Primeira
série de TV de Ficção Científica dos longínquos anos 1950: indispensável para
os apreciadores do cinema fantástico bagaceiro
“Contos da
Escuridão” (Tales of Tomorrow, EUA, 1951/53) foi uma série de televisão com
fotografia em preto e branco, produção de baixo orçamento, apresentando
antologias de episódios independentes com aproximadamente trinta minutos de
duração. Eram histórias básicas de ficção científica, encenadas pelos atores,
sem gravações e transmitidas ao vivo pela televisão. Os elencos contavam com
muitos atores que já eram conhecidos na época ou que se tornaram bem sucedidos
nas carreiras que se seguiram. É considerada a primeira série de TV americana a
tratar especificamente o tema da ficção científica, sendo seguida por outras
similares extremamente cultuadas pelos fãs, como “Além da Imaginação” (The
Twilight Zone) e “Quinta Dimensão” (The Outer Limits).
A série teve duas
temporadas, sendo que a primeira entre 1951 e 1952 teve 42 episódios, e a
segunda, entre 1952 e 1953, teve 43 episódios. No Brasil, foram lançados apenas
três episódios num único DVD, através da antiga “Works” (também conhecida por
“Dark Side”), que está fora de catálogo há muito tempo. Os episódios são
“Frankenstein”, “O Ovo de Cristal” e “Encontro em Marte”. Também tive acesso ao
episódio “The Evil Within”, baixado do blog “Cine Space Monster” e legendado em
português.
Pelo título escolhido
no Brasil, vale ficar atento para não confundir com outra série de mesmo nome,
“Tales From the Darkside” (1983 / 1988), e que também teve um filme em 1990, no
formato de antologia com três histórias.
Seguem comentários e
curiosidades sobre esses quatro episódios citados, de uma série rara, divertida
e altamente recomendada para os apreciadores e colecionadores das nostálgicas
bagaceiras do cinema fantástico de meados do século passado.
“Frankenstein”
A famosa obra
literária de Mary Shelley, adaptada à exaustão pelo cinema, também foi
utilizada para a produção do episódio homônimo “Frankenstein”, que traz Lon
Chaney Jr. no papel do monstro criado artificialmente a partir de restos de
cadáveres, pelas mãos e mente brilhante do cientista Victor Frankenstein (John
Newland). Porém, ao despertar para a vida pela ação de eletricidade e aparelhos
científicos complexos e bizarros, a enorme criatura deformada fica confusa e
não entende sua condição de monstro feito de partes de corpos humanos mortos e
age com violência e irracionalidade, colocando em risco a vida da noiva do
cientista, Elizabeth (Mary Alice Moore) e de seu pai (Raymond Bramley), além
dos empregados, Matthew (Farrell Pelly) e Elise (Peggy Allenby), que trabalham
no imenso castelo do século XVI isolado no meio de um lago, onde o cientista
montou seu laboratório.
Como o episódio foi
apresentado ao vivo pela televisão, existe uma curiosidade sobre a participação
de Lon Chaney Jr., ator mais conhecido como o lobisomem no clássico da
“Universal” de 1941, e por diversas outras bagaceiras do cinema fantástico. Ele
estaria bêbado em cena, não percebendo que estava ao vivo no cenário, e uma vez
pensando se tratar de apenas um ensaio, teve o cuidado de não quebrar uma
cadeira que deveria ser arremessada no chão, levantando-a para o alto com força
excessiva e depois colocando em seu lugar novamente com cuidado, mantendo-a
intacta. Essa cena é claramente perceptível.
“O Ovo de Cristal”
O escritor inglês H.
G. Wells é um dos grandes nomes da literatura de ficção científica, com vários
de seus livros e contos transformados em filmes cultuados como “A Guerra dos
Mundos”, “A Máquina do Tempo”, “A Ilha do Dr. Moreau”, “Os Primeiros Homens na Lua”,
“O Homem Invisível”, “Daqui a Cem Anos”, “Viagem à Lua”, etc.
Sua obra também
inspirou a produção do episódio “O Ovo de Cristal”, onde um cientista renomado,
Prof. Frederick Vaneck (Thomas Mitchell) recebe a visita do dono de um
antiquário, Sr. Cave (Edgar Stehli), que lhe traz um misterioso artefato, um
“ovo de cristal”, para ser analisado e avaliado, depois que um homem estranho,
Walker (Gage Clark), demonstrou um interesse incomum em comprá-lo a todo custo.
Após trabalhar por incontáveis horas estudando o objeto, o cientista acaba
ficando obcecado por seus mistérios depois que consegue visualizar através dele
a superfície de outro planeta, e de descobrir que estamos sendo observados por
marcianos.
O ator Thomas Mitchell
já era muito experiente e conhecido na época, tendo participado de clássicos
como o western “No Tempo das Diligências”, o drama “... E o Vento Levou” e o
horror “O Corcunda de Notre Dame”, todos de 1939. Esse episódio tem uma
história muito interessante ao abordar o mistério por trás do ovo de cristal e
sua relação com uma conspiração alienígena, destacando a cena onde um marciano
tosco típico do cinema bagaceiro do período está espionando a Terra.
“Encontro em Marte”
Um grupo de três
astronautas viaja pelo espaço sideral até Marte numa missão de exploração de
minérios, descobrindo grande quantidade de urânio, extremamente valioso e que
os deixaria ricos na Terra. O grupo é formado pelo piloto da nave Capitão
Robert (Leslie Nielsen), Bart (William Redfield) e Jack (Brian Keith). Eles encontram
um planeta árido coberto por arbustos estranhos e pedras para todos os lados, e
aparentemente sem pessoas ou vida inteligente, com um incômodo e constante uivo
de fortes ventos. Sem os monstros verdes de olhos esbugalhados e fogo saindo da
boca, idealizados pela cultura popular. Porém, começam a ocorrer graves crises
de relacionamento entre eles, com brigas, discussões e acessos de loucura e
violência, evidenciando características típicas da raça humana como ganância e
desconfiança, levando o grupo para um fim trágico.
O ator canadense
Leslie Nielsen estaria depois no clássico “Planeta Proibido” (1956), um dos
mais importantes filmes da história do cinema de FC, e curiosamente muitos anos
mais tarde seu nome seria eternamente relacionado ao gênero comédia, com uma
infinidade de títulos na carreira como “Apertem os Cintos... o Piloto Sumiu”,
“Corra Que a Polícia Vem Aí”, “Drácula – Morto, Mas Feliz”, “Mr. Magoo”,
“2000.1 – Um Maluco Perdido no Espaço”, etc.
“The Evil Within”
O cientista Peter (Rod
Steiger) está trabalhando arduamente num soro especial que estimula os
sentimentos ruins internos das pessoas. Sem testar ainda em seres humanos, ele
traz o experimento para casa para mantê-lo refrigerado, uma vez que a geladeira
de seu laboratório quebrou. Em casa, sua esposa dedicada Anne (Margaret
Phillips) está incomodada com a vida solitária, sem a atenção do marido ocupado
com o trabalho científico, e reclama da situação desconfortável no casamento.
As coisas se complicam ainda mais depois que um acidente fez com que ela
ingerisse um pouco da poção química sem perceber e seu comportamento e
personalidade transformaram-se, trazendo à tona o seu “mal interno” do título.
Agora, o cientista precisará encontrar um antídoto para salvar a esposa.
Esse episódio lembra a
ideia básica de “O Médico e o Monstro”, livro de Robert Louis Stevenson que foi
adaptado incontáveis vezes no cinema. O ator James Dean, que fez uma
participação minúscula como Ralph, o ajudante do cientista, teve uma carreira
curta falecendo num acidente de carro em 1955, apenas com 24 anos de idade. Ele
já era um ator cultuado, apesar de muito jovem, por participações em clássicos
como “Juventude Transviada” e “Vidas Amargas” (ambos de 1955). Rod
Steiger (1925 / 2002) também foi outro ator com nome bastante reconhecido por
sua carreira bem sucedida com quase 150 créditos.
(RR – 20/01/18)
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