A Trilogia "O Senhor dos Anéis" (2001/2002/2003)


Nota: Antes da leitura desse artigo, é necessário informar que o texto está dividido em três partes, abordando separadamente os filmes da trilogia de “O Senhor dos Anéis”, obra-prima do diretor Peter Jackson, baseada na literatura de J. R. R. Tolkien. Como os textos foram escritos originalmente na respectiva época de lançamentos dos filmes nos cinemas brasileiros, e como foram agrupados agora para montar uma espécie de compilação da saga, esses textos receberam uma adaptação e a inclusão de novas informações, assim como principalmente uma descrição detalhada dos materiais extras disponíveis nos DVD´s lançados por aqui num box de seis discos (um para cada filme e um para cada grupo de informações especiais). Porém, é importante salientar que várias informações, observações e comentários podem estar duplicados, além da possibilidade de existirem “spoilers”.

O SENHOR DOS ANÉIS: A SOCIEDADE DO ANEL

Um anel para a todos governar. Um anel para encontrá-los. Um anel para a todos trazer. E na escuridão aprisioná-los.

O ano de 2002 começou muito bem na área do cinema fantástico com a estréia nos cinemas brasileiros em 1 de janeiro (e nos EUA em 19/12/01), da aguardada fantasia com elementos de horror O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring), numa co-produção entre Estados Unidos e Nova Zelândia, baseada na famosa obra literária lançada em 1954 do escritor sul africano John Ronald Reuel Tolkien (1892 / 1973). Professor de línguas anglo-saxônicas na Universidade de Oxford, na Inglaterra, ele demorou 16 longos anos para escrever uma história de 1.200 páginas, num complexo universo ficcional, e que foi publicada em três livros.
Os filmes de fantasia apareceram com grande força nos últimos anos, destacando duas franquias em especial, de muito sucesso entre o público: “Harry Potter”, mais voltada para uma audiência infanto-juvenil, apresentando a saga do bruxo adolescente homônimo e suas aventuras pelo mundo fictício de Hogwarts, da obra literária de J. K. Rowling, e a trilogia “O Senhor dos Anéis” (formada por “A Sociedade do Anel”, “As Duas Torres” e “O Retorno do Rei”), mais direcionada para um público adulto.

A história é ambientada num mundo mitológico chamado de Terra-média (Middle-earth), povoado por diversas raças diferentes entre humanos, hobbits, elfos, anões e os terríveis orcs. Numa antiga batalha entre o Bem e o Mal, este último representado por Sauron, o rei de Mordor e o Senhor do Escuro, um poderoso anel foi criado no fogo da Montanha da Perdição e quem o usasse poderia controlar e subjugar todos os outros povos. No confronto, o anel foi retirado de Sauron pelo humano Isildur, e uma vez não sendo destruído por causa da fraqueza humana de seu portador, o precioso objeto ficou perdido por muito tempo até que um hobbit, Bilbo Baggins (Ian Holm), o encontrou depois de passar pelas mãos de uma outra criatura estranha chamada Gollum (personagem digital com a voz, os movimentos e expressões faciais interpretados pelo ator inglês Andy Serkis). Após mais de sessenta anos em segredo, Bilbo repassa o anel para seu sobrinho Frodo Baggins (Elijah Wood), que torna-se a partir daí o seu portador oficial com a difícil tarefa de destruí-lo para evitar que retornasse às mãos de Sauron e conseqüentemente permitisse uma nova era de escuridão sobre a Terra-média.
Para isso, Frodo tem que rumar numa jornada perigosa até a Montanha da Perdição e destruir o anel no fogo de suas entranhas, tendo ao seu lado para ajudá-lo um grupo de guerreiros, a “Sociedade do Anel”, formado por seus amigos hobbits Peregrin “Pippin” Tûk (Billy Boyd), Meriadoc “Merry” Brandebuque (Dominic Monaghan) e Samwise “Sam” Gamgi (Sean Astin), os humanos Boromir (Sean Bean) e o guardião Aragorn (Viggo Mortensen), também conhecido como “Passolargo”, um herdeiro de Isildur e do trono de Gondor, sendo ambos muito habilidosos com as espadas, o elfo Legolas (Orlando Bloom) com seu arco e flechas, o anão Gimli (John Rhys-Davies) com seu machado, e o mago Gandalf, o Cinzento (o veterano Ian McKellen).
No percurso eles ainda são ajudados pelos elfos de Valfenda, o experiente líder Elrond (Hugo Weaving) e sua bela filha, a princesa Arwen Undômiel (Liv Tyler), além de Galadriel, a Senhora da Luz (Cate Blanchett). Para combatê-los, surge o mago Saruman, chefe da Ordem dos Magos e antigo aliado de Gandalf, e que agora foi corrompido para servir Sauron. Ele é interpretado pelo grande “vampiro do cinema” Christopher Lee, ator veterano e famoso por seu papel do Conde Drácula em vários filmes da “Hammer” entre o final dos anos 50 e meados da década de 70 do século passado.

O projeto para o cinema de “O Senhor dos Anéis” começou em 1995 quando o diretor neozelandês Peter Jackson, nascido em 1961 e mais conhecido por seus filmes de horror “Trash, Náusea Total” (Bad Taste, 87) e “Fome Animal” (Braindead, 92), apresentou um filme de meia hora como demonstração para os executivos da “New Line Cinema”. Uma vez aprovado, foi dado o sinal verde para a produção de três filmes simultaneamente, com o início das filmagens em 11/10/99.
“A Sociedade do Anel” é um filme grandioso, utilizando uma excepcional fotografia com tomadas de belas montanhas do interior da Nova Zelândia, num espetacular e memorável show de imagens marcantes, e com efeitos especiais modernos e impressionantes, criados pela empresa “WETA Workshop”, responsável pela maquiagem e concepção dos figurinos, armas, criaturas e miniaturas.
Vários momentos são memoráveis como todas as cenas envolvendo o nostálgico Christopher Lee na pele do vilão Saruman, e nas passagens violentas com elementos de Horror como nas cenas de confronto da Sociedade do Anel na entrada das Minas de Moria, com uma enorme criatura parecida com um polvo (no melhor estilo dos monstros indizíveis de H. P. Lovecraft); ou na batalha com vários orcs e um gigante troll no interior das mesmas minas amaldiçoadas; ou ainda no confronto mortal do mago Gandalf na ponte de Khazad-dûm com um balrog, um poderoso e terrível demônio do mundo antigo.
Das incontáveis criaturas macabras que desfilam pelo filme, vale destacar a presença dos grotescos uruk-hai, guerreiros mutantes criados especialmente para a guerra, além dos obscuros espectros do anel ou cavaleiros negros, também chamados de Nazgûl, os quais já foram reis humanos e que depois de corrompidos pela influência maligna do anel, agora estão decaídos, fantasmagóricos e decrépitos, seres nem vivos nem mortos, e que receberam a missão de recuperar o anel para o espírito de Sauron.
Muito se comentou positivamente nos últimos anos sobre essa produção de “O Senhor dos Anéis” e realmente o filme justifica toda a movimentação ao seu redor, pois consegue garantir quase três horas de pura diversão num verdadeiro cinema de entretenimento. E os próximos filmes da saga mantiveram ou até superaram as expectativas positivas, fazendo dessa trilogia um dos melhores momentos do cinema fantástico de todos os tempos.
Nota: A primeira exibição do filme na televisão aberta foi em 23/10/05, pelo SBT, às 20:30 horas.

“O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel” foi lançado em DVD duplo no Brasil pela “Warner” e “New Line”, sendo um dos discos exclusivo para os materiais extras, totalizando cerca de duas horas e meia de uma verdadeira overdose de documentários, informações de bastidores e depoimentos dos atores e membros da equipe de produção, e tudo devidamente legendado em português.
Entre os documentários temos “Bem-vindo a Terra-média: Especial da Houghton Mifflin” (Houghton Mifflin: Welcome to Middle-earth), de 17 minutos, produzido pela empresa responsável pela publicação dos livros de Tolkien, trazendo comentários da editora Wendy Sthothman, do editor Rayner Unwin, de Brian Sibley, autor do livro “The Lord of the Rings Official Movie Guide”, além de Alan Lee, ilustrador dos livros da série, Clay Harper, diretor dos projetos da editora baseados na literatura de Tolkien, Richard Taylor, presidente da “WETA Workshop”, empresa responsável pelos cenários, roupas e armas dos filmes, o diretor Peter Jackson e os principais atores do elenco como Cate Blanchett, Ian McKellen, Orlando Bloom, Elijah Wood e Viggo Mortensen. Aliás, além desses, vários outros atores participaram com depoimentos nos demais documentários como Sean Astin, Billy Boyd, Dominic Monaghan, Liv Tyler, Sean Bean, Hugo Weaving, Christopher Lee, John Rhys-Davies e Andy Serkis.
Outro documentário é “A Demanda do Anel” (Quest for the Ring), especial da Fox TV, com 22 minutos, trazendo mais depoimentos interessantes dos atores e do cineasta Peter Jackson.
A seguir, foi a vez de “Uma Passagem Para a Terra-média” (A Passage to Middle-earth: The Making of Lord of the Rings), especial da Sci-Fi Channel, com 41 minutos, dividido em vários temas e trazendo uma infinidade de comentários dos atores e integrantes da equipe de produção como a co-roteirista Phillipa Boyens, o criador do anel Thorkild Hansen, o desenhista de produção Grant Taylor, o contra regra Nick Weir, o construtor de espadas Peter Lyon, o professor de esgrima Bob Anderson, a selecionadora de elenco na Nova Zelândia Liz Mullane, a figurinista Ngila Dickson, os consultores de dialetos Andrew Jack e Roisin Carty, o supervisor de direção de arte Dan Hennah, o técnico da equipe de pré-produção Greg Butler, a dublê Lani M. Jackson, o professor assistente de esgrima Kirk Maxwell, o artesão Chris Smith, o diretor de fotografia Andrew Lesnie e o desenhista de concepção John Howe. Os temas abordados são: “Os Hobbits”, “Detalhes da Terra-média”, “Aragorn – Homem Mortal”, “Os Elfos”, “Línguas”, “Os Anões”, “As Forças do Mal”, e “Os Espectros do Anel”.
A próxima atração é a exibição de três trailers diferentes, totalizando cerca de 8 minutos, seguidos de seis spots de TV com 30 segundos cada, divididos como “MTV”, “A Sociedade”, “Top Ten / American Film Institute”, “O Fenômeno”, “Indicação ao Oscar”, e “Oscar Épico”. Continuando a overdose de extras vem o vídeo musical “May It Be”, de Enya, com três minutos e meio de duração, a prévia do DVD com a versão especial estendida, contendo cenas inéditas e cortadas da edição final, em 3 minutos com comentários do editor John Gilbert, a prévia dos bastidores de “O Senhor dos Anéis: As Duas Torres”, em 11 minutos trazendo os comentários do produtor executivo Mark Ordesky e do produtor Barrie M. Osborne, e a prévia do jogo produzido pela “EA Games” (Electronic Arts), em 3 minutos com depoimentos dos criadores Scott Evans e Hudson Piehl.
Depois de tudo isso, as informações especiais ainda continuam com um vasto material produzido por lordoftherings.net, através de um documentário de 25 minutos explorando os locais e culturas da Terra-média, subdividido nos temas “Em Busca da Vila dos Hobbits” (Finding Hobbiton), “A Vila dos Hobbits Ganha Vida” (Hobbiton Comes Alive), “Acreditando no Mundo de Bri” (Believing the World of Bree), “Espectros do Anel: Os Reis Decaídos” (Ringwraiths: The Fallen Kings), “Valfenda: O Refúgio Élfico” (Rivendell: The Elven Refuge), “Línguas da Terra-média” (Languages of Middle-earth), “Dois Magos” (Two Wizards), e “A Música da Terra-média” (Music of Middle-earth). Todos os temas são comentados pelos atores, pelo cineasta Peter Jackson e outras pessoas veiculadas à equipe de produção como o técnico de efeitos especiais mecânicos Darryl Richards, o responsável pela trilha sonora Howard Shore ou ainda pessoas que participaram do projeto como o fazendeiro Ian Anderson, dono do local onde foi construída a vila dos hobbits.
E para finalizar, ainda como um material produzido por lordoftherings.net, tivemos a apresentação dos principais personagens do filme e o perfil de seus atores, como Elijah Wood, Viggo Mortensen, Orlando Bloom, Cate Blanchett, Liv Tyler e Ian McKellen, em cerca de 12 minutos ao todo, e o making of “Topo do Vento: A Colina Tempestuosa”, com 3 minutos, falando sobre os bastidores de filmagem da seqüência passada no topo de uma montanha sinistra, onde os hobbits são atacados pelos espectros do anel e Frodo é ferido pela espada do líder dos Nazgûl.

“O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel” (The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring, 01) – avaliação: 10 (de 0 a 10).

O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring, Estados Unidos / Nova Zelândia, 2001). Duração: 178 minutos. “Warner Brothers” / “New Line Cinema”. Direção de Peter Jackson. Roteiro de Peter Jackson, Frances Walsh e Philippa Boyens, baseado na obra literária de J. R. R. Tolkien. Produção de Peter Jackson, Barrie M. Osborne, Frances Walsh, Tim Sanders, Rick Porras e Jamie Selkirk. Produção Executiva de Michael Lynne, Mark Ordesky, Robert Shaye, Bob Weinstein e Harvey Weinstein. Música de Howard Shore. Fotografia de Andrew Lesnie. Edição de John Gilbert. Desenho de Produção de Grant Major. Efeitos Visuais de Jim Rygiel. Desenho de Vestuário de Ngila Dickson e Richard Taylor. Maquiagem especial, criaturas, miniaturas e efeitos digitais: Richard Taylor (WETA Workshop). Elenco: Elijah Wood (Frodo), Andy Serkis (Gollum), Billy Boyd (Pippin), Dominic Monaghan (Merry), Sean Astin (Sam), Viggo Mortensen (Aragorn), Sean Bean (Boromir), Orlando Bloom (Legolas), John Rhys-Davies (Gimli), Ian McKellen (Gandalf), Liv Tyler (Arwen), Cate Blanchett (Galadriel), Ian Holm (Bilbo Baggins), Christopher Lee (Saruman), Hugo Weaving (Elrond).

O SENHOR DOS ANÉIS: AS DUAS TORRES

A batalha pelo Abismo de Helm acabou. A batalha pela Terra-média está para começar.” – Gandalf

Encerrando magistralmente o ano de 2002 na área do cinema fantástico, entrou em cartaz nas salas de projeção pelo Brasil em 27 de dezembro (e nos EUA no dia 18) a aguardada seqüência do épico de fantasia com elementos de horror “O Senhor dos Anéis: As Duas Torres” (The Lord of the Rings: The Two Towers), transposição paras as telas da famosa obra literária do escritor J. R. R. Tolkien. É curioso citar como o subtítulo “As Duas Torres” tem uma macabra coincidência com as torres gêmeas do “World Trade Center” de New York, que caíram vítimas do terrorismo naquele fatídico dia 11/09/01, matando milhares de pessoas. Mas o subtítulo refere-se mesmo as duas torres que estão aliadas para servir o mal absoluto, a Torre de Orthanc, em Isengard, onde vive Saruman, e a Torre de Barad-dûr, em Mordor, onde reside Sauron.

Esse filme intermediário da trilogia é igualmente grandioso, com seus eventos iniciando logo após os acontecimentos narrados no primeiro filme. O mago Gandalf está enfrentando um terrível demônio balrog de Morgoth, quando ambos caem num abismo de sombras e ficamos sabendo o destino desse mortal confronto, agora com Gandalf promovido para um mago Branco (no filme anterior ele era Gandalf, o Cinzento).
A seguir, temos uma tomada aérea das lindas paisagens da Nova Zelândia, numa região montanhosa gelada por onde caminham os hobbits Frodo, que tem a árdua missão de carregar o poderoso Um-Anel, e seu amigo Sam, numa jornada rumo aos Portões Negros de Mordor para destruir o anel na Montanha da Perdição. Eles encontram pelo caminho e aprisionam a estranha e traiçoeira criatura Sméagol / Gollum, que foi um antigo dono do anel e que passa agora a guiá-los com destino a Mordor.
Curiosamente, Sméagol / Gollum são dois personagens interiores da mesma criatura que constantemente estão em conflito, lembrando com eficiência a clássica história “O Médico e o Monstro” (Dr. Jekyll and Mr. Hyde) de Robert Louis Stevenson, onde um cientista cria uma fórmula que uma vez ingerida desperta uma dupla personalidade variando entre o bem e o mal. Algo similar ocorreu também no filme “Homem-Aranha”, de Sam Raimi, com o vilão “Duende Verde” alternando sua personalidade com o cientista Norman Osborn.
Paralelamente ocorrem outras narrativas simultâneas como a jornada de três integrantes da “Sociedade do Anel”, o humano Aragorn, filho de Arathorn, herdeiro do trono de Gondor, o arqueiro elfo Legolas, do Reino da Floresta, e o anão Gimli, filho de Glóin, que partem atrás de um grupo de orcs e uruks-hai que seqüestraram os hobbits Pippin e Merry. Os orcs foram mortos num confronto com um grupo de humanos conhecidos como rohirrim, liderados por Éomer (Karl Urban). Eles foram exilados de Edoras, a capital do Reino de Rohan, a Terra dos Cavaleiros, numa decisão equivocada do Rei Théoden (Bernard Hill), que estava enfeitiçado sob o domínio de Saruman. E aproveitando a confusão da batalha, os hobbits fugiram para a floresta Fangorn e encontraram um poderoso, antigo e sábio ent chamado Barbárvore, criatura similar a uma enorme árvore que anda e fala, e que é convencida a conclamar seus companheiros para participarem de uma batalha em Isengard, na guerra contra o mal representado pelo mago traidor Saruman, atual aliado da entidade maléfica Sauron. Eles planejam dominar a Terra-média, e para isso Saruman está criando um exército de orcs na fortaleza de Isengard.
Enquanto isso, uma vez não encontrando os hobbits Pippin e Merry, os três guerreiros Aragorn, Legolas e Gimli (o anão que rouba para si as cenas cômicas com várias piadas envolvendo sua baixa estatura) se unem ao Rei de Rohan, Théoden e seus súditos e partem para a fortaleza do Abismo de Helm, procurando um abrigo mais seguro, preparando-se para uma terrível guerra contra milhares de orcs e uruks-hai enviados por Saruman.
Alguns novos e interessantes personagens aparecem agora neste segundo filme. Entre eles, o sinistro vilão Grima Língua-de-Cobra (Brad Dourif, mais conhecido por emprestar sua voz para o famoso boneco “Chucky”, o brinquedo assassino do cinema, numa franquia de cinco filmes), um conselheiro traiçoeiro e aliado de Saruman, e que enfeitiçou o Rei de Rohan. A jovem Éowyn (a bela australiana Miranda Otto), sobrinha de Théoden e irmã de Éomer, e que se apaixona por Aragorn. E o Capitão Faramir (David Wenham), irmão de Boromir (um dos membros da “Sociedade do Anel” no filme anterior) e filho do regente de Gondor, Denethor, que foi convocado para ajudar na defesa de Osgiliath numa batalha contra um exército de orcs, e que também tem participação importante no destino de Frodo em sua jornada até Mordor.

“O Senhor dos Anéis: As Duas Torres” é mais um filme excepcional, com uma história sombria e sangrenta, com muitos elementos de violência e horror, apresentando uma infinidade de criaturas e monstros, numa overdose de informações de um complexo mundo de fantasia. Os cenários são fantásticos, destacando os macabros Pântanos Mortos, o Castelo de Rohan com o imponente Palácio Dourado de Meduseld, a fábrica de orcs em Isengard, e principalmente a imensa fortaleza de pedra localizada no Abismo de Helm, refúgio do povo de Rohan.
Aliás, certamente os maiores destaques do filme são as fascinantes cenas de batalha com o exército de Saruman, formado por cerca de dez mil orcs e uruks-hai extremamente ferozes, que tentavam tomar o forte no Abismo de Helm, o qual estava sob o poder de um número bem menor de humanos aliados a um grupo de elfos, que abandonaram seu lar em Valfenda para lutar ao lado dos homens. Com uma bela fotografia sombria (pois a guerra era travada numa noite chuvosa), em meio a uma incontável quantidade de mortos para todos os lados, uma imensidão de flechas voando pelos ares, escadas cheias de orcs tentando invadir as estruturas de pedra da fortaleza (lembrando em menor escala aqueles tradicionais filmes de western, com os índios tentando invadir o forte dos soldados americanos), e confrontos violentos corpo a corpo na base da lâmina cortante do aço das espadas, mostrando toda a irracionalidade de um campo de guerra.
A batalha no Abismo de Helm está entre as mais definitivas seqüências de guerra já filmadas pelo cinema (tendo a favor todos os efeitos digitais de uma tecnologia moderna), juntamente com os minutos iniciais de “O Resgate do Soldado Ryan” (98), que mostra a invasão dos aliados na costa da Normandia na Segunda Guerra Mundial, decisiva para os rumos daquela guerra insana. É claro que os dois exemplos têm diferenças básicas entre si; pois o primeiro simula uma história de fantasia com personagens fictícios e armas primitivas, e o outro reproduz um fato real e sangrento da história da humanidade, com destruidoras armas de fogo matando homens; mas como exclusivamente cinema de guerra, ambos os casos caracterizam de forma convincente o que mais próximo seria um campo de batalha.
Outros destaques que merecem registro também são a presença do belo cavalo branco Scadufax, o Senhor de Todos os Cavalos, que surge para transportar o mago Gandalf pelas planícies e montanhas da Terra-média. E o confronto entre os cavaleiros de Rohan, enquanto estavam escoltando suas famílias para a fortaleza no Abismo de Helm, auxiliados por Aragorn, Legolas e Gimli, contra um grupo de orcs montando wargs que surgem em seu caminho. Os wargs são feras super agressivas e difíceis de controlar, criaturas híbridas que poderiam ser traduzidas como uma mistura de urso, lobo e hiena, e que certamente são um obstáculo a mais para ser superado numa batalha.
“O Senhor dos Anéis: As Duas Torres”, é mais um excelente filme assim como o primeiro da trilogia, e em suas quase três horas de projeção nos transporta para um incrível e perigoso mundo de fantasia, povoado por todos os tipos de criaturas, instigando nosso imaginário numa clássica história do Bem contra o Mal. São agradáveis momentos de entretenimento criando um ansioso sentimento de espera pela conclusão da saga com o próximo episódio “O Retorno do Rei”.

As informações especiais disponíveis no lançamento do filme em DVD totalizam cerca de duas horas e meia com uma infinidade de materiais interessantes, como documentários, trailers, spots de TV, e depoimentos de atores e membros da equipe de produção sobre curiosidades de bastidores e detalhes técnicos por trás das câmeras, tudo legendado em português.
O primeiro documentário chama-se “No Set de O Senhor dos Anéis – As Duas Torres” (On the Set – The Lord of the Rings: The Two Towers), um especial produzido pela “Starz Encore”, com 15 minutos de duração, subdividido nos temas “A Sociedade Está Rompida” (The Fellowship is Broken), “As Colinas de Emyn Muil” (The Hills of Emyn Muil), “O Reino de Rohan” (The Kingdom of Rohan), “Valfenda” (Rivendell), e “Floresta de Fangorn” (Fangorn Forest), com depoimentos de vários atores e do diretor Peter Jackson.
A seguir temos o documentário “O Retorno a Terra-média” (Return to Middle-earth), especial produzido pela Warner Brothers onde em 43 minutos são apresentados os comentários de alguns integrantes da equipe de produção como Dan Hennah e Chris Hennah (responsáveis pela direção de arte), e o diretor de fotografia Andrew Lesnie, além de vários atores. Entre as curiosidades de bastidores reveladas, destaca-se um acidente na filmagem de uma cena envolvendo Sean Astin (Sam), que corta gravemente o pé ao pisar num pedaço de vidro escondido no leito de um lago, na seqüência onde ele corre em direção de Frodo, que está num bote, dizendo veementemente que não deixaria de acompanhá-lo na tortuosa jornada rumo a Mordor, para destruir o anel na Montanha da Perdição. Outra curiosidade interessante é uma cena envolvendo o ator Viggo Mortensen (Aragorn), quando ele é levado inconsciente pela corredeira de um rio, após cair de um penhasco num confronto com um grupo de orcs montados em wargs. Dispensando o dublê, o ator preferiu fazer a cena e revelou que quase se afogou, subestimando a perigosa força da corredeira do rio.
O ator Sean Astin aproveitou uma folga do elenco e equipe de produção e num domingo chuvoso de manhã em Wellington, capital da Nova Zelândia, realizou um sonho pessoal, dirigindo um curta metragem de seis minutos chamado “The Long and the Short of It”, uma história sobre amizade e cooperação entre as pessoas, com um elenco formado por Andrew Lesnie (cinematógrafo), o gigante Paul Randall (dublê), uma anã tailandesa que foi a dublê de Pippin, e o próprio cineasta Peter Jackson. A história não tem diálogos, mas as imagens já dizem tudo, num filme muito interessante. A seguir, temos um documentário sobre os bastidores do filme de Astin, intitulado “The Making of The Long and the Short of It”, com oito minutos de duração, trazendo depoimentos bem humorados de várias pessoas envolvidas no projeto como os atores Andy Serkis e Elijah Wood.
A próxima atração dos materiais extras do DVD são dois trailers de cinema diferentes, num total de 5 minutos, e dezesseis spots de TV com 30 segundos cada, divididos como “Novo Poder”, “Outro”, “Evento”, “Sonho”, “Trevas”, “Retorno”, “Golpe”, “Contagem Regressiva”, “Uma Palavra da Crítica”, “A Espera Terminou”, “Crítica B / Golden Globes”, “Gollum”, “Crítica Suprema”, “Crítica A / Globe”, “Os 10 Melhores”, e “Crítica dos 10 Melhores”. Continuando a overdose de informações especiais vem o vídeo musical “Gollum´s Song”, de Emiliana Torrini, com quatro minutos e meio de duração, a prévia do DVD com a versão especial estendida, contendo cenas inéditas com mais informações sobre a história, mas que foram retiradas do filme do cinema (como uma cena em flashback envolvendo Boromir, Faramir e o pai deles, o regente Denethor). São 5 minutos com comentários de vários atores e dos produtores Barrie M. Osborne e Rick Porras, do compositor Howard Shore e do técnico em efeitos visuais Jim Rygiel. Em seguida, a prévia dos bastidores de “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei”, em 13 minutos com os comentários de Peter Jackson, Richard Taylor (WETA) e a co-roteirista Phillipa Boyens, entre outros, mostrando um pouco sobre o próximo e último filme da trilogia, com ênfase numa cena com Aragorn na montanha assombrada de Dwimorberg e a batalha nos Campos de Pelennor. E depois, a prévia em 3 minutos, do jogo criado pela “Electronic Arts”, com depoimentos do produtor executivo Neil Young sobre a incrível autenticidade entre o videogame e os eventos do filme “As Duas Torres”.
Mesmo após toda essa imensidão de informações especiais, ainda temos mais materiais produzidos pelo lordoftherings.net, com o documentário “Dê Uma Olhada de Perto nas Pessoas e Criaturas da Terra-média”, com cerca de 35 minutos dividido em oito temas. “Forças das Trevas” (Forces of Darkness); “Criando os Sons da Terra-média” (Designing the Sounds of Middle-earth), sendo que este aborda especificamente dois assuntos, “Os Pântanos Mortos” (The Dead Marshes) e “Abismo de Helm” (Helm´s Deep); “Edoras: A Capital de Rohan” (Edoras: The Rohan Capital); “Criaturas da Terra-média” (Creatures of Middle-earth), sendo que este tema é focado em quatro partes, “Wargs: Bestas Orc Perversas” (Wargs: Evil Orc Beasts), “Orcs & Uruk-Hai: As Tribos Perversas” (Orcs & Uruk-hai: The Evil Tribes), “Mûmakil / Olifantes: Animais de Guerra” (Mûmakil / Oliphaunts: Beasts of War), e “As Bestas Cruéis: Os Corcéis dos Nazgûl” (Fell Beasts: The Nazgul´s Steeds); “Gandalf, o Branco” (Gandalf, the White), “Armas e Armadura” (Arms and Armor), “A Batalha do Abismo de Helm” (The Battle of Helm´s Deep), e “Dando Vida a Gollum” (Bringing Gollum to Life). Todos os blocos independentes trazem depoimentos do elenco (Christopher Lee, Andy Serkis, Brad Dourif, Viggo Mortensen, etc.), do diretor Peter Jackson e de profissionais da equipe de produção como o técnico em sonoplastia Ethan Van Der Ryn, o técnico em modelos digitais Matt Aitken, o diretor de animação Randy Cook, o supervisor de efeitos visuais Joe Letteri, o supervisor de criaturas Eric Saindon, o desenhista de concepção John Howe, o dublê Sala Baker e o técnico em expressões faciais Bay Raitt, entre outros.

“O Senhor dos Anéis: As Duas Torres” (The Lord of the Rings: The Two Towers, 2002) – avaliação: 10 (de 0 a 10).

O Senhor dos Anéis: As Duas Torres (The Lord of the Rings: The Two Towers, Estados Unidos / Nova Zelândia, 2002). Duração: 179 minutos. “Warner Brothers” / “New Line Cinema”. Direção de Peter Jackson. Roteiro de Peter Jackson, Frances Walsh, Philippa Boyens e Stephen Sinclair, baseado na obra literária de J. R. R. Tolkien. Produção de Peter Jackson, Barrie M. Osborne, Frances Walsh, Tim Sanders, Rick Porras e Jamie Selkirk. Produção Executiva de Michael Lynne, Mark Ordesky, Robert Shaye, Bob Weinstein e Harvey Weinstein. Música de Howard Shore. Fotografia de Andrew Lesnie. Edição de Michael Horton e Jabez Olssen. Desenho de Produção de Grant Major. Efeitos Visuais de Jim Rygiel. Desenho de Vestuário de Ngila Dickson e Richard Taylor. Maquiagem especial, criaturas, miniaturas e efeitos digitais: Richard Taylor (WETA Workshop). Elenco: Elijah Wood (Frodo), Andy Serkis (Sméagol / Gollum), Billy Boyd (Pippin), Dominic Monaghan (Merry), Sean Astin (Sam), Viggo Mortensen (Aragorn), Orlando Bloom (Legolas), John Rhys-Davies (Gimli), Ian McKellen (Gandalf), Christopher Lee (Saruman), Liv Tyler (Arwen), Cate Blanchett (Galadriel), Miranda Otto (Éowyn), Bernard Hill (Théoden), David Wenham (Faramir), Hugo Weaving (Elrond), Karl Urban (Éomer), Brad Dourif (Grima Língua-de-Cobra).

O SENHOR DOS ANÉIS: O RETORNO DO REI

Temos apenas que decidir o que fazer com o tempo que nos é dado.” – Gandalf

O cinema fantástico tem sido povoado nos últimos anos por uma série de enormes sagas apresentando argumentos complexos que fizeram história no gênero, seja pela imensa popularidade obtida, ou pelas enormes franquias criadas com impressionante lucratividade, ou ainda pelos fascinantes momentos de puro entretenimento com histórias povoando nosso imaginário com os mais variados mundos de fantasia. “Star Wars”, “Star Trek”, “Matrix”, “Harry Potter” e principalmente “O Senhor dos Anéis”, são exemplos de universos ficcionais extremamente ricos em detalhes e que com o auxílio da moderna tecnologia dos efeitos especiais, conseguiram levar para as telas do cinema suas propostas de diversão criando com realismo seus mundos alternativos.
O escritor Tolkien, autor de “O Senhor dos Anéis”, certamente não imaginaria que seu fascinante universo ficcional um dia fosse transformado com grande fidelidade e respeito em uma saga cinematográfica grandiosa, e com uma produção caprichada, meio século depois de seu lançamento. E esse feito tornou-se realidade graças ao cineasta Peter Jackson, que dirigiu e escreveu o roteiro dos três filmes que juntos totalizam quase dez horas de entretenimento. A trilogia é composta por “A Sociedade do Anel” (2001), “As Duas Torres” (02) e “O Retorno do Rei” (03), sendo que este último entrou em cartaz nos cinemas brasileiros em 25/12/03 (e nos EUA no dia 17), com o subtítulo referindo-se ao personagem Aragorn e a especulação sobre sua decisão em aceitar o desafio de ser o rei de Gondor.

Depois de muitos anos do hobbit Bilbo Baggins ter encontrado o misterioso anel, que foi perdido das mãos de uma outra criatura estranha que um dia também foi um hobbit, Sméagol / Gollum, e apresentava uma dupla personalidade pela influência maléfica do anel, ele repassou o poderoso artefato para seu sobrinho Frodo, que recebe então a missão de destruí-lo no mesmo local onde foi criado. Para isso, Frodo tem que rumar numa jornada perigosa até Mordor, tendo ao seu lado para ajudá-lo um grupo de guerreiros formado principalmente pelo humano gondoriano Aragorn, o elfo Legolas, o anão Gimli, o mago Gandalf, o Branco (também chamado de Mithrandir pelos homens de Gondor), e por seu leal amigo hobbit Sam, sempre ao seu lado.
Após uma série de eventos ocorridos nos dois primeiros filmes, a história do terceiro e último episódio da trilogia, “O Retorno do Rei”, inicia mostrando rapidamente em flashback como Sméagol / Gollum toma posse do Um Anel, encontrado no fundo de um lago, após um confronto mortal com seu amigo Deagol (Thomas Robins), já demonstrando as influências negativas exercidas pelo objeto precioso.
Enquanto momentaneamente Sauron pensa que o anel está com Pippin, depois de um contato entre eles através do Palantir, uma esfera mágica que havia sido perdida por Saruman na derrota em Isengard, as ações se voltam novamente para a jornada de Frodo, acompanhado de Sam e tendo como guia o traiçoeiro Sméagol / Gollum, rumo à sombria Mordor para destruir o anel no fogo da Montanha da Perdição, atravessando caminhos tortuosos como a Passagem de Cirith Ungol e enfrentando uma série de perigos tendo como ápice um confronto com Laracna, uma terrível aranha gigante carnívora, obrigando-os a se protegerem utilizando a poderosa Luz de Earendil, um presente de Galadriel.
Enquanto isso, Sauron está reunindo um imenso exército de orcs e outras criaturas, entre enormes trolls e os cavaleiros negros Nazgûl, cavalgando terríveis criaturas aladas, as bestas cruéis, e depois de tomarem a cidade de Osgiliath, eles partem para atacar Minas Tirith, a capital do reino de Gondor, governado provisoriamente pelo insano Regente Denethor (John Noble), pai de Faramir, numa batalha sangrenta de proporções colossais nos Campos de Pelennor. Nessa guerra brutal, Gondor é ajudado pelos soldados rohirrim do reino de Rohan, liderados pelo Rei Théoden e sua bela sobrinha Éowyn, além também de contar com a bravura de Aragorn, Legolas e Gimli. Aliás, Aragorn finalmente aceita o desafio de assumir sua posição de Rei de Gondor e atravessa o caminho para Dimholt entrando no interior de Dwimorberg, a Montanha Assombrada, para convocar o imenso Exército dos Mortos para lutar ao seu lado contra Sauron. Um acordo é feito com o Rei dos Mortos (Paul Norell), livrando-os de uma maldição antiga, e eles têm uma participação decisiva para os rumos do confronto em Minas Tirith.
Após a batalha nos Campos de Pelennor, os exércitos restantes de homens, liderados por Aragorn, se dirigem para os imensos Portões Negros de Mordor, guardados por um batalhão de milhares de orcs, enquanto Frodo e Sam atravessam a planície de Gorgoroth para tentar destruir o Um Anel nas entranhas da Montanha da Perdição, culminando no final de sua tortuosa jornada de treze meses, num decisivo confronto contra as forças maléficas de Sauron.

“O Retorno do Rei” mantém o mesmo alto nível de qualidade dos dois filmes anteriores, destacando-se também pelas belíssimas paisagens da Nova Zelândia e pelas violentas cenas de batalhas. Assim como a guerra no Abismo de Helm em “As Duas Torres”, o confronto dos orcs contra o reino de Gondor nos Campos de Pelennor nesse terceiro episódio foi certamente o ápice das três horas e vinte minutos de filme. Se a batalha no Abismo de Helm, numa tenebrosa noite chuvosa, com o exército de aproximadamente dez mil orcs e uruks-hai, tinha proporções extremamente grandiosas, imaginem então o conflito colossal nos Campos de Pelennor, com o exército de Sauron composto por cerca de duzentos mil soldados.
Essa seqüência de guerra, juntamente com a já citada batalha no Abismo de Helm, e mais a invasão dos insetos alienígenas contra os humanos encurralados no Forte Whiskey em “Tropas Estelares” (97), e o massacre dos soldados aliados na abertura de “O Resgate do Soldado Ryan” (98), ao desembarcarem numa praia na costa da Normandia durante a Segunda Guerra Mundial, podem ser consideradas como algumas das mais significativas cenas de guerra da história do cinema, constituindo-se de exemplos de grande realismo do que mais próximo poderia ser o horror de um campo de batalha. Eu diria até que a batalha nos Campos de Pelennor é a mais impressionante que tive a oportunidade de ver no cinema. E minha opinião vai de encontro a uma declaração do ator Karl Urban (o rohirrim Éomer), que revelou que considera essa batalha como o maior ataque de cavalaria da história do cinema.
O que a saga “O Senhor dos Anéis” tem de mais fascinante em todo o seu complexo universo ficcional são as criaturas bizarras que representam os sombrios elementos de horror presentes na história, como os orcs e uruks-hai, seres criados especialmente para a guerra; sem contar os terríveis cavaleiros negros Nazgûl que cavalgam monstros alados (as bestas cruéis); os demônios balrogs; o Pântano dos Mortos (onde repousam os fantasmas atormentados dos soldados mortos nas guerras); os enormes trolls e olifantes (criaturas imensas similares a elefantes, que carregam torres transportando os soldados de Harad); o Exército dos Mortos (que para se livrarem de uma maldição antiga, lutaram a favor do reino de Gondor); a mortal aranha gigante Laracna; e outras criaturas mais.
Mesmo o filme merecendo cinco estrelas em sua avaliação, algumas situações não agradaram plenamente como o fato de o mago Saruman, derrotado no filme anterior em sua Torre em Isengard, não ter aparecido nem numa pequena ponta (algumas informações revelam que ele aparece em cenas apenas disponíveis na versão estendida do filme em DVD). Como admirador do ator Christopher Lee não pude esconder a decepção, apesar de que para o filme sua ausência não trouxe nenhum inconveniente. Uma outra seqüência forçada demais foi quando o elfo Legolas consegue derrubar um imenso olifante na batalha do reino de Gondor, demonstrando algumas habilidades exageradas com resultados pouco convincentes. A forma como a bela Éowyn decepa facilmente a cabeça de uma besta cruel também é difícil de se aceitar, independente da fidelidade com o livro, principalmente depois que o Rei Feiticeiro de Angmar, o Senhor dos Nazgûl, o mais perigoso dos nove espectros do anel e que vive em Minas Morgul, ainda diz para ela como um alerta com sua voz gutural, no momento em que a mulher tentava defender seu tio ferido, o Rei Théoden: “Não fique entre um Nazgûl e sua presa”. Como nenhum homem pode matá-lo, a tarefa ficou para Éowyn, uma mulher.
E ainda tiveram também muitas outras cenas carregadas de um sentimentalismo que contrasta demais com a violência das batalhas e o próprio clima sombrio que envolve toda a Terra-média em guerra. Mas tudo isso é compreensível pela idéia em capturar a essência do livro de Tolkien.
Analisando os três filmes dessa fantástica saga cinematográfica, fica muito difícil escolher qual é o melhor, pois toda a trilogia possui um nível de qualidade muito próximo. Como apreciador de horror e pela intensidade das violentas batalhas e participações de criaturas bizarras, minha escolha seria “O Retorno do Rei”, seguido de “As Duas Torres” e “A Sociedade do Anel”. Eu não li os livros, mas aprendi muito sobre o complexo universo ficcional da Terra-média apenas assistindo a trilogia de Peter Jackson, parecendo para mim que os filmes conseguiram reproduzir de forma convincente toda a fascinante mitologia da literatura de Tolkien.
Curiosamente, a saga “O Senhor dos Anéis” teve anteriormente duas outras adaptações em filmes de animação. A primeira foi com “The Hobbit” em 1977, e depois no ano seguinte foi lançado “The Lord of the Rings”. E com a trilogia de Peter Jackson, a história de Tolkien está definitivamente adaptada para o cinema, devendo ser apreciada eternamente, pois agora os filmes pertencem aos fãs.
“O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei” foi vencedor de 11 Oscar 2003, nas categorias “Filme”, “Diretor”, “Direção de Arte”, “Efeitos Visuais”, “Roteiro Adaptado”, “Edição”, “Figurino”, “Maquiagem”, “Som”, “Trilha Sonora”, e “Canção”.
O projeto seguinte do diretor Peter Jackson também é igualmente grandioso e foi lançado nos cinemas brasileiros em 16/12/05. Trata-se de uma nova versão para “King Kong”, o famoso macaco gigante que anteriormente foi tema de um filme clássico em preto e branco produzido em 1933, e que teve uma refilmagem inferior em 1976 com uma desnecessária continuação dez anos depois, ambas dirigidas por John Guillermin.

A exemplo dos dois episódios anteriores da saga, o filme que fecha a trilogia foi lançado em DVD duplo por aqui, com um disco contendo apenas materiais extras, e tudo devidamente legendado em português. O primeiro documentário chama-se “Missão Cumprida: A Visão de Um Diretor” (The Quest Fulfilled: A Director´s Vision), com 22 minutos trazendo depoimentos de vários atores como Viggo Mortensen, Ian McKellen, Elijah Wood, Sean Astin e Miranda Otto, além de Peter Jackson, Andrew Lesnie, Philippa Boyens e Mark Ordesky, entre outros.
Em seguida, temos “A Jornada de Um Cineasta: Fazendo O Retorno do Rei” (A Filmmaker´s Journey: Making The Return of the King), outro documentário onde em 28 minutos são fornecidas várias informações interessantes sobre o escritor Tolkien, além de curiosidades de bastidores como o fato de serem construídas 10.000 flechas para serem usadas na saga, além de 48.000 armas, entre espadas, escudos e bainhas, e foram utilizados 12 milhões de elos de cota de malha para a construção manual das armaduras.
Outro documentário é um especial produzido pela “National Geographic” sobre o terceiro filme, com narração do ator John Rhys-Davies. São cerca de 51 minutos onde o tema focado é a apresentação de vários paralelos de personalidades e eventos da história da humanidade e situações parecidas com vários personagens de “O Senhor dos Anéis”, como por exemplo a similaridade entre o escocês William Wallace (também conhecido como “Coração Valente”), um líder pela conquista da liberdade de seu país contra o domínio da Inglaterra, e Aragorn, que luta pela liberdade da Terra-média, onde ambos são guerreiros que buscam apenas a felicidade de seus povos, e não querem riquezas nem poder para si mesmos. O documentário procura defender a idéia que a trilogia “O Senhor dos Anéis” explora com eficiência os conflitos do Homem, ou seja, um líder relutante que conquista a confiança de seu povo por meio do sacrifício (o caso de Aragorn), conselheiros sábios que dão avisos quando isso é mais necessário (como Gandalf), batalhas desesperadas onde os soldados lutam por amor e não ódio, o poder da amizade sincera, que só pode terminar com a morte (Frodo / Sam, e Legolas / Gimli).
Continuando as informações especiais, temos dois trailers para cinema e quatorze spots de TV, com trinta segundos cada, além de um super trailer especial sobre toda a trilogia de “O Senhor dos Anéis”, com seis minutos e meio de duração. A próxima atração é uma prévia do vídeo game “A Batalha Pela Terra-média” (The Battle for Middle-earth), criado pela “Electronic Arts”, com 3 minutos enfatizando a autenticidade do jogo com relação aos personagens, cenários e eventos dos filmes.
Entre os destaques produzidos pelo lordoftherings.net, temos o documentário “Dê Uma Olhada de Perto nas Pessoas e Criaturas da Terra-média”, com aproximadamente 23 minutos dividido em seis temas específicos, comentados pelo elenco e membros da equipe de produção. “O Destino de Aragorn” (Aragorn´s Destiny); “Minas Tirith: Capital de Gondor” (Minas Tirith: Capital of Gondor), enfatizando que o Reino de Gondor é inspirado numa cultura antiga como o Império greco-romano, “A Batalha dos Campos de Pelennor” (The Battle of Pelennor Fields); “Samwise, o Bravo” (Samwise, the Brave), “Éowyn: A Dama de Rohan” (Eowyn: White Lady of Rohan), e “Dublês Digitais dos Cavalos” (Digital Horse Doubles), sendo que nesse tema temos comentários interessantes sobre a concepção e as dificuldades enfrentadas na criação de cavalos digitais para contracenarem com animais reais na batalha nos Campos de Pelennor, através dos técnicos Matt Aitken (modelos digitais), Randy Cook (animação) e Joe Letteri (efeitos visuais).

“O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei” (The Lord of the Rings: The Return of the King, 2003) – avaliação: 10 (de 0 a 10).
site: www.bocadoinferno.com / blog: www.juvenatrix.blogspot.com (postado em 31/12/05)

O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (The Lord of the Rings: The Return of the King, Estados Unidos / Nova Zelândia, 2003). Duração: 201 minutos. “Warner Brothers” / “New Line Cinema”. Direção de Peter Jackson. Roteiro de Peter Jackson, Frances Walsh e Philippa Boyens, baseado na obra literária de J. R. R. Tolkien. Produção de Peter Jackson, Barrie M. Osborne, Frances Walsh, Rick Porras e Jamie Selkirk. Produção Executiva de Michael Lynne, Mark Ordesky, Robert Shaye, Bob Weinstein e Harvey Weinstein. Música de Howard Shore. Fotografia de Andrew Lesnie. Edição de Jamie Selkirk. Desenho de Produção de Grant Major. Direção de Arte de Joe Bleakley, Simon Bright, Dan Hennah, Philip Ivey e Christian Rivers. Efeitos Visuais de Jim Rygiel. Desenho de Vestuário de Ngila Dickson e Richard Taylor. Maquiagem especial, criaturas, miniaturas e efeitos digitais: Richard Taylor (WETA Workshop). Elenco: Elijah Wood (Frodo), Andy Serkis (Sméagol / Gollum), Billy Boyd (Pippin), Dominic Monaghan (Merry), Sean Astin (Sam), Viggo Mortensen (Aragorn), Orlando Bloom (Legolas), John Rhys-Davies (Gimli), Ian McKellen (Gandalf), Liv Tyler (Arwen), Cate Blanchett (Galadriel), Miranda Otto (Éowyn), Bernard Hill (Théoden), John Noble (Denethor), David Wenham (Faramir), Ian Holm (Bilbo Baggins), Hugo Weaving (Elrond), Karl Urban (Éomer), Thomas Robins (Deagol), Paul Norell (Rei dos Mortos).

“Repouse sua cabeça frágil e cansada. A noite está começando. Você chegou ao fim da jornada. Durma agora. E sonhe com os que vieram antes. Eles estão chamando dos Portos distantes. Por que você chora? O que são essas lágrimas no rosto? Logo você verá que todo o medo será deposto. A salvo em meus braços você apenas dorme. O que você vê no horizonte enorme? Por que a gaivota branca canta? Atravessando o mar uma lua pálida se levanta. Os navios vieram em frota para levar você de volta. Tudo se tornará como vidro prateado. Uma luz sobre a água. As almas passarão ao outro lado. A esperança mingua no mundo da noite que avança. Através das sombras que caem saindo do tempo e da lembrança. Não diga que agora chegamos ao fim. Os Portos Brancos estão chamando. Haverá um reencontro entre você e mim. E você estará aqui em meus braços onde apenas dorme. O que você vê no horizonte enorme? Por que a gaivota branca canta? Atravessando o mar uma lua pálida se levanta. Os navios vieram em frota para levar você de volta. E tudo se tornará vidro prateado. Uma luz no mar. Navios Cinzentos são navegados para o Oeste.”
– música cantada por Annie Lennox, durante os créditos finais de “O Retorno do Rei”

Pelotão Vampiro (1991)


O selo “Dark Side” da “Works Editora” tem sido responsável pelo lançamento em DVD por aqui de uma grande quantidade de filmes extremamente significativos e interessantes para os apreciadores de Horror e colecionadores em geral, como por exemplo “A Máscara de Satã” (60) e “Black Sabbath – As Três Máscaras do Terror” (63), de Mario Bava, “O Homem de Palha” (73), o filme preferido da carreira de Christopher Lee, “Suspiria” (77), de Dario Argento, “Despertar dos Mortos” (78), de George Romero, “Fome Animal” (92), de Peter Jackson, “Viy – O Espírito do Mal” (67), um raro exemplar do cinema de horror russo, além de muitos filmes indispensáveis da saudosa produtora inglesa “Hammer”.
Porém, no catálogo da editora dentro do gênero Horror, que já passa de meia centena de filmes, também existem tranqueiras bem descartáveis, e que somente valem a pena serem conhecidas e fazerem parte do acervo no caso daqueles fãs e colecionadores de tudo que se refere ao tema, independente da qualidade. É o caso, por exemplo, de porcarias como “Cemitério Macabro” (92), “Werewolf – A Noite do Lobo” (96) e “Pelotão Vampiro” (The Lost Platoon, 91), entre outros.
O DVD de “Pelotão Vampiro” traz como material extra apenas uma sinopse. Com direção de David A. Prior e roteiro dele em parceria com seu irmão Ted Prior, a história é uma mistura de elementos de guerra com horror, mais especificamente vampirismo, e o título nacional do filme já procura evidenciar isso, sendo que o mais correto seria apenas reproduzir a tradução literal do nome original, “O Pelotão Perdido”. Mas é até compreensível a escolha desse nome por questões comerciais, enfatizando para o público que é um filme de horror também.

O prólogo se passa na Segunda Guerra Mundial, em 1944 na França, onde um grupo de soldados aliados enfrenta uma batalha desfavorável. Um soldado, David Hollander (Mark Andrew Shelse), é alvejado no confronto e fica gravemente ferido. Após tornar-se ainda assim o único sobrevivente americano, ele é salvo por um homem misterioso que derrotou facilmente os inimigos.
A ação se volta agora para 1991 na Nicarágua, país pobre da América Central que enfrenta uma grave guerra civil com massacre de cidadãos inocentes, por causa do governo do ditador Vladimer (Roger Bayless) e de sua amante assassina Tara (Michi McGee, creditada como Michiko). Os Estados Unidos, com sua sempre inconveniente e equivocada política externa imperialista, fazendo o papel de “nação soberana e salvadora dos fracos e oprimidos”, envia um grupo militar para combater a falta de democracia. Liderado pelo Coronel Jack Crawford (Lewis Alfred Pipes, creditado como Lew Pipes), os soldados americanos também são ajudados por um misterioso grupo de justiceiros, conhecidos pela população local como “Os Mejores” (traduzindo do espanhol, “Os Melhores”), formado pelo líder Jonathan Hancock (David Parry), o jovem impetuoso Walker (Stephen Quadros), além de Hayden (Michael Wayne) e Keeler (Sean Heyman).
O agora ex-soldado David Hollander (interpretado dessa vez por William Knight), tornou-se um jornalista famoso, fotógrafo correspondente de guerra, que é enviado para a Nicarágua para cobrir o conflito. Lá ele encontra o Coronel Crawford e se depara com o grupo misterioso de soldados, reconhecendo no líder o homem que o salvou na Segunda Guerra Mundial, com o detalhe de não ter envelhecido um único dia. Investigando o mistério, o jornalista descobre que o grupo sempre esteve presente em fotos de diversas guerras ao longo da história, desde a guerra civil americana em 1863, passando pela Primeira Guerra Mundial na Alemanha em 1914, a Segunda Guerra Mundial trinta anos depois, a Guerra da Coréia em 1950 (no filme é citado de forma errada o ano de 49), a Guerra do Vietnã em 1969 e a invasão de Granada em 1983. E que na verdade, eles são vampiros que não podem morrer pela ação dos homens comuns, somente por outros vampiros. Agora, o jornalista terá que lutar ao lado das criaturas com dentes pontiagudos para combater a tirania do ditador Vladimer e decidir se fará parte do grupo, uma vez que foi convidado por ser correspondente de guerra e poder obter sempre informações dos inimigos.

“Pelotão Vampiro” é claramente uma produção de baixo orçamento, mas independente da falta de recursos é evidente que o roteiro é cheio de furos e falhas grotescas, apesar da idéia central ser até interessante (um grupo de vampiros lutando nas várias guerras se alimentando dos inimigos). O elenco também é muito ruim e não consegue convencer em nenhum momento. As cenas de guerra são ridículas, falsas e inverossímeis, muito longe de mostrar a realidade de um campo de batalha, pois o diretor deve pensar que é necessário apenas mostrar soldados atirando descontrolados e que tiroteios, explosões e gritarias são o suficiente para reproduzir um conflito. As filmagens são amadoras, os soldados atiram sem se proteger, apenas esperando serem alvejados para caírem mortos. Aliás, em muitas vezes, um único disparo conseguia a proeza de matar dois inimigos ao mesmo tempo. Outra cena incrivelmente mal produzida é quando um grupo de soldados americanos, juntamente com o Cel. Crawford e o fotógrafo Hollander são atacados por moradores de uma aldeia pobre. As cenas de pancadaria são péssimas, onde claramente vemos a encenação dos atores (ou melhor, figurantes inexpressivos), simulando agredirem os americanos. Se juntarmos um grupo de amigos para fazerem um vídeo amador o resultado deverá ser melhor e mais convincente. O roteiro não procura em nenhum momento explicar a origem dos vampiros, suas motivações para participarem das guerras, além de não explorar a complexa mitologia dessas criaturas. No filme, o grupo de soldados vampiros não tem medo da luz do dia, nem de imagens religiosas, e esses detalhes peculiares deveriam ser melhor tratados pelo roteiro, mas o pior mesmo é que não há uma única cena deles sugando o sangue de suas vítimas.
Como ponto positivo, talvez o único, e ainda assim copiado, temos várias cenas interessantes com movimentos rápidos de câmera, em mergulhos rasantes no meio das árvores da floresta, simulando os vôos dos vampiros para chegarem em seu destino, lembrando o clássico moderno “The Evil Dead” (82), de Sam Raimi e com Bruce Campbell, nas cenas dos ágeis movimentos dos demônios na floresta.

“Pelotão Vampiro” (The Lost Platoon, Estados Unidos, 1991) # 355 – data: 31/12/05 – avaliação: 3 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com / blog: www.juvenatrix.blogspot.com (postado em 31/12/05)

Amityville 2 (1982)


Em 1976, George e Kathy Lutz e suas três crianças mudaram-se para esta casa em Amityville, New York. Eles conseguiram fugir vivos! Mas um ano antes deles houve uma outra família morando nesta casa. Eles não tiveram a mesma sorte! Esta é a história de Horror em Amityville

A tagline acima esclarece em poucas palavras a existência de eventos sinistros numa mansão assombrada em Amityville. Primeiro foi produzido o filme “A Cidade do Horror” (The Amityville Horror, 79), baseado no livro homônimo de Jay Anson, que por sua vez relatava os acontecimentos reais e misteriosos que envolveram a família Lutz depois de se mudarem para a famosa casa onde no passado havia um antigo cemitério indígena. A mesma casa amaldiçoada que também foi palco de uma chacina real anterior onde Ronald DeFeo, o filho mais velho de uma família aparentemente normal, assassinou seus pais e irmãos enquanto dormiam, utilizando uma espingarda e alegando seguir as orientações de uma voz maligna.
Em 1982, numa co-produção entre Estados Unidos e México, e com as filmagens utilizando locações em New Jersey e na Cidade do México, foi lançado o segundo filme da série, a qual transformou-se numa enorme franquia com mais oito filmes e ainda a realização de uma refilmagem do original, produzida em 2005 e que recebeu o nome “Horror em Amityville” quando estreou nos cinemas brasileiros em 19/08/05). Esse segundo filme da saga foi chamado por aqui primeiramente como “Terror em Amityville” (Amityville 2: The Possession), quando foi exibido na televisão e distribuído em VHS pela “VTI”, e agora também em formato DVD com o nome mais correto “Amityville 2”, através da revista “DVD Premium”, juntamente com a terceira parte da série, “Amityville 3-D” (83), que não possui qualquer ligação com os filmes anteriores.

Inspirado no caso real do assassinato da família DeFeo, esse “Amityville 2” inicia apresentando uma família de origem italiana se mudando para a sinistra mansão em Amityville, composta pelo rígido e ateu patriarca Anthony Montelli (Burt Young), sua esposa submissa e religiosa Dolores (Rutanya Alda), e pelos quatro filhos, um casal de pequenas crianças, Jan e Mark (curiosamente interpretados pelos irmãos Erika e Brent Katz), e um casal de adolescentes, a bela Patricia (Diane Franklin) e o estranho Sonny (Jack Magner), que não possui um bom relacionamento com o pai.
Logo após se acomodarem na nova e enorme casa, e ainda se ambientando com as instalações, a família já começa a enfrentar uma série de eventos misteriosos como objetos que são arremessados aleatoriamente; janelas que se abrem e fecham sozinhas; manifestações de ruídos, vozes, risadas e lamentos sinistros, torneira que despeja sangue em vez de água, pincéis que sozinhos fazem estranhos desenhos na parede, cama girando em torno de si, fortes batidas na porta de entrada, além de sangue escorrendo pelas paredes e brotando do chão no porão e outras situações não menos bizarras.
Preocupada com a segurança de sua família, Dolores solicita a visita de um religioso local, Padre Frank Adamski (James Olson), que trabalha numa paróquia próxima, juntamente com seu amigo Padre Tom (Andrew Prine). Ele vai até a casa para realizar um ritual de benção dos diversos cômodos e sente a presença de alguma entidade maligna habitando a mansão, principalmente depois de testemunhar uma cena grotesca envolvendo o seu aspergidor, que em vez de liberar a água benta sobre os móveis nos diversos aposentos, passou a jorrar sangue de forma tão real que despertou a atenção do padre para uma investigação sobre fenômenos paranormais na casa. Outro fato extremamente significativo foi a crescente transformação ocorrida no filho mais velho da família, que aliás estava em constante desarmonia, com crescentes discussões e brigas. Sonny estava demonstrando uma alteração de comportamento muito suspeita, começando por seduzir e praticar incesto com sua própria irmã, e depois planejar a execução dos pais e outros irmãos pequenos usando uma espingarda, numa noite de tempestade e relâmpagos (um cenário propício para uma carnificina), seguindo a orientação de uma voz obscura que estava incitando-lhe à matança.
Uma vez descobrindo que na verdade Sonny estava possuído por um demônio, o Padre Adamski solicita uma autorização à Igreja para a realização de um exorcismo, negada pelo Chanceler (interpretado por Leonardo Cimino), obrigando-o a agir por conta própria, primeiramente tentando tirar o jovem da cadeia, auxiliado pelo policial Turner (Moses Gunn), e depois tentando salvar a vida de Sonny num ritual exorcista.

“Amityville 2” é na verdade uma pré-sequência do filme original, narrando eventos anteriores aos acontecimentos do primeiro filme da franquia produzido em 1979, num recurso de certa forma precursor na época, mas que virou moda atualmente e tem sido muito utilizado no cinema de horror, principalmente nas trilogias. Assim como no original, a história desse segundo filme também tem inspiração em fatos reais, o que foi abandonado a partir do terceiro filme, e a partir da produção seguinte nem mesmo a casa continuaria sendo utilizada, com o mal se transferindo para outros lugares através de objetos originais de Amityville, como um abajur, relógio ou espelho amaldiçoados, que mudam de proprietários.
Como sugere o subtítulo original, “The Possession”, o filme é uma história de possessão demoníaca, procurando justificar a ação criminosa de um jovem ao matar friamente sua família, como sendo influenciada pelas orientações de uma entidade maligna agindo em sua mente perturbada. E que os espíritos atormentados dos que morreram tragicamente, ainda permaneceriam presos à casa gerando a fama de assombrada e aterrorizando a nova família de moradores, que fugiram de medo depois de quase um mês (tema abordado no filme original).
Em “Amityville 2” encontramos aqueles conhecidos elementos que caracterizam um filme de “mansão assombrada”, e que somados à manifestação de um demônio que se apossa de um jovem incitando-o a matar, obtemos um filme com interesses que conseguem prender a atenção do espectador até o desfecho da história. Entre os destaques, vale registrar as cenas envolvendo o rapaz possuído, com suas feições e voz distorcidas, principalmente no confronto final com o padre no ritual de exorcismo, com bons efeitos de maquiagem que garantem os momentos de tensão. Por outro lado, são tantas as referências (ou melhor, cenas copiadas) ao clássico “O Exorcista” (73) que chegam a incomodar, como por exemplo a manifestação de pedido de socorro do jovem possuído através da manjada mensagem “Salvem-me” escrita em sangue num dos braços (similar aos vergões na barriga de Regan MacNeil), ou quando o Padre Adamski ordena ao demônio que liberte o rapaz tomando o seu próprio corpo em troca (idéia copiada do Padre Damien Karras).
Mas, de uma forma geral, “Amityville 2” é um pouco inferior ao primeiro filme da série, mas é muito superior a todos os outros posteriores juntos, pois tem ao seu favor a inspiração em eventos reais, a ambientação na casa maldita, e a mistura de assombração com possessão demoníaca, num filme que a exemplo de “O Exorcista”, tem um desfecho que pode ser considerado trágico permitindo um interessante gancho que poderia ter sido melhor explorado pelos filmes seguintes.

“Amityville 2” foi lançado em DVD com distribuição nas bancas, encartado na revista “DVD Premium” número 34 (Maio de 2004), da “NBO Editora”, juntamente com o terceiro filme da série no outro lado do disco. De material extra tem apenas uma sinopse pequena e biografias curtas dos atores principais, Burt Young e James Olson. O primeiro nasceu em 1940 e é mais conhecido como o cunhado do lutador de boxe Rocky Balboa (Sylvester Stallone) no filme “Rocky, um Lutador” (76) e nas outras sequências. Já James Olson nasceu em 1930 e entre seus filmes importantes destaca-se a ficção científica “O Enigma de Andrômeda” (Andromeda Strain, 71), de Robert Wise. Como curiosidade, vale citar que o menu interativo do DVD é uma reprodução animada da sequência final do filme, o que é um fato meio estranho por revelar um importante “spoiler”.

“Amityville 2” (Amityville 2, 1982) # 254 – data: 17/05/04 – avaliação: 7 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com / blog: www.juvenatrix.blogspot.com (postado em 10/12/05)

Amityville 2 (Amityville 2, Estados Unidos / México, 1982). Orion. Duração: 103 minutos. Direção de Damiano Damiani. Roteiro de Tommy Lee Wallace e Dardano Sacchetti, baseados no livro “Murder in Amityville”, de Hans Holzer. Produção de Dino De Laurentiis, Stephen R. Greenwald e Ira N. Smith. Produção Executiva de Bernard Williams. Fotografia de Franco Di Giacomo. Música de Lalo Schifrin. Edição de Sam O’Steen. Direção de Arte de Ray Recht. Desenho de Produção de Pier Luigi Basile. Maquiagem de John Caglione Jr. Elenco: James Olson (Padre Frank Adamski), Burt Young (Anthony Montelli), Rutanya Alda (Dolores Montelli), Jack Magner (Sonny Montelli), Andrew Prine (Padre Tom), Diane Franklin (Patricia Montelli), Moses Gunn (Turner), Erika Katz (Jan Montelli), Brent Katz (Mark Montelli), Leonardo Cimino (Chanceler).

Rollerball - Os Gladiadores do Futuro (1975)


Num futuro não tão distante, as guerras não mais existirão, mas haverá o Rollerball”.

Essa interessante frase promocional define muito bem o argumento básico do filme de ação com elementos de ficção científica “Rollerball – Os Gladiadores do Futuro” (Rollerball, 1975), produzido e dirigido por Norman Jewison, com roteiro de William Harrison baseado em seu conto “Roller Ball Murders”, e estrelado por James Caan e o veterano John Houseman.
Caan interpreta o papel de Jonathan E., um famoso jogador portador da vitoriosa camisa número 6, de um esporte super violento resultado de uma mistura entre futebol americano e hockey, com os jogadores se movimentando sobre patins e com motocicletas, utilizando uma pequena bola de ferro que deve ser arremessada contra uma espécie de gol, com direito a porradas para todos os lados, regras alteradas a todo momento, e contando até com a morte dos jogadores. Esse esporte brutal acaba servindo como um tipo de válvula de escape para a selvageria oculta e presente na essência da humanidade, já que os espectadores ao redor do mundo não escondem sua mórbida satisfação em ver o sangue dos jogadores, seja testemunhando as partidas na arena onde os times se confrontam ou com uma imensa audiência através do vídeo da televisão. Já o experiente John Houseman é Bartholomew, um poderoso dirigente de uma corporação chamada “Energy”, que manipula o rollerball segundo seus interesses.

A história é ambientada num futuro próximo, no primeiro quarto do século 21, mais precisamente em 2018, onde não existem mais nações no mundo, e apenas as grandes corporações governam tudo e todos, possuindo o poder sobre os recursos naturais e as pessoas. Como o jogador Jonathan E. está se tornando cada vez mais popular com sua carreira bem sucedida no rollerball, se destacando dos demais competidores ao longo de dez longos anos de vitórias e glórias, a corporação “Energy” está se sentindo incomodada porque o esporte foi criado para mostrar às pessoas que o individual não tem valor e que não deve existir mais, sendo que o importante é o conjunto coletivo, ou a ação do time, justamente para reforçar a idéia utópica de sua própria existência como órgão dirigente e supremo. As pessoas agora vivem num mundo sem guerras e de forma confortável, porém é indispensável a existência de um esporte ultra violento para anular a monotonia de suas vidas e acalmar seus instintos naturalmente selvagens. Por isso, os dirigentes impõe a Jonathan que se aposente e largue o esporte para seu próprio bem.
Uma vez já tendo perdido sua esposa Ella (interpretada por Maud Adams), que o abandonou por pressão da corporação, e depois de entrar em contato com um bibliotecário (Ralph Richardson) em Genebra para tentar obter sem sucesso informações reveladoras sobre as ações obscuras da “Energy” através do computador central “Zero”, uma máquina enorme que acumula em seus registros todo o conhecimento e história da humanidade, e que está programado para não fornecer dados confidenciais sobre seus criadores, Jonathan decide continuar com o rollerball para evidenciar a liberdade de sua individualidade, liderando seu time da cidade de “Houston” numa partida mortal e apresentando um ápice de violência contra seus conterrâneos americanos de “New York”, procurando também honrar a imagem de seu melhor amigo, o jogador Moonpie (John Beck), que está em estado de coma com morte cerebral por causa da extrema violência numa partida contra os japoneses de Tokyo.

“Rollerball – Os Gladiadores do Futuro” é uma grande e oportuna crítica ao modelo utópico de um possível futuro da humanidade onde não mais existem as guerras, mas também onde não há mais lugar para a individualidade do ser humano, com o mundo sendo controlado por grandes corporações interessadas apenas em seu próprio progresso. São 123 minutos onde os destaques certamente ficam por conta das partidas ultra violentas do rollerball, com o sangue dos jogadores manchando a arena e saciando a fúria dos torcedores. É interessante notar como nesse futuro monótono as pessoas desprezam a natureza, fato exemplificado na cena onde um grupo de homens e mulheres saem de uma festa e vão até um campo realizar uma divertida sessão de tiro ao alvo, onde as vítimas são árvores queimadas por armas incendiárias.

O DVD do filme foi lançado no Brasil numa edição especial que traz entre os materiais extras um trailer de cinema e três pequenos spots de TV, além de galeria de fotos, teaser da refilmagem de 2001, comentários em áudio do diretor Norman Jewison e do escritor William Harrison, e dois documentários de bastidores, tudo infelizmente sem a disponibilidade de legendas em português.
Curiosamente, “Rollerball” foi o primeiro filme a creditar as atuações dos dublês, cujo importante trabalho desses profissionais normalmente não era creditado. O diretor Norman Jewison ficou tão impressionado com suas performances nas cenas violentas dos jogos que decidiu incluir seus nomes nos créditos finais, numa atitude que passou a ser seguida pelos filmes seguintes. Aliás, surgiram vários rumores que diziam sobre mortes verdadeiras de dublês durante as filmagens, sendo que na verdade ninguém morreu e esses fatos acabaram tornando-se apenas lendas de bastidores.
Em “Rollerball” encontramos similaridades com o clássico de Stanley Kubrick “Laranja Mecânica” (71), pois ambos os filmes abordam o tema de sociedades futuristas envolvidas em violência, tanto que o próprio cineasta Norman Jewison revelou se sentir influenciado pela obra de Kubrick.
Em 2001 tivemos uma refilmagem com o mesmo nome de “Rollerball”, produzida e dirigida por John McTiernan e com o inexpressivo Chris Klein no papel que foi de James Caan no original, além da presença do experiente Jean Reno fazendo um vilão, um empresário sem escrúpulos de uma grande rede de televisão. O filme entrou em cartaz nos cinemas brasileiros em 27/09/02, porém, apesar das grandes cenas de ação com a violência dos jogos, a história tomou certas liberdades de criação que não funcionaram bem e o filme em geral decepciona tanto que seria melhor se nem tivesse sido produzido, não se salvando nem com a presença da bela Rebecca Romijn-Stamos como uma jogadora de rollerball, com o dispensável resultado final sendo logo esquecido.

“Rollerball – Os Gladiadores do Futuro” (Rollerball, 1975) – texto # 275 – data: 14/10/04 – avaliação: 8 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com / blog: www.juvenatrix.blogspot.com (postado em 10/12/05)

Rollerball – Os Gladiadores do Futuro (Rollerball, Estados Unidos, 1975). United Artists. Duração: 123 minutos. Direção de Norman Jewison. Produção de Patrick J. Palmer e Norman Jewison. Roteiro de William Harrison, baseado em seu conto “Roller Ball Murders”. Fotografia de Douglas Slocombe. Música de Andre Previn. Edição de Antony Gibbs. Desenho de Produção de John Box. Direção de Arte de Robert W. Laing. Elenco: James Caan (Jonathan E.), John Houseman (Bartholomew), Maud Adams (Ella), John Beck (Moonpie), Moses Gunn (Cletus), Pamela Hensley (Mackie), Barbara Trentham (Daphne), Ralph Richardson (Bibliotecário).

Os Ritos Satânicos de Drácula (1973)


Grandes demônios do inferno. Olhai pelos membros do círculo. Dê a eles o seu poder sobre a humanidade. Nós, que nos dedicamos a servi-lo e a obedecê-lo, aceitamos a sua orientação e o seu poder absoluto. Os monstros sem nome das profundezas o chamam”. – Trecho de um ritual satânico

A consagrada e cultuada produtora inglesa de filmes fantásticos “Hammer” foi a responsável pelo ressurgimento do Horror no final da década de 1950, quando trouxe novamente às telas do cinema os famosos monstros sagrados “Drácula”, “Criatura de Frankenstein”, “Múmia”, “Fantasma da Ópera”, “Lobisomem”, entre outros, os quais haviam sido largamente filmados em preto e branco pela saudosa produtora americana “Universal”, com Boris Karloff, Bela Lugosi e Lon Chaney Jr. Porém, dessa vez com fotografia colorida, foi produzida uma infinidade de clássicos como “A Maldição de Frankenstein” (1957) e “O Vampiro da Noite” (1958), lançando atores que se transformaram em ícones absolutos do gênero como Christopher Lee e Peter Cushing.
O ápice de sucesso da “Hammer” foi durante os nostálgicos anos 60, sendo que de uma forma inevitável suas produções acabaram se desgastando com o passar dos anos, com poucas novidades e uso exagerado de fórmulas repetitivas e clichês exaustivamente explorados, perdendo o interesse do público e culminando com uma safra de filmes de menor expressão a partir do início de 1970 até meados dessa década, com o fim das atividades da produtora. Para tentar recuperar o prestígio perdido, a “Hammer” procurou alterar a tradicional ambientação gótica de seus filmes de vampiros transportando as ações para um tempo mais moderno, atualizado com a época da produção, trocando os imponentes castelos, as pequenas e isoladas aldeias e as carruagens pelos enormes prédios e automóveis da tumultuada vida urbana da Inglaterra dos anos 70.
O primeiro exemplo dessa mudança de estilo ocorreu em 1972 com o filme de título estranho “Drácula no Mundo da Mini Saia” (Dracula AD 1972), seguido logo após por “Os Ritos Satânicos de Drácula”, dirigido por Alan Gibson, misturando elementos de vampirismo com rituais satânicos, um tema em moda e muito bem explorado na época com o clássico “O Exorcista” (1973) e outros filmes similares abordando histórias de demônios e ocultismo como “Balada Para Satã” (1971), “O Feiticeiro” (1972) e “O Anticristo”, produção italiana de 1974.
Novamente com a dupla Christopher Lee e Peter Cushing, respectivamente como o vampiro “Drácula” e o seu histórico inimigo, o antropólogo Prof. Van Helsing, “Os Ritos Satânicos de Drácula” é o oitavo filme com o personagem de uma longa série iniciada com “O Vampiro da Noite”, e com Lee interpretando pela última vez para a “Hammer” o papel do “príncipe das trevas” que o consagrou para sempre, transformando-o no principal vampiro da história do cinema, juntamente com o lendário Bela Lugosi.

Dessa vez, a história traz o malevolente vampiro “Drácula”, reencarnado na figura de um empresário milionário chamado D. D. Denham (Christopher Lee), envolvido numa conspiração satânica para tomar o poder no mundo. Um agente do serviço secreto britânico, Hanson (Maurice O’Connell), está investigando as ações misteriosas de uma seita demoníaca liderada pela sacerdotisa vampira Chin Yang (Barbara Lu Ying), que realiza rituais de satanismo na imensa mansão “Pelham House” nos arredores de Londres, um local de reuniões de um suposto grupo de pesquisas paranormais. Porém, ele é capturado e brutalmente espancado e torturado, por descobrir que os responsáveis pelos ritos de magia negra são poderosos cidadãos da sociedade inglesa. Uma vez conseguindo escapar ele passa as informações da investigação para seus superiores, o Inspetor Murray (Michael Coles) e Peter Torrence (William Franklyn), que solicitam auxílio ao antropólogo Prof. Van Helsing (Peter Cushing), renomado cientista especialista em ocultismo e vampirismo, cuja missão histórica de sua família sempre foi a de caçar vampiros.
Eles descobrem uma trama diabólica envolvendo um grupo seleto de importantes homens formado por um militar, General Freeborne (Lockwood West), um empresário latifundiário, Lord Carradine (Patrick Barr), um ministro do serviço de segurança, John Porter (Richard Matthews), e um cientista, Prof. Julian Keeley (Freddie Jones), todos manipulados pelo empresário D. D. Denham, o próprio Drácula, para espalharem um vírus letal na humanidade e lançar o mundo num caos de destruição. Eles seriam os novos “Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, os emissários da peste negra que trariam a morte para a civilização humana.
Após o sequestro de sua bela sobrinha Jessica (Joanna Lumley), pelos capangas de Drácula, um grupo de motoqueiros rebeldes típicos dos anos 70, com o objetivo de utilizá-la num ritual satânico de sacrifício, o Prof. Van Helsing é obrigado a interferir e juntamente com o Inspetor Murray tentar o resgate da moça, sendo inevitável um confronto final com o histórico inimigo vampiro.

“Os Ritos Satânicos de Drácula” está bem longe dos melhores da série de filmes de vampiros da “Hammer”, tendo como principal referência o insuperável “O Vampiro da Noite”. A intenção de alterar a ambientação para tempos mais modernos foi sem dúvida uma estratégia comercial viável da produtora em decadência, mas ainda acho preferível os tradicionais elementos góticos presentes nos filmes anteriores, como os fascinantes castelos em ruínas à beira de penhascos, as árvores fantasmagóricas, os cemitérios macabros, a assustadora névoa espessa da floresta, os pequenos vilarejos com seus aldeões supersticiosos, e tudo aquilo que representa historicamente um horror sobrenatural à espreita, escondido nas sombras e pronto para atacar inesperadamente. A idéia de inserir rituais satânicos num mundo moderno também é muito boa, mas funcionaria melhor se não tivesse relação com o tradicional vampiro Drácula, na forma como foi idealizado pelo escritor Bram Stoker em sua obra homônima de 1897.
Porém, a despeito desses pequenos inconvenientes, o filme garante ótimos momentos de entretenimento destacando algumas sequências interessantes como o momento onde Jessica é atacada por um grupo de jovens e belas vampiras escravas de Drácula, que estavam aprisionadas em seus caixões numa cripta próxima à mansão onde eram realizadas as missas negras; a forte cena de agonia de um dos discípulos do “mestre das trevas” quando foi infectado pelo vírus que causa o lento apodrecimento de seus músculos, queimando sua pele em um terrível tormento, mergulhando na imensa dor de feridas pútridas; e o esperado desfecho com o confronto final entre Drácula e Van Helsing (o último duelo entre Christopher Lee e Peter Cushing em filmes de vampiros pela “Hammer”, após 15 anos).
Em contrapartida, três falhas em “Os Ritos Satânicos de Drácula” são bem notáveis. Uma é quando o Prof. Van Helsing está preparando uma bala de prata para seu inimigo vampiro, e logo após fundir o projétil num molde ele pega-o com as mãos para carregar seu revólver, ignorando o fato que a alta temperatura do mesmo fatalmente queimaria seus dedos. Outra situação forçada demais ocorre na cena quando Van Helsing reconhece a real identidade do empresário D. D. Denham, numa série de diálogos e atitudes inverossímeis, onde fica claro que o roteirista não se preocupou em desenvolver uma sequência mais inteligente e criativa. E por fim, faltou uma lógica para a atitude de Drácula em querer espalhar um vírus devastador na humanidade, pois dessa forma ele dizimaria todo o planeta eliminando a sua própria fonte de alimento que é o sangue de suas vítimas, parecendo que foi um ato de auto destruição por estar cansado da maldição de viver eternamente em seus incontáveis ciclos de morte e renascimento. Drácula é um ser poderoso e imponente e o roteirista foi infeliz em evidenciar sua covarde intenção de acabar com tudo, inclusive ele próprio.
Mas o roteiro de Don Houghton também está repleto de ótimos momentos de puro horror, exaltando a supremacia do Mal absoluto e dando ênfase à decadência total da humanidade, envolvida na paranóia de sua própria irracionalidade. Como por exemplo nas antológicas palavras depressivas do atormentado Professor Keeley, especialista em doenças do sangue, ao seu amigo de ciências, o antropólogo Van Helsing, tentando justificar sua atitude de desenvolver e aperfeiçoar um vírus letal similar à peste bubônica ou “morte negra” que arrasou a humanidade no passado, e que seria utilizado para contaminar o mundo e espalhar a morte no planeta:

O mal comanda. É verdade. O mal e a violência são as únicas medidas poderosas. Olhe para o mundo, um caos. É um padrão pré-ordenado. Violência, ganância, intolerância, aversão, culpa. Os pecados mortais. Ou virtudes mortais. O ser supremo é o Diabo. Obedeça-o e ganhará a imortalidade. Ele acaba com a morte, o inimigo comum. Nada é suficientemente vil, nada é tão repulsivo, tão horrível. Você precisa conhecer o terror, o horror. Precisa sentir a maravilha da repugnância, a beleza da obscenidade.

Ou ainda na mórbida definição descrita pelo cientista Van Helsing, ao se referir ao temível Conde Drácula:

A força real é mais sinistra, mais obscena do que qualquer monstruosidade que imaginam. Lorde da Corrupção. Mestre dos Mortos-Vivos. O Conde Drácula.

Christopher Lee aparece apenas em poucas cenas, mas ainda assim sua presença é marcante encarnando o imortal e amaldiçoado vampiro “Drácula”. Ele, que em seus 80 anos de idade e mais de 300 filmes no currículo, ainda está na ativa e participando como vilão de duas das mais expressivas franquias do cinema de entretenimento do momento, “Star Wars”, como o Conde Dookan, e “O Senhor dos Anéis”, interpretando o mago Saruman.
O ator inglês Peter Cushing faleceu em 1994 aos 81 anos de idade após participar de quase 100 filmes, e em sua vasta carreira no cinema as performances mais notáveis foram no gênero fantástico, onde acabou recebendo dos críticos e fãs o nobre título de “O Cavalheiro do Horror”, devido a sua natural postura aristocrática. Um de seus papéis mais significativos foi justamente como o famoso caçador de vampiros “Prof. Van Helsing”, personagem que encarnou inúmeras vezes, e que acabou associando-se a sua imagem.
“Os Ritos Satânicos de Drácula” recebeu o título original de “The Satanic Rites of Dracula” para lançamento nos Estados Unidos, sendo que na Inglaterra seu nome foi “Count Dracula and His Vampire Bride”. E, sem dúvida nenhuma, o nome americano é bem melhor e mais coerente com a história do filme, que mescla basicamente vampirismo com satanismo.
Como curiosidade, vale confirmar os tradicionais meios descritos no filme para se matar um vampiro, os quais já são bem conhecidos pelos fãs: símbolos do Bem combatem a força do Mal, como a cruz, e a palavra de Deus escrita na bíblia, a água pura e corrente que simboliza pureza, uma bala de prata, uma estaca de madeira no coração, a luz do dia, e os espinhos dos arbustos.
A data escolhida por Drácula para disseminar o vírus da peste negra na humanidade foi um especial dia 23, na comemoração do sabá dos mortos-vivos. Segundo o filme, existem círculos satânicos que governam nossa fé e regem o universo. Através da história da humanidade, existiram certas datas onde houveram grandes catástrofes, e uma vez estudadas por especialistas chegou-se à conclusão que existe um padrão definido descrevendo que os grandes desastres sofridos pela raça humana ocorreram nos períodos onde os círculos satânicos se cruzavam. No século XX houveram duas guerras mundiais e o dia 23 do mês sabático é a satânica celebração da blasfêmia suprema, o sabá dos mortos-vivos, a data ideal para o apocalipse.

Grandes demônios do inferno. Olhai por seus discípulos. Dê-lhes poder sobre a humanidade. Nós que nos dedicamos a servi-lo e obedecê-lo. Com esse batismo de sangue seguiremos os passos eternos dos amaldiçoados para conhecer os segredos dos que atravessaram a fronteira do desconhecido até as margens do ódio.

“Os Ritos Satânicos de Drácula” (The Satanic Rites of Dracula, 1973) – avaliação: 7 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com / blog: www.juvenatrix.blogspot.com (postado em 10/12/05)

Os Ritos Satânicos de Drácula (The Satanic Rites of Dracula / Count Dracula and His Vampire Bride, Inglaterra, 1973). Hammer. Duração: 88 minutos. Lançado no mercado brasileiro de vídeo DVD pela Revista Dark Side (Editora MultiMedia Group). Direção de Alan Gibson. Roteiro de Don Houghton, baseado em personagem criado por Bram Stoker. Produção de Roy Skeggs. Fotografia de Brian Probyn. Edição de Chris Barnes. Música de John Cacavas. Maquiagem de George Blackler. Efeitos Especiais de Les Bowie. Elenco: Christopher Lee (Conde Drácula / D. D. Denham), Peter Cushing (Professor Lorrimer Van Helsing), Joanna Lumley (Jessica), Michael Coles (Inspetor Murray), William Franklyn (Peter Torrence), Freddie Jones (Professor Julian Keeley), Richard Vernon (Mathews), Patrick Barr (Lord Carradine), Barbara Lu Ying (Chin Yang), Lockwood West (General Freeborne), Richard Matthews (John Porter), Maurice O’Connell (Hanson), Valerie Van Ost (Jane), Peter Adair (Doutor), Maggie Fitzgerald / Pauline Peart / Finnuala O’Shannon / Mia Martin (garotas vampiras), John Harvey (Comissário), Marc Zuber, Paul Weston, Ian Dewar, Graham Rees (guardas da mansão). Filmado na EMI/MGM Elstree Studios, Boreham Wood, Hertfordshire, Inglaterra.

Pelos seis mil terrores do inferno são batizados. É chamado, em nome dos monstros das profundezas. Sete senhores das trevas amaldiçoados. Sete vezes amaldiçoados de novo, para enfrentar o senhor dos homens e da bondade.

O Retorno dos Mortos-Vivos (1973)


Vocês verão os templários retornarem dos mortos! Destruiremos tudo e todos! Somos imortais! E vocês?

É interessante notar como o mercado brasileiro de vídeo VHS já lançou uma quantidade infindável de filmes que não estão mais disponíveis. Quando a febre dos aparelhos de vídeo cassete iniciou no país, por volta de meados dos anos 1980, surgiu uma grande quantidade de distribuidoras de filmes em VHS que eram tão pequenas e desconhecidas quanto os filmes que lançavam no mercado. Tanto é que a maioria faliu e desapareceu há muitos anos, deixando suas fitas perdidas principalmente em pequenas locadoras de bairro ou sebos espalhados pelo Brasil. Porém, muitos desses filmes desconhecidos, de todos os gêneros, são verdadeiras preciosidades e tornaram-se raridades fora de catálogo para colecionadores e apreciadores do cinema menos convencional. Principalmente agora, com a proliferação dos filmes em discos DVD, que estão tornando-se cada vez mais populares e diminuindo a atenção dispensada pelo público às fitas VHS, num movimento similar ao que já aconteceu com a música, entre os nostálgicos discos de vinil e os modernos CD´s.
Um filme de horror em especial, com o sonoro título de “O Retorno dos Mortos-Vivos” (The Return of the Evil Dead), lançado no Brasil pela extinta “Visocopy”, é uma rara produção espanhola de 1973 que exemplifica muito bem o que foi exposto acima. É um filme muito pouco conhecido no Brasil, de baixo orçamento no mais tradicional “horror bagaceiro”, e típico representante do cinema “trash”, ou seja, com roteiro óbvio, diálogos banais, situações previsíveis, atores canastrões e amadores, efeitos toscos e tantas outras deficiências não propositais que o tornam exatamente por isso um filme que desperta interesse e principalmente proporciona um inusitado momento de entretenimento. Sem contar outros motivos que ajudam a torná-lo ainda mais especial, como sua raridade e dificuldade de acesso, sendo um filme espanhol que está completando trinta anos desde sua obscura produção, e ser um exemplar tipicamente influenciado pelo clássico insuperável filmado em preto e branco “A Noite dos Mortos-Vivos” (The Night of the Living Dead), dirigido por George A. Romero em 1968, que trazia basicamente um grupo de pessoas encurraladas numa casa de campo enfrentando a fúria assassina de uma multidão de zumbis famintos por carne humana. Em “O Retorno dos Mortos-Vivos”, a história mostra um grupo de sobreviventes de uma pequena cidade refugiados numa igreja, sendo ferozmente atacados por mortos-vivos portando espadas em busca de vingança contra o que lhes aconteceu no passado.

O filme inicia mostrando uma seita satânica da Idade Média realizando rituais de sacrifício humano num castelo de estilo gótico. Revoltados com os assassinatos nas cerimônias demoníacas, os aldeões locais capturam os templários e os executam queimando-os vivos em fogueiras. Uma vez os satanistas prometendo retornarem do mundo dos mortos para se vingarem, os aldeões então queimaram primeiro os seus olhos antes de atearem fogo em seus corpos, para com isso impedirem sua volta. Um dos próprios moradores da cidade explica o folclore em torno dos templários: “De acordo com a lenda, os aldeões queimaram seus olhos para que não pudessem voltar, para se vingarem. A superstição diz que eles seguem o som!”.
Muitos anos depois, a pequena vila de Botsana está se preparando para comemorar a festa de “La Queima”, para lembrar a vitória de seus antepassados sobre os templários, onde eles simulam a execução dos satanistas com bonecos presos em fogueiras. Para alegrar ainda mais a festa, o prefeito Duncan (Fernando Sancho) e seu assistente Howard (Frank Blake), contratam um técnico americano em fogos de artifício, Jack Marlow (Tony Kendall). Ao chegar na cidade, Jack reencontra uma antiga namorada, a agora secretária do prefeito, Srta. Vivian (Esther Roy), com quem acaba se reaproximando e com isso despertando a ira de Howard, que estava apaixonado pela jovem.
Enquanto os habitantes do vilarejo se divertem com a animada festa noturna, dançando e assistindo a queima dos fogos de artifício, próximo dali, no antigo castelo em ruínas dos templários, eles ressurgem do mundo dos mortos saindo de suas tumbas para consumarem sua vingança prevista quando foram barbaramente executados nas fogueiras. Eles se reúnem em grande quantidade, cavalgando cavalos mortos e portando espadas afiadas, e se dirigem à cidade para iniciarem um massacre. Após sangrenta carnificina, numa gritaria sem fim, com mortos e feridos para todos os lados, um grupo de sobreviventes se refugia numa igreja. Formado pelo herói mocinho Jack, sua namorada Vivian, o prefeito corrupto Duncan, seu capanga Howard, e ainda mais um casal, Bert e Amalia, com sua pequena filha Nancy, uma bela jovem, Monica, que havia visto o namorado ser assassinado, e o vigia do local, um retardado deficiente físico. Uma vez encurralados na igreja por uma multidão de mortos-vivos, o grupo vai aos poucos sendo dizimado violentamente enquanto lutam por sua sobrevivência, aguardando a chegada do amanhecer e a possível retirada dos templários.

Algumas cenas são bastante interessantes, destacando as sequências em que os templários tem seus olhos dolorosamente queimados por tochas ardentes em fogo; ou quando um homem tem sua mão e outro sua cabeça violentamente decepados em golpes precisos das espadas dos mortos-vivos; ou ainda na brutal chacina dos habitantes de Botsana, numa correria desenfreada com sangue e corpos caindo aos montes, vítimas dos templários vingadores.
Os efeitos especiais são extremamente precários, principalmente num momento em que o herói Jack arremessa sobras de fogos de artifício nos zumbis com o objetivo de derrotá-los. Alguns caem mostrando claramente tratarem-se de simples bonecos imóveis, num efeito exageradamente tosco. O roteiro tem erros grotescos de continuidade e diálogos tão infantis que nos incitam a torcer para o sucesso do plano de vingança dos templários. Porém, os figurinos dos mortos-vivos são bastante convincentes, dando a impressão sombria de esqueletos podres vestindo grandes capas surradas e desgastadas pelo tempo, auxiliados por uma fotografia propositadamente escura.
“O Retorno dos Mortos-Vivos” é o segundo filme de uma série de quatro dentro do mesmo universo ficcional, sendo precedido por “Tombs of the Blind Dead” (1971) e tendo outras duas sequências posteriores, “Horror of the Zombies” (1974) e “Night of the Death Cult” (1977), todos dirigidos por Amando De Ossorio e constituindo-se numa raridade do cinema fantástico envolvendo a sempre fascinante temática de “mortos-vivos”.

“O Retorno dos Mortos-Vivos” (The Return of the Evil Dead, 1973) – avaliação: 6 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com / blog: www.juvenatrix.blogspot.com (postado em 10/12/05)

O Retorno dos Mortos-Vivos (The Return of the Evil Dead / The Return of the Blind Dead, Espanha, 1973). Ancla Century / Atlas International. Duração: 83 minutos. Direção e roteiro de Amando De Ossorio. Produção de Raymond Planta. Fotografia de Michael Mila. Edição de Joseph Anthony. Maquiagem de Joe Louis Campos. Música de Tony Abril. Elenco: Tony Kendall, Fernando Sancho, Esther Roy, Frank Blake, Lone Flemming.

O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, 1974)



O filme que verão é baseado na tragédia que assolou um grupo de cinco jovens, especialmente Sally Hardesty e seu irmão inválido Franklin. Foi mais trágico devido ao fato de serem jovens. Mas, se eles tivessem vivido muito, muito longas vidas, jamais teriam esperado ou desejado ter visto a loucura e o macabro que viram naquele dia. Para eles, um passeio de carro num verão à tarde tornou-se um pesadelo. Os acontecimentos daquele dia guiaram o descobrimento de um dos mais bizarros crimes nos anais da história norte americana, O Massacre da Serra Elétrica”.

        Com essa introdução narrada por John Larroquette, alertando o espectador dos terríveis eventos que viriam a seguir, tem início um dos filmes mais insanos da história do cinema de horror. Não poderia ser melhor ou mais apropriada a definição de perturbador para “O Massacre da Serra Elétrica”, filme de baixo orçamento dirigido de forma independente em 16 mm por Tobe Hooper em 1974. Principalmente por evidenciar vários motivos esclarecedores para a escolha de tal adjetivo. Basta citar algumas cenas grotescas como um psicopata demente pendurar uma jovem viva e aterrorizada num gancho como se fosse um animal a ser abatido num matadouro; ou a violência crua do assassinato de um jovem através do golpe de uma pesada marreta em sua cabeça, com seu corpo se debatendo em horríveis espasmos do sistema nervoso, seguindo o mesmo método brutal com que se abate um boi ou porco; ou ainda o momento em que outro jovem paraplégico em uma cadeira de rodas é surpreendido pelo maníaco e retalhado através da ação devastadora, sangrenta e altamente dolorosa de uma moto-serra.

      É verdade que cenas como essas, ou muito piores ainda, foram exploradas à exaustão em uma infinidade de filmes produzidos posteriormente, tendo o auxílio do crescente desenvolvimento dos efeitos especiais que conseguiram simular situações muito próximas da realidade, obtendo-se verdadeiros espetáculos “splatter” de carnificinas. Porém, duas questões devem ser expostas e analisadas. Primeiro, é o fato de “O Massacre da Serra Elétrica” ter sido produzido no distante ano de 1974, numa época com menos violência no cinema (tanto que o filme chocou fortemente o público e sua exibição permaneceu proibida por vários anos em muitos países, inclusive o Brasil). Segundo, porque o verdadeiro horror é justamente aquele onde não há o exagero de se mostrar sangue e vísceras explicitamente, funcionando muito melhor em situações sugeridas, intensificando o medo no espectador. E o filme mostra uma violência grotesca sem no entanto apelar para a exibição de sangue em excesso, investindo mais na incrível insanidade de uma família depravada canibal, desprovida de humanidade.

        A história é sobre um grupo de cinco jovens, sendo dois casais formados por Sally Hardesty (Marilyn Burns) e seu namorado Jerry (Allen Danziger), e Pam (Teri McMinn) e Kirk (William Vail), além do irmão inválido de Sally, Franklin Hardesty (Paul A. Partain). Eles decidem fazer uma visita à antiga casa, agora abandonada, onde Sally e Franklin viveram a infância, numa pequena cidade do interior do Texas. E também eles queriam verificar no cemitério local se não havia violação do túmulo de seus ancestrais, pois haviam recebido notícias sobre saqueamentos e profanações das tumbas. Eles embarcam numa van e percorrem uma estrada onde dão carona a um misterioso homem, “Hitchhiker” (Edwin Neal), que mostra-se perigoso e imprevisível. Porém, o pior ainda estava por vir quando são surpreendidos e atacados por uma família sádica de necrófilos formada, além de “Hitchhiker” (Caronista), também por seus dois irmãos, “Old Man” (Jim Siedow), um gourmet lunático e “Leatherface” ou “Rosto de Couro” (Gunnar Hansen), um gigante deficiente mental que usa uma máscara formada por retalhos de pele humana retirados de suas vítimas. Eles ainda mantém vivo seu avô “Grandfather” (John Duggan), um velho meio zumbi e inofensivo, que é alimentado com sangue humano.

O diretor Tobe Hooper teve seu nome eternamente associado ao filme, que aliás, foi seu primeiro trabalho no gênero horror. Nascido em 1943 em Austin, Texas, sua carreira a partir de então foi marcada pela instabilidade, alternando entre filmes ótimos e interessantes e também medíocres e descartáveis. Seu nome é muito lembrado por dirigir o divertido “Poltergeist, o Fenômeno” em 1982, escrito e produzido pelo popular Steven Spielberg, e outros filmes importantes em sua filmografia de destaque são “Eaten Alive” (1976), “Salem’s Lot” (1979), “Pague Para Entrar, Reze Para Sair” (The Funhouse, 1981) e “Força Sinistra” (Lifeforce, 1985). E o mais incrível é que Hooper dirigiu “O Massacre da Serra Elétrica 2” em 1986 e conseguiu “destruir” toda a essência e atmosfera de um horror perturbador que ele próprio criou e que envolveu o filme de 1974, fazendo agora uma mistura de horror explícito, sangue em profusão e vísceras expostas, com elementos de comédia num resultado insatisfatório, onde prevalece apenas um bom trabalho com os efeitos especiais.

Com roteiro escrito pela dupla Tobe Hooper e Kim Henkel, “O Massacre da Serra Elétrica” teve inspiração no famoso “serial killer” Ed Gein para criar a família canibal e principalmente o psicopata demente “Leatherface”. Gein foi um assassino que aterrorizou a pequena cidade de Plainfield, Winsconsin, durante a década de 1950, matando várias pessoas brutalmente e utilizando suas peles e ossos para uma coleção particular de objetos bizarros. Outros filmes também utilizaram o caso do conhecido psicopata para compor parte de seus argumentos como o clássico “Psicose” (1960), dirigido pelo mestre do suspense Alfred Hitchcock, além de “Deranged” (1974), e o moderno “O Silêncio dos Inocentes” (1991), de Jonathan Demme e com Anthony Hopkins. Ainda teve outro filme baseado inteiramente na vida do assassino intitulado “Ed Gein”, lançado em 2001.

O elenco é formado por nomes desconhecidos e a maioria não teve continuidade notória em suas carreiras, acabando por ficarem eternizados no gênero por seus envolvimentos com o “O Massacre da Serra Elétrica”. O grandalhão ator Gunnar Hansen nasceu em Reykjavik, Islândia, em 1956, e ficou para sempre como o primeiro e original “Leatherface”. Marilyn Burns também nasceu em 1956, só que é americana de Cleveland, Ohio. Chamada por Hooper, participou também de “Eaten Alive” e da produção para a TV “Helter Skelter” (1976), baseado na vida do assassino Charles Manson. Ela teve também uma pequena ponta como uma homenagem em “O Retorno do Massacre da Serra Elétrica”, quarta parte da série, filmada em 1994. Curiosamente, tanto Marilyn Burns quanto seu colega de elenco Edwin Neal (que interpretou “Hitchhiker”) estiveram também juntos num filme obscuro lançado em 1985 chamado “Future-Kill”, dirigido por Ronald W. Moore, e cuja história mostra os confrontos mortais entre grupos rivais de rebeldes numa cidade futurista tomada pela anarquia.

Comparado com dezenas de outras boas produções realizadas posteriormente, o filme de Tobe Hooper realmente tem um ritmo mais lento, com menos ação e principalmente pouca exibição gratuita de “sangue”. Mas “O Massacre da Serra Elétrica” é o filme que introduziu no cinema o psicopata “Leatherface”, o qual está figurando agora na galeria dos imortais monstros modernos ao lado de Michael Myers (“Halloween”), Jason Voorhees (“Sexta-Feira 13”) e Freddy Krueger (“A Hora do Pesadelo”), e o filme inegavelmente possui cenas perturbadoras, de uma violência crua e brutal.

Vários são os destaques dessa preciosidade do cinema fantástico. A abertura com uma seqüência de flashes macabros destacando pedaços de cadáveres decompostos e profanados num cemitério. O desfecho com “Leatherface” furioso dançando como um verdadeiro maníaco, fazendo acrobacias com sua feroz moto-serra rasgando o ar em movimentos bruscos. E principalmente a perseguição insana onde “Leatherface” corre à noite numa floresta atrás da jovem Sally Hardesty com sua moto-serra zunindo e sedento para destroçar o corpo da mulher. A cena demora tanto tempo, em vários intermináveis minutos, que praticamente nos obriga a torcer para que ela seja logo capturada e termine assim a agonia e tortura no espectador de tanta correria e gritos alucinados de puro desespero. É totalmente compreensível que a personagem corra por sua vida e grite de forma selvagem, pois afinal ela está sendo perseguida por um demente que pretende esquartejar seu corpo e fazê-la sentir a terrível dor de uma serra cortando sua carne e músculos, jorrando seu sangue em profusão para todos os lados, numa morte torturante e coberta de um grau tão elevado de violência que torna-se difícil imaginar a intensidade da dor.

“O Massacre da Serra Elétrica” foi lançado em DVD no Brasil com preço popular e distribuição em banca de jornais, encartado na revista “DVD News” número 38 (Abril de 2003), da “Editora NBO”, e é interessante notar que a revista não fez nenhum comentário sobre o filme, sem publicar algum artigo ou qualquer citação mínima, mostrando um evidente descaso com o filme. O material extra do DVD inclui “cenas não aproveitadas”, “trailer de cinema”, “erros de filmagens”, “notas de produção”, “galerias de fotos”, “posters promocionais”, “sinopse” e “biografias do elenco”, porém tudo muito superficial e sem grandes atrativos.
Em vídeo VHS, o filme original foi lançado duas vezes no Brasil, a primeira pela “Europa Home Vídeo” e depois pela “Reserva Especial Vídeo”, e ambas as versões são raridades atualmente.

Passou-se doze anos e esse grande clássico do cinema de horror inevitavelmente deu origem a uma franquia composta por vários filmes descartáveis e desnecessários, imensamente inferiores ao precursor da série. Foram mais três continuações, “O Massacre da Serra Elétrica 2” (1986), também de Tobe Hooper, “Leatherface: O Massacre da Serra Elétrica 3” (1990), de Jeff Burr, e “O Retorno do Massacre da Serra Elétrica” (1994), de Kim Henkel, um dos roteiristas do filme original. Todos os três foram lançados em vídeo VHS no Brasil.

Em 1988 foi produzido um filme bizarro lançado aqui no Brasil em vídeo VHS pela “AB Vídeo” com o nome de “O Massacre da Serra Elétrica 3” (Hollywood Chainsaw Hookers), de Fred Olen Ray, com o ator que interpretou o “Leatherface” no original, Gunnar Hansen. Porém, o filme nada tem a ver com o clássico de Hooper e teve o título nacional escolhido de forma totalmente equivocada, confundindo os fãs brasileiros e demonstrando o péssimo tratamento que os filmes de horror recebem ao chegar no país, numa incompetência que incomoda.

E como os executivos da indústria de cinema americano, incluindo os roteiristas de plantão, estão com uma incrível escassez de ideias (ou melhor, uma vergonhosa falta de vontade de criação), no final de 2003 foi lançada nos Estados Unidos uma refilmagem do filme de 1974 (no Brasil, somente chegou aos nossos cinemas no final de Fevereiro de 2005, e que teve uma continuação lançada em 2006 diretamente no mercado de vídeo, sendo na verdade uma pré-seqüência, apresentando eventos anteriores, dirigida por Jonathan Liebesman). A nova versão de “O Massacre da Serra Elétrica” tem direção de Marcus Nispel, roteiro de Scott Kosar e traz no elenco a bela Jessica Biel como a mocinha que grita histericamente, e Andrew Bryniarski no papel do psicopata “Leatherface” (cujo personagem, depois de Gunnar Hansen, passou a ser maltratado por Bill Johnson, R. A. Mihailoff e Robert Jacks nos filmes seguintes).

Depois, em 2013, ainda veio mais um filme, dessa vez aproveitando a popularidade das exibições em 3D, “O Massacre da Serra Elétrica 3D – A Lenda Continua” (Texas Chainsaw 3D), com a história se iniciando com uma continuação exata de onde termina o clássico dos anos 70. Após a família canibal de “Leatherface” ser dizimada num incêndio criminoso, as ações passam para muitos anos à frente onde uma garota, Heather Miller (Alexandra Daddario), recebe uma notificação informando que herdou uma casa numa região rural no Texas. Ela parte então para lá acompanhada de alguns amigos, não imaginando os horrores que a aguardavam obrigando-a a lutar pela vida. Tem sangue e cenas violentas, mas, é só isso, pois o roteiro é ruim e cheio de falhas, não conseguindo estabelecer aquele clima sombrio tão evidente no filme original.

                A franquia em torno de “O Massacre da Serra Elétrica” ainda inclui um vídeo game lançado em 1983 e dois documentários produzidos diretamente para o vídeo. “The Texas Chainsaw Massacre: A Family Portrait” (1988) foi dirigido e escrito por Brad Shellady, trazendo depoimentos dos atores do filme original, entre eles Gunnar Hansen, Edwin Neal, John Duggan e Jim Siedow, além da presença do famoso colecionador Forrest J. Ackerman, editor da revista “Famous Monsters of Filmland”. E o documentário inglês com cenas de bastidores “The Texas Chainsaw Massacre: The Shocking Truth” (2000), com direção e roteiro de David Gregory, narração de Matthew Bell e com a participação de vários nomes envolvidos com os filmes como Tobe Hooper, Kim Henkel, Marilyn Burns, Gunnar Hansen, Paul A. Partain e Edwin Neal.

Algumas informações interessantes e que servem como curiosidade em torno de “O Massacre da Serra Elétrica” são por exemplo o valor do orçamento do filme ser de apenas US$ 140 mil (e atualmente essa cifra é inexpressiva, com os valores girando em torno de dezenas de milhões de dólares). O mais incrível é ainda o faturamento obtido nas bilheterias, algo como US$ 40 milhões, ou seja, quase trezentas vezes o valor investido, comprovando seu inegável sucesso e alta lucratividade. As filmagens ocorreram em “Austin”, uma pequena cidade do Texas onde nasceu o diretor Tobe Hooper. A atriz Marilyn Burns foi uma das primeiras e mais autênticas “scream queen” do cinema, gritando histericamente a maior parte do tempo, fugindo da lâmina cortante de uma moto-serra. O cineasta Hooper foi muito convincente ao filmar as expressões faciais do mais puro horror da personagem Sally, focalizando um perturbador enquadramento de seus olhos desesperados e de sua boca escancarada gritando por socorro. Esse recurso foi muito utilizado em vários filmes seguintes, sempre obtendo bons resultados. O psicopata “Leatherface” aparece pela primeira vez no filme apenas após 35 minutos, e imediatamente ele coloca sua marreta e moto-serra em ação, protagonizando um tormento que seguiria até o fim do filme. Imaginem se ele aparece desde o início... No primeiro filme da franquia ele é claramente um retardado mental, que parece agir por impulso e descontrole matando sem plena consciência do que está fazendo, quase como uma vítima do próprio ambiente depravado em que vive. Porém, nos filmes seguintes o psicopata mudou suas características tornando-se um “serial killer” consciente e que planeja suas ações assassinas. O personagem “Old Man” da família canibal, recebeu o nome de “Cook” (Cozinheiro) na continuação de 1986, e foi interpretado pelo mesmo ator Jim Siedow nos dois filmes. Aliás, nessa mesma sequência a família de insanos recebeu mais um membro, “Chop Top” (Bill Moseley), o irmão gêmeo de “Hitchhiker” que estava num sanatório, e os efeitos de maquiagem ficaram a cargo do especialista Tom Savini, largamente conhecido por seus trabalhos em filmes como “Sexta-Feira 13” (1980) e “Dia dos Mortos” (1985).

Um último detalhe que merece registro é um grande equívoco cometido pelos responsáveis em nomear os filmes que chegam ao Brasil. O correto e ideal seria traduzir o original para algo como “O Massacre da Moto-Serra no Texas”, pois o instrumento utilizado por “Leatherface” para retalhar suas vítimas parece ser uma moto-serra movida por combustível líquido e não elétrica como sugere o título nacional escolhido. E curiosamente o nome original estava previsto para ser “Leatherface” ou “Headcheese”, e somente perto do lançamento do filme é que foi escolhido o título definitivo de “The Texas Chainsaw Massacre”. Quando eu assisti pela primeira vez em 1987, através daquelas chamadas fitas de vídeo “alternativas” que infestavam as locadoras ainda carentes de lançamentos oficiais no mercado brasileiro, o nome que foi dado ao filme foi “Chacina e Massacre no Texas”.

Enfim, um filme indispensável que costuma freqüentar qualquer lista de “TOP 10” promovida por especialistas e fãs do cinema de horror, e certamente o filme se destaca na minha lista pessoal de preferências.


O Massacre da Serra Elétrica” (The Texas Chainsaw Massacre, 1974)
avaliação: 10 (de 0 a 10) / (postado em 23/12/05)

O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, Estados Unidos, 1974). Vortex. Duração: 82 minutos. Direção de Tobe Hooper. Roteiro de Kin Henkel e Tobe Hooper. Produção de Kim Henkel, Tobe Hooper, Jay Parsley, Lou Peraino e Richard Saenz. Fotografia de Daniel Pearl. Música de Wayne Bell e Tobe Hooper. Direção de Arte de Robert A. Burns. Edição de Larry Carroll e Sallye Richardson. Elenco: Marilyn Burns (Sally Hardesty), Allen Danziger (Jerry), Paul A. Partain (Franklin Hardesty), William Vail (Kirk), Teri McMinn (Pam), Edwin Neal (Hitchhicker), Jim Siedow (Old Man), Gunnar Hansen (Leatherface), John Duggan (Grandfather), Robert Courtin, William Creamer, John Henry Faulk, Jerry Green, Ed Guinn, Joe Bill Hogan, Perry Lorenz, John Larroquette (narrador da introdução).

Link para resenha do livro "O Massacre da Serra Elétrica - Arquivos Sangrentos" (2003), de Stefan Jaworzyn:
http://infernoticias.blogspot.com.br/2017/09/resenha-do-livro-o-massacre-da-serra.html