A Ilha dos Homens-Peixe (Island of the Fishmen, Itália, 1979)


Utilizando como inspiração a história do livro “A Ilha do Dr. Moreau”, escrito em 1896 por H. G. Wells, sobre um “cientista louco” que realiza experiências genéticas misturando animais e homens, o diretor italiano Sergio Martino lançou em 1979 a aventura com elementos de horror e ficção científica “A Ilha dos Homens-Peixe” (Island of the Fishmen). Trata-se de uma divertida preciosidade dos antigos filmes bagaceiros com elementos fantásticos, que muitos apreciadores do estilo se lembrarão pelas exaustivas reprises na televisão.
Ambientado em 1891 na região do Mar do Caribe, temos um grupo de náufragos de um navio francês de prisioneiros tentando se salvar à bordo de um bote que acaba se chocando contra os rochedos de uma ilha. Somente alguns poucos conseguem sobreviver e se reúnem para explorar a região em busca de comida e abrigo. Enfrentando os perigos de uma ilha vulcânica como as águas venenosas de um lago ou ainda armadilhas mortais como um buraco com lanças pontiagudas, o médico Tenente Claude de Ross (Claudio Cassinelli) e dois prisioneiros, José (Franco Iavarone) e Peter (Roberto Posse), encontram um casarão e o improvável morador da ilha, Edmond Rackham (Richard Johnson). Ele comanda com austeridade um grupo de nativos praticantes de vodu, através de sua líder sacerdotisa Shakira (Beryl Cunningham), e mantém sob seu domínio uma jovem mulher, Amanda (Barbara Bach).
O médico náufrago inevitavelmente fica intrigado com a bela mulher vivendo numa ilha remota fora dos mapas e com seu misterioso anfitrião, que revela estar longe da civilização há quinze anos. Além também com as estranhas criaturas anfíbias, mistura de homens e peixes, que ele não sabe ao certo se fazem parte de um pesadelo ou realidade.
As coisas se complicam ainda mais depois que seus companheiros náufragos desaparecem misteriosamente e o médico descobre a existência de um laboratório bem equipado, comandado por um veterano biólogo, Prof. Ernest Marvin (Joseph Cotten), que está doente e realiza experiências proibidas como o típico “cientista louco” que dedica seu trabalho para o bem da humanidade.
“A Ilha dos Homens-Peixe” é uma daquelas divertidas tranqueiras italianas com história aproveitando ideias recicladas, já vistas em filmes como “A Ilha do Dr. Moreau”, lançado apenas dois anos antes em 1977, sobre o cientista recluso responsável por criaturas híbridas de homens e animais, ou “O Monstro da Lagoa Negra” (1954), na apresentação de seres anfíbios mutantes, mistos de homens e peixes. Nele encontramos todos aqueles elementos que caracterizam o cinema fantástico bagaceiro, destacando principalmente os efeitos toscos com os monstros do título, muito mais divertidos com suas fantasias de borracha, garras afiadas e expressões estáticas, quando comparados com a artificialidade da computação gráfica dos filmes atuais.
Curiosamente, o filme teve uma versão americana lançada pelo produtor Roger Corman, acrescentando um prólogo e novo título, “Screamers”, com a participação de atores conhecidos dos filmes de poucos recursos como Cameron Mitchell e Mel Ferrer. Teve também uma continuação picareta em 1995, uma produção para a TV também dirigida por Sergio Martino chamada “La regina degli uomini pesce”, que basicamente é uma colagem com cenas reutilizadas do filme anterior e também de “2019: After the Fall of New York” (1983).
       
(Juvenatrix – 27/03/20)



A Invasão das Aranhas Gigantes (The Giant Spider Invasion, EUA, 1975)



Pensando no sub-gênero dentro do cinema fantástico bagaceiro que explora o ataque ou invasão de insetos ou aracnídeos, gigantes ou não, as aranhas estão entre aqueles que mais são escolhidos pelos roteiristas para aparecer nos filmes, rivalizando com as formigas. Em 1975, o diretor e produtor Bill Rebane, responsável por diversas tranqueiras no currículo, lançou “A Invasão das Aranhas Gigantes” (The Giant Spider Invasion), uma preciosidade dos “filmes ruins” que era reprisada à exaustão na televisão nos bons e saudosos tempos onde os canais exibiam tralhas divertidas de horror e ficção científica.
Um meteoro cai próximo de uma pequena cidade americana no Estado do Wisconsin, causando panes mecânicas nos carros e fazendo os rádios pararem de funcionar. Da pequena cratera aberta no chão pela queda surgem diversas pedras redondas com diamantes em seu interior, e quando abertas liberam aranhas peludas alienígenas parecidas com as nossas tarântulas. Elas inicialmente atacam as vacas de uma fazenda e ao aumentar seus tamanhos de forma descomunal, invadem a cidade colecionando vítimas pelo caminho.
Um cientista da NASA, Dr. Vance (Steve Brodie), se desloca de Houston, Texas, até a região da queda da bola de fogo do espaço para investigar junto com os esforços de outra cientista local, Dra. Jenny Langer (Barbara Hale). Eles descobrem um buraco negro responsável pela vinda das aranhas de outra dimensão. Depois que uma aranha gigante com quinze metros causa um rastro de destruição por onde passa, a dupla de cientistas tenta encontrar um meio de anular o buraco negro, fechando a porta do inferno, e destruir a criatura aracnídea extraterrestre, contando com a ajuda do xerife local, Jeff Jones (Alan Hale).
“A Invasão das Aranhas Gigantes” é um daqueles filmes divertidos pela ruindade geral, desde a produção paupérrima ao roteiro típico do horror bagaceiro, passando pelos efeitos extremamente toscos da aranha gigante, lembrando um carro alegórico fuleiro de carnaval (na verdade, um bicho de pelúcia enorme montado sobre um fusca). Já no caso das aranhas de tamanho normal foram usadas criaturas de oito pernas reais passeando pelos cenários e sobre os atores, algo que o grande cineasta brasileiro José Mojica Marins já fazia muitos anos antes, como no clássico “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” (1963).
É verdade que o monstro aparece pouco em cena, seja destruindo uma casa, atacando um carro ou perseguindo pessoas desesperadas pela cidade, e a primeira cena só vem com quase 50 minutos de filme. Mas, é inegável a diversão garantida com a aranha colossal espalhando o caos por onde anda.
Devido às dificuldades orçamentárias da produção, o roteiro tratou de gastar muito tempo com enrolação na história, seja na investigação dos cientistas ou com os habitantes de uma cidadezinha não acostumada com movimentações na rotina simples. Mas, a espera pelas cenas da aranha imensa é recompensada com momentos hilariantes para os apreciadores de tosquices. Existem também várias cenas noturnas (filmadas na luz do dia) que ficaram muita escurecidas, algo bem apropriado para os realizadores esconderem os defeitos do monstro.
A história mistura um tom de seriedade com elementos cômicos inseridos por Robert Easton, um dos roteiristas e que também atuou como o fazendeiro Kester que encontrou as pedras espaciais com as aranhas. E tem o xerife bonachão apenas acostumado em resolver problemas comuns de uma pequena cidade do interior americano, e que passa a maior parte do tempo em seu escritório lendo o livro “Flying Saucers Want You” (Os Discos Voadores Querem Você) e atendendo chamadas no telefone.
Curiosamente, tem uma piada referenciando o filme “Tubarão”, o clássico de Steven Spielberg lançado no mesmo ano de 1975, onde um comentário hilário do xerife sobre a aranha gigante revela que numa comparação, “o tubarão é um peixinho dourado”.  
       
(RR – 25/03/20)



O Ataque das Criaturas Bestiais (Attack of the Beast Creatures, 1985)


A fórmula básica do cinema fantástico bagaceiro é bem simples, basta unir os elementos “produção paupérrima”, “roteiro óbvio e clichê”, “elenco amador” e “efeitos toscos”. O filme americano “O Ataque das Criaturas Bestiais” (Attack of the Beast Creatures, 1985) tem tudo isso e consegue o mais importante para os apreciadores das tranqueiras de horror: “divertir” (mesmo que se for apenas poucos momentos e esquecidos logo depois).
Um navio de cruzeiro afunda em algum lugar do Atlântico Norte em Maio de 1920, e um pequeno grupo de náufragos consegue se salvar num bote, ficando à deriva no oceano. Com sorte, eles logo encontram uma ilha e tentam manter-se vivos até a chegada de algum resgate. Ao procurar água e comida pela floresta, eles são surpreendidos por bizarrices que desafiam a sobrevivência, desde um lago com águas corrosivas que derretem o rosto de um deles, até os ataques constantes, seja de noite ou de dia, de pequenas criaturas bestiais que querem provar o sabor das carnes dos invasores de seu território.
O filme está disponível no “Youtube” com legendas em português e é daqueles que poucas pessoas fazem de tudo, característica das produções com pouco dinheiro e muito idealismo para conseguir os resultados, mesmo que sejam de qualidade menor. A direção é de Michael Stanley, que também participa da produção, e o roteiro é de Robert A. Hutton, que também assina a edição e fotografia.
Claro que para conseguir a metragem necessária, existem muitos momentos de enrolação, com o grupo de náufragos fazendo longas caminhadas pela floresta da ilha, contribuindo para o tédio do espectador, Mas, em compensação, e o que realmente interessa no filme, os ataques da tribo de criaturas do título são muitos e sempre divertidos. Os pigmeus veneram algum tipo de divindade representada por uma estátua. Eles têm longos cabelos pretos, grandes olhos brancos e dentes afiados, e saltam contra suas vítimas mordendo violentamente suas carnes e provando o sangue.
Eles ficam observando no alto das árvores, correndo agilmente pelas matas, emitindo grunhidos bizarros e atacando em grupos, não dando descanso para os sobreviventes do navio afundado, que por sua vez fogem desesperados e lutam o tempo todo pela vida, mas obviamente poucos conseguirão ter sucesso nesse desafio.
A história é muito simples, definida em poucas palavras, “grupo de náufragos é atacado por criaturas carnívoras numa ilha”. O elenco é inexpressivo e os atores só fizeram esse filme. Os efeitos dos monstrinhos são extremamente toscos e patéticos, bonecos estáticos grudados nos atores, que gritam como se estivessem sendo devorados.
Para quem aprecia tranqueiras com elementos de horror, a diversão é garantida.
       
(Juvenatrix – 22/03/20)



O Planeta dos Vampiros (Planet of the Vampires, Itália, 1965)



“Eles ousaram ir para além do espaço conhecido, e pelo terror desconhecido.”
‘O terror atormenta as galáxias! E o Universo estremece!”
“Um suspense arrebatador!”

A utilização de frases de efeito como essas acima, nitidamente exageradas, era uma estratégia comum de marketing para chamar a atenção do público nos antigos filmes de horror e ficção científica. Elas foram extraídas do trailer de “O Planeta dos Vampiros” (Terrore Nello Spazio / Planet of the Vampires), uma divertida bagaceira italiana de 1965.
A direção é do especialista e mestre do Horror gótico Mario Bava (1914 / 1980), cultuado pelo significativo legado no cinema fantástico, com preciosidades como “A Maldição do Demônio” (1960), “As Três Máscaras do Terror”, “O Chicote e o Corpo” (ambos de 1963) e “O Ciclo do Pavor” (1966), entre outros, e foi lançado em DVD no Brasil pela “Versátil”, na coleção “Clássicos Sci-Fi – Volume 1”. Antes, já havia sido lançado por aqui na época do VHS pela “LK-Tel Vídeo”.
Quando se pensa num filme de Ficção Científica com elementos de Horror, logo vem à mente “Alien – O Oitavo Passageiro” (1979), de Ridley Scott, que ficou eternizado na cultura pop, com toda uma franquia composta por vários filmes, quadrinhos, videogames e outros produtos, tornando-se referência para uma infinidade de filmes seguintes. Mas, um fato relevante que deve ser evidenciado é que muitos anos antes já havia sido lançado “O Planeta dos Vampiros”, um exemplo genuíno de FC com Horror e que certamente serviu de inspiração para “Alien”, devido aos elementos similares.
O filme é baseado na história “One Night of 21 Hours”, de Renato Pestriniero, publicada na revista “Interplanet” # 3. No roteiro de Ib Melchior temos duas naves espaciais, Argos e Galliot, em missão rumo ao nebuloso planeta Aura, para investigar misteriosos sinais eletrônicos que indicavam serem emitidos por alguma raça alienígena inteligente. Porém, chegando ao planeta, numa aterrissagem turbulenta, a tripulação da Argos sofre um ataque temporário de loucura e violência, com os astronautas tentando matar uns aos outros. Após recobrarem o controle de suas ações, eles tentam entender o mistério e descobrem que seus companheiros da Galliot também pousaram no planeta, mas estão mortos num ataque descontrolado de fúria entre eles.
O Capitão Mark Markary (o americano Barry Sullivan) e outros membros da tripulação como a oficial de comunicações Sanya (a brasileira Norma Bengell) e o engenheiro Wess Wescant (o espanhol Ángel Aranda), tentam consertar a nave para retornar ao espaço, mas enfrentam uma série de crises crescentes com os tripulantes mortos da Galliot saindo de seus túmulos e uma terrível ameaça invisível dos habitantes hostis do planeta.
“O Planeta dos Vampiros” é um daqueles divertidos filmes que representam muito bem o cinema antigo de ficção científica e horror com produção de baixo orçamento, desde a interessante história aos efeitos especiais datados, com a utilização de miniaturas e truques de perspectiva, numa época sem computação gráfica e com grande valor para a criatividade. O ambiente interno da nave é espaçoso, com grandes áreas livres e painéis repletos de interruptores, sinaleiros e botões com luzes coloridas, numa representação típica da época. E a estética externa da nave também é bem simples e rústica. Os uniformes dos astronautas são estilosos e exagerados no couro preto. A superfície do planeta Aura é fantasmagórica, envolta em névoa densa e rochas coloridas para todos os lados, evidenciando um sentimento perturbador de um ambiente alienígena, tudo encenado num estúdio vazio e preenchido com fumaça e luzes coloridas.
Em determinado momento, o Capitão Markary e sua colega Sanya encontram os destroços de uma nave colossal e os ossos enormes de seus tripulantes, sendo um dos destaques do filme quando eles investigam o interior dessa nave misteriosa.  
Antigamente não havia tanta preocupação com revelações e os chamados “spoilers” não tinham a importância de hoje, com a internet e as redes sociais proliferando informações. Esse fato é bem exemplificado no trailer, que traz um “spoiler” gigantesco sobre os alienígenas e suas intenções. Outra curiosidade interessante é que seria bem mais apropriado que o nome do filme fosse “O Planeta dos Zumbis”, pois os astronautas que abandonam suas covas estão mais para mortos vivos do que vampiros. O título foi escolhido para a versão americana da “American International”, produtora dos lendários Samuel Z. Arkoff e James H, Nicholson.
A narrativa é mais lenta, uma característica comum nos filmes mais antigos em oposição ao ritmo frenético, acelerado e barulhento das produções atuais carregadas de efeitos em CGI, e para os apreciadores do cinema fantástico bagaceiro do passado esse fluxo narrativo mais cadenciado é melhor e mais desejável.
“O Planeta dos Vampiros” é altamente recomendável, tem o mestre Mario Bava e um desfecho pessimista com final surpresa memorável.

Diário de bordo do Capitão:
“Um capitão não deveria ter medo. E eu confesso agora, a quem estiver ouvindo, que hoje, agora mesmo, eu estou com medo. Minha tripulação não deve ficar sabendo. Devo mantê-la ocupada. Não devem saber que a situação é cada vez mais desesperadora à medida que passam os dias. Fala o Capitão Markary, da nave Argos, no planeta Aura, ano...

(RR – 22/01/20)



















Nosferatu (Alemanha, 1922, PB, mudo)


À noite, Nosferatu crava suas presas em sua vítima e alimenta-se de seu sangue, seu infernal elixir da vida. Cuidado para que a sombra dele não sobrecarregue seus sonhos com medos horríveis.”

Um dos mais importantes estilos cinematográficos da história do cinema de Horror é o “Expressionismo Alemão”, que produziu filmes principalmente na década de 1920. Caracterizado pelo uso de cenários e personagens distorcidos, com maquiagem exagerada e uma atmosfera sombria e sobrenatural obtida por recursos criativos de fotografia, com a ideia de expressar o momento pessimista e depressivo que a Alemanha enfrentava após a derrota na Primeira Guerra Mundial (1914 / 1918).
E um dos mais significativos representantes desse estilo é “Nosferatu” (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, 1922), mudo, fotografia em preto e branco, e direção de F. W. Murnau. Foi lançado em DVD no Brasil em 2019, numa edição especial da “Versátil”, junto com a versão de 1979 dirigida por Werner Herzog, e vários materiais extras interessantes.
Ambientado em 1838 na cidade alemã de Wisborg, o corretor de imóveis Hutter (Gustav V. Wangenheim) vai para a Transilvânia, nos Montes Cárpatos, visitar o misterioso Conde Orlok (Max Scherek) para oferecer a venda de uma grande casa abandonada, que fica situada em frente da sua própria casa em Wisborg. Ao chegar num vilarejo próximo ao castelo desolado de seu cliente, ele é alertado pelos aldeões amedrontados e supersticiosos para não continuar a viagem até o sinistro conde, mas Hutter ignora os avisos. Ele é recebido por Orlok, também conhecido como o temível vampiro Nosferatu, e concretiza a venda do imóvel, mesmo sentindo uma desconfortável atmosfera sombria no castelo e com seu anfitrião estranho. As coisas complicam ainda mais depois que Orlok vê uma foto da bela e jovem esposa de Hutter, Ellen (Greta Schroder), por quem ele fica obcecado.
Nosferatu viaja para Wisborg e seu navio amaldiçoado chega ao porto trazendo um caixão com a terra natal do conde, junto com uma invasão de ratos pestilentos e todos os tripulantes mortos, deixando a polícia local intrigada e preocupada com a disseminação da peste negra na cidade. O vampiro se instala na nova casa e com hábitos noturnos e aversão ao sol, passa a perseguir implacavelmente a inocente Ellen em busca de seu sangue imaculado.
“Nosferatu” é um dos principais filmes mudos de horror que ficou eternizado com algumas das cenas mais clássicas e marcantes na história do gênero. Temos “a sombra do vampiro subindo as escadas para o ataque no quarto de Ellen” (e que ilustra um dos cartazes do filme); “o navio fantasma chegando ao porto sem ninguém vivo, trazendo a praga para a cidade”, e “Nosferatu levantando-se vagarosamente de seu repouso no caixão que está no navio da morte”, entre outras.
O filme possui uma diferença significativa em comparação com outros do expressionismo alemão, ao realizar filmagens externas com planos sinistros de florestas fantasmagóricas e do castelo gótico, em vez de cenários artificiais criados em estúdios. Outro detalhe interessante que merece registro é a concepção do vampiro, num estilo mais folclórico e assustador, com orelhas pontudas, sem cabelos, olhos profundos, dentes pontiagudos e dedos longos com unhas imensas, diferente dos vampiros românticos e sedutores muito explorados nos filmes seguintes. Curiosamente, na versão lançada em DVD pela “Versátil”, ao contrário de outras versões, as cenas externas possuem uma coloração azulada para passar uma ideia de ação noturna, uma vez que o vampiro seria destruído pela luz do dia.
Na época do lançamento nos cinemas, o retorno financeiro foi abaixo do esperado com uma recepção fria do público, e a produtora “Prana” entrou em falência poucos meses depois, ao enfrentar também um processo judicial movido pela viúva do escritor irlandês Bram Stoker, que acusou o filme de ser baseado sem autorização no livro “Drácula”, escrito em 1897. As cópias de “Nosferatu” foram recolhidas e destruídas, mas por sorte o filme conseguiu ainda sobreviver “como um vampiro” e recebeu várias restaurações para serem apreciadas pela eternidade, agregando um valor inestimável para o cinema de horror gótico.      

Da semente do Belial veio o vampiro Nosferatu, que vive e se alimenta do sangue dos homens e, sem redenção, faz sua morada em horrendas cavernas, sepulturas e caixões repletos de terra amaldiçoada dos campos da Peste Negra.

(RR – 01/01/20)










Zombi 3 (Zombie Flesh Eaters 2, Itália, 1988)




Também conhecido como “Zombie Flesh Eaters 2”, “Zombi 3” é uma bagaceira italiana no sub-gênero “mortos-vivos” dirigida por Lucio Fulci e Bruno Mattei (não creditado). Tudo é muito confuso e longe de qualquer coerência, desde o roteiro de Claudio Fragasso, um clichê imenso dentro do universo ficcional largamente já explorado sobre as criaturas que retornam da morte, até a bagunça com o título do filme. “Zombi 3” é considerado uma sequência (mesmo sem relação direta entre as histórias) de “Zombie – A Volta dos Mortos” (Zombie Flesh Eaters, 1979, lançado em DVD no Brasil pela “Dark Side”), que por sua vez também era conhecido como “Zombi 2”, numa jogada de marketing picareta insinuando alguma relação (inexistente) com o americano “Despertar dos Mortos” (Dawn of the Dead, 1978, de George Romero). É tudo tão confuso que nem vale a pena gastar energia tentando encontrar alguma lógica nesses títulos.
Um cientista maluco está trabalhando num projeto militar de arma química e depois que um grupo terrorista rouba um poderoso vírus, ocorre uma contaminação numa ilha das Filipinas, com a população se transformando em zumbis carnívoros repletos de feridas pútridas e sangue gosmento escuro. Alguns soldados unem-se com um grupo de turistas e todos lutam por suas vidas refugiando-se num hotel abandonado, combatendo um ataque de zumbis.     
                O filme é ruim, com elenco amador e efeitos toscos, sendo infinitamente inferior ao anterior de 1979, bem mais violento e significativo dentro da história do subgênero do cinema de horror sobre zumbis comedores de carne humana. Sempre esperamos por uma boa diversão no cinema bagaceiro de horror, mas em “Zombi 3” a história é entediante e a enorme quantidade de absurdos, furos no roteiro e cenas risíveis de ataques dos zumbis contribuem para o desinteresse.
Não existe um padrão para os mortos-vivos, às vezes são lentos e pouco ameaçadores, e em outros momentos são ágeis, violentos e letais. Até tem algumas cenas sangrentas, mas que perdem em comparação com outros filmes de Lucio Fulci, um cineasta especialista no gênero e conhecido pelos excessos de violência.
Existem cenas envoltas em quantidade exagerada de névoa, algo compreensível uma vez que o objetivo é aumentar uma já desconfortável sensação de insegurança com os ataques dos zumbis, mas que desaparecem de forma abrupta, evidenciando falhas de continuidade significativas, e uma falta de atenção para detalhes que desrespeita o espectador.
Entre as curiosidades, tem uma cena patética envolvendo uma cabeça decepada zumbi, que escondida numa geladeira, surpreende uma vítima voando para rasgar sua garganta. Cena similar aparece também no posterior “Pelo Amor e Pela Morte” (Dellamorte Dellamore, 1993), outra bagaceira italiana, dirigida por Michele Soavi.
O cineasta Lucio Fulci (1927 / 1996) é bastante cultuado por seus filmes exagerados em violência e sangue, como “Pavor na Cidade dos Zumbis” (1980) e “Terror nas Trevas” (1981). Ele revelou que não gostou do roteiro de “Zombi 3” e filmou cerca de 70 minutos, obrigando os produtores a chamar outro diretor para a conclusão. O escolhido foi Bruno Mattei (1931 / 2007), também conhecido pelo currículo repleto de tranqueiras utilizando pseudônimos, muitas delas no gênero Horror e várias igualmente pouco divertidas.

Os mortos se levantam, matam seus amigos e comem seus corpos.

(Juvenatrix – 03/06/19)

A Noite do Demônio (Night of the Demon, Inglaterra, 1957, PB)


Que terrível destino acontecerá àqueles que desafiam a “Noite do Demônio”?

Lançado em DVD no Brasil pela “Versátil”, na coleção “Obras Primas do Terror – Volume 1”, “A Noite do Demônio” (Night of the Demon / Curse of the Demon, 1957) é uma produção inglesa de horror psicológico, com fotografia em preto e branco e direção do francês Jacques Tourneur, famoso cineasta com preciosidades no currículo como “Sangue de Pantera” (1942), “A Morta-Viva” (1943),  “Farsa Trágica” (1963) e “Monstros da Cidade Submarina” (1965), esses dois últimos com Vincent Price.

Está escrito desde o início do tempo, até mesmo nessas antigas pedras (referência ao monumento histórico Stonehenge, na Inglaterra), que criaturas malignas sobrenaturais existem em um mundo de trevas. E também se diz que o Homem que pode utilizar o poder mágico dos antigos símbolos rúnicos, pode invocar esses poderes das trevas e os demônios do inferno. Ao longo das eras, o Homem tem temido e venerado tais criaturas. A prática da bruxaria e dos cultos do mal resistiu e ainda continua em nossos dias. 

Um psicólogo americano, John Holden (Dana Andrews, de “Uma Fenda no Mundo”, 1965), viaja até Londres, Inglaterra, para participar de uma convenção científica com o objetivo de investigar e denunciar como fraude as ações de um culto demoníaco liderado pelo ocultista Dr. Julian Karswell (Niall MacGinnis).
Holden recebe a ajuda da jovem Joanna Harrington (Peggy Cummins), uma professora de escola infantil que é sobrinha do Prof. Harrington (Maurice Denham), um cientista que investigava a seita satânica e que morreu de forma misteriosa num acidente de carro. Ela tenta convencer o cético psicólogo americano dos perigos reais do satanismo e das práticas de bruxaria, e que ele pode ser uma vítima de uma maldição demoníaca que ameaça sua vida, através de um pergaminho com inscrições rúnicas.
“A Noite do Demônio” é um filme de horror psicológico e magia negra, cuja ideia central é o questionamento da existência do Mal, representado por criaturas do inferno invocadas em cultos satânicos. Combatendo o ceticismo e em alguns momentos o sarcasmo de John Holden, um homem da ciência que defende que os demônios são apenas invenções de auto-sugestão ou histeria em massa. Mas, os conceitos de feitiçaria não são apenas originários de princípios simplórios como a lendária bruxa cavalgando sobre sua vassoura, ou o mau olhado que tortura os pensamentos de sua vítima, ou o alfinete espetado na imagem que enfraquece a mente e o corpo. Os demônios podem ser reais e o cético John Holden irá arriscar sua vida para conhecer a verdade sobre essas criaturas ancestrais que já faziam parte de diversas culturas antigas, como o “Baal” dos babilônios, “Seth” dos egípcios, “Asmodeu” dos persas, ou “Moloch” dos hebreus.
Entre as curiosidades, vale destacar que o filme é baseado no conto “Casting the Runes”, de Montagne R. James, publicado em 1911. E uma questão bastante comentada é sobre a exposição do demônio, que aparece pouco e mesmo visto apenas em alguns momentos rápidos, muitos fãs e profissionais que trabalham com o gênero parecem concordar que seria mais eficaz para a história se ele nem aparecesse. Tanto que o diretor Jacques Tourneur, que prefere o horror sugestivo, fez questão de evidenciar que não era sua intenção mostrar a criatura, deixando para a imaginação do espectador, e que a decisão da exposição do monstro do inferno foi dos produtores, com as cenas adicionadas na pós-produção, sem a participação do diretor. Eu, particularmente, como apreciador do cinema bagaceiro de horror, gostei da aparição do demônio em efeitos toscos e divertidos (a criatura infernal estampa o pôster e recebeu grande destaque, ajudando muito na divulgação e trabalho de marketing).  

Como quem vai com medo e horror num caminho deserto. Pois sabe que algum demônio medonho o segue bem de perto. – trecho do poema “A Balada do Velho Marinheiro”

(RR – 07/03/19)