindos de participações na televisão, além de oferecer um desfecho simples e sem impacto, quando justamente o ideal é o contrário para criar um efeito perturbador em quem assiste. Mas, que certamente também garante uma diversão curta (apenas 85 minutos) com sua história de uma lenda maldita de um fantasma vingativo que surge na ameaçadora escuridão da noite.
Na dúvida sobre a veracidade dessa lenda, o melhor é procurar pela segurança da luz mantendo-se longe do temível escuro. Pois como já dizia uma orientação do macabro escritor Dennis Weatley que apareceu no final do filme “Uma Filha Para o Diabo” (To the Devil a Daughter), co-produzido em 1976 pela saudosa “Hammer” inglesa e pela “Terra” alemã, e tendo o genial Christopher Lee liderando o elenco, ao lado de Richard Widmark e Nastassja Kinski:
Na luz todas as coisas florescem e reproduzem... Na escuridão elas decaem e morrem. Eis porque nós devemos seguir os ensinamentos dos senhores da luz”.
Sobre isso, não posso deixar de reconhecer a sabedoria dessas palavras, mas também não posso deixar de revelar o quanto a escuridão exerce em nós, apreciadores da fantástica arte do Horror, um misterioso fascínio com suas trevas escondendo um mundo habitado por criaturas indizíveis, e um macabro universo repleto de sensações desconhecidas, aguardando apenas serem exploradas.
Observação: O filme foi exibido pela primeira vez na televisão aberta em 03/06/06, pela TV Globo, na sessão “Super Cine”, exibida aos Sábados às 23:00 horas.

“No Cair da Noite” (Darkness Falls, 2003) – avaliação: 6 (de 0 a 10)
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(postado em 17/02/06)

No Cair da Noite (Darkness Falls, Estados Unidos, 2003). Distant Corners / Village Roadshow / Blue Star / Columbia Pictures. Duração: 85 minutos. Direção de Jonathan Liebesman. Roteiro de Joe Harris, John Fasano e James Vanderbilt, baseado em história de Joe Harris. Produção de John Fasano, John Hegeman, William Sherak e Jason Shuman. Música de Brian Tyler. Fotografia de Dan Laustsen. Direção de Arte de Tom Nursey. Desenho de Produção de George Liddle. Edição de Timothy Alverson, Steve Mirkovich e Alan Woodruff. Efeitos Especiais de Stan Winston. Elenco: Chaney Kley (Kyle Walsh), Emma Caulfield (Caitlin Greene), Lee Cormie (Michael Greene), Andrew Bayly (Andy Batten), Grant Piro (Larry Fleishman), Emily Browning (Caitlin Greene – jovem), Joshua Anderson (Kyle Walsh – jovem), Mark Blackmore (Ray), Anthony Burrows (Fada dos Dentes), Peter Curtin (Dr. Travis), Daniel Daperis (Larry Fleishman – jovem), Jim Howes (Diretor Scott O´Malley), Rebecca McCauley (Margaret Walsh), Kestie Morassi (Enfermeira Lauren), Alannah Oliver (Kimberly), Andrew Dauchy, Aaron Gazzola, Gerard Gogley, Steve Mouzakis, Joshua Parnell, Charlotte Rees, Matt Robertson, Angus Sampson, Christian Schaeffer, Cecelia Specht, Peter Stanton, Sullivan Stapleton.