Mulheres Demônio (She Demons, EUA, 1958, PB)

 


“Você é louco, completamente insano!” – Jerrie Turner

 

“Não, minha querida. Você está enganada. São apenas os sem imaginação que não conseguem acreditar que o Homem é capaz de melhorar nossa natureza.” – Coronel Karl Osler

 

Em 1958 o diretor Richard E. Cunha (1922 / 2005) foi o responsável por quatro tranqueiras com elementos de horror e ficção científica produzidas com orçamentos minúsculos: “A Filha de Frankenstein” (Frankenstein´s Daughter), “Míssil Para a Lua” (Missile to the Moon), também conhecido no Brasil como “Terríveis Monstros da Lua”, “O Gigante do Outro Mundo” (Giant From the Unknown) e “Mulheres Demônio” (She Demons), que está disponível no Youtube na versão original com fotografia em preto e branco e opção de legendas em português com tradução simultânea.

 

Uma lancha turística enfrenta uma forte tempestade em alto mar e obriga seus passageiros a desembarcar numa ilha. O passeio foi financiado por um rico empresário do ramo de Eletrônica e os quatro sobreviventes náufragos são a jovem Jerri Turner (Irish McCalla), filha do empresário, o responsável pelo barco Fred Maklin (Tod Griffin) e seus ajudantes Sammy Ching (Victor Sen Yung) e Kris Kamana (Charles Opunui).

Após encontrarem uma mulher morta na praia com o rosto desfigurado e ouvirem sons de tambores, eles decidem explorar o interior da selva da ilha e encontram um grupo de mulheres dançando ao redor de uma fogueira, sendo surpreendidos em seguida por um grupo de soldados nazistas, liderados pelo carrasco Igor (Gene Roth). Eles então são capturados e apresentados ao “cientista louco” Coronel Karl Osler (Rudolph Anders), que é o chefe de uma base subterrânea com um laboratório sinistro. Ele trabalha com experiências envolvendo radiação atômica, genes de animais e a energia do calor de lavas vulcânicas do subsolo da ilha.

Depois de um acidente trágico com queimaduras no rosto de sua assistente e esposa Mona (Leni Tana), o cientista alemão passou a trabalhar em experiências para regenerar a pele humana curando feridas e cicatrizes, utilizando como cobaias outras belas mulheres nativas, que se transformavam nas criaturas do título, animalescas e com os rostos severamente deformados com olhos esbugalhados, peles enrugadas e enormes dentes tortos.

Enquanto a ilha é bombardeada pelos Estados Unidos num exercício militar destruindo a base subterrânea e liberando lava vulcânica, os náufragos Fred, Jerrie e Sammy tentam voltar à civilização fugindo da perseguição dos soldados nazistas e do cientista maluco com suas criaturas deformadas.    

 

“Mulheres Demônio” é curto com apenas 77 minutos de duração, e assim como os outros filmes do mesmo diretor citados no início desse texto, é mais um filme bagaceiro que diverte pelos efeitos práticos toscos, as maquiagens das mulheres com rostos disformes e os equipamentos bizarros do laboratório, cheios de luzes piscando e mostradores analógicos, além da história mirabolante misturando naufrágio, tempestade, ilha selvagem, lava vulcânica, testes de bombas, nazistas, base secreta subterrânea, e “cientista louco” com suas experiências extravagantes utilizando radioatividade.

Um dos destaques é a atuação exagerada do ator alemão Rudolph Anders (1895 / 1987), que também esteve em outras bagaceiras preciosas como “Fantasma do Espaço” (1953), “O Terror do Himalaia” (1954) e “O Castelo de Frankenstein” (1958). Sua performance como o “cientista louco” reserva os melhores momentos do filme, com seus discursos carregados de sarcasmo e sempre com um sorriso diabólico.

Não é um filme para se levar a sério, e sim apenas se divertir com a precariedade da produção. Exceto por Rudolph Anders, as interpretações do elenco são ruins e o roteiro com diálogos banais também não ajuda. A mocinha Jerrie Turner muda de personalidade, inicialmente mimada, arrogante e fútil, passando para corajosa e simpática com o herói Fred, formando o previsível casal no desfecho, seguindo um clichê tradicional em filmes similares. Assim como também não poderia faltar algumas eventuais piadas como alívio cômico, que não funcionam e aqui ficaram a cargo de Sammy Ching.   

Apesar do roteiro ser raso e cheio de falhas, ainda cumpre seu propósito de entretenimento escapista de filme bagaceiro de horror e ficção científica do período após a Segunda Guerra Mundial, explorando a utilização da energia nuclear com seus poderes desconhecidos e perigosos para a humanidade.

 

“Srta. Turner, em algum momento suas feições se transformarão em um ser deformado com as características de um animal. Em alguns dias você estará normal novamente, mas infelizmente nunca se lembrará de quem você é. Pelo resto de sua vida você viverá sem identidade.” – “cientista louco” Coronel Karl Osler

 

 (RR – 19/08/25)








A Noiva do Gorila (Bride of the Gorilla, EUA, 1951, PB)

 


"Maldição sobre o assassino que estes olhos viram. Amaldiçoado seja Barney Chavez. Ele vai ser como um animal que caçará na selva. A selva irá caçá-lo até a morte.”

 

Disponível no “Youtube” com opção de legendas em português, “A Noiva do Gorila” (Bride of the Gorilla, EUA, 1951) é uma produção de baixo orçamento com fotografia em preto e branco, direção e roteiro de Curt Siodmak, e história explorando o sempre interessante tema de “homens transformados em monstros”. Nesse caso, em vez das ações de um “cientista louco” com suas experiências bizarras, temos uma maldição e plantas alucinógenas influenciando a vítima que se “transformou” num demônio da selva com características de gorila.

 

Uma plantação de borracha nas selvas quentes da América do Sul é de propriedade de Klaas Van Gelder (Paul Cavanagh), que vive num casarão com sua bela esposa Dina (Barbara Payton). Porém, uma crise conjugal está afetando o casamento e Dina recebe o apoio do amigo e médico da família, Dr. Viet (Tom Conway).

O gerente da plantação e líder dos trabalhadores nativos é Barney Chavez (Raymond Burr), que é dispensado por seu desempenho insatisfatório na função e pelo interesse amoroso indevido pela esposa do patrão. Após uma discussão entre Chavez e Van Gelder, este último tem uma morte trágica ao ser picado por uma cobra venenosa, deixando o caminho para o rival se casar com Dina.

Mas, uma empregada da casa, a feiticeira veterana Al-Long (Gisela Werbiseck), ao testemunhar o crime, decide se vingar de Chavez com uma maldição e um envenenamento com ervas alucinógenas, fazendo Chavez se “transformar num monstro”, uma criatura demoníaca mítica conhecida pelos nativos como “Sukara”, parecida com um imenso gorila (com o ator Steve Calvert, não creditado, vestindo o traje de roupa peluda). A partir daí Chavez começa a desenvolver um interesse especial em explorar a selva noturna, espalhando medo nos nativos e morte entre animais nos arredores, despertando a atenção da polícia local através da investigação do Comissário Taro (Lon Chaney Jr.), que desconfia da morte suspeita de Van Gelder e a relação com os rumores de uma criatura maligna apavorando a região durante a noite.   

 

Curto com apenas 70 minutos de duração e filmado em 7 dias, os realizadores de “A Noiva do Gorila” não foram muito felizes na escolha do título oportunista, próprio para chamar a atenção do público na época, com a mocinha se apaixonando por um homem que se transforma num monstro parecido com grande macaco, tanto que utilizaram aquela típica campanha promocional com uma foto de um gorila segurando uma bela mulher desacordada nos braços.

Lon Chaney Jr., o eterno lobisomem da produtora “Universal” e ator reconhecido numa infinidade de filmes de horror, sempre é uma atração à parte que agrega valor ao filme, mas aqui ele parece meio deslocado no papel de um policial que investiga a maldição vingativa que recaiu sobre um homem atormentado por alucinações e loucura progressiva. O ator é normalmente mais reconhecido pelos papéis de monstros e vilões.

O roteirista e diretor alemão Curt Siodmak tem seu nome associado ao cinema fantástico com várias contribuições em filmes divertidos, seja no roteiro ou mesmo direção, como “O Lobisomem” (1941), “Frankenstein Encontra o Lobisomem” (1943), “O Filho de Drácula” (1943), “A Mansão de Frankenstein” (1944), “O Monstro Magnético” (1953), “Curuçu, o Terror do Amazonas” (1956), entre outros.


(RR – 14/08/25)







Invasão do Centro da Terra (Invasion From Inner Earth, EUA, 1974)

 


“Eles esperaram milhões de anos por esse momento!”

 

O diretor Bill Rebane, nascido em 1937 na Letônia, possui uma filmografia com várias tranqueiras de horror e ficção científica, como “Monster a Go-Go” (1965), “A Invasão das Aranhas Gigantes” (1975), “The Alpha Incident” (1978), “The Capture of Bigfoot” (1979), “Rana: The Legend of Shadow Lake” (1980), “The Demons of Ludlow” (1983), “The Game” (1984) e “Colheita Sangrenta” (1987), todos produzidos com orçamentos pequenos.

Em 1974 foi lançada outra bagaceira de seu currículo, dessa vez utilizando apenas o pseudônimo “Ito”, e que aqui no Brasil recebeu o título “Invasão do Centro da Terra” (Invasion From Inner Earth). O filme foi exibido na televisão, onde tive a oportunidade de ver dublado em alguma sessão perdida na madrugada, e que também está agora disponível no “Youtube” com opção de legendas em português geradas automaticamente. O roteiro foi escrito pela esposa do diretor, Barbara J. Rebane (falecida em 2014), em parceria com Paul Bentzen (também um dos atores do filme) e Candance Howell.

 

Um grupo de quatro pilotos de aviões pequenos fica isolado numa cabana localizada numa floresta gelada e remota no interior do Canadá. Jake (Nick Holt), Andy (Robert Arkens), Eric (Karl Wallace) e Stan (Paul Bentzen) se juntam na cabana com a irmã de Jake, Sarah (Debbi Pick), e ficam sabendo através de informações de rádio que estranhos e trágicos fenômenos estão ocorrendo ao redor do mundo, com quedas de aviões e relatos de uma praga infecciosa mortal dizimando as pessoas, gerando histeria e caos na luta pela sobrevivência.

Enquanto o mundo está entrando em colapso, surgem luzes vermelhas misteriosas no céu e bombas com fumaças também vermelhas e verdes infestando as cidades, além de discos voadores que sugerem uma invasão alienígena hostil, conforme também especulações de Stan, o jovem do grupo mais interessado em ciência, com suas teorias mirabolantes sobre Marte e o centro da Terra.

Uma vez desorientados e vítimas de um sentimento desconfortável de claustrofobia ao estarem confinados numa cabana isolada num cenário de apocalipse, os jovens decidem tentar algum contato externo e se aventuram pela floresta na esperança de encontrar mais pessoas vivas ou algum refúgio seguro.

 

“Invasão do Centro da Terra” tem aproximadamente uma hora e meia de duração com uma história que não sustenta o interesse para todo esse tempo de projeção, podendo ser reduzido em pelo menos uns vinte minutos para compensar o ritmo lento e falta de ação. As cenas com as naves espaciais dos invasores e as populações correndo em desespero fugindo da morte são poucas e muita rápidas, com a história focando mais no grupo preso na cabana. Isso não seria um problema desde que tivéssemos uma exploração melhor do drama do isolamento do grupo de cinco pessoas, enquanto o mundo externo está morrendo numa invasão. Porém, o filme não conseguiu transmitir esse sentimento depressivo entregando apenas vários momentos entediantes e arrastados, com um desfecho bizarro e extravagante que não deve ter agradado a grande maioria do público corajoso que conseguiu chegar até o final.

Mesmo sendo clichê, a história tinha um grande potencial para evidenciar o desconforto na descoberta repentina da extinção da humanidade no planeta em caos enfrentando uma invasão hostil de outra raça conquistadora. Mas, os realizadores não conseguiram transformar essa oportunidade num filme instigante e perturbador, a despeito dos poucos recursos da produção.

 

Talvez, em compensação para os apreciadores do cinema bagaceiro com elementos de ficção científica e horror, e a favor de um pouco de diversão, temos alguns discos voadores que devem ser lembrados entre os mais fuleiros da história do gênero, toscos ao extremo e hilários de tão patéticos.

Uma curiosidade nesse filme obscuro é a citação de Buenos Aires e Argentina quando a ideia é mencionar algum local na América do Sul para ilustrar a confusão ao redor do mundo devido à invasão alienígena, em vez de escolher algum lugar no Brasil. Dessa vez perdemos para o país vizinho.  

 

(RR – 07/08/25)






A Floresta (The Forest, EUA, 1982)

 

"Se você for até a floresta hoje, talvez nunca saia vivo!”

 

O subgênero “slasher”, com psicopatas assassinos com grandes facas afiadas (entre outras armas letais), perseguindo e matando violentamente suas vítimas, é um dos mais explorados no cinema de horror. E principalmente na década de 1980 tivemos uma infinidade de filmes cm essa temática, sempre muito parecidos entre si, variando apenas levemente nas histórias com as origens, motivações e mistérios sobre os assassinos, a ambientação das ações, e a quantidade, nível de violência sangrenta e formas utilizadas nas mortes gráficas.

 “A Floresta” (The Forest, EUA, 1982), que está disponível no Youtube com a opção de legendas em português, mistura o tradicional “slasher” com elementos de canibalismo e horror sobrenatural com assombração de fantasmas perturbados, na sempre temível ambientação de uma floresta. É uma produção de baixo orçamento de 85 minutos, e com direção e roteiro de Don Jones, que curiosamente tem uma participação rápida como um guarda florestal que alerta os campistas mochileiros sobre os perigos da floresta, com aquele típico discurso clichê sobre pessoas que acabam desaparecendo misteriosamente, conforme a frase promocional de divulgação do filme, que ilustra o cartaz.

 

Dois casais de amigos planejam acampar nas florestas da Califórnia, para escaparem da rotina estressante e o caos do trânsito da cidade grande. Steve (Dean Russell) e a esposa Sharon (Tommi Barrett), e Charlie (John Batis) e Teddi (Ann Wilkinson) viajam separados, com as mulheres na estrada antes, mesmo sem experiência como campistas. Elas chegam na base de uma cachoeira e ficam esperando pelos maridos, que acabam se atrasando por causa de um problema mecânico no carro, percorrendo a trilha na mata durante a noite, se perdendo e refugiando no interior de uma caverna.

Lá eles encontram um homem misterioso, John (Gary Kent), que conta sua história, uma tragédia familiar envolvendo a esposa adúltera e péssima mãe (Jeanette O´Connor), e um casal de filhos pequenos, John Jr. (Corky Pigeon) e Jennifer (Becki Burke).

Entre outras bizarrices, ao procurarem pelas esposas no meio da floresta, os homens são surpreendidos pela aparição fantasmagórica de uma mulher perguntando pelos filhos, e as moças entram em contato com as crianças fantasmas que alertam sobre os perigos do pai caçador à procura de carne.

 

Também conhecido pelo manjado título original alternativo “Terror in the Forest”, o filme tem aquelas falhas típicas que costumamos encontrar facilmente em produções de orçamentos reduzidos, como uma história mirabolante misturando um assassino louco ermitão e canibal, vivendo numa caverna, com a aparição de fantasmas atormentados, filmagens diurnas e noturnas numa mesma sequência, além de diálogos e comportamentos inverossímeis dos personagens, principalmente ao interagir com maníacos e fantasmas no meio de uma floresta.

Mas, por outro lado e tentando apenas observar pelo entretenimento escapista, o filme tem várias perseguições, confrontos e mortes sangrentas, além dos fantasmas atormentados, tanto a mãe maluca à procura dos filhos para puni-los, como as próprias crianças vítimas de tirania familiar e perdidas no limbo.    

 

(RR – 23/07/25)







O Homem Que Mudou de Alma (The Man Who Changed His Mind / The Man Who Lived Again, Inglaterra, 1936, PB)

 


"Eu era o principal cirurgião de Gênova – a maior autoridade no cérebro humano, até que lhes contei algo sobre seus próprios cérebros. Então eles disseram que eu estava louco. Olhe para mim. Eu sou louco?”

“Eu queria que meu trabalho fosse entregue ao mundo para ser usado para o bem comum, mas eles não aceitaram! Eles não acreditaram em mim... eles riram. Tudo bem, vou guardá-lo para mim e usá-lo para meus próprios fins.”

- do “cientista louco” Dr. Laurience

 

As frases acima, carregadas de amargura e indignação, de um cientista incompreendido por seu trabalho abnegado para o suposto bem da humanidade, são de autoria do Dr. Laurience, um brilhante estudioso da mente humana, mas considerado pelos colegas e sociedade acadêmica e científica apenas como mais um “cientista louco” (sempre interpretado magistralmente por Boris Karloff), ou em outras palavras aproveitando o título nacional do filme de produção inglesa, “O Homem Que Mudou de Alma”, ou ainda também “O Homem Que Mudou Sua Mente” e “Viveu Novamente”, utilizando as referências dos nomes originais, através de suas experiências bizarras com transferência do conteúdo mental entre animais, com casos bem sucedidos em chimpanzés, e também nos próprios seres humanos.

Lançado em 1936 com fotografia em preto e branco e direção de Robert Stevenson, “O Homem Que Mudou de Alma” (“The Man Who Changed His Mind”, também conhecido como “The Man Who Lived Again”) tem apenas 66 minutos de duração e está disponível no Youtube com opção de legendas em português, além também em DVD no mercado brasileiro pela “Versátil”, na coleção “Mestres do Terror: Boris Kaloff”.

 

O especialista em cérebros Dr. Laurience (Karloff) está trabalhando com experiências secretas em sua mansão sinistra, com o objetivo de transferir a mente entre corpos. Em sua casa sombria vive também outra pessoa, o ressentido Clayton (Donald Calthrop), doente numa cadeira de rodas e paciente do cientista, esperando por uma cura para sua grave enfermidade.

Para ajudar nas experiências é recrutada uma cirurgiã de sua confiança, a jovem Dra. Clare Wyatt (Anna Lee), noiva do jornalista fanfarrão Dick Haslewood (John Loder), que por sua vez é filho do arrogante Lord Haslewood (Frank Cellier), um rico empresário dono de um jornal, que decide patrocinar o trabalho do Dr. Laurience com um laboratório melhor equipado.

Porém, depois que o cientista é ridicularizado por seus colegas de profissão numa conferência, e a ajuda financeira do Lord Haslewood é cancelada, ele decide utilizar os resultados de suas experiências para seu próprio benefício, ocasionando um caos com mentes trocadas de corpo, confusões e mortes, restando para a Dra. Clare a missão de tentar reestabelecer a ordem novamente.  

 

Boris Karloff foi o melhor “cientista louco” da história do cinema de horror e ficção científica, fazendo esse papel numa infinidade de filmes com histórias muito similares, com interpretações convincentes e marcantes que o imortalizaram no gênero, juntamente com sua performance como o clássico monstro de Frankenstein da “Universal” nos anos 1930. Sempre com atuações de um cientista inicialmente com boas intenções e depois de mal compreendido pelas bizarrices de suas ideias e experiências científicas com eventos trágicos, se transformaria em vilão criminoso e assassino com a mente distorcida pelo ódio e sentimento de vingança.

Em “O Homem Que Mudou de Alma”, temos a mesma recorrência de enredo básico, onde Karloff é um cientista fumante inveterado, obcecado em transferir a mente entre corpos, com seu laboratório repleto de equipamentos elétricos bizarros, máquinas com alavancas, botões, mostradores e luzes piscando, com todas as suas cenas tornando-se os destaques do filme. E o resto da história sendo o mesmo velho clichê com personagens bem menos interessantes interagindo entre si, com tentativas dispensáveis de humor e alívio cômico que deveriam ser necessários na visão dos produtores, ou esperados pelas plateias da época que consumiam filmes com elementos fantásticos.

Mas, o que interessa mesmo é a presença imponente de Boris Karloff e suas loucuras científicas.

 

(RR – 16/07/25)






O Jacaré Humano (The Alligator People, EUA, 1959, PB)


O sub-gênero “humanos transformados em monstros” é um dos mais interessantes no cinema de baixo orçamento com elementos de horror e ficção científica. Filmes como “A Mosca da Cabeça Branca” (The Fly, 1958), com um cientista transformado parcialmente em mosca (cabeça e um dos braços) numa experiência malsucedida de teletransporte, ou “A Mulher Vespa” (The Wasp Woman, 1959), com uma empresária do ramo de cosméticos transformada numa criatura meio vespa ao tentar rejuvenescer com um soro criado por um cientista, são apenas dois exemplos de diversão com monstros toscos do cinema fantástico bagaceiro.

“O Jacaré Humano” (The Alligator People, EUA, 1959) é outro exemplo desse universo, com um militar transformado em jacaré humano pelas experiências de mais um “cientista louco” (sempre eles) trabalhando supostamente para o bem da humanidade (sempre com essa premissa de boas intenções com resultados ruins) na tentativa de regenerar o tecido humano deformado em acidentes.

Disponível no “Youtube” com opção de legendas em português, e lançado em DVD no Brasil pela “Versátil” na coleção “Clássicos Sci-Fi” Volume 5, o filme tem direção de Roy Del Ruth, roteiro de Orville H. Hampton, Charles O´Neal e Robert M. Fresco, fotografia original em preto e branco e elenco formado por Beverly Garland (de “Ameaça Espacial”, 1956) e Lon Chaney Jr. (1906 / 1973), nome eternamente associado ao Horror com inúmeros filmes na carreira e muito conhecido como “O lobisomem” no filme de 1941 da produtora “Universal”.

 

A enfermeira Jane Marvin (Beverly Garland) está trabalhando num sanatório e através de uma sessão de hipnose realizada pelo neuropatologista Dr. Wayne MacGregor (Douglas Kennedy) e com a consultoria do Dr. Eric Lorimer (Bruce Bennett), eles conhecem a estranha história dela, que na verdade se chama Joyce Hatten Webster, casada com Paul (Richard Crane), um tenente do exército que foi vítima de um acidente aéreo. Mesmo gravemente deformado, ele sobreviveu e com todas as cicatrizes misteriosamente curadas.

Porém, durante uma viagem de trem Paul recebe um telegrama e decide abandonar a esposa sem explicações desaparecendo na próxima estação. A partir daí, Joyce tenta encontrá-lo e depois de um árduo trabalho de investigação encontrou uma indicação numa mansão sinistra com segredos obscuros, localizada numa região rural e pantanosa com muitos jacarés.

Chegando lá, ela conhece o ajudante geral e motorista Manon (Lon Chaney Jr.), um homem rude e bêbado que tem um gancho no lugar de uma das mãos, decepada num confronto com um jacaré, e é recebida pela desconfiada proprietária Sra. Lavinia Hawthorne (Frieda Inescort), conhecendo também o cientista Dr. Mark Sinclair (George Macready), que está trabalhando com experiências de regeneração de tecidos humanos utilizando radioatividade e jacarés.

Depois de alguma dificuldade, Joyce encontra seu marido que está com o rosto deformado e feições reptilianas, desesperado para reverter o processo com as experiências sinistras do cientista envolvendo os jacarés que vivem na região, mas ocorre um acidente no laboratório e ele se transforma definitivamente no monstro mutante do título nacional.

 

Normalmente nesses filmes tranqueiras de horror e ficção científica, o roteiro é cheio de falhas e os efeitos práticos são toscos, e o mesmo acontece com “O Jacaré Humano”. Porém, a diversão para quem aprecia esse tipo de cinema antigo de baixo orçamento está justamente nessas características. O grande destaque, mesmo aparecendo pouco em cena, é o monstro bagaceiro com roupa de borracha, representado por um homem perturbado, com a mente distorcida e transformado num jacaré. Uma ideia exagerada no escapismo, hilária e inevitavelmente divertida. Tem também (e não poderia faltar) o “cientista louco” com suas experiências bizarras, sem controle dos resultados invariavelmente trágicos, com seu laboratório no pântano repleto de equipamentos elétricos com luzes piscando e mostradores analógicos, tentando simular uma tecnologia avançada utilizando elementos radioativos e desbravando uma ciência perigosa e desconhecida.  

 

(RR – 09/07/25)







Caltiki, o Monstro Imortal (Caltiki, the Immortal Monster, Itália / EUA, 1959, PB)


"Esta é uma pirâmide sagrada na antiga cidade deserta de Tikal, a 300 milhas ao sul da Cidade do México. Nesta cidade morta, viveu por milhares de anos o povo pacífico e culto conhecido por nós como Maias, um povo versado na ciência da matemática e da astronomia. Mas, um dia no ano de 607 D.C. os Maias migraram para o norte distante e selvagemm, abandonando suas casas, pirâmides e templos que haviam construído tão artisticamente. Nenhuma pessoas ficou para trás, e a cidade permaneceu deserta. Aos poucos, a selva engoliu suas ruas e prédios, não deixando vestígios do que um dia foi uma civilização próspera. As expedições científicas que tentaram esclarecer as razões dessa migração nunca conseguiram explicá-la. Antigamente, acreditava-se que eles tinham sido derrotados por uma tribo inimiga. Mas que tribo poderia ter sido forte o suficiente para derrotar o grande povo Maia? Não há nenhuma indicação de qualquer cataclisma que pudesse ter forçado um povo inteiro a abandonar a terra em que sempre viveu para construir um novo reino em outro lugar. O mistério ainda existe. E hoje, os poucos índios nômades que cruzam esta área contam como os seus ancestrais fugiram desta terra, para escapar da ira de uma deusa vingativa. Uma deusa que tinha fome de sangue, Caltiki.”

 

“A Bolha” (The Blob, EUA, 1958), com Steve McQueen, é um filme cultuado produzido nos longínquos anos 50 do século passado, a década dourada do cinema fantástico, e que lançou na cultura pop dos apreciadores do cinema bagaceiro com elementos de horror e ficção científica, um monstro gosmento vindo do espaço, parecido com uma bolha que aumenta de tamanho conforme destrói e engole tudo em seu caminho.

O cinema italiano também contribuiu de forma significativa com uma infinidade de preciosidades e sua resposta para a “bolha assassina” foi “Caltiki, o Monstro Imortal” (Caltiki il Mostro Immortale / Caltiki, the Immortal Monster, 1959), com direção de Riccardo Freda (creditado como Robert Hamton), que abandonou o projeto antes do término das filmagens, passando a função para Mario Bava (não creditado). Bava mais tarde seria consagrado como um mestre do cinema gótico de horror italiano. Com fotografia original em preto e branco e duração de 76 minutos, o filme está disponível no “Youtube” com dublagem em inglês e opção de legendas automáticas em português. E foi lançado em DVD no Brasil pela “Versátil” na coleção “Clássicos Sci-Fi” Volume 4.

 

Ambientada no México, a história é sobre um grupo de arqueólogos trabalhando em escavações de ruínas Maias, liderado pelo Prof. John Fielding (o canadense John Merivale), que trouxe sua esposa Ellen (a irlandesa Didi Sullivan) para acompanhá-lo. Faz parte ainda da equipe seu amigo traiçoeiro Max Gunther (o alemão Gerard Haerter), que demonstrou não ser confiável, além de rude com a namorada Linda (a italiana Daniela Rocca).

Eles exploram uma caverna num sítio arqueológico na cidade de Tikal (mencionada no prólogo transcrito no início desse texto, com narração não creditada de Renzo Palmer), e encontram em seu interior uma estátua da deusa maligna Caltiki, que exigia sacrifícios humanos, além de um lago com vários objetos de ouro abandonados no fundo. Ao tentarem resgatar o tesouro, eles são surpreendidos por um monstro ancestral enorme, formado por uma massa gosmenta que devora as pessoas dissolvendo a carne e tecidos vitais das vítimas, e que tem relações com a radioatividade de um meteoro em aproximação da Terra e a lenda da maldição de Caltiki.      

 

Felizmente para os apreciadores do cinema antigo bagaceiro com monstros toscos, o filme nos presenteia com várias cenas de ataques da bolha orgânica, ácida e carnívora (vulnerável apenas ao fogo), que destrói tudo por onde passa e se multiplica aumentando progressivamente de tamanho. Através de divertidos efeitos práticos (mistura de tecidos e tripas, que cheiravam mal no set de filmagens e atraía moscas), os quais devem ser enaltecidos pelas dificuldades óbvias da época, além dos recursos escassos da produção, num período onde nem se imaginava os efeitos com computação gráfica, que tornariam tudo mais artificial.

Outros destaques dentro desse contexto de diversão com cinema de gênero (horror e FC) e baixo orçamento, são a imensa máquina que fez a leitura da idade do monstro através de um pedaço recuperado num confronto, cheia de luzes piscando e indicadores analógicos para simular uma tecnologia avançada na época, e a sequência final de batalha entre o exército e as criaturas disformes, com miniaturas de tanques lança-chamas.

Entre as curiosidades, o filme recebeu uma versão colorizada e Caltiki foi uma invenção dos roteiristas, não existindo realmente essa divindade na cultura Maia.

 

(RR – 03/07/25)